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Número de Ondas

terça-feira, 20 de junho de 2017

ZONA DE PERECÍVEIS (92)



 
Apontamentos de viagem

 1. No primeiro Sábado de maio, a minha mãe foi abordada na igreja, ainda antes do início da missa, por um velhinho frágil, muito magro, quase transparente (ainda mais velho que ela própria). O senhor trazia consigo umas dezenas de papéis. E ele mesmo nos explicou que se tratava de orações por si copiadas à mão, numa elegante caligrafia como já não se usa. Levava os dias a passá-las para quartos de folhas A4 e, depois, distribuía-as por transeuntes. Deliberadamente fugia a fotocopiar as orações, por tal não ser – sustentava – “a mesma coisa". A oração tinha de passar primeiro pela sua mão, “para chegar aos outros já meio rezada”. Haverá nisto, creio eu, conteúdo para uma tese de doutoramento sobre caligrafia.

 2. Desde sempre, vejo as estações de comboios e os aeroportos como lugares muito belos e – sem contradição nenhuma – terrivelmente tristes. É nestes territórios de humanidade avulsa que sinto aquela absurda vontade de sofrer dita em verso, por Cesário Verde, a propósito do entardecer lisboeta. 
Em visita (benigna) ao Instituto português de Oncologia, no Porto, a acompanhar um familiar, eu voltei a sentir, há uns tempos, algo de semelhante. Já no regresso à vila onde resido, reflicto sobre a coincidência sensacionista: em que medida aqueles corredores são uma espécie de estação ferroviária ou de aerogare? 
Surpresa nenhuma. Creio que tudo, como sempre, tem que ver com a mortalidade. Frágeis, leves, voláteis, transitórios, indefesos, ali vejo seres, como eu, partindo ou vendo partir. Encontrando-se, desencontrando-se, despedindo-se.
Voltarei com o meu familiar ao I.P.O. daqui a um ano, segundo a agenda das consultas. Talvez aí nos reencontremos, queridos contemporâneos. Ou não. (Repito: talvez.) 
Talvez, sabei-o, é um delicado monumento linguístico à esperança, mas admite já a ominosa possibilidade da decepção. Uma ponte de cristal entre acreditar e resignarmo-nos. Entre sermos e termos de, um dia, deixar de ser. 
A rua da minha infância, quando havia vento, trazia os murmúrios de comboios indo e vindo. O nome oficial desta Estação é Coimbra B. A designação popular é Estação Velha (dita velha, notai, desde a meninice de quem agora, maduro, a recorda). E ocorre-me que essa é uma adequada designação da própria Vida: Estação Velha desde que nascemos. 

Ribeira de Pena, 13 de Junho de 2017. 
Joaquim Jorge Carvalho 
[Esta crónica foi publicada no semanário O Ribatejo, edição de 15-05-2017. O enunciado é uma nova versão de dois textos já anteriormente publicados no Muito Mar.]

terça-feira, 13 de junho de 2017

Os passos em volta


Não tenho a certeza de que aconteceu o que a seguir vos relato como tendo acontecido. Talvez se tratasse simplesmente de um sonho. Talvez seja um livro qualquer, lido há muito, subitamente reclamando importância na minha memória. Talvez fosse a imagem de um filme vagamente acompanhado por meus olhos cansados, nessas madrugadas pastosas em que não conseguimos dormir e tão-pouco estamos acordados. Encontrei-me com Deus. Ele estava dentro de um Austin Mini, atrás do volante.
O Austin Mini deste relato era um carro que comprei em 1983, usado e em muito mau estado, necessitando de reparação urgente a nível de motor, de chapa e de pintura. A ideia era comprar peças, avulsamente, e ressuscitá-lo, mas aquele automóvel nunca mais voltaria a andar.
Deus tinha as mãos sobre o volante, como se guiasse. Não sei bem descrevê-Lo. Talvez o seu rosto fosse semelhante ao de Herberto Helder, pouco antes de o poeta morrer. Eu disse: “Meu Deus!”
E ele: “Conheceste-Me logo?”
Eu continuei o meu grito: “Meu Deus! Este era o Austin Mini que comprei em 1983, com o dinheiro que ganhei a trabalhar na Fábrica Estaco!”
Ele disse: “Lembro-me bem da Estaco. Foi pena ter falido. Quando lá trabalhaste, havia muitas encomendas e muito dinheiro a entrar. Até para Singapura exportavam…”
Tanta sapiência confirmou que Ele era Quem era.
“És Deus?”
Ele assentiu com um sorriso omnipresente. Recordando isto, creio ter reparado em certo pormenor zigomático que, visto de agora, lembra o esgar inteligente do jornalista Daniel Oliveira.
Entrei para o carro e perguntei-lhe: “Que estás aqui a fazer?”
Deus levou alguns segundos a responder-me. Fê-lo serenamente, num murmúrio que só à custa de muita concentração me tornou audível o catecismo: “Não estou bem aqui. Aliás, não estou apenas aqui. Estou em toda a parte. Nunca to disseram?”
“E por que me apareceste? Isto é, por que estás a falar comigo em particular?”
“Sinto que andas triste. Incomoda-me que andes triste. Quero que me fales dessa tristeza.”
Eu, na verdade, nem sabia que andava triste. Pelo menos, não sabia que andava mais triste do que o habitual. A circunstância de Ele o perceber era a prova de que era Deus. Ou Herberto Helder.
“Pois bem, eu digo-Te o que me faz triste.”
Falei-lhe sobretudo da velhice, das doenças, da mortalidade. Das pessoas cujo desaparecimento é uma ofensa, uma indignidade, uma dor que nos torna para sempre deficitários de mundo e de felicidade. Da azia (física e metafísica) do ter havido e do já não haver. Percebi que ele sabia que eu falava de meu Pai, do mestre João (meu sogro), do meu amigo José António Conceição, do meu cunhado José Manuel, de juvenilíssimos alunos e de mães ou pais de juvenilíssimos alunos. Julgo até ter visto (mas não garanto) uma lágrima (ou uma promessa de lágrima) escorrendo por seu rosto de estátua viva, enquanto fingia conduzir o meu Austin Mini sem conserto.
Disse-me, então: “É a vida. A vida das pessoas também é feita dessas feridas que levam tempo a sarar.”
Eu disse: “Algumas não saram.”
Ele repetiu o que eu dissera, e a sua voz era exactamente como a minha: “Algumas não saram.” (Talvez fosse eu próprio a repetir-me.)
Deu-me para ficar nervoso: “Mas és Tu, segundo se diz, Quem fez o mundo, a vida. Por que raio há morte? Por que raio decidiste que haveria morte?”
Era este o momento, penso eu agora, de Ele falar da vida eterna que há depois da experiência terrena. Do “Vale de lágrimas” que antecede o Céu livre da morte. Mas não. Suspirou, encolheu os ombros e saiu do carro: “Isto da morte foi um erro. Lamento-o, sabes?”
E desapareceu.
Se isto que vos conto foi verdade, ainda houve tempo para eu ficar, por uns minutos mais, naquele carro mínimo, que comprei sonhando com viagens fantásticas, tardes de praia, namoro ambulante.
Saí depois para a madrugada, já a rua começava a sua lida utilitária de vozearias e de passos. A minha tristeza (que sempre escondo genialmente, para me furtar à piedade e ao falatório de circunstância) permaneceu comigo. Levo-a para todo o lado, até para crónicas de jornal.
No Sábado, à noitinha, voltei a ver o “Eixo do Mal”, na Sic Notícias. Tive outra vez a impressão de que o Daniel Oliveira fala bem e é fisicamente parecido com Deus.

