Bússola do Muito Mar

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Número de Ondas

terça-feira, 30 de março de 2010

A Montanha Mágica


De que vale ler? – perguntou-me piedosamente a minha mãe, certo serão, no natal.
Eu sorri, em resposta. O que queria dizer, com esse sorriso, é o que a seguir vos direi.
Li, pela primeira vez, “A Montanha Mágica”, de Thomas Mann, entre 24 de Dezembro de 2009 e o primeiro dia de 2010. Aconteceu-me algo tão grande como ir de súbito à lua ou encontrar Jesus num entardecer em Mira. Como uma droga, o livro entrou por mim dentro e obrigou-me a adiar sono, refeições, sociedade.
O mesmo me sucedera, por exemplo, com “Memórias de Adriano” de Yourcenar, “Cem Anos de Solidão” ou “Amor em Tempos de Cólera” de G. G. Márquez, “O Inverno do Nosso Descontentamento” de Steinbeck, “O Barão Trepador” de Italo Calvino, “Aparição” ou “Em Nome da Terra” de Vergílio Ferreira, “Vindima” de Torga, “A Lã e a Neve” de Ferreira de Castro, “Esteiros” de Soeiro Pereira Gomes…
Com “A Montanha Mágica”, a minha vida acrescentou-se muito de humanidade (nomes, gente, opiniões, comédias e dramas, mistérios, medos, presenças, desaparecimentos, rotinas e surpresas). Estive, durante os sete anos da acção, na Suíça: soube, a cada dia, tudo dos almoços e jantares dos tuberculosos residentes, das consultas, das radiografias, dos exercícios terapêuticos, dos diagnósticos, dos passeios, das variações de temperatura, dos falecimentos, da morredoira esperança, das notícias da planície, das festas, das despedidas.
O livro é imenso (cerca de 800 páginas). Mas cabe neste cartapácio uma coisa maior do que mil páginas que fossem: a Vida. Não apenas a vida de Hans Castorp, Joachim e companheiros. A vida que, vistos por fora e por dentro, os homens e mulheres são. A vida que, vistos por fora e por dentro, os homens e as mulheres somos.
A personagem principal sai do sanatório, ao fim de sete anos, e vai combater na Primeira Grande Guerra. Já eu não saí dali nunca mais. Ou melhor, a montanha mágica nunca mais saiu de mim.
Mãe, vale a pena ler.


Ribeira de Pena, 30 de Março de 2010.
Joaquim Jorge Carvalho
[Nota 1: Bela prenda foi esta que a M.P. e a V.L. me deram. Viva o Natal! Nota 2: A minha “Montanha” é uma edição da Dom Quixote, Lisboa, 2009. Nota 3: Não sei falar alemão. Mas, sobre a tradução de Gilda Lopes Encarnação, tenho a dizer que nunca tropecei em incomodidades semântico-lexicais ou incongruências sintácticas. Creio que isso é um (bom) sinal da qualidade da tradutora.]

segunda-feira, 29 de março de 2010

Para Que Conste


Não admito vida depois de mim!
Protesto contra todas as flores nascentes,
Todos os amores embrionários e vários,
Todas as possibilidades futuras de Mar!

Sou poeta, ó Director dos séculos!
Culpa tua ou do Outro, sou este –
Não caibo no pó da morte, pá!
(Tem paciência.)


Vila Real, 29 de Março de 2010.
Joaquim Jorge Carvalho
[Este poema é uma versão actualizada de um texto originalmente escrito no dia 25 de Janeiro de 2007. Foto JJC.]

1918-2010


Vi hoje, em Vila Real, uma bela exposição sobre a participação militar dos portugueses na Primeira Grande Guerra. Trata-se de uma estimável iniciativa do Exército Português, que permite, pela via mágica da fotografia, uma viagem ao início do século XX e, com distância burguesa, reflectir sobre aspectos técnicos e humanos à roda de tão imensa realidade histórica.
Impressionou-me, como sempre me acontece com fotos antigas de gente antiga, a imagem de olhos carregados de vida e, então, de futuro. Vi os olhos cheios de mocidade que há naqueles soldadinhos de papel hoje certamente mortos. Vi uma francesa flirtando com um português de farto bigode, na ressaca gloriosa do armistício – enquanto, em segundo plano, um qualquer (outro) soldado, de sorriso trocista, tirava as medidas à fêmea estrangeira. Vi um soldado embarcando para a guerra e a olhar para trás, à procura talvez do último gemido da mãe ou da noiva que ficará por casar. Vi uma velhinha, em terras de França, de olhos perdidos na paisagem da guerra, incompreendendo a casa destruída e o adivinhável ruído dos canhões à volta. Vi um provável graduado afeitando a barba, com cuidados de fidalgo antigo. Vi um soldadinho raso com ar de camponês bragançano a ditar, para um camarada alfabetizado, uma carta que esperaria encontrar a família de boa saúde (pois que ele, graças a Deus, ainda estava vivo).
Visitei a exposição no dia mesmo em que, em Moscovo, duas mulheres se fizeram explodir, numa estação de metro, matando cerca de quarenta inocentes que ali estavam à hora terrorista.
Vivemos, ai de nós, tempos perigosos. Não há novidade nenhuma nisto de alguns lobos, saídos da variegada alcateia que somos, assassinarem semelhantes cobardemente. Mas outrora, nessa anterioridade técnica e tecnológica dos séculos passados, havia um resquício de nobreza presidindo aos conflitos: na trincheira A, estava um partido; na trincheira B, estava o outro. De um lado, um exército; do outro, o inimigo.
Hoje, mata-se de modo traiçoeiro e cego. Deve haver, entre as vítimas moscovitas, um operário dos subúrbios que não sabia nada de religião ou geoestratégia e que fazia planos para ver na televisão, com amigos e vodka, o CSKA contra o Inter. A sua morte é uma estupidez. Morremos nós próprios, com ele, vítimas (como ele) da estupidez.


Vila Real, 29 de Março de 2010.
Joaquim Jorge Carvalho
[A foto-supra (ingleses e portugueses, feitos prisioneiros em La Lys - região da Flandres - pelos alemães em 1918) foi colhida na Wikipédia.]

domingo, 28 de março de 2010

Mille Temps


Às vezes, julgo que vivi há muito tempo -
Que fui Sá de Miranda
Ou Veloso (o dos outeiros, de Camões).
Outras vezes, julgo que sou do futuro -
O cientista que anuncia o meteorito final
Ou o da cura da mortalidade.
A maior parte das vezes sou só este presente
(Modesto, medíocre)
Tão bondoso e grato quando há sol.


Ribeira de Pena, 28 de Março de 2010.
Joaquim Jorge Carvalho
[Foto JJC]

País de Cartoon


Era para escrever uma crónica sobre os sacrifícios a que os governos de todas as cores habitualmente condenam a chamada classe média.
Um cartoonista do “Correio da Manhã” antecipou-se e eu, que tantas vezes acho que uma palavra vale mil imagens, rendo-me ao desenho e calo-me.
Aliás, não bem assim: ainda me falta desabafar uma novidade que soube hoje, em vários diários do país. É sobre aquele senhor licenciado chamado Armando Vara, que começou no PS como voluntário e chegou a administrador da Caixa e do BCP. Parece que ganha por ano qualquer coisa como 520 mil euros. Ah, valente!
Sobre gestores públicos e prémios já falei, há dias. Mantenho a azia, poupo-vos à repetição do meu desencanto democrático.
Mas deve haver homens no partido da rosa que coram por dentro, decerto incomodados com o que vamos lendo-sabendo, não é? Eu, pelo menos, incomodar-me-ia (se ainda lá estivesse).


Ribeira de Pena, já 28 de Março de 2010
Joaquim Jorge Carvalho
[O cartoon-supra é da autoria de António Maia e foi colhido - com a devida vénia - no CM (suplemento “Primeiro Emprego”, página 2), edição de 26-03-2010.]

Sonho & Chão


Os meus sonhos são cavalos teimosos,
Querido anoitecer.

As sombras e o medo em toda minha noite
São também chão deste galope doido
A arder.

Os meus cavalos são o contrário da sombra,
Anoitecido querer.



Ribeira de Pena, 27 de Março de 2010
Joaquim Jorge Carvalho
[Este poema é a versão actualizada de um texto escrito originalmente no dia 25 de Janeiro de 1997. Foto JJC.]

sábado, 27 de março de 2010

Velório & Seiva


Passam duas jovens pela manhã
Desaparecendo meus olhos adentro, sorrindo
Com a excessiva seiva dos vinte anos, meus olhos
Adentro, ali em frente à igreja de Nossa Senhora
(sorrindo com aquela seiva provocatória) de Lurdes
Na António José de Almeida (meus olhos adentro)
Com a seiva hiperbólica das rosas frescas.

Velava a velha professora a essa hora
O esposo, já não velho, morto (qualquer coisa
Carvalho) e as duas jovens ignorando a morte
Sorriam meus olhos adentro com aquela seiva.

Eu era o homem no carro esperando a minha mãe
(Coitada da senhora, disse, está um farrapo), fora
Da capela, entre a tristeza católica e a manhã silvestre
Cruzando a rua meus olhos adentro.


Ribeira de Pena, já 27 de Março de 2010.
Joaquim Jorge Carvalho
[Este poema é a versão actualizada de um texto escrito originalmente no dia 31 de Janeiro de 1996.]

quinta-feira, 25 de março de 2010

Semântica de Olhos


Olhos belamente subindo à condição da água
Olhos como pontes
Olhos como nascentes
Olhos de atacar e de visitar
Olhos de estar dentro de outros olhos
Olhos de eloquência ou de hesitação
Olhos de coisa olhada
Olhos de estrangeiro ou de vizinhança
Olhos de nuvem por baixo da terra
Olhos de ver mundos que não há
Olhos de agora
Olhos de esperar
Olhos de desesperar
Olhos de nunca mais
Olhos de olhar
Olhos
(quase nunca)
de ver.


Ribeira de Pena, 25 de Março de 2010.
Joaquim Jorge Carvalho
[Este texto é uma versão - actualizada - de um poema de 27-12-1997. A imagem-supra faz parte do filme de Jean-Jacques Beineix, “A Lua na Sarjeta” (1983), com Nastassja Kinski.]

