Bússola do Muito Mar

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Número de Ondas

terça-feira, 23 de agosto de 2016

Cosmos visto daqui


Juntamos o olhar ao grande Mar
E somos, por olhar, também grandeza;
Vivemos e morremos devagar
Ao colo infinito da Beleza.

Baía de Machico, 18-08-2016.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.jm-madeira.pt.]

ZONA DE PERECÍVEIS (51)


Mundo por ver

Toda a gente tem uma prima ou uma tia que, em certo momento, no decurso de uma visita turístico-cultural (a uma praia, a um castelo, a uma exposição, a uma igreja, a um museu), exclama: “Vamos embora, que isto já está tudo visto!”
São as mesmas pessoas que, por terem passado uns dias nos Açores, ou na Madeira (ou em Coimbra, ou no Minho, ou em Trás-os-Montes), garantem aos interlocutores um conhecimento exacto e completo daquilo tudo. Tamanha presunção, apesar da paciência quase infinita a que denodadamente me obrigo, irrita-me, sobretudo quando estas vozes tão auto-suficientes se referem a lugares muito presentes na minha própria biografia. Por exemplo, eu tenho 53 anos de Coimbra e nunca direi que conheço “aquilo tudo”, ó querida tia (ou prima, ou vizinha, ou colega, ou senhor que conheci casualmente no casamento do meu cunhado Paulo).
Por razões familiares, venço às vezes o meu medo patológico de voar – e lá venho, no remanso de Agosto, à Madeira. (Nota: o avião que me trouxe, no passado dia 2, chamava-se Fernando Pessoa. Uma multidão, portanto, com motor.) Nunca me canso de admirar a baía de Machico. Em especial, o Mar, meu habitat primordial, que vejo pouco no resto do ano. Esta crónica foi escrita, aliás, ao som das ondas rebentando nos calhaus, espécie de tributo musical à eternidade. Já aqui estive tantas vezes, caros leitores, a olhar para esta paisagem. E nunca seria – nunca serei – capaz de dizer, sobre isto, que está tudo visto.

Coimbra, 01 de Agosto de 2016.
Joaquim Jorge Carvalho

[Esta crónica foi publicada no jornal O Ribatejo, edição de 04-08-2016.]

segunda-feira, 8 de agosto de 2016

Praia de Machico



Um avião de partida,
Outro chegando do Norte;
Que tem isto a ver com a vida?
Que tem isto a ver com a morte?

Vejo o mundo belo e tosco
Volátil, frágil abrigo;
Que tem isto a ver connosco?
Que tem isto a ver comigo?

Crianças brincam no cais,
Um barco cruza a baía;
Que há nisto de sinais?
Que há nisto de poesia?

Machico (Madeira), 08 de Agosto de 2016.
Joaquim Jorge Carvalho
[Foto de VL.]


ZONA DE PERECÍVEIS (50)

Contradanças

Os gregos têm duas palavras para o conceito de tempo (a grafia é opção minha): Kairos e Kronos – esta para significar a física passagem de segundos, minutos, horas, dias meses, anos; aquela para dizer a vida verdadeiramente importante, os instantes que não mais esquecemos, nos marcam e nos fazem, pelo sofrimento, pelo espanto, pela alegria, crescer.
Os anglófonos usam uma expressão muito interessante para o tempo kairónico: quality time [tempo de qualidade]. Num intervalo, pequenino embora, da sua rotina obrigatória, pais jogam à bola com os filhos na rua, ou assistem aos treinos de futebol da prole, debatendo jogadas, medindo a exigência dos treinadores, celebrando a beleza das camisolas novas. É o tempo da felicidade, aquele, como melhor hão-de tragicamente perceber todos, no futuro.
Eu, entre outras experiências de alegria autêntica, aproveito o kairónico Verão para ler. Desde Junho para cá, li ou reli Arte, de Yasmina Reza, Elegia Para um Caixão Vazio, de Baptista-Bastos, Calvin & Hobbes (os volumes todos), de Bill Watterson, Cinco Esquinas, de Mario Vargas Llosa, Refúgio Perdido, de Soeiro Pereira Gomes, A Morte é um Acto Solitário, de Ray Bradbury, O Pó da Sombra, de João de Mancelos, Terminação do Anjo, de Daniel Abrunheiro, e Contradanças – Cartas e Poemas de Camões, do deus Luís Vaz. A aparente incoerência do conjunto decorre da minha absoluta e inegociável liberdade para pegar num livro mais à mão e levá-lo comigo (para o carro, para o Café, para a praia, para a casa-de-banho, para a cama). Nisto de leituras, sou a minha própria universidade, autor e dono do meu programa de estudos, responsável pela minha bibliografia, professor e aluno consubstancialmente.
Em Contradanças (Porto, Ed. Guerra & Paz, 2011), revisitando Camões, dei por mim a achar que algumas das cartas do autor de Os Lusíadas poderiam ser respostas a uma entrevista que eu lhe estivesse fazendo durante a leitura. Seguem-se alguns exemplos.
Eu: Vejo-o triste, Luís Vaz. Deveria olhar à sua volta e, perante as gentes felizes que encontrasse, alegrar-se também...
Camões (página 22): “Pouco sabe da tristeza quem, sem remédio para ela, diz ao triste que se alegre; pois não vê que alheios contentamentos a um coração descontente, não lhe remediando o que sente, lhe dobram o que padece.”
Eu: Mas não deixa, mesmo quem tem problemas, de ter a sorte essencial que é viver...
Camões (página 25): “No mundo não tem boa sorte senão quem tem por boa a que tem.”
Eu: Mas esse pessimismo, ainda que por razões verdadeiras, acaba por afastá-lo do mundo...
Camões (página 28): “Ou se há-de viver no mundo sem verdade, ou com verdade sem mundo.” [Na verdade, só se pode bem] “saber as cousas a passar por elas, [e] há mais diferença que a de consolar e ser consolado. Mas assim entrou o Mundo, e assim há-de sair: muitos a repreendê-lo e poucos a emendá-lo.”
Eu: Dou por mim, Luís Vaz, a lamentar quem não encontre na literatura o consolo e a luz que nela pode haver.
Camões (página 54): [Por isso lhe remeto a minha escrita, a si expressamente dedicada, e] “se lha não derem, saiba que é a culpa da viagem, na qual tudo se perde.”
Nem tudo, Luís Vaz. Nem tudo.