Vila Real, 11 de Junho de 2017.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.publico.pt.]

quinta-feira, 8 de junho de 2017

ZONA DE PERECÍVEIS (91)



Serviço de urgência

Passamos a vida a adiar. Às vezes, fazemos bem. Mas a universal mania de procrastinar é, em si mesma, perigosa. De um momento para o outro, já fechou a loja, o balcão, o restaurante. Num piscar de olhos, passou-se (d)o prazo. Em menos de um fósforo, ardeu-se-nos a vida.
Se, à luz do preâmbulo, julgavam que eu vinha para aqui zurzir na ideia de descanso, estais redondamente enganados. Eu sou capaz de trabalhar horas a fio, mas a minha maior vocação é o ócio. Não o vejo como perda de tempo nem como actividade desprovida de méritos: é, aliás, coisa que requer disponibilidade e jeito. O meu Pai ia pouco à praia e era incapaz de aí ficar mais do que breves minutos a olhar para o mar. Levava-nos e fugia, com ou sem pretextos (a minha Mãe desconfiava, quase sempre, de saias). Era, para mim, um mistério esta incapacidade do meu Pai: ele tinha consigo o rádio de pilhas, jornais, cerveja, filhos para jogar futebol, mas era-lhe insuportável a quietude de estar-simplesmente-ali, sem um objectivo (digamos assim) prático. Chegámos a sentir pena do patriarca, tão fora da nossa felicidade absoluta: ele não percebia que ali era o espaço da liberdade mais linda, da paz feita de Sol e de odor oceânico, das raparigas bonitas desfilando pelo areal, de pão com marmelada e livros, de mergulhos e cambalhotas, de imortalidade.
Regresso ao Presente. O fim-de-semana que passou era uma excelente oportunidade para eu ir à praia. Mentalmente, fizera o itinerário há uns dez dias, enquanto bebia uma cerveja preguiçosa no ocaso de certa tarde muito quente. “Apetece-me muito ir à praia”, disse-me eu sem mexer os lábios. “Concordo”, respondi-me, sem que outrem pudesse ouvir. Ficou combinado.
Entre os planos e a concretização dos planos, meteu-se a vida de permeio (como diria o beatle Lennon): luzes de casa para substituir, carro da Filha para levar à oficina, testes para classificar, consulta de dermatologia para a Mãe. No meio da azáfama burguesa, ainda havia espaço para espreitarmos a praia da Tocha? Havia. Enrolou-se-me, contudo, a famosa serpente da fadiga, espécie de pântano com braços, que simpaticamente nos vai afogando pés, pernas, tronco, vontade. “Hoje, já não vamos”, disse-me eu, no Domingo, sem mexer os lábios. “Também já não me apetece”, respondi-me, sem que outrem pudesse ouvir.
Tudo isto é demasiado prosaico, receio eu, para o inscrever em crónica de jornal decente. Mas, já no encerramento de Domingo, em vésperas do regresso à lida transmontana, aconteceu-me falar em família naquela ideia antiga de arrendarmos, talvez em Agosto, uma casa na Tocha, dividindo despesas e convivendo todos por uma semana ou duas. E de, ao entusiasmo espontâneo, sucederem algumas reticências, porque alguém se tinha comprometido já com casa no Algarve, porque alguém comprara já bilhetes para a Madeira, porque vinha família do estrangeiro na mesma altura, porque não se sabia o que podia acontecer entretanto (gente idosa &, doenças), etc. Então, eu disse, num bocejo resignado: “Não há problema. Se não for neste ano, vamos no próximo. Temos tempo.”
Ora, nesse instante, a minha querida Mãe, provavelmente a marimbar-se para a praia e a pensar em paisagens mais além, contrapôs: “Cada vez temos menos tempo.
De modo que é assim: adiar é coisa perigosa. Já vo-lo tinha dito?

Coimbra, 05 de Junho de 2017.
Joaquim Jorge Carvalho
[Esta crónica foi publicada no semanário O Ribatejo, edição de 08-06-2017.]

sábado, 3 de junho de 2017

ZONA DE PERECÍVEIS (90)


Elogio da normalidade

Há umas décadas, por alturas da Páscoa, comprei um saquinho de bombons de origem francesa, que se caracterizavam, em especial, pelo imaginoso invólucro do chocolate – uns (assim chamados) papillottes, no verso dos quais aparecem axiomas, versos, provérbios. Retive um texto em particular, cuja autoria lamento não ser capaz, agora, de reproduzir (e cito, obviamente, de cor): “Enganam-se os medíocres que pensam ser possível disfarçar a sua mediocridade quando alcançam lugares elevados. Sucede o contrário: sob a luz da ribalta, os defeitos tornam-se mais notórios e ridículos.”
O conceito é-me muito caro e pertinente. E apetece acrescentar, em coerente contraponto, que no caso dos excelentes é provável que se potencie a percepção da sua honesta excelência.
Utilizei, há muitos anos, este raciocínio para troçar de Bush, o ex-presidente do Estados Unidos da América. Talvez me tenha precipitado, sinto-o agora; aquele papillote estava à espera de uma avantesma maior, de um putativo comandante-em-chefe ainda mais improvável. Falo-vos de Donald Trump, aquele saloio rico que está hoje à frente da maior potência do planeta. 
Já passou, mais ou menos, aquele primeiro choque da eleição de um boçal abastado, sem escrúpulos nem cultura, sem maneiras nem humanismo, sem vergonha na cara nem nos discursos. Já passou, mais ou menos, a estupefacção perante o facto de milhões de americanos o terem escolhido (incluindo-se nesta multidão as óbvias vítimas a haver). Por muito má que fosse a senhora Hillary, não era possível o que foi possível – eleger aquela inchada torre de nada.
Ao longo de quase meio ano, confirmámos a impreparação desta criança mimada e serôdia: a sua vacuidade, o seu patológico egocentrismo, os seus erros ortográficos no twitter, as suas falhas de conhecimento em Geografia, História, Administração Pública, Segurança, Política Ambiental. Vimo-lo, não há muito, pela Europa, passeando com a sua esposa-troféu, fazendo esgares autoritários, beicinhos infantes ou poses de esforçada concentração (acenando com a cabeça para os outros perceberem que ele percebia muito bem o que lhe diziam).
A sua linguagem afigura-se, às vezes, tão minimalista como a de um aluno do 1.º ano ou a de uma tia chique e oca: é tudo sensacional-espectacular-fantástico-maravilhoso-fixe, ou horrível-horroroso-horrífico-mau-mesmo-mau. É tudo a coisa melhor de sempre (ou do mundo), a maior de sempre (ou do mundo), a mais deliciosa de sempre (ou do mundo), mas pode também ser a coisa pior de sempre, a mais intragável de sempre, a mais odiosa de sempre. O mundo está, naquela cabeça cheia de ar, dividido entre bons e maus - estando consigo os bons e contra si os maus, naturalmente.
Entretanto, é capaz de despedir um director do FBI porque este não suspendeu investigações embaraçosas para a presidência, de vender armamento num valor de milhares de milhões de dólares à sinuosa Arábia Saudita, de revelar alegremente segredos militares à Rússia, de prometer a resolução rápida e não tão difícil como se diz do conflito israelo-palestiniano.
O que se salva disto é a liberdade que há – ainda – no país de Faulkner, Steinbeck e Hemingway, onde indivíduos e instituições não se demitem do seu dever de zelar pelo Estado de direito (agora sob ameaça, como se tem visto). A liberdade e o humor corrosivo de muitos homens e mulheres habituados a ser livres. Entre tantos, daqui celebro um gigante chamado Stephen Colbert, que apresenta o programa televisivo The Late Show, na CBS. Divirto-me tanto a ouvi-lo quanto decerto se incomoda o anafado big boss do nosso descontentamento. A última proposta de Colbert foi que os juízes federais aproveitassem o périplo presidencial pelo estrangeiro para aprovar finalmente o fecho indiscriminado das fronteiras, propostas por Trump, a quem quer entrar nos Estados Unidos.
Nunca como agora o mundo percebeu como Obama era um presidente decente. No mínimo, porque era um presidente preparado, competente, previsível. Numa palavra, normal.