A DEPRESSÃO DAS LARANJAS (5 - Parte VII)


As Palavras (Parte VII)

Nessa noite, tremendo de paixão ante a poderosa deusa de carne que dançava, Priapyo murmurou a frase mais alta, mais profunda, mais quente e mais sábia alguma vez escrita. Hodju sentiu, pela primeira vez na sua vida, que alguma força se sobrepunha ao poder da própria magia. Com um mecânico estalar dos dedos, suspendeu o ataque do amantíssimo bandido; escreveu apressadamente as divinas (ou diabólicas?) palavras na folha de carvalho, acrescentando um rápido adeus para Margo (“Adeus, minha querida. Até sempre!”). Logo a seguir, reacendeu o sonho de Priapyo, que era já o seu também.
Nunca mais se ouviu falar de Hodju, desde essa altura. Nem mais se viu o dono do castelo negro, criatura que (diz-se) vagueia pelos corredores nocturnos do palácio, à procura de algo que ninguém sabe bem o que é.
Delfim chorou ao ler a última missiva do mágico. Envolveu no seu choro a neta do velho, explicando-lhe com gestos gagos a tristeza das notícias. As lágrimas da moça fizeram-na mais linda do que nunca; e seu arfar realçou a curva citrina do peito; e seu desespero despenteou formosamente os sensuais cabelos. De modo que o príncipe, naquele instante, se descobriu enamorado de Margo – e a ela dedicou, num jorro essencial, pouco gaguejando, todas as frases guardadas, olhando-a muito nos olhos de ave.
Deram-se as mãos, ao fim de um só segundo (ainda se ouvia o eco da última palavra que Hodju encontrara e o perdera). Pareceu ao príncipe que a escolhida esposa o compreendera, apesar da surdez. E assim era, de facto: é da natureza do amor que as mais belas palavras sejam ditas pelos olhos. E que o silêncio, então, signifique tudo.

Ribeira de Pena, já 23 de Março de 2010.
Joaquim Jorge Carvalho
[Trata-se do 7.º e último excerto do 5.º texto de “A Depressão das Laranjas” (Ribeira de Pena, Ed. Casa de Santa Marinha, 1999). A imagem-supra é o cartaz do filme "Shadowlands" (1993), de Richard Attenborough, com Anthony Hopkins e Debra Winger nos principais papéis. O título em português é “Dois Estranhos, Um Destino”.]

quarta-feira, 24 de março de 2010

Rua Perdida


Rua Perdida

Meu pai, não há já a nossa rua
E tudo o que outrora foi, morreu
Sob os aniversários e as fadigas
Dos dias diferentes, repetidos.

Pai, não há a nossa rua
E perdi a lição das cigarras felizes
Na caminhada triste das coisas
Sem nada dentro.

Pai, eu era feliz quando acreditava
Ser feliz.
Quando havia tempo a haver à volta
De mim e de ti, pai indiscutível -

E cigarra, ó cantador optimista,
Ó brinquedo com alma e filhos,
Ó unionista do futebol e dos copos
(Cheio de luz nos berros e nos gestos)!

Não há, pai, agora a nossa rua.
Não há árvores estorvando os carros.
Não há ruídos excessivamente vivos.
Não há poços perigosos no quintal.

A nossa rua é uma inexistência
E o que há dela (se há) é só
O que te digo sobre a rua morta
E sobre o tê-la visto e tido em mim.

A rua de eu estar menino é esta sombra,
Pai, o vulto escondido na lembrança
E a memória do sangue nos meus passos
Morrendo agora por não haver bem um caminho.

É a rua mais triste a nossa rua morta
E o fim da rua foi decerto há muito tempo
Decerto antes do cansaço e do meu futuro
Devindo este agora pequenino.

Ainda me arde nos olhos a rua antiga
(A ideia dela sob e sobre nós)
A rua à tua volta, ébria e santa
Cheia de graça.

Pai que tiravas o pecado ao mundo
E vestias de riso o excesso de seres
(Tudo sem remorsos nem pausas)!
Pai amando-me apesar de tudo!

Pai mentiroso sobre eu ser feliz
(O melhor da rua sem nenhuma dúvida),
Sabias tu já da bruta narrativa -
A rua inexistir-me subitamente?

O melhor da rua, pai?
O melhor, pai, de nada?
Ai, que pena este amor em mim por ela!
Que pena não existir a minha amada!


Ribeira de Pena, 24 de Março de 2010.
Joaquim Jorge Carvalho
[A 1.ª versão deste poema data de 22 de Janeiro de 1997. A imagem-supra foi colhida – com a devida vénia – em http://www.coimbraantiga.blogspot.com.]

A DEPRESSÃO DAS LARANJAS (5 - Parte VI)


As Palavras (Parte VI)

Por um completo ano estendeu esta aventura, sendo cada vez mais difícil, a Hodju, resistir à beleza fatal das palavras que Priapyo lhe ia dedicando. Por um completo ano se estendeu esse caminho de ida e volta, a cavalo ou a pé, de Margo aos aposentos do príncipe (uma discreta estalagem onde discretamente Delfim se mantinha, sempre impaciente). Por um completo ano, as concubinas do ladrão de palavras deixaram de o servir, por manifesta ausência de vontade do macho, que acordava tarde e ansiava, a cada instante, pela chegada da noite.
Um dia, ao fundo do texto recuperado e transcrito, por Hodju, na folha de carvalho costumeira, acrescia uma nota: “Amanhã recuperarei a última frase. Não sei se conseguirei resistir. Honrai o acordo que fizemos.”
Preocupado com tais linhas, o príncipe quis interromper o perigo e, através da doce Margo, fez chegar ao mágico um pedaço de papiro: “As frases que temos são já suficientes. Chega. Volte para sua casa.”
Mas Hodju estava apaixonado pela boca do homem que, todas as noites, o tentava com as mais belas palavras. Desse encantamento resultava que cada vez menos se reconhecia o ancião que era, e cada vez mais se assumia como a mulher que magicamente se fingia oferecer.
[Continua.]


Ribeira de Pena, 24 de Março de 2010.
Joaquim Jorge Carvalho
[Trata-se do 6.º e penúltimo excerto do 5.º texto de “A Depressão das Laranjas” (Ribeira de Pena, Ed. Casa de Santa Marinha, 1999). A imagem-supra é do filme “O Fabuloso Destino de Amélie” (2001), de Jean-Pierre Jeunet.]

terça-feira, 23 de março de 2010

Estatuto do Poeta (fragmento)


O Poeta deve, acima de tudo, ser possuidor de uma dor verdadeira.
Não sendo possuidor de uma dor verdadeira, deve inventá-la.
Não sendo capaz de inventá-la, deve desistir de ser Poeta.

Ora isso
(Desistir de ser Poeta por incapacidade de sentir
Ou de inventar uma dor verdadeira)
Dói sempre
(Dói, verdadeiramente dói)
A um Poeta.


Coimbra, 23 de Março de 2010.
Joaquim Jorge Carvalho

A DEPRESSÃO DAS LARANJAS (5 - Parte V)


As Palavras (Parte V)

O velho mágico instruiu a neta no sentido de ali esperar, todas as noites, por novas suas. Pelas imediações da casa, recolheu plantas, frutos, alguma terra; releu antigos manuscritos e ensaiou rezas estranhas; finalmente, visitou o campo onde a mulher e o filho jaziam, enterrados entre malmequeres e couves. Partiu, enfim, após rápido beijo na silenciosa Margo.
Já em Myra, no teritório do terrível Priapyo, arranjou modo de entrar no “Palácio Negro”, assim baptizado pelo medo popular. Ao segundo dia, estava como cozinheiro contratado, então começando a aproveitar a matéria-prima trazida. As ervas, os caldos, os frutos misturados com terra, as rezas – tudo impressionava o pessoal de serviço ao palácio (entre ajudantes, mestres culinários, soldados e simples curiosos). E a verdade é que Priapyo gabava já, em público, esse cozinheiro misterioso, tão em boa hora caído na sua propriedade e ao seu soldo. O mesmo aliás faziam, em uníssono, as oito concubinas que preguiçavam, seminuas, à sua volta, ou os raros nobres que com o poderoso senhor privavam.
À quarta noite, o jantar pareceu provocar um violento sono em Priapyo. Com voz melosa, quase ininteligível, ordenou que os convidados se retirassem e que as mulheres o despissem e deitassem. Assim fizeram as belas escravas (e entre elas talvez a mãe de Margo), inexplicavelmente excitadas na ocasião, após o que saíram e, querendo, se entregaram aos criados, não cuidando de medos ou de decoro, razão pela qual o trovador de serviço chamou “rio torrencial de amores” a essa madrugada.
O patrão do palácio sonhou, nessa noite, com a mais bela mulher jamais vista no mundo: de olhos muito abertos, olhava para o mágico Hodju e louvava-lhe os loiros cabelos, os seios leves, os lábios rebentando de sumo. Quando Hodju se desvestiu do seu manto, Priapyo sentiu-se desfalecer, pois era a nudez inteira e irresistível de Tétis que ali fitava.
Então, o volúvel guerreiro de Myra, sonambulando pelo quarto, pegou numa das chaves que lhe pendiam do colar e com ela se dirigiu a certo cofre de prata. Hodju, nesse entretanto, deitou-se na cama do bandido. Ao regressar, Priapyo fez menção de se atirar sobre a presa, mas um único olhar de recusa, ou adiamento, gelou-o.
Disse então a essa mulher, que só os seus olhos viam, uma frase tão bonita, tão rica de palavras com música dentro, que ao pobre mágico, esquecido da sua pessoa verdadeira e da sua missão real, apeteceu o amor do homem encantado.
Ficou isto a Hodju de primeira lição, sobre o (consabido) perigo que as palavras encerram. Com um estalido de dedos, fez regressar ao mudo sono o senhor do castelo, copiou de memória a poderosa frase ouvida e, extenuado, saiu do palácio, pelas cinco horas da madrugada, ao encontro da neta.

[Continua.]


