Bússola do Muito Mar

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Número de Ondas

segunda-feira, 14 de agosto de 2017

ZONA DE PERECÍVEIS (100)


Escutar para ver

Cresci a ouvir rádio. Na casa da minha infância, a manhã anunciava-se pelo odor a café com leite e o som da emissora nacional, minutos antes de a minha Mãe nos avisar das horas e ameaçar com um balde de água. 
Claro que a televisão me foi também importante. Tenho 54 anos, sou da geração que viu a Pipi das meias altas, o Vickie, o Bonanza, o Tarzan, o festival da canção, o anúncio (pelo grande Fialho Gouveia) do 25 de Abril, o crescimento da democracia (a preto & branco e a cores). Mas a rádio conservou para sempre um misterioso encanto, que nasce sobretudo – creio – do seu lado não corpóreo, invisível, aquém ou além das vozes e da música.
Em grande medida, a rádio é um meio de comunicação que se aproxima da literatura. O leitor recebe do enunciado alguns sinais, algumas pistas – mas depende da sua própria leitura a realização mais profunda da comunicação. Estamos todos cientes de que o livro, na maior parte dos casos, é mais interessante do que o filme feito a partir do livro, não é verdade? Neste último caso, o que vemos é apenas o que o realizador viu na história lida; num livro, ainda virgem de filme, todos os acontecimentos, cenários e rostos são os que o nosso próprio cérebro fabricou, a melodia emocional com que o nosso próprio coração reagiu aos estímulos da escrita.
A rádio, pois: como esquecer a rádio-novela Simplesmente Maria, o ruído de portas abrindo-se ou fechando-se, os passos de uma mulher caminhando à chuva, um carro derrapando rumo à tragédia? Por isso me pareceu sempre falacioso o axioma do “ver para crer” atribuído a S. Tomé. Não poucas vezes, eu vi mais claramente visto na rádio que na televisão um certo golo de Manuel Fernandes, numa tarde em que, percebido do meu quarto coimbrinha, o Jamor era bastante mais espectacular do que é se cruamente visto com os olhos.
No JN de 03-08-2017, vinha a notícia de um assassinato particularmente terrível: um jovem de 19 anos matou o seu irmão de 23, após discussão fútil. A mãe de ambos, invisual desde o nascimento do segundo filho (por complicações inerentes ao parto), ouviu a querela, os gritos e a consumação do fim. Uma velha tia saiu-se com esta exegese mística: Deus, omnisciente e misericordioso, pressabendo o que haveria de passar-se 19 anos depois de a mulher dar à luz o assassino a haver, cegara a parturiente, poupando-a ao pesadelo de ver o crime.
A mim, que sei do poder da rádio, não me convence a teoria. Aquela pobre mãe, senhores, viu-sentiu tudo como se não fosse cega, quiçá até mais profundamente do que se pudesse ver com os seus olhos.

Coimbra, 03 de Agosto de 2017.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.commons.wikimedia.org.]

Infância


O tempo da minha infância,
Senhor Gasset,
Não tinha circunstância
Nem tinha de ter.
Não cabia na filosofia
Nem tinha de caber.
Era sempre o mesmo Dia
O mesmo estar e ser.

Tocha, 09 de Agosto de 2017.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.imagui.com.]

domingo, 6 de agosto de 2017

ZONA DE PERECÍVEIS (99)