Vila Real, 27 de Maio de 2017.
Joaquim Jorge Carvalho
[Esta crónica foi publicada no semanário O Ribatejo, edição de 01-06-2017.]

domingo, 28 de maio de 2017

ZONA DE PERECÍVEIS (89)


Uma fraude chamada ensino vocacional

O tema cai-me nos braços durante uma conversa, em Coimbra, à hora do café domingueiro, num centro comercial que serve de espreguiçadeira à pequena burguesia do meu contexto. Certa colega queixa-se, chorando, das grosserias (impublicáveis) de alunos de um curso vocacional. À notícia da violência, o seu director, diz-me ela, agiu de imediato, como lhe competia: falou com a turma, lembrou-lhes os direitos e os deveres dos alunos, ameaçou-os com punições e, enfim, incentivou-os a melhorar o comportamento em nome do sucesso escolar e da cidadania. Entre parênteses, introduziu uma nota sentimental, referindo o estado sofrido e frágil da docente queixosa, em lágrimas no seu gabinete. No dia seguinte, conta a colega, o inferno regressou: foi recebida com cantilenas jocosas, em que a palavra “chorona” aparecia como mote, refrão & voltas, entre gargalhadas e paródias de carpidação. 
O ensino vocacional, de que o auto-incensado ex-ministro Crato se ufanava – e serodiamente se ufana – é, em Portugal, uma quase absoluta fraude. Alunos com insucesso recorrente, por motivos que vão de incapacidades várias e respeitáveis à mais pura preguiça, e que se movem, regra geral, num quadro de clara desmotivação, são conduzidos para cursos vocacionais de cariz diverso – informática, agricultura, jardinagem, etc. Na prática, os piores alunos da Escola, quer do ponto de vista do rendimento, quer do ponto de vista do comportamento, juntam-se em grupos potencialmente (corrijo: fatalmente) explosivos, e “estudam”, em disciplinas consideradas fundamentais, o mesmo que os alunos do ensino regular/tradicional: em Português, Cesário Verde, Eça de Queirós, Garrett, Saramago; em Matemática, Álgebra, Geometria, e por aí adiante.
Fechados nas salas de aula, como antes, sujeitos ao mesmo tipo de ensino em que sobejamente se mostraram insusceptíveis de adaptação – eles reagem de forma impaciente, depois incorrecta, depois agressiva e grosseira. Tacitamente percebem que o sistema pretende oferecer-lhes, para sua (do sistema) própria sobrevivência, o diploma, pelo que pouco ou nada têm a perder com as atitudes menos adequadas que adoptam. Para piorar o panorama, sucede que a reunião de alunos problemáticos num mesmo grupo/turma tende (é dos livros) a potenciar os comportamentos disruptivos, a marginalidade, o puro Mal.
As vítimas, para além dos próprios discentes (condenados a ser, naqueles contextos tipificados, os vilões ou fracassados da Escola) são sobretudo os professores. Sei do que falo: não é só o penoso quotidiano de enfrentar as feras cinco, seis ou sete horas por semana (sujeitos ao enxovalho repetido, à desautorização, à vil rudeza e, em alguns casos, à agressão verbal ou física) – é ainda a miserável depressão em que mergulham, vivendo-vegetando tristemente, contando as aulas que faltam para acabar o pesadelo. Os alunos podem faltar, não fazer os seus módulos, manifestar todo o desprezo e nojo que lhes suscitam a matéria e o docente, mas é o professor que, em consequência, tem de compensar as aulas que as majestades discentes perderam, e de elaborar novas provas que finalmente aprovem (como é suposto/obrigatório) os “estudantes” relapsos.
Se o ensino vocacional não fosse a anedota que é em Portugal, estes alunos teriam aulas diferentes, em espaços diferentes, com matérias diferentes. A colega de Coimbra diz-me que já desistiu de fazer participações disciplinares (“Não lhes acontece nada e ainda acabam por gozar comigo ou por me ameaçar…”), de solicitar aos alunos que desliguem os telemóveis e não durmam nas mesas, de ordenar que não usem palavrões na aula, de pedir que se virem para a frente (“Para olhar para si?! Ainda se fosse nova e boa!”). Chora, pois, em silêncio, sobretudo em casa. Agarra-se aos seus alunos do 8.º ano (que são “educados, correctos, normais e querem mesmo aprender coisas”) por eles a fazerem sentir-se, ainda, um bocadinho professora. E risca no calendário as aulas que vai cumprindo no curso vocacional, como (diz-se) fazem os prisioneiros ou degredados de longa duração.
O Doutor Crato que limpe as mãos ao que, para glória fátua do seu umbigo fátuo, inventou.

Vila Real, 20 de Maio de 2017.
Joaquim Jorge Carvalho
[Esta crónica foi publicada no semanário O Ribatejo, ed. de 25-05-2017.]

sábado, 20 de maio de 2017

ZONA DE PERECÍVEIS (88)



