Bússola do Muito Mar

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Número de Ondas

domingo, 19 de novembro de 2017

ZONA DE PERECÍVEIS (112)



A um jovem professor

O filho de um amigo, estudante do 7.º ano de escolaridade numa escola em Coimbra, confidencia-me o seu gosto pelo estudo, sobretudo pela literatura. Adivinho que será bom aluno, em particular a Português. Ele confirma, mas obtempera: “Não vou ter nível 5. Vou ter 4.” Pergunto: “Porquê?” E ele responde: “A professora não dá nível 5 no primeiro período. Tem medo de que os alunos desçam no segundo…
Conheço há muito esta “filosofia” (e as aspas sou eu a rir-me tristemente.) Tenho falado bastante sobre o fenómeno, em contextos formais ou informais, e desconfio de que numerosos colegas não têm já paciência para aturar a minha indignação. Esta opção por atribuir nível 4 a alunos que mereceriam 5, à luz dos critérios definidos, não é apenas ilegal – é pouco inteligente.
Costumo trazer à discussão o programa de Português, dividido geralmente em três macro-conteúdos: texto narrativo, texto dramático e texto poético (claro que estou a resumir, por óbvias razões de economia enunciatória). Imagine-se que, no primeiro período lectivo, enquanto estudava a narrativa, o aluno estava “nas suas sete quintas”, participando activamente nas aulas, obtendo excelentes resultados nos testes, cumprindo – com denodo, entusiasmo e brilho – as suas tarefas. O docente, por capricho pessoal, recusa-lhe o nível máximo. Chega o segundo período: o aluno, para além de (quem sabe?) descorçoado com aquele nível 4, vem a revelar-se menos bom no estudo do texto dramático, seja porque lhe desagrada esse modo literário (ou a escolha de autores obras para o estudo da matéria), seja simplesmente porque está menos focado nos deveres escolares durante aqueles meses de Janeiro-Fevereiro-Março, eventualmente passados a curtir desgostos amorosos ou desportivos. O professor volta a atribuir-lhe o nível 4, senão o 3. E dirá, imagino eu, com pacóvia assertividade: “Eu não dizia? Olha se eu lhe tivesse dado o 5…
Ora, a putativa conclusão do putativo docente é pouco séria, desculpai-me a franqueza. Se o aluno, após ter obtido nível 5 no primeiro período, tivesse registado um menor rendimento no decurso do segundo, que problema haveria em propor, nesse caso, a descida do nível 5 para o nível 4 (ou mesmo o 3)? Problema, de facto, é conseguir “devolver” ao aluno o nível merecido no primeiro período, se a criança ou jovem vítima desse “roubo” não mais repetir, ao longo do ano escolar, a excelência do rendimento inicial.
Creio que, em muitas circunstâncias, bastaria aos professores a generosidade (i.e., a humildade) de ver cada situação através dos olhos dos seus alunos, no sentido de bem aferir dos prejuízos ou dos ganhos pedagógico-pessoais das decisões tomadas. Atrevo-me a dizer que a maioria dos meus colegas tem esse cuidado (e ainda bem).
Quando, em 1985, iniciei a carreira de professor, disse aos alunos, logo ao primeiro dia, na apresentação, que contava já com dezasseis anos de experiência. O meu público riu-se, divertido, como se aquela afirmação fosse uma piada. Pois como poderia alguém tão novo (com vinte e dois aninhos cheios de frescura e acne) ter já dezasseis anos de experiência?
Expliquei-lhes, cordialmente, que estava a contabilizar os meus anos “do outro lado”, como estudante, testemunha (como eles) das melhores práticas e das piores barbaridades. O velho professor que sou hoje tem um recado para o jovem professor que fui em 1985: “Tinhas razão, pá.”

Vila Real, 11 de Novembro de 2017.
Joaquim Jorge Carvalho
[Esta crónica foi publicada no semanário O Ribatejo, edição de 16-11-2017. A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.construirnoticias.com.br.]

terça-feira, 14 de novembro de 2017

ZONA DE PERECÍVEIS (111)