Coimbra, 23 de Março de 2010.
Joaquim Jorge Carvalho
[Trata-se do 5.º excerto do 5.º texto de “A Depressão das Laranjas” (Ribeira de Pena, Ed. Casa de Santa Marinha, 1999). A imagem-supra é “Corpo de mulher nua sentada sobre uma nuvem”, de Salvador Dalí.]

segunda-feira, 22 de março de 2010

Variações Sobre Um Cristo de Vergílio Ferreira


Houve aquele silêncio, aquela solidão anoitecendo o Gólgota; rumorejaram ervas ao redor das cruzes e o homem a quem chamavam o eleito recomeçou a acreditar na morte.
Disse Pai, Pai, por que me abandonaste, Por que me abandonaste, Por que me abandonaste, e no vento se perdia a pergunta misturada com algum eco: Pai?
Um vulto veio então, um vulto que de certo modo não vem na Bíblia, um anónimo vulto com cinquenta anos, barba como tempo branco suspenso do rosto, um vulto velho dito o José Só, que outrora desposara Maria, dita a Mãe pela vizinhança das cruzes.
Ouvia-se sempre: Pai por que me abandonaste?
Um vulto, pois, subiu ao Gólgota, e ali chegou à hora mesma do choro infante do homem na cruz.
O que ali se ouvia era, como já se disse, uma pergunta repetida até ao sangue: Pai, Pai, por que me abandonaste?
E o vulto, que era José, dito o Só, carregado de tempo e com óculos de lágrimas entre si e a paisagem de montes e cruzes, ouvindo a pergunta (Pai, por que me abandonaste, Pai?), gritou: Não te abandonei, filho, nunca eu te abandonei. Estou aqui, soube agora da tua desgraça, da injusta mortalidade a que te reduziram a terra e, afinal, também o céu. Eu não te abandonei, filho.
Mas o homem na cruz não o ouviu, não o quis ouvir. Fechou portas e janelas e varandas de ouvir, e repetiu: Pai, por que me abandonaste?
E José, dito o Só, percebeu que era para cima, o céu, que o homem na cruz falava, cansado já de perguntar e de olhar para cima: Pai?
Aquele vulto velho vindo de há muito longe desceu, então, lentamente o Gólgota. Lentamente regressou ao seu lugar de viver, feito de chão e humanidade imperfeita. Lentamente regressou àquele seu celibato triste do novo nome: Só.
Só como sombra inútil de personagens sagradas.
Quase a medo, murmurou (pecando): Filho, Filho, por que me abandonaste?


Coimbra, já 22 de Março de 2010.
Joaquim Jorge Carvalho
[A pintura-supra, “S. José com o Menino Jesus”, é do italiano Guido Reni (1575-1642) e foi colhida na Wikipédia.]

A DEPRESSÃO DAS LARANJAS (5 - Parte IV)


As Palavras (Parte IV)

Feitas as apresentações, explicou o príncipe o motivo da visita e, curvando-se retoricamente perante o ancião, pediu-lhe auxílio. O velho não queria sair dali por muitas razões; a maior de todas era Margo, a neta. Tratava-se da única filha de seu filho Cretz, morto há muitos anos por assaltantes de vindos de Myra.
- E a mãe? – quis saber Delfim.
- Eu estava, então, a cinquenta quilómetros de casa. Segundo pude perceber pelos gestos da menina a sua mãe foi com o chefe dos assaltantes.
- Rap, rap, raptada? – perguntou o príncipe.
- Não – respondeu o velho.
- Por li, li, livre vontade? – espantou-se o príncipe.
O velho sorriu, com óbvio ódio:
- Sim, por vontade própria, mas não exactamente livre. Por paixão! Algo nele a encantou perdidamente: talvez palavras…
Delfim agitou-se:
- E sa, sa, sabes quem era esse ho, ho, homem?
- Julgo saber. Priapyo…
O príncipe não conseguiu impedir-se um grito. Explicou, de novo, a sua própria tragédia, comungou da raiva do velho – e acabou por propor-lhe um acordo de almas: ajudaria de bom grado à subsistência da neta, agora e depois da morte, um dia, do mágico. Assim este oferecesse os seus serviços ao reino de Grodjia.
O velho reflectiu por instantes. Após o que aceitou, dizendo:
- Notai que a empresa é difícil e requer paciência e cuidado, pois o inimigo é poderoso. As palavras preciosas serão, se tudo correr bem, recuperadas pouco a pouco. À medida que eu as souber, escrevê-las-ei numa casca de carvalho e enviá-las-ei por minha neta. Ela ficará aqui a viver durante o tempo necessário. Vós, por conveniência, devereis alojar-vos em estalagem próxima. E prometei-me que, em caso de morte minha, a tratareis como a mais preciosa das criaturas.
- Descansa. Assim será, sob mi, mi, minha palavra de, de, de honra – garantiu o príncipe. E acrescentou: - Mas tu não hás-de mo, mo, morrer.
- Não estou certo disso. Como já percebeste, para obrigar Priapyo a gastar as palavras que roubou, vou seduzi-lo. Em vez do meu corpo de homem velho, o vil verá a donzela mais formosa que algum dia pudera conhecer. Certamente usará algumas das palavras preciosas de modo a tentar conquistar-me. O problema está em que, com as palavras, o feitiço pode voltar-se contra o feiticeiro.
- Co, co, como?
- Posso não resistir aos encantos das palavras e deixar-me possuir pelo homem que as diz. Nesse caso, por razões do feitiço e da vergonha, morrerei imediatamente.
[Continua.]

Coimbra, já 22 de Março de 2010.
Joaquim Jorge Carvalho
[Trata-se do 4.º excerto do 5.º texto de “A Depressão das Laranjas” (Ribeira de Pena, Ed. Casa de Santa Marinha, 1999). A pintura-supra, “The Alchimist”, é do inglês Joseph Wright (1734-1797) e foi colhida na Wikipédia.]

domingo, 21 de março de 2010

A Minha Mão na Mão deste Senhor


Gosto de quem não tem medo de dizer a verdade.
A Igreja (e, em particular a Igreja portuguesa) nem sempre ousa afrontar os poderosos seculares com que, enquanto instituição, tem de conviver. A regra histórica talvez seja, até, a tácita cumplicidade com os venais governos de todos os tempos.
Por isso mesmo as excepções se tornam um reconfortante afago para a alma dos pessimistas.
Lembro-me, aquando da apressada invasão do Iraque, desse incómodo silêncio com que Bush, Blair, Aznar e Durão Barroso receberam a reprovação papal. Um rato dos comentários televisivos, cínico e pressuroso, recordou logo certa máxima antiga que separa a autoridade de César da autoridade de Deus.
Agora, quando finalmente Manuel Alegre e outros sublinham o escândalo que constituem os “prémios” (?) dos gestores públicos (prémios que Suas Excelências se auto-atribuem sem remorso nem vergonha), leio com prazer a opinião do senhor padre Borga sobre a actual situação económica: “[O] que é injusto é que, mais uma vez, é o inocente que vai pagar pelo pecador. E há coisas que não entendo: se há um salário mínimo, também devia haver um salário máximo.”
Ah, leão!
Eu ponho a mão na mão do senhor Borga e vou com ele a esta Galileia (da justiça) que vale a pena.

Coimbra, já 21 de Março de 2010.
Joaquim Jorge Carvalho
[O recorte-supra foi colhido, com a devida vénia, no CM, edição de 20-03-2010, p. 17.]

Deco (Recapitulando)


Leio, no “Correio da Manhã” de sábado, 20 de Março, que Deco, com franqueza admirável, recusa assumir-se como “português”: “Amo Portugal por tudo aquilo que me deram, mas seria incapaz de dizer que sou português, porque não sou.”
Recapitulando: Deco não é português, não se reconhece como português, não quer ser português. Mas em breve, no Campeonato Mundial de Futebol (na África do Sul), o jogador deverá alinhar por Portugal.
É impressão minha ou algo está errado nesta história?
Dizem-me que, embora eticamente discutível (?), a situação é legal. De tal resultando, depreendo eu, que os senhores responsáveis (Madaíl, Queirós) mandaram a ética ir chatear outro.
Como diria Vasco Santana, “entendi-te”…


Coimbra, já 21 de Março de 2010.
Joaquim Jorge Carvalho
[O recorte-supra foi colhido, com a devida vénia, no CM, edição de 20-03-2010, p. 37.]

A DEPRESSÃO DAS LARANJAS (5 - Parte IV)


As Palavras (Parte IV)

O velho mágico foi fácil de encontrar, não obstante os rigores da viagem e o eterno mau humor do príncipe. Vivia num casinhoto muito humilde, no interior do reino de Tofzo. À porta daquela morada (indicada, em murmúrio, por uma mendiga velha e corcunda), havia uma rapariga de corpo bem feito, tranquilamente estendendo roupa ao sol, quase de costas para quem chegava.
- Boa tarde – disse Delfim.
A moça não respondeu.
- Bo, boa tarde – tornou o príncipe, já impaciente, quase gritando.
A moça não respondeu.
Determinado, um dos guardas caminhou para a jovem e fê-la voltar-se, com rispidez militar. A rapariga pareceu assustar-se bastante.
- Costumas igno, igno, ignorar quem te, te, te cumprimenta? – perguntou Delfim.
A moça, muito linda e formosa, quase sorriu, mas voltou a não responder.
- Largai a menina, canalhas! – gritou um velho de longas barbas brancas, que se arrastara das traseiras da casa, apoiando-se num bastão escuro. Tinha, como a moça, os olhos claros, vivos, saltitantes: aves brincando com as estrelas. Trovejou ainda:
- A pobrezinha é surda-muda.
O príncipe desceu do cavalo e, com um único gesto, suspendeu a agressividade remanescente da guarda-real. Fez uma generosa vénia ao velho e perguntou-lhe:
-És tu o fa, fa, famoso Hodju?
O velho fitou o nobre perguntador durante cinco segundos. E respondeu baixinho:
- Depende de quem pergunta.

[Continua.]


Coimbra, já 21 de Março de 2010.
Joaquim Jorge Carvalho
[Trata-se do 4.º excerto do 5.º texto de “A Depressão das Laranjas” (Ribeira de Pena, Ed. Casa de Santa Marinha, 1999). A imagem-supra, beleza pura em versão Nastasia Kinski, foi colhida em “Tess” (1979), filme de Roman Polansky baseado na obra homónima de Thomas Hardy.]]

sábado, 20 de março de 2010

A Lírica Vista de Minha Casa


Gosto de pensar na poesia como o discurso de alguém à beirinha de morrer. Quem escreve é como se soubesse que não tem já muito tempo para dizer o que é ainda preciso dizer. Todas as palavras são importantes porque podem ser as últimas. Cada uma delas comporta a íntima respiração do moribundo, isto é, a pulsão terminal dos seus anseios, o testemunho epilogal do seu sentir, a herança derradeira da sua vida e do seu olhar.
Esta urgência implica quem escreve e quem lê. Como se trata, talvez, das últimas palavras que o poeta diz-escreve, a necessidade de atenção torna-se maior, e cada palavra, cada nuance rítmica, cada imagem requer(em) um subidíssimo esforço na recepção e interpretação da matéria dita-escrita.
Vejamos o problema pelo lado do poeta. Para dizermos, a quem amamos, o nosso amor, que remédio senão buscar no lado menos bruto do nosso vocabulário as palavras (talvez) certas? Que remédio senão garimpar sintaxes até encontrar o ouro (talvez) exacto? Que remédio senão sermos, ainda que por breves instantes, dignamente líricos?
Em 1982, num anfiteatro da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, desajeitadamente te disse que te preferira, certa tarde de Junho desse ano, ao Itália-Brasil do Campeonato do Mundo, e que jamais me arrependeria. Era isto, creio eu, lirismo puro já. Quero dizer: um desvio da prosaica circunstância e da vulgaridade de dizeres mais convencionais. E se hoje to redigo, nesta placidez da nossa mais velha idade, é porque a lírica, como os vinhos raros, pode melhorar, em vez de morrer, com o tempo.

