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Número de Ondas

quinta-feira, 20 de abril de 2017

ZONA DE PERECÍVEIS (84)


Galafura, Dublin, Vidago & Nós
 
Recebi, ao longo da última semana, a visita de um cunhado madeirense. Servi-lhe de guia turístico, tanto quanto pude e soube. Ele ouvira-me, certo Verão, durante uma caminhada pela Ponta de S. Lourenço, para lá do Caniçal (na sua Madeira), comparar a beleza da paisagem com a espantosa vista de S. Leonardo de Galafura (na região de Trás-os-Montes) – e confessou-me o seu interesse em conhecer esse lugar, já tão celebrado, muito antes de mim, por Miguel Torga.
Lá estivemos, pois. À maravilhosa imagem do “navio de penedos”, como genialmente o descreveu o poeta nascido em S. Martinho de Anta, acrescentei a admiração silente e comovida do meu amigo Alberto Ornelas. Torga chamou a este espaço, no Diário IX, um “poema geológico” (expressão que, Deus me perdoe, adoraria ter sido eu a inventar).
Na verdade, há lugares que nunca mais são os mesmos depois de terem sido ditos por artistas (“ditos” significa aqui, naturalmente, descritos, representados, recriados – e o verbo “dizer” compreende não apenas a literatura, mas também a pintura, a escultura, a música, etc.).
A identidade de Galafura é hoje inseparável do verbo torguiano. Como, aliás, sucede com Trás-os-Montes em geral. Algo semelhante acontece com outros escritores & outros lugares: Manuel da Fonseca & o Alentejo; Ferreira de Castro & as Beiras; Eça, Pessoa, Saramago, Cesário & Lisboa; Vergílio Ferreira & Évora; Carlos de Oliveira e a Gândara; Garrett & Santarém; Trindade Coelho, Assis Pacheco, Daniel Abrunheiro & Coimbra; Júlio Dinis & o Porto; James Joyce & Dublin; etc.
A nossa percepção dos lugares fica para sempre condicionada (quero dizer: enriquecida) pela percepção-enunciação dos autores amados. Ou seja, os lugares ganham (mais) sentido, lógica, profundidade, vida. Porque a arte, meus senhores, ensina a ver. No mínimo, a ver melhor.
Cruza-se quanto vos digo com a exibição, na RTP, de uma excelentíssima série intitulada Vidago Palace (com realização de Henrique Oliveira). Há 21 anos que estou a trabalhar no Norte de Portugal, na fronteira (imaginária) entre o Minho e Trás-os-Montes. Já passei muitas vezes por Vidago, já lá tirei fotografias e já especulei mentalmente sobre o bulício mundanal de outrora, tão distinto da imagem de abandono que, há pouco tempo, feria os olhares e os corações visitantes. Em Vidago Palace, o velho hotel ressuscita – e esse milagre acaba por nos recordar a própria História, sob a forma de humanidade-em-movimento (um festival de amores e desilusões, de ideias e de combates, de rotinas e de assombros, de estar e de devir). Temos o privilégio, enquanto espectadores, de testemunhar o que de nobre e de miserável é capaz de fazer a raça humana em seu mui sanguíneo ofício de existir.
Em suma, a vida compreende-se – sobretudo - vivendo. Mas muito se ganha, ó cúmplices leitores, com o trabalho dos artistas, que pegam na realidade e a reconfiguram esteticamente (e/ou a reequacionam eticamente). Tudo para que possamos todos, até os mais distraídos, saber de que tesouro se fala quando se fala de viver.
 
Coimbra, 12 de Abril de 2017.
Joaquim Jorge Carvalho
[Esta crónica foi publicada no semanário O Ribatejo, edição de 20-04-2017.]

 

Violeta & Carolina



Em caixa sem cor dorme sem se ver
A violeta antes da música, parecendo
A Branca de Neve antes de haver
O beijo de um Príncipe sofrendo

A dor dessa beleza interrompida
(A dor de bruta Morte, bruto Nada);
É por amor que a beija e lhe dá vida,
É do Amor a Vida retornada.

A menina que liberta do torpor
A violeta, e lhe devolve som & cor
É alma linda, leda, leve, acesa –

Eu vejo na menina uma Princesa
E a violeta é toda a Beleza
Salva de ser Nada por Amor!

Coimbra, 18 de Abril de 2017.
Joaquim Jorge Carvalho
[Nota: Este soneto celebra o dia de aniversário de uma querida Sobrinha, Carolina Ornelas, Filha dos meus Cunhados Paulo e Ana. Violeta é o nome de um instrumento musical, muito semelhante, na forma, ao violino.]

terça-feira, 18 de abril de 2017

ZONA DE PERECÍVEIS (83)



