Bússola do Muito Mar

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Número de Ondas

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

ZONA DE PERECÍVEIS (75)

 
 
Narrativa leve, breve & alegre
 
Além dos textos oferecidos pelos manuais de Português, os alunos têm ainda de ler obras integrais, no âmbito do que se convencionou chamar “Educação literária” (o nome é tão mau ou tão bom como outro qualquer). No caso do meu 7.ºA, já vamos no segundo livro – o primeiro foi O Cavaleiro da Dinamarca, de Sophia; o segundo, História de uma gaivota e do gato que a ensinou a voar, de Luis Sepúlveda.
A ideia de ler, com os alunos, um inteiro volume, ao longo de algumas semanas, parece-me profundamente virtuosa. A melhor forma de instituir-cultivar hábitos de leitura passa pelo mui singelo acto de ler. Por muito que alguns (muitos) alunos estranhem, assustados com o número de páginas, com a quietude do exercício, com a exigência de uma atenção prolongada, pode bem suceder que o gosto se lhes entranhe (para usar uma conhecida fórmula de Fernando Pessoa, à roda da coca-cola).
A meados de Janeiro, deitámo-nos à leitura da novela de Sepúlveda. Apercebi-me, em certa manhã, de um silêncio amável caindo sobre a aula. Nos rostos dos meninos, podia ver-se o sinal claro do encantamento e da curiosidade. Dessa vez, quando se ouviu o toque para sair, senti um quase-enfado, tão pouco habitual nesta iminência de liberdade. Na aula seguinte, uma aluna perguntou-me, assim que me viu no corredor, se íamos continuar a ler a história. Prometi-lhe que sim, se conseguíssemos cumprir, antes, o sumário essencial (leitura do mito de Aracne e exercícios com o discurso directo e indirecto). E voltámos, de facto, às peripécias do gato Zorbas, da gaivota Ditosa e do enciclopédico Sabetudo. Comecei, aliás, eu próprio a contagiar-me do enlevo discente, ao ponto de, nas duas aulas seguintes, ter dedicado a maior parte do tempo à visitação voraz do texto de Sepúlveda.
Na semana passada, só nos faltava ler três capítulos. Distribuí a leitura por todos os alunos e reservei o último capítulo para mim. (Eles gostam de me ouvir, creio, porque faço vozes distintas para cada personagem e acompanho cada situação com caretas e gestos teatrais.)
Quando se aproximava o final, que era o momento de sabermos se a gaivota conseguiria mesmo voar, eu parei subitamente e dirigi-me ao computador da sala. A turma manifestou ruidoso desagrado pela interrupção. Pedi-lhes paciência, assegurando que a leitura seria retomada logo a seguir. Mas um aluno advertiu-me, angustiado: “Mas olhe que só faltam cinco minutos para tocar!”
Sosseguei-os: era tempo suficiente. O que fiz foi procurar no Youtube o tema “Ave Maria”, de Schubert, e usar esta peça como ilustração musical do crescendo da história, rumo ao desenlace glorioso e apetecido – o voo da Ditosa.
Antes de a aula terminar, no seguimento de uma pérola literária que o narrador enuncia (“Só voa quem está disposto a voar”), a andorinha voou enfim. E os alunos desataram a bater palmas, como se festejassem um golo ou a conclusão de um espectáculo admirável.
Brinquei: “Escusam de me aplaudir…”
Uma menina explicou-me: “As palmas são para a gaivota.” Mas eu fiquei feliz na mesma. Como se as palmas, senhores, fossem também para mim.

Vila Real, 11 de Fevereiro de 2017.
Joaquim Jorge Carvalho
[esta crónica foi publicada no semanário O Ribatejo, edição de 16-02-2017.]

terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

História contada por ti


Ao princípio há rios e montes
Na tua história sobre mim.
Por favor, amor, não me contes
O fim!

Vila Real, 12 de Fevereiro de 2017.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.]genial.guru.com.]

ZONA DE PERECÍVEIS (75)