A ilha dos tesouros

Ando a telever, com fidelidade canina, uma série genericamente intitulada “A Ilha”, que passa na Sic Radical e vai já na 2ª série. Em boa verdade, não obstante a aparência de documentário, trata-se de um “reality show”, visto que os protagonistas são cidadãos britânicos, tão comuns como eu e os meus caros leitores, ocupados – todos – com a questão da sobrevivência em contextos difíceis.
A produção do programa leva alguns indivíduos (homens, num dos casos; mulheres, noutro) para uma ilha do Pacífico, desabitada e inóspita, ainda assim com recursos teoricamente suficientes para se sobreviver. Os novos ilhéus recebem, à partida, cinco machetes, cinco anzóis e alguns (rudimentares) apetrechos (por exemplo, uma panela e um bidão metálicos). Terão, depois, de ser capazes de construir abrigos e camas, de fazer uma fogueira e mantê-la, de defender-se dos perigos à solta na ilha, de recolher água e fervê-la (para a tornar bebível sem riscos fatais), de pescar, de caçar, de recolher frutos, tubérculos, moluscos, larvas.
Estão radicalmente entregues a si próprios (as próprias filmagens, realço, estão a cargo destes neo-insulares). Só em último recurso poderão solicitar ajuda do exterior, nomeadamente em caso de desistência ou de problemas graves de saúde. Cada dia é uma luta tremenda. Arranjar comida ou água, tratar de feridas, resistir à inclemência da chuva ou do calor – tudo assume uma dimensão única e épica. A mim, na confortável condição de espectador, comove-me o (raro) sucesso da pesca, a morte de um caimão às mãos de um operador de câmara e de um técnico de informática, a descoberta de uma poça com água suficiente para alguns dias. Ali, dia após dia, cada indivíduo encontra em si e em cada um dos outros as aptidões que, conjugadas solidariamente, tornam menos penosa a sobrevivência.
Ainda que diferidamente, é como se reencontrasse Swift, Defoe, Tournier, Fielding, Camões, Fernão Mendes Pinto, Calvino, Stevenson – e novamente me tornasse cúmplice da aventura fundadora da existência humana, conhecendo e dominando a Natureza, superando os perigos e o sofrimento, resistindo à penúria e ao desânimo.
Tal como percebera, em outras ocasiões, pela literatura de viagens, confirmo nesta série que boa parte do valor da vida está no mérito de ultrapassar os obstáculos e as dificuldades concomitantes ao verbo viver.
Em certo momento, um dos aventureiros fala do aparente paradoxo que há na ilha, por se tratar de um espaço majestosamente belo e mortalmente perigoso. Acrescenta (cito de cor): “Não é só o facto de, aqui e ali, enfrentarmos ratoeiras. É toda a ilha ser uma ratoeira!” Ora, a piada desta observação está no seu potencial metafórico: basta que substituamos “ilha” por “vida”.
Há dois tesouros fundamentais que retiro de quanto tenho televisto para a nossa moderna e mui sofisticada existência:
a) o que temos e damos normalmente por vulgar & adquirido é, se visto sob um ângulo essencial e justo, coisa muitíssimo preciosa;
b) só é possível a sobrevivência de cada um com o esforço (inteligente, concertado e solidário) de todos.

Vila Real, 05 de Novembro de 2017.
Joaquim Jorge Carvalho
[Esta crónica foi publicada no semanário O Ribatejo, edição de 09-11-2017.]

quinta-feira, 2 de novembro de 2017

ZONA DE PERECÍVEIS (110)



O inferno dos outros


Há muito que ouço um argumento falacioso e adivinhadamente disruptivo sobre as carreiras da função pública – o de que a velhice tem elevados salários à custa da miséria dos novos que iniciam a profissão: “No começo da vida é que precisamos de dinheiro”, escuto eu aqui e ali. 
Não foi preciso que deviesse velho para me aperceber da injustiça e do erro que há nessa visão. Também eu entendo que, em muitas profissões, os jovens em início de carreira são mal pagos e que, em concomitância, têm dificuldades evidentes na construção de uma existência autónoma, fora da casa dos pais, quiçá com cônjuge e filhos. Mas igualmente se me afigura claro o facto de, com a idade, chegarem outras (novas e dispendiosas) exigências a condicionar a sobrevivência – tratamentos médicos, medicamentos crónicos, especificidades alimentares, auxílio a filhos e netos. 
Pior que esta falácia, é o jogo delicado da Culpa: Hitler identificou os judeus como responsáveis por todos os males da Alemanha e do Mundo; noutros tempos e noutras paragens, o estigma recaiu sobre os negros, os cristãos, os muçulmanos, os estrangeiros. Em nome desta ignorância, discriminou-se, perseguiu-se, torturou-se, matou-se (e discrimina-se, persegue-se, tortura-se, mata-se). 
Durante o consulado de Coelho, Portas & Troika, houve quem, à direita, explorasse-estimulasse-potenciasse, sem decoro nem humanidade, a divisão entre velhos e novos, como aliás – também – entre trabalhadores do público e trabalhadores do privado, ou entre população activa e pensionistas. Alguma dessa baba estúpida e perigosa permanece na vox populi. No imediato, esta guerra beneficia, quase sempre, quem governa, pois dirige as frustrações, o ressentimento e a revolta de quem sofre para os alvos aparentemente culpados de todas as crises: os outros; os que, por existirem diferentes de nós nos disputam o espaço, a riqueza, o oxigénio. “L’enfer, c’est les autres”, avisava tristemente Sartre. 
Há dias, em Lisboa, pessoa amiga ouviu um taxista, ainda jovem, sem paciência para as passadeiras urbanas, queixar-se dos “velhadas que nunca mais morrem e andam para aqui a mamar na teta do Estado”. Entre buzinadelas e impropérios, o primata concluiu (e reporto-o como ela mo contou): “Isto só lá vai a tiro, ó menina!” 
Não tenho vocação nem paciência para conselhos sobre partidos e candidatos a escolher em eleições. Mas, como aprecio a civilização, atrevo-me a sugerir que, no momento do voto, se evitem taxistas adeptos da “solução final”. 

