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Número de Ondas

sexta-feira, 25 de dezembro de 2015

ZONA DE PERECÍVEIS (20)



O Natal como Júlio Dinis

Dou por mim a cruzar a ideia de Natal com Júlio Dinis. Quando ouço colegas e amigos fazendo planos para “ir à terra” passar a consoada, ocorre-me que a minha aldeia natal é a mesma do José das Dornas, da Morgadinha dos canaviais ou do Tomé da Póvoa. E aquele jantar de família, a 24 de Dezembro, apesar das tantas ausências, é um regresso provisório ao mundo simples e grato que Júlio Dinis inventou.
Comecei a ler este escritor aí pelos dez, onze anos. O primeiro romance que devorei foi As Pupilas do Senhor Reitor. Logo a seguir, veio Uma Família Inglesa (que revisitei no ensino secundário por esta obra fazer, à época, parte do cânone escolar). Depois, A Morgadinha dos Canaviais. Finalmente, Os Fidalgos da Casa Mourisca.
O que me encantou, desde muito cedo, foi a clareza e elegância da prosa, claro, mas também a espantosa qualidade dos vívidos diálogos e a tão perfeita arte de bem contar uma história. Uma história bem engendrada funda-se numa intriga, mas tem de, para ser literariamente relevante, compreender mais do que isso: é preciso que nela compareçam, de forma natural, elementos representativos da vida, da sociedade, da humanidade em movimento. Dessa circunstância depende a profundidade da adesão leitora, que decorre muito da verosimilhança do contexto, da ilusão de vida verdadeira em cada cena narrada, da concomitância do tempo narrativo com o tempo da própria existência física. Num grande romance percebe-se o tempo a passar, a vida a acontecer.
Os críticos de Dinis acusam-no de haver criado narrativas demasiado simples, na forma e no conteúdo. E a isto acrescentam que os romances são retoricamente ingénuos, porque – imagine-se – há neles a percepção de que os “bons” são sempre premiados e os “maus”, ou os “menos bons”, são sempre castigados.
Eu gosto de pensar que a principal característica de Júlio Dinis é a de, à maneira dos melhores clássicos, ele ter percebido que um romance pertence ao modo narrativo, logo que a eficácia e brilho da obra dependem, sobretudo, da arte de bem contar. A escrita serve (humildemente) a história – ou, no máximo, é consubstancial à história.
Em boa parte, é essa humildade do escritor que torna amável a literatura dinisiana. “Amável” significa aqui, antes de mais, literatura susceptível de ser amada.
Quanto ao resto (isso de a realidade não ser assim tão simples e bela como a que encontramos nas narrativas dinisianas), busco a resposta na saudosa – e genial – Maria Lúcia Lepecky, citando-a de cor: que culpa tem Júlio Dinis que a História, ao contrário das histórias do autor d’As Pupilas, se esqueça de acontecer?

Ribeira de Pena, 21 de Dezembro de 2015.
Joaquim Jorge Carvalho

[Esta crónica foi publicada no semanário O Ribatejo, edição de 25-12-2015.]

sábado, 19 de dezembro de 2015

ZONA DE PERECÍVEIS (19)


O duro desejo de durar


Há pouco tempo, um médico alertou-me, com cara de poucos amigos, para a iminência de algum ataque cardíaco. Mal me olhava, tão escandalosos lhe pareciam os valores da diabetes e do colesterol que lia nos exames. Rematou o aviso com medicação, ordem para novo estilo de vida e requisição de novas análises. Saí do consultório assustado como um empregado bancário que, por pouco, houvesse sobrevivido a um assalto.
Eu dou-me bem com a mortalidade, enquanto conceito, mas custa-me muito a concretude da morte propriamente dita. Com insuspeitada autodisciplina, abracei uma cínica dieta que, entre outras violências, compreendeu a abolição dos doces e sumos, a redução do número de pães consumidos por dia, a limitação dos hidratos de carbono, o respeito espartano pelos horários das refeições. Mais: obriguei-me a um exercício físico regular e quase diário, apesar do frio e da chuva frequentes neste cantinho transmontano onde resido. O sumário de tudo quanto aqui digo é simples: não quero (ainda) morrer.
Deu-se entretanto o caso de uma moça muito jovem, que conheci desde a sua infância, ter sido assassinada por um cancro. E de um rapaz de 18 anos, que ainda há pouco se cruzava comigo nos corredores da escola, se ter suicidado por (disseram-me) desgosto de amor. E de haver esta epidemia de os pais e as mães dos meus contemporâneos estarem a partir. O mais paradoxal é, em cada funeral, ouvirmos o consabido estribilho: “É a vida.”
Um grande poeta romeno, Paul Célan, escreveu um magnífico verso sobre esta assombração que me acompanha, desde a meninice, perante o mistério e a indignidade da morte: “le dur désir de durer” (o duro desejo de durar). No embalo desta aliteração, ecoa a contradição milenar da condição humana – permanentemente projectada sobre o futuro, mas consciente da sua inevitável finitude.
Há dias, vi um episódio muito interessante de “Odisseia no espaço”, com apresentação do físico Neil deGrasse Tyson, sobre a história de Gilgamesh, rei da Suméria (quase 3.000 anos AC). O narrador descrevia, com pormenor e imaginação, as conquistas desse herói mais ou menos lendário, sublinhando a sua demencial pulsão: descobrir o segredo da imortalidade. Acontece que a história desta personagem foi descoberta num épico mesopotâmico, escrito em tábuas com caracteres cuneiformes, exactamente com o título de Epopeia de Gilgamesh. Isto é, a imortalidade – ou algo parecido – talvez estivesse (talvez esteja) na palavra escrita.
Já não é mau. 

Ribeira de Pena, 12 de Dezembro de 2015.
Joaquim Jorge Carvalho
[Esta crónica foi publicada no semanário O Ribatejo, edição de 15-12-2015.]

quinta-feira, 10 de dezembro de 2015

Forever Music


 
Lembro-me do gesto antes da música –

O rapaz retirando o vinil do plástico

A conduzir a agulha do gira-discos

(Delicadamente)

Lembro-me de mim –

O rapaz sentando-se no sofá antigo

A letra da canção sobre os joelhos

O silêncio antes da música.

Lembro-me do disco rodando –

O céu saindo pelas colunas do som

A voz rouca dos versos, a guitarra eléctrica

O ritmo da vida por um baterista louco.

