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Número de Ondas

sábado, 14 de janeiro de 2017

ZONA DE PERECÍVEIS (70)





Mário Soares: contra os Catões, marchar, marchar

Custa sempre ao cronista a queda no tema mais previsível de todos – na circunstância, a morte de Mário Soares e a importância histórica de tal personalidade. Mas desta vez, confesso, nem sequer me esforcei para o evitar. Adiante.
Eu tinha 10 anos em 1974, quando nos chegou aquele dia belo e iniciático de Abril. Ao longo dos seguintes dias, meses, anos, beneficiei de um curso aceleradíssimo de Política, Economia e História. Soube o que era, afinal, o fascismo, o comunismo, a social-democracia, a pide, o Tarrafal, o colonialismo, a liberdade de associação-expressão-escolha. Muitos protagonistas daquele período passaram a fazer parte da minha linguagem diária – e, entre tantos, destacavam-se os de Otelo Saraiva de Carvalho, Salgueiro Maia, Mário Soares, Álvaro Cunhal, António de Spínola, Costa Gomes, Sá-Carneiro, Freitas do Amaral, Vasco Gonçalves, Ramalho Eanes, Melo Antunes, Dinis de Almeida, Rosa Coutinho. Etc.
Cresci com a convicção de que eu era “de esquerda”, por me parecer formosa e justa a exigência da redistribuição da riqueza de um país, a igualdade de oportunidades em matéria de saúde, educação e justiça, a cultura da solidariedade social. Ajudou o facto de ser filho de operários e vizinho da zona industrial de Coimbra, testemunha privilegiada de tantas lutas e manifestações populares.
Passei, nesta minha meninice democrática, pelo encantamento panfletário do comunismo e, aí pelos meus 12 anos, cheguei a afirmar-me “do MES - Movimento de Esquerda Socialista”. Mas a sobrevinda leitura de programas partidários, de jornais e de livros ajudou-me a perceber que em nenhum caso abdicaria da minha liberdade individual e de uma certa ideia de burguesa propriedade (não me entrava na cabeça a obrigatoriedade de ser o Estado, à frente dos descendentes familiares, a herdar o que um homem conseguisse com o seu trabalho). Finalmente, conquanto me parecesse essencial o papel do Estado na regulação da sociedade, desagradava-me a sua omnipresença tutelar, feroz e judicativa.
Mário Soares foi, durante muito tempo, uma amável referência do meu mundo. Ao contrário de outros compatriotas (que, já adultos, aparentemente não se deram conta de viver num regime fascista e, por isso, jamais se revoltaram), este homem sacrificou uma vida confortável à luta pela democracia. Pagou por tal o preço da perseguição, da prisão, da tortura e do exílio. Depois do 25 de Abril, ajudou a evitar os excessos revolucionários contra, por exemplo, a Igreja, e combateu a exclusão do Partido Comunista Português, integrando-o no sistema democrático. Quando se anunciava a possibilidade de novas ditaduras (de esquerda ou de direita), foi sempre dos primeiros a lutar pela liberdade, pela tolerância, pelo pluralismo.
Já reformado da política partidária, talvez mais livre do que nunca, deu-se ao luxo de ser radical e de radicalmente denunciar a agenda neoliberal de Passos & Associados, a deriva autoritária e cínica da Europa, a desumanidade de uma globalização esquecida das pessoas.
Tenho ignorado, com estóica paciência, a baba raivosa de jotinhas e ex-jotinhas da direita ignorante, que insultam, no cadeirão do Facebook, a memória de Soares. Pior: constato que até alguma esquerda também por aí liberta ventos de incompreensão e de ressabiamento venoso. Mas quero, desta tribuna livre de onde vos falo, celebrar o cidadão Mário Alberto Nobre Soares, o verdadeiro fundador político da nossa democracia.
De Fernando Pessoa, que bebia de mais e acreditava em horóscopos, o que me interessa é a sua literatura genial. De Soares, que não foi um santo de pau carunchoso, ficou-me o direito – inalienável e extensível à minha Filha e às gerações vindouras – da maiúscula Liberdade. Por muito que os Catões da vida gemam, esperneiem e espumem, isto não é herança de somenos.

Vila Real, 07 de Janeiro de 2017.
Joaquim Jorge Carvalho
[Esta crónica foi publicada no semanário O Ribatejo, edição de 12-01-2017.]

sexta-feira, 6 de janeiro de 2017

ZONA DE PERECÍVEIS (69)