Coimbra, já 20 de Março de 2010.
Joaquim Jorge Carvalho

A DEPRESSÃO DAS LARANJAS (5 - Parte III)


As Palavras (Parte III)

No dia seguinte, uma delegação do reino de Gordjia dirigiu-se a Myra, exigindo rápidas medidas para castigar o bando de Priapyo. A resposta veio rápida e lamentosa: os homens de Priapyo eram quase tão numerosos como os das tropas reais, e talvez mais armados que estes. Dois quintos do território de Myra pertenciam ao vilão e, embora pesaroso, o rei vizinho não tinha meios para satisfazer o pedido grodjiano.
Reuniu o conselho de ministros a pedido expresso do jovem Delfim, que voltara a muito gaguejar. Discutiu-se a verba necessária para uma guerra longa e dura. Dessa vez, o ministro das ciências e humanidades eximiu-se a propor fosse o que fosse; tão-pouco os colegas se atreveram a tal; o próprio rei, tão amigo do filho, ressentia a necessidade de um gasto colossal: muito fizera já o reino em matéria de despesas – gado, terras, mulheres, ouro, até um jovem secretário do ministério domar.
- Meu filho, senhores ministros, só vejo uma solução possível para o nosso problema. Em vez da força e do aparato, optemos pela astúcia, o talento, a imaginação.
Levantou-se na sala, sem ruído, uma enorme aragem interrogativa. O rei explicou:
- Há, na província distante de Tofzo, um velho mágico, que outrora serviu o meu falecido pai. Chama-se Hodju e há-de ter, se for vivo, noventa anos ou mais. Amanhã, Delfim e dez soldados partirão para Tofzo e aí procurarão o homem. Deverão persuadi-lo a que nos ajude; as suas inigualáveis artes farão por certo o resto.


Coimbra, já 20 de Março de 2010.
Joaquim Jorge Carvalho
[Trata-se do 3.º excerto do 5.º texto de “A Depressão das Laranjas” (Ribeira de Pena, Ed. Casa de Santa Marinha, 1999). O desenho-supra é de uma querida colega e amiga, a Rosário Coelho.]

sexta-feira, 19 de março de 2010

Data Querida


A minha mãe faz, hoje, 70 anos. Não estou, como deveria, ao pé dela para lhe dizer o que (ainda) falta dizer-lhe.
O que falta dizer-lhe é que, mesmo a 260 quilómetros há tantos anos, estou (afinal) ao pé dela.
Extraordinário, nesta história decerto patética, é um homem não conseguir, por muita barba e muita idade que lhe sucedam, ver-se livre de uma dependência assim.
E não estou sozinho nesta permanente ressaca do amor: a minha filha e a minha mulher, cada uma na sua circunstância, sofrem do mesmo.
De modo que, aos quase 47 anos da minha velhice, eu ainda preciso todos os dias da voz da minha mãe.


Ribeira de Pena, já 19 de Março de 2010.
Joaquim Jorge Carvalho

quinta-feira, 18 de março de 2010

A DEPRESSÃO DAS LARANJAS (5 - Parte II)


5. As Palavras (Parte II)
Nem dois dias depois, começaram a chegar magos, doutores, génios, cientistas, eremitas, cavaleiros – e com eles as palavras e as frases mais belas que na Terra pudesse haver. Difícil foi convencer um dos eremitas a escolher entre os prémios oferecidos: queria por força um rapaz, em vez de uma rapariga, porque assim (explicava) era a natureza das suas preferências. O ministro do tesouro, depois de (em vão) o ameaçar com a prisão ou a forca, ofereceu-lhe mais dinheiro; contudo, no entretanto da questão, o eremita fez amizade com o juvenil secretário do ministro do mar e partiu, pela calada da noite, com seu amigo novo, desprezando as moedas do cofre real.
As palavras eram guardadas a sete chaves, à medida que se adquiriam. Junto ao baú onde se recebiam e registavam, em finas folhas de carvalho gravado, estavam sempre cinco guardas reais, em feroz vigilância. Quando se atingiu a décima segunda frase (sendo “frase” a unidade de medida que se utilizava para valoração das palavras), o processo de aquisição deu-se por cumprido. Delfim andava então numa azáfama, por entre alfaiates ou diplomacias com o reino de Vaclaw: aproximava-se a data de encontro com Lada e o príncipe, embora excitado, de tão optimista quase não gaguejava.
Aconteceu, no entanto, que um bando de malfeitores do reino de Myra, sabendo da existência de um tal tesouro (famoso até no longínquo reino de Espanha, ao que se dizia), atacou a capital de Grodjia na madrugada que se seguiu ao encerramento do concurso público. Através do suborno de alguns funcionários do palácio, e bem assim de alguns assassínios mais ou menos rápidos, os homens do pérfido e poderoso Priapyo entraram na ala leste do vetusto edifício.
Levavam um objectivo preciso, pelo que outra coisa não roubaram senão o baú onde as palavras preciosas estavam. O roubo demorou, segundo o único dos cinco guardas reais sobrevivente aos punhais invasores, dois minutos. Nessa mesma altura, Delfim sonhava com Lada.

[Continua]


Ribeira de Pena, já 18 de Março de 2010.
Joaquim Jorge Carvalho
[Trata-se do 2.º excerto do 5.º texto de “A Depressão das Laranjas” (Ribeira de Pena, Ed. Casa de Santa Marinha, 1999). A imagem-supra foi colhida em “Gladiador” (2000), filme de Ridley Scott com Russel Crowe no papel principal.]

Trás-os-Tempos


É hoje muito espaçoso, como decerto já outrora era, o largo fronteiro à igreja do Salvador.
Por ali passou, há uns cento e setenta anos, Camilo. Sem que alguém perceba, saio eu mesmo agora deste presente e observo o romântico mais de perto: juvenil, picado de bexigas, um princípio de bigode femeeiro, o olhar guicho, a pena (de escrever) compulsiva e ligeira.
Depois, cruzo-me com personagens de Novelas do Minho e, viajando sem tropeços graves de Camilo a Dinis, cumprimento Clara, Margarida, Berta, Tomé da Póvoa, José das Dornas, o conselheiro Bernardo, João da Esquina. O Pedro das Dornas, sei-o de experiência própria, tem a voz forte o gesto franco. Ainda há pouco ouvi, em pastelaria local, um jovem agricultor confessando a sua paixão pelo gado que – garantia - todo o seu moço suor justificava.
Percebei. Ando a viver o que leio. Ando a ler o que vivo. Passado e presente confluem, sem incómodo, em mim. E até talvez o futuro caiba, também, nesta equação leitora.
Leio, logo, sei da intemporalidade que a vida verdadeiramente é.
O meu centro do mundo é Trás-os-Tempos.


Ribeira de Pena, já 18 de Março de 2010.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem-supra é a do cartaz de "As Pupilas do Senhor Reitor" (1961), filme de Perdigão Queiroga, baseado no romance homónimo de Júlio Dinis.]

Parábola do Desistencialismo


- Cão lázaro, por que não dormes à beirinha
Em vez de no meio da estrada que estremece?
- A rua, senhor Deus, é minha:
Eu deito-me onde me apetece.

- Cão triste, por que foges do divino dó
Que, só em tu querendo, te aquece?
- A vida, Senhor, é minha só:
Eu escolho a que me apetece.

- Cão doente, por que desistes de Mim
Que sou quanto a vida te oferece?
- É só meu, Senhor, o meu fim:
Eu morro porque me apetece.


Ribeira de Pena, já 18 de Março de 2010.
Joaquim Jorge Carvalho
(A imagem-supra é a da capa de “Apelo da Selva”, de Jack London (Círculo de Leitores, 1974.)

A DEPRESSÃO DAS LARANJAS (5 - Parte I)


As Palavras (Parte 1)


Era uma vez um príncipe solteiro, no reino distante e célebre de Grodjia, a norte de Varsóvia (província de Admavok). O pormenor do celibato é importante para esta história, como adiante se há-de comprovar.
Delfim, o príncipe, amava em segredo, nunca antes confessado, Lada, uma excelente princesa do reino vizinho de Vaclaw. O consórcio, a existir, seria ideal para o realíssimo jovem: havia razões essenciais do coração & também outras, não despiciendas, do foro político-militar.
O problema estava em que, apesar de seu carácter recto e sua índole generosa, o príncipe se achava demasiado feio para sonhar tão alto. A bela Lada era um céu supremamente doce, um sol perfeito, um absoluto mar de luz: olhos, nariz, cabelo, boca, seios, voz, dedos – representavam, em sua harmonia grega, uma acabada obra dos deuses. E Delfim, esse, era menos alto que a maioria dos seus vassalos nobres, religiosos ou plebeus; o nariz, embora não exagerado, tinha um não sei quê de agressivo em seu pontiagudo prolongamento; uma borbulha irremovível jazia, cravada como um cogumelo, pouco acima do sobrolho direito; para cúmulo, quando muito nervoso, gaguejava.
Naquele dia em que a história começa, supra-sinalizado como “Era uma vez”, o príncipe teve um sonho muito triste e acordou com a sensação de, por instantes, haver vislumbrado todo o deserto que o seu futuro provável reservava. Deserto, pois, se há-de chamar à falta que Lada já antecipadamente lhe fazia.
- Pai – disse -, gostava de me, me, me casar com, com, com Lada, a princesa de, de, de Vaclaw.
O velho rei de Grodjia sorriu e considerou, após majestosa pausa:
- Excelente ideia, meu filho. Por que esperas para a pedir em casamento?
Delfim gaguejou, em silêncio, por três minutos de tempo. Após o que decidiu dizer:
- Fal, fal, faltam-me as palavras para me de, de, declarar, meu pai.
O assunto foi, nesse mesmo dia, levado a conselho de ministros. O duque Fernando, responsável pelas ciências e humanidades do reino, sugeriu (ao fim de longa discussão):
- Que se faça, com autorização do Altíssimo Rei, anúncio público de aquisição de palavras preciosas, essas de que nos trazem notícias os magos, os anacoretas e os trovadores, as capazes (segundo dizem) de convencer a mulher mais rara e a mais caprichosa.
- E como pagar essas palavras, decerto caríssimas? – quis saber, desconfiado, o ministro do tesouro, e o rei franziu o real sobrolho.
- Com gado e com terra, pois terra e gado existem, com abundância, em nosso reino – disse o ministro das terras e dos animais, e o rei sorriu.
- Com o ouro que há de sobra no cofre real – disse o ministro do mar, e o rei sorriu de novo.
- Com mulheres – disse o ministro dos caminhos e dos transportes, e o rei deu uma gargalhada feliz.
Assim se fez. Por todo o reino de Grodjia, pelos reinos vizinhos de Vaclaw, de Baltyar e de Myra, arautos anunciaram aquele concurso público para aquisição de palavras preciosas, sublinhando as apetecíveis recompensas oferecidas.