Lembro-me da música –

Esse rio deslizando para tão longe dali

Essa ilusão de eternidade feliz

Até ao inevitável mutismo

(Porquê?)

Da foz.

Nada me interessa senão recordar

(Delicadamente)

A música, ou aquilo de colocar a agulha

Sobre a faixa preferida do álbum

E de novo saborear a eternidade

Às voltas como se não houvesse

Fim.

 
Arco, 10 de Dezembro de 2015.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.audiopt.net.]

sexta-feira, 4 de dezembro de 2015

ZONA DE PERECÍVEIS (17)


5, talvez 6 sentidos

Almeida Garrett, que decorosamente convertia a sua libido em versos com flores e filosofia, versou o tema dos cinco sentidos aí por 1853. Num poema de Folhas Caídas, percebemos que a experiência sensorial do sujeito poético é fatal ponto de partida para a evocação e a presentificação da mulher amada.
Lembrei-me deste fenómeno ao passar pela porta de uma casa transmontana, logo pela manhã. Cheirava a café com leite. De imediato, saiu um jacto do meu coração em direcção à infância: a minha Mãe na cozinha preparando o pequeno-almoço, assim o odor quente de leite e café invadindo os quartos como uma carícia. Viaja-se pelo cheiro, portanto. Alguns perfumes devolvem-nos namoros que eram para ser eternos, ou então simples enlevos secretos e, não vos digo mais nada, proibidos. (Tive uma colega que, ao cheiro da bosta pecuária, se lembrava do querido lar paterno, fenómeno decorrente de a família criar gado e produzir leite para venda.)
Acontece-me o mesmo com alguns sons: a chuva no telhado que, coitadinha, se veio a tornar clichê de maus escribas, é quase sempre uma querida música com refrão familiar. E há algumas canções que logo nos tiram a poeira da idade e do cinismo, tornando-nos por segundos novamente românticos.
Também se viaja pelo paladar, claro. Já me sucedeu voltar à amada praia de Mira, ao tempo em que (como diria o senhor Pessoa) ninguém estava morto, apenas pela degustação de caranguejos ou de carapaus fritos.
E o tacto? A minha Mãe, que nunca leu Garrett, guardou certo cobertor que o mais novo da prole exigia, quando muito infante, para dormir. Porque, sabei, a textura do têxtil é hoje passaporte mágico para aquele tempo da absoluta inocência e felicidade.
Sobre a visão, nem valeria a pena escrever, tão desmesurado é o poder de, pelo olhar, sabermos quase tudo dos ganhos e das perdas da nossa existência: o meu sobrinho-neto gritando à roda da mesa natalina e a cadeira do meu amigo Conceição muito vazia do seu bigode trocista.
Um, dois, três, quatro, cinco sentidos. Não rima, mas é mesmo, creio eu, a conta que Deus fez. Há quem fale de um sexto sentido, normalmente associado às mulheres. Talvez seja verdade. A senhora D. Lurdes, uma querida vizinha nossa, deu conta às filhas, há um ano, de ter sentido, em certa (exacta) hora do dia, uma angústia nunca antes experimentada: era – disse - decerto o marido, internado no hospital por essa altura, a despedir-se do mundo. E, com efeito, o senhor Luís Monteiro, nesse instante, separara-se de nós para sempre.

Coimbra, 30 de Novembro de 2015.
Joaquim Jorge Carvalho

[Esta crónica foi publicada no semanário O Ribatejo, edição de 04-12-2015.]

quinta-feira, 3 de dezembro de 2015

Rua Augusta, n.º 25






Lembro-me vagamente desse tempo –
Tu inexistindo-me uns anitos
Ainda antes de me fazeres falta.
Há até testemunhas desse calendário,
Fotografias juvenis em que não estás
E por vezes ocorre-me que é engano.
Como poderia não haver o teu sorriso
A tua voz a tua pele o cheiro a ti
As tuas mãos consubstanciais às minhas?
É tão bom ser para sempre o nosso presente!
Partilhamos filha casas livros amigos contas
Mortes nascimentos medos sonhos muito Mar.
Digo: amo-te.
Tu já sabes (eu sei que sabes);
Mas não exactamente quanto,
Meu amor.
Olha que eu te amo mais do que algum dia saberás!

Ribeira de Pena, 03 de Dezembro de 2015, no 32.º aniversário do meu casamento com a MP.
Joaquim Jorge Carvalho

[As fotos - enviadas pela VL por Email sem que a MP soubesse - são de há 32 anos. Portanto, de ainda agora.]

terça-feira, 1 de dezembro de 2015

ZONA DE PERECÍVEIS (16)

CR7, ou o cronista outra vez criança

A paixão pelo futebol é, em mim, uma das mais puras e perenes marcas da infância. Não tenho vergonha deste amor pueril e deliberadamente me sujeito à alienação semanal que ele compreende: a minha vida presa por uma bola na trave, uma defesa impossível, certo drible corrido que, por instantes, vale mais que literatura, emprego, saúde, vizinhança.
Ao longo de anos, coleccionei ídolos, sobretudo os de leão ao peito. O clubismo, como eu o vejo, é sempre uma história de amor – chega-nos dos pais, dos irmãos, de um primo divertido, de um amigo. Às vezes, também da própria dinâmica de vitória que, em certos ciclos (anos, décadas), alguns emblemas protagonizam e mediaticamente celebram.
Eu sou do Yazalde, do Damas, do Jordão, do Salif Keita, do Manoel, do Futre, do Figo, do Cristiano Ronaldo e, mais recentemente, do Bryan Ruiz. Tendo a desculpar, com preconceito sanguíneo, as falhas dos meus eleitos, desviando culpas para o estado do terreno, a brutidade dos adversários, a inépcia do treinador, a má vontade dos colegas, a venalidade do árbitro. Tudo isto há-de soar a criancice, mas (já vo-lo disse) é uma criança que sobre isto perora.
Tem-me doído muito, na presente época futebolística, o brilho mais baço do Cristiano Ronaldo. Sou seu feroz adorador desde há uns bons doze anos. Há nele tudo o que se quer de um grande jogador: capacidade físico-atlética, técnica, talento, ambição, eficácia. Marca com o pé esquerdo e o direito, marca de cabeça, desmarca-se, cruza e dribla de forma perfeita, é veloz como um felino na selva, eleva-se com a majestade de uma ave maior.
Os detractores, normalmente, diminuem-no face a Messi com um argumento escandaloso: o argentino é – dizem – um talento natural; a capacidade de Ronaldo decorre, ao invés (?), de muito treino, logo – dizem – é artificial. Como se a busca (esforçada, sistemática, persistente) da perfeição fosse, afinal, sinal de fraqueza ou demérito!
Eu, que admiro Messi porque gosto de grandes jogadores, sou do Ronaldo. E não quero saber se ele é vaidoso, arrogante, egocêntrico, infiel às namoradas. Nada tenho que ver com tal. Fernando Pessoa, o meu CR7 da poesia, também se dedicava ao álcool e à astrologia, e isso é, para mim, pouco mais que um folclore menor, quiçá irrelevante.
Dou graças, sim, por ser contemporâneo de Cristiano Ronaldo, o divino número 7 da selecção portuguesa.