 A generosidade explicada ao burguês

Caros leitores, deixai que erga, nesta madrugada ainda do novo ano, uma questão incómoda: até onde estais (estamos) dispostos a ir pela justiça, pela verdade, pelo Bem?
Há mais de vinte anos, numa conferência a que assisti, na Escola Secundária de Pombal, sobre a situação do povo timorense, sob o jugo – à época - da Indonésia, uma senhora fez-me (fez-nos) essa mesma pergunta. Era uma mulher baixinha, de gestos serenos e voz melodiosa, que perfumava o discurso com um misterioso sotaque, num Português cheio de distância e cumplicidade. Agradeceu o apoio luso à causa de Timor livre, os nossos cânticos, a nossa poesia, as nossas palavras de ordem nos corredores da escola ou nas ruas, o nosso dinheiro. Mas perguntou: “E se fosse preciso recolher uma família timorense fugida da repressão? Quem estava disposto a tal gesto?”
Houve ali um silêncio embaraçado. O meu (pareceu-me) era o que se ouvia melhor. Repercebi ali a minha burguesa covardia, o pânico de perder o conforto remediado da minha existência, a angústia de sair da doméstica rotina que secretamente busco desde sempre. Para maior vergonha deste que vos fala, alguns colegas e muitos alunos ainda gritaram que, sim, eram capazes de acolher nos seus lares os timorenses necessitados. Admirei-os (admiro-os), mas não fui capaz de os imitar.
Quase no final de 2016, antes de viajar para a consoada coimbrinha, conversei com uma colega sobre o significado da palavra “generosidade”. Ela saiu-se com esta: “As pessoas generosas são generosas porque sim.” E desenvolveu a ideia: “Porque, em dados momentos, acham que têm de fazer o que não pode deixar de ser feito. São generosas naturalmente.”
A este axioma tão pragmático acrescentou um exemplo. Ela própria, há cerca de oito anos, acolheu em casa três meninas, provindas de famílias disfuncionais. As três irmãs beneficiaram, pela primeira vez em suas tenras biografias, de um ambiente familiar saudável e digno. Tinham regras, roupa, refeições, banhos, carinho, paz. Impressionadas com aquela Mãe provisória, as senhoras da segurança social propuseram-lhe a adopção de uma das crianças. A minha colega hesitou, fez contas ao seu tempo e ao seu dinheiro, reflectiu (com a cabeça e sobretudo com o coração) – e acabou por ficar com as três. São as suas três filhas, como legitimamente diz. A mais velha já anda na universidade. Compreendei: o preço da opção é muito maior que todos os euros já gastos ou a gastar no futuro; é a obrigação para sempre contraída de eleger as três meninas como prioridade da sua existência, abdicando de outras hipóteses de bem-estar e de conforto (também legítimos, sublinho). E ela diz que não acha isto “generosidade”, como eu, espantado, lhe chamei.
Regresso à minha questão inaugural: até onde somos capazes de ir pelo Bem? 
E pela interrogação me fico, para não dar confiança a excessos masoquistas que me estraguem os dias. Feliz Ano Novo, amigos! 

Coimbra, 01 de Dezembro de 2017.
Joaquim Jorge Carvalho
[Esta crónica foi publicada no semanário O Ribatejo, edição de 05-12-2017.]

terça-feira, 3 de janeiro de 2017

ZONA DE PERECÍVEIS (68)


O que sobra de 2016

A memória é um acto (desesperado, creio) contra a mortalidade. Celebramos datas para irmos evitando o Fim mais definitivo de todos – o esquecimento. A ironia disto tudo está em que, assinalando nascimentos ou conquistas, óbitos ou aniversários, é sempre na morte que estamos a pensar (esconjurando-a, lamentando-a ou fazendo de conta que ela não nos vence).
Serve este lúgubre preâmbulo para vos falar do término de 2016, um pouco influenciado pelos múltiplos balanços que os média vão publicando, com maior ou menor interesse. A cerca de uma semana do seu ocaso, eu atrevo-me a ver neste ano moribundo uma terrível colecção de catástrofes: terrorismo global, pandemia de guerras, doenças cada vez mais numerosas e rápidas do que tratamentos & curas, recrudescimento da intolerância, banalização da corrupção, perpetuação da fome, da desigualdade, da exploração.
Apesar do pontual alívio que foi ver-me livre daquela austeridade tão cara ao dr. Passos Coelho, não vejo motivos, no hodierno contexto, para grandes optimismos. Prefiro mil vezes a geringonça à fúria neoliberal, sim, mas continuamos à mercê dos caprichos dos credores internacionais, do preço do petróleo, da generosidade do Banco Central Europeu. A América mais primária elegeu um pedregulho primário e perigoso. O Reino Unido inventou um problema terrível para a (periclitante) União Europeia. A França parece tomada pelo vírus populista da xenofobia mais retrógrada. Entre muitos mortos que contabilizámos ao longo do ano, temo o falecimento da própria Esperança…
Sobra-me que a minha Mãe ainda está viva no momento em que escrevo e que Portugal foi campeão europeu de futebol. A essas gratas circunstâncias vou buscar a melodia com que gostaria de terminar esta crónica. Eu estava em Coimbra nessa magnífica noite de Julho, com a minha Mulher e a minha Filha. Cantámos o hino em pleno jardim da Associação Académica, unindo as nossas vozes às de milhares de outros. Éramos ali, muito juntos, os mais felizes parolos do universo, vestidos com as cores da selecção, uns lingrinhas pátrio-futebolísticos à espera do milagre. Eu (disseram-me) tinha as mãos na cabeça e chorava estupidamente depois do golo do Eder, o empregado de mesa do Café mais próximo trouxe-me uma piedosa imperial e, batendo-me nas costas com sincera preocupação, aconselhou-me calma. Por umas inteiras duas horas, andei em romaria pela cidade com os outros automobilistas, apitando, cantando, abraçando cúmplices desconhecidos que encontrava na rua. No final da noite, ainda fui dar um beijo à minha Mãe, que tinha passado o serão à varanda a bater palmas aos foliões transeuntes. Disse-lhe: “Mãezinha, foi um dia perfeito!”
O ano de 2016 foi muito mais - e sobretudo muito pior - do que isto. Mas cada um celebra o que (e como) lhe parece justo.

