Bússola do Muito Mar

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Número de Ondas

sexta-feira, 17 de agosto de 2018

Direito ao ócio


Falo com a minha Mãe ao telefone. Assusta-me a sua voz fraquinha e “o raio da constipação que não passa” (sic). Essa é uma nuvem triste cruzando a claridade do dia preguiçoso em que gratamente estava residindo.
Isto de nada fazer tem que se lhe diga. Ensinaram-nos, durante séculos, a odiar o ócio. Mas eu, que sempre trabalhei e me habituei (influenciado pela educação recebida) a ter orgulho no labor diário, amo a preguiça!
Ruy Belo, num verso de “Orla marítima” (in O Tempo das Suaves Raparigas e Outros Poemas de Amor), afiança que “somos crianças feitas para grandes férias”. Respirando o oxigénio sereno desta provisória eternidade madeirense, entre o Edifício Perestrelo e a Praia, eu embarco convictamente na ideologia do grande poeta ribatejano. 

Machico, 17 de Agosto de 2018. 
Joaquim Jorge Carvalho 
[Foto JJC]

Tempo de chegar, tempo de partir


Na praia de Machico, é normal estar-se olimpicamente sobre a toalha, com o Atlântico em frente, e testemunhar-se a momentânea interrupção do azul celeste por um avião que levantou de Santa Cruz ou se prepara para aí aterrar. Nas últimas semanas, o característico vento tem condicionado partidas e chegadas com desusada frequência, mas qualquer acalmia exponencia a renovação do movimento aéreo – e a imagem de aviões chegando ou afastando-se faz parte, sem espanto ou drama, do quotidiano local. 
Um madeirense experimentado em voos reiterou-me a importância dos protocolos de segurança: é essencial aterrar e descolar num quadro rigoroso de regras técnico-legais, de forma competente e sempre que é oportuno. Sem o verbalizar ali, dei por mim a pensar que também nas nossas relações sociais é crucial aterrar e levantar voo nos momentos certos. Na profissão, nas conversas de Café, nas reuniões familiares, há aquele instante em que ficar pode ser um perigo (de aborrecimento, de discórdia, de zanga) e partir pode representar um maravilhoso tratado de profilaxia. 
Dito isto, sabei que escrevo o que escrevo em contexto de razoável felicidade e paz. Está-se aqui muito bem. (Olha, outro avião!) 

Machico, 16 de Agosto de 2018. 
Joaquim Jorge Carvalho 
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.visitmachico.com.]

Lição de olhar



Aprendi com os antigos a ver quanto há de único no chão e no céu que por aqui vejo. Mas a lição de olhar não morreu com a morte (física) do Mestre; a cada instante aparece – invadindo a luz clara da manhã, o recorte majestoso de uma montanha no horizonte, um peixe ou um barco colorindo o mar – uma espécie de sorriso meigo e irónico, que é simultaneamente afago e dor, a dizer-me: “Eu não lhe dizia? Eu não lhe dizia?” 

Machico, 15 de Agosto de 2018. 
Joaquim Jorge Carvalho
[Foto JJC]

quinta-feira, 16 de agosto de 2018

Pokemons

Tenho dois maravilhosos sobrinhos que se dedicam, com competência e constância admiráveis, à caça de pokemons. Dito sucintamente, trata-se de um jogo tecnológico que desafia os jogadores a combater monstros (com aparência e importância diferentes entre si), usando os instrumentos que a aplicação informática disponibiliza. Um dos aspectos mais interessantes desta luta é obrigar os jogadores a caminhar muitos quilómetros (não virtuais; físicos) para aceder aos lugares onde estão os alvos. Tal significa que a actividade é também física e, portanto, mais saudável que a maioria das que se praticam em contexto tecnológico.
Vejo outro motivo de interesse no jogo: de certo modo, é uma metáfora da nossa existência – para combatermos os monstros é preciso identifica-los, ir ao seu encontro, enfrentá-los.