Tempo de qualidade

A meio da corrida higiénica, na sossegada periferia de Coimbra, avisto um pequeno campo de jogos, cercado por uma frágil rede. Sobre o piso de cimento, um homem já maduro brinca com um petiz de 7-8 anos, cada um lançando, à vez, a bola para o cesto de basquetebol do lado da estrada. São, talvez, sete horas da tarde. Ainda há luz e calor bastantes. Passo por esta cena à velocidade de quarentão tranquilo e pega-se-me ao ouvido um coro de gargalhadas: o riso do provável pai misturando-se com o riso do provável filho, gaiatos ambos.
Os anglófonos têm para este tempo – aparentemente inútil – que concedemos ao convívio com família ou amigos, à roda de uma mesa, de uma bola, de um animal de estimação, etc., quality time [tempo de qualidade, em tradução literal].
Não investir nestes bocadinhos do nosso relógio comum é, na maioria das vezes, triste e trágico. Os laços que, em adultos, sobrevivem à (inevitável) perda da inocência quase sempre decorrem da memória ternurenta e grata de certos instantes preciosos. Pais e mães, mesmo sem de tal terem consciência, oferecem-se momentos de felicidade pura e gratuita e garantem, sem disso terem consciência, a eterna proximidade das crias. 
A minha Filha e eu partilhámos, desde muito cedo, o amor pelos livros e pelo humor. Um dia perguntou-me quem era Deus. Eu levantei os olhos do meu Vergílio Ferreira e respondi-lhe: “É como o pai. Mas mais alto e com barba.” E ela riu-se com gosto, antes de regressar ao volume de Flores para Crianças que, há pouco, eu a mãe lhe compráramos.
Tenho saudades dessas horas (ou minutos, ou segundos) em que existimos simultaneamente, compinchas da praia, do Café, da livraria, do campo de jogos, de viagens, de passeios à beira do Mondego. Foi então, nessa nossa cumplicidade tão querida (extensiva à minha mulher, claro, para sempre a melhor amiga daquela menina), que construímos a delicada Casa da nossa confiança, co-inquilinos da cultura, da liberdade, da tolerância, do Sporting, da literatura, da família, do mar, dos amigos. Aqui ficámos a morar juntos, ainda que eventualmente afastados no mapa desmancha-prazeres da realidade.
Ao escrever “Quando eu morrer voltarei para buscar / Os instantes que não vivi junto do mar”, era de tempo essencial e valioso que a preclara Sophia Andresen falava. De tempo de qualidade.
É demasiado curta a vida para nos satisfazermos de amor, perdoai o clichê. E demasiado curta é uma crónica para dizer a urgência de não perdermos tempo. Mas não é com a bruta pressa que resolvemos este consabido problema de morrermos todos demasiado cedo. É, antes, digo eu, aproveitando cada oportunidade para estarmos com quem amamos, aceitando de cada dia o Sol possível, reclamando de cada segundo o digno sumo que urge beber antes que fuja ou se estrague. De preferência, ó contemporâneos e vindouros, com a sábia despreocupação das crianças, talvez num entardecer qualquer, na periferia do caos adulto a que chamamos sociedade.
A eternidade é o que para sempre fica. Coisa gasosa como os sonhos, fresca como água da fonte e saborosa como, digamos, uma meloa portuguesa. É a “memória do amor”, como narratologicamente chamou Agustina à ideia de ressuscitar os instantes que valeram (valem) mesmo a pena. Coisa aparentemente inútil, eu sei, como estarmos uma inteira tarde a olhar para o mar.

Coimbra, 30 de Julho de 2017.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.welovestar.blogspot.com.]

terça-feira, 1 de agosto de 2017

ZONA DE PERECÍVEIS (98)











Sobre um romance em estado de sonho

A noção de que estamos perante uma grande narrativa não resulta exclusivamente de uma avaliação racional. A própria natureza estética do fenómeno implica, à partida, uma dimensão emocional, frequentemente misteriosa e desconcertante. Tenho notado que, até para falar da beleza de um certo texto (ou de uma pintura, ou de uma música, ou de um filme), tendemos a convocar, para o nosso testemunho de admiração, certa linguagem poética, com recurso - talvez involuntário - a adjectivação expressiva, a comparações e metáforas incendiárias, a hipérboles que alcancem, pelo instrumental exagero, a exactidão apetecida.
Um leitor experimentado, coleccionador de romances magistrais, acaba por aperceber-se de um conjunto de características que, regra geral, estão presentes em cada livro amado. O problema, quando o leitor é também, por vocação ou ambição, escritor, está em contar as suas próprias histórias concedendo-lhes o brilho genial das obras maiores. Ainda que conheça uma espécie de receita para a escrita a haver, confirma depois, melancolicamente, que a grande literatura não resulta de preceitos ou processos industriais. De certa forma, como disse Sebastião da Gama ao falar de aulas, a coisa acontece.
Habituei-me à ideia de que os romances maiores têm de comum a edificação de um mui coerente mundo, semelhante ou não ao da nossa realidade comezinha. Este mundo funciona com regras – e cria nos leitores a ilusão da vida verdadeira a acontecer. Como defendia Eco (com outras palavras), sentimos o tempo a passar enquanto lemos. Isto percebe-se bem em obras como Os Maias, de Eça, Cem anos de solidão, de Gabriel García Márquez, Memórias de Adriano, de Yourcenar, As pupilas do senhor reitor, de Júlio Dinis, David Copperfield, de Dickens, A Montanha Mágica, de Thomas Mann. Ponto de partida: na basse e ao redor da intriga (do enredo), existe um contexto referencial estável, feito de repetição e de pressuposta normalidade, isto é, a diegese.
Quem não tem paciência ou jeito para construir boas (verosímeis) diegeses, deve limitar-se à – também nobre e bela – arte do conto.
Na minha pobre carreira literária, tenho viajado por todos os modos – narrativa, poesia, teatro, crónica. Mas sei muito bem que a casa principal onde verdadeiramente quero morar é a narrativa. Desde sempre, até a dormir me acontece imaginar ou (re)criar histórias. Dizem-me, às vezes, que sou um bom contador. Isso não (me) chega, infelizmente. Confesso: ando há uns bons trinta anos a ver se me acontece enfim a diegese ideal para o romance que sonhei meu. Até ver, hélas, com mais paciência que sucesso. Mas, tirando o facto de isto me ser insuportável, nenhuma gravidade há, senhores, a reportar-vos.