Vila Real, 20 de Dezembro de 2016.
Joaquim Jorge Carvalho
[Esta crónica foi publicada no semanário O Ribatejo, edição de 22-12-2016.]

domingo, 1 de janeiro de 2017

Feliz Ano Novo


Querido(a)s Amigo(a)s, tenho andado arredado da netvida, mas vou sabendo de mensagens, votos, abraços e beijos que muita gente me envia, faz, dá. Antes que o ano de 2016 se apague, quero eu também, aqui à varanda do meu (i.e., vosso, i.e., nosso) Muito Mar, desejar-vos um Ano Novo cheio de alegrias. 
É verdade que, com a idade, vamos percebendo que há cada vez mais ausentes, que a diabetes, o colesterol, a tensão alta e o reumatismo aparecem sem convite, que o tempo disponível de porvir vai escasseando - mas permanece, gloriosa e teimosa, esta circunstância de estarmos vivos e juntos (ou próximos). 
Aqui fica o meu abraço, ó contemporâneos da minha circunstância! Feliz 2017! 

Coimbra, 31 de Dezembro de 2016. 
Joaquim Jorge Carvalho 
[A foto é da minha Filha; a paisagem é a da minha amadíssima Coimbra, em modo natalício.]

quarta-feira, 21 de dezembro de 2016

Primavera à espera



Ei-lo, o Inverno violento -
Fere-nos a fria natureza
Afoga-nos a chuva, o vento
Magoa-nos sem delicadeza.

Não podes tu senão esperar
A vinda outra vez da Primavera.
A mim, se vires quase chorar
Sabe que também estou à espera

Do Sol que nos salva do Inverno:
Vigio cada chão e cada flor
Anoto quanto vejo em meu caderno

Cada nova forma, cada cor.
E se sinto luz num beijo terno
Chamo Primavera ao meu amor.

Ribeira de Pena, 16-12-2016.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.visitmosca.com.]

ZONA DE PERECÍVEIS (67)



Conhecimento de causa(s)
 Em Retrato do artista enquanto jovem, James Joyce apresenta-se-nos como estudante de um Colégio de Jesuítas, o melhor aluno da sua geração, que obtém – ao longo dos anos de estudo – as mais altas classificações e os mais sentidos louvores de seus mestres e condiscípulos. Chegado o momento da (mui provável) ordenação, comentava-se: que extraordinária figura da Igreja deviria este rapaz, tão profundamente versado já nos segredos da Fé! Que carreira decerto o esperava! Aconteceu, contudo, que o jovem, em vez de confirmar as expectativas à sua volta, disse que não queria ser ordenado. Pior: revelou não acreditar naquilo que a Igreja postulava (conteúdo, forma, rituais). Mas então – contrapunham desconcertadamente os professores, os colegas, os familiares – para que fora tanto estudo e dedicação, e de que servira obter tão elevadas classificações nas múltiplas provas realizadas? O rapaz respondeu-lhes que estudara muito bem tudo quanto era e significava a Igreja para perceber bem o que era e significava a Igreja; que chegara a hora de, com a autoridade de quem comprovadamente sabia do assunto, lhes dizer que não acreditava nos pressupostos, na lógica e nos objectivos da instituição milenar. E, já agora, que ele não tinha fé.
Eu conheci, nos tempos da faculdade, um moço (salvo erro, de Geografia) que fez o exigentíssimo curso dos comandos. Fê-lo, ainda por cima, como voluntário. Passou nos testes preliminares, fez a instrução toda, ultrapassou as variegadíssimas dificuldades de que, só de ouvir dizer, suspeitamos, venceu o sono, a fome, a sede, a fadiga extrema e os fantasmas mais arrepiantes da mente humana. Quando chegou o dia, normalmente glorioso, de receber a boina vermelha, símbolo consabido da condição – adquirida, plena, conquistada – de comando, um graduado fez-lhe a pergunta protocolar (gloso-a de cor): “Aceitas a boina?” Ele respondeu, com a maior desfaçatez, que não. Mas então – contrapuseram oficiais e sargentos, camaradas de curso, familiares, amigos – para que fora e servira tanto esforço e tanta dedicação, se agora recusava os justos louros da cumprida empresa? O jovem disse-lhes, com candura insuportável: “Queria ver se era capaz, mas percebi que isto, para mim, não tem lógica, razão de ser, valor. Não quero.”
Há menos de uma semana, reencontrei um companheiro antigo, dos tempos do futebol coimbrinha. A gente conhecia-o pelo fervor com que militava numa certa juventude partidária: sabia tudo sobre datas de congressos e convenções, eleições, listas de candidatos a isto e àquilo do partido, seus concorrentes eventuais à presidência da jota, etc. Dizíamos, mais com amizade do que com ironia, que ele ia longe. Ele não foi longe, politicamente; mas licenciou-se, tem um emprego agradável, mulher, filhos, corre no Choupal com o cão e ainda tem os pais vivos. Diz-se feliz e assegura que aquilo das jotas é uma ilusão e uma falsidade (ilusão e falsidade juvenis, treino para a ilusão e falsidade adultas). Não me deixa aprofundar as causas do desencanto e do asco: “Eu sei do que falo, Quim!”
E eu, caros leitores, vou sabendo um bocadinho do que escrevo.
Coimbra, 15 de Dezembro de 2016.
Joaquim Jorge Carvalho
[Esta crónica foi publicada no semanário O Ribatejo, edição de 17-12-2016.]