Coimbra, 01 de Agosto de 2016.
Joaquim Jorge Carvalho

[Esta crónica foi publicada no semanário O Ribatejo, edição de 04 de Agosto de 2016.]

sábado, 30 de julho de 2016

ZONA DE PERECÍVEIS (49)

Crónica do mês que vem

1.              Com a idade e a atenção, é possível que nos chegue a sabedoria. A evolução nota-se, entre outros sinais, pelo uso competente da tão preciosa serenidade (por oposição ao desassossego sanguíneo), mas também pelo do silêncio (por oposição ao falatório inconsequente). Já agora: creio que a capacidade de síntese, que poupa os outros à dispensável verborreia dos faladores, é uma forma amável de silêncio.
Olhai, por exemplo, o que se pode dizer – com a voz de um velho passeando ao entardecer, sem outra pressa que a urgência de comunicar – sobre os verbos-conceitos Ser e Ter. Sobre Ser: a vida humana carece essencialmente de amor e de esperança. Sobre Ter: a maior riqueza para os vivos é a saúde e o tempo.
2.              Dito isto, quero falar-vos de Agosto. O melhor escritor português vivo (que escreve n’ O Ribatejo) não gosta deste mês, mas eu – que admiro a graça e o génio com que ele o diz – discordo apaixonadamente desse juízo. Tirando pontuais dores de cabeça, que assinalam picos de temperatura, e variadas dores musculares, que ecoam a teimosa prática de desporto, eu sinto-me um alegre milionário da vida, neste Estio maior. Sou o que quero, tenho quanto preciso. Acordo sem despertador, participo na vida doméstica com vagar e método, falo com vizinhos do (meu) “querido mundo” (expressão colhida em Giovanni Guareschi), passeio, namoro, frequento esplanadas, escrevo, leio, vejo filmes e séries imperdíveis, visito o amado Mar.
O grande Ruy Belo bem dizia que é “o Verão a única estação”. Eu digo, com sabedoria de tempo feita, que o melhor do ano está em Agosto, esse mês em que até um velho é capaz de sentir-se novamente novo.

Ribeira de Pena, 21 de Julho de 2016.
Joaquim Jorge Carvalho

[Esta crónica foi publicada no semanário O Ribatejo, edição de 28-07-2016.]

segunda-feira, 25 de julho de 2016

Canção infinitiva


Canção infinitiva

 

Já visitei mil recantos

Já sofri por procurar

Já fui água de mil prantos

Já sofri por não chegar.

 

Já sofri por não saber

O que havia de buscar

Já sofri por perceber

Que era outro o meu lugar.

 

Já fui água de nascente

Já fui Mar de ir e vir –

Está-se tão bem no Presente

Não quero daqui sair!

 

Ribeira de Pena, 22 de Julho de 2016.

Joaquim Jorge Carvalho

[A imagem (da formosíssima Praia da Tocha) foi colhida em http://www.praiaportugal.com. O título deste poema era para ser “Infinitivo”. A palavra “canção” foi sugestão do grande Daniel Abrunheiro.]

ZONA DE PERECÍVEIS (48)



Suave Moralidade, Interesse Durão

 

Numa fase a que, por caridade, poderíamos chamar “período formativo”, Durão Barroso foi um feroz maoísta. Alegadamente, algumas conversas e leituras tê-lo-ão transformado num entusiasta da social-democracia, pelo que lá aderiu ao PPD. À boleia dos amigos certos (e decerto também da sua verve ruidosa e incendiária qb), chegou a presidente do partido. Nessa condição, viu-se - para surpresa e susto de muitos – no lugar de primeiro-ministro de Portugal. Mas o cargo, que era “a grande missão” da sua vida, passou subitamente a coisa descartável, ao ser convidado para presidir à Comissão Europeia. Falou-se, então, no facto de outros europeus (incluindo primeiros-ministros), embora convidados, antes ainda de Durão, terem recusado a oferta, devido a (imagine-se!) questões de ética pessoal e política.

Enquanto presidente da Comissão, Durão Barroso foi um burocrata cinzento e medíocre, que se portou como um fiel empregado dos governos mais poderosos da Europa. Pelo meio, viu obedientemente “as provas” da existência de armas de destruição maciça, que Saddam Hussein se preparava – garantia-se – para usar contra o Ocidente. As ditas armas, afinal, não existiam, talvez nem tivesse valido a pena Durão ter-se posto em bicos de pés para aparecer na fotografia com os mentores da invasão do Iraque (Bush e Blair).

Durante a mais recente crise financeira, que começou, do ponto de vista europeu, na Grécia e se estendeu, entretanto, a outras nações (incluindo a nossa), Barroso chegou a denunciar, timidamente, algumas instituições americanas ligadas ao crédito, ao investimento e à especulação, cujas práticas selvagens contribuíram decisivamente para o caos superveniente. Entre estas organizações, como se sabe, estava a mui poderosa Goldman Sachs.