Aparição


Num dos seus grandes romances, Aparição, Vergílio Ferreira relata um episódio cheio de uma religiosidade estética que para sempre me impressionou: uma menina (Cristina) toca piano de forma tão bela que Alberto Soares, a personagem principal da narrativa, voa para fora de si próprio e, por instantes, parece atingir o Absoluto. 
Num ensaio sobre a ideia de clássico, o escritor sul-africano (nobelizado) J. M. Coetzee fala do seu encontro com Bach, num improvável contexto de ruralidade e simplicidade tropicais, desse modo provando, com base em sua própria experiência, a natureza mágica, transtemporal e universal da arte (neste caso, da música).
Aconteceu comigo, aí por Março do corrente ano, enquanto tardiamente jantava, ouvir cantar, na televisão, um moço de aspecto estranho. Sobre o meu sofá (sobre o meu prédio, sobre Ribeira de Pena) caiu um manto de inefabilíssima beleza. Aos gritos, chamei a minha mulher, ocupada a corrigir testes de Português, e pedi-lhe que comigo testemunhasse o que ali se passava. E ela sucumbiu, como eu, ao encanto que vos digo. O rapaz, soubemos depois, chamava-se Salvador Sobral e a canção, “Amar pelos dois” (letra e música de Luísa Sobral, irmã do cantor). O programa que passava era o Festival RTP da Canção, primeira eliminatória. E nós, que há mais de vinte anos ignorávamos ostensivamente este concurso tão cada vez mais pimba, ficámos, desde logo, a torcer pelo apuramento daquele concorrente. Um júri formado por gente da música e do espectáculo deu-lhe, por unanimidade, o 1.º lugar. Mas o sistema de votação, como a seguir percebemos, também implicava votos telefónicos da turba espectadora – de modo que “Amar pelos dois” ficou, salvo erro, na 4ª posição (ainda assim apurado para a final).
Na minha Escola, para além deste vosso cronista, o maior entusiasta da canção foi o professor de Música. No geral, notei só indiferença ou menosprezo. Veio a final e Salvador Sobral voltou a convencer o júri, apesar de obter apenas um 2.º lugar no televoto. Contas feitas, foi declarado vencedor e eleito representante da RTP no Festival da Eurovisão, em Kiev (Ucrânia). Eu estava, na altura, a borrifar-me para o Eurofestival, juro. Mas atrevi-me a, nesse mês de Março, fazer um pequeno comentário no Facebook sobre o tema escrito pela Luísa Sobral. Online e ao vivo, entre agradáveis cumplicidades, soube igualmente de uma espécie de desprezo, ora pedante, ora bruto, à volta da canção. As opiniões mais patuscas (para ser simpático) diziam que “aquilo não era nada”, que seria “mais uma vergonha para Portugal lá fora”. E eu bem tentava responder-lhes que isso dos votos não me interessava coisa alguma, que apenas me parecia profundamente bonita a canção, que o Salvador Sobral era um grande intérprete, que eu nem sequer estava interessado em telever o Festival.
Entretanto, segundo li depois, as “bolsas de apostas” começaram a falar do – surpreendente – favoritismo da canção portuguesa. Músicos consagrados (incluindo, por exemplo, o senhor Caetano Veloso) confessaram-se encantados com “Amar pelos dois”. Notei, então, online e in vivo no Café diário, um certo incómodo da parte dos “especialistas” em eurofestivais, que temiam estar errados. Lá admitiam que talvez fosse bonita a melodia, sim, mas – acrescentavam – “não era para festivais”.
Finalmente, sucedeu que o Salvador Sobral e a irmã convenceram alguns milhões de ouvintes/telespectadores: aconteceu-lhes, creio, o mesmo que a mim e à minha mulher naquela noite de Março, quando a Beleza desceu sobre Trás-os-Montes e nos fez reféns (gratos) daquela melodia e daquela voz.
Não assisti em directo ao concurso (estava em Vila Real a ver o meu Sporting perder com o Feirense). Mas a minha Filha, via telefone, foi-nos relatando, no regresso a Ribeira de Pena, o que ia sucedendo. E o que os três nos rimos quando soubemos da irónica conclusão disto tudo: a tal canção que, por muito bonita que fosse, “não era para festivais”, tinha ganho!
O que veio depois já é do domínio lamentável da pimbalhada mediática (só faltou dizer-se que o Salvador era o quarto pastorinho de Fátima). Eu não sou fã do rebanho patrioteiro que foi para o aeroporto cantar o hino de Portugal, e muito desconfio que o Salvador Sobral também não. Talvez, até, se o adivinhasse, ele houvesse optado por recusar o convite da irmã e preferisse ficar descansado a cantar o seu jazz (a propósito: ouçam Excuse me, o primeiro álbum do rapaz – e deliciem-se).
Sumário de quanto vos queria dizer: nasceu uma formosíssima canção, “Amar pelos dois” (que confirma o talento da Luísa Sobral) e revelou-se-nos um extraordinário cantor (e músico), Salvador Sobral. Desejo aos dois irmãos, da varanda d’O Ribatejo e do meu coração, muitas felicidades para as suas carreiras. Por eles e por mim, que gosto de música e de arte em geral.

Vila Real, 15 de Maio de 2017.
Joaquim Jorge Carvalho
[Esta crónica foi publicada no semanário O Ribatejo, edição de 18-05-2017. Na versão digital do jornal, o texto é exactamente o mesmo; na versão em papel, por razões gráficas, os primeiros dois parágrafos não aparecem. A foto (com Salvador Sobral e Luísa Sobral) foi colhida - com a devida vénia - em http://www.flash.pt.]

sexta-feira, 12 de maio de 2017

Mar de mim


O Mar:
Versão eternamente virgem de si
Repetição afinal não afinal novidade
Corpo absoluto do Tempo
Filme de acção sem princípio nem fim
Máquina de estar sempre a acontecer
Vidas, Vida.

Olhai, senhores, a espuma
Memória da última onda
Expectativa do que há-de seguir-se
Esperanças.
Olhai, senhores, a vaga nascente-crescente
Adamastor esbracejante e magno
Hipérbole do limite excessivo de si próprio.
Olhai, senhores, a rebentação na areia
Os milhares de átomos da bruta força
A espuma.

O Mar:
Eu ao espelho da minha infância
Eu durante a enganosa imortalidade dos sonhos
Eu espalhado pela areia insegura
Eu espuma.

Arco de Baúlhe, 09 de Maio de 2017.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, na internet.]

ZONA DE PERECÍVEIS (87)


Expectativa e surpresa

A rotina, ao contrário do que defendem alguns idealistas, é (ou pode ser) um espaço de felicidade, oferecendo-nos um dos mais belos, embora prosaicos, rostos da maiúscula Paz – a segurança. Mas é-nos indispensável também, convenhamos, a expectativa de uma surpresa que nos salve da repetição bruta e cínica. Consola sabermos que o Sol voltará depois do ocaso, e que a noite interromperá, em (e por) tempo oportuno, o ruído fatigante da selva por onde andamos de dia. Sorrimos à probabilidade de vermos rostos conhecidos nos lugares habituais; de ouvirmos as vozes que é costume ouvirmos; de testemunharmos o funcionamento regular da vida antes de falir. Mas secretamente esperamos que uma qualquer novidade alienígena venha colorir esta amável pasmaceira das horas, seja na forma de um rosto tão lindo que não podia ser verdade, seja na qualidade de um telefonema, carta (ou email) de gente amada, seja ainda como abraço vosso, ou livro do Ondjaki, ou canção do Salvador Sobral, ou golo do Cristiano Ronaldo.
(A ideia do golo mete-se-me na escrita, mas a aparição dá-me jeito.)
Acordamos para a vida como quem se prepara para ir a um campo de futebol, com a ideia de assistirmos a um jogo do nosso clube. Tudo é, na base, repetição, rotina, protocolo: estacionar o carro, comprar o bilhete, esperar na fila, com as outras formigas, pela revista das forças de segurança, procurar o nosso lugar, aplaudir o anúncio da equipa titular, sorrir ao nome do árbitro (que já nos prejudicou milhões de vezes). Depois, começa a partida – e tudo é movediço e etéreo como alguns sonhos: sobre um chão de regras, de tácticas e de estratégias, vemos numerosíssimas danças mais acontecidas que ensaiadas, falhanços impossíveis (inadmissíveis), ressaltos de sorte & azar, glórias anunciadas ou improváveis, pesadelos adamastores, gritos, cânticos, palavrões, desassossego, dúvida, esperança, medo que já não haja tempo para um final feliz.
A boa literatura tem muito desta mesma mistura, seja qual for o modo por que viajemos: nos bons romances e nos bons dramas, a sistemática repetição de gestos e eventos dá-nos a ilusão do tempo a passar (tempo realista, verosímil, político, isto é, tempo percebido-sentido na nossa pele, com rugas e tudo) - e depois há, por exemplo, a surpresa de um amor impossível que, por milagre, se afigura possível, e que depois, como temíamos (temêramos) falece tragicamente. Na poesia, por entre frases denotativas e simples, refulgem versos originais e provocatórios que nos mudam, para sempre, a linguagem e a própria vida, ou sons que, partindo da normalidade comezinha, desaguam subitamente em rimas, assonâncias, aliterações, música (dita-ouvida-pensada).
O meu dia começa com o toque do alarme para despertar. Levanto-me. Abro a janela e peço instruções à paisagem para a roupa (muita ou pouca) a usar. Tomo 50 mg de Losartan para a tensão. Faço a barba, lavo os dentes, tomo banho, visto-me. Se o relógio me autorizar, ainda bebo uma chávena de café e engulo um pão com manteiga. Beijo a mulher. Desço a escada, ponho o carro a trabalhar, ligo o rádio, viajo. Na escola, cumprimento os contemporâneos habituais da minha sorte e começo a trabalhar. No meio desta virtuosa rotina, hão-de acontecer-me, sei-o bem, coisas extraordinárias. Talvez versos (lidos, escritos, quiçá testemunhados em seu estado de pré-literatura). E, caros amigos, como poderia eu (como poderíamos nós) viver sem esta expectativa?