terça-feira, 13 de dezembro de 2016

ZONA DE PERECÍVEIS (66)



Uma colher de prosa
Em parceria com a CPCJ (Comissão de Protecção de Crianças e Jovens) de Cabeceiras de Basto, a minha Escola assinalou, em finais de Novembro, a importância de prevenir e atacar as agressões sobre mulheres. Coincidiu o facto de, na leitura matutina do JN (edição de 25-11, página 22), ter ficado a saber que “a GNR de Braga actuou em mais de mil crimes de violência doméstica nos primeiros dez meses do corrente ano”.
Deixei que o assunto tomasse conta de parte da minha aula de Português, comovido com o interesse dos alunos do meu 7.º ano de escolaridade. Disse-lhes que se trata de um flagelo (expliquei-lhes o que é um flagelo); que só há pouco tempo passou a tratar-se trata de um crime público (o Z.M. perguntou-me: “Mesmo que a polícia soubesse, o gajo não ia para a prisão?”); que a melhor – a única – maneira de reagir à primeira agressão do namorado ou do marido é deixá-lo de vez; que é pior se o agressor tiver oportunidade de agredir novamente, porque se passará a sentir dono da vítima, capaz de matar para proteger, no futuro, a sua “propriedade”; que tenho uma Filha e que já lhe disse o que agora lhes dizia a eles (“É como se nós também fôssemos seus filhos”, disse a T.C., e ninguém se riu).
Depois, o V.L. disse que também havia homens agredidos pelas mulheres e que alguns até tinham vergonha de se queixar. Entre gargalhadas, o S.M. disse que nunca bateria numa mulher, mas que também não a deixaria “molhar a sopa” nele. A T.C., que é uma inteligência admirável, disse que os homens, nestes casos, estavam “entre a espada e a parede”, pois não podiam bater nelas por ser uma cobardia, nem podiam queixar-se à polícia para evitar o ridículo.
O C.C. achou que esse problema, comparado com o das mulheres, era “uma gota no oceano”, já que a maioria das agressões caía sobre as desgraçadas das namoradas ou das esposas.
Eu tinha de falar dos graus dos adjectivos e procurei rematar o debate, sublinhando a necessidade de rapazes e raparigas estarem alerta para as ameaças de que faláramos. Relembrei-lhes a importância (vital) da “tolerância zero” para com os agressores. Acordei-os para a indignidade daquela frase antiga – “entre marido e mulher, não metas a colher”.
A T.C. ainda se saiu com esta: “Se a pessoa tolera, depois já não pode fazer nada.” Eu contrapus: é sempre tempo de (re)agir, de fugir da companhia de uma besta violenta. Ela retorquiu-me (com a evidente concordância de muitos dos seus colegas): “Mas depois pode haver filhos e a mulher já aguenta tudo por causa deles…”
Eu não desisti de uma conclusão optimista e insisti: os filhos não são felizes num contexto de constantes ameaças e agressões à Mãe. E obriguei-os (digamos assim) a prometer-me que, agora e sempre, se recusariam à escravatura da resignação e do medo. Lancei-lhes uma pergunta (quase retórica): “De acordo?” 
Obtive algumas (raras) respostas murmuradas: “De acordo.”
Mas o que se ouvia mais, nessa hora epilogal, era o mutismo muito circunspecto daquelas meninas e daqueles meninos. Que histórias domésticas (interrogo-me) haverá por detrás desse silêncio? Que dramas? 