Já reformado da Europa, com a modesta pensão de (diz-se) 11 mil euros mensais, quiçá desapontado com a ausência de uma vaga de fundo entre os portugueses que lhe implorasse a candidatura à presidência da República, recebeu uma oferta de emprego da – adivinhais? – Goldman Sachs para presidente não executivo daquela instituição. Indiferente a quaisquer reticências morais ou ao ruído indignado dos europeus (nacionais e internacionais, arraia-miúda e líderes importantes, políticos e politólogos, comentadores e filósofos, etc.), Durão fez as continhas e aceitou (mais) esta oportunidade.

Disse Frederico Carvalho de seu Pai (Rómulo de Carvalho/António Gedeão) que “tudo quanto fez, foi por amor”. De Durão Barroso se poderá dizer, ecoando O’Neill, que tudo quanto tem feito é pela (sua) vidinha.

 

Ribeira de Pena, 17 de Julho de 2017.

Joaquim Jorge Carvalho

sexta-feira, 15 de julho de 2016

ZONA DE PERECÍVEIS (47)




National Geographic

Ei-lo. Reparai como, já bebida a latinha de cerveja e esgotado o maço de tabaco, atira uma e outra embalagens para a estrada, num gesto cheio de cilindradas e ruído. É o mesmo que cigarra, charuta ou cachimba sobre o vizinho de mesa, berra convicções ao telemóvel (no Café, na sala de reuniões, na missa, no auditório municipal) e, não necessariamente bêbedo, urina na rua, com a majestade e a indiferença de uma vaca.
Também o podem apreciar a acompanhar o cão, com paciência e método, rua acima e rua abaixo, várias vezes esperando que o quadrúpede se alivie liquidamente contra o muro de minha casa, ou solidamente no passeio público. Se interpelado, rosna insultos e superiores explicações sobre a natureza biodegradável da excrementação do seu Rex.
O modo como conduz o automóvel é um atestado de virilidade, desesperado grito contra a murcha desconfiança dos outros. Quase nos mata, nos troços quotidianos da vida funcionária, ignorando limites de velocidade, traços contínuos ou curvas sem visibilidade. Aprecie-se a jactância com que, na tasca de destino, recorda mais um recorde de habilidade e lepidez.
Vê-se bem que gosta de sentir o poder nas suas mãos. Bate, com devoção, na mulher e nos filhos, nos adeptos de clubes adversários (mas só se eles estiverem em inferioridade numérica). É profundamente racista e, embora despreze quase todos os conterrâneos, afirma o seu patriotismo através da mais elementar xenofobia. Política e psicologia desaguam no mesmo apotegma: se algo corre mal, a culpa é fatalmente dos outros.
Critica a lei e os juízes, se lhe limitam a concretização impune de impulsos e caprichos. Mas declara o seu amor pelos tribunais, ao invés, se lhe validam os interesses do egozinho, ainda que colidindo com algum pormenor ético ou moral.
Crê-se um sobrevivente, e por isso olha de modo trocista para os românticos deste mundo, esses que estranhamente sacrificam o conforto pessoal à noção de justiça, de bem, de verdade, de lealdade. Na sua taxonomia pessoal, esta gente lamentável caracteriza-se pela fraqueza e pela falta de tino. São (e di-lo com claro desprezo) os totós, os panhonhas, os poetas.
Finalmente, revela um ostensivo ódio à educação e à cultura. Despreza a arte mais burilada, a Música maiúscula, o humor que obriga a pensar, a mariquice da poesia ou do teatro. E, na maioria dos casos, embora se autoproclame catedrático do desporto, não se dá ao incómodo de o praticar.
À primeira vista, chamar-lhe-íamos porco, atendendo ao gosto que revela em refocilar-se na porcaria que ele próprio produz. Mas, atenção, estamos na presença de uma espécie mais complexa: é a besta. A famosa besta-quadrada. Reproduz-se com preocupante facilidade. Anda por aí. É preciso cuidado, leitores.

Vila Real, 08 de Julho de 2016.
Joaquim Jorge Carvalho
[Esta crónica foi publicada no semanário O Ribatejo, edição de 14-07-2016.]

quinta-feira, 7 de julho de 2016

Café Santa Cruz, amada Coimbra, Livro e Amigos


Foi no dia 25 de Junho, em Coimbra, pelas 16 horas. O meu Amigo Maior, Daniel Abrunheiro, emprestou o seu extraordinário brilho à apresentação do livro JÚLIO DINIS - AS PUPILAS DO SENHOR ESCRITOR, que é uma formosa versão da minha tese de doutoramento em Literatura Portuguesa pela Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra (edição da Caleidoscópio). A minha Filha, a VL, participou na cerimónia, lendo comigo um divertido trecho dramático ("Uma consulta"), da autoria de Júlio Dinis. Esteve presente o editor, o Dr. Jorge Ferreira.
Agradeço a gentileza do sr. Vítor Marques, que me disponibilizou o mítico Café Santa Cruz para o lançamento da obra na minha amada cidade natal. A cerimónia fez-se, não com a colaboração da Câmara Municipal de Coimbra, mas apesar da Câmara Municipal de Coimbra, que ignorou todos os meus pedidos de apoio e me dedicou um ostensivo e conspícuo desprezo. Apesar disso, ofereci à Biblioteca Municipal da cidade um exemplar da obra, como tenho feito, regra geral, com todos os livros que me vêm editando (alguns dos quais na sequência de prémios literários que ganhei). O meu amor a Coimbra, do ponto de vista autárquico, é um tradicional amor romântico - generoso, profundo, não correspondido.
Redescobri, na cerimónia do Café Santa Cruz, a angústia que um homem sente perante a possibilidade de, num encontro marcado por si, ter ou não ter a presença de muitos amigos. Veio bastante gente, thank God: ali avultavam a MP, a VL e a minha Mãe, o Tó, a Maria de Fátima, o Nelo, a Paula, o Sérgio, a Adélia, a Laidinha, a Graça Abrunheiro, a Patrícia, o Carlos Simões (pai da Maria), a Fátima Branco, a Anabela, a Conceição, a Ana Sebastião, a Dolores, a Branca, o Lita, o Januário, o Rui Vala, o Jorge Jesus, o Patrick, o Agostinho, o Rui Candeias, tantos outros...
Faltou também (hélas) muita gente, como era - convenhamos - inevitável. Mas eu retive sobretudo o sentimento de gratidão por quem, ultrapassando numerosos obstáculos (tempo, distância, saúde, afazeres), veio mesmo. Vistos da mesa onde estive, foram um aconchego impressionante e inesquecível. A Amizade é uma delicada forma do Amor. Eu confirmei esta verdade singelíssima: ser amigo é, no essencial, estar "lá" quando o amigo precisa. Eu precisei e estiveram lá. Que dizer-vos, gente de ouro, senão MUITO OBRIGADO?