Ribeira de Pena, 24 de Novembro de 2015.
Joaquim Jorge Carvalho

[Esta crónica foi publicada no semanário O Ribatejo, edição de 27-11-2015.]

domingo, 22 de novembro de 2015

Lugar & espaço



Maria Lúcia Lepecky é uma brasileira responsável por alguns dos melhores estudos jamais feitos sobre (e pela) literatura portuguesa. Faleceu dois dias antes de eu ter defendido a minha tese de doutoramento «Acção cenas e personagens na narrativa dinisiana: as pupilas do senhor escritor». É dela uma maravilhosa definição sobre "espaço literário": por oposição a "lugar" tout court, espaço seria, na ideia da autora, um "lugar semantizado", isto é, um lugar com sentido. Este sentido decorreria, muito simplesmente, da presença de humanidade (ou, em alternativa, direi eu, da saudade da presença humana).
Dito de outro modo: os lugares assumem-se como espaços se a si se acrescentarem olhares e passos de gente, sentimentos e emoções, histórias de amor. Em boa verdade, estes lugares, quando elevados à categoria de espaços, são consubstanciais à própria humanidade.
Não é preciso ler Júlio Dinis (ou outros escritores) para entender bem o que acima se diz. Basta passar pelos lugares que fazem parte da nossa vida - lugares da infância, da adolescência, da jovem adultez, da maturidade. Mesmo que, em vez da vozearia de uma dezena de crianças, no pátio do meu prédio, haja apenas o silêncio de um rectângulo de cimento, deserto e envelhecido. Mesmo que, em vez de centenas de operários entre a Fábrica da Estaco, a Fábrica da Cerveja, a Termec, a Fábrica da Triunfo, haja simplesmente ruínas e vegetação daninha, a rua vazia de economia e de raparigas louçãs. Mesmo que, em vez do Café A Brasileira, haja um pronto-a-vestir ou uma sala desocupada dizendo "Trespassa-se". Mesmo que, em vez de árvores, a minha rua tenha hoje prédios e prédios e prédios, cimento sem cor nem frutos. Esses lugares são espaços porque eu lhes empresto o meu olhar, o meu coração. A minha memória cheia de saudades.
A aldeia que Júlio Dinis inventou (e que eu amo) é um espaço também meu, porque o sinto e percebo como lugar com humanidade. Lugar comigo dentro.

Coimbra, cidade maravilhosa, 22 de Novembro de 2015.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida com a devida vénia, no jornal As Beiras.]

sexta-feira, 20 de novembro de 2015

ZONA DE PERECÍVEIS (15)

O direito à rotina

Por acidente de amor, coube-me em sorte desposar uma madeirense, de tal resultando que, ao longo dos anos, curti parte das férias estivais na maravilhosa cidade (antes, vila) de Machico. Quando lá, gosto de não ter automóvel a meu cuidado e de, feliz pedestre entre pedestres, acordar cedo, seguir com vagar até ao quiosque fronteiro à praia e comprar jornais, escolher uma mesa ao canto da pastelaria mais à mão para café e queijada, beber-comer-ler sem pressa, seguir depois para a praia, estender a praia sobre o calhau vulcânico, saborear o Sol, mergulhar, antes do corpo, os olhos no oceano, esperar que a mulher e a filha cheguem, conversar sobre os nadas e os tudos da vidinha e da Vida, almoçar baratamente, passear a digestão pelo largo da igreja, regressar à praia, dormir embalado pela canção das ondas e da vozearia humana que haja à volta, revisitar a frescura do mar - e enfim regressar à casa da família insular, passando de caminho, talvez, pelo hipermercado para comprar pão, fruta e peixe.
Nos primeiros tempos, o meu sogro afligia-se com esta minha rotina, temendo que se tratasse de um grande aborrecimento. Se calhava cruzar-se comigo, desculpava-se e prometia que, no fim-de-semana, se ele tivesse tempo, iríamos fazer algo de diferente (uma viagem ao norte da ilha, um almoço em certo restaurante do Caniçal, etc.). Acho que nunca verdadeiramente acreditou em mim quando lhe dizia, com absoluta sinceridade, que eu amava aquela repetição voluntária dos dias, que via como consubstanciação da querida tranquilidade e do pleno senhorio do Tempo.
Lembrei-me desse amor pela rotina logo que a televisão deu conta da carnificina ocorrida em Paris. Creio que a magnitude dessa estratégia se mede, para além do número assustador das vítimas mortais e dos feridos, também pela interrupção, quiçá para sempre, da normalidade. Ir ao Café lanchar ou comprar pão, ir ao cinema, ir à discoteca, ir a um museu, ir ao futebol, namorar num jardim público ou nos corredores de um centro comercial – tenderão a passar a situações perigosas (e, no limite da previsível paranóia, a evitar). No último domingo, suspendi a leitura do jornal, no Café, por ter visto sentar-se, em mesa próxima, certo desconhecido transportando uma mochila…
A Liberdade, como a vejo, tem essa concretude das manifestações da minha humanidade mais simples. O terrorismo é, em primeiro lugar, inimigo da Paz, naturalmente. Mas também, pobres de nós, da amável rotina que era, há tão pouco tempo, um inquestionável direito das pessoas de bem.