 Mulheres
 
Foi à minha Mãe que primeiramente ouvi a expressão “Mau, Maria”, que era (na sua boca) uma espécie de formal advertência, antes do grito ou do chinelo terminal. Disse-me o meu avô, seu pai, não sei se brincando, que a primeira pessoa a pronunciar essa frase fora José, pai terreno de Cristo, quando Maria lhe falou da gravidez milagrosa.
Ouvi o mesmo dito a meu Pai (“Mau, Maria”) durante uma conversa domingueira, ao almoço, à roda do tema “os direitos da Mulher”. Foi nessa ocasião também que o meu tio Eduardo se saiu com esta: “Os direitos da Mulher são uma vassoura na mão e a boca colada com fita isoladora.”
Creio ter sido em Camilo que li uma máxima – ou mínima – de sentido semelhante: “Deus nos livre de mula que faz him e de mulher que sabe latim”. Esta ideia de a cultura ser prejudicial, na verdade, estendeu-se por séculos a outros grupos, etnias e classes sociais, na avisada visão de quem mandava: o statu quo explorador era mais fácil de manter no sossego da ignorância dos explorados.
Cresci entre operários e pequenos burgueses. Não testemunhei graves atropelos à dignidade da Mulher, que no bairro da minha meninice era vista, em geral, como companheira de sofrimentos e sacrifícios, ou como cúmplice de revoltas e de sonhos. Mas lembro-me de, naquele tempo, durante uma missa, quando o padre falava do aparecimento de Eva, “a primeira mulher na Terra”, um senhor distinto, amigo de meu Pai, ter arrancado sorrisos à família com um simples murmúrio: “Coitado do Adão…” E o meu primo, estudante de mecânica, na esplanada do Café Lusa Nova, quando se falava da fama conversadora de algumas senhoras, perguntou-nos: “Sabem por que motivo é que foram mulheres os primeiros seres a ver Cristo ressuscitado?” Dissemos que não sabíamos, e ele explicou: “Foi para a notícia se espalhar mais depressa.”
A formatação das pessoas faz-se lentamente, subtilmente, insidiosamente. Apesar das leis, das campanhas mediáticas, do trabalho da Escola moderna – a noção de igualdade entre géneros esbarra ainda num muro milenar de preconceito, de desconfiança, de pouco secreto desprezo. E muito disto desagua em discriminação no acesso à profissão, no exercício do poder e na retribuição salarial, ou em violência machista nos territórios do namoro e do casamento. Digo-vos: aquela piadola do poeta Jorge de Aguiar, fabricada já no século XV (“Lembra-te que são mulheres”), perdeu toda a graça desde o nascimento da minha Filha. 
A minha vida está cheia de mulheres admiráveis, extraordinárias. A minha Avó cuidava da casa, tratava dos filhos e, quando o dinheiro faltava, fazia à pressa uns chinelos de pano para vender e, com o dinheiro, comprar algum peixe ou alguma carne, assim garantindo a urgente refeição do agregado. Outras vezes, fazia gelados de café e, tostão a tostão, arranjava dinheiro para o leite que faltava tanto aos mais pequenos. E amava devotadamente o marido, apesar de o meu avô ser uma pessoa difícil de amar. Era a pessoa mais bondosa do país da minha infância. Morreu com problemas de coração (talvez por ser demasiado grande para um peito tão pequenino). 
A minha Mãe herdou muito desse carácter bondoso e generoso da progenitora. Só de vê-la, era-me fácil entender o significado (misterioso para muitos) da santidade. Por isso, aliás, me tem parecido lógico que, com a idade, o seu aspecto devenha cada vez menos físico, menos corpóreo, menos terreno – caminhando para a transparência (ou invisibilidade) desse conceito mais vaporoso de todos, o Bem.
Há ainda, entre tantos exemplos, a minha Mulher, que me foi ficando, mais do que cúmplice, consubstancial, um fenómeno de terna cosmogonia, creio, não apenas romântico, não exactamente biológico. E há a minha Filha, cuja natureza livre e individual não cessa de me espantar. Falo de a ter a visto sair do berço, ler, ter opinião, divergir da tutela paternal-maternal, ser uma mulher (uma Pessoa) inteligente e dona do seu nariz, com sonhos e projectos próprios, seus. 
Para a minha avó Adília, e para a minha avó Emília, e para a minha Mãe, e para a minha Mulher, e para a minha Filha (e para a minha sogra, e a minha irmã, e as minhas tias, e as minhas cunhadas, e as minhas professoras, e as minhas colegas, e as mulheres de todos os tempos), deixo aqui um beijo em forma de crónica. É pouco, eu sei, mas é do coração – e, como fica escrito, é para sempre.

Coimbra, 04 de Fevereiro de 2017.
Joaquim Jorge Carvalho
[Uma versão mais magra desta crónica foi publicada no semanário O Ribatejo, edição de 09-02-2017.]

terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

ZONA DE PERECÍVEIS (73)