Machico, 14 de Agosto de 2018.
Joaquim Jorge Carvalho

José Tolentino Mendonça



José Tolentino Mendonça é um importante poeta do nosso tempo. A sua poesia fala-nos dos grandes temas de sempre – a Vida, a Morte, o Tempo, a busca da Transcendência –, nunca abdicando de um certo chão referencial (o que me agrada sobremaneira). À imagem do que fazem também, por exemplo, Cesário, algum Pessoa, Ruy Belo, Manuel António Pina, Jorge Sousa Braga ou Álvaro Magalhães, os pormenores físicos do quotidiano comparecem no texto, dão vida aos sentidos e ao vocabulário, contribuindo para a frescura e o ritmo do enunciado poético. 
Tolentino viveu em Machico, na sua juventude, e em boa hora alguém se lembrou de gravar na pedra a sua voz, bem no centro da cidade natal da MP. Quem passar pela Praceta 25 de Abril, verá escrito numa parede do edifício da “La Barca” um belo poema (do livro A noite abre-me os olhos, de 2006): 

No caminho onde aprendi o Outono
sob o azul magoado 
os pescadores cruzam ainda linhas 
províncias clareiras 
e esse gesto masculino de apagar a dor 
chegava pelos percalços da terra 
o carro do gelo 
e os miúdos tiravam bocados para comer às dentadas 
um retrato selvagem mas, juro-vos, havia encanto 
havia qualquer coisa, outra coisa 
nesse instante em perda 
as mulheres sentavam-se à porta com os bordados 
quando passavam estrangeiros 
ficavam sempre a sorrir nas suas fotografias.” 

Ouço por aqui testemunhos de admiração exclusivamente atinentes à carreira que Tolentino Mendonça fez na Igreja católica (é hoje arcebispo e, por decisão do Papa, arquivista e bibliotecário no Vaticano). Poucos, contudo, parecem aqui conhecer ou valorizar a sua singular importância na poesia da nossa língua. Mas ele é hoje um nome que, também a este nível, merece o reconhecimento e até o justificado orgulho dos machiquenses. 

Machico, 13 de Agosto de 2018. 
Joaquim Jorge Carvalho
[A segunda foto é de JJC.]

domingo, 12 de agosto de 2018

Fantasia baseada em factos reais

O hipermercado tem cinco caixas em funcionamento. Uma delas (a número quatro) destina-se unicamente a quem não tem mais do que dez itens. É para essa que se dirige um rapaz, pretendendo pagar as lâminas e o gel para a barba que acabou de comprar. À sua frente está um sexagenário com um carrinho repleto de produtos, esperando também a sua vez. O rapaz põe-se a contar mentalmente os bens que o homem se prepara para saldar: melão, sal, pasta dentífrica, guardanapos, vinho, água, fiambre, manteiga, gelado, ervilhas, uns chinelos de praia…
- Doze coisas – conclui.
Dirige-se ao cliente que o precede na fila, de forma educada, mas também assertiva:
- Só pode vir para esta caixa se não tiver mais que dez produtos.
O interpelado nem quer acreditar na interpelação. Vocifera:
- Eu não levo aqui mais que dez produtos!
O rapaz, apontando para o carrinho de compras, começa a contar em voz alta:
- Fruta, um; sal, dois; pasta dentífrica, três…
- Mas o que é isto?! – explode o visado. – Você está a controlar o que eu compro ou deixo de comprar?! Nunca ouviu falar em invasão de privacidade?!...
Segue-se uma demorada e agressiva discussão, que se estende a funcionários do hipermercado e a outros clientes (dessa e das outras filas). A menina da caixa quatro, que apenas quer prosseguir o seu trabalho e já manifestou a sua compreensão pelos argumentos das duas facções, suspira e murmura:
- Valha-me Jesus Cristo!
E foi então que sobre o chão do estabelecimento comercial desce o Filho de Deus.
- Em verdade vos digo, irmãos, que tendes ambos razão, mas igualmente que sois culpados de três grandes pecados: tolerar mal as imperfeições alheias, não admitir erros próprios e sobretudo perder tempo com futilidades. Palavra do Senhor.
- Graças a Deus – remata a funcionária da caixa, recomeçando enfim o seu labor.

