Bússola do Muito Mar

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Número de Ondas

domingo, 26 de março de 2017

ZONA DE PERECÍVEIS (80)


 
Relógio de pulso
 
A minha primeira crónica da Primavera de 2017 apareceu-me ao entardecer. Vi-a atravessar a rua, sem ainda a reconhecer, entrar na pastelaria e vir até à mesa do meu chá vespertino. Cumprimentou-me. Hesitei. Desbloqueou-me a memória dizendo o seu nome (vamos imaginar que é Florência), e também a turma que, há uns quinze anos, fora sua e minha.
No 5.º e no 6.º ano de escolaridade, ela fora oficialmente uma jovem com NEE (Necessidades Educativas Especiais), tendo direito a tratamento pedagógico diferenciado. Mas a legislação mudou, entretanto, e as suas dificuldades deixaram de ser “suficientes” para a integrar na tal lista de alunos com direito a discriminação positiva. A Escola, à falta de melhor alternativa, optou por recomendar a menina para um CEF (Curso de Educação e Formação).
Fui seu professor de Francês nesse específico contexto. Percebi as evidentes dificuldades da Florência em matéria de aprendizagem dos conceitos mais complexos, de aplicação dos conhecimentos (mal) adquiridos, de autonomia na realização da maioria das tarefas propostas. Mas também se lhe notava, a léguas, a alegria esfusiante de viver, a frescura dos desabafos, a espontaneidade do riso ou da momentânea fúria, a teimosa esperança num futuro radioso.
Certa manhã, eu tentava ensinar a turma a dizer as horas en français. Dei conta do embaraço da Florência desde o início da aula. Tentei, com exemplos repetidos, obter dela uma resposta satisfatória (por mim, claro, mas sobretudo por si). E dela nada, senão um esgar de desespero. A dado momento, após desenhar um relógio no quadro, com os ponteiros a indicar talvez as seis e trinta, desafiei-a a dizer que horas eram em português. Também nesse caso, nada. Pior: passei a notar-lhe nos olhos uma espécie de fúria.
Estás zangada comigo, Florência?”, perguntei. Ela deve ter tido tanta pena de mim que, num murmúrio, decidiu explicar-me o que se passava. E era isto: “Ó sôtor, eu nunca aprendi as horas!
Impedi os risinhos dos outros e assegurei-lhe (com estas ou outras palavras) que era uma honra podermos ensiná-la a ver e a dizer as horas, porque isso nos garantia, na sua história de vida, a inesquecibilidade. E, sim, de modo claro, sereno, paciente, eu e os colegas da Florência ensinámo-la.
Já antes desse dia ela usava relógio no seu pulso fino de menina. Mas que alegria, imagino, deverá ter sido, para si, olhar para os ponteiros correndo no aparelho e dizer aos pais, nessa noite, que horas eram!
Falei com a Florência-mulher por poucos minutos. Ela estava de férias em Portugal até ao final da semana e viera à pastelaria buscar pão. Trazia uma irrequieta criança ao colo. “É teu?”, perguntei. “É. É uma menina. O meu mais velho está em casa da minha sogra.” Depois, disse-me que estava na Suíça com o marido há já oito anos, que já se desenrascava a falar alemão com os clientes do restaurante onde trabalhava, que estava bem, graças a Deus.
Subitamente, olhou para o pulso, fez uma cara meio aflita, meio divertida, e declarou que tinha de se despachar. “O meu marido ficou de me esperar lá em baixo, nas bombas de gasolina. Adeus, sôtor!
Adeus, Florência. Vai à tua vida. Não há tempo a perder.
 