Coimbra, 06 de Maio de 2017.
Joaquim Jorge Carvalho
[Esta crónica foi publicada no semanário O Ribatejo, edição de 11-05-2017.]

O carpinteiro sem jeito



Era uma vez um viúvo com dois filhos a cargo. O mais velho cedo começara a acompanhar o pai nos trabalhos do campo. O mais novo, apesar de mostrar uma inteligência invulgar e uma enorme aptidão para a escrita, era visto pela população como preguiçoso e inútil: mal sabia cavar, cansava-se (ou aborrecia-se rapidamente) e não poucas vezes era apanhado pelo irmão mais velho a ler, escondido atrás de uma árvore ou de um muro, livros de aventuras. O pai irritava-se com ele e, de vez em quando, castigava-o à noite, suprimindo-lhe o jantar. 
O padre da aldeia, que andava a ler As pupilas do senhor reitor, de Júlio Dinis, sugeriu que o viúvo pusesse o filho num seminário, pois a vida religiosa garantiria ao rapaz uma vida virtuosa, merecedora do respeito de todos e, assim que se ordenasse, também com direito a casa e a comida oferecidas pelos paroquianos que lhe coubesse em sorte. E lá foi o rapaz para o Porto, sem entusiasmo que se visse. Desistiu, contudo, ao fim de poucos meses. 
- Aquilo não é para mim, meu pai. Eu prefiro a natureza, o convívio com as pessoas… e hei-de querer, um dia, uma mulher e uma família!
O pai encolheu os ombros e tentou, com paciência de santo, ensinar-lhe o ofício de carpinteiro (ocupação a que se dedicava o próprio irmão, há trinta anos). Mas o filho revelava pouco jeito e era frequentemente vítima da troça do tio (irmão do pai), que a toda a gente garantia, sobre o sobrinho, que era “a maior ave rara que já vira na vida”.
Aos vinte e dois anos, o irmão mais velho era já um lavrador respeitado pela aldeia e arredores. O pai lamentava-se:
- Que há-de ser do futuro deste rapaz? Agora deu-lhe para escrever versos!...
O tempo passou. Morreu entretanto o tio carpinteiro e o poeta teve de se dedicar mais a sério à carpintaria. Mas era mais frequente vê-lo na escrita do que a serrar tábuas ou a martelar pregos. Pouco dinheiro retirava do seu trabalho, na verdade. Por piedade, o irmão, já casado e com filhos, lá o convidava para almoçar ou jantar, pois bem notava a sua magreza e a sua palidez.
Até que a escrita de tantos anos deu em compensar: veio um prémio de Lisboa, atribuído pelo Ministério da Cultura; depois, uma medalha oferecida pelo Presidente da República; elogios, dinheiro e prestígio de indivíduos e instituições diversas.
O carpinteiro tornou-se escritor famoso e quase rico. Na condição de remediado, o irmão mais velho, certo dia, lamentou-se na tasca do Manuel Tibúrcio:
- Fartei-me de trabalhar e mal ganho para as sopas. O meu irmão passou a vida a escrever e só falta beijarem-lhe os pés… Acha justo, ó Tibúrcio?
Foi um velho professor, já reformado, quem lhe respondeu:
- Tu és um homem bom, trabalhador e honesto, não há dúvida! Mas o teu irmão não te fica atrás – o seu ofício é que é outro. É um poeta!
- E para que serve isso, senhor professor? – reagiu o taberneiro, que estava inclinado a tomar o partido do irmão mais velho.
O professor suspirou e disse:
- Para pôr em palavras o que vemos, sentimos e não somos capazes de dizer. Para nos confortar. Ou simplesmente para criar beleza. Parece-te pouco?
Ao longe, sob o Sol, uma cigarra cantava, e era como se a sua música fizesse parte da luz que iluminava a aldeia.

Arco de Baúlhe, 03 de Maio de 2017.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, na internet.]

terça-feira, 9 de maio de 2017

ZONA DE PERECÍVEIS (86)