Vila Real, 04 de Dezembro de 2016.
Joaquim Jorge Carvalho
[Esta crónica foi publicada no semanário O Ribatejo, edição de 08-12-2016.]

sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

ZONA DE PERECÍVEIS (65)




Criadores, criaturas e criados
 
Certa figura pública (aliás, certo figurão com grande notoriedade mediática) terá publicado – dizia-se, diz-se – livros cuja autoria real coube a outra pessoa. A ser verdade, o episódio acrescenta à criatura objectivas razões para a nossa repulsa e o nosso nojo moral. Com efeito, ter um livro publicado que, afinal, não escrevemos, para além do óbvio ridículo, é um sintoma de profundíssima patologia: significa o absoluto desprezo pela verdade e, em particular, pela ideia de talento. O medíocre, incapaz de criar, compra e exibe como sua a arte alheia. Que fenómenos haverá nas catacumbas da consciência do vigarista, de cada vez que alguém lhe dá palmadinhas nas costas e o felicita pela “sua” obra?
O pior dos cenários é o falso autor desvalorizar esses quaisquer rebates de consciência que, numa pessoa normal, decerto haveria. Os remorsos, na perspectiva dos cínicos incuráveis, são manifestações de fraqueza. Discípulos de Maquiavel, recusam-se a ver imoralidade no que fazem e são perigosos, naturalmente, pois a amoralidade é, a par dos fundamentalismos mais primários, a pior ameaça dos nossos dias.
O caso de quem vende o seu talento académico-literário, abdicando da paternidade oficial do trabalho realizado, é igualmente merecedor de reflexão. Será que todo o dinheiro do mundo compensa a frustração (concomitante ou deveniente) de ver outrem a colher os louros do nosso esforço? Na verdade, creio que a situação é ainda mais hedionda: apetece-me comparar esta gente aos pais que vendem os filhos. Talvez haja neste universo misterioso dos ghost writers, quando vistos à mesma luz dos pseudo-escritores, uma simétrica amoralidade. (Ou então, na mais mirabolante e bondosa das hipóteses, uma santíssima abdicação da ribalta.)
Se, por hipótese, um grande escritor - amado e consagrado escritor - me viesse pedir que lhe vendesse (a preço de ouro) um simples poema da minha autoria, saberia nesse instante que ele não era, de facto, grande, nem amável, nem digno de sagração. E eu ficaria com o meu poema. Sem o seu dinheiro. Essencialmente rico, portanto.
 
Vila Real, 25 de Novembro de 2016.
Joaquim Jorge Carvalho
[Esta crónica foi publicada no semanário O Ribatejo, edição de 01-11-2016.]

Café do Perestrelo (Machico, Madeira) - ou o que é a Felicidade



Perguntas: A felicidade, o que é?
Certa vez (digo eu) num Café...

Histórias, não (dizes), um conceito
Que possas explicar e eu percebê-lo.
Respondo: um momento perfeito –
Eu no Café do Perestrelo.

Está a bica, o jornal, o Sol brilhando
Tu pensando em mim onde estiveres
A rua da Árvore guardando
O voo andarilho das mulheres;

Ao fundo, a praia perto, o Mar
Inquietações de barcos, pescadores
Turistas ocupados a guardar
Mil cheiros, mil formas e mil cores.

E tudo ser meu completamente
No cósmico instante d’existir!
Ó serena exaltação desse Presente!
Ó alegre juventude d’existir!

Perguntas: a felicidade, o que é?
Respondo: eu, certa vez, num Café...


Vila Real, 27 de Novembro de 2016.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, na net.]

 

ZONA DE PERECÍVEIS (64)




Dinis para o povo

Ando, desde Junho do corrente ano, a divulgar o meu livro Júlio Dinis – As Pupilas do senhor escritor, versão (mais elegante) de um trabalho académico sobre o autor de A Morgadinha dos Canaviais.
Comigo, já tive amigos e conhecidos em Ribeira de Pena, Coimbra, Ovar e Cabeceiras de Basto. Em cada apresentação, tenho tentado explicar o meu amor pela literatura e, em concomitância ilustrativa, o enlevo provocado por Júlio Dinis a um menino de dez anos, sedento de histórias (sedento de mundo) e já irremediavelmente apaixonado por esse objecto para sempre extraordinário – o livro.
Nestas ocasiões, tenho confessado (sem orgulho no relato feito) que, pouco depois da conclusão do ensino primário, roubei um exemplar de As Pupilas do Senhor Reitor, retirando-o veladamente de um escaparate. O crime ocorreu em plena baixa coimbrã, a meio da manhã, junto ao quiosque onde minha Mãe comprava a Crónica Feminina: usando como luva o jornal A Bola (à época, um trissemanário gigantesco em tamanho e em qualidade literária), libertei o romance da mola aprisionadora e trouxe-o entre as notícias do campeonato de futebol de 1973. Perante o facto consumado (roubo e vaidade desavergonhada do relato), a minha Mãe pregou-me uma bofetada sonora e garantiu-me que, na próxima oportunidade, devolveria o livro ao dono. Nunca se cumpriu essa promessa. Mas eu formei-me em Letras, fiz pós-graduações, mestrado e doutoramento – e defendi, em Julho de 2011, uma tese intitulada Acção, Cenas e Personagens na Narrativa Dinisiana – As Pupilas do Senhor Escritor. Acreditei (acredito) que assim paguei a dívida à minha progenitora (não, hélas, a que eternamente me ficou para com o dono do quiosque).
Poupo os meus leitores à revisitação do conteúdo essencial da dissertação, mas trago para a crónica um sumário fundamental: que há no fenómeno da literatura (e, em particular, no da narrativa) real interesse e real utilidade; que a literatura nos ajuda a organizar/verbalizar/tornar visível - sob a forma de palavras, i.e., de vida(s) – o que, de outro modo, seria menos claro, menos gratificante, menos lindo. E ainda: que, na escolha do cânone escolar para o ensino básico e secundário (selecção de autores e obras a estudar, no contexto da educação literária e no da aquisição de hábitos e gosto de leitura), nem sempre as eminências & reverências & excelências da universidade têm razão. Há alguns nomes que, não obstante o relativo desprezo a que são votados, são mais indicados pela sua leveza, pela sua graça, pela sua simplicidade, pela sua amabilidade, pela sua eficácia narrativa. [Não confundir, por favor, leveza, graça, simplicidade, amabilidade e eficácia com vulgaridade ou banalidade!]
Um Amigo, que fez o favor de apresentar o meu livro em Ovar, usou uma forma lapidar para a enunciação desta acessibilidade ideológico-fruitiva da obra dinisiana – disse que Júlio Dinis escreveu “para o povo”.
O povo leitor somos (todos) nós, os mais ou os menos instruídos, os dotados de maior ou de menor conhecimento vocabular e sintáctico. E isto de se amar a literatura à roda de um mesmo autor, cujo génio foi (é), por natureza, avesso a rótulos cómodos ou fáceis (um autor que apenas quis contar histórias, de forma simples, elegante e clara), não será coisa de somenos.
Eu tinha dez anos e vi aquele livro de capa azul no escaparate de um quiosque, preso por uma mola. Libertei-o da prisão e trouxe-o comigo para sempre. Tirando o pormenor – lamentável - do roubo, foi (sei-o hoje) um acto de liberdade e de amor.
 