Coimbra, 19 de Março de 2017.
Joaquim Jorge Carvalho
[Esta crónica foi publicada no semanário O Ribatejo, edição de 24-03-2017.]

sábado, 18 de março de 2017

ZONA DE PERECÍVEIS (79)



Breviário da gratidão

Em 1979, eu tinha 16 anos e cursava o 11.º ano na prestigiada Escola Secundária José Falcão. Antes de ali chegar, estudara até ao 9.º ano na Escola Rainha Santa Isabel, ali à Pedrulha, na periferia da cidade. Como eu, os meus colegas eram filhos de agricultores, operários, humildes empregados de comércio. Por ter sido, até à data, tão bom aluno, calhou-me depois, na nova-vetusta-chique Escola, ficar na turma A do 10.º ano, eleito para uma espécie de (oficiosa) selecção que, em muitos estabelecimentos de ensino, era frequente fazer-se. 
Estranhei quase tudo: os modos afectados das meninas, a distância dos professores, as roupas de marca, o indisfarçado desprezo a que me votavam os rapazes (filhos, em geral, de gente importante e abastada). Salvou-me da absoluta infelicidade uma razoável notoriedade conquistada à custa dos resultados escolares e do futebol (eu era um momentâneo craque juvenil do União de Coimbra).
Quando surgiu a possibilidade de uma viagem de finalistas ao Algarve, com estadia de uma semana, não me entusiasmei. Para além do desamor pela Escola, havia o pormenor maior dos treinos e dos jogos que eu perderia. Mas um colega da Académica convenceu-me, lembrando-me que poderíamos treinar “lá”. De modo que falei com o treinador, o mister Pinho, e ele – embora criticando a oportunidade do evento – autorizou-me a inscrição. Acrescentou até que um aluno assim, “exemplar”, merecia bem este prémio.
Faltava só falar com a minha família – e pagar. Não tenho exactamente presente o preço, mas deveria andar pelos três contos (hoje, quinze euros). Ora, foi esta circunstância a pôr ali um travão cínico ao sonho de momento. Percebi que aquela importância era, para o meu pobre agregado, excessiva. O meu Pai, contudo, optou por dizer apenas que era muito dinheiro, que se ia ver, que não tivesse muitas ilusões.
Ao longo das duas semanas seguintes, fui-lhe perguntando se sempre iria ou não, porque (repetia) a directora de turma queria ter a lista completa de inscritos. O meu Pai tartamudeava, insistia que era quase impossível, que esperasse. O pior para si, creio, foi eu entretanto ter marcado um grande golo no campo da Arregaça e dar-lhe a assinar, em certa manhã, o teste de Português com um maravilhoso “Muito Bom” chapado no cabeçalho.
Veio, nesta narrativa neo-realista, o fim-de-semana anterior à 3ª Feira final, data-limite para entregar o dinheiro da inscrição, ou – como ia sendo tão provável – declarar a minha desistência (alegadamente por “razões familiares”). O meu Pai foi comigo, nesse Sábado, à sala de bingo do União de Coimbra. Aí pelas onze horas da noite, gritou “Bingo!” tão alto que toda a gente à volta se assustou. O prémio foi, talvez, de uns seis contos (trinta euros). Vi-o fazer mentalmente contas à vida (gasolina, refeições, água ou luz), guardar um conto e quinhentos para si, e enfim entregar-me um grosso maço de notas. “Toma”, disse, “paga a viagem e guarda o resto para gastares lá.”
Agradeci-lho num murmúrio. Apetecia-me até abraçá-lo, mas não tínhamos suficiente à-vontade para tamanha expansão. À hora em que parti para o Algarve, ele não estava. Deixei-lhe um papel sobre a mesinha-de-cabeceira dizendo-lhe que nunca me esqueceria daquela oferta. Contra a morte, ainda hoje lhe agradeço. Na maioria das vezes, por escrito.

Vila Real, 12 de Março de 2017.
Joaquim Jorge Carvalho
[Esta crónica foi publicada no semanário O Ribatejo, edição de 16-03-2017.)

domingo, 12 de março de 2017

ZONA DE PERECÍVEIS (78)