Espécie de Pedro
 
1. Imagino Pedro, pouco tempo depois da morte do Mestre, a vaguear por Roma, decerto cansado, talvez com fome, dividido entre o espanto pelo luxo e pela miséria cosmopolitas da sede do império e a indiferença ou animosidade dos transeuntes. A multidão parecer-lhe-ia excessiva para ruas tão pequenas e estreitas, a vozearia tornaria improváveis quaisquer diálogos, a celeridade dos passos gentios impediria o exercício civilizado da atenção.
Imagino Pedro em seu susto profundo – ter uma missão e achá-la, quem sabe, impossível. Como pregar a vinda (e a ressurreição) do Salvador num contexto tão avesso à abertura perante o estrangeiro e suas extraordinárias novas? Como obter deles a bondade de algum cantinho para a peroração, um suficiente silêncio para o discurso se ouvir, uma pausa quieta para o espírito se alimentar?
Do ponto de vista da história das religiões, a viagem de Pedro terá sido um sucesso. E não trago aqui, notai, questões de fé ou de avaliação comparativa dos méritos do cristianismo. Falo de um homem com uma missão fundada na palavra, uma empresa baseada na comunicação persuasiva e eficaz (capaz, digamos, de acender sentidos, de acordar simpatias e cumplicidades entre orador e público).
2. Comecei, na semana passada, a lecionar Os Lusíadas, de Luís de Camões, aos alunos do 9.º ano de escolaridade. É preciso que eles percebam a importância de Luís Vaz na literatura portuguesa e universal; que entendam os planos da epopeia (a narrativa da viagem de Gama, a História de Portugal, a intervenção fantasiosa dos deuses, os comentários felinos do Poeta); que admirem a coragem dos marinheiros e se riam do pícaro pânico de Veloso; que se deliciem com o génio poético de Camões; e, enfim, que se acrescentem de uma cultura literária susceptível de os tornar mais portugueses, isto é, mais cúmplices uns dos outros (dos que estão vivos, dos que já morreram e dos que ainda hão-de nascer).
A minha Roma tem também problemas de espaço. Multidões e objectos atrapalham-me o movimento vital. Televisão, computadores, telemóveis e tablets são um ruído opressor e quase impeditivo da conversa. A existência é feita de pressa brutal e muitas vezes caótica, sem folgas para reflectir ou para contemplar o mundo. Como conseguir que me ouçam?
3. Eu tenho uma missão. É difícil, não haja dúvida. Mas é igualmente amada e formosa: sou, por estes dias, apóstolo de Luís Vaz e da Língua Portuguesa.
Imagina, Pedro.
 
Vila Real, 29 de Janeiro de 2017.
Joaquim Jorge Carvalho
[Esta crónica foi publicada no semanário O Ribatejo, edição de 02-02-2017.]

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

Circunstancial



As flores que nasceram antes de mim não me dizem respeito: não cheguei a espantar-me com a sua beleza, nem a embriagar-me do seu perfume.
As flores vindouras não me dizem respeito, exactamente pelas razões que aduzi para as passadas.
Mas as do meu Presente são minhas e não as dispenso. Não sou inteiramente eu sem o que delas (e nelas) vejo, sem a sua fragrância que me incendeia os sentidos, sem o aveludado céu de si por onde me roço.
Só involuntariamente venero as flores de ontem e as de amanhã: é quando trato das flores de hoje, celebrando-as e perpetuando-as com o meu corpo passageiro e o meu amor circunstancial.

Vila Real, 30 de Janeiro de 2017.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.vida-rural.pt.]

Só (sumário elementar)



Só custa a vida enquanto estamos vivos.
Só vale a pena a vida enquanto vivos estamos.
O que sofremos ou ganhamos
São só alguns instantes fugitivos.


Vila Real, 30 de Janeiro de 2017.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.mat-absolutamente.net.]

sexta-feira, 27 de janeiro de 2017

ZONA DE PERECÍVEIS (72)



Elogio da rotina
 
Se o prazer da rotina for exclusivo dos velhos (do que eu duvido), é porque sou idoso desde a mais tenra infância. Tal não significa eu gostar de tudo quanto, ao longo dos rotineiros dias, ocorre. Aos seis anos, já me custava muito acordar cedo, já me doía profundamente a ideia de trabalhos de casa (cópias, contas), já me era um suplício ir ao supermercado da dona Cilinha, pelas seis da tarde, comprar pão, ovos, fruta. O que havia de prazer na rotina talvez nem eu o percebesse nessa meninice dourada: era uma espécie de eternidade, fundada na renovada repetição de tudo, que representava (digo-o agora) um Presente para sempre. 
Aí por 1983, morreu-nos uma tia muito velhinha, que vivia numa aldeia chamada Lavacolhos, irmã da mãe da minha Mãe. Apercebi-me, à noite, de um murmúrio triste, que se estendia da minha casa à de tios, primos, avós, e às casas de outros familiares espalhados pelo país. Impressionou-me o negrume das indumentárias que homens e mulheres vestiam no dia seguinte. O encontro de todos deu-se num Café próximo de minha casa, havendo exclamações de quem não se revia há muito tempo, e risadas, e brindes com cerveja, vinho e vermute, e chocolates para a miudagem. Parecia uma festa, pensei, mas não era senão a preparação da viagem rodoviária, em familiar frota, rumo ao funeral.
A boa disposição desapareceu à chegada à aldeia: gritos, suspiros, silêncios pesados substituíram as anedotas do tio Vítor ou os atrevimentos femeeiros do meu Pai. E vi, de chofre, o caixão aberto – uma velhinha serena, de mãos cruzadas sobre o peito, dormindo eternamente, na mais doce indiferença pelo choro à volta. Custou-me muito entender a irredutibilidade daquele estado, não apenas o facto de aquela senhora (que eu já vira falar e sorrir, pelo menos uma vez) não mais existir, mas a ideia de toda a gente estar destinada àquela mesmíssima terminação.
Passei a amar ainda mais desesperadamente a rotina em que morava. Era-me desconfortável a circunstância de todos fazermos anos e de passarmos de classe (ou de mudarmos de escola). Não suportava o fim de uma série televisiva (Espaço 1999, Bonanza, Casei Com Uma Feiticeira), a reforma de um jogador do Sporting, a mudança de emprego do Pai. Queria profundamente que nada mudasse – e murmurei, certa noite, aos miúdos meus contemporâneos, no recato inseguro das escadas do prédio: “O que mais desejo é que os meus pais nunca morram.”
Tenho aperfeiçoado, ao longo de décadas, este culto da rotina, aproveitando dela o que tem de melhor: de manhã, pago-me a dor de acordar com o prazer do banho; adio o trabalho da tarde, à hora de almoço, com jornais ou livros, degustando café e às vezes um bolinho; ensino os meus alunos como se aprendesse (e vice-versa), alimentando-me, enquanto envelheço, daquela juventude eterna de todas as turmas; falo com as pessoas que amo tantas vezes quanto posso; ao entardecer, compro diariamente o pão e a fruta, beijo a mulher, e depois janto com a satisfação de um milionário em núpcias num hotel paradisíaco; já refastelado, à lareira, leio um romance de Aquilino (ou O Ribatejo); televejo um pouco de Family Guy ou de Uma Família Muito Moderna, na Fox Comedy; tomo os meus prudentes comprimidos (para a diabetes e para o colesterol); e enfim durmo o sono tranquilo das vidas remediadas e honestas.
É verdade que, nos intervalos da melodia desta vida linda, há acidentes, interrupções, ruído, abalos. Por exemplo, o telefone toca e já não há o Pai vivo. Mas, a cada crise, procuramos refazer-nos, recuperar o equilíbrio, tentar que a vida regresse a alguma normalidade. À rotina.
A rotina, como eu a vejo, é a eternidade possível.
 