Coimbra, 20 de Novembro de 2016.
Joaquim Jorge Carvalho
[Esta crónica foi publicada no semanário O Ribatejo, edição de 24-11-2016.]

sexta-feira, 18 de novembro de 2016

ZONA DE PERECÍVEIS (63)



Notícias da inactualidade
 
No ano de 1933, aí pelas oito da manhã, é possível que um casal alemão, ele e ela na idade sensata dos 40-50 anos, tenha adivinhado o horror iminente, no seu país e no mundo. Um homem que culpava as nações vizinhas pela crise alemã, que acusava uma raça da maiúscula Culpa de todos os males do planeta, que desprezava os direitos humanos, que ameaçava tudo & todos com perseguições e guerra em nome do nacionalismo mais primário, fora eleito.
Um belo livro de Bernard Schlink (O Leitor, Ed. ASA) explica o escândalo da eleição com um argumento pertinente, mas não completamente verdadeiro: ignorância e analfabetismo do povo alemão. Mas sabe-se que a ideologia nazi granjeou, à época, na Alemanha e em vários países ocidentais, adeptos muito bem informados. Houve políticos, militares, professores, artistas, filósofos, cidadãos pobres e ricos que aderiram às causas mais bárbaras e demenciais do Partido do Führer – e diligentemente participaram no genocídio deveniente, no esforço de guerra contra os outros países, na perseguição aos que, por não serem capazes de não pensar livremente, punham em causa o unanimismo da máquina nazi.
Um casal de alemães, dizia eu, aí pelas oito da manhã do dia seguinte às eleições, terá previsto o horror. Ele talvez tenha dito: “Nunca mais de lá o tiram!” E ela talvez tenha dito: “É melhor não falares em voz alta. Ainda te chamam comunista, ou judeu, ou traidor…”
Este casal residia (ficciono eu) num bairro popular de Berlim, onde conviviam, até aos primeiros anos da década de 30 do século XX, os ricos, os remediados e os pobres. Entre eles, haveria um homem que, por estar desempregado e ter a cargo um filho doente (vítima de gases na Primeira Grande Guerra), cantava agora a plenos pulmões uma cantiga xenófoba. E haveria uma mulher que, recentemente despedida de uma alfaiataria de um judeu, exaltava agora publicamente o orgulho de ser “uma verdadeira alemã”. E haveria quem, por não acreditar em ninguém, tomava agora por boa aquela alternativa ruidosa ao que fora, até aí, o seu mundo. E haveria ainda quem, por preguiça ou medo, fingisse acreditar no clichê anti-políticos muito em voga por ali – “que eram todos iguais, que tanto fazia um como outro, que tudo ficaria na mesma independentemente do que cada um votasse”.
Depois, foi o que se sabe. A verdade está nos livros de História, não obstante as dúvidas do inefável senhor Le Pen (pai daquela Marine que se prepara para ser presidente da França). 
 
PS: Era para escrever sobre a eleição de Donald Trump, mas já não há tempo. 
 
PPS (Nota aniversária): O Ribatejo faz 31 anos. Do lugar de onde o vejo, este jornal afigura-se-me o contrário daquele Berlim da minha crónica. Tem sido mesmo um orgulho escrever para este País de Liberdade que é O Ribatejo, sob a brilhante e sempre calorosa orientação do nosso Director, Joaquim Duarte. Parabéns, Companheiros, & muitos anos de vida! 
 