Coimbra, 26 de Junho de 2016.
Joaquim Jorge Carvalho

ZONA DE PERECÍVEIS (46)



O menino da sua Mãe

Numa esconsa nota à roda da selecção polaca (lida, salvo erro, no JN), soube que o médio Jakub Blaszczykowski - nome de guerra: Kuba – viu a sua Mãe morrer às mãos assassinas do Pai, em 1996. O jogador do Borussia Dortmund era, à época, um menino com apenas 10 anos.
O episódio é suficiente para provocar uma profunda comoção em qualquer ser humano. Mas o textito acrescentava esta informação: agora, quando o polaco obtém um golo, ajoelha-se, olha para o céu e ergue as mãos, como numa prece: assim agradece à Mãe – diz ele – o facto de continuar presente, apesar da morte, iluminando-o, animando-o, inspirando-o.
Quando, em qualquer narrativa ou argumento, aterra a imagem da Mãe, eu sou, sem vergonha nem remorso, um fatal lingrinhas. E, correndo o risco de perder, por estes dias de euforia futebolística, a nacionalidade portuguesa, aqui vos confesso – ai de mim! – que senti, misturado com a doçura da nossa vitória sobre os polacos, um escandaloso travo de amargura. É que o menino Kuba foi, do lugar de onde percebi o jogo, um dos derrotados da noite.
Os meus pacientes leitores já sabem, no momento em que lêem estas perecíveis linhas, se Portugal chegou ou não à final do torneio. Vou imprudentemente supor que sim – e que, na nossa memória, ardem ainda as imagens de um qualquer remate genial (oxalá do rei Ronaldo), um qualquer carrinho salvador de Raphael Guerreiro, um qualquer voo impossível de Rui Patrício. Vamos até, em demencial e infantil devaneio, imaginar que, aí pelas 10 horas da noite do dia 10 de Julho, 12 anos depois de a Grécia nos ter reexplicado o conceito de “tragédia espectacular”, Portugal é campeão europeu de futebol.
Perdoai-me, ainda assim, este pecado lamechas, ó cúmplices foliões da bola - mas eu preferirei para sempre, de entre tantos gestos e dribles e defesas e vitórias, aquela imagem de Kuba, após um golo à Ucrânia, no dia 21 de Junho, ajoelhando-se, erguendo os olhos e os braços para o céu, agradecendo à sua Mãe. Não morta, sublinho: viva, afinal, por o seu menino, lembrando-se dela, não a ter deixado morrer.

Vila Real, 02 de julho de 2016.
Joaquim Jorge Carvalho

[Esta crónica foi publicada no semanário O Ribatejo, edição de 07-06-2016.]

quarta-feira, 6 de julho de 2016

Soneto da Ha(o)rmonia - com métrica irregular

Não bem anda, levita
Rua acima, faiscando
À passagem, de tão bonita
A dor de a estar olhando.

Ancas trotam, trocistas
Seios voadores esvoaçam
E lábios lobos conquistam
Os que, caçando-a, se caçam.

De a ver, acende-se a fadiga
De logo a estar perdendo. E o desejo
É um secreto canto sem cantiga.

Meu sangue faz-se mar ainda Tejo
E, embora já ausente, a rapariga
Para sempre está, pois, ‘inda a vejo.

Vila Real, 02 de Julho de 2016.
Joaquim Jorge Carvalho

[A imagem – da belíssima Gwyneth Paltrow – foi colhida, o a devida vénia, em http://www.encorentretainment.blogspot.com.]

segunda-feira, 4 de julho de 2016

ZONA DE PERECÍVEIS (45)


Portugal em aforismos

Em Portugal, a diferença de rendimentos entre os mais ricos e os mais pobres é cada vez maior e os escândalos de corrupção, roubo e branqueamento de capitais sucedem-se com frequência aterradora, envolvendo não poucas vezes governantes ou ex-governantes. Isto, sublinhe-se, após 42 anos de democracia. Diz o povo, recordando o passado fascista, que não há mal que sempre dure - e completa, recordando o presente vigarista, que tão-pouco há bem que nunca se acabe. Sobre os episódios de corporativismo, nepotismo e amiguismo, o povo filosofa: quem parte, reparte e não fica com a melhor parte, é tolo ou não tem arte.
Apesar de toda a gente em Portugal, por devoção ou obrigação, ir hoje à escola, nunca se viu tanta falta de educação – nos modos dos indivíduos, na violência de palavras e actos, no desprezo pela saúde do planeta, na brutidade para com os semelhantes (mesmo os familiares, mesmo as crianças, mesmo os idosos). O povo diz que o segredo é andar para a frente, porque atrás vem gente, e que entre mortos e feridos alguém há-de escapar.
O Cristiano Ronaldo é o melhor jogador português de sempre, mas a ignorância, a ingratidão e a inveja de muitos compatriotas reduzem-no, com frequência impressionante, a saco de pancada nacional, basta que a bola bata na trave (ou que o guarda-redes dos outros faça uma defesa impossível) – a turba maldizente é célere a ver no madeirense galáctico o culpado de todas as frustrações e de todas as derrotas: babando-se de ódio ou ciúme, o país critica-lhe a autoconfiança, o penteado, o desassombro, as namoradas, a ambição, a fortuna, e uiva-rosna-ladra, sobre a provável injustiça do julgamento popular, que quem não quer ser lobo não lhe veste a pele. Augura também, sibilante: quanto maior é a subida, maior é a queda.
O centrão político anda a governar-se, mais do que a governar-nos, há quase quatro décadas. Não obstante os insultos da vox populi, são sempre os mesmos a ganhar as eleições, tão certo como um e outro serem – os dois – iguais. O povo acha que não vale a pena trocar o certo pelo incerto e que atrás de mim virá quem de mim bom fará. Os eternos donos do poder reforçam esta crença com suposições ominosas acerca das consequências (sempre nefastas) de eventual mudança, tudo com sérias reticências no discurso e com graves reticências no tom do discurso, pois – já se sabe – para bom entendedor, etc., etc.
Posto isto, que não é realmente encomiástico para o meu país e para os meus compatriotas, eu tenho de dizer que amo o meu país e os meus compatriotas. Talvez caiba aqui mais um aforismo: quem o feio ama, bonito lhe parece.