[Continua]


Ribeira de Pena, já 18 de Março de 2010.
Joaquim Jorge Carvalho
[Trata-se do 1.º excerto do 5.º texto de “A Depressão das Laranjas” (Ribeira de Pena, Ed. Casa de Santa Marinha, 1999). A imagem-supra, beleza pura em versão Nastasia Kinski, foi colhida em “Tess” (1979), filme de Roman Polansky baseado na obra homónima de Thomas Hardy.]

quarta-feira, 17 de março de 2010

Ganância Publicada


Muito contrariadamente, os altos quadros das empresas públicas viram-se obrigados a divulgar ao Zé-Povinho os seus rendimentos.
Leio, sobre os salários dos administradores da PT em 2009, que a empresa gastou cerca de dez milhões de euros para (apenas) doze beneficiários.
Leio, depois, que há também “prémios” (?), e que estes ascendem, por exemplo, no caso do famoso ex-jota, Rui Pedro Soares, a um milhão de euros.
Leio e pasmo.
Que país é este, dito “em crise”, que tão generoso é com alguns e tão sovina é com tantos outros?
A questão dos “prémios” é tão obscena que, num país decente, deveria obrigar a uma medida radical e imediata – suprimi-los.
Mas o que me repugna até ao vómito é, antes ainda, a dimensão principesca dos salários de gestores, administradores e governadores da coisa pública. Diz, sem vergonha, esta espécie de eleitos que, se comparados com os salários europeus, os vencimentos dos altos dirigentes portugueses são – ainda - pobrezinhos. (Como se essa “verdade” não valesse para qualquer outra profissão…)
Pergunto: já alguém pensou na mera possibilidade de se estabelecerem limites máximos para o vencimento mensal destes obesos mórbidos da República?
Se, por exemplo, o senhor José Penedos da pública REN, em vez de cerca de trinta mil euros mensais, não ganhasse mais do que – digamos – dez mil euros, quantos salários dignos se poderiam atribuir, com o remanescente, a jovens licenciados (salários de – digamos - mil e quinhentos euros por mês)?
E se, em vez de se gastar um milhão de euros para “premiar” o jovem administrador (ou, dito de outro modo, o administrador jota) Rui Pedro Soares, a PT criasse uns cinquenta postos de trabalho para jovens licenciados (que vencessem algo como mil ou mil e quinhentos euros por mês)? Fiz as contas: o dinheiro, bem distribuído, chegava.
Etc.
Já agora: não será tempo de, na administração pública, se estabelecerem - sem margem para dúvidas e sem escapatórias habilidosas - limites máximos aos salários, algo como – digamos – dez mil ou doze mil e quinhentos euros? (Continua a ser muito dinheiro. Mas vou até “aí” por piedade, considerando que os lordes habituais poderiam estranhar diminuição ainda mais radical…)
Hão-de os pançudos do regime chamar, a estas ideias, comunismo. Seja. Se isto é comunismo, serei – nisto – comunista.
O 25 de Abril foi há 36 anos já e eu não sei se as revoluções têm prazo de validade.
O que sei é que o país não vai bem. E que as democracias dificilmente sobrevivem se não houver um mínimo de pudor.


Ribeira de Pena, já 17 de Março de 2010.
Joaquim Jorge Carvalho

Quase Bucólica


Passam sob a minha janela
Uma velhinha, um velhinho e um cão.
A mulher veio ao centro de saúde
(Medir as varizes e os diabetes)
E o marido veio, contrariado, com a esposa.
O cão apareceu não se sabe de onde
(Acho que gostou do cheiro a cadela
Na roupa do velhinho).

Atravessam os três a rua até à camioneta
(A velhinha à frente, depois o velhinho, atrás o cão).
O homem resmunga qualquer coisa e a mulher
(Quem sabe, suspirando)
Concorda e encolhe os ombros antigos.

Falta agora pouco para aquele casal regressar
Ao anonimato onde, visto da minha janela, reside
(Longe dali, dos meus olhos, da minha rua).
Talvez naquele saco a velhinha leve medicamentos
E talvez a cara severa do marido tenha a ver com isso
(O preço, sem remédio, dos remédios).
O cão urina junto à paragem, sobre duas rosas.

A velhinha usa óculos e espera.
O velhinho tem um chapéu preto sobre a cabeça
E, como a velhinha, espera.
O cão já lá não está
(Ou não se vê).




Ribeira de Pena, já 17 de Março de 2010.
Joaquim Jorge Carvalho
(A pintura é de Frida Kahlo.)

terça-feira, 16 de março de 2010

Outros Céus


Há países onde, à noite, as estrelas cadentes são confundidas, a toda a hora, com mísseis, obuses, rockets, morteiros.
Adultos e crianças nunca sabem se hão-de fugir ou pedir um desejo.


Ribeira de Pena, já 16 de Março de 2010.
Joaquim Jorge Carvalho
[A pintura-supra é “Guernica”, de Picasso.]

Tapete de Folhas


Morre-se muito em Ribeira de Pena, terra de farto arvoredo.
A quantidade das folhas caídas das árvores é directamente proporcional à das notícias de óbitos que, um pouco por toda a vila, se vêem nas montras de lojas e Cafés.
Caem folhas, tocam os sinos a finados. De certa forma, o que as agências funerárias anunciam é o próprio Outono (e, num ápice, o bruto inverno).
Tenho visto, por aqui, famílias subitamente nuas, como árvores às mãos do tempo frio.
Entre a casa e o Café, os nossos passos percorrem esta tapeçaria vegetal: folhas distraidamente pisadas no devir do próprio fim. Eu olho-as como uma espécie de espelho narratológico. São, na minha história, prolepses tristes.


Ribeira de Pena, já 16 de Março de 2010.
Joaquim Jorge Carvalho
[A pintura-supra é de Vincent van Gogh (“Paisagem de Outono com 4 Árvores”, 1885).]

segunda-feira, 15 de março de 2010

A Beleza e o Avesso


O entardecer em Ribeira de Pena é a minha possibilidade de Manhattan: uma ilha com talvez jazz disfarçado de brisa, um farol ao longe que é, em vez da estátua da Liberdade, a igreja de Santa Marinha, um regato artificial ao fundo da Avenida da Noruega em vez do rio Hudson.
Rodeio a igreja pelo lado do coreto. Árvores nuas são gente desenhada de braços no ar, exultando uma qualquer felicidade local, quem sabe esta absoluta serenidade de um domingo rústico.
É uma forma de felicidade, para mim, tal presente (embora, às vezes, canse).
Bem sei que há um reverso semântico nesta calma doce, tão para mim cheia de poesia. Para os cafés, os restaurantes, o comércio em geral – era preferível o bulício urbano. E até para quem cumpre a contemplação domingueira como um ofício, faz falta mais gente.
De modo que discretamente me deixo afagar pela tranquila luz do lugar, num quase secreto amor pelo silêncio de Salvador entardecido. (Salvador é o nome deste sítio central do concelho.)
À hora em que passeio, sou o único turista bucólico que os meus olhos alcançam. Economicamente, é pouco, é irrelevante. Mas o que aqui escrevo, senhores, tem pouco a ver com economia. Com a paz, sim.

Ribeira de Pena, já 15 de Março de 2010.
Joaquim Jorge Carvalho

A DEPRESSÃO DAS LARANJAS (29)


A Biografia da Laranja

A laranja é o fruto da laranjeira, essa preciosa árvore da família das rutáceas, corpo vegetal de tronco e folhas muito resistentes. É um fruto rico em vitaminas, nomeadamente a C. Come-se na sua fase dourada, quando a pele se aproxima da tonalidade que o próprio nome diz: cor de laranja, pois.
Há-as amargas e doces. O travo é sobretudo uma questão de tempo e de solo: quanto mais pacientes e generosos estes, mais doce aquele.
A laranja precisa essencialmente de sol para aceder ao estatuto de esfera farta de glucose e sumo.
Vou dizer-vos mais, irmãos: se lançásseis uma laranja ao mar, veríeis como, durante um instante, toda a memória do mundo navegaria diante dos vossos olhos. A laranja acabaria sempre por morrer, picada por aves e peixes, cozida pelo frio, o sal e o calor mareantes. Mas nunca se apagaria do vosso olhar essa luz, mais bela de todas, caminhadora à procura de marés e de cais provavelmente impossíveis.
No fim do meu livro sobre Margo, o que vejo é uma praia (talvez Porto Santo) à espera do desenlace (narrativo ou lírico) desta escrita: uma gaivota frágil, improvável, equilibra-se sobre uma laranja e nela dificultosamente repousa.
Eu digo-lhe: Vamos.

E não há Fim.


Ribeira de Pena, já 15 de Março de 2010.
Joaquim Jorge Carvalho
[Trata-se do 29.º - e último - texto do volume “A Depressão das Laranjas” (Ribeira de Pena, Ed. Casa de Santa Marinha, 1999). A imagem-supra é a da capa do volume “A Depressão das Laranjas”.]