Ribeira de Pena, 16 de Novembro de 2015.
Joaquim Jorge Carvalho

[Esta crónica foi publicada no semanário O Ribatejo, edição de 19-11-2015.]

quinta-feira, 12 de novembro de 2015

ZONA DE PERECÍVEIS (14)

Presente suspenso

 0.           Nota prévia: Não faria sentido eu incomodar os leitores com dores pessoais, excepto se a prosa significasse, tocada pelo vosso próprio entendimento, um ponto de encontro verbal e uma forma (cúmplice) de aconchego. Dessa premissa parto.

1.           É uma menina muito linda, sempre com um sorriso cheio de luz no rosto e nos gestos. Vive com a tia, porque os pais pereceram há uns anos num acidente rodoviário. Está no 9.º ano de escolaridade: é boa aluna e pratica desporto.

2.           A tia é, como eu, professora. Dá aulas a alunos do primeiro ciclo. Dadas as circunstâncias, ela vê aquela miúda tão sua filha como a que deu à luz. As duas pequenas não são, portanto, primas - são irmãs. Jogam ambas futebol de salão no Grupo Desportivo de Ribeira de Pena e estão quase a terminar o ensino secundário.

3.           Vai para a universidade e lamenta-se, sorrindo embora, por não haver emprego que lhe permita fixar-se, um dia, na vila onde cresceu e onde, com frequência, nos cruzamos.

4.           Vejo-a (salvo erro, em Vila Real), já com ar de senhora crescida, mas sempre alegre e fresca como uma brisa de Primavera. Está quase licenciada e depois fará mestrado, como é costume nos dias que correm.

5.           É mestre já, na área de Fisioterapia. Vai para o estrangeiro à procura de trabalho. Disse-me, sorrindo como aquela aluna do 9.º ano, há uns anos, que a nossa casa é onde estivermos bem.

6.           Está no hospital, no Porto, disse-me a minha mulher. Tem uma doença grave, mas “aquilo” parece estar circunscrito e, em princípio, salva-se.

7.           Morreu hoje, aos 4 de Novembro de 2015. Complicações inesperadas, disseram-me. Vou amanhã, com a minha mulher, ao funeral, ambos atordoados e indignados com o brutal cinismo do Inverno.

8.           A Carla é (para sempre) uma menina muito linda, com aquele sorriso de luz. Ainda que me chamem doido, não saio desse Presente.

 
Ribeira de Pena, 04 de Novembro de 2015.
Joaquim Jorge Carvalho
[Esta crónica foi publicada no semanário O Ribatejo, edição de 11-11-2015.]

Merceeiro local


Queria ter uma mercearia
Antiga, artesanal e a granel;
Aviar porções a olho no papel
E apontar no rol a quantia;

Ter tempo de entreter cada cliente
Saber de cada medo ou esperança;
Ser um entre pares que, no presente,
São cúmplices d'idade e vizinhança.

Queria ser merceeiro na cidade
Num bairro discreto e popular;
Ser parte da pacata sociedade.

À hora, pelas sete, de fechar
Passar no Café Realidade
E pôr-me à janela a poetar.

Cabeceiras de Basto, 11 de Novembro de 2015.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.pequenoscriadores.blogspot.com.]

sexta-feira, 6 de novembro de 2015

ZONA DE PERECÍVEIS (13)

Ser assim ou assim-assim

  Fernando Paulouro Neves, na sua última crónica de “Notícias do Bloqueio” (na página 4 d’O Ribatejo), fala do caso Luaty Beirão com lucidez e elegância exemplares. Sobre esta situação concreta, portanto, não carece o jornal da minha prosa.
  Mas o caso remete-me para uma questão ética e moral (ainda) mais lata e profunda, passe a presunção: a do dever a que cada indivíduo está ontologicamente obrigado perante certos dilemas - momentos em que, digamos assim, não há direito a opções cinzentas, ao conforto do advérbio “talvez”, à prudência do adiamento, à cobardia da invisibilidade ou da indiferença.
 Temo que, ao contrário do que celebra Manuel Alegre na Praça da Canção, nem sempre haja alguém que, no momento certo e necessário, diga “Não” (ou “Sim”, conforme o contexto). Perante o extremo sofrimento físico e psicológico, que faria cada um de nós? Entre o emprego e a dignidade, entre a segurança e a liberdade, entre a refeição e a razão, entre a verdade e a sobrevivência – o que escolheria, se tivesse mesmo de escolher, cada um de nós?
 Ora, como diz certa personagem de Felizmente há luar!, de Luís Sttau Monteiro, há homens que se destacam da maioria e, pelo seu exemplo, nos obrigam a olhar ao espelho de nós próprios.
  Heróis como Luaty ajudam-nos a perceber o que, para além do que somos, poderíamos (deveríamos?) ser. Porque às vezes a vida cansa, mas um homem dança. Às vezes a meta não se vê, mas um homem crê. Às vezes o chão magoa, mas um homem voa. Às vezes o percurso é triste, mas um homem resiste. Às vezes não há caminho, mas um homem faz o caminho.


Ribeira de Pena, 02 de Novembro de 2015.
Joaquim Jorge Carvalho
 [Esta crónica foi publicada no semanário O Ribatejo, edição de 05-11-2015. As últimas frases do texto inscrevem, na presente prosa, versos de um poeminha meu já publicado em “Muito Mar”, “Viver apesar de”.]

quarta-feira, 4 de novembro de 2015

In memoriam Carla Gil (1987-2015)



É belo e breve o voo das borboletas, esses seres meio flores, meio Sol que cruzam, por instantes, as nossas vidas cinzentas. Digo adeus daqui a uma querida beleza voadora que partiu hoje, tão demasiado cedo, cheio de saudades daquele seu sorriso lindo, cheio (sempre) de flores e Sol. Adeus, tão linda Carla!

Ribeira de Pena, 04 de Outubro de 2015.