Coimbra, 26 de Junho de 2016.
Joaquim Jorge Carvalho

[Esta crónica foi publicada o semanário O Ribatejo, edição de 30-06-2016.]

sexta-feira, 24 de junho de 2016

ZONA DE PERECÍVEIS (44)


Revelação do Europeu

Há 40 anos, ao entardecer, quem estivesse atento ao movimento de peões juvenis, ali nas imediações da fábrica da cerveja, em Coimbra, quase à entrada de um lugar chamado Pedrulha, teria visto a equipa do Casal Ferrão, cheia de nervos e de esperança, a dirigir-se para o campinho do Loreto, logo a seguir à cancela da passagem de nível. O mais velho de nós tinha 14 anos, o mais novo andaria pelos 9. Éramos sportinguistas ou benfiquistas, ainda mal se falava do F.C. Porto (embora os azuis & brancos tivessem ficado em 2.º lugar no campeonato, logo atrás do Benfica e à frente do Sporting e do Boavista). Nesse ano, o Bayern de Munique sagrou-se vencedor da taça dos clubes campeões europeus (ganhou por 4-0 ao Atlético de Madrid) e a selecção da – já falecida – Checoslováquia deveio campeã europeia de futebol.
Quando chegámos ao Loreto, já os outros estavam a jogar ruidosamente entre si. Calaram-se quando nos viram e percebemos, nos rostos fechados de súbito, aquele brilho de ferocidade que é costume apreciarmos nas feras do National Geographic. Fez de árbitro um jovem adulto do bairro deles, que usava um buço desesperado e coxeava desde a nascença.
O início do jogo custou-me muito, pois eu sentia excessivamente o peso da responsabilidade, e tamanha era a tremideira que, nos primeiros minutos, as pernas não me obedeciam e os meus companheiros de equipa, por diversas vezes, tiveram de dirigir-me instruções técnico-tácticas misturadas com insultos à minha mãe.
Ganhámos (talvez por 10-9). O jogo só acabou noite adentro, porque os do Loreto não queriam que terminasse sem, antes, conseguirem a vantagem. Regressámos ao Casal Ferrão a grande velocidade, corridos à pedrada – e até o árbitro, que só discretamente nos roubara durante a partida, se associou à violência.
Em casa, as mães vociferaram pelo atraso e o suor dos filhos, o pai do Luís confiscou-lhe a bola (alegadamente para sempre) e o Matos garantiu que, quando eles viessem jogar ao nosso campo, levariam porrada de criar bicho.
 Depois, passou-se muita coisa e, por respeito à paciência leitora, apenas direi que aqui estou, no ano da graça de 2016, sentadinho à frente da televisão, no Café da vila, a ouvir o hino de Portugal, pronto para 90 minutos decisivos. Sinto o mesmo nervosismo do rapazito do Casal Ferrão que, face à responsabilidade do momento, tem o vertiginoso medo de falhar, ainda por cima contra os gajos do Loreto (ou da Áustria, ou da Islândia, ou da Hungria).
Passa-se tudo no mesmo lugar, que é o meu coração.

Ribeira de Pena, 20 de Junho de 2016.
Joaquim Jorge Carvalho

[Esta crónica foi publicada no semanário O Ribatejo, edição de 23-06-2016.]

sexta-feira, 17 de junho de 2016

ZONA DE PERECÍVEIS (43)