O pormenor da idade

Morreu José Vala, um belíssimo jogador de futebol dos anos 70 e 80 do século XX, que se notabilizou ao serviço da Académica de Coimbra e encantou colegas, adversários, treinadores, dirigentes e público em geral com a sua apurada técnica e a sua invulgar visão de jogo. Vim a ser amigo de um seu irmão, Rui Vala, meu rival nas camadas jovens (ele na Académica, eu no União de Coimbra) e meu companheiro no Anadia.
Nos comentários seguintes à notícia do óbito, alguém me dizia, suspirando, que o Zé Vala “também já não era novo”. Na verdade, ele tinha apenas 65 anos, mas o facto de, desde muito jovem, ter o nome nos jornais e nos relatos radiofónicos criou no público a ilusão de uma antiguidade exagerada.
Já me aconteceu algo de semelhante. Em certo Verão de 1995, com 32 anos, eu andava a jogar em torneios de futsal por Coimbra e arredores. Devido à minha paixão pela bola e à dificuldade que sentia em dizer não a convites para entrar nesta ou naquela equipa (do Café de um amigo, do agrupamento de escuteiros da minha Filha, da loja de ferragens de um vizinho), acabei a fazer dois jogos por dia, em pavilhões diferentes e afastados entre si, com brevíssimos intervalos de horas.
Há-de ser até partires uma perna”, previa a esposa. E foi. Num jogo disputado à noite, em S. Martinho do Bispo (Coimbra), logo no início do prélio, senti que os ligamentos do joelho esquerdo se me rasgavam como farrapos exaustos. Nos primeiros cinco minutos, as dores pareceram-me insuportáveis, e acabei mesmo por ter de ir ao hospital. Mas o que me afligiu mais (o que me indignou visceralmente), naquele episódio, foi ouvir, enquanto era assistido no campo, junto à vedação, certo treinador daquela época comentando para um espectador qualquer: “Ele também já tem uma idadezinha...
No futebol, a crueldade da passagem do tempo só é superada pela crueldade da percepção que os outros têm da passagem do tempo. Aos 17 anos, somos fulgurantes promessas; pouco depois, somos atletas experientes; aos 30-32, já somos veteranos; e os que sobrevivem para lá desse limite, frequentemente com competência e brilho, são vistos como patéticos exemplares de jogadores acabados arrastando-se pelos relvados.
A vida é curta, não o discuto. Mas convém não exagerar no modo como se tende a arrumar, por idades, o que cada pessoa é ou vale. Cada vez mais me assusta a ditadura da juventude obrigatória, essa filosofia de pacotilha que mede o mérito e o valor pelo grau de frescura etária.
Tive um treinador que, por querer no campo os 11 melhores em cada momento, ignorava deliberadamente a idade dos seus jogadores. Dizia que, a jogar, há velhos como novos e novos como velhos.
Escrevo esta crónica numa manhã com Sol. E sinto-me, não sei se o adivinháveis já, novinho em folha.

Coimbra, 06 de Abril de 2017.
Joaquim Jorge Carvalho 
[Esta crónica foi publicada no semanário O Ribatejo, edição de 13-04-2017.]

domingo, 9 de abril de 2017

ZONA DE PERECÍVEIS (82)


Coisas de aqui & de toda a parte

Revi, a convite de amigos, Histórias da idade do ouro, um filme dirigido por três realizadores romenos (Cristian Mungiu, Razvan Marculescu, Ioana Uricaru), datado já de 2007. O filme (que foi muito apreciado pela crítica internacional) nasce do argumento de Cristian Mungiu, que se propôs reunir várias histórias numa única narrativa. A poética do variegado discurso assenta num desiderato comum: testemunhar, de forma tragicómica, o País de Ceaucescu, que se autoproclamava “uma época de ouro” e tentava disfarçar, com grandiloquente propaganda, uma ditadura feroz e omnivigilante. 
A graça maior, em minha opinião, está no facto de os romenos comuns, em modo de sobrevivência, continuarem a fazer pela vida, sem choros ou dramas, não apenas fugindo quotidianamente à violência do regime, mas aproveitando em seu benefício, sempre que possível, uma certa cegueira acrítica e obediente das autoridade oficiais. Contexto óbvio: a opulência de discursos e de gestos dos governantes contrasta com a miséria da população; o fogo-de-artifício da cartilha comunista, gritada aos quatro ventos, esbarra na modéstia, na desconfiança ou na troça do povo simples.
Ficam na memória os espertalhões que, fingindo-se inspectores da Saúde Pública do Estado, vão às casas de incautos e “engarrafam o ar doméstico”, para – garantem – controlar a qualidade ambiental da cidade. Percebemos depois que este estratagema serve para recolher garrafas de vidro (oferecidas pelos inquilinos de cada prédio visitado) e com elas fazer dinheiro.
Ou os funcionários do Estado que - bem bebidos e bem comidos - entram numa roda gigante (género de carrossel aéreo, daqueles que se vêem nas feiras) e se esquecem, naquela euforia patriótica, de deixar alguém no chão para, em tempo oportuno, desligar a máquina. De modo que ficam para ali às voltas, desesperados e ridículos, sem remédio à vista.
Ou o militante que vai ao interior rural e atrasado da Roménia, imbuído do maior fervor partidário e nacionalista, querendo obrigar os residentes – velhos e novos – a frequentar a escola, com promessas de alfabetização para os cumpridores e ameaças de castigo para os faltosos. Infelizmente para si, não será possível ultrapassar a geral resistência (teimosa e só na aparência ingénua) dos putativos beneficiários.
Ou ainda a história de um director de jornal que obriga os seus jornalistas a uma ginástica editorial, no sentido de disfarçar, a cada fotografia oficial, o défice de altura de Ceaucescu, nomeadamente através da colocação – artificiosa - de um chapéu na cabeça do ditador. Problema gerador de angústia oficial e de riso popular: sem que a redacção se desse conta, o presidente ficaria, na foto publicada, com um chapéu (inventado) na sua cabeça e outro (verdadeiro) na sua mão.
Visto por portugueses com mais de 50 anos, aquele filme é também um documento sobre Portugal. A ditadura, no nosso caso, tinha outras inspirações e outros inimigos públicos, é verdade. Mas reconhecemos a mesma modéstia de viver, a mesma rotina triste e silente das vidas (mal) remediadas, o medo nos mais simples gestos, a prepotência e a arrogância da autoridade – e também a revolta picaresca da arraia-miúda, que vai fintando a brutidade com truques de génio.
Um dos mais impressionantes milagres da arte é mesmo este de o local devir esteticamente toda a parte. E eu voltei a lembrar-me da lapidar definição que Torga inventou para a ideia da universalidade da arte, em texto apresentado numa sua conferência no Brasil: “O universal é o local sem muros.”
Vila Real, 01 de Abril de 2017.
Joaquim Jorge Carvalho
[Esta crónica foi publicada no semanário O Ribatejo, edição de 06-05-2017.]