Joaquim Jorge Carvalho

sexta-feira, 30 de outubro de 2015

ZONA DE PERECÍVEIS (12)

Rua da Mãe

O Toninho da Farmácia publicou, na sua página de facebook, uma fotografia em que aparece ao lado de um desportista famoso. No mesmo dia, por coincidência, publiquei uma fotografia da minha Mãe, tirada no último Natal – um instantâneo dela vagamente sorrindo, cheia de idade. O Toninho pôs um like na minha publicação, eu fiz o mesmo à sua.
A Rita é a esposa do Toninho, conheço-a desde a escola primária, é muito boa gente. Para se meter comigo, sustentou que facebook “a sério” era o do marido: fotos e textos de pessoas mesmo importantes, famosas. Lá lhe respondi que a maior celebridade que eu conhecia era a minha Mãe. Não se desfez: “Eu falo de pessoas com direito a nome de rua, pá. Qual é a rua da tua Mãe?” E despediu-se, com um gesto gaiato, seguida pelo Toninho, ambos a rir-se.
Já não tive tempo de responder: que a maioria das pessoas importantes, mesmo as famosas, não chega a ter o seu nome em placas toponímicas, sobretudo se culpadas do consabido sacrilégio de estarem vivas. Dei simplesmente por mim, naquele Café coimbrinha, a pensar no ser humano que me calhou em Mãe. Dela vos digo: sofre pelo planeta inteiro desde que a conheço – família; vizinhos; pobres que televê ou encontra nas ruas por onde passa; variegadas vítimas do vazio da vida; velhices coetâneas sem saúde e, uma vez por muitas, sem esperança. Sempre a vi partilhar o magro bornal de suas palavras e economias com quem, a cada momento, mais precisava. Diz que gostava de ganhar o totoloto para poder ajudar mais.
A sua bondade é-me uma luz bem útil. A sua santidade (depurado este conceito do bolor e do ranço convencionais) é um pedagógico contraponto às nossas existências distraidamente venais. Por razões de coração e de filosofia, admiro e venero esta ONG. 
Ela chama-se Delfina e, já vo-lo admiti, não tem o nome inscrito na toponímia oficial. Mas eu hei-de dizer isto à Rita: “A rua da minha Mãe é o mundo inteiro. Embrulha!”

Ribeira de Pena, 25 de Outubro de 2015.
Joaquim Jorge Carvalho

[Esta crónica foi publicada no semanário O Ribatejo, edição de 28-10-2015.]

sexta-feira, 23 de outubro de 2015

ZONA DE PERECÍVEIS (11)



9 parágrafos com destino ao Mar

1. O pior não é o acordo ortográfico ser um crime – é ser um crime premeditado.
2. Baterem à porta dos nossos olhos e pedir licença para entrar – eis o princípio da amizade. Entrarem pelos olhos adentro sem pedir licença – isso é já o amor (ou, então, um murro bem dado).
3. Usa-se a expressão “actores políticos” para referir aqueles que actuam na cena política. Tendo em conta a qualidade dos envolvidos (e alguns tão óbvios erros de casting), afigura-se-me preferível a expressão “canastrões políticos”. E sobre o encenador, calma, nada direi senão paz à sua alma!
4. Deveria haver obrigação de exames médicos ao coração dos que, como eu, andam pelo mundo atentos à beleza transeunte. Digo-vos: não sei se estou preparado para o próximo Verão.
5. Havia uma piada, algures pelo século XX, que distinguia socialismo de capitalismo dizendo: “O capitalismo é a exploração do homem pelo homem; o socialismo é o inverso.” Lembrei-me disto quando ouvi um ex-deputado do PSD a defender que o seu partido defende a Europa e Portugal, e um dirigente do PS a defender que o seu partido defende Portugal e a Europa.
6. A literatura e o cinema são uma forma livre de viajar, mas nunca gratuita. Tenho muitas vezes pago o preço (doce ou doloroso) dos sustos provocados por alguma Beleza e alguma Verdade em páginas ou telas por onde ando. Nunca é simples. Nunca é inócuo.
7. O desprezo que muitos políticos votam à cultura e à educação é, em geral, um belo atestado da sua própria estupidez. Não se pode estimar o que não somos capazes de perceber. Quem não tem cultura nem educação, senhores, não dá pela falta da cultura ou da educação.
8. O mito de Sísifo descreve, com cínica economia, a vida de toda a gente. De um modo ou de outro, todos continuamente carregamos, montanha existencial acima, uma pedra pesada e resvalante. Mas a lição deste mito não é, creio, que “parar é morrer”. É mui simplesmente que “desistir é morrer”. Porque parar, atentai, não é assim tão mau. Eu, por exemplo, preciso muito de parar para reflectir e para escrever. Para resistir. 
9. Ficam-me, no final da labuta lectiva de 3ª Feira, bem debaixo da língua, certos versos de Ruy Belo - “É tão triste no Outono concluir / que era o Verão a única estação”. Saboreio-os como se fossem um fruto. Sabem-me, acreditai, a ondas do mar.

Ribeira de Pena, 19 de Outubro de 2015
Joaquim Jorge Carvalho
[Esta crónica foi publicada no semanário O Ribatejo, edição de 22-10-2015.]

quinta-feira, 15 de outubro de 2015

ZONA DE PERECÍVEIS (10)


Realidade bem dita

 
Por razões mais ou menos filosóficas e também devido a pura necessidade linguística, tendo a servir-me da realidade para verbalizar as minhas emoções, os meus sentimentos, as minhas ideias, os meus desejos - enfim, o meu genérico espanto de existir. A realidade ensina-me, digamos assim, a dizer a realidade. Pode, pois, suceder que uma árvore, a meio do caminho, tenha a forma de um ponto de interrogação sobre os dias; que um velho e uma criança cruzem de mãos dadas a passadeira e não se saiba que geração ajuda qual; que certo andrajoso em frente ao pronto-a-vestir mais chique da vila seja Karl Marx ou Jesus Cristo discursando em silêncio sobre a distribuição da riqueza; que uma rapariga fresca espreguiçando-se felinamente, enquanto conversa com a vendedora de fruta, seja um monumento da Beleza ou da Possibilidade. Etc.

Às vezes, os símbolos que a realidade propõe não são tão óbvios e imediatos como, por preguiça ou pressa, poderemos pensar. Há 19 anos, quando comecei a dar aulas em Ribeira de Pena, dei-me conta de que, em certa sala, o horizonte visual era nem mais nem menos que o cemitério. Lida ali, a metáfora afigurava-se-me óbvia: tratava-se da fatal Morte no meu caminho. Mas depois houve um rapaz que gargalhou, uma menina que se queixou, dois outros alunos que disputaram o alegre privilégio de escrever o sumário no quadro. Isto é: vozes, movimento, Presente. De modo que a imagem se (me) acrescentou de significado: era a Morte no meu caminho, sim; mas havia também, entre mim e Ela, os meus alunos, as minhas aulas, o supremo Durante que somos enquanto podemos.