Primário, primeiro

Devim professor, mas poderia ter devindo outra profissão qualquer e, no essencial, ser a mesmíssima pessoa que aconteci: advogado, merceeiro, jornalista, motorista de táxi ou de camiões, médico, treinador de futebol, empregado de escritório, carteiro.
Dito isto, ainda bem que, de conluio com o destino, me fiz professor. Acabei a leccionar o 3.º ciclo e o secundário, sem dramas e sem grandes entusiasmos. Houve um momento em que desejei a carreira de docente universitário, confesso, ainda tocado pelo misterioso encanto dos professores e das professoras da minha faculdade de Letras, esses prováveis compinchas de Eça, Camões, Garrett, Júlio Dinis, Camilo, Hugo, Balzac, Stendhal, Flaubert, Boris Vian, Rimbaud, Maupassant, Shakespeare, Twain, Faulkner, Steinbeck. Ainda concorri – e cheguei até a obter a graça de uma selecção (que recusei, quiçá avisadamente, por motivos de mercearia e de amores familiares). Esclareço: nunca vi o ensino básico e o secundário como um prémio de consolação. Ao contrário, senti-me abençoado, desde o primeiro minuto, com a oportunidade de ganhar a vida no contexto (no aconchego) de duas paixões primordiais: a língua e a literatura. Juntou-se-lhes uma terceira, que já intuíra, mas ainda faltava confirmar: a paixão de ensinar.
Sei hoje, com mais de trinta anos de experiência ininterrupta, não obstante os coices de governos, partidos políticos, associações disto & daquilo, ignorantes e mediáticos canalhas, que encontrei a profissão certa.
Sou um verdadeiro contemporâneo do maiúsculo Tempo: lido com o passado (tesouro de autores e obras que já eram - éramos - nós antes de nós existirmos); participo no presente; ajudo a fabricar o futuro. Já nem sequer estou professor, como costumava dizer; sou professor.
Decerto voltaria a fazer tudo de novo, creio, na eventualidade de regressar aos meus anos de universidade. Com uma diferença: ter-me-ia feito professor primário (ou do 1.º ciclo, como agora se diz). Tenho percebido que muito do porvir académico e pessoal de toda a gente passa por aí. E que o docente dos primeiros anos pode, talvez mais do que qualquer outro profissional da educação, fazer a diferença.
No romance A Morgadinha dos Canaviais, o sensatíssimo Júlio Dinis escreveu: “[Ao] professor de instrução primária (…), raro é que [as inteligências que educa] volvam um olhar agradecido para as humildes mãos, que as sustentaram, quando ainda não tinham asas para voar. // Quase todos os grandes homens cometem esta ingratidão. Falam nos seus mestres de filosofia, de matemática, de literatura, e não salvam do esquecimento, pronunciando-o, o nome do primeiro mestre, do que os ensinou a ler.”
Eu venho aqui ao jornal O Ribatejo tirar o chapéu aos grandes professores primários de todos os tempos. É, bem sei, homenagem singela e pouca, mas é do coração.

Coimbra, 09-06-2016.
Joaquim Jorge Carvalho
[Esta crónica foi publicada no semanário O Ribatejo, edição de 15-06-2016.]

quarta-feira, 15 de junho de 2016

Sob o signo da amabilidade


O meu livro Júlio Dinis - As Pupilas do Senhor Escritor (versão - um pouco mais leve - da minha dissertação de Doutoramento em Literatura Portuguesa - Investigação e Ensino) foi apresentado em Ribeira de Pena, no passado dia 01 de Junho de 2016, durante a Feira do Livro do município. Tive a honra e a felicidade de reunir muitos amigos nesta ocasião (e alguns vieram de muito longe). Agradeço-lhes! Agradeço também à Câmara Municipal o apoio dado à edição e, muito particularmente, agradeço à minha distintíssima colega Inês Castro Silva, que fez uma maravilhosa apresentação da obra. 
Aqui inscrevo algumas notas sobre esta professora e investigadora.
Inês Maria de Castro Domingues Silva é licenciada em Ensino de Português pela Universidade do Minho, desde 1998. É Mestre em Mestre em Teoria da Literatura e Literatura Portuguesa, pela Universidade do Minho, desde 2002, sendo autora de uma dissertação intitulada “AD USUM DELPHINI NON EST. Exercício Crítico Sobre O Delfim de José Cardoso Pires”. É Doutorada em Teoria da Literatura e Literatura Comparada, pela Universidade de Santiago de Compostela, desde 2011, tendo escrito uma dissertação intitulada “DA CONTRAFACÇÃO DA REPRESENTAÇÃO À (IM)POSSIBILIDADE DOS GÉNEROS. Territórios autorais: problemática do desencontro com as práticas de recepção na literatura e no cinema”. É actualmente professora de Português no Agrupamento de Escolas de Ribeira de Pena. Enquanto formadora, tem dinamizado várias acções de formação no âmbito do ensino da Língua e da Literatura. É assessora do Centro de Formação de Basto. Ao longo dos anos, tem desenvolvido vários Projectos de promoção da leitura (de que se destaca o “Pelo livro é que vamos”) e de Clubes de formação/expressão artística (destacando-se o Clube LerArtes, que desenvolveu em Cerva).

Com sua licença, publico no "Muito Mar" o texto que a Inês elaborou para aquele momento.


 


 





 