Coimbra, 26 de Outubro de 2017. 
Joaquim Jorge Carvalho
[Esta crónica foi publicada no semanário O Ribatejo, edição de 02-11-2017. A imagem (foto de Jean Paul Sartre) foi colhida na net.]

segunda-feira, 30 de outubro de 2017

ZONA DE PERECÍVEIS (109)


Felicidade básica

A conversa partiu de uma frase de Manuel António Pina sobre a felicidade. O saudoso (sempre vivo) autor de Nenhuma Palavra & Nenhuma Lembrança escreveu no JN, em 2006, uma bela crónica sobre o tema. A ideia essencial, que ali esculpiu em poucos caracteres, era bem singela: mais do que pensar muito sobre as razões e os caminhos para sermos felizes, devemos viver a vida (i.e., aproveitá-la), com a gratidão ou a paciência necessárias. Mas o Saul, aluno do 8.º ano de escolaridade do ensino básico, divergiu livremente do cronista. Aventou, alternativo: “Eu acho que não há mal nenhum em pensarmos no assunto. Para mim, ser feliz é sentir que a vida vale a pena.
A discussão estalou por uma eternidade de, talvez, trinta e cinco minutos. A Rosa, de mãos dadas com Manuel António Pina, defendeu que pensar na felicidade não fazia sentido, uma vez que “a vida vale sempre a pena”. Logo contrapôs o Saul que aos doentes, aos pobres e aos refugiados talvez não. O Vítor, muito sério, ajeitando os seus óculos de (dir-se-ia) homem mais velho, declarou que, mesmo nessa situação, “todos querem viver”. “Daquela maneira?”, perguntou a Sónia, corroborando romanticamente a perspectiva do Saul. “Desde que tenham esperança…”, sugeriu a Vânia.
Uns minutos antes do final da aula, lá consegui um concerto razoável sobre o conceito debatido: “Ser feliz é sentir que a vida vale a pena, mesmo quando não corre bem, desde que haja esperança.” Reforça-se o sentido, deste modo, de um famoso aforismo: “A esperança é a última [coisa] a morrer” (ou seja, a morte só nos vence verdadeiramente quando desistimos de acreditar).
No fim-de-semana seguinte, faleceu o Pai de uma aluna do sétimo ano - e eu revisitei, com o coração, aquela crónica de Pina. Reparei entretanto que faltou à escola, hoje, a menina vítima deste roubo maior. Conversei sobre os alunos da sua turma sobre o sucedido. Confessei-lhes que uma dor assim nunca desaparece, apenas se torna suportável com o tempo e as novidades que hão-de vir. Aconselhei-os a falar do assunto com a colega apenas quando esta o quiser. Sugeri-lhes que a fizessem sentir-se acompanhada. Pedi-lhes que estivessem vigilantes, atentos, disponíveis. Eles escutaram-me com desusado silêncio e rara quietude.
A minha crónica é dedicada ao imenso Manuel António Pina, senhor tão precocemente desaparecido, com quem converso há muitos anos sem jamais ter tido a graça de lhe apertar a mão. É também dedicada a uma menina com saudades do seu Pai. E é, finalmente, uma homenagem ao Sol que teimosamente habita a condição humana. Esclareço: a condição humana representada pelos meus buliçosos alunos do ensino básico, que são literal e simbolicamente o contrário da morte, e que vejo sempre cheios de uma irreprimível vontade de afirmar o que pensam, sentem, sonham. Em português e em liberdade.