Coimbra, 21 de Janeiro de 2017.
Joaquim Jorge Carvalho
[Esta crónica foi publicada no semanário O Ribatejo, edição de 25-01-2017.]
 

terça-feira, 24 de janeiro de 2017

ZONA DE PERECÍVEIS (71)





Ao encontro de Aquilino
 
Numa carta ao dr. Brito Camacho, datada de 1926, em jeito de nota prefacial para o livro Andam faunos pelo bosque, Aquilino Ribeiro tece algumas (preciosíssimas) considerações sobre o ofício de escritor. 
Entre diversas pérolas que ali nos são oferecidas, destaco as afirmações acerca do trabalho de revisão. Defende Aquilino, como Torga, que se trata de uma tarefa incessante: “Não julgo um livro produto estático na carreira do profissional das letras. Antes o suponho o que o jardim é para o jardineiro e a lição para o didáctico. Ano por ano, um e outro enxertam, podam, corrigem. Edição por edição, o escritor, sequioso de aperfeiçoamento, pode trepar um degrau nesta dolorosa e infinita escada de Jacob que é a arte literária. Numa palavra, um livro para mim é como as pedras que Deucalião atirava para trás das costas e se convertiam em almas; podem desamparar-se almas?
Toca-me também o que afirma sobre a independência do trabalho criador: “O que fiz é honrado: não plagiei; não extorqui a jóia mais humilde ao mais invulgar dos escritores; não cedi às correntes que hoje são cortejos triunfais, amanhã depenadas Danças da Bica. Perdurei o que sou por temperamento, e adquiri por educação e algum estudo. Confesso essa soberba. Escrevi com o meu sangue; nunca molhei a pena na pia da água benta, nem nos lavabos perfumados das viscondessas.
Finalmente, impressiona-me o sumário crítico que faz da sociedade do seu (nosso também) tempo: “Compu-lo [ao livro] com a linguagem que, juvante Deo, amanhã me há-de servir para pintar o que por aí abunda: quebra-esquinas, banqueiros que vendem a alma e venderiam a pátria, se fosse veniaga ao seu alcance, mulheres que arremedeiam a francesa na moda e na moral, sábios balofos, políticos sem vergonha nem ideias, e uma que outra pessoa de bem.
Tenho andado a reler Aquilino Ribeiro (A casa grande de Romarigães, O homem que matou o Diabo, Andam faunos pelos bosques, Quando os lobos uivam, Batalha sem fim), confirmando que se trata de um escritor maior. Abençoado Amigo Paulo Pinto, devoto aquiliniano, mui exemplar apóstolo do (seu) autor preferido! À sua boleia me achei viajante por literatura tão vivíssima e tão portuguesíssima. E é um prazer, com a madurez dos cinquenta anos (upa, upa), dar-lhe razão e devir cúmplice do seu credo.
Razão tinha igualmente o meu saudoso professor Gouveia, docente de Português na Escola Rainha Santa Isabel (Pedrulha, Coimbra), aí por 1975, quando nos assegurava, enquanto líamos o Romance da Raposa, que o senhor Aquilino Ribeiro era uma espécie de Camilo do século XX.
E do século XXI, digo agora eu.
 