Nota: A pedido de uma multidão de leitores (quatro, salvo erro), publicarei neste blogue, nos próximos dias, o 5.º texto de “A Depressão das Laranjas” (“As Palavras”). Por se tratar de um texto algo extenso, optarei por dividi-lo em três ou quatro partes.

domingo, 14 de março de 2010

A Culpa dos Sindicatos


A Culpa dos Sindicatos

Na sua crónica semanal, no “Expresso”, Miguel Sousa Tavares volta a referir-se, com burguesinha acrimónia, aos sindicatos.
Confesso: a sua sanha contra as organizações sindicais faz-me espécie.
Eu compreendo, por exemplo, o azedume de José Sócrates, esse, porque radica numa certa forma de o nosso primeiro-ministro ver o mundo, do ponto de vista da sua executiva circunstância: sem adversários, e sobretudo sem adversários organizados, seria mais confortável o exercício do poder.
Mas em Miguel Sousa Tavares é um fenómeno diferente. É, ao que parece, uma concepção da vida social e política que dispensa a vida e a força da contestação sindical. Ou, como eufemisticamente também diz, os “interesses corporativos”.
Entendamo-nos: já há muito que poderosos de todo o mundo lamentam este desagradável hábito de os trabalhadores se unirem e procurarem lutar pelos seus direitos. Em boa verdade, portanto, Sousa Tavares não aduz nada de novo sobre o assunto.
Concretizando: julga o iluminado cronista que, na saúde e na educação (pelo menos, aqui), o problema está nos sindicatos. O diálogo de Ana Jorge ou Isabel Alçada - com enfermeiros, médicos, professores - é interpretado, está-se mesmo a ver, como uma forma de pública capitulação. Que saudades tem ele, percebemos nós, da intrépida Lurdes Rodrigues e do valente Correia de Campos! Estávamos todos errados, à época, menos aqueles dois espíritos brilhantes (decerto congéneres do tão superior Miguel).
Este preconceito contra os sindicatos agrada a muita gente, como tenho observado nas colunas de opinião de vários jornais, e parece radicar na ideia extraordinária de que é das organizações sindicais, essa provável corja, a responsabilidade da má gestão do nosso país nos últimos trinta anos. Ao que parece, são os sindicalistas, consabidos e terríveis adversários do progresso, os grandes culpados da má organização de Portugal, e dos errados investimentos, e das ineficazes estratégias, e do repetido desperdício de meios e recursos.
De tanto opinar, pode ocorrer com Sousa Tavares a circunstância de estar certo, às vezes. Mas não é, aqui, o caso.
Por mim, tendo a perdoar-lhe a demagogia descuidada e os erros de raciocínio; nunca foi fácil escrever sobre o tempo que passa e o jornalista faz disso, como se sabe, ofício.
Custa-me mais perdoar-lhe o topete de se achar (já) romancista. Se “Equador” é uma razoável narrativa, “Rio das Flores” é, do ponto de vista literário, um nojo: mal imaginado, mal estruturado, mal escrito.
Mas, sei lá, talvez seja culpa dos sindicatos.

Ribeira de Pena, já 14 de Março de 2010.
Joaquim Jorge Carvalho

A DEPRESSÃO DAS LARANJAS (28)


28. A Nudez

Louis Dietz exigiu à mulher que, em determinado número do palco dois, protagonizasse uma nudez total, ao som de Mozart. Margo não gostava da música escolhida (“Ein Klein Nachtmusik” – Allegro) e, alegando esse motivo, recusou.
O episódio causou uma crise conjugal grave, com mútuas disposições de separação misturadas com ameaças (pouco veladas) de apropriação exclusiva de Mimette, a filha. Roubou-nos também, a ambos, a doce possibilidade da rotina amadora (mãos dadas, conversa, livros, bilhetinhos impacientes). Por fim, Margo acedeu à vontade do esposo, e este (para agradar à fêmea) optou afinal por um trecho de Verdi (retirado de “Aida”).
Foi essa a primeira vez que Margo me disse, no intervalo suado do amor:
- Estou farta de estar nua!
Percebi que não se referia à pele ali vista, ao corpo exposto (em público e em privado). Queixava-se, pobre polaca das estrelas, da frágil natureza que era, da sua insegura condição de ave, da dependência perante o dinheiro, as conveniências civis e sociais, o estatuto de imigrante e de mamã. Dizia-me:
- É só contigo que regresso à simplicidade da minha vida antiga. À Polónia.
E chamava-me, dedilhando-me cútis, tarde, quietude, dentes:
- Minha laranja portuguesa…
Eu nem sei se a merecia. Amava-a tanto, tanto que lhe exigia os mais íntimos sacrifícios, torturando-a por uma palavra a mais ou a menos, um gesto precipitado ou esquecido. Dei até em querer ser dono dos seus silêncios, reclamando a explicação de um olhar vago, uma nuvem triste, um suspiro.
Explicava-lhe, impaciente:
- Quero-te, percebes, inteira, transparente. Não me escondas nada.
E ela aceitava, quase de imediato, urgente a curar-me estes pueris amuos. Pergunto-me se não era esta minha lamentável obsessão outra forma de a despir, contra a sua vontade; de lhe roubar o direito (inalienável) a um certo mistério mínimo que deve pertencer a todos os eus.

Quando Louis Dietz descobriu as minhas cartas, não fui visitado por gorilas da segurança; não fui agredido; não fui objecto de denúncia aos serviços de imigração; não fui sequer impedido de entrar (como habitualmente) no edifício do “Crazy Horse”. Soube, por coristas e barmen, que o empresário e a mulher haviam partido, em viagem prolongada, para Munique; e daí para Viena; e daí para Bruxelas; e daí para Madrid…

Foi assim que Margo deixou a minha vida: subitamente. Como uma luz devinda ardida e morta.
Resisti em Paris por ano e meio e vi, nesse entretanto, a minha vizinha (talvez Thérèse) amancebar-se com um professor de latim, com um vendedor de perfumes e com o carteiro. Enfim, envelhecido pela desesperança, regressei a Portugal e tornei-me co-proprietário de uma livraria lisboeta.
Um dia, li no “France Soir” a notícia da morte de Margo. Mas, olhando a porta da livraria, ao fundo, acreditei que viesses, meu amor, de repente (com flores, um texto bonito sobre saudades, um livro).

O que é o fim?



Ribeira de Pena, já 14 de Março de 2010.
Joaquim Jorge Carvalho
[Trata-se do 28.º – e penúltimo – texto do volume “A Depressão das Laranjas” (Ribeira de Pena, Ed. Casa de Santa Marinha, 1999). A pintura-supra, “Prima Ballerina”, data de 1878 e é de Edgar Degas (1834-1917). Foi colhida na Wikipédia.]

sábado, 13 de março de 2010

Morituri Amant


Em jornais, rádio, televisão, internet, lembrou-se aquele 11 de Março de Espanha, que ajudou a afivelar definitivamente o terrorismo à actualidade dos últimos anos.
A lembrança trouxe-me também à memória o 11 de Setembro americano (e mundial). É sobre esse dia que aqui falo. Elejo, de entre tantos aspectos à sua roda, os relatos – gravados para sempre – de telefonemas entre as vítimas e os seus entes queridos.
São discursos inscritos na urgência do momento.
A urgência torna essencial tudo quanto dizemos. As nossas palavras, então, desaguam numa espécie de reduto lírico: conteúdo e forma, ritmo, tom – tudo é uma coisa una e pura.
Ora, que dizem estes morituri à beira do seu fim? A que poesia se reduz esta consciência exaltada da despedida iminente?
Na maior parte das vezes, dizem “Amo-te”.
Entre a vida e a morte, é isto pois o essencial.
(E o terrorismo, já agora, é o contrário disto.)

Ribeira de Pena, já 12 de Março de 2010.
Joaquim Jorge Carvalho

A DEPRESSÃO DAS LARANJAS (27)


27. O Piano

Sentas-te à minha beira e tocas-me –
Exactos os dedos percorrem-me, certo
O peso e o jeito da carícia, sábia
A harmonia dos gestos sequentes.

Está o Mundo suspenso no durante
Da canção colhida no silêncio de mim;
E lê-se no teu olhar a pauta nova, a chuva
Sobre as laranjas à espera de ser.

Quando parares, fechar-me-ás, ternamente.
Interromperás os aplausos com um sorriso
Triste.
E interrogarás, já só, o meu silêncio regressado:
Porquê?

Responder-te-ei: Sou como vês –
É preciso que te sentes ao pé de mim,
Me toques com o peso, o jeito, o tempo
Certos.
É necessário que aqui estejas e me acordes

Para haver música.



Coimbra, já 13 de Março de 2010.
Joaquim Jorge Carvalho
[Trata-se do 27.º - e antepenúltimo- texto do volume “A Depressão das Laranjas” (Ribeira de Pena, Ed. Casa de Santa Marinha, 1999). A pintura-supra, “Ao Piano”, é de Pierre-Auguste Renoir (1841-1919) e foi colhida na Wikipédia.]

sexta-feira, 12 de março de 2010

Estante Instante


Tenho, na estante desarrumada, Eça
caído
sobre
Italo Calvino (quasoblíquo).
O italiano ri-se da vaidade
(segredada)
de Dâmaso Salcede
e Eça boqueabre o espanto burguês por
Cosimo
vivendo nas árvores.

Vertical,
Camilo
de
Perdição
observa
(de soslaio)
a confusão.
Não conhece o Barão Trepador
e não dá confiança ao diplomata em Havana:
Ninguém lhe tira da cabeça que o Alencar
(d’Os Maias)
não é Bulhão Pato,
mas ele.