Coimbra, 22 de Julho de 2017.
Joaquim Jorge Carvalho

sexta-feira, 21 de julho de 2017

ZONA DE PERECÍVEIS (97)



O paiol da hipocrisia

 O (alegado) roubo de material, em Tancos, teve o condão de pôr a falar de tropa alguns tudólogos que, mal sabendo a diferença entre à vontade, firme e sentido, lá puseram a marchar as respectivas (más) línguas. Facilmente se percebeu, na sanha geral dos comentários, que o episódio lhes pareceu sobretudo uma maravilhosa oportunidade para malhar no ministro da Defesa e, mais concretamente, no governo que por agora manda em Portugal.
 Sobre a guerra partidária, não tenho, por estes dias, paciência para escrever. Mas da mesma maneira que a alergia do PS às demissões me faz sorrir, não consigo evitar uma profunda gargalhada quando ouço a direita clamar por cabeças ministeriais. A mesma direita que apenas estremeceu perante as notícias dos impostos por pagar de Passos Coelho (e aquela história, muito mal esclarecida, da “exclusividade” como deputado, que o deputado não queria por estar a trabalhar para uma empresa, mas que não o impediu de, no final do mandato, pedir um chorudo subsídio por, afinal, o trabalho fora da assembleia ter sido realizado carinhosamente pro bono). Ainda se lembram? A mesma direita que compreendeu, comovida e doce, a revogada irrevogabilidade do ministro Portas (ou a bondade das suas explicações submarinas). A mesma direita que aguentou até ao limite (ou para lá do limite) o escândalo do cábula Relvas, os tiros no pé de Machete, as previsões erradas de Gaspar, o caos trazido aos tribunais por Paula Teixeira da Cruz, os swaps mal explicados de Maria Luís. 
 Quando eu estive na tropa, durante a década de 80 do século XX, em plena “semana de campo”, fui contemporâneo de um instruendo meio maluco (que veio a ser dispensado por motivos – adivinhai – psiquiátricos). Certa manhã, após o seu serviço de vigia, veio queixar-se ao comandante de que uns brincalhões do seu pelotão lhe haviam roubado e escondido a G3. O comandante, apoplético, quis logo saber quem fora o autor dessa enormidade. O doido respondeu-lhe: “Sei lá. Eu estava a dormir!” 
 A arma veio a ser encontrada, mas ninguém se acusou – e, em resultado desse silêncio, todo o pelotão (creio) foi castigado. A ninguém ocorreu culpar o comandante da unidade ou o ministro da Defesa de então pelo sucedido.
 Estou convencido de que o mais perigoso inimigo da tropa é o relaxamento que acontece em situações de paz. A inexistência de conflitos iminentes tende a adormecer os homens e as instituições. É evidente que a instituição castrense tem de responder perante o Estado, quando há problemas como o de Tancos. Ao poder político, que representa o Estado, caberá perceber o que se passou. Depois, em articulação com as forças armadas, punir os culpados e prevenir quaisquer outros (futuros) problemas. Mas a única demissão admissível, neste contexto, é a da fuga cobarde e irresponsável.
 O bruá hipócrita que se levantou, entre civis e militares carregadinhos de demagogia e de interesses (mal) disfarçados, compreendeu choros à roda do “desinvestimento na defesa”, da falta de efectivos e da ausência de videovigilância. Mas nenhum militar que se preze explica o (alegado) roubo de armas com faltas de dinheiro, de tropas ou de câmaras de filmar. Sabem bem que ali houve, de certeza, distracção, desconcentração, relaxamento.
 A paz prolongada talvez dificulte o cumprimento cuidadoso e focado dos mais básicos deveres militares. Ora, convenhamos: não há outra maneira de as forças armadas desempenharem bem a sua função senão agir como se houvesse guerra, mesmo quando (felizmente) não há.