Ribeira de Pena, 15-01-2017.
Joaquim Jorge Carvalho

[Esta crónica foi publicada no semanário O Ribatejo, ed. de 19-01-2017.]

sábado, 14 de janeiro de 2017

ZONA DE PERECÍVEIS (70)





Mário Soares: contra os Catões, marchar, marchar

Custa sempre ao cronista a queda no tema mais previsível de todos – na circunstância, a morte de Mário Soares e a importância histórica de tal personalidade. Mas desta vez, confesso, nem sequer me esforcei para o evitar. Adiante.
Eu tinha 10 anos em 1974, quando nos chegou aquele dia belo e iniciático de Abril. Ao longo dos seguintes dias, meses, anos, beneficiei de um curso aceleradíssimo de Política, Economia e História. Soube o que era, afinal, o fascismo, o comunismo, a social-democracia, a pide, o Tarrafal, o colonialismo, a liberdade de associação-expressão-escolha. Muitos protagonistas daquele período passaram a fazer parte da minha linguagem diária – e, entre tantos, destacavam-se os de Otelo Saraiva de Carvalho, Salgueiro Maia, Mário Soares, Álvaro Cunhal, António de Spínola, Costa Gomes, Sá-Carneiro, Freitas do Amaral, Vasco Gonçalves, Ramalho Eanes, Melo Antunes, Dinis de Almeida, Rosa Coutinho. Etc.
Cresci com a convicção de que eu era “de esquerda”, por me parecer formosa e justa a exigência da redistribuição da riqueza de um país, a igualdade de oportunidades em matéria de saúde, educação e justiça, a cultura da solidariedade social. Ajudou o facto de ser filho de operários e vizinho da zona industrial de Coimbra, testemunha privilegiada de tantas lutas e manifestações populares.
Passei, nesta minha meninice democrática, pelo encantamento panfletário do comunismo e, aí pelos meus 12 anos, cheguei a afirmar-me “do MES - Movimento de Esquerda Socialista”. Mas a sobrevinda leitura de programas partidários, de jornais e de livros ajudou-me a perceber que em nenhum caso abdicaria da minha liberdade individual e de uma certa ideia de burguesa propriedade (não me entrava na cabeça a obrigatoriedade de ser o Estado, à frente dos descendentes familiares, a herdar o que um homem conseguisse com o seu trabalho). Finalmente, conquanto me parecesse essencial o papel do Estado na regulação da sociedade, desagradava-me a sua omnipresença tutelar, feroz e judicativa.
Mário Soares foi, durante muito tempo, uma amável referência do meu mundo. Ao contrário de outros compatriotas (que, já adultos, aparentemente não se deram conta de viver num regime fascista e, por isso, jamais se revoltaram), este homem sacrificou uma vida confortável à luta pela democracia. Pagou por tal o preço da perseguição, da prisão, da tortura e do exílio. Depois do 25 de Abril, ajudou a evitar os excessos revolucionários contra, por exemplo, a Igreja, e combateu a exclusão do Partido Comunista Português, integrando-o no sistema democrático. Quando se anunciava a possibilidade de novas ditaduras (de esquerda ou de direita), foi sempre dos primeiros a lutar pela liberdade, pela tolerância, pelo pluralismo.
Já reformado da política partidária, talvez mais livre do que nunca, deu-se ao luxo de ser radical e de radicalmente denunciar a agenda neoliberal de Passos & Associados, a deriva autoritária e cínica da Europa, a desumanidade de uma globalização esquecida das pessoas.
Tenho ignorado, com estóica paciência, a baba raivosa de jotinhas e ex-jotinhas da direita ignorante, que insultam, no cadeirão do Facebook, a memória de Soares. Pior: constato que até alguma esquerda também por aí liberta ventos de incompreensão e de ressabiamento venoso. Mas quero, desta tribuna livre de onde vos falo, celebrar o cidadão Mário Alberto Nobre Soares, o verdadeiro fundador político da nossa democracia.
De Fernando Pessoa, que bebia de mais e acreditava em horóscopos, o que me interessa é a sua literatura genial. De Soares, que não foi um santo de pau carunchoso, ficou-me o direito – inalienável e extensível à minha Filha e às gerações vindouras – da maiúscula Liberdade. Por muito que os Catões da vida gemam, esperneiem e espumem, isto não é herança de somenos.