Uns anos depois, durante o jogging habitual, entre a piscina municipal e o quartel dos bombeiros ribeirapenenses, à passagem pelo portão de acesso ao mesmo cemitério do parágrafo anterior, fui interpelado por um senhor vestido de negro, muito idoso: “Eh! Eh! Escute!” Outra vez me ocorreu que aquilo era a Morte semioticamente chamando por mim. Parei e, talvez com maus modos e voz mais sonorosa do que o normal, perguntei: “Que se passa?” O homem mirou-me, pareceu desconcertado, desculpou-se: confundira-me com outra pessoa. Portanto, reflecti eu, sem desistir do simbolismo da realidade experimentada, mesmo que o Fim andasse à minha procura, não era (ainda) a minha vez.

 

Ribeira de Pena, 10 de Outubro de 2015.

[Esta crónica foi publicada no semanário O Ribatejo, edição de 15-10-2015.]

terça-feira, 13 de outubro de 2015

Beleza


Eis Marylin num lugar qualquer,
A linda e luminosa serpentina:
Exibe um sorrisinho de menina
E a malícia de passos de mulher.

Talvez ela passando me olhasse
E visse o escravo enleio em que eu a via;
Talvez o seu sorriso resultasse
Da colecção de escravos que fazia.

Eis Marylin passando, já perdida -
Assim o tê-la visto. Assim a vida.


Coimbra, 03 de Outubro de 2015.
Joaquim Jorge Carvalho

quinta-feira, 8 de outubro de 2015

ZONA DE PERECÍVEIS (9)


O carrocel da Lídia

Esta crónica era para ser sobre as eleições do dia 4 de Outubro, mas a ideia morreu de melancolia e de sede. Desse falecimento resultou um outro texto não tão outro como isso. Com licença…
Em 1978, as festas em honra de Nossa Senhora da Piedade, num lugar mui conimbricense chamado Pedrulha, eram motivo de alegria geral – para os habitantes locais, em particular, mas também para os de lugares mais ou menos vizinhos, que ruidosamente invadiam bailes, concertos e feiras ambulantes.
Recordo aquele tempo como um banquete para os sentidos: som de sinos repicantes, de foguetes eufóricos, de bombos gordos, de música e publicidade altofaladas; odor de chanfana, de vinho, de laranjadas, de alfazema e de pólvora queimada; gosto de algodão doce e caldo verde muito quente; visão de meninas-raparigas-senhoras com vestidos tácteis, cabelos feéricos, olhos em modo de convidativos mares.
Eu vivia no Casal Ferrão, ali mesmo ao lado do lugar em festa, e tinha uma espécie de dupla nacionalidade porque o meu avô materno residia também na Pedrulha, a poucas casas do prédio do menino Daniel Abrunheiro (versão infantil do cronista genial que habitualmente lemos na última página d’O Ribatejo).
Ora, houve aquele domingo inesquecível em que o clã da família Mateus-Carvalho foi à festa. Depois do café & brandy dos adultos e dos gelados para as mulheres e crianças, seguimos para o carrocel. Logo na primeira viagem, aconteceu um acidente com a minha tia Belinha, avantajada e sanguínea mulher que era capaz das piores fúrias ou, com pequenos intervalos, das maiores manifestações de ternura e generosidade. Foi assim: após colocar os meus primitos Hugo e Pedro - de uns cinco, seis anos - sobre os animais disponíveis (talvez uma zebra e um burro), preparava-se para sair da plataforma e foi surpreendida pelo início do movimento circular. Desequilibrou-se e ficou de joelhos, agarrada, salvo erro, à zebra, barafustando, gemendo, vociferando. Ao som da música característica daquela engrenagem, víamo-la aos círculos, insultando o responsável pelo carrocel e igualmente, sempre que passava por nós (que ríamos como perdidos), a própria família. No final da corrida, lá saiu cambaleando, amuada, recusando quaisquer ajudas. A gente enxugava as lágrimas e disfarçava, como podia, as gargalhadas suspensas.
Décadas depois, a tia Belinha já é capaz de se rir também do episódio, decerto porque o (re)vê de longe, na condição tranquila de espectadora. Às vezes, é quanto basta, no carrocel da vida, para substituirmos a aflição pelo sorriso sereno e compreensivo. Como diria Pessoa em versão de Ricardo Reis, “Vem sentar-te comigo, Lídia, à beira do rio. / Sossegadamente fitemos o seu curso e aprendamos…”

Coimbra, 05 de Outubro de 2015.
Joaquim Jorge Carvalho
[Esta crónica foi publicada no semanário O Ribatejo, edição de 06-10-2015.]

sexta-feira, 2 de outubro de 2015

ZONA DE PERECÍVEIS (8)


Elogio da virtude

 
Na primeira aula do ano lectivo, voltei ao (celebrado) Diário, de Sebastião da Gama e falei aos meus alunos do valor da lealdade. É um vocábulo bonito, este: lealdade não tem o cariz canino-impositivo de fidelidade, tão-pouco o sentido acrítico-militar da obediência cega. Traduz, no dicionário dos dias, a confiança natural que há entre gente de bem. Quero dizer: a noção de que há acções que, por decência, praticamos, e outras que, pelo mesmo motivo, nos coibimos de praticar, em ambos os casos porque seria – digamos assim – feio e imoral fazer o inverso.

Lembro-me de, há anos, um indivíduo chamado Pina Moura, que viajou confortavelmente de comunista a socialista, e daqui a outra ideia qualquer ainda mais vantajosa, ter sido questionado sobre certo problema ético: como podia um deputado português defender, na Assembleia da República, leis que beneficiavam objectivamente os interesses de um grupo económico espanhol no negócio da energia, tendo em conta o facto de o deputado ser também, à época, em regime de acumulação, um empregado de “nuestros hermanos”? Com admirável desfaçatez, Pina Moura respondeu (cito de cor): “A minha ética é a ética republicana. Limito-me a cumprir o que está na lei.”

Ora, levado o argumento ao extremo, um cidadão da Alemanha, nos anos 30 e 40 do século XX, poderia – sem problemas de consciência – denunciar e maltratar judeus à vontade, uma vez que tais acções eram conformes às leis do Reich.

Aqui chegados, deixai que vos diga: são piores os amorais que os imorais, menos susceptíveis aqueles que estes de evitarem ou corrigirem comportamentos vis ou modos de pensar aviltantes. O imoral age contra a moral, normalmente de fugida, às escondidas (quiçá envergonhado do mal que concebe ou pratica). O amoral não (re)conhece a diferença entre bem e mal, pelo que lhe é indiferente o valor ético e a consequência moral dos seus actos. Aliás, a maior parte dos facínoras (anónimos ou célebres) são gente amoral.