Machico, 12 de Agosto de 2018.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.radioregional.pt.]

sábado, 11 de agosto de 2018

Poema de pedra & madeira



Na praia de Machico, sobre o calhau, existem rectângulos de madeira a que sempre ouvi chamar pranchas. Servem para as pessoas ali estenderem as suas toalhas e se deitarem, prevenindo o incómodo de pousar directamente o corpo nas pedras. Para a toalha não voar com o vento, o turista habitua-se a colocar pedaços de basalto sobre o tecido (duas pedrinhas em cima & duas em baixo). 
Testemunhei, ao fim do dia, um flagrante caso de poesia envolvendo estas pranchas. (Já o relatei ao Daniel Abrunheiro - ele riu-se e fez uma piada qualquer sobre a minha idade.) 
Sucedeu que uma formosa estrangeira de fato de banho amarelo, dando por terminada a tarde, pôs sobre si um vestido azul, calçou-se, recolheu a toalha e afastou-se, deixando duas pedras apenas sobra a tábua nua, uma ao lado da outra (com poucos centímetros entre si) – como seios calcários, espécie de fósseis convexos que guardavam a memória do busto feminino dali saído há minutos. 

Machico, 11 de Agosto de 2018. 
Joaquim Jorge Carvalho
[Foto JJC]

Reencontro


A maravilhosa baía de Machico! Saúdo-a em silêncio, caminhando vagarosamente sobre a calçada que nos leva até ao mar. Lembro-me dos ex-vivos que comigo percorreram aquele caminho e cujas vozes devieram apenas o som das ondas. De certo modo, os meus passos ainda são os passos de quem saiu da paisagem, e os meus olhos ainda são os olhos de quem cumplicemente amou a baía e o horizonte além. 

Abraço a praia companheira com uma serena comoção. Agradeço a marítima fidelidade deste azul um pouco mais escuro que o Verão do céu. Celebro o Verão, por um instante, livre (i.e. esquecido) da feroz deseternidade do relógio. 
(Disse um instante? Disse bem. É essa a medida certa da Felicidade.)

Machico, 10 de Agosto de 2018.
Joaquim Jorge Carvalho
[Foto JJC]

terça-feira, 7 de agosto de 2018

Amizade (revisões)


A minha Filha fez umas centenas largas de quilómetros para se reunir com algumas Amigas de há vinte (talvez mais) anos. As Amigas fizeram esforço idêntico, bem entendido. Em linguagem leve, a este tipo de encontros chama-se oportunidade de pôr a conversa em dia. Mas eu, com a lucidez melancólica dos velhos, sei bem que se trata de algo mais sério, grandioso e grave: a Amizade implica real tempo e efectiva disponibilidade, sem o que deviria mera retórica, coisa tendencialmente vazia e insincera. Tive já ensejo para, via Facebook, felicitar a minha Filha e as suas Amigas pela constância daqueles laços e daquela cada vez mais preciosa cumplicidade (um tesouro).
Recentemente, eu andei afastado de um Amigo por (talvez) dois meses. Cheguei a pensar, sobre o nosso silêncio, que havia o perigo de, morrendo um de nós, o outro ficar para sempre condenado a viver morrendo de remorsos. Mas hoje reencontrámo-nos, acertámos razões e voltámos à alegre normalidade em que residíamos. À roda de um café, falámos de Coimbra, Mães, calor, profissão, literatura e biologias pessoais. Confirmei, aleluia, o valor incalculável dos Amigos. E também que recuperar um Amigo é como tê-lo connosco pela primeira vez.
Atenção: ter Amigos não resolve o problema da mortalidade, claro; mas é minha convicção que nos aumenta exponencialmente a esperança de vida.

Coimbra, 06 de Agosto de 2018.
Joaquim Jorge Carvalho
[As fotos - uma relativa ao encontro da minha Filha com as Amigas Joana, Cristina e Ana; as outras duas, já de 2006, relativas a uma visita que o Daniel fez, a meu convite, à Escola Básica de Arco de Baúlhe - cantam versos de Zeca Afonso: "Amigo, maior que o pensamento... ", etc.]

sexta-feira, 3 de agosto de 2018

Never surrender


Leio, na última página do JN (edição de 01-08-2018), uma notícia sobre a manifestação de taxistas de Barcelona contra a Uber e a Cabify. No vidro traseiro de um táxi, um dos manifestantes escreveu em maiúsculas fortes: NO TENGO FUERZAS PARA RENDIRME.
Não estou habilitado a pronunciar-me, de forma séria e consistente, sobre o assunto da notícia, mas aquela frase genial, que celebra a Liberdade e a Dignidade vitais, passou a fazer parte da minha biblioteca pessoal, quiçá lema de vida a guardar para sempre.