Vila Real, 22 de Outubro de 2017.
Joaquim Jorge Carvalho
[Esta crónica foi publicada no semanário O Ribatejo, edição de 26 de Outubro de 2017. A foto (com Manuel António Pina) foi colhida, com a devida vénia, em http://www.ibliotecariodebabel.com.]

domingo, 22 de outubro de 2017

ZONA DE PERECÍVEIS (108)


Meia dúzia de óbvios

1. Ao contrário do que alguns pedantes pensam e grandiloquamente defendem, dizer o óbvio vale, quase sempre, a pena. A Verdade merece, como tantas grandes canções de sucesso, um refrão que regularmente assinale, com ritmo e melodia eficazes, o essencial de nossas vidas.
2. Por exemplo: nascemos e morremos; entre o princípio e o fim, vivemos ou duramos. É assim, é óbvio que é assim. Mas aquela (óbvia) diferença entre viver e durar tem que se lhe diga – e é crucial lembrarmo-nos disso, em cada esquina funcionária, em cada lapso caminhante, em cada fôlego horário. Aqui entre nós: ainda agora telefonei à minha Mãe, só para ter, por minutos, a graça da sua voz. Dispensável, direis. Talvez; mas imaginai que sabíeis do iminente desaparecimento do Sol. Ficaríeis o dia todo fechados em casa, sem dele recolher quanto pudésseis em luz e temperatura?
3. Tenho um amigo que, de quando em vez, me telefona das ruas onde eu gostaria de estar. Não sinto inveja, juro; ao contrário, experimento a gratidão por me ser concedido esse bónus de mundo ao meu quotidiano migrante. E, enfim, por ter camaradas capazes de tamanha generosidade. Que faço, pois, quando toca o telefone? Aproveito, como é óbvio.
4. Um amigo é um tesouro. De tão repetida, a evidência pode devir clichê, sei-o bem, mas dizer o óbvio é, também aqui, justificável e justo. Eu falo muitas vezes do meu amor por família e amigos. Habituei-me a ouvir que aquela não se escolhe e que estes, sim. Creio que tendemos, em geral, a considerar família as avulsas pessoas por quem temos afeição, e a preferir, na tribo familiar, os que, para além da fatalidade sanguínea, são merecedores da nossa amizade.
5. Há uma oncologia comum que mata frequentemente a amizade: é a zanga, depois ressentimento, depois ódio irracional. Não poucas vezes, tudo começa numa divergência fútil, caprichosa, despicienda. Com o tempo, o veneno tumoral pode matar o vínculo afectivo. Eu conheço muitos exemplos de gente que se especializou no ódio, porém esquecida, já, do motivo que a trouxe a esse afastamento radical. Não valeria a pena trocar tanta raiva por um abraço e, em concomitância, pela possibilidade de dar nova vida à amizade interrompida? Parece-me tão óbvio que sim.
6. Estava já a crónica feita, e a boca voraz, traiçoeira e cínica do Fogo veio a Portugal por mais alimento, somando às mortes e à destruição anteriores a destruição e as mortes de agora. Logo regressaram também os tudólogos da pátria, apontando culpados, expelindo (entre vaidade & baba) as medidas certas a tomar, regurgitando (entre baba & vaidade) as medidas erradas que se tomaram. Ainda bem que, na madrugada do dia 17, ouvi finalmente a chuva e pude, enfim, juntar o meu suspiro grato ao suspiro do próprio chão saudoso de frescura. É tempo de chorar os mortos e de ajudar os vivos que perderam tanto. Mas também de nos livrarmos dos fogos da má-língua e da politiquice mais rasteira – e de, serenamente-sensatamente-responsavelmente, preparar o País para os problemas a haver. Também isto, amáveis leitores, me parece óbvio.

Vila Real, 15 de Outubro de 2017.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, na maravilhosa BD Calvin & Hobbes, de Bill Watterson.]