Vila Real, 07 de Janeiro de 2017.
Joaquim Jorge Carvalho
[Esta crónica foi publicada no semanário O Ribatejo, edição de 12-01-2017.]

sexta-feira, 6 de janeiro de 2017

ZONA DE PERECÍVEIS (69)



 A generosidade explicada ao burguês

Caros leitores, deixai que erga, nesta madrugada ainda do novo ano, uma questão incómoda: até onde estais (estamos) dispostos a ir pela justiça, pela verdade, pelo Bem?
Há mais de vinte anos, numa conferência a que assisti, na Escola Secundária de Pombal, sobre a situação do povo timorense, sob o jugo – à época - da Indonésia, uma senhora fez-me (fez-nos) essa mesma pergunta. Era uma mulher baixinha, de gestos serenos e voz melodiosa, que perfumava o discurso com um misterioso sotaque, num Português cheio de distância e cumplicidade. Agradeceu o apoio luso à causa de Timor livre, os nossos cânticos, a nossa poesia, as nossas palavras de ordem nos corredores da escola ou nas ruas, o nosso dinheiro. Mas perguntou: “E se fosse preciso recolher uma família timorense fugida da repressão? Quem estava disposto a tal gesto?”
Houve ali um silêncio embaraçado. O meu (pareceu-me) era o que se ouvia melhor. Repercebi ali a minha burguesa covardia, o pânico de perder o conforto remediado da minha existência, a angústia de sair da doméstica rotina que secretamente busco desde sempre. Para maior vergonha deste que vos fala, alguns colegas e muitos alunos ainda gritaram que, sim, eram capazes de acolher nos seus lares os timorenses necessitados. Admirei-os (admiro-os), mas não fui capaz de os imitar.
Quase no final de 2016, antes de viajar para a consoada coimbrinha, conversei com uma colega sobre o significado da palavra “generosidade”. Ela saiu-se com esta: “As pessoas generosas são generosas porque sim.” E desenvolveu a ideia: “Porque, em dados momentos, acham que têm de fazer o que não pode deixar de ser feito. São generosas naturalmente.”
A este axioma tão pragmático acrescentou um exemplo. Ela própria, há cerca de oito anos, acolheu em casa três meninas, provindas de famílias disfuncionais. As três irmãs beneficiaram, pela primeira vez em suas tenras biografias, de um ambiente familiar saudável e digno. Tinham regras, roupa, refeições, banhos, carinho, paz. Impressionadas com aquela Mãe provisória, as senhoras da segurança social propuseram-lhe a adopção de uma das crianças. A minha colega hesitou, fez contas ao seu tempo e ao seu dinheiro, reflectiu (com a cabeça e sobretudo com o coração) – e acabou por ficar com as três. São as suas três filhas, como legitimamente diz. A mais velha já anda na universidade. Compreendei: o preço da opção é muito maior que todos os euros já gastos ou a gastar no futuro; é a obrigação para sempre contraída de eleger as três meninas como prioridade da sua existência, abdicando de outras hipóteses de bem-estar e de conforto (também legítimos, sublinho). E ela diz que não acha isto “generosidade”, como eu, espantado, lhe chamei.
Regresso à minha questão inaugural: até onde somos capazes de ir pelo Bem? 
E pela interrogação me fico, para não dar confiança a excessos masoquistas que me estraguem os dias. Feliz Ano Novo, amigos! 

Coimbra, 01 de Dezembro de 2017.
Joaquim Jorge Carvalho
[Esta crónica foi publicada no semanário O Ribatejo, edição de 05-12-2017.]

terça-feira, 3 de janeiro de 2017

ZONA DE PERECÍVEIS (68)


O que sobra de 2016

A memória é um acto (desesperado, creio) contra a mortalidade. Celebramos datas para irmos evitando o Fim mais definitivo de todos – o esquecimento. A ironia disto tudo está em que, assinalando nascimentos ou conquistas, óbitos ou aniversários, é sempre na morte que estamos a pensar (esconjurando-a, lamentando-a ou fazendo de conta que ela não nos vence).
Serve este lúgubre preâmbulo para vos falar do término de 2016, um pouco influenciado pelos múltiplos balanços que os média vão publicando, com maior ou menor interesse. A cerca de uma semana do seu ocaso, eu atrevo-me a ver neste ano moribundo uma terrível colecção de catástrofes: terrorismo global, pandemia de guerras, doenças cada vez mais numerosas e rápidas do que tratamentos & curas, recrudescimento da intolerância, banalização da corrupção, perpetuação da fome, da desigualdade, da exploração.
Apesar do pontual alívio que foi ver-me livre daquela austeridade tão cara ao dr. Passos Coelho, não vejo motivos, no hodierno contexto, para grandes optimismos. Prefiro mil vezes a geringonça à fúria neoliberal, sim, mas continuamos à mercê dos caprichos dos credores internacionais, do preço do petróleo, da generosidade do Banco Central Europeu. A América mais primária elegeu um pedregulho primário e perigoso. O Reino Unido inventou um problema terrível para a (periclitante) União Europeia. A França parece tomada pelo vírus populista da xenofobia mais retrógrada. Entre muitos mortos que contabilizámos ao longo do ano, temo o falecimento da própria Esperança…
Sobra-me que a minha Mãe ainda está viva no momento em que escrevo e que Portugal foi campeão europeu de futebol. A essas gratas circunstâncias vou buscar a melodia com que gostaria de terminar esta crónica. Eu estava em Coimbra nessa magnífica noite de Julho, com a minha Mulher e a minha Filha. Cantámos o hino em pleno jardim da Associação Académica, unindo as nossas vozes às de milhares de outros. Éramos ali, muito juntos, os mais felizes parolos do universo, vestidos com as cores da selecção, uns lingrinhas pátrio-futebolísticos à espera do milagre. Eu (disseram-me) tinha as mãos na cabeça e chorava estupidamente depois do golo do Eder, o empregado de mesa do Café mais próximo trouxe-me uma piedosa imperial e, batendo-me nas costas com sincera preocupação, aconselhou-me calma. Por umas inteiras duas horas, andei em romaria pela cidade com os outros automobilistas, apitando, cantando, abraçando cúmplices desconhecidos que encontrava na rua. No final da noite, ainda fui dar um beijo à minha Mãe, que tinha passado o serão à varanda a bater palmas aos foliões transeuntes. Disse-lhe: “Mãezinha, foi um dia perfeito!”
O ano de 2016 foi muito mais - e sobretudo muito pior - do que isto. Mas cada um celebra o que (e como) lhe parece justo.