Coimbra, 01 de Agosto de 2018.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, num post de Juan Miguel Garrido, via twitter.]

quarta-feira, 1 de agosto de 2018

Conceição presente


Aos 23 anos, conheci um dos meus melhores Amigos. Não tenho muitos, talvez (só) mais dois ou três. Porque, percebei, isto de chamarmos Amigo a alguém tem – deve ter – muito que se diga. A banalização da Amizade maiúscula é estúpida, perigosa e ridícula: aqueles que se vangloriam de ter muitos amigos esquecem-se de que essa circunstância, a ser verdade, significaria a fatal desvalorização desse tesouro tão especial. 

O Amigo de que falo chamava-se José António Conceição (para os amigos, “o Conceição”, ou simplesmente “o Conça”). Era um campeão em quase tudo – na robustez física, na coragem, no desassombro, no talento desportivo, no sentido de humor, na inteligência e na generosidade. E era sportinguista, pormenor engraçado para um leão comme moi
À traição, a foice oncológica veio e levou-o no dia 30 de Julho de 2014. Andei a chorá-lo (literalmente) por meses seguidos e ainda hoje me espanto e indigno perante o seu brutal desaparecimento. E tantas vezes dou por mim a recordar deliciosas histórias em que o grande Conça era o protagonista! 
Hoje mesmo, estive no cemitério da Pedrulha, em frente à sua campa (que a minha irmã, viúva do meu Amigo, cuida com desvelo absoluto), recordando a sua figura e o seu modo de ser. Ao contrário do que temia, estas visitas à residência tumular do Conceição não me provocam angústia ou dor; ao contrário, sou normalmente envolvido por um misterioso manto de bem-estar, de tranquilidade, de paz. 
Confissão: não gosto de chamar àquele lugar “última morada”. A última morada de quem parte é o coração e a memória dos que ficam (para sempre incompletos, para sempre saudosos). 

Coimbra, 31 de Julho de 2018.
Joaquim Jorge Carvalho 

Mestre João


Mestre João, meu sogro, partiu há oito anos, no dia 30 de Julho de 2010. O título de "Mestre" teve origem no seu estatuto profissional, ganho ao longo de décadas na construção civil. Mas, com o tempo, o epíteto passou a representar, na minha cabeça e na de todos quantos o conheceram, o justo reconhecimento da sua sensatez e da sua sabedoria, qualidades que – sensatamente, sabiamente – cruzava com uma visão bondosa e alegre da humanidade. Estou a vê-lo num Café qualquer do Sítio do Piquinho interrogando o proprietário: “Foi o senhor ou o seu irmão que morreu há dias?”; dirigindo-se a um estouvado que quase nos atropelara com uma motorizada furiosa: “O que o senhor precisava agora era de… uma boa tarde!”; falando-me da sua ideia de religião: “A minha Igreja não tem tecto!”; reagindo à morte de uma vizinha, amiga da família: “É triste, mas também é natural, A morte faz parte da vida…”; brincando com a prosápia de um filho (muito novo) que garantia ser o mais inteligente da família: “Não és sábio, és sabão: talvez o burro mais esperto que eu conheço!”; filosofando sobre pobres e ricos, intelectuais e operários, novos e velhos: “Todos somos dependentes de todos, não é verdade?”. 
A maior homenagem que lhe faço, de forma visível ou secreta, é perguntar-me muitas vezes, quando a vida me exige certas respostas, escolhas, opções: o que pensaria/diria/faria o Mestre João se estivesse aqui? 
Ele decerto sofreu também as suas dúvidas, decerto sentiu as suas próprias fragilidades, decerto errou de quando em vez, decerto conviveu com os pontuais falhanços e as desilusões de que a humana existência também é feita. Mas a sua palavra e a sua presença eram, regra geral, monumentos de bom senso e de bondade. 
Saudades, ó Mestre! 