ZONA DE PERECÍVEIS (107)



Espuma autárquica

Os resultados das últimas autárquicas não devem, naturalmente, ser lidos como se se tratasse de uma eleição idêntica à das legislativas. Mas tão-pouco me parece avisado ignorar o cariz fatalmente nacional da consulta. Enquanto eleitor, já me habituei a votar em diferentes candidatos/partidos numa mesma eleição autárquica – e uma ou outra vez lá engoli o meu sapo, ajudando a eleger presidentes de câmara que não convidaria sequer para um café; nesses casos, reservo a minha sinceridade maior para a escolha do presidente da Junta ou da Assembleia Municipal. Trata-se de pensar no País em geral, no primeiro caso, e de confiar pessoalmente nos nomes a sufrágio, no segundo. 
Já toda a gente opinou sobre as vitórias e as derrotas mais conspícuas do dia 01 de Outubro (aqui se destacando o evidente sucesso do PS, claro). Creio, contudo, que poucas vozes se têm ocupado de um certo fenómeno importante, aparentemente larvar, no panorama político de Portugal – o do esvaziamento do PSD em benefício já não apenas do PS, mas do CDS-PP. É verdade que no Porto o partido de Assunção Cristas se abrigou sob a asa magna do independente Rui Moreira; mas bastaria reparar nos resultados em Lisboa para se perceber o extraordinário reforço dos chamados “centristas”. A quem, no PSD, a acusava de traição, Cristas já veio dizer que Passos Coelho menorizou as autárquicas, nunca assumindo a urgência, nesse plano, de um trabalho aturado, consistente e próximo nas ruas e bairros da capital.
Julgo que as ideias, a atitude e o discurso de Passos, enquanto primeiro-ministro, muito contribuíram para esta emancipação do CDS-PP, que passou a ser visto, não só como muleta do partido principal da Direita, mas como alternativa moderada e razoavelmente humanista a um certo liberalismo de pacotilha (espécie de Margaret Thatcher requentada). Sintomaticamente, em Loures, o CDS-PP envergonhou-se do discurso troglodita de André Ventura. Esse pudor, do ponto de vista do eleitor nacional, é uma relevantíssima afirmação de higiene e de decência, que pode, a prazo, ser um trunfo não despiciendo. A confirmar nas legislativas.
Os resultados do PCP mereceriam uma crónica inteira. Ainda assim, à laia de telegrama, aduzo algumas notas. É mais ou menos unânime a ideia de que os autarcas da CDU são, em geral, competentes, dedicados e honestos. A perda (dramática) de poder autárquico representa, neste caso, o preço a pagar pela aproximação dos comunistas, na Assembleia da República, ao PS (e, concomitantemente, uma tácita legitimação da transferência de votos para o partido de António Costa)? Pode ser. Mas o que sobretudo ressalta da situação, não apenas conjuntural, é esta aparente incapacidade de o PCP se renovar, actualizando alguns dos seus conceitos fundadores, sob pena de morte por obsolescência.
A Direita diz que o PCP não pode mudar porque, se o fizer, desaparece. Mas pode, creio eu, suceder o contrário: desaparecer (ou tornar-se residual) por não mudar.

Coimbra, 08 de Outubro de 2017.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.educacao.cc.]

sábado, 7 de outubro de 2017

ZONA DE PERECÍVEIS (106)


Morrer-nos alguém

Vou regularmente a um cemitério coimbrinha, acompanhando a minha irmã num ritual de saudade: ela limpa a campa do marido, falecido há três anos, e renova-lhe o arranjo floral que decora aquela ausência em pedra. O ausente, para além de cunhado, era também o meu melhor amigo – e a toda a hora me faz falta o mundo (muito mais rico e completo) que, antes da sua partida, éramos e fazíamos. Todas as mortes, creio, nos doem como se se tratasse da nossa própria Morte. E com o desaparecimento de quem nos é próximo, é isso mesmo que sucede, mas em pior.
Na semana que passou, a terra transmontana onde resido (há mais de vinte anos) perdeu um homem importante. Era meu rival no futebol e, talvez, na mundividência política, mas era sobretudo um cúmplice da minha existência essencial, amante dos simples prazeres da vida, do humor, da conversa, das histórias, da família, dos pequenos-grandes sonhos que tornam menos árido o quotidiano dos homens. Era mais novo que eu três ou quatro anos, cheio de força tão pouco antes de adoecer: é, aliás, dessa saúde que me lembro, agora, como um parênteses alegre e lindo encravado na Noite definitiva.
Ouvi, pela enésima vez, durante o caminho entre a igreja e o cemitério, alguém dizer “É a vida” e “A morte toca a todos”. Mas até essas palavras, apesar de vestidas de resignação, sabem ao vinagre da impotência, senão ao veneno da revolta.
No dia 27 de Setembro, televi, na RTP2, o documentário “Gabo, a magia da realidade”, datado de 2015, do realizador Justin Webster. Nele, Gabriel García Márquez fala, em discurso directo, da condição fatalmente mortal da condição humana. Cito: “Eu a única opção que aceito é a de não morrer. O importante é estar vivo. E acho que a morte é uma armadilha, uma traição que incondicionalmente nos captura. Para mim é muito sério e grave o facto de tudo se acabar, e praticamente sem aviso… Acho que é injusto.” A jornalista pergunta-lhe: “Que podemos fazer para o evitar?” E Gabo responde: “Escrever muito.
Um dos irmãos do senhor Avelino disse-me, durante o abraço de pêsames, na noite do velório: “É preciso recordarmos os bons momentos…”
Dei por mim a pensar: certo e triste; triste e certo. E escrevo-o.