Vila Real, 20 de Dezembro de 2016.
Joaquim Jorge Carvalho
[Esta crónica foi publicada no semanário O Ribatejo, edição de 22-12-2016.]

domingo, 1 de janeiro de 2017

Feliz Ano Novo


Querido(a)s Amigo(a)s, tenho andado arredado da netvida, mas vou sabendo de mensagens, votos, abraços e beijos que muita gente me envia, faz, dá. Antes que o ano de 2016 se apague, quero eu também, aqui à varanda do meu (i.e., vosso, i.e., nosso) Muito Mar, desejar-vos um Ano Novo cheio de alegrias. 
É verdade que, com a idade, vamos percebendo que há cada vez mais ausentes, que a diabetes, o colesterol, a tensão alta e o reumatismo aparecem sem convite, que o tempo disponível de porvir vai escasseando - mas permanece, gloriosa e teimosa, esta circunstância de estarmos vivos e juntos (ou próximos). 
Aqui fica o meu abraço, ó contemporâneos da minha circunstância! Feliz 2017! 

Coimbra, 31 de Dezembro de 2016. 
Joaquim Jorge Carvalho 
[A foto é da minha Filha; a paisagem é a da minha amadíssima Coimbra, em modo natalício.]

quarta-feira, 21 de dezembro de 2016

Primavera à espera



Ei-lo, o Inverno violento -
Fere-nos a fria natureza
Afoga-nos a chuva, o vento
Magoa-nos sem delicadeza.

Não podes tu senão esperar
A vinda outra vez da Primavera.
A mim, se vires quase chorar
Sabe que também estou à espera

Do Sol que nos salva do Inverno:
Vigio cada chão e cada flor
Anoto quanto vejo em meu caderno

Cada nova forma, cada cor.
E se sinto luz num beijo terno
Chamo Primavera ao meu amor.

Ribeira de Pena, 16-12-2016.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.visitmosca.com.]

ZONA DE PERECÍVEIS (67)



Conhecimento de causa(s)
 Em Retrato do artista enquanto jovem, James Joyce apresenta-se-nos como estudante de um Colégio de Jesuítas, o melhor aluno da sua geração, que obtém – ao longo dos anos de estudo – as mais altas classificações e os mais sentidos louvores de seus mestres e condiscípulos. Chegado o momento da (mui provável) ordenação, comentava-se: que extraordinária figura da Igreja deviria este rapaz, tão profundamente versado já nos segredos da Fé! Que carreira decerto o esperava! Aconteceu, contudo, que o jovem, em vez de confirmar as expectativas à sua volta, disse que não queria ser ordenado. Pior: revelou não acreditar naquilo que a Igreja postulava (conteúdo, forma, rituais). Mas então – contrapunham desconcertadamente os professores, os colegas, os familiares – para que fora tanto estudo e dedicação, e de que servira obter tão elevadas classificações nas múltiplas provas realizadas? O rapaz respondeu-lhes que estudara muito bem tudo quanto era e significava a Igreja para perceber bem o que era e significava a Igreja; que chegara a hora de, com a autoridade de quem comprovadamente sabia do assunto, lhes dizer que não acreditava nos pressupostos, na lógica e nos objectivos da instituição milenar. E, já agora, que ele não tinha fé.
Eu conheci, nos tempos da faculdade, um moço (salvo erro, de Geografia) que fez o exigentíssimo curso dos comandos. Fê-lo, ainda por cima, como voluntário. Passou nos testes preliminares, fez a instrução toda, ultrapassou as variegadíssimas dificuldades de que, só de ouvir dizer, suspeitamos, venceu o sono, a fome, a sede, a fadiga extrema e os fantasmas mais arrepiantes da mente humana. Quando chegou o dia, normalmente glorioso, de receber a boina vermelha, símbolo consabido da condição – adquirida, plena, conquistada – de comando, um graduado fez-lhe a pergunta protocolar (gloso-a de cor): “Aceitas a boina?” Ele respondeu, com a maior desfaçatez, que não. Mas então – contrapuseram oficiais e sargentos, camaradas de curso, familiares, amigos – para que fora e servira tanto esforço e tanta dedicação, se agora recusava os justos louros da cumprida empresa? O jovem disse-lhes, com candura insuportável: “Queria ver se era capaz, mas percebi que isto, para mim, não tem lógica, razão de ser, valor. Não quero.”
Há menos de uma semana, reencontrei um companheiro antigo, dos tempos do futebol coimbrinha. A gente conhecia-o pelo fervor com que militava numa certa juventude partidária: sabia tudo sobre datas de congressos e convenções, eleições, listas de candidatos a isto e àquilo do partido, seus concorrentes eventuais à presidência da jota, etc. Dizíamos, mais com amizade do que com ironia, que ele ia longe. Ele não foi longe, politicamente; mas licenciou-se, tem um emprego agradável, mulher, filhos, corre no Choupal com o cão e ainda tem os pais vivos. Diz-se feliz e assegura que aquilo das jotas é uma ilusão e uma falsidade (ilusão e falsidade juvenis, treino para a ilusão e falsidade adultas). Não me deixa aprofundar as causas do desencanto e do asco: “Eu sei do que falo, Quim!”
E eu, caros leitores, vou sabendo um bocadinho do que escrevo.
Coimbra, 15 de Dezembro de 2016.
Joaquim Jorge Carvalho
[Esta crónica foi publicada no semanário O Ribatejo, edição de 17-12-2016.]