Ribeira de Pena, já 12 de Março de 2010.
Joaquim Jorge Carvalho

A DEPRESSÃO DAS LARANJAS (26)


26. O Cansaço

Na dimensão cristalina dos afectos, o maior perigo é o cansaço. As pessoas, sei-o bem, precisam de rotinas, de funcionais ancoradouros do tempo e das mãos, mas igualmente naufragam nessas areias, por distracção e preguiça na maioria das vezes.
Margo, em certa quarta-feira, não apareceu no Café combinado. Ponderei trezentas razões para tal: doença, imprevisto doméstico, carta familiar, incêndio, inundação, esquecimento...
Mas o motivo fora outro: não lhe apetecera.
Era o quarto mês do nosso amor. Sofri a revelação como se de uma punhalada traiçoeira se tratasse. Margo interrogava-me, receosa:
- Era melhor esconder-te a verdade?
Disser-lhe que não. Mas duvidava da minha própria resposta.
Numa outra ocasião, eu telefonei-lhe para casa e pedi-lhe que viesse mais cedo ao meu encontro: chegavam primos de Lisboa e eu devia esperá-los ao entardecer. Margo achou que era uma violência ter de preparar-se à pressa e sugeriu-me, leve, que simplesmente nos não víssemos nesse dia. Nocturno, acedi.
Acontecia-lhe muitas vezes atrasar-se. À quinta ou sexta oportunidade, optou por substituir as justificações por um beijo doce e uma carícia no meu cabelo. Eu amava-a tanto que me esquecia, então, de reclamar.
Certa sexta-feira, tendo o marido viajado para Londres em viagem de negócios (o “Crazy Horse” parisiense internacionalizava-se), tive uma inspiração: partir com Margo para Portugal e aproveitar essa semana e meia de liberdade para o nosso amor. Planeei tudo com minúcia e imaginação. Margo iria oficialmente à Polónia (o que Louis não poderia deixar de entender); a pequena Mimette ficaria em Bezon, a onze quilómetros de Paris, com a avó paterna; o transporte correria por minha conta.
Era apenas necessário aproveitar e partir, nessa mesma sexta-feira, porque o barco fazia a viagem apenas de quatro em quatro dias.
Margo objectou: era ela, na altura, a responsável por uma coreografia nova do palco número um. Nesse dia, ensaiava-se o seu “tema” pela primeira vez.
Eu disse: Mas. E repeti: Mas. E ela pedia-me, Deus meu, que compreendesse...
Pelo que chegou a mim próprio o horrível espectro do cansaço. É essa a experiência mais próxima da morte, pelo menos como eu a vejo.
Diabólica, a memória trouxe-me (em revoadas ressentidas) episódios anteriores, cicatrizes, imperfeições do nosso amor. Paris, velho e doente, parecia abanar-se de tosse antiga e pneumónica, cheio de uma expectoração resignada que apagava canções, jardins, luares, flores.
Durante quase um mês, não nos vimos. Eu embrenhei-me nos livros, nas cartas para Portugal, nas conversas de tertúlia literária e etílica – e passei a dar mais atenção a uma jovem vizinha do andar em frente, cujos azuis olhos se me ofereciam, óbvios, à hora do café da manhã. Talvez esta francesa se chamasse Thérèse.
Fiz, entretanto, reserva de bilhete para Lisboa. Devia partir numa ou duas semanas.
Depois: seriam nove da noite quando a campainha da porta soou. Eu acabara de sair do banho, no devir de uma corrida à volta do boulevard que escandalizava a vizinhança. Em roupão, dirigi-me à porta.
- Margo!
O meu amor deu-me flores, um texto bonito sobre as saudades e um livro. Louis Dietz regressaria a casa dentro, disse-me, de duas horas e ambos deveriam ir, então, buscar a filha (Mimette) a casa da avó Dietz.
Durante o amor feito, refeito, transfeito, prometemo-nos, pela milésima vez, não perder tempo com os irrelevantes pormenores do mundo.
Mas tínhamos (ela e eu) cada vez maior pavor do fim.



Ribeira de Pena, já 12 de Março de 2010.
Joaquim Jorge Carvalho
[Trata-se do 26.º texto do volume “A Depressão das Laranjas” (Ribeira de Pena, Ed. Casa de Santa Marinha, 1999). A imagem-supra é o cartaz do filme “O Amante de Lady Chatterley” (2006), de Pascale Ferran, com base na obra homónima de D. H. Lawrence.]

quinta-feira, 11 de março de 2010

Símbolo Pássaro


Disse Woody Allen, pela boca de uma personagem (no filme “Setembro”), que “o universo é inteiramente aleatório e moralmente neutro”. Será mesmo assim?
Há uns cinco anos, uma pessoa do meu conhecimento e da minha estima internou-se, após hesitações e desistências várias, numa instituição para toxicodependentes. Depois de muito tempo de negação, de medo, de cobardia e de descrença, este homem decidiu-se enfim pela possibilidade de cura. Chama-se, a uma coisa destas, libertação ou possibilidade libertação.
Fui buscá-lo ao aeroporto e levei-o ao local onde, nos próximos meses, haveria de tentar o regresso à sua condição inteira de homem, sem vergonha do seu viver. Ele estava feliz. Repetiu, mais do que uma vez, o singelo objectivo da viagem: “A ver se me livro, pá…” Deixei-o à porta da sua nova casa, não sem antes o abraçar e desejar boa sorte. Foi no dia 25 de Abril de 2005.
Aconteceu que, no regresso à cidade, um pássaro voou doidamente contra o vidro frontal do meu carro, morrendo instantaneamente. É comum associar-se à figura (física e poética) da ave a ideia de liberdade. Ora, este pássaro morreu no exercício vertiginoso de seu voo. Há aqui algum paradoxo?
Volto ao segundo paráfrafo. O homem que ousou libertar-se do inferno da dependência vai, por vontade própria, internar-se numa instituição. Isto é, assumiu a condição de quase-recluso, sujeito a regras e a horários restritos. Ele mesmo mo disse, algures entre o aeroporto e lugar nenhum: “Eu sei que isto da Clínica é uma espécie de prisão, mas tem de ser…”
Que tem isto a ver com a história do pássaro? Eis a minha leitura: o voo louco, perigoso, irresponsável do pássaro conduz à tragédia (mais ou menos anunciada) da morte violenta. O voo vital de um homem fugindo das drogas é outro: abdica lucidamente da liberdade sem sentido nem disciplina - para se salvar. Ou seja, a liberdade desregrada da ave louca é falsa porque leva à morte; a prisão aparente do homem internado, essa, é já uma forma de liberdade (a haver).
António Skarmeta, em “O Carteiro de Pablo Neruda”, diz que todo o mundo, toda a paisagem, todos os eventos são sempre metáfora de algo. É só preciso lermos, em cada circunstância, a lição do símbolo. Em cada sinal, à esquina impontual das nossas vidas, há mensagens (explícitas umas, implícitas quase todas). É preciso atenção e humildade, para percebermos e aprendermos as metáforas do mundo; dessa atitude depende a qualidade do que sabemos, sobre os outros e nós.
À maneira dos existencialistas, tenho percebido que o verdadeiro destino não é apenas o somatório de acontecimentos exteriores à nossa vontade. No caminho comovido por onde a minha biografia anda, tenho percebido que os dias têm, ao volante da máquina que nos conduz, os nossos próprios braços, as nossas próprias mãos, os nossos próprios olhos, o nosso próprio coração esclarecido. Sumário: somos nós, amigos, quem decide o essencial do que somos, do que havemos de ser.
Como Allen (supra-citado), também Lennon achava que “Life happens while we’re making other plans” [“A vida acontece enquanto fazemos outros planos”]. Terás alguma razão, John. Mas a nossa vida não é vida (ou não é nossa) se nela não tivermos alguma palavra a dizer.
Já agora: esta história (ainda) não acabou bem. Homens e pássaros levam, por vezes, demasiado tempo a descobrir o sentido essencial dos seus voos. E vão voando, não obstante os avisos repetidos e (im)pacientes, repetidamente mal.

Ribeira de Pena, já 11 de Março de 2010.
Joaquim Jorge Carvalho
[Uma versão deste texto foi primitivamente publicada no “Ecos de Basto”, em Maio de 2005. Republica-se agora, com leves, mas não despiciendas, alterações. A pintura-supra é de Heinrich Fueger, “Prometeu leva o fogo à Humanidade” (1817), e foi colhida – com a devida vénia - no blogue ornelasnaamazonia.blogspot.com.br.]

A DEPRESSÃO DAS LARANJAS (25)


A Chuva

O gesto essencial da chuva é cumprir-se: chove, é.
Sem este gesto, árida seria a terra e impossível a vida.
Conheço um advérbio de tempo para emigrantes desencontrados à procura de si próprios; é “quando”.
Quando, Senhor, a chuva que são?


Coimbra, já 11 de Março de 2010.
Joaquim Jorge Carvalho
[Trata-se do 25.º texto do volume “A Depressão das Laranjas” (Ribeira de Pena, Ed. Casa de Santa Marinha, 1999). A imagem-supra recorda o filme “Casablanca” (1942), realizado por Michael Curtiz e interpretado por Humphrey Bogart e Ingrid Bergman. Os leitores atentos lembrar-se-ão que utilizei já, para acompanhar o texto “O Assalto” - n.º 4 de “A Depressão das Laranjas” - uma fotografia deste mítico filme.]

quarta-feira, 10 de março de 2010

Cadela Como Nós


Dara


O meu agregado familiar perdeu, nos últimos anos, dois elementos, ambos do género feminino: a Vânia e a Dara. Aquela é a minha filha que, como escreve Manuel Alegre em “Cão como Nós”, cresceu para lá dos limites do berço e se emancipou. Esta era a minha cadela, que morreu (velhinha e doente) há ano e meio.
A minha relação com a Dara teve altos e baixos, como é próprio do amor e da amizade. Durante cerca de catorze anos, fez-me rir, fez-me gritar, brincou comigo, irritou-me, comoveu-me, destruiu-me a mobília e os nervos, acompanhou-me, fugiu-me, surpreendeu-me.
Eu não fui, para ela, um exemplo de tolerância e de paciência: em momentos de tensão maior, fui decerto injusto e bruto.
Aí pelo seu 13.º aniversário, a Dara deu em envelhecer e ficou muito doente. Durante seis meses, convivi então, todos os dias, com a ideia da iminente morte daquele elemento (já) da família. Desesperado, quis que todos os seus momentos finais fossem bons: andei com ela ao colo, perdoei-lhe todas as imperfeições, dei-lhe comer à boca (como a um bebé), sobrepreocupei-me com o conforto da sua cama, providenciei-lhe exageradas carícias.
Graças à cortisona, houve dias em que tivemos – todos – a ilusão de que a cadela voltaria a ser jovem e saudável. Até a ditadura da finitude falar mais alto.
Quando já não se mexia sequer para comer, o veterinário ofereceu-se para lhe providenciar um misericordioso alívio. Queria dizer: um suave fim. Por telefone, a minha mulher disse-me, chorando: A Dara já partiu.
Desde esse tempo, a saudade.
A saudade é uma forma delicada de desespero. Um gerúndio uivando a inevitabilidade da separação. Uma cadela, como nós, partindo.


Ribeira de Pena, já 10 de Março de 2010.
Joaquim Jorge Carvalho

A DEPRESSÃO DAS LARANJAS (24)


Fátima

Vi em Fátima, uma vez, um imenso grupo de fiéis católicos oferecendo velas à Virgem Maria. Eram (recordo) velas de todos os tamanhos, brancas sobretudo, que lentamente ardiam na pira ali colocada para o efeito.
Em relação ao meu olhar, os crentes (mulheres, na sua maioria) estavam de costas. Mantive-me por lá durante minutos, comungando do silêncio grave das pessoas e da estearina. Sentia-se o frio natural da época (acho que era Outubro).
Ao fim de algum tempo, pude enfim ver diversos rostos, gente que deixava o local: havia lágrimas em quase todos – lágrimas quase a ser; lágrimas sendo; lágrimas que tinham sido. Adivinhamos facilmente a panóplia de motivos, não é? Doenças, sonhos, amigos, emprego, amores.
E dei por mim a chorar também. Porquê?
A verdade é que me é muito difícil situar o episódio no tempo cronológico. O mês, já o disse entre parênteses, seria Outubro. Mas o ano?
Eu queria sobretudo, acerca desta lembrança, saber se isto sucedeu antes ou depois de Margo Boniek na minha vida. O pormenor não é despiciendo: é-me necessário para perceber se as minhas próprias lágrimas eram de tristeza por não te haver ainda encontrado; ou se, tendo-te, me doía já a mortal antecipação da perda de nós.