Ribeira de Pena, 11 de Novembro de 2016.
Joaquim Jorge Carvalho
[Esta crónica foi publicada no semanário O Ribatejo, edição de 17-11-2016.]

terça-feira, 15 de novembro de 2016

ZONA DE PERECÍVEIS (62)


Ir à bola com Assis Pacheco
 Esta crónica começa com um fait-divers: houve um polaco que, quando médicos e família já desesperavam, saiu do coma. O que alegadamente o devolveu ao mundo foram os golos de Cristiano Ronaldo, relatados por (creio) um locutor de Varsóvia.
Esta notícia contraria o que, nos anos 70 do século XX, era habitual ouvirmos sobre o futebol. Isto: que, como a religião e o fado, a bola servia para adormecer o povo, distraí-lo das questões verdadeiramente importantes.
Custou-me muito, na primeira adolescência, casar a paixão pelo futebol com as minhas convicções antifascistas. O meu vizinho Chico, que era (e é) benfiquista fervoroso, andou uns meses a falar-me nos três efes do fascismo – Fátima, Fado, Futebol. Já o meu Pai, pouco dado a fundamentalismos e com o gozo de, enquanto sportinguista, o contrariar, dizia-lhe que havia outro efe ainda mais relevante, fonte de prazer egoísta e garante da demografia pátria. Riam-se os dois e talvez eu, por instantes, julgasse que aludiam à palavra Felicidade.
De qualquer modo, sempre achei que o meu amado futebol valia muito mais que aquele labelo circunstancial. Nem de propósito, tive a oportunidade de reler, no passado (saudoso) Agosto, um livrinho de Fernando Assis Pacheco, intitulado Memórias de um craque. Trata-se de um conjunto de textos que aquele jornalista e escritor escreveu para o Record, há uns 40 anos, e que eu me lembro de, in illo tempore, mui gratamente devorar. Num dos capítulos-crónicas, ele lembra a saga da Académica de Coimbra até à final da taça, no Jamor, no ano heróico de 1969. Solidários com os colegas da universidade, os jogadores e os adeptos da Briosa ensaiaram, à época, uma espécie de 25 de Abril temporão, exemplar grito pela liberdade, pela educação e pela justiça. Ora, tal como na historieta do polaco ressuscitado, aqui o futebol serviu, não de manhoso embalo para o esquecimento, mas de despertador. No caso daqueles verdes anos coimbrões, de despertador – atenção ao adjectivo - ético.
Nota final: Fernando Assis Pacheco era, ao contrário de quem vo-lo recorda, adepto da Académica de Coimbra (eu sou do União) e do Benfica (eu sou do Sporting). Mas amava, semelhantemente a este pobre escriba, a futebol, a liberdade, os amigos e a língua portuguesa.


Vila Real, 06 de Novembro de 2016.
 Joaquim Jorge Carvalho
[Esta crónica foi publicada no semanário O Ribatejo, edição de 1º-11-2016.]

sexta-feira, 4 de novembro de 2016

ZONA DE PERECÍVEIS (61)

João Lobo Antunes (De profundis)

A morte do médico-investigador-cientista-escritor João Lobo Antunes foi dignamente assinalada pelos média portugueses. Li e ouvi testemunhos de muita gente, a uma voz lamentando a perda do homem-amigo-cidadão. Desse coro resulta a imagem de um Português consensual, estimado e admirado para lá do ruído político-partidário, a salvo da espuma medíocre das tricas e invejas da vidinha. 
Eu gratamente contribuo para esta unanimidade invulgar- Habituei-me a reconhecer a elegância deste compatriota sereno, culto, viajado. Retive, entre discursos, entrevistas e textos de opinião, um prefácio que escreveu para o livro De Profundis, Valsa Lenta, de José Cardoso Pires. Sublinhava, nessa espécie de ensaio, o valor literário e científico daquela obra do escritor consagrado e, por acidente do destino, seu doente. A Valsa Lenta relata, de forma tão precisa que dói ao ler, a doença do autor de O Delfim, o qual subitamente se perdeu de si, tornando-se incapaz de reconhecer pessoas, coisas e objectos, de verbalizar pensamentos ou emoções, de comunicar. (A este fenómeno, os cientistas chamam, salvo erro, “afasia”.) 
Lobo Antunes, para além da estética fruição do testemunho de Cardoso Pires (que entretanto ainda teve tempo de reaprender a linguagem e pôde, assim, explicar, na sua tão limpa prosa, aquela sua saga radical), deu-se conta do tesouro médico-científico da obra: era, como bem esclareceu, uma maneira de leigos e especialistas visitarem, guiados pela luz do escritor, o corredor misterioso e tenebroso da consciência, da profunda Vida. 
Mas o que eu queria sublinhar, acima de tudo, na revisitação deste elogio nacional a João Lobo Antunes, era a gratidão de tantos cidadãos pelo (seu) médico. Desde menino que vejo, nos profissionais de saúde, uma espécie de anjos em missão terrena. Entregamos-lhes a nossa vida e inteiramente confiamos nos seus conhecimentos e nas suas capacidades (como, em devido tempo, fizemos com os nossos pais). Se a esta competência científico-profissional calha acrescentar-se a simpatia, a generosidade, o humanismo – que remédio senão vê-los como seres verdadeiramente maiores e exemplares, merecedores de todos os encómios e agradecimentos? 
Era para vos falar de uma médica bruta e irresponsável, uma avantesma com quem me cruzei há cerca de um ano, num centro de saúde do interior. Escuso de o fazer, assim ganhando - eu, a crónica e os leitores - em matéria de higiene e de bem-estar: bastemo-nos desta ideia de que o pior inimigo de um bom médico (ou de um grande médico, como o Dr. João Lobo Antunes) é um qualquer colega seu sem qualidades profissionais e humanas.
Naturalmente, isto também vale para advogados, professores, canalizadores, engenheiros, caixeiros, fiscais da câmara, políticos, jornalistas, carteiros, mecânicos, militares, etc. Os exemplos ajudam-nos a pôr tudo em perspectiva, não é verdade?