terça-feira, 13 de dezembro de 2016

ZONA DE PERECÍVEIS (66)



Uma colher de prosa
Em parceria com a CPCJ (Comissão de Protecção de Crianças e Jovens) de Cabeceiras de Basto, a minha Escola assinalou, em finais de Novembro, a importância de prevenir e atacar as agressões sobre mulheres. Coincidiu o facto de, na leitura matutina do JN (edição de 25-11, página 22), ter ficado a saber que “a GNR de Braga actuou em mais de mil crimes de violência doméstica nos primeiros dez meses do corrente ano”.
Deixei que o assunto tomasse conta de parte da minha aula de Português, comovido com o interesse dos alunos do meu 7.º ano de escolaridade. Disse-lhes que se trata de um flagelo (expliquei-lhes o que é um flagelo); que só há pouco tempo passou a tratar-se trata de um crime público (o Z.M. perguntou-me: “Mesmo que a polícia soubesse, o gajo não ia para a prisão?”); que a melhor – a única – maneira de reagir à primeira agressão do namorado ou do marido é deixá-lo de vez; que é pior se o agressor tiver oportunidade de agredir novamente, porque se passará a sentir dono da vítima, capaz de matar para proteger, no futuro, a sua “propriedade”; que tenho uma Filha e que já lhe disse o que agora lhes dizia a eles (“É como se nós também fôssemos seus filhos”, disse a T.C., e ninguém se riu).
Depois, o V.L. disse que também havia homens agredidos pelas mulheres e que alguns até tinham vergonha de se queixar. Entre gargalhadas, o S.M. disse que nunca bateria numa mulher, mas que também não a deixaria “molhar a sopa” nele. A T.C., que é uma inteligência admirável, disse que os homens, nestes casos, estavam “entre a espada e a parede”, pois não podiam bater nelas por ser uma cobardia, nem podiam queixar-se à polícia para evitar o ridículo.
O C.C. achou que esse problema, comparado com o das mulheres, era “uma gota no oceano”, já que a maioria das agressões caía sobre as desgraçadas das namoradas ou das esposas.
Eu tinha de falar dos graus dos adjectivos e procurei rematar o debate, sublinhando a necessidade de rapazes e raparigas estarem alerta para as ameaças de que faláramos. Relembrei-lhes a importância (vital) da “tolerância zero” para com os agressores. Acordei-os para a indignidade daquela frase antiga – “entre marido e mulher, não metas a colher”.
A T.C. ainda se saiu com esta: “Se a pessoa tolera, depois já não pode fazer nada.” Eu contrapus: é sempre tempo de (re)agir, de fugir da companhia de uma besta violenta. Ela retorquiu-me (com a evidente concordância de muitos dos seus colegas): “Mas depois pode haver filhos e a mulher já aguenta tudo por causa deles…”
Eu não desisti de uma conclusão optimista e insisti: os filhos não são felizes num contexto de constantes ameaças e agressões à Mãe. E obriguei-os (digamos assim) a prometer-me que, agora e sempre, se recusariam à escravatura da resignação e do medo. Lancei-lhes uma pergunta (quase retórica): “De acordo?” 
Obtive algumas (raras) respostas murmuradas: “De acordo.”
Mas o que se ouvia mais, nessa hora epilogal, era o mutismo muito circunspecto daquelas meninas e daqueles meninos. Que histórias domésticas (interrogo-me) haverá por detrás desse silêncio? Que dramas? 

Vila Real, 04 de Dezembro de 2016.
Joaquim Jorge Carvalho
[Esta crónica foi publicada no semanário O Ribatejo, edição de 08-12-2016.]