 Saudades de Carlos Pinhão

À semelhança do que ocorre, hoje, com a maioria dos jornais, A Bola está longe de ser aquele espaço de excelência jornalística e, sobretudo, literária que os leitores do século XX testemunharam e aproveitaram. Sinal dos tempos, diz-se. Mau sinal, digo eu.
Entre os muitos notáveis daquela prosa de primeira água que havia n’A Bola, destaco três: Carlos Miranda, que está para Joaquim Agostinho como Luís de Camões para Vasco da Gama; Vítor Santos, cujos textos eram antologias de saber e ética; e Carlos Pinhão (o meu preferido), dono de uma escrita luminosa e cheia de graça. Tive a felicidade de conhecer pessoalmente este último. Nos meus primeiros anos de professor, ousei fotocopiar crónicas suas e dá-las a degustar aos alunos, com óbvio benefício deles e meu. Na prosa de Carlos Pinhão, havia um raciocínio claro e fino, acompanhado quase sempre de certo sorriso cúmplice e divertido, que os leitores mais adivinhavam do que viam.
Aí por 1990, quando leccionava no Paião (vila contígua à majestosa Figueira da Foz), tomei em mãos o projecto de trazer à escola este senhor – para que os alunos o conhecessem, quer na qualidade de repórter e cronista, quer na qualidade de escritor. Tinha lido já, por essa altura, aos meninos e às meninas do 7.º ano, o seu livro Era uma vez um coelho francês, espécie de alegoria divertida e eficaz contra o racismo, e ocorrera-me a ideia de fazer dessa narrativa um textinho para teatro. “Não era engraçado”, perguntei eu à turma, “representarmos esta peça com o autor da história no público?” E a proposta foi aprovada por trinta sins a zero.
Escrevi para A Bola, o Carlos Pinhão respondeu-me, combinámos conversa telefónica. Lembro-me da primeira vez em que ouvi a sua voz franca e meio gaguejada: “Boa noite, professor. Fez bem em telefonar só a seguir à novela…” Um mês depois, se bem recordo, viajou até Coimbra, de comboio, e aí o recebi, acompanhado da sua amabilíssima esposa. Instalei-os num hotel da cidade e, no dia seguinte, manhã cedo, levei-os no meu carro até à escola. O nosso programa dividia-se em duas partes: de manhã, o convidado falaria aos alunos do 8.º e 9.º anos sobre a importância do jornalismo no mundo moderno (havia a primeira invasão do Iraque como pano de fundo); de tarde, assistiria à representação da peça “Era uma vez um coelho francês” e falaria, depois, aos alunos do 7.º ano sobre a sua obra literária, tendencialmente dirigida ao público infantil e juvenil.
A visita foi um imenso sucesso, e o prazer do Carlos Pinhão não foi o menor dos motivos para a minha tão grande felicidade de então. Recordo em especial aquela tarde em que o vi sorrir perante o seu coelho francês adaptado ao teatro; a emoção da sua esposa por ouvir, no final da peça, a canção “Amigo”, do amado Zeca Afonso; as suas respostas certeiras e geralmente divertidas às perguntas (preparadas ou espontâneas) dos alunos – por exemplo, quando o interrogaram sobre o melhor livro escrito por si: “Ó pá, tu nunca perguntes a um pai qual é o seu filho favorito!
Impressionou-me igualmente o aspecto de namorados que ele e a esposa mantinham, apesar da idade já madura de ambos. Ainda hoje retenho, até como referência para a minha própria vida familiar, aquela cumplicidade especial, aquela harmonia de gestos e de palavras entre os dois, aquela serenidade e doçura que deles emanava. A propósito: na viagem entre Coimbra e o Paião, o Carlos Pinhão pediu-me para deixar a mulher na Figueira da Foz até à hora do almoço, pois ela – dizia – “já estava farta de o ouvir dizer sempre as mesmas coisas”. Eu preparava-me para anuir ao pedido-ordem do convidado ilustre, mas a sua companheira de tantos anos saiu-se com esta: “Ó Carlos, a mim parece-me que é sempre a primeira vez que te ouço!” E ele, rindo-se, evidentemente feliz: “Já viu, professor? Tenho ou não tenho muita sorte?” A sorte, pensei eu, foi terem-se os dois conhecido (e haver gente tão bonita para grato consumo do mundo).
Que pena tive, senhores, anos mais tarde, quando soube do falecimento do senhor Carlos Pinhão, esse tão grande nome do jornalismo limpo, ledo e lindo que já houve em Portugal.

Vila Real, 28 de Abril de 2017.
Joaquim Jorge Carvalho
[Esta crónica foi publicada no semanário O Ribatejo, edição de 04 de Maio de 2017.]

segunda-feira, 1 de maio de 2017

ZONA DE PERECÍVEIS (85)


Abril, segundo o senhor Mateus

Eu já tinha um irmão em França, na região de Paris”, disse-me o senhor Delfim Mateus (nome fictício), octogenário de uma vila transmontana onde estou há já 21 anos. “O meu irmão tinha sido chamado para a tropa e deu em pensar que, uma vez embarcado no famoso Niassa, era certo e sabido o adeus para sempre à metrópole, ou o regresso final em caixão. Metrópole era como então se dizia Portugal sem as colónias. Fugiu e, digo-o sem remorsos, fez bem, que aquela guerra era uma causa perdida, mais do interesse de outros cujos filhos nem lá punham os pés.”
Mas eu fui. Passei pela Escola Prática de Administração Militar, ali ao Lumiar, perto do estádio do Sporting, e depois abalei para Moçambique. Não viajei de barco, por acaso, mas de avião. Ainda me doem os braços e as lágrimas de minha mãe, à despedida, que o meu pai, esse, não chorou coisa que se visse. Na vinda, dois anos mais tarde, só estava a minha mãe, e o abraço repetiu-se, talvez ainda com mais lágrimas (dela e minhas). O meu pai já estava com o meu irmão em Bezon, a lutar contra a miséria da sua vida portuguesa.
Disse-me a minha mãe que antes assim, porque lhe custara muito a visita de dois pides, certa noite, convocando o marido para uma conversa na esquadra da GNR da terra. E tudo porque, num Sábado à noite, na tasca, dera em dizer mal do país e da guerra, responsabilizando o Marcelo Caetano pela minha eventual morte. À saída da missa, na semana seguinte, o doutor Tibúrcio (que, segundo o povo, era bufo da polícia política), recomendou-lhe, com má catadura, muito cuidado e juizinho na cabeça.
Em menos de meio ano, já eu estava também em França. Fui a salto, que era um modo de chegar ao destino sem a chatice dos papéis e dos interrogatórios. A França, senhor! Se soubesse o que aquilo parecia a um emigrante português! Alguns dizem, para explicar isto, que era outro país, muito diferente do nosso. Mas eu creio que a diferença era coisa muito mais profunda e, como agora se diz, radical. A França, vista pelos olhos de quem lá chegava, vindo da pobreza e da escuridão lusas, era outro planeta! Isso mesmo: outro planeta!
Havia trabalho, progresso, direitos garantidos para quem trabalhava (salário digno, subsídios, médicos e medicamentos para quem precisasse, férias, licença de maternidade, boas escolas para os filhos). Andava-se por estradas decentes, modernas, muito diferentes dos caminhos de cabras que então havia entre a minha aldeia e a sede do concelho. Toda a gente tinha casa de banho, água canalizada, luz. E as pessoas eram livres, compreende? Livres de falar, de pensar pelas suas cabeças, de reclamar na justiça, de escolher o melhor para as suas vidas.
Eu digo, às vezes, que Portugal é agora como a França que eu conheci. Mas nós chegámos lá com uns 40 ou 50 anos de atraso, não é verdade?
Na nossa vila, hoje, há escolas, centro de saúde, campos desportivos, biblioteca, até piscinas. Somos nós que escolhemos os governantes. Vivemos em democracia e liberdade. Há problemas? Há razões de queixa dos políticos, dos partidos, dos governos? Claro que sim. Mas isso é próprio da vida, que nunca é perfeita, e da humanidade, que nunca está completamente satisfeita.
Ainda hoje digo aos mais novos que, a par do casamento e do nascimento dos filhos (e de um ou outro golo do Yazalde), o 25 de Abril foi o dia mais importante da minha vida.