sexta-feira, 31 de março de 2017

ZONA DE PERECÍVEIS (81)


 
Viver cansa
 
Há uns anos, num sarau poético, a minha Filha disse um poema de José Gomes Ferreira (colhido no volume Poeta Militante). O poema que leu foi “Viver sempre também cansa”. Havia ali uma graça e uma profundidade que, tempo adiante, não mais deixou de me desafiar e encantar. O sujeito poético, partindo da premissa (queixosa) de o mundo se repetir e de o aborrecer, interroga-se: «Pois não era mais humano / morrer por um bocadinho, / de vez em quando, / e recomeçar depois, achando tudo mais novo?». E acrescenta: «Quando viessem perguntar por mim, / havias de dizer com teu sorriso / onde arde um coração em melodia: / “Matou-se esta manhã. / Agora não o vou ressuscitar por uma bagatela.”».
Também a mim aconteceu já esta vontade de me suicidar temporariamente (sublinho: temporariamente – porque a morte definitiva sempre me pareceu estúpida e insuportável). E não sendo possível a liberdade de morrer-sem-morrer-para-sempre, tenho percebido os méritos do cumprimento disciplinado e regular de uma certa solidão terapêutica. Não falo, note-se, de isolamento desistente ou de radical misantropia. Refiro-me ao encontro do eu consigo próprio. À auto-instituição de um tempo para, de modo sereno e lúcido, pensar (n)a vida, muito fora da barulheira obsessionante do mundo - ou simplesmente de um tempo para pensar em nada. 
Lembro-me de, aí por 1993, ter passado por Óbidos, na companhia de um grupo de teatro numeroso e esfuziante. Não sei explicar porquê, mas senti-me, a dada altura, ansioso, desejoso de sair dali. Não houvera qualquer motivo objetivo para a neura (discussões, conflitos, ofensas, medos ou falhas de saúde). Sei que, de maneira disfarçada, como quem prevarica conscientemente, me afastei dos companheiros de viagem e andei pelas ruas da vila à procura de nem eu sabia quê. Até encontrar uma pequena igreja e nela entrar. Estava quase deserta. Vi apenas uma senhora, junto ao altar, que varria o chão. Sentei-me num banco, logo à entrada, e pus-me a pensar em nada. Uma paz (religiosa, dir-se-ia) caiu sobre o que eu era – e por uma boa meia hora descansei. Não houve rezas, vozes saindo da santaria de barro ou da cruz central. Nem coros celestiais de anjos. Nem luzes piscando nos painéis da parede. Houve só o silêncio e o recolhimento inteiro. A paz. Eu ali escondido do mundo, olhando o tecto alto da igreja. O sussurro da vassoura sobre a laje. Aquilo não foi, digo-vos, senão uma espécie de sono-sonho de olhos abertos, a que se seguiu a continuação da vida como ela existia até ao início do presente parágrafo.
Continuo a praticar esta ginástica de morrer de vez em quando. Preciso de morrer de vez em quando para viver bem. Não tem de ser no interior de igrejas, naturalmente. Pode morrer-se muito bem, por horas completas, num Café, num jardim, em nossa casa. Ou dentro de um livro, de um filme, de uma música.
Ainda por cima, é muito agradável a ressurreição deveniente. Acontece-me até, embora seja raro, ainda não ter morrido e já estar mortinho por ressuscitar.
 
Coimbra, 25 de Março de 2017.
Joaquim Jorge Carvalho
[Esta crónica foi publicada no semanário O Ribatejo, edição de 30-03-2017.]

domingo, 26 de março de 2017

ZONA DE PERECÍVEIS (80)


 
Relógio de pulso
 
A minha primeira crónica da Primavera de 2017 apareceu-me ao entardecer. Vi-a atravessar a rua, sem ainda a reconhecer, entrar na pastelaria e vir até à mesa do meu chá vespertino. Cumprimentou-me. Hesitei. Desbloqueou-me a memória dizendo o seu nome (vamos imaginar que é Florência), e também a turma que, há uns quinze anos, fora sua e minha.
No 5.º e no 6.º ano de escolaridade, ela fora oficialmente uma jovem com NEE (Necessidades Educativas Especiais), tendo direito a tratamento pedagógico diferenciado. Mas a legislação mudou, entretanto, e as suas dificuldades deixaram de ser “suficientes” para a integrar na tal lista de alunos com direito a discriminação positiva. A Escola, à falta de melhor alternativa, optou por recomendar a menina para um CEF (Curso de Educação e Formação).
Fui seu professor de Francês nesse específico contexto. Percebi as evidentes dificuldades da Florência em matéria de aprendizagem dos conceitos mais complexos, de aplicação dos conhecimentos (mal) adquiridos, de autonomia na realização da maioria das tarefas propostas. Mas também se lhe notava, a léguas, a alegria esfusiante de viver, a frescura dos desabafos, a espontaneidade do riso ou da momentânea fúria, a teimosa esperança num futuro radioso.
Certa manhã, eu tentava ensinar a turma a dizer as horas en français. Dei conta do embaraço da Florência desde o início da aula. Tentei, com exemplos repetidos, obter dela uma resposta satisfatória (por mim, claro, mas sobretudo por si). E dela nada, senão um esgar de desespero. A dado momento, após desenhar um relógio no quadro, com os ponteiros a indicar talvez as seis e trinta, desafiei-a a dizer que horas eram em português. Também nesse caso, nada. Pior: passei a notar-lhe nos olhos uma espécie de fúria.
Estás zangada comigo, Florência?”, perguntei. Ela deve ter tido tanta pena de mim que, num murmúrio, decidiu explicar-me o que se passava. E era isto: “Ó sôtor, eu nunca aprendi as horas!
Impedi os risinhos dos outros e assegurei-lhe (com estas ou outras palavras) que era uma honra podermos ensiná-la a ver e a dizer as horas, porque isso nos garantia, na sua história de vida, a inesquecibilidade. E, sim, de modo claro, sereno, paciente, eu e os colegas da Florência ensinámo-la.
Já antes desse dia ela usava relógio no seu pulso fino de menina. Mas que alegria, imagino, deverá ter sido, para si, olhar para os ponteiros correndo no aparelho e dizer aos pais, nessa noite, que horas eram!
Falei com a Florência-mulher por poucos minutos. Ela estava de férias em Portugal até ao final da semana e viera à pastelaria buscar pão. Trazia uma irrequieta criança ao colo. “É teu?”, perguntei. “É. É uma menina. O meu mais velho está em casa da minha sogra.” Depois, disse-me que estava na Suíça com o marido há já oito anos, que já se desenrascava a falar alemão com os clientes do restaurante onde trabalhava, que estava bem, graças a Deus.
Subitamente, olhou para o pulso, fez uma cara meio aflita, meio divertida, e declarou que tinha de se despachar. “O meu marido ficou de me esperar lá em baixo, nas bombas de gasolina. Adeus, sôtor!
Adeus, Florência. Vai à tua vida. Não há tempo a perder.
 