Coimbra, já 10 de Março de 2010.
Joaquim Jorge Carvalho
[Trata-se do 24.º texto do volume “A Depressão das Laranjas” (Ribeira de Pena, Ed. Casa de Santa Marinha, 1999). A imagem-supra, colhida em Wikipedia, é a do cartaz do filme “A Insustentável Leveza do Ser” (1988), de Philip Kaufman, com base no romance homónimo de Milan Kundera. Os actores principais são Daniel Day-Lewis, Lena Olin e – sobretudo! – Juliette Binoche.]

terça-feira, 9 de março de 2010

O Fim dos Livros


O cartoon-supra está assinado por Gable. A fonte onde o “Público” - de 10 de Fevereiro de 2010 - o colheu é “The Globe and Mail”, jornal de Toronto (Canadá). Eu colhi-o, já se vê, no “Público”.
Um dos miúdos diz para o outro (traduzo eu): “Chama-se livro. Não sei bem onde é que se põem as pilhas…”
É engraçado e é arrepiante. Por mim, confesso: não consigo imaginar um mundo sem livros (e falo de livros à moda presente-antiga, em papel).
Quando o livro for decretadamente obsoleto, hei-de eu próprio obsoletar-me por irremediável solidariedade. Tenho dito.

Ribeira de Pena, 08 de Março de 2010.
Joaquim Jorge Carvalho

A DEPRESSÃO DAS LARANJAS (23)


O Lugar



Eu nunca fui à Polónia.
Tirando esse pormenor lamentável, a Polónia é o local mais belo onde já estive.




Coimbra, já 08 de Março de 2010.
Joaquim Jorge Carvalho
[Trata-se do 23.º texto do volume “A Depressão das Laranjas” (Ribeira de Pena, Ed. Casa de Santa Marinha, 1999). A foto-supra é da cidade de Lodz (Polónia) e foi colhida – com a devida vénia – em http://www.tripadvisor.com.br.]

segunda-feira, 8 de março de 2010

A DEPRESSÃO DAS LARANJAS (22)


O Milagre

Margo Boniek (a mais perfeita bailarina do “Crazy Horse”) era, graças à prodigiosa atenção e aos seus finos sentidos, capaz de acumular, na memória, infinitas variedades de paisagens, luzes, cheiros, cores e ares da Polónia natal. Fazia-o igualmente com Paris, seu ninho adoptivo e pátria natural da filha.
Eu, com menos brilho e maior esforço, transportava em mim as laranjas portuguesas (textura, volume, odor, sumo, tonalidade), e também as praias, o fado doce-triste de Coimbra, a noite e o amanhecer transmontanos.
“Isto” para quê?
Para que, de cada vez que subíamos ao meu quarto, ou a um qualquer do hotel combinado (Matur-Paris), fizéssemos do lugar a aérea, alada, volucre casa de Nós.
Assim renasciam sempre, felizes, os nossos corpos, as nossas vozes, as nossas almas, a nossa estrada una – e invariavelmente se dava esse milagre singelíssimo: por horas, apesar da fome ou do cansaço sobrevenientes, todo o compartimento cheirava a (por exemplo) tremoços portugueses e a carne fumada de Lodz.

Coimbra, já 08 de Março de 2010.
Joaquim Jorge Carvalho
[Trata-se do 22.º texto do volume “A Depressão das Laranjas” (Ribeira de Pena, Ed. Casa de Santa Marinha, 1999). A imagem-supra é um pormenor do cartaz do filme "Oito e Meio", de Fellini, estreado em 1963. O filme contava no elenco com (entre outros) Marcello Mastroianni, Claudia Cardinale, Anouk Aimé e Sandra Milo.]

MAIS LONGE


Os meus olhos vão mais longe do que os meus pés.
O meu desejo vai mais longe do que os meus olhos.
A minha escrita vai mais longe do que o meu desejo.
Para lá da minha escrita,
Eurídice,
Tu só.



Ribeira de Pena, já 08 de Março de 2010.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem-supra, com a belíssima Geena Davis em 1.º plano, é do filme “Thelma & Louise” (1991), de Ridley Scott.]

FREI TOMÁS


São vários os exemplos hodiernos que recuperam a cínica lição de Frei Tomás: em Portugal, Silva Lopes, Mira Amaral, Dias Loureiro, Constâncio, etc. Lá fora, Trichet – que tão entusiasticamente verbera os gastos dos estados europeus e recomenda contenção salarial nos funcionários públicos – aumentou(-se) em cerca de 4,4%nos dois últimos anos. Em 2009, notai, os seus rendimentos ultrapassaram os 360 mil Euros.
É por isso que poucos cidadãos, hoje, acreditam nas autoridades políticas e financeiras que (n)os regem. A gestão da coisa pública já foi uma actividade nobre. Hoje, mais do que governar, quem está no poder governa-se. O verbo é aqui, sobretudo, sacar.
Era bem feito que houvesse outra vida depois desta, mais essencialmente justa. E que, como Gil Vicente faz com as venais almas no porto final, o Dramaturgo-Mor os castigasse bem. E, ainda, que não houvesse estatuto ou cunhas capazes de valer a esta gente!

Ribeira de Pena, já 08 de Março de 2010.
Joaquim Jorge Carvalho
[O recorte-supra foi colhido, com a devida vénia, na página 39 do DN, ed. de 06-03-2010).]

domingo, 7 de março de 2010

Mundo Virtual


A notícia vem nos diários de 6 de Março de 2010: um casal esqueceu-se, durante horas, talvez dias, do filho recém-nascido. Entretidos a brincar na internet, num sofisticado jogo que imitava a vida real, olvidaram o dever de alimentar a cria. A cria, ao fim de um período longo, desistiu de esperar e morreu.
A ironia maior de tudo quanto se diz está no facto de o jogo alienador ter a ver com um bebé virtual que era preciso alimentar. Os adultos (?) desse não se esqueceram. Do outro, do verdadeiro, é que sim.
Há uns anos, lembro-me de se discutir, nos autocarros e Cafés de Coimbra, a invenção do “Tamagochi”, e de haver quem seriamente defendesse a utilidade do divertimento. Era preciso, ali também, alimentar um ser virtual, e essa necessidade – sustentava-se – ajudava a incutir hábitos de responsabilidade nas criancinhas, bem como a combater a solidão dos solitários.
Afinal, é a isso que jogam os grandes ditadores: às realidades virtuais, onde seres perfeitos constroem e asseguram um Futuro perfeito. Os pormenores da realidade (sofrimento de indivíduos, diferenças de pensamento, queixas, advérbio não) atrapalham a utopia e, sempre que possível, são eliminados, a bem ou a mal.
O problema é que a humanidade é feita, em primeiro lugar, de realidade.
E é por isso que o mundo virtual é, em boa verdade, desumano.

Ribeira de Pena, já 07 de Março de 2010.
Joaquim Jorge Carvalho
[O recorte-supra foi colhido, com a devida vénia, no DN, edição de 06-03-2010.]

Défice de Rua


Não ando pela rua a catar versos.
Eu só sei que os versos me faltam
Quando
A rua chega ao fim e os meus passos
Não.


Ribeira de Pena, já 07 de Março de 2010.
Joaquim Jorge Carvalho
[A pintura-supra, colhida em www.artinthepicture (com a devida vénia), é “Place de la Concorde”, de Marc Chagall (1887-1985).]

A DEPRESSÃO DAS LARANJAS (21)


A Génese

O nosso planeta foi, diz-se, uma grande invenção do, diz-se, Grande Arquitecto. Era preciso um espaço por onde os amadores se dessem as mãos, e onde os amadores brilhassem (belo, felizes) com frutos, flores, animais, relva e muito mundo à roda.
Só a seguir veio a criação seguinte d’Ele: a, diz-se, unidade perfeita, que era tudo quanto supra se diz mais o Tempo em versão inteira.
Depois, algo mudou, diz-se, na Terra. A última parte do “Génesis” é já da responsabilidade de um mui poderoso medíocre. Esse mesmo, o Diabo.

Coimbra, já 07 de Março de 2010.
Joaquim Jorge Carvalho
[Trata-se do 21.º texto do volume “A Depressão das Laranjas” (Ribeira de Pena, Ed. Casa de Santa Marinha, 1999). A pintura-supra, “Criação de Adão”, é de Michelangelo
(1465-1574) e é uma das que se encontram no célebre tecto da Capela Sistina.]

sábado, 6 de março de 2010

Fora da Leya


Miguel Esteves Cardoso, na coluna que mantém no “Público” (“Ainda Ontem”), diz – a 4 de Março deste corrente 2010 – desejar “sinceramente que a Leya se foda”. Sic.
O vernáculo desabafo não surge do nada: é a foz lógica da sua revolta face à destruição, por aquele grupo livreiro, de milhares de (preciosas) obras literárias – de Jorge de Sena, de Eugénio de Andrade, de Eduardo Lourenço, de Vasco Graça Moura…
Os empresários, entretanto, já explicaram que se tratava de uma questão estritamente económico-financeira. “Business”, portanto, “as usual”. A lógica – chamemos-lhe assim – parece-me a mesma que, há uns anos, levou a União Europeia a decretar a destruição, pelo fogo, de toneladas de laranjas espanholas, de modo a evitar um excesso de oferta e os prejuízos económicos devenientes. À época, o Papa lembrou a fome em África e condenou este capitalismo selvagem que respeitáveis políticos, comerciantes, industriais e financeiros professam (sem vergonha nem remorso à vista).
Por mim, estou com Esteves Cardoso como estive, há anos, com o Papa: “Não podemos dar dinheiro a quem só pensa em dinheiro.”

Ribeira de Pena, 06 de Março de 2010.
Joaquim Jorge Carvalho
[O recorte-supra foi colhido, com a devida vénia, na edição do “Público” de 04-03-2010.]