Coimbra, 30 de Setembro de 2017.
Joaquim Jorge Carvalho
[Esta crónica foi publicada no semanário O Ribatejo, edição de 06 de Outubro de 2017. A foto, com o saudoso Avelino Borges, data de 2006, quando ainda éramos todos ainda razoavelmente imortais.]

quinta-feira, 28 de setembro de 2017

ZONA DE PERECÍVEIS (105)


Notícias da civilização


Não sou de me lamuriar acerca do país onde nasci e vivo. Gosto muito de ser Português, da nossa História, da nossa Língua, do nosso Sol, do nosso Mar, dos nossos Eça, Dinis, Camões, Pessoa, Ruy Belo, Sophia, Pina, Amália, José Afonso, Dulce Pontes, Paula Rego, Eusébio, Ronaldo.
Mas falei, em Agosto, com um velho conhecido, emigrante há mais de vinte anos num país do Norte europeu. Ele confessou-me as saudades da terra natal, do bacalhau, dos jornais em português, da família e dos amigos, da luz portuguesa. E obtemperou:
- Nem tudo é mau, claro.
A começar, como se adivinha, pelo bom salário. A continuar, por certas regras e costumes que o impressionaram e ele abraçou com gosto - e que são, para quem vê a novidade do lado de cá, um espelho de civilização. Falou-me, por exemplo, daquele escândalo dos submarinos, que alegadamente envolveu portugueses e alemães:
- Na Alemanha, já houve acusação, julgamento e culpados. Em Portugal, parece que nada se passou.
Depois, falou-me dos dejectos caninos que abundam pelos passeios das vilas e cidades de Portugal; e do barulho feito pelos cães dos vizinhos a alta horas da noite; e da impunidade de maridos violentos; e do perigo de automobilistas broncos e irresponsáveis:
- Ali, a polícia actua, pá!
Disse-me também que é obrigado pelos médicos a fazer exames regulares (à próstata, ao cólon, etc.), no sentido de prevenir males eventualmente irresponsáveis, e que pouco ou nada paga por isso; e que os alunos do ensino básico e secundário, para participar nas aulas de Educação Física, têm de obter previamente uma autorização clínica; e que, enfim, a assistência na saúde, ali, nem se compara à do berço pátrio.
Atenção: este meu amigo está muito entusiasmado com a iminência da reforma, que lhe permitirá o regresso a Portugal, mas já se vai mentalizando para a perda (ou degradação) de muitos dos direitos sociais e profissionais a que se habituou. À mulher, mais nova do que ele, falta-lhe cerca de um ano para o fim da carreira contributiva, ainda assim cerca de quatro anos menos do que teria de cumprir à luz da lei portuguesa.
Eu fico feliz por sabê-lo bem, lá longe, no estrangeiro. E confesso-lhe que ouvi-lo falar assim da 1ª divisão da Europa soa, em muitos dos exemplos enunciados, a algo verdadeiramente estranho. Mas estranho e estrangeiro habitam, como se sabe, o mesmo regaço etimológico.

Vila Real, 23 de Setembro de 2017.
Joaquim Jorge Carvalho
[Esta crónica foi publicada no semanário O Ribatejo, edição de 28-09-2017. A ilustração foi colhida, com a devida vénia, em http://www.maedecachorro.com.]

sexta-feira, 22 de setembro de 2017

ZONA DE PERECÍVEIS (104)