Coimbra, 19 de Março de 2017.
Joaquim Jorge Carvalho
[Esta crónica foi publicada no semanário O Ribatejo, edição de 24-03-2017.]

sábado, 18 de março de 2017

ZONA DE PERECÍVEIS (79)



Breviário da gratidão

Em 1979, eu tinha 16 anos e cursava o 11.º ano na prestigiada Escola Secundária José Falcão. Antes de ali chegar, estudara até ao 9.º ano na Escola Rainha Santa Isabel, ali à Pedrulha, na periferia da cidade. Como eu, os meus colegas eram filhos de agricultores, operários, humildes empregados de comércio. Por ter sido, até à data, tão bom aluno, calhou-me depois, na nova-vetusta-chique Escola, ficar na turma A do 10.º ano, eleito para uma espécie de (oficiosa) selecção que, em muitos estabelecimentos de ensino, era frequente fazer-se. 
Estranhei quase tudo: os modos afectados das meninas, a distância dos professores, as roupas de marca, o indisfarçado desprezo a que me votavam os rapazes (filhos, em geral, de gente importante e abastada). Salvou-me da absoluta infelicidade uma razoável notoriedade conquistada à custa dos resultados escolares e do futebol (eu era um momentâneo craque juvenil do União de Coimbra).
Quando surgiu a possibilidade de uma viagem de finalistas ao Algarve, com estadia de uma semana, não me entusiasmei. Para além do desamor pela Escola, havia o pormenor maior dos treinos e dos jogos que eu perderia. Mas um colega da Académica convenceu-me, lembrando-me que poderíamos treinar “lá”. De modo que falei com o treinador, o mister Pinho, e ele – embora criticando a oportunidade do evento – autorizou-me a inscrição. Acrescentou até que um aluno assim, “exemplar”, merecia bem este prémio.
Faltava só falar com a minha família – e pagar. Não tenho exactamente presente o preço, mas deveria andar pelos três contos (hoje, quinze euros). Ora, foi esta circunstância a pôr ali um travão cínico ao sonho de momento. Percebi que aquela importância era, para o meu pobre agregado, excessiva. O meu Pai, contudo, optou por dizer apenas que era muito dinheiro, que se ia ver, que não tivesse muitas ilusões.
Ao longo das duas semanas seguintes, fui-lhe perguntando se sempre iria ou não, porque (repetia) a directora de turma queria ter a lista completa de inscritos. O meu Pai tartamudeava, insistia que era quase impossível, que esperasse. O pior para si, creio, foi eu entretanto ter marcado um grande golo no campo da Arregaça e dar-lhe a assinar, em certa manhã, o teste de Português com um maravilhoso “Muito Bom” chapado no cabeçalho.
Veio, nesta narrativa neo-realista, o fim-de-semana anterior à 3ª Feira final, data-limite para entregar o dinheiro da inscrição, ou – como ia sendo tão provável – declarar a minha desistência (alegadamente por “razões familiares”). O meu Pai foi comigo, nesse Sábado, à sala de bingo do União de Coimbra. Aí pelas onze horas da noite, gritou “Bingo!” tão alto que toda a gente à volta se assustou. O prémio foi, talvez, de uns seis contos (trinta euros). Vi-o fazer mentalmente contas à vida (gasolina, refeições, água ou luz), guardar um conto e quinhentos para si, e enfim entregar-me um grosso maço de notas. “Toma”, disse, “paga a viagem e guarda o resto para gastares lá.”
Agradeci-lho num murmúrio. Apetecia-me até abraçá-lo, mas não tínhamos suficiente à-vontade para tamanha expansão. À hora em que parti para o Algarve, ele não estava. Deixei-lhe um papel sobre a mesinha-de-cabeceira dizendo-lhe que nunca me esqueceria daquela oferta. Contra a morte, ainda hoje lhe agradeço. Na maioria das vezes, por escrito.