Vila Real, 16 de Julho de 2017.
Joaquim Jorge Carvalho
 [A imagem (da BD “Recruta Zero”) foi colhida, com a devida vénia, na net.]

sexta-feira, 14 de julho de 2017

ZONA DE PERECÍVEIS (96)




Crónica de estar cansado

Da janela do quarto transmontano onde durmo há cerca de quinze anos, avista-se uma avenida bonita, dita “da Noruega” em homenagem aos nórdicos que, no pós-25 de Abril, ajudaram a custear o Centro de Saúde local. É por aí que me entra o Sol de cada novo dia, e também a vozearia viva dos ribeirapenenses, ou, no Inverno, os gemidos do vento e o choro da chuva.
Há poucos dias, à hora de deitar, chegou-me dessa janela um ruído semelhante ao de dedos batendo no vidro. Curioso, subi a persiana e apanhei um dos maiores sustos da minha vida: do lado de fora, pousada no parapeito exterior, olhando-me seraficamente, estava uma pomba. Não sei porquê, pareceu-me uma pomba velha. Soltei um palavrão cobarde e chamei a minha mulher para que visse o que eu via.
Ficámos ambos, nos segundos devenientes, sob o olhar triste da ave. Depois, eu bati no vidro, para que ela voasse dali pra fora e se concluísse tamanha estranheza nocturna. O animal estremeceu um pouco, mas não voou. Tentei assustá-lo com a descida da persiana. Em vão. Lá acabámos por nos conformar com aquela vizinhança misteriosa. Mas fiquei, por bastantes minutos, de olhos abertos na escuridão, a pensar naquilo – e quando a minha mulher murmurou “Que estranho…”, não pude deixar de sorrir, avaliando o milagre que era estarmos ambos tão preocupados com uma pomba triste. Disse-lhe: “Se calhar, está apenas doente…”.
De manhã, a ave já lá não estava. Não caíra morta na varanda sob a janela, nem na rua. Talvez tivesse continuado a sua saga viajante por outras casas. O parapeito exterior da fenestra ficou pejado de excrementos e de algumas penas.
Ultrapassada a possibilidade (vulgar e bruta) de esta história não significar coisa alguma, interrogo-me: que pode significar esta história verdadeira? Eu gosto de pensar, como diz Antonio Skármeta (pela voz de Pablo Neruda falando com o seu carteiro da Isla Negra), que a linguagem da Natureza é o que a Natureza nos mostra: o mar e as suas marés são a vida e as suas marés; a noite e o dia são a nossa morte e a nossa ressurreição; as estações do ano são as faces do senhor Tempo; um rio correndo é o humano caminho entre o princípio e o fim (ou entre o nada e o tudo). Etc.
Aquela pomba veio dizer-me o quê? (Parênteses: não me apetece aqui a dimensão da galhofa – era fácil associar a pomba ao Espírito Santo do catecismo e a sua tristeza à falência de um banco de más contas.)
E se fosse a Paz que, por uma noite, desistiu de voar? E se fosse o Espírito Santo original que me trazia um abraço (triste) de quem me morreu? E se fosse Deus, até, muito cansado de existir ou de não existir? E se a pomba fosse eu próprio, depois do telejornal, cansado de tudo?

Coimbra, 08 de Julho de 2017.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.thedodo.com.]

terça-feira, 11 de julho de 2017

ZONA DE PERECÍVEIS (95)