O último ano de Monsieur Burel

Passou na RTP2, no passado dia 12 de Setembro, um documentário intitulado “Mon maître d’école” (com o título “Adeus, meu professor”, em português). A francesa Émilie Chérond teve uma ideia luminosa: acompanhou, com uma câmara de filmar, o último ano de carreira do seu velho professor primário, recolhendo en passant impressões, comentários e desabafos deste seu maître, Monsieur Burel, acerca da escola, da profissão, das gentes da vila, da humanidade. A realizadora reconhece, aqui e ali, práticas pedagógicas que, no seu tempo de menina, a impressionaram já – e revê-se na cúmplice felicidade dos petizes do século XXI, por exemplo na construção de um desenho colectivo, ou na possibilidade de cada aluno recorrer livremente à “caixinha das perguntas” e questionar o docente sobre astronomia, leis, História, flatulências, superstições.
O documentário, embora reflicta a dinâmica variegada e ruidosa de uma turma de meninos e meninas em estado de ebulição contínua, compreende a lentidão própria da existência rotineira e serena, feita de repetições e de regras (formais ou tácitas). E, na verdade, não há nesta dicotomia qualquer contradição: o senhor Tempo é, por natureza, um compósito de continuidade e variação, como amplamente já nos ensinaram Bergson ou Thomas Mann (entre outros sábios).
A noção de que o velho professor cumpre o seu último ano de profissão empresta a cada gesto e a cada frase um extraordinário peso simbólico. Convenhamos: o valor da existência humana tende a inflacionar-se perante a iminência do fim a haver. Explica o senhor Burel, a dado momento, que a reforma representa “o fim de uma viagem, de uma aventura, de uma paixão”.
Pelo meio, o professor viaja com os alunos até Paris, proporcionando-lhes a primeira viagem de metro, a primeira subida à Torre Eiffel, a primeira (quiçá única) entrada no parlamento. Os alunos ajudam-no a ver a Novidade com a virgindade própria do olhar primeiro – e, entre risos e frases descontínuas, garantem a utilidade desta visita de estudo, “pois serviu para aprendermos e para nos divertirmos” (cito de cor).
É ainda o velho instituteur a fazer as honras da casa, recebendo a colega que o substituirá e apresentando-a aos alunos. (Há aqui uma coincidência poética: a nova docente está grávida, como é próprio de uma metáfora sobre o porvir).
No final, a vila despede-se, numa festa muito familiar e singela, do professor Burel. Pela primeira vez, vemo-lo chorar, de olhar assustado e triste. E eu, que tenho esta eterna doença de sofrer excessivamente com a passagem das horas, e que ainda por cima sou um Monsieur Burel perdido por Trás-os-Montes, chorei também. Adeus, senhor professor. Até já.

Vila Real, 15-09-2017.
Joaquim Jorge Carvalho
[Esta crónica foi publicada no semanário O Ribatejo, edição de 21-09-2017. A foto foi colhida, com a devida vénia, no site da RTP.]

sexta-feira, 15 de setembro de 2017

ZONA DE PERECÍVEIS (103)


Humildade, palavras e espanto, segundo Pina

Durante o saudoso Agosto, um Amigo ofereceu-me uma prenda maravilhosa: um livro com 10 entrevistas feitas a Manuel António Pina, com o título Dito em voz alta, organizado por Sousa Dias (Coimbra, Pé de Página Editores, Lda., 2007). Por cósmica coincidência, Pina é um dos meus poetas preferidos – e o ofertante, que deixo aqui por nomear, é talvez, hoje, o maior poeta português vivo.
O livro devora-se numa tarde. Durante a leitura, costumo sublinhar o que mais me fere a atenção e o entendimento, e dei por mim a assinalar, frase sim - frase sim, as palavras do genial entrevistado. Da entrevista a Maria Augusta Silva (páginas 57-77), trago-vos algumas das ideias do poeta, que ainda me ecoam, como música, nesta ressaca do Verão.
À pergunta “Que levou para a literatura o jornalista que é?”, o escritor responde: “Jornalismo e literatura trabalham com a mesma matéria-prima, as palavras (fiz jornalismo de imprensa). No meu caso, aquilo que de mais importante o escritor terá aprendido com o jornalista foi a humildade. Um jornal, como dizem os velhos tipógrafos, serve no dia seguinte para embrulhar peixe…” Maria Augusta Silva parece estranhar tal certeza e interpela-o: “Esse é igualmente o destino da arte literária?” Pina não duvida: “Da literatura também; se não no dia seguinte, no ano seguinte ou no século seguinte, não há diferença qualitativa entre um dia ou um século. O destino de toda a literatura e de todos os escritores é esse, o esquecimento. […]”
À pergunta “Ao jornalismo que deu o escritor?”, responde: “O jornalista aprendeu com o escritor, fundamentalmente, o respeito pelas palavras. As palavras não são malas de transportar sentido, são seres vivos e volúveis, a umas pessoas dizem umas coisas e a outras coisas diferentes (e a algumas não dizem coisa absolutamente nenhuma). E se não formos capazes de manter com as palavras uma relação simultaneamente de familiaridade e de respeito, de autoridade e de amor, elas acabarão por nos arrastar pelo nariz e nos pôr a dizer o que muito bem entenderem, ou então, infelizes e amedrontadas, calar-se-ão para sempre.
Finalmente, à pergunta “Quando escreve para crianças, sai de uma idade real para reinventar o espanto?”, reage com duas perguntas e, pelo meio, uma afirmação poderosíssima em forma de dúvida: “O que é uma idade real? Talvez a única idade verdadeiramente real seja a do espanto. Que idade temos quando perdemos a faculdade do espanto senão a da morte?
Com Setembro, regressou o ruído nacional – das eleições autárquicas, do orçamento para 2018, das arbitragens futebolísticas, dos processos judiciais mais conspícuos. Entro por este mês com um mal disfarçado medo, ansiando já por um novo Verão que me liberte do caos habitual das nossas vidinhas. O Inverno a haver (e a atravessar) é uma espécie de casulo triste, no interior do qual não bem vivo, apenas duro. Conto com Manuel António Pina e outros sábios para me trazerem (ou anunciarem) alguma possibilidade de Sol.