Coimbra, 30 de Julho de 2018.
Joaquim Jorge Carvalho

domingo, 29 de julho de 2018

Pessoa contemporâneo

Reli, na passada 3ª feira, a magnífica Fotobiografia de Fernando Pessoa, assinada por Richard Zenith, com a colaboração de Joaquim Vieira na recolha e organização dos documentos (edição de Temas & Debates, 2009). O livro foi-me oferecido por preciosa Amiga já há vários anos, e com gentil dedicatória de que me orgulho.
Gosto de biografias – e ainda mais quando o texto vem acompanhado de imagens (fotos, fac-símiles, testemunhos, etc.). Talvez a volúpia de um literato que espreita, com grata impunidade, a existência de um génio como Pessoa se assemelhe à do voyeur mais patológico que anda pelas praias e parques de estacionamento do mundo à cata de flagrâncias escandalosas. Zero remorsos. O que me ficou, acima de tudo, desta releitura foi a sensação de proximidade e cumplicidade exponenciais que os grandes artistas conseguem com o mais anónimo dos indivíduos leitores (e isto – não se esqueçam – é dito aqui por um indivíduo razoavelmente anónimo).
Ocorreu-me uma expressão interessante para classificar esta gente genial, tendo sobretudo em conta a perenidade da arte que criam: contemporâneos da eternidade
Há muito defendo a ideia de que a Cultura tem o poder de nos tornar concidadãos do Tempo Todo, aquém e além imortalidades contextuais de cada eu, de cada sociedade, de cada época.
O Amor é algo diferente: se a Cultura é o que nos torna contemporâneos de um Tempo comum, o Amor prova a nossa fundamental semelhança com a raça humana de todos os tempos.
Sumário: não confundir Cultura e Amor - uma coisa é a contemporaneidade, outra é a semelhança. Esta repete-se e confirma-se, aquela explica-nos.

Coimbra, 28 de Julho de 2018.
Joaquim Jorge Carvalho

sábado, 28 de julho de 2018

O carrossel do Tempo



O Tempo é um carrossel (eterno, bem entendido). Vejo-o, por um instante, rodando à minha volta, talvez acenando, do lombo de uma girafa ou de um elefante, enquanto a música da vida toca, às vezes roufenha devido ao uso repetido. Saio das mãos de minha Mãe para a estreia assustada na escola; uns vinte anos depois, a minha Filha sai das minhas mãos, imitando lágrimas e tremores, para a sua própria estreia no mistério escolar. A minha Mãe, nova e formosa, segura-me a cabeça enquanto, num paroxismo de febre, vomito desesperadamente para o chão do meu quarto de criança; quarenta anos depois, eu seguro a cabeça de minha Mãe, agora envelhecida e doente de muitas coisas, enquanto ela vomita para a sanita doméstica. Levo a minha Filha às urgências do hospital pediátrico, conduzindo apressadamente, enquanto lhe vou assegurando que aquilo vai passar; a minha Filha, vinte e cinco anos depois, conduz-me ao hospital, explicando-me que aquilo são cólicas renais e que já vai passar. 
Digo daqui adeus ao Tempo e creio que ele me vê desta vez, iniciando novos círculos, no regaço de uma música que se devora a si mesma, a caminho de ser apenas ruído ou nada.

Coimbra, 28 de Julho de 2018.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem - a evocar o mítico programa infantil "Carossel Mágico" - foi colhida, com a devida vénia, na net.]





quinta-feira, 26 de julho de 2018

A eternidade a preto & branco


É um mistério este poder que sobre mim exerce uma qualquer fotografia antiga. Foi sempre assim, creio, desde que me conheço. Pode ser uma foto minha, de uma familiar, de outras pessoas (conhecidas ou desconhecidas), de um castelo, de uma rua, da azáfama no antigo mercado de peixe, em Machico, da equipa de futebol do Desportivo de Ribeira de Pena de há 40 anos ou mais. Aquilo toca-me como um aceno da Eternidade. Arrepio-me, comovo-me, imagino, sonho. Há nisto um encanto que a razão incompletamente explica. Agora mesmo, no Facebook do meu primo António Melo, numa imagem a preto e branco - entre a avó Adília e a tia Laurinda - descubro a minha querida Mãe, muito mais nova do que é hoje a minha Filha (sorridente e muito longe de sequer imaginar que seria um dia a minha tão querida Mãe). O Tempo, portanto: essa coisa verdadeiramente consubstancial a Deus! 


Ribeira de Pena, 26 de Julho de 2018. 
Joaquim Jorge Carvalho