Sobre o Teatro

Alguém, algures, há muito ou pouco tempo, escreveu uma peça de teatro. Entre a imaginação de quem escreve e o papel propriamente dito, viajam pessoas-personagens, coisas de mercearia e de alma, emoções, ideias, gestos, amores, vozes, cenários, luzes e sombras, sons de vento ou tempestade, talvez música: um mundo.
Eu leio essa peça. Surpreendo-me, rio-me, aborreço-me, comovo-me, indigno-me, tomo as dores de personagens-pessoas em papel-carne, amo-as ou odeio-as, aprendo (ou reaprendo) a olhar para a raça humana, vejo até, eventualmente, o que somos, o que sou.
Enceno essa peça. Quero ver no palco as pessoas-personagens-pessoas que me perturbaram, me encantaram, me desafiaram a mais profundamente perceber o que se passa, entre cada respiração e cada passo, comigo e com a vulgar humanidade que em conjunto somos. Preciso que os actores (escolhidos por mim) encarnem dignamente as palavras que li-senti no texto escrito por alguém, algures, há muito ou pouco tempo. Quero construir os exactos cenários para a peça, de acordo com as instruções didascálicas ou as sugestões psicadélicas concomitantes à leitura. Pretendo oferecer aos meus contemporâneos – ao público – um mundo novo, quiçá em forma de interrogação, ou de novidade, ou de inferno, ou de abrigo.
Entre alguém que há muito ou pouco tempo escreveu uma peça de teatro e a minha circunstância encenadora, há um fenómeno de comunicação não apenas cerebral, mas sobretudo estética. O nosso encontro resulta fundamentalmente de duas dimensões: amor e beleza. É dessa (e nessa) cumplicidade que nasce o espectáculo teatral. Imagem possível: o fósforo risca a lixa e incendeia-se. O espectáculo é o fogo enquanto dura (como, em outros voos, escreveu Vinicius), tanto faz que o dramaturgo seja o fósforo ou a lixa da metáfora, e o encenador idem.
A minha paixão pelo teatro começou na infância. Há, pelo menos, 30 anos que acrescento à minha missão de apóstolo da língua e da literatura a dinamização de clubes de teatro (e, na última década, de cinema). Não conheço melhor território para desenvolver, nos nossos jovens, o gosto pelo trabalho em equipa. O processo (feito de repetições, de correcção de erros, de interacção produtiva) tende a consolidar o princípio, prático e filosófico, de que o brilho do outro nos ajuda a brilhar a nós próprios, e de que a beleza geral do espectáculo depende de numerosos e distintos contributos de cada um.
Acabei de escrever o relatório que, na condição de coordenador do Clube de Teatro & Cinema da minha escola, tinha de apresentar no final do ano lectivo. No documento, recordei os objectivos deste espaço extra-curricular: contribuir para a formação cultural dos alunos; desenvolver o conhecimento e o gosto dos alunos na área da expressão dramática; cultivar o sentido estético e crítico dos alunos face a espectáculos de cariz performativo; contribuir para a auto e a heterodescoberta de talentos e capacidades, reforçando a autoestima individual e grupal; estimular a leitura de obras literárias de género dramático (sobretudo da Língua Portuguesa); treinar activamente a memória; desenvolver e sistematizar o trabalho em grupo; desenvolver competências essenciais na área da comunicação (no domínio da escrita, da oralidade e da expressão corporal); articular áreas do saber (Literatura, História, Ciências) com áreas eminentemente técnico-tecnológicas e artísticas (uso do computador; recurso a luz, som, desenho, pintura, música, dança); enriquecer o nosso plano de actividades.
Faltou-me dizer que o teatro é, muito para além das semanas de ensaios e dos trinta-quarenta minutos de récita, o que fica na cúmplice memória de público e actores: o termos estado juntos, naquele cósmico instante em que nos rimos ou nos comovemos - como se todos, ali, naquele momento, fôssemos a inteira humanidade.

Coimbra, 01 de Julho de 2017.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem é a de um cartaz anunciando um espectáculo a que pude assistir ao vivo, em Coimbra (no Teatro Avenida), há muitos anos. Fui então gratamente atropelado pelo belo texto de Eduardo de Filippo, Nápoles Milionária. O cartaz da Companhia Teatral do Chiado reproduz o original, datado de 1945. Na versão portuguesa, brilhava sobretudo o génio inesquecível do actor Mário Viegas.]

sábado, 1 de julho de 2017

ZONA DE PERECÍVEIS (94)