Coimbra, 23 de Abril de 2017.
Joaquim Jorge Carvalho
[Esta crónica foi publicada no semanário O Ribatejo, edição de 27-04-2017.]

quinta-feira, 20 de abril de 2017

ZONA DE PERECÍVEIS (84)


Galafura, Dublin, Vidago & Nós
 
Recebi, ao longo da última semana, a visita de um cunhado madeirense. Servi-lhe de guia turístico, tanto quanto pude e soube. Ele ouvira-me, certo Verão, durante uma caminhada pela Ponta de S. Lourenço, para lá do Caniçal (na sua Madeira), comparar a beleza da paisagem com a espantosa vista de S. Leonardo de Galafura (na região de Trás-os-Montes) – e confessou-me o seu interesse em conhecer esse lugar, já tão celebrado, muito antes de mim, por Miguel Torga.
Lá estivemos, pois. À maravilhosa imagem do “navio de penedos”, como genialmente o descreveu o poeta nascido em S. Martinho de Anta, acrescentei a admiração silente e comovida do meu amigo Alberto Ornelas. Torga chamou a este espaço, no Diário IX, um “poema geológico” (expressão que, Deus me perdoe, adoraria ter sido eu a inventar).
Na verdade, há lugares que nunca mais são os mesmos depois de terem sido ditos por artistas (“ditos” significa aqui, naturalmente, descritos, representados, recriados – e o verbo “dizer” compreende não apenas a literatura, mas também a pintura, a escultura, a música, etc.).
A identidade de Galafura é hoje inseparável do verbo torguiano. Como, aliás, sucede com Trás-os-Montes em geral. Algo semelhante acontece com outros escritores & outros lugares: Manuel da Fonseca & o Alentejo; Ferreira de Castro & as Beiras; Eça, Pessoa, Saramago, Cesário & Lisboa; Vergílio Ferreira & Évora; Carlos de Oliveira e a Gândara; Garrett & Santarém; Trindade Coelho, Assis Pacheco, Daniel Abrunheiro & Coimbra; Júlio Dinis & o Porto; James Joyce & Dublin; etc.
A nossa percepção dos lugares fica para sempre condicionada (quero dizer: enriquecida) pela percepção-enunciação dos autores amados. Ou seja, os lugares ganham (mais) sentido, lógica, profundidade, vida. Porque a arte, meus senhores, ensina a ver. No mínimo, a ver melhor.
Cruza-se quanto vos digo com a exibição, na RTP, de uma excelentíssima série intitulada Vidago Palace (com realização de Henrique Oliveira). Há 21 anos que estou a trabalhar no Norte de Portugal, na fronteira (imaginária) entre o Minho e Trás-os-Montes. Já passei muitas vezes por Vidago, já lá tirei fotografias e já especulei mentalmente sobre o bulício mundanal de outrora, tão distinto da imagem de abandono que, há pouco tempo, feria os olhares e os corações visitantes. Em Vidago Palace, o velho hotel ressuscita – e esse milagre acaba por nos recordar a própria História, sob a forma de humanidade-em-movimento (um festival de amores e desilusões, de ideias e de combates, de rotinas e de assombros, de estar e de devir). Temos o privilégio, enquanto espectadores, de testemunhar o que de nobre e de miserável é capaz de fazer a raça humana em seu mui sanguíneo ofício de existir.
Em suma, a vida compreende-se – sobretudo - vivendo. Mas muito se ganha, ó cúmplices leitores, com o trabalho dos artistas, que pegam na realidade e a reconfiguram esteticamente (e/ou a reequacionam eticamente). Tudo para que possamos todos, até os mais distraídos, saber de que tesouro se fala quando se fala de viver.
 
Coimbra, 12 de Abril de 2017.
Joaquim Jorge Carvalho
[Esta crónica foi publicada no semanário O Ribatejo, edição de 20-04-2017.]

 

Violeta & Carolina



Em caixa sem cor dorme sem se ver
A violeta antes da música, parecendo
A Branca de Neve antes de haver
O beijo de um Príncipe sofrendo

A dor dessa beleza interrompida
(A dor de bruta Morte, bruto Nada);
É por amor que a beija e lhe dá vida,
É do Amor a Vida retornada.

A menina que liberta do torpor
A violeta, e lhe devolve som & cor
É alma linda, leda, leve, acesa –

Eu vejo na menina uma Princesa
E a violeta é toda a Beleza
Salva de ser Nada por Amor!

Coimbra, 18 de Abril de 2017.
Joaquim Jorge Carvalho
[Nota: Este soneto celebra o dia de aniversário de uma querida Sobrinha, Carolina Ornelas, Filha dos meus Cunhados Paulo e Ana. Violeta é o nome de um instrumento musical, muito semelhante, na forma, ao violino.]

terça-feira, 18 de abril de 2017

ZONA DE PERECÍVEIS (83)



O pormenor da idade

Morreu José Vala, um belíssimo jogador de futebol dos anos 70 e 80 do século XX, que se notabilizou ao serviço da Académica de Coimbra e encantou colegas, adversários, treinadores, dirigentes e público em geral com a sua apurada técnica e a sua invulgar visão de jogo. Vim a ser amigo de um seu irmão, Rui Vala, meu rival nas camadas jovens (ele na Académica, eu no União de Coimbra) e meu companheiro no Anadia.
Nos comentários seguintes à notícia do óbito, alguém me dizia, suspirando, que o Zé Vala “também já não era novo”. Na verdade, ele tinha apenas 65 anos, mas o facto de, desde muito jovem, ter o nome nos jornais e nos relatos radiofónicos criou no público a ilusão de uma antiguidade exagerada.
Já me aconteceu algo de semelhante. Em certo Verão de 1995, com 32 anos, eu andava a jogar em torneios de futsal por Coimbra e arredores. Devido à minha paixão pela bola e à dificuldade que sentia em dizer não a convites para entrar nesta ou naquela equipa (do Café de um amigo, do agrupamento de escuteiros da minha Filha, da loja de ferragens de um vizinho), acabei a fazer dois jogos por dia, em pavilhões diferentes e afastados entre si, com brevíssimos intervalos de horas.
Há-de ser até partires uma perna”, previa a esposa. E foi. Num jogo disputado à noite, em S. Martinho do Bispo (Coimbra), logo no início do prélio, senti que os ligamentos do joelho esquerdo se me rasgavam como farrapos exaustos. Nos primeiros cinco minutos, as dores pareceram-me insuportáveis, e acabei mesmo por ter de ir ao hospital. Mas o que me afligiu mais (o que me indignou visceralmente), naquele episódio, foi ouvir, enquanto era assistido no campo, junto à vedação, certo treinador daquela época comentando para um espectador qualquer: “Ele também já tem uma idadezinha...
No futebol, a crueldade da passagem do tempo só é superada pela crueldade da percepção que os outros têm da passagem do tempo. Aos 17 anos, somos fulgurantes promessas; pouco depois, somos atletas experientes; aos 30-32, já somos veteranos; e os que sobrevivem para lá desse limite, frequentemente com competência e brilho, são vistos como patéticos exemplares de jogadores acabados arrastando-se pelos relvados.
A vida é curta, não o discuto. Mas convém não exagerar no modo como se tende a arrumar, por idades, o que cada pessoa é ou vale. Cada vez mais me assusta a ditadura da juventude obrigatória, essa filosofia de pacotilha que mede o mérito e o valor pelo grau de frescura etária.
Tive um treinador que, por querer no campo os 11 melhores em cada momento, ignorava deliberadamente a idade dos seus jogadores. Dizia que, a jogar, há velhos como novos e novos como velhos.
Escrevo esta crónica numa manhã com Sol. E sinto-me, não sei se o adivinháveis já, novinho em folha.