Vila Real, 12 de Março de 2017.
Joaquim Jorge Carvalho
[Esta crónica foi publicada no semanário O Ribatejo, edição de 16-03-2017.)

domingo, 12 de março de 2017

ZONA DE PERECÍVEIS (78)



O deserto visto da Escola

Os maiores inimigos da Escola (em particular, da Escola pública) são alguns corvos salazarentos, que por sua natureza odeiam a democratização do conhecimento, bem como alguns (não poucos) pardais porreiristas, que por preguiça ou ideologia barata se dão mal com a tutelar exigência e odeiam a ideia do destaque individual através do esforço e do sacrifício.
Estão errados os que explicam os problemas da Escola unicamente à luz da sua democratização, no pressuposto de que o fenómeno massificador é incompatível com a busca da excelência. Falham igualmente os que vêem no amolecimento da exigência e do rigor escolares a solução para o desinteresse e o insucesso dos alunos.
Ponto de ordem: não entendo que, sobre os deveres de ensinar e de aprender, haja sequer espaço para debate. Os currículos existentes (fruto, supostamente, de um estudo rigoroso, de uma análise cabal e, enfim, de uma responsável fundamentação cultural, pedagógica, legal) são para se cumprir, ponto final. Tão-pouco me parece pertinente equacionar um regresso ao passado, que reduzisse a Escola à cartilha fascista, assente na apreensão/acumulação/reprodução, pelos alunos, de conhecimentos, sem neles se potenciar o espírito crítico, o valor da descoberta, a criatividade e a visão compreensiva e globalizante dos saberes.
A discussão que vale mesmo a pena fazer-se, hoje, é sobre os princípios e os valores a defender-ensinar-praticar-viver no universo escolar. A Escola deve estar aberta ao Presente, à comunidade, à economia, à modernidade? Sim, mas não pode, em meu entender, tornar-se numa Maria-vai-com-as-outras. A sua própria sobrevivência, como espaço decente (probo, virtuoso, democrático, justo, solidário), depende do grau de resistência que nela exista face à sujidade mundanal. Não se trata, em boa verdade, de fechar a Escola ao exterior; trata-se de a defender das agressões externas a que está sujeita - degradação dos relacionamentos interpessoais, violência selvagem, conspurcação da Língua (estropiação da gramática, empobrecimento do vocabulário, desprezo da elegância falante).
Problema óbvio: como obrigar os alunos, habituados à vida “lá de fora”, a frequentar uma Escola cujas regras fundamentais são tão singulares, tão distintas do lodo cínico que é o resto do mundo?
Com triste frequência, muitos professores - ora revoltados, ora resignados - queixam-se de a Escola nada significar, hoje, para os jovens. E de, por isso, o trabalho docente se assemelhar a “pregar no deserto”. Eu creio, ainda assim, que não há outro caminho senão continuar a pregação. Na obra-prima de Saint-Exupéry, O Principezinho, fica claro que o encanto de cada deserto é justamente a possibilidade de, procurando bem, encontrarmos um poço e nele saciarmos a nossa sede.
Na Escola e na vida em geral, é preciso nunca desistirmos da água.

Vila Real, 07 de Março de 2017.
Joaquim Jorge Carvalho
[Esta crónica foi publicada no semanário O Ribatejo, edição de 10-03-2017.]

segunda-feira, 6 de março de 2017

ZONA DE PERECÍVEIS (77)


Recado do Céu


A importância do Papa, no contexto político e cultural do planeta, tem variado de acordo com a interpretação que cada sumo pontífice faz do cargo. Na maior parte das vezes, a voz desta eminência católica adapta-se confortavelmente ao statu quo, observando um prudentíssimo respeito (ou temor) pelos estados mais poderosos e pelas instituições mais abastadas. Quando auto-votado à qualidade de peça meramente decorativa, o Papa evita a agitação das águas e goza, em geral, da simpática condescendência ou do asséptico apreço de líderes políticos, empresários milionários e clérigos de carreira.
Sucedeu que, em 2013, subiu à cadeira de Pedro um argentino invulgar, que não abdicou, após a eleição, da sua mais crua e natural humanidade. O mundo dos interesses & protocolos instalados, do verniz hipócrita e da diplomacia cínica vai-se espantando, com frequência, perante atitudes inesperadas de Francisco: umas vezes, trata-se de um impulsivo abraço a um doente ou de um telefonema improvável a uma anónima idosa (de Portugal ou das Américas); outras vezes, a coisa é mais perigosa – e acontecem discursos desempoeirados sobre xenofobia, racismo, pedofilia, luxos obscenos, pena de morte, indiferença perante a fome e a exploração.
O último episódio conhecido deu-se há poucos dias. Soube dele pelo JN (edição de 24-02-2017, página 31). Durante uma missa, a que presidiu no dia 23 de Fevereiro, na sua residência de Casa Santa Marta, o Papa Francisco, à pergunta (retórica) “O que é um escândalo?”, respondeu: “É dizer uma coisa e fazer outra, é a vida dupla. Eu sou muito católico, vou sempre à missa, pertenço a esta ou àquela associação, mas a minha vida não é cristã, não pago com justiça aos meus empregados, aproveito-me das pessoas, faço negócios sujos. [...] Muitos católicos são assim e por isso causam escândalo. [...] Quantas vezes ouvimos, todos nós, no nosso bairro e noutras partes: para ser um católico como esse, o melhor era ser ateu? É esse o escândalo. Destrói-nos, deita-nos por terra.”
A  etimologia ensina-nos que “pontífice” deriva de “ponte” – e a ponte, neste caso, significa o caminho suspenso entre a Terra e o (simbólico) Céu. A esta luz, consola-me pensar no desassossego dos grandes administradores com salários de milhões, dos presidentes amadores de muros e deportações, dos corruptos da justiça, da economia & finanças e do desporto, dos hipócritas em geral, quando ouvem a autoridade de serviço, reportando uma apóstrofe de Deus, dizer-lhes: “Ó gente sem alma e sem escrúpulos, vós não prestais! Nenhum dinheiro, nenhum poder, nenhuma fama vos esconde desta verdade indiscutível e última: nada valeis! Não prestais!
Das palavras de Francisco, mesmo a quem não tem fé, apetece dizer que são santas.