Recordações do Sol

Fui espectador (distraído) de um debate recente sobre os problemas do ensino superior. Confesso-vos: o maior de todos, visto o fenómeno das profundezas do meu egoísmo, foi (é) a minha Filha ter saído de casa para estudar em Coimbra.
Tenho para sempre na memória aquele rosto à janela rodoviária dizendo-nos adeus, e o nosso desespero sorridente retribuindo o gesto, enquanto a camioneta se afastava. Como náufragos, órfãos da “menina”, voltámos a casa, pressentindo que a vida não mais seria a mesma.
Passou a estar demasiadamente arrumado e quieto o quarto da nossa Filha. E foi por esse tempo que, na parede exterior da divisão vaga, um casal de andorinhas fez o seu ninho. Apressei-me a fotografar a novidade e a enviar as imagens para a dona dos aposentos. Ela própria, ao fim-de-semana, se encantou com a escolha das aves e participou comigo na exegese possível desse tácito poema.
Agora, a nossa “menina” é já uma senhora e tem a sua vida muito fora do radar progenitor. Licenciou-se. Trabalhou em Coimbra, no Porto, em Lisboa. Tem conta bancária, despesas, prazos, cumplicidades & adversidades só dela, mundo próprio. Nós, ora discretamente, ora de forma desajeitada, obrigamo-la a dizer se está tudo bem, se já jantou, se já foi ao médico, se já fez as pazes com sabemos lá quem, se precisa de ajuda. Só adormecemos depois da certeza de ela estar bem, como há vinte e tantos anos, quando vínhamos do hospital pedriático, cheios de angústia e medicamentos para uma gastroenterite infantil.
Quando coincidimos em casa, num Sábado qualquer, sinto uma quase indizível sensação de completude cósmica, como se, por horas, tudo-mesmo-tudo estivesse certo.
Aprecio agora, ainda mais, o regresso das andorinhas. Elas trazem no bico as primeiras sílabas da Primavera e, sem cerimónia, ocupam o seu lugar na nossa casa.
O problema de sofrermos desta doença chamada poesia está em antecipadamente sabermos que partirão, que o ninho vivo volverá a ninho vazio. Ora, quando as aves anunciadoras do Sol se afastam do lugar de onde as vemos-vimos o que fica? Resposta: o tê-las visto; o tê-las tido connosco enquanto foi possível. Não há, senhores, outra eternidade.
Já (me) tinha explicado esta estima e esta gratidão pela memória, há uns anos, nuns versos que compus para uma sessão (escolar) de poesia e teatro. Recordo-vo-los:

Deixa lá, não fiques triste:
O voo que já não vês
Pode ser voo outra vez
Se te lembrares do que viste.

Coimbra, 24 de Junho de 2017.
Joaquim Jorge Carvalho
[Fotos JJC - Ribeira de Pena, 06 de Junho de 2017.]

terça-feira, 27 de junho de 2017

Calor mói, beleza dói



Lembras-te, meu amor, daquele calor
Na Festa do Senhor?
Entre turistas espanholas 
(Conchitas, Saritas, Lolas)
Havia duas quase nuas 
Pelas ruas.
Um polícia de poucas falas
Sem problemas de pudor
Disse: "Cuidado com as malas!"
E elas: "Dios mio, que calor!"
Ele sofria também só de olhá-las.


Viagem entre Guimarães e Ribeira de Pena, 26 de Junho de 2017.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.maioresdequarenta.com.]

Mortal idade


Amo tanto quem amar
Que a minha alma chora
Por quem eu amo não estar
Ou poder ir-se embora.

Por  isso me dói assim
Quer a morte acontecida
Quer só a ideia de fim
Para o amor ou a vida.

Guimarães, Hospital da Luz, 26 de Junho de 2017.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem- do filme Adeus, Pai, de Luís Filipe Rocha - foi colhida, com a devida vénia, em http://www.theskykid.com.]

ZONA DE PERECÍVEIS (93)


A Beleza, depois o Inferno, depois Nada

Eu tinha escrito uma crónica leve-levezinha, que falava da Primavera e do poder lenitivo das lembranças mais lindas. Faltava só dactilografá-la (ou, como agora se diz, digitá-la) e remetê-la ao nosso jornal. Mas sucedeu, entretanto, o Inferno. Notícias em tudo semelhantes às piores das guerras, ou aos piores dos atentados terroristas caíram sobre Portugal. Sobre nós.
Conheço razoavelmente a região por onde o Diabo em forma de fogo tem andado a matar. Trabalhei, há muitos anos, em Figueiró dos Vinhos, e lembro-me da beleza que, nas viagens de e para Coimbra, nos rodeava, daquele cenário (serpenteante) de árvores, montanhas, casinhas pitorescas aqui e ali.
Confirmou-se que a beleza pode ser perigosa. Aquela tão formosa proximidade das árvores, para os automobilistas que circulam no País profundo, era (é), afinal, uma ratoeira. A mesma, aliás, que há naquelas casas (ou povoações) vizinhas da floresta, sujeitas à destruição cúmplice de que qualquer incêndio filho-da-puta é capaz.
Estamos, felizmente, pouco habituados a este sofrimento hiperbólico: 63 mortos (talvez mais), quase uma centena de feridos, animais dizimados, casas e carros reduzidos a cinzas, muitos quilómetros de árvores devindas nada. Nos outros dias, a televisão, a rádio e os jornais atiram-nos para cima com um acidente rodoviário, um afogamento em praia não vigiada, um crime doméstico, uma facada traiçoeira durante um roubo – e, à força de repetida, a desgraça traz consigo um não sei quê de anestesia. Mas isto a que agora fomos sujeitos é indiscutivelmente maior, pior: a meados de Junho, a maiúscula Morte visitou Portugal, sem convite nem cerimónia. Deixou-nos este amaríssimo sabor da impotência mais triste, mais desconcertada, mais patética.
Deixo para quem sabe (e parece que há muitos) a discussão sobre o ordenamento florestal, a formação dos bombeiros, a articulação entre as organizações responsáveis pelo socorro às vítimas, os meios postos à disposição dos soldados da Paz, a educação ambiental das populações, etc. Por mim, não sou capaz senão de chorar, na forma singela de uma crónica de 2.128 caracteres. De me juntar aos que, na sua frágil condição de formiguinhas sobreviventes (por enquanto) ao Inferno, lamentam os mortos. E de, na medida das minhas possibilidades, ajudar os que mais directamente sofreram a violência daquele fim-de-semana, daquele fim-do-mundo. Com água, com leite, com dinheiro. E, vá lá, com palavras.