SOB O SIGNO DA AMABILIDADE

Apresentar um livro do Joaquim Jorge Carvalho – além de uma responsabilidade, pelo valor de excelência que, na primeira pessoa, posso atestar, pelo estatuto que lhe confere o reconhecimento na esfera escolar (há uma legião de alunos e professores que são seus “fãs” confessos) e, especialmente, na comunidade ribeirapenense, onde tem tido papel relevante na disseminação de ideias e acções de e em prol da cultura, numa lógica polinizadora muito interessante (quantas vezes eu ouvi “o professor Joaquim Jorge… fez…. disse… ensinou-me…) – é, indubitavelmente, um prazer, que tem muito que ver, curiosamente, com um traço que valoriza na literatura de Júlio Dinis: a amabilidade.
Pois é, de todas as muitas coisas abonatórias que poderia dizer sobre a personalidade do Doutor Joaquim Jorge Carvalho, do seu brilhantismo académico, à qualidade manifesta enquanto professor, sem esquecer o seu percurso já feito de escritor, escolho salientar a amabilidade que irradia em todas estas dimensões, articulando essa característica jorgiana com a ênfase dada neste livro a essa feição da obra dinisiana. Só um investigador “amável”, no momento de escolher o tema da sua tese, teria a sensibilidade de pensar a amabilidade da literatura de Júlio Dinis como expressão de uma visão do mundo com bastas potencialidades para preencher algum vazio literário no panorama escolar. 
Já lá iremos, ao vazio e à proposta de um caminho de sentido avançado neste livro, entretanto importa ainda dizer que é igualmente gratificante falar de Júlio Dinis, porque sou da geração dos que o leram e guardo muito boas memórias da sua obra, de que elejo, dos nove que volumes que marcam a verde e dourado a estante (e há também qualquer coisa de nostálgico nestas capas), um top four (embora pudesse ser top five): As Pupilas do Senhor Reitor, A Morgadinha dos Canaviais, Uma Família Inglesa e Os Fidalgos da Casa Mourisca. Vivi uma adolescência iluminada por essa "amabilidade” que o Joaquim Jorge identifica como elemento positivamente diferenciador, porta aberta para um mundo entre o bucólico que ainda reconhecia da minha ruralidade e o ideal de uma humanidade onde os defeitos eram apenas temporários, obstáculos de ser a ultrapassar, “pecadilhos” da insensatez de uma juventude a crescer sem saber por onde, mais remidos por um processo de consciencialização individual do que punidos por uma moral reguladora externa (seja ela religiosa ou social).
E isto leva-nos à tese, plasmada no livro que agora publica, de que essas idiossincrasias da obra de Júlio Dinis corporizam uma ambivalência necessária a um cânone literário escolar, na medida em que: 
- por um lado, tem qualidade literária, fundamental para desenvolver competências essenciais de literacia, até porque enformada numa tessitura discursiva facilitadora, pela forma consistente como desenvolve a narrativa, capaz de envolver e estimular os alunos; 
- por outro lado, apresenta uma moldura ético-poética potenciadora de um sentido reflexivo de impacto na esfera dos valores, transbordante relativamente ao universo das aprendizagens estritamente académicas, mas essencial na formação de jovens adolescentes em projecto de adultos futuros. 
Relativamente ao primeiro desses dois vectores, e regressando à incipiência da substância literária escolar, de facto fomos assistindo – à medida que a escola se ia abrindo necessária e democraticamente à globalidade da população, evolução imposta pela obrigatoriedade que é primeiro que tudo um direito – a uma massificação da escolarização que corresponde, afinal, a apenas meio direito, porquanto falha a também obrigação da qualidade dessa escolarização. Neste cenário do “sim mas não”, um dos aspectos que manifestamente tem feito emperrar a proficuidade das aprendizagens, como bem aponta Joaquim Jorge, sem dúvida que se prende com a erosão do corpus literário dos ensinos básico e secundários, obrigado a travar um combate pelo seu direito de cidadania privilegiada no espaço das aprendizagens escolares. 
E um dos discursos mais nocivos, que a tese sublinha e de que nós próprios, professores, somos culpados, é o da teoria da pretensa adequação: aos “novos tempos” (como se todo o ensino de repente tivesse que rimar com “fixe”, “bué” e “like”), aos perfis dos alunos (heterogéneos, porventura dispersos por uma parafernália de estímulos, não quer dizer que acéfalos); adequação, enfim, a um suposto sucesso (qual?, é que há vários e nem todos válidos). Esta é uma falácia terrível que, efectivamente, foi invadindo os programas, aos ziguezagues das agendas políticas, os manuais e, finalmente, a mente e a prática dos professores. O adequado pode ser bom, não tem de ser paupérrimo, nem tem de se submeter a uma lógica de progressivo estreitamento do espaço do texto literário (que será sempre palco principal das aprendizagens da disciplina de Português), e o investigador/professor evidencia isso com toda a mestria que lhe conhecemos. 
Júlio Dinis, percebemos, não decorre apenas de uma empatia antiga de leitor afeiçoado, ainda que exista essa cumplicidade confessa; este autor foi eleito para análise como foco-exemplo do texto “adequado” que pode e deve ser “bom”, a ser capital cultural acrescentado, que é para isso que escola serve na vida dos alunos e da sociedade. E fá-lo levando-nos, qual exímio cicerone, a percorrer os caminhos da literatura dinisiana para que descubramos (ou redescubramos) as virtualidades de um género, aqui tão perceptível na “transparência” significante daquilo a que costumo chamar de peças essenciais deste tipo específico de máquina semiótica (a narrativa): as personagens (tantas e inesquecíveis, as principais e as secundárias que se tornaram realmente protagonistas na nossa memória, num todo figurativo da alma humana, com os pares românticos como Margarida/Daniel, Madalena/Augusto, Carlos/Cecília a conquistaram-nos no plano da emoção; mas também com personagens como João Semana, que nos faz ainda sorrir, pelo menos a cada vez que que vamos ao oftalmologista) e a acção, na sua formulação de intriga simples que, porém, nos suspende; ou na cena que se abre em teatralização do acontecer do quotidiano social. 
Neste tour guiado, convida-nos Joaquim Jorge a atentar no manejamento de um dispositivo narrativo gerador de sentidos, não para patentear a sua douta sapiência do universo literário e da respectiva metalinguagem, mas sim para comprovar a natureza ensinável e aprendível de um género assim tão lapidarmente trabalhado, burilado com saber e com intenção, constituindo-se funcionalmente como modelo de leitura operativo de efeito difusor das competências interpretativas. Estas são “ferramentas” ao serviço da aprendizagem de mecanismos de leitura são, sem dúvida, preciosas. O autor da tese assim o afirma, eu subscrevo.