Vila Real, 26 de Fevereiro de 2017.
Joaquim Jorge Carvalho
[Esta crónica foi publicada no semanário O Ribatejo, edição de 02-03-2017.]

terça-feira, 28 de fevereiro de 2017

ZONA DE PERECÍVEIS (76)


Miró à recepção

À ideia de uma visita de estudo, o pavor toma conta de mim. Assusta-me de morte a possibilidade de um acidente, de um desaparecimento, de um rapto envolvendo alunos. Nos piores pesadelos, uma multidão de pais grita-me, em fero uníssono: “Que estava lá você a fazer, seu incompetente?!” (E esta é a versão mais bondosa.)
Mas, na balança da opção certa, entre os meus medos demenciais e o benefício da actividade, esta ganha àqueles por claríssima goleada. De modo que lá fui com os alunos do 9.º ano ao Porto.
De manhã, assistimos à representação do Auto da Barca do Inferno. A sensibilidade e a graça do, para sempre vivo, António Feio ofereceu-nos um espectáculo maravilhoso. Sem desvirtuar o essencial do texto vicentino, a encenação acrescentou-lhe dinâmica, humor e sentidos. Do ponto de vista de um professor de Português, é talvez a melhor encenação de todas – e eu já vi umas sete ou oito propostas, em vários pontos do país.
À tarde, fomos à Fundação de Serralves, onde está patente, até Junho, uma exposição com trabalhos de Miró, intitulada “Materialidade e metamorfose”. Foi curioso dar conta da estranheza (ora discreta e envergonhada, ora evidente e ruidosa) que os alunos sentiam. “Isto até eu fazia, e mais baratinho!”, asseveravam uns; “Se uma manta com dois baldes colados é arte, vou ali e já venho!”, diziam outros. “Pagámos três euros por isto, sôtor?”, indignavam-se quase todos.
Os guias de serviço bem tentaram explicar os méritos do artista catalão. Convidaram os alunos a esquecer o que entendiam, tradicionalmente, por arte e a abrir a sua atenção (e o seu gosto) a outras possibilidades. Mas os jovens, sem nunca caírem na má educação, encolheram os ombros, de forma geral, ao desafio ali feito.
Já na nossa Escola, no dia seguinte, falámos do assunto. Sincero admirador de Miró, optei por falar-lhes da estética da recepção. Revimos a ideia de código comum, que emissor e receptor devem dominar para se entenderem (mesmo no plano mais elementar da comunicação verbal e não verbal). Uma aluna lembrava-se de ter ouvido à sua guia que o número 2 ao lado de um olho significava, em certo desenho, que a imagem “tinha” dois olhos, apesar de se ver um único. Outra aluna lembrava-se de ter ouvido que uma aranha, nas composições de Miró, simbolizava a mulher. Finalmente, um rapaz lembrava-se de uma imagem, feita sobretudo de linhas, que parecia uma pessoa a correr. Essa figura apresentava, na região da (provável) cintura, uma aranha e tinha uma cabeça que, no dizer de outro discente, parecia o sexo masculino.
Levámos alguns minutos neste jogo (afinal divertido) da descodificação. Não lhes foi difícil sugerir, sorrindo, que aquilo, na tela, era talvez uma mulher a pensar em sexo. E concluímos, sem grandes explicações, que a arte era um diálogo entre o artista e o espectador (ou o leitor, ou o ouvinte). E que o significado de um dado objecto não tinha de ser sempre o mesmo, pois dependia da sensibilidade, da inteligência, da natureza e das emoções de cada receptor. Coisa fatalmente individual, pois, e subjectiva.
Entendo que o desenho presente na segunda sala da exposição representava Miró a pensar numa mulher a pensar em sexo. O leitor de Muito Mar poderá imaginá-lo e dizê-lo como o cronista a pensar em Miró a pensar numa mulher a pensar em sexo. Mas não está livre de outrem achar que se trata de um leitor de Muito Mar a pensar no cronista a pensar em Miró a pensar numa mulher a pensar em sexo. Etc.

Ribeira de Pena, 19 de Fevereiro de 2017.
Joaquim Jorge Carvalho
[Uma versão desta crónica foi publicada no semanário O Ribatejo, edição de 23-02-2017.]

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

ZONA DE PERECÍVEIS (75)

 
 