Na campanha eleitoral ainda em curso, o maior ruído talvez seja, não o dos tambores e palavras de ordem pré-fabricadas, mas o da evidente hipocrisia dos políticos (com relevo, convenhamos, para Coelho e Portas quando falam, lacrimejando, dos “sacrifícios dos portugueses” e das famosas culpas alheias).

A própria hipocrisia tem uma dimensão amável, bem vistas as coisas, pois encontramos naquele que mente-finge-dissimula o pressuposto simpático de, lá no fundo, existir um certo nível de arrependimento ou remorso. Um leve resquício, direi eu, de humanidade. La Rochefoucauld, escritor francês do século XVII, cunhou formosamente esta ideia: “A hipocrisia é uma homenagem que o vício presta à virtude.”

 No final do sumário, depois de “Apresentação.”, “Natureza e objectivos da disciplina de Português.”, “Critérios de avaliação.“, “Algumas regras a observar durante o ano lectivo.”, os meus alunos escreveram: “O valor da lealdade.”
 
Coimbra, 27 de Setembro de 2015.
Joaquim Jorge Carvalho
[Esta crónica foi publicada no jornal O Ribatejo, ed. de 01-10-2015.]

quinta-feira, 24 de setembro de 2015

ZONA DE PERECÍVEIS (7)




Lugar do Caminho

Quase findo o jantar, à horinha de pedir café & conta, o meu amigo Francisco Botelho confidenciou-me: “Tenho leucemia.” Fora uma refeição divertida, aquela, até ao momento da brutal revelação: ele aduzira ideias para um livro, planos para a dinamização do roteiro camiliano em Ribeira de Pena, projectos turístico-culturais – e eu, a cada convite seu para colaborar, tinha dito que contasse (sempre) comigo.
Vinte anos antes, quando cheguei à vila transmontana de Ribeira de Pena, os colegas locais perguntavam-me com frequência: “Então? Já fizeste amigos aqui, Joaquim Jorge?” Eu dava-lhes uma resposta honesta: “Já me dou com bastantes pessoas. Mas um amigo, convenhamos, leva uns dez anos a fazer!”
Na verdade, foi preciso menos tempo para me aproximar do Francisco Botelho: primeiro, comecei a colaborar com o jornal que dirigia, o “Ecos da Ribeira”, escrevendo uma croniqueta, genericamente chamada “Lugar do Caminho” (que era o nome do meu endereço verdadeiro nesse primeiro ano de vida ribeirapenense); depois, ele quis agradecer-me pessoalmente os escritos e eu descobri, na sua pessoa, um magnífico cidadão do mundo, cultíssimo, generoso, cheio de sentido de humor, um pouco snob na elegância do vestir e do falar. Era também vagamente descendente de Camilo Castelo Branco e, talvez por isso (mas não só por isso), um dos mais inteligentes e sábios cultores da literatura camiliana que pude conhecer.
Camilo Castelo Branco casou-se, pela primeira vez, em Ribeira de Pena, com uma rapariga do lugar de Frúme, Joaquina de França. Embora tenha vivido pouco tempo nesta terra, muitas das suas novelas reproduzem memórias de lugares, gentes, costumes, lendas e eventos que o escritor então conheceu. Ciente do capital cultural e turístico que esse facto biográfico encerrava para o concelho ribeirapenense, o Francisco Botelho estudou, falou e escreveu muito sobre o assunto - e, entre outras iniciativas, veio a conceber um roteiro literário camiliano de altíssimo interesse para a divulgação da vila e para a dinâmica celebração da obra do escritor. Rapidamente, esse seu projecto ganhou adeptos, potenciou visitas, cresceu em alcance e dinâmica.
Sobreveio a doença, raios partissem a sorte. O Francisco Botelho soube que lhe restavam entre um e oito-dez anos de vida. O que faz um homem nestas circunstâncias? Eis: incrementou os jantares camilianos (cheguei a participar num deles, encarnando a figura do pai de Joaquina de França, num sketch que escrevi, a pedido do meu amigo); participou em muitos encontros literários; fez palestras; desempenhou o papel de cicerone nos roteiros que inventara. Mas fez mais, ainda: formou novos cicerones, entre jovens académicos locais, no pressuposto de que a morte de um indivíduo não poderia destruir-lhe um projecto tão válido como aquele.
A dita morte veio nem um ano depois da nossa conversa ao jantar. Nos anos seguintes, estive várias vezes com alunos meus em Ribeira de Pena, em visitas de estudo. E vi no terreno alguns formandos do Francisco Botelho, perorando com digno rigor sobre lugares, personagens e obras da literatura camiliana. Não tinham o brilho original do Mestre, é certo; mas eram, de certa divina forma, a sua amável continuidade.
Retenho desta evocação, para além da intransmissível saudade, uma lição existencial: a de que o nosso tempo tem o valor que lhe dermos. Não se trata apenas, sublinho, daquele clichê latino-modernista do “carpe diem”. Neste caso, significa sobretudo o dever do ser humano para com o Futuro: o meu amigo Francisco Botelho não deixou que a sua morte significasse o fim de um projecto formoso, ligado à (sua) terra e à figura de Camilo Castelo Branco.
Um grande poeta irlandês, Seamus Heaney, põe em questão – em certo poema de que nunca mais me esqueci – se não deveríamos, em vez de nos interrogarmos sobre o facto de haver ou não vida depois da morte, preocupar-nos com o inverso, isto é, se há ou não, bem vistas as coisas, vida antes da morte. Amen.