Depois, valorizando concomitantemente a dimensão ético-poética como linha exploratória de pertinência escolar, versa, uma outra parte da análise produzida, sobre esse princípio da inocência que domina a narrativa dinisiana, espécie de manifesto da crença no humano e na sociedade como moldura harmónica possível, de encontro mais do que desencontro, onde até o fosso das desigualdades de classe (protagonizado pelos pares românticos) se dirime numa democrática ascensão social pelo caminho da educação, estratégia de upgrade social que viabiliza a felicidade; e onde todo o mal é erradicável porque passível de “tratamento” pelos valores humanos. 
Ora, como muito bem ressalta Joaquim Jorge, num contexto em que nos queixamos da desvalorização do papel da escola, assim como de comportamentos indisciplinados que obstaculizam o processo de ensino/aprendizagem, seria igualmente interessante aproveitar esta visão moralizante e, sobretudo, optimista para resgatar os alunos da falência de um sentido do percurso escolar, desconstruir perfis discentes problemáticos, desfocando-os de um real em certo sentido rarefeito ao mesmo tempo que brutalizante e convidando-os a entrar na esfera de uma ingénua inocência que é mundo paralelo ficcional, sim, mas que pode ser, como foi noutros enquadramentos epocais, um portal de evasão e redenção de um real demasiado real. 
Numa reunião recente ouvi alguém e outros acenarem que sim com a cabeça: hoje, tudo no ensino tem de passar pela tecnologia ou falhará. Não gosto nada de pensar que a literatura ou quaisquer outros conhecimentos e artes já não valem por si, independentemente do suporte, e que vivemos sob a ditadura da tecnologia; mas dirão alguns que esta puerilidade tocante da obra de Júlio Dinis se apresenta anacrónica face à experiência da contemporaneidade, e por isso não será “adequada”; todavia, como defende esta tese, se bem a entendi, talvez esteja na altura de o cânone escolar “arriscar” ser “desadequada” na medida em que diferente do universo de referências dos alunos, visto ser suposto fomentar o alargamento dos horizontes experienciais e não estreitá-los à mesmice do seu território de conhecimentos. 
Insisto nesta linha da tese do Joaquim Jorge por me ser muito cara: percebo alguma irritação com este quase “tique” didático-pedagógico de “adequar”, que, a mais das vezes, não é mais do que delapidar o património literário e perder oportunidades de aprendizagem. E, curiosamente, logo que comecei a ler este seu livro me apercebi como, ironicamente, ambos percorrêramos vias diferentes, e em certa medida mesmo paradoxais (ele regressou, e bem, à limpidez dos clássicos, eu andei atrás das nebulosas e turbulências de experiências estéticas mais radicais da modernidade, pós-modernidade ou o pós-qualquer-coisa do estilhaçamento da coerência), porém com o objectivo de chegarmos a uma mesma conclusão, que já era, na verdade, pressuposto e premissa que norteava o trabalho de investigação de cada um: a obrigação da escola propiciar experiências de leitura ricas e significantes, porque lhe cabe a missão inalienável de elevar o nível de literacia dos alunos (e futuros cidadãos) para que cumpra a finalidade fundamental de sustentar a construção de uma sociedade verdadeiramente democrática, na medida em que legente, e logo consciente; crítica, e portanto interpelante.   
Devo admitir que a sua proposta será bem mais sustentável em termos de eficácia pedagógica, já que em Júlio Dinis encontra a fórmula ideal da conjunção da substancialidade literária com a simplicidade do estilo e da linguagem; enquanto eu erigi, exacerbadamente, a complexidade como princípio (em detrimento da valorização da construção e da ordem de um sentido gratificante). Reconheço: não podemos partir das debilidades das competências de leitura que diagnosticamos invariavelmente nos nossos alunos para aventuras radicais sem rede. É preciso primeiro saber percorrer caminhos semióticos reconhecíveis, que encontramos, justamente, nos clássicos. Vá, depois dos alunos terem percorrido a tua proposta de caminho, talvez ainda seja possível darem pequenos passos na minha sugestão de viagem com destino incerto. 
Por isso celebro, nesta tese, a clarividência de defender esse norte, uma literatura que seja ponto cardeal orientador, e a coragem de o assumir numa altura em parece que temos de ser todos muito “hipermodernos” ou pautarmo-nos pelos incontornáveis do cânone de sempre e para sempre, mudem quantas vezes mudarem os programas. O Joaquim Jorge sai do alinhamento e sabe que sai, o risco é assumido e não o incomoda; a isto chama-se ter personalidade e convicções, coisa que vai escasseando bastante no acriticismo disfarçado de opinião sem reflexão que grassa um pouco por todo lado.
A tese, agora livro, apresenta, assim, de uma forma tão aprofundada e cientificamente fundamentada quanto clara e acessível à leitura de especialistas e não especialistas na obra de Júlio Dinis e da literatura, as inúmeras potencialidades de uma literatura um tanto esquecida na voragem contemporânea do tempo; e aponta à escola o papel que lhe cabe na abertura à pluralidade quanto à qualidade, basta termos, todos, a “amabilidade” de reivindicar e praticar essa acção transformadora. E, nesse sentido, não posso deixar de sublinhar, finalmente porque estou a chegar ao fim e porque essa face clarifica-se também mais no fecho do livro, o testemunho do professor por detrás do investigador, que dá conta de um percurso de questionamento e de participação activa na reflexão de dentro e por dentro da escola, única dinâmica capaz de gerar a mudança. 
Deixo agora ao autor do livro a crítica da minha crítica, ou melhor, a correcção de alguma incorrecção, pedindo desde já desculpa se o traí em alguma ilação abusiva da sua tese, mas devo dizer que gostei de a ler e descobrir assim, no reencontro de pontos de vista que partilhamos, no desencontro com que posso aprender. Obrigada pela partilha generosa da tua visão do que é o lugar da literatura na escola e, mais uma vez, parabéns pelo trabalho de investigação que a sustenta e pelo livro que a visibiliza, que, espero, juntamente com o teu contributo colaborativo como formador, a disseminará como semente contagiante de onde possa germinar a valorização do papel essencial da literatura no desenvolvimento pessoal e colectivo.

 Ribeira de Pena, 01-06-2016.
 Inês Castro Silva


 Ribeira de Pena, 15 de Junho de 2016.
Joaquim Jorge Carvalho
[As fotos foram colhidas, com a devida vénia, na página da Câmara Municipal de Ribeira de Pena no Facebook.]