Coimbra, 09 de Setembro de 2017.
Joaquim Jorge Carvalho
[Esta crónica foi publicada no semanário O Ribatejo, edição de 14-09-2017.]

segunda-feira, 11 de setembro de 2017

ZONA DE PERECÍVEIS (102)




Cavaco ex-tudo, Cavaco ex-nada 

O ressurgimento de Cavaco Silva trouxe-me à memória cenas tragicómicas do anterior regime: Salazar, já destituído da presidência do Conselho, falava com ex-subordinados e dava ordens como se ainda mandasse – e, por secreto medo ou piedade pura, os interlocutores do santacombadense alinhavam na paródia. 
 A mui comentada sanha cavaquista não surpreende, na verdade, quer no ataque à esquerda, quer no asco pelo seu sucessor à presidência, Marcelo Rebelo de Sousa. Tão-pouco espanta o seu desprezo pelas ideologias. Detenhamo-nos em cada uma das situações. 
 A forma – atabalhoada – como Cavaco misturou a expressão “revolução socialista” com referências ao governo de António Costa (sem nunca usar nomes, para não fugir ao habitual) decorre da desilusão mortal que é, para si, ver o sucesso económico de um projecto em tudo contrário ao que ele defendia. Previsão: no dia em que a situação piore, dirá com o sorriso dos totobolistas de 2ª Feira à noite: “Eu avisei…” 
 A crítica – mal velada – a Marcelo é Cavaco em todo o seu funéreo esplendor: aflige-o que um homem culto, descomplexado e com mundo seja tão conspicuamente apreciado pelos portugueses (à esquerda e à direita). Para cúmulo, o Professor Aníbal tem a noção de que os seus dois mandatos são vistos pelos compatriotas como um parênteses tacanho e triste da nossa História recente. Toma essa ingratidão como uma ofensa à sua pessoa e, à falta de melhor argumento, culpa quem, pelo humanismo e pela inteligência da sua intervenção, concita a admiração de ricos, pobres e remediados. Chama-lhe verborreia. Enfim, o homem não perdoa a Marcelo que seja tão melhor presidente do que ele foi. 
 Na “Universidade de Verão” do PSD (deixo a outros a glosa desta designação ridícula), Cavaco defendeu a inutilidade das ideologias. Para um tecnocrata sem conteúdo (cultural, político, humanista), a retórica bate certo com o que dele já sabíamos. Este foi o homem que se doutorou em Inglaterra, antes do 25 de Abril de 1974, e não se deu conta (segundo se sabe) de que em Portugal existia então uma ditadura; o democrata que não sentiu necessidade de se indignar perante a censura, a Pide, as eleições viciadas, a miséria social; o político que passou a vida a acusar os adversários e os correligionários mais brilhantes de serem “políticos”. A sua aversão tout court a ideologias entronca na sua própria vacuidade de homem sem o sentido da utopia, sem sonhos genesíacos, sem o atrevimento visionário dos grandes estadistas. Hoje, a sua irrelevância justifica mais a piedade do que os vitupérios. 
O cronista de Zona de Perecíveis deseja saúde e longa vida ao cidadão Aníbal Cavaco Silva, e lamenta que ninguém o tenha informado ainda do seu falecimento político. Que descanse em paz. 

Coimbra, 04 de Setembro de 2017. 
Joaquim Jorge Carvalho
[Esta crónica foi publicada no semanário O Ribatejo, edição de 07-09-2017.A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.topimagem.com.]