Ribeira de Pena, 21 de Setembro de 2015.
Joaquim Jorge Carvalho
[Esta crónica foi publicada no semanário O Ribatejo, edição de 23-09-2015. As fotos – datadas de 2007 – ilustram um dos jantares camilianos que o Francisco Botelho organizou.]

quarta-feira, 16 de setembro de 2015

ZONA DE PERECÍVEIS (6)

O sentido da urgência



Em Agosto de 1970, na barrinha da praia de Mira, enquanto as mulheres da família dispunham o farnel sobre a mesa e os homens bebiam cerveja ou babavam a testosterona perante a anatomia estival de turistas bronzeadas e ruidosas, eu tentei, pela primeira vez, nadar de costas. Aprendera já a técnica e conseguira, numa aula da primária que tivemos num tanque (amovível) do Loreto, dar três ou quatro braçadas. 
De maneira que, sem aviso, entrei na água doce e pus em prática os preceitos estudados. O sucesso do exercício superou as minhas melhores expectativas (como se costuma dizer): em movimentos sincopados, regulares, competentes, senti o corpo afastar-se da margem, flutuando como um colchão de borracha. Ao fim de alguns minutos, cansado, pude perceber – naquela periclitante horizontalidade que era – a distância considerável a que estava já da minha família. Afligi-me e quis inverter a marcha. Não sabia como fazê-lo, mas já vira o modo como os remadores procediam para conduzir os barcos: suspendiam o movimento dos remos num dos lados e remavam exclusivamente para o lado pretendido. Adoptei essa técnica também, mas esqueci-me de continuar a bater os pés. E dei por mim submerso, à beira de morrer. Desesperado, mexi exageradamente os braços e as pernas. Queria sair dali. Queria salvar-me. Ao sentir o chão sob os meus pés, tentei impulsionar-me até à superfície para poder gritar por socorro. Consegui-o por umas três vezes, mas depois senti-me sem força e resignei-me. Recordo a tristeza que me invadiu, mas também uma sensação superveniente de serenidade absoluta que, à luz da catequese do Bairro do Brinca, talvez fosse a antecâmara do céu (ao invés de mui biológica reacção à falta de oxigénio).
De súbito, uma mão forte devolveu-me a este mundo. Era o meu pai. Alguém me ouvira pedir por socorro e ele, sem hesitar, lançara-se à água para salvar o filho. Adito-vos um pormenor: o meu pai mal sabia nadar, nunca o vi senão dar uns mergulhos fugidios e atabalhoados no mar de Mira. Mas esqueceu-se, ali, das suas insuficiências e foi-me buscar à morte. Alguns familiares disseram, depois, que ele – em terra - vomitou tanta água quanto o filho. 
Lembrei-me deste episódio durante uma conversa sobre os resultados da guerra que, nos últimos tempos, procuraram abrigo na Europa. Bem sei que os recursos dos países são limitados, que há problemas associados à entrada em massa de (i)migrantes, que há leis para observar e respeitar. Bem sei, por outro lado, que os próprios migrantes, ao demandar a Europa, se expõem a sofrimentos e perigos colossais. Mas eu nunca me esqueci daquela vez em que estive, no fundo da barrinha de Mira, à porta do fim. Nem do meu pai que, ignorando a sua própria segurança, foi salvar-me, sem pensar senão na urgência de agir.


Ribeira de Pena, 14 de Setembro de 2015.
Joaquim Jorge Carvalho
[Esta crónica foi publicada no semanário O Ribatejo, edição de 16-09-2015.]

quinta-feira, 10 de setembro de 2015

ZONA DE PERECÍVEIS (5)

Certas palavras certas

Há uns 35 anos, a direção do Clube de Futebol União de Coimbra informou-me de que seria uns dos 3 juniores da equipa a subir a sénior. Tratava-se de uma altíssima distinção e eu andei durante todo aquele dia de Junho numa doce nuvem de felicidade. Felicidade quase perfeita, devo acrescentar. Porquê “quase”? Porque um dos meus colegas de equipa, frustrado com a sua exclusão dos eleitos, vociferou publicamente a indignação: achava que a decisão da direção fora errada e injusta. Eu, como lhe admirava o talento e sinceramente o estimava como amigo, quis dar-lhe uma palavra de consolo. Mas a minha atitude pareceu ofendê-lo (ainda mais): “Não leves a mal, pá, mas tu, em minha opinião, não passas de um óptimo jogador!” – disse-me ele.
Percebi que o tom do discurso era zangado, mas não deixei de agradecer (sem ironia) o adjectivo escolhido para o meu valor futebolístico: “óptimo”. Ele estranhou o meu agradecimento e reiterou a sua opinião: “Não leves a mal, a sério, mas é o que eu penso de ti: és apenas um óptimo jogador!”
Voltei a agradecer-lhe, sorrindo, e ele pareceu ficar fora de si. Rosnou entre dentes: “Não gozes, pá, estou a falar a sério!”
Até que alguém lhe perguntou: “O que é que queres dizer com óptimo, pá?” E a explicação veio: mui diversamente de superlativo absoluto sintético de “bom”, ele via naquele vocábulo um sinónimo de “mais ou menos”, “razoável”, “sofrível”.
Muito cedo aprendi o poder que há em saber e dominar as palavras. Em as articular com a competência e a oportunidade adequadas. Em as conhecer muitas e bem. Em as ordenar na gramática certa, no ritmo certo, ao serviço da retórica querida e necessária.
No romance Mares do Sul, de M. V. Montálban fala-se de um homem cuja importância se mede objectivamente pelo enorme volume de léxico que conhecia e utilizava em seu quotidiano. Em A honra perdida de Katharina Blum, de Heinrich Böll, encontramos o desconforto da protagonista face à corrupção que os seus depoimentos sofrem: os inspectores policiais trocam-lhe o substantivo “impertinências” [de certa personagem masculina, que ela abomina] por “ternuras”, traindo o sentido fundamental do enunciado; ou o adjectivo “bondosa” [aplicado a certa senhora que a ajudara] por “amável”, reduzindo a carga afectiva da descrição feita.
A minha professora primária ensinou-nos, aí por volta de 1972, que o sentido das palavras poderia, muitas vezes, explicar-se pelo contexto. Um dia, dei com um texto que falava da melancolia de certa personagem. Eu não conhecia, à época, a palavra melancolia. O contexto dizia-me que a palavra significava, ali, o mesmo que tristeza. Mas a docente, nessa ocasião, houve por bem explicar-me que, no caso da melancolia, se tratava de uma tristeza diferente, outra, misteriosa, que nem sempre tinha uma causa física, concreta, visível, conhecida.
E eu pude confirmar, nesse dia, que a minha tristeza secreta e profunda não bem era uma tristeza comum. Era, é melancolia - este eterno Outono em que, com breves interrupções, sempre vivi.

Ribeira de Pena, 06 de Setembro de 2015.
[Esta crónica foi publicada no jornal O Ribatejo, edição de 10-09-2015.]