Narrativa leve, breve & alegre
 
Além dos textos oferecidos pelos manuais de Português, os alunos têm ainda de ler obras integrais, no âmbito do que se convencionou chamar “Educação literária” (o nome é tão mau ou tão bom como outro qualquer). No caso do meu 7.ºA, já vamos no segundo livro – o primeiro foi O Cavaleiro da Dinamarca, de Sophia; o segundo, História de uma gaivota e do gato que a ensinou a voar, de Luis Sepúlveda.
A ideia de ler, com os alunos, um inteiro volume, ao longo de algumas semanas, parece-me profundamente virtuosa. A melhor forma de instituir-cultivar hábitos de leitura passa pelo mui singelo acto de ler. Por muito que alguns (muitos) alunos estranhem, assustados com o número de páginas, com a quietude do exercício, com a exigência de uma atenção prolongada, pode bem suceder que o gosto se lhes entranhe (para usar uma conhecida fórmula de Fernando Pessoa, à roda da coca-cola).
A meados de Janeiro, deitámo-nos à leitura da novela de Sepúlveda. Apercebi-me, em certa manhã, de um silêncio amável caindo sobre a aula. Nos rostos dos meninos, podia ver-se o sinal claro do encantamento e da curiosidade. Dessa vez, quando se ouviu o toque para sair, senti um quase-enfado, tão pouco habitual nesta iminência de liberdade. Na aula seguinte, uma aluna perguntou-me, assim que me viu no corredor, se íamos continuar a ler a história. Prometi-lhe que sim, se conseguíssemos cumprir, antes, o sumário essencial (leitura do mito de Aracne e exercícios com o discurso directo e indirecto). E voltámos, de facto, às peripécias do gato Zorbas, da gaivota Ditosa e do enciclopédico Sabetudo. Comecei, aliás, eu próprio a contagiar-me do enlevo discente, ao ponto de, nas duas aulas seguintes, ter dedicado a maior parte do tempo à visitação voraz do texto de Sepúlveda.
Na semana passada, só nos faltava ler três capítulos. Distribuí a leitura por todos os alunos e reservei o último capítulo para mim. (Eles gostam de me ouvir, creio, porque faço vozes distintas para cada personagem e acompanho cada situação com caretas e gestos teatrais.)
Quando se aproximava o final, que era o momento de sabermos se a gaivota conseguiria mesmo voar, eu parei subitamente e dirigi-me ao computador da sala. A turma manifestou ruidoso desagrado pela interrupção. Pedi-lhes paciência, assegurando que a leitura seria retomada logo a seguir. Mas um aluno advertiu-me, angustiado: “Mas olhe que só faltam cinco minutos para tocar!”
Sosseguei-os: era tempo suficiente. O que fiz foi procurar no Youtube o tema “Ave Maria”, de Schubert, e usar esta peça como ilustração musical do crescendo da história, rumo ao desenlace glorioso e apetecido – o voo da Ditosa.
Antes de a aula terminar, no seguimento de uma pérola literária que o narrador enuncia (“Só voa quem está disposto a voar”), a andorinha voou enfim. E os alunos desataram a bater palmas, como se festejassem um golo ou a conclusão de um espectáculo admirável.
Brinquei: “Escusam de me aplaudir…”
Uma menina explicou-me: “As palmas são para a gaivota.” Mas eu fiquei feliz na mesma. Como se as palmas, senhores, fossem também para mim.

Vila Real, 11 de Fevereiro de 2017.
Joaquim Jorge Carvalho
[esta crónica foi publicada no semanário O Ribatejo, edição de 16-02-2017.]

terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

História contada por ti


Ao princípio há rios e montes
Na tua história sobre mim.
Por favor, amor, não me contes
O fim!

Vila Real, 12 de Fevereiro de 2017.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.]genial.guru.com.]

ZONA DE PERECÍVEIS (75)



 Mulheres
 
Foi à minha Mãe que primeiramente ouvi a expressão “Mau, Maria”, que era (na sua boca) uma espécie de formal advertência, antes do grito ou do chinelo terminal. Disse-me o meu avô, seu pai, não sei se brincando, que a primeira pessoa a pronunciar essa frase fora José, pai terreno de Cristo, quando Maria lhe falou da gravidez milagrosa.
Ouvi o mesmo dito a meu Pai (“Mau, Maria”) durante uma conversa domingueira, ao almoço, à roda do tema “os direitos da Mulher”. Foi nessa ocasião também que o meu tio Eduardo se saiu com esta: “Os direitos da Mulher são uma vassoura na mão e a boca colada com fita isoladora.”
Creio ter sido em Camilo que li uma máxima – ou mínima – de sentido semelhante: “Deus nos livre de mula que faz him e de mulher que sabe latim”. Esta ideia de a cultura ser prejudicial, na verdade, estendeu-se por séculos a outros grupos, etnias e classes sociais, na avisada visão de quem mandava: o statu quo explorador era mais fácil de manter no sossego da ignorância dos explorados.
Cresci entre operários e pequenos burgueses. Não testemunhei graves atropelos à dignidade da Mulher, que no bairro da minha meninice era vista, em geral, como companheira de sofrimentos e sacrifícios, ou como cúmplice de revoltas e de sonhos. Mas lembro-me de, naquele tempo, durante uma missa, quando o padre falava do aparecimento de Eva, “a primeira mulher na Terra”, um senhor distinto, amigo de meu Pai, ter arrancado sorrisos à família com um simples murmúrio: “Coitado do Adão…” E o meu primo, estudante de mecânica, na esplanada do Café Lusa Nova, quando se falava da fama conversadora de algumas senhoras, perguntou-nos: “Sabem por que motivo é que foram mulheres os primeiros seres a ver Cristo ressuscitado?” Dissemos que não sabíamos, e ele explicou: “Foi para a notícia se espalhar mais depressa.”
A formatação das pessoas faz-se lentamente, subtilmente, insidiosamente. Apesar das leis, das campanhas mediáticas, do trabalho da Escola moderna – a noção de igualdade entre géneros esbarra ainda num muro milenar de preconceito, de desconfiança, de pouco secreto desprezo. E muito disto desagua em discriminação no acesso à profissão, no exercício do poder e na retribuição salarial, ou em violência machista nos territórios do namoro e do casamento. Digo-vos: aquela piadola do poeta Jorge de Aguiar, fabricada já no século XV (“Lembra-te que são mulheres”), perdeu toda a graça desde o nascimento da minha Filha. 
A minha vida está cheia de mulheres admiráveis, extraordinárias. A minha Avó cuidava da casa, tratava dos filhos e, quando o dinheiro faltava, fazia à pressa uns chinelos de pano para vender e, com o dinheiro, comprar algum peixe ou alguma carne, assim garantindo a urgente refeição do agregado. Outras vezes, fazia gelados de café e, tostão a tostão, arranjava dinheiro para o leite que faltava tanto aos mais pequenos. E amava devotadamente o marido, apesar de o meu avô ser uma pessoa difícil de amar. Era a pessoa mais bondosa do país da minha infância. Morreu com problemas de coração (talvez por ser demasiado grande para um peito tão pequenino). 
A minha Mãe herdou muito desse carácter bondoso e generoso da progenitora. Só de vê-la, era-me fácil entender o significado (misterioso para muitos) da santidade. Por isso, aliás, me tem parecido lógico que, com a idade, o seu aspecto devenha cada vez menos físico, menos corpóreo, menos terreno – caminhando para a transparência (ou invisibilidade) desse conceito mais vaporoso de todos, o Bem.
Há ainda, entre tantos exemplos, a minha Mulher, que me foi ficando, mais do que cúmplice, consubstancial, um fenómeno de terna cosmogonia, creio, não apenas romântico, não exactamente biológico. E há a minha Filha, cuja natureza livre e individual não cessa de me espantar. Falo de a ter a visto sair do berço, ler, ter opinião, divergir da tutela paternal-maternal, ser uma mulher (uma Pessoa) inteligente e dona do seu nariz, com sonhos e projectos próprios, seus. 
Para a minha avó Adília, e para a minha avó Emília, e para a minha Mãe, e para a minha Mulher, e para a minha Filha (e para a minha sogra, e a minha irmã, e as minhas tias, e as minhas cunhadas, e as minhas professoras, e as minhas colegas, e as mulheres de todos os tempos), deixo aqui um beijo em forma de crónica. É pouco, eu sei, mas é do coração – e, como fica escrito, é para sempre.