Coimbra, 30 de Outubro de 2016.
Joaquim Jorge Carvalho
[Esta crónica foi publicada no semanário O Ribatejo, edição de 03-11-2016.]

domingo, 30 de outubro de 2016

ZONA DE PERECÍVEIS (60)


Continuação de tudo


O Tempo é, de todos os créditos, o mais cruel. À semelhança do que sucede com os vulgares cartões de plástico, pagamos com juros quanto pedimos emprestado; mas a moeda do Tempo é a nossa própria vida.
Estimo diariamente a minha velhice: de manhã, à hora do escanhoamento burguês, o espelho lembra-me francamente a idade; ao descer ou subir as escadas do prédio, há uma ou outra articulação que não me dói (mas não sei qual é); as próprias notícias da rádio esbarram na minha existência calejada e raramente me parecem novidades.

Vale-nos que o envelhecimento é, em geral, um processo lento e subtil. As mudanças só se percebem bem quando, por acaso, nos cruzamos com uma imagem nossa de há vinte anos e mal reconhecemos, naquela exuberante juventude, o outro que fomos. Sucede algo parecido, embora num plano inverso, quando nos encontramos com gente essencial, após hiato de uma década ou pior: a mais voluptuosa mulher da nossa adolescência, só uns cinco anos mais velha que nós, deveio uma avó enorme, distraída e amarga, com ódio aos imigrantes, aos “jovens de hoje” e à celulite assassina; um dos ídolos futebolísticos dessa era (que talvez tenha seduzido aquela deusa dos nossos catorze anos) tornou-se alcoólico, perdeu cabelo e fortuna, divorciou-se, teve problemas com a polícia – e vive agora num lar, a uns cinquenta quilómetros do Estádio onde brilhou tanto.
Nada podemos contra o Tempo, na verdade. Excepto, digo eu, viver. Conto-vos à laia de exemplar demonstração deste apotegma, o que me sucedeu na última sexta-feira, à noite, na Lousã. Por iniciativa de dois Amigos, uns quarenta ex-jogadores do Atlético Mirandense reuniram-se para homenagear um homem que, na segunda metade do século XX, foi presidente daquele cube. À volta do senhor Aires, que fez oitenta anos nesse dia vinte e um de Outubro, convivemos alegremente por quatro horas ou mais. Revivemos episódios trágicos ou hilariantes; soubemos de doenças, golpes de sorte, emigrações (para o estrangeiro e para a eternidade), filhos & netos, divórcios; partilhámos alguns sonhos, indignações, amarguras. Dou por mim a olhar melancolicamente à volta - como se fosse, por um instante, o cameraman do filme O Caçador (de Michael Cimino, 1978): em slow motion, com fundo musical de Stanley Myers, reparo nas barrigas, nas carecas, nas cãs, nas rugas, na reumática lentidão de alguns gestos. E, de repente, já em velocidade normal, sou parte da acção, entro no ruído amável das gargalhadas, na ressuscitada juventude dos meus companheiros. Um deles desafia-me, pela enésima vez, a pôr em livro as nossas histórias do futebol. Outro corrobora-o gravemente, como num aviso:
- O livro, sim, para as coisas ficarem registadas. Porque tudo passa, Joaquim Jorge!
Invadido por uma momentânea (e estranha) felicidade, eu corrijo-o:
- Continua. Tudo continua, pá.

Coimbra, 22 de Outubro de 2016.
Joaquim Jorge Carvalho
[Esta crónica foi publicada no semanário O Ribatejo, edição de 27-10-2016.]

domingo, 23 de outubro de 2016

Carta aos Filhos imortais por enquanto



Sabei que os vossos Pais
Foram já em sua hora
Poderosos, imortais
Comos vos sentis agora.

Sabei que no passado

Eles eram o futuro –
Novos, em estado
Lindo e puro.

Antes de o cabelo embranquecer
Das carecas e barrigas colossais
Da geral dor de envelhecer

Sabei que os vossos pais
Na hora de assim ser
Eram, como vós, imortais.

Coimbra, 22-10-2016.
Joaquim Jorge Carvalho
[Texto escrito na madrugada seguinte ao jantar de homenagem ao Presidente Aires (no dia do seu 80º aniversário), com os meus companheiros de Mirandense.]