Vila Real, 19 de Junho de 2017.
Joaquim Jorge Carvalho
[Esta crónica foi publicada no semanário O Ribatejo, edição de 22-06-2017. A imagem utilizada foi colhida, com a devida vénia, no site da TVI24.]

terça-feira, 20 de junho de 2017

ZONA DE PERECÍVEIS (92)



 
Apontamentos de viagem

 1. No primeiro Sábado de maio, a minha mãe foi abordada na igreja, ainda antes do início da missa, por um velhinho frágil, muito magro, quase transparente (ainda mais velho que ela própria). O senhor trazia consigo umas dezenas de papéis. E ele mesmo nos explicou que se tratava de orações por si copiadas à mão, numa elegante caligrafia como já não se usa. Levava os dias a passá-las para quartos de folhas A4 e, depois, distribuía-as por transeuntes. Deliberadamente fugia a fotocopiar as orações, por tal não ser – sustentava – “a mesma coisa". A oração tinha de passar primeiro pela sua mão, “para chegar aos outros já meio rezada”. Haverá nisto, creio eu, conteúdo para uma tese de doutoramento sobre caligrafia.

 2. Desde sempre, vejo as estações de comboios e os aeroportos como lugares muito belos e – sem contradição nenhuma – terrivelmente tristes. É nestes territórios de humanidade avulsa que sinto aquela absurda vontade de sofrer dita em verso, por Cesário Verde, a propósito do entardecer lisboeta. 
Em visita (benigna) ao Instituto português de Oncologia, no Porto, a acompanhar um familiar, eu voltei a sentir, há uns tempos, algo de semelhante. Já no regresso à vila onde resido, reflicto sobre a coincidência sensacionista: em que medida aqueles corredores são uma espécie de estação ferroviária ou de aerogare? 
Surpresa nenhuma. Creio que tudo, como sempre, tem que ver com a mortalidade. Frágeis, leves, voláteis, transitórios, indefesos, ali vejo seres, como eu, partindo ou vendo partir. Encontrando-se, desencontrando-se, despedindo-se.
Voltarei com o meu familiar ao I.P.O. daqui a um ano, segundo a agenda das consultas. Talvez aí nos reencontremos, queridos contemporâneos. Ou não. (Repito: talvez.) 
Talvez, sabei-o, é um delicado monumento linguístico à esperança, mas admite já a ominosa possibilidade da decepção. Uma ponte de cristal entre acreditar e resignarmo-nos. Entre sermos e termos de, um dia, deixar de ser. 
A rua da minha infância, quando havia vento, trazia os murmúrios de comboios indo e vindo. O nome oficial desta Estação é Coimbra B. A designação popular é Estação Velha (dita velha, notai, desde a meninice de quem agora, maduro, a recorda). E ocorre-me que essa é uma adequada designação da própria Vida: Estação Velha desde que nascemos. 