Coimbra, 04 de Fevereiro de 2017.
Joaquim Jorge Carvalho
[Uma versão mais magra desta crónica foi publicada no semanário O Ribatejo, edição de 09-02-2017.]

terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

ZONA DE PERECÍVEIS (73)



Espécie de Pedro
 
1. Imagino Pedro, pouco tempo depois da morte do Mestre, a vaguear por Roma, decerto cansado, talvez com fome, dividido entre o espanto pelo luxo e pela miséria cosmopolitas da sede do império e a indiferença ou animosidade dos transeuntes. A multidão parecer-lhe-ia excessiva para ruas tão pequenas e estreitas, a vozearia tornaria improváveis quaisquer diálogos, a celeridade dos passos gentios impediria o exercício civilizado da atenção.
Imagino Pedro em seu susto profundo – ter uma missão e achá-la, quem sabe, impossível. Como pregar a vinda (e a ressurreição) do Salvador num contexto tão avesso à abertura perante o estrangeiro e suas extraordinárias novas? Como obter deles a bondade de algum cantinho para a peroração, um suficiente silêncio para o discurso se ouvir, uma pausa quieta para o espírito se alimentar?
Do ponto de vista da história das religiões, a viagem de Pedro terá sido um sucesso. E não trago aqui, notai, questões de fé ou de avaliação comparativa dos méritos do cristianismo. Falo de um homem com uma missão fundada na palavra, uma empresa baseada na comunicação persuasiva e eficaz (capaz, digamos, de acender sentidos, de acordar simpatias e cumplicidades entre orador e público).
2. Comecei, na semana passada, a lecionar Os Lusíadas, de Luís de Camões, aos alunos do 9.º ano de escolaridade. É preciso que eles percebam a importância de Luís Vaz na literatura portuguesa e universal; que entendam os planos da epopeia (a narrativa da viagem de Gama, a História de Portugal, a intervenção fantasiosa dos deuses, os comentários felinos do Poeta); que admirem a coragem dos marinheiros e se riam do pícaro pânico de Veloso; que se deliciem com o génio poético de Camões; e, enfim, que se acrescentem de uma cultura literária susceptível de os tornar mais portugueses, isto é, mais cúmplices uns dos outros (dos que estão vivos, dos que já morreram e dos que ainda hão-de nascer).
A minha Roma tem também problemas de espaço. Multidões e objectos atrapalham-me o movimento vital. Televisão, computadores, telemóveis e tablets são um ruído opressor e quase impeditivo da conversa. A existência é feita de pressa brutal e muitas vezes caótica, sem folgas para reflectir ou para contemplar o mundo. Como conseguir que me ouçam?
3. Eu tenho uma missão. É difícil, não haja dúvida. Mas é igualmente amada e formosa: sou, por estes dias, apóstolo de Luís Vaz e da Língua Portuguesa.
Imagina, Pedro.
 
Vila Real, 29 de Janeiro de 2017.
Joaquim Jorge Carvalho
[Esta crónica foi publicada no semanário O Ribatejo, edição de 02-02-2017.]

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

Circunstancial



As flores que nasceram antes de mim não me dizem respeito: não cheguei a espantar-me com a sua beleza, nem a embriagar-me do seu perfume.
As flores vindouras não me dizem respeito, exactamente pelas razões que aduzi para as passadas.
Mas as do meu Presente são minhas e não as dispenso. Não sou inteiramente eu sem o que delas (e nelas) vejo, sem a sua fragrância que me incendeia os sentidos, sem o aveludado céu de si por onde me roço.
Só involuntariamente venero as flores de ontem e as de amanhã: é quando trato das flores de hoje, celebrando-as e perpetuando-as com o meu corpo passageiro e o meu amor circunstancial.

Vila Real, 30 de Janeiro de 2017.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.vida-rural.pt.]