Coimbra, 06 de Abril de 2017.
Joaquim Jorge Carvalho 
[Esta crónica foi publicada no semanário O Ribatejo, edição de 13-04-2017.]

domingo, 9 de abril de 2017

ZONA DE PERECÍVEIS (82)


Coisas de aqui & de toda a parte

Revi, a convite de amigos, Histórias da idade do ouro, um filme dirigido por três realizadores romenos (Cristian Mungiu, Razvan Marculescu, Ioana Uricaru), datado já de 2007. O filme (que foi muito apreciado pela crítica internacional) nasce do argumento de Cristian Mungiu, que se propôs reunir várias histórias numa única narrativa. A poética do variegado discurso assenta num desiderato comum: testemunhar, de forma tragicómica, o País de Ceaucescu, que se autoproclamava “uma época de ouro” e tentava disfarçar, com grandiloquente propaganda, uma ditadura feroz e omnivigilante. 
A graça maior, em minha opinião, está no facto de os romenos comuns, em modo de sobrevivência, continuarem a fazer pela vida, sem choros ou dramas, não apenas fugindo quotidianamente à violência do regime, mas aproveitando em seu benefício, sempre que possível, uma certa cegueira acrítica e obediente das autoridade oficiais. Contexto óbvio: a opulência de discursos e de gestos dos governantes contrasta com a miséria da população; o fogo-de-artifício da cartilha comunista, gritada aos quatro ventos, esbarra na modéstia, na desconfiança ou na troça do povo simples.
Ficam na memória os espertalhões que, fingindo-se inspectores da Saúde Pública do Estado, vão às casas de incautos e “engarrafam o ar doméstico”, para – garantem – controlar a qualidade ambiental da cidade. Percebemos depois que este estratagema serve para recolher garrafas de vidro (oferecidas pelos inquilinos de cada prédio visitado) e com elas fazer dinheiro.
Ou os funcionários do Estado que - bem bebidos e bem comidos - entram numa roda gigante (género de carrossel aéreo, daqueles que se vêem nas feiras) e se esquecem, naquela euforia patriótica, de deixar alguém no chão para, em tempo oportuno, desligar a máquina. De modo que ficam para ali às voltas, desesperados e ridículos, sem remédio à vista.
Ou o militante que vai ao interior rural e atrasado da Roménia, imbuído do maior fervor partidário e nacionalista, querendo obrigar os residentes – velhos e novos – a frequentar a escola, com promessas de alfabetização para os cumpridores e ameaças de castigo para os faltosos. Infelizmente para si, não será possível ultrapassar a geral resistência (teimosa e só na aparência ingénua) dos putativos beneficiários.
Ou ainda a história de um director de jornal que obriga os seus jornalistas a uma ginástica editorial, no sentido de disfarçar, a cada fotografia oficial, o défice de altura de Ceaucescu, nomeadamente através da colocação – artificiosa - de um chapéu na cabeça do ditador. Problema gerador de angústia oficial e de riso popular: sem que a redacção se desse conta, o presidente ficaria, na foto publicada, com um chapéu (inventado) na sua cabeça e outro (verdadeiro) na sua mão.
Visto por portugueses com mais de 50 anos, aquele filme é também um documento sobre Portugal. A ditadura, no nosso caso, tinha outras inspirações e outros inimigos públicos, é verdade. Mas reconhecemos a mesma modéstia de viver, a mesma rotina triste e silente das vidas (mal) remediadas, o medo nos mais simples gestos, a prepotência e a arrogância da autoridade – e também a revolta picaresca da arraia-miúda, que vai fintando a brutidade com truques de génio.
Um dos mais impressionantes milagres da arte é mesmo este de o local devir esteticamente toda a parte. E eu voltei a lembrar-me da lapidar definição que Torga inventou para a ideia da universalidade da arte, em texto apresentado numa sua conferência no Brasil: “O universal é o local sem muros.”
Vila Real, 01 de Abril de 2017.
Joaquim Jorge Carvalho
[Esta crónica foi publicada no semanário O Ribatejo, edição de 06-05-2017.]

sexta-feira, 31 de março de 2017

ZONA DE PERECÍVEIS (81)


 
Viver cansa
 
Há uns anos, num sarau poético, a minha Filha disse um poema de José Gomes Ferreira (colhido no volume Poeta Militante). O poema que leu foi “Viver sempre também cansa”. Havia ali uma graça e uma profundidade que, tempo adiante, não mais deixou de me desafiar e encantar. O sujeito poético, partindo da premissa (queixosa) de o mundo se repetir e de o aborrecer, interroga-se: «Pois não era mais humano / morrer por um bocadinho, / de vez em quando, / e recomeçar depois, achando tudo mais novo?». E acrescenta: «Quando viessem perguntar por mim, / havias de dizer com teu sorriso / onde arde um coração em melodia: / “Matou-se esta manhã. / Agora não o vou ressuscitar por uma bagatela.”».
Também a mim aconteceu já esta vontade de me suicidar temporariamente (sublinho: temporariamente – porque a morte definitiva sempre me pareceu estúpida e insuportável). E não sendo possível a liberdade de morrer-sem-morrer-para-sempre, tenho percebido os méritos do cumprimento disciplinado e regular de uma certa solidão terapêutica. Não falo, note-se, de isolamento desistente ou de radical misantropia. Refiro-me ao encontro do eu consigo próprio. À auto-instituição de um tempo para, de modo sereno e lúcido, pensar (n)a vida, muito fora da barulheira obsessionante do mundo - ou simplesmente de um tempo para pensar em nada. 
Lembro-me de, aí por 1993, ter passado por Óbidos, na companhia de um grupo de teatro numeroso e esfuziante. Não sei explicar porquê, mas senti-me, a dada altura, ansioso, desejoso de sair dali. Não houvera qualquer motivo objetivo para a neura (discussões, conflitos, ofensas, medos ou falhas de saúde). Sei que, de maneira disfarçada, como quem prevarica conscientemente, me afastei dos companheiros de viagem e andei pelas ruas da vila à procura de nem eu sabia quê. Até encontrar uma pequena igreja e nela entrar. Estava quase deserta. Vi apenas uma senhora, junto ao altar, que varria o chão. Sentei-me num banco, logo à entrada, e pus-me a pensar em nada. Uma paz (religiosa, dir-se-ia) caiu sobre o que eu era – e por uma boa meia hora descansei. Não houve rezas, vozes saindo da santaria de barro ou da cruz central. Nem coros celestiais de anjos. Nem luzes piscando nos painéis da parede. Houve só o silêncio e o recolhimento inteiro. A paz. Eu ali escondido do mundo, olhando o tecto alto da igreja. O sussurro da vassoura sobre a laje. Aquilo não foi, digo-vos, senão uma espécie de sono-sonho de olhos abertos, a que se seguiu a continuação da vida como ela existia até ao início do presente parágrafo.
Continuo a praticar esta ginástica de morrer de vez em quando. Preciso de morrer de vez em quando para viver bem. Não tem de ser no interior de igrejas, naturalmente. Pode morrer-se muito bem, por horas completas, num Café, num jardim, em nossa casa. Ou dentro de um livro, de um filme, de uma música.
Ainda por cima, é muito agradável a ressurreição deveniente. Acontece-me até, embora seja raro, ainda não ter morrido e já estar mortinho por ressuscitar.
 
Coimbra, 25 de Março de 2017.
Joaquim Jorge Carvalho
[Esta crónica foi publicada no semanário O Ribatejo, edição de 30-03-2017.]