Ribeira de Pena, 13 de Junho de 2017. 
Joaquim Jorge Carvalho 
[Esta crónica foi publicada no semanário O Ribatejo, edição de 15-05-2017. O enunciado é uma nova versão de dois textos já anteriormente publicados no Muito Mar.]

terça-feira, 13 de junho de 2017

Os passos em volta


Não tenho a certeza de que aconteceu o que a seguir vos relato como tendo acontecido. Talvez se tratasse simplesmente de um sonho. Talvez seja um livro qualquer, lido há muito, subitamente reclamando importância na minha memória. Talvez fosse a imagem de um filme vagamente acompanhado por meus olhos cansados, nessas madrugadas pastosas em que não conseguimos dormir e tão-pouco estamos acordados. Encontrei-me com Deus. Ele estava dentro de um Austin Mini, atrás do volante.
O Austin Mini deste relato era um carro que comprei em 1983, usado e em muito mau estado, necessitando de reparação urgente a nível de motor, de chapa e de pintura. A ideia era comprar peças, avulsamente, e ressuscitá-lo, mas aquele automóvel nunca mais voltaria a andar.
Deus tinha as mãos sobre o volante, como se guiasse. Não sei bem descrevê-Lo. Talvez o seu rosto fosse semelhante ao de Herberto Helder, pouco antes de o poeta morrer. Eu disse: “Meu Deus!”
E ele: “Conheceste-Me logo?”
Eu continuei o meu grito: “Meu Deus! Este era o Austin Mini que comprei em 1983, com o dinheiro que ganhei a trabalhar na Fábrica Estaco!”
Ele disse: “Lembro-me bem da Estaco. Foi pena ter falido. Quando lá trabalhaste, havia muitas encomendas e muito dinheiro a entrar. Até para Singapura exportavam…”
Tanta sapiência confirmou que Ele era Quem era.
“És Deus?”
Ele assentiu com um sorriso omnipresente. Recordando isto, creio ter reparado em certo pormenor zigomático que, visto de agora, lembra o esgar inteligente do jornalista Daniel Oliveira.
Entrei para o carro e perguntei-lhe: “Que estás aqui a fazer?”
Deus levou alguns segundos a responder-me. Fê-lo serenamente, num murmúrio que só à custa de muita concentração me tornou audível o catecismo: “Não estou bem aqui. Aliás, não estou apenas aqui. Estou em toda a parte. Nunca to disseram?”
“E por que me apareceste? Isto é, por que estás a falar comigo em particular?”
“Sinto que andas triste. Incomoda-me que andes triste. Quero que me fales dessa tristeza.”
Eu, na verdade, nem sabia que andava triste. Pelo menos, não sabia que andava mais triste do que o habitual. A circunstância de Ele o perceber era a prova de que era Deus. Ou Herberto Helder.
“Pois bem, eu digo-Te o que me faz triste.”
Falei-lhe sobretudo da velhice, das doenças, da mortalidade. Das pessoas cujo desaparecimento é uma ofensa, uma indignidade, uma dor que nos torna para sempre deficitários de mundo e de felicidade. Da azia (física e metafísica) do ter havido e do já não haver. Percebi que ele sabia que eu falava de meu Pai, do mestre João (meu sogro), do meu amigo José António Conceição, do meu cunhado José Manuel, de juvenilíssimos alunos e de mães ou pais de juvenilíssimos alunos. Julgo até ter visto (mas não garanto) uma lágrima (ou uma promessa de lágrima) escorrendo por seu rosto de estátua viva, enquanto fingia conduzir o meu Austin Mini sem conserto.
Disse-me, então: “É a vida. A vida das pessoas também é feita dessas feridas que levam tempo a sarar.”
Eu disse: “Algumas não saram.”
Ele repetiu o que eu dissera, e a sua voz era exactamente como a minha: “Algumas não saram.” (Talvez fosse eu próprio a repetir-me.)
Deu-me para ficar nervoso: “Mas és Tu, segundo se diz, Quem fez o mundo, a vida. Por que raio há morte? Por que raio decidiste que haveria morte?”
Era este o momento, penso eu agora, de Ele falar da vida eterna que há depois da experiência terrena. Do “Vale de lágrimas” que antecede o Céu livre da morte. Mas não. Suspirou, encolheu os ombros e saiu do carro: “Isto da morte foi um erro. Lamento-o, sabes?”
E desapareceu.
Se isto que vos conto foi verdade, ainda houve tempo para eu ficar, por uns minutos mais, naquele carro mínimo, que comprei sonhando com viagens fantásticas, tardes de praia, namoro ambulante.
Saí depois para a madrugada, já a rua começava a sua lida utilitária de vozearias e de passos. A minha tristeza (que sempre escondo genialmente, para me furtar à piedade e ao falatório de circunstância) permaneceu comigo. Levo-a para todo o lado, até para crónicas de jornal.
No Sábado, à noitinha, voltei a ver o “Eixo do Mal”, na Sic Notícias. Tive outra vez a impressão de que o Daniel Oliveira fala bem e é fisicamente parecido com Deus.

Vila Real, 11 de Junho de 2017.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.publico.pt.]