O deserto visto da Escola

Os maiores inimigos da Escola (em particular, da Escola pública) são alguns corvos salazarentos, que por sua natureza odeiam a democratização do conhecimento, bem como alguns (não poucos) pardais porreiristas, que por preguiça ou ideologia barata se dão mal com a tutelar exigência e odeiam a ideia do destaque individual através do esforço e do sacrifício.
Estão errados os que explicam os problemas da Escola unicamente à luz da sua democratização, no pressuposto de que o fenómeno massificador é incompatível com a busca da excelência. Falham igualmente os que vêem no amolecimento da exigência e do rigor escolares a solução para o desinteresse e o insucesso dos alunos.
Ponto de ordem: não entendo que, sobre os deveres de ensinar e de aprender, haja sequer espaço para debate. Os currículos existentes (fruto, supostamente, de um estudo rigoroso, de uma análise cabal e, enfim, de uma responsável fundamentação cultural, pedagógica, legal) são para se cumprir, ponto final. Tão-pouco me parece pertinente equacionar um regresso ao passado, que reduzisse a Escola à cartilha fascista, assente na apreensão/acumulação/reprodução, pelos alunos, de conhecimentos, sem neles se potenciar o espírito crítico, o valor da descoberta, a criatividade e a visão compreensiva e globalizante dos saberes.
A discussão que vale mesmo a pena fazer-se, hoje, é sobre os princípios e os valores a defender-ensinar-praticar-viver no universo escolar. A Escola deve estar aberta ao Presente, à comunidade, à economia, à modernidade? Sim, mas não pode, em meu entender, tornar-se numa Maria-vai-com-as-outras. A sua própria sobrevivência, como espaço decente (probo, virtuoso, democrático, justo, solidário), depende do grau de resistência que nela exista face à sujidade mundanal. Não se trata, em boa verdade, de fechar a Escola ao exterior; trata-se de a defender das agressões externas a que está sujeita - degradação dos relacionamentos interpessoais, violência selvagem, conspurcação da Língua (estropiação da gramática, empobrecimento do vocabulário, desprezo da elegância falante).
Problema óbvio: como obrigar os alunos, habituados à vida “lá de fora”, a frequentar uma Escola cujas regras fundamentais são tão singulares, tão distintas do lodo cínico que é o resto do mundo?
Com triste frequência, muitos professores - ora revoltados, ora resignados - queixam-se de a Escola nada significar, hoje, para os jovens. E de, por isso, o trabalho docente se assemelhar a “pregar no deserto”. Eu creio, ainda assim, que não há outro caminho senão continuar a pregação. Na obra-prima de Saint-Exupéry, O Principezinho, fica claro que o encanto de cada deserto é justamente a possibilidade de, procurando bem, encontrarmos um poço e nele saciarmos a nossa sede.
Na Escola e na vida em geral, é preciso nunca desistirmos da água.

Vila Real, 07 de Março de 2017.
Joaquim Jorge Carvalho
[Esta crónica foi publicada no semanário O Ribatejo, edição de 10-03-2017.]

segunda-feira, 6 de março de 2017

ZONA DE PERECÍVEIS (77)


Recado do Céu


A importância do Papa, no contexto político e cultural do planeta, tem variado de acordo com a interpretação que cada sumo pontífice faz do cargo. Na maior parte das vezes, a voz desta eminência católica adapta-se confortavelmente ao statu quo, observando um prudentíssimo respeito (ou temor) pelos estados mais poderosos e pelas instituições mais abastadas. Quando auto-votado à qualidade de peça meramente decorativa, o Papa evita a agitação das águas e goza, em geral, da simpática condescendência ou do asséptico apreço de líderes políticos, empresários milionários e clérigos de carreira.
Sucedeu que, em 2013, subiu à cadeira de Pedro um argentino invulgar, que não abdicou, após a eleição, da sua mais crua e natural humanidade. O mundo dos interesses & protocolos instalados, do verniz hipócrita e da diplomacia cínica vai-se espantando, com frequência, perante atitudes inesperadas de Francisco: umas vezes, trata-se de um impulsivo abraço a um doente ou de um telefonema improvável a uma anónima idosa (de Portugal ou das Américas); outras vezes, a coisa é mais perigosa – e acontecem discursos desempoeirados sobre xenofobia, racismo, pedofilia, luxos obscenos, pena de morte, indiferença perante a fome e a exploração.
O último episódio conhecido deu-se há poucos dias. Soube dele pelo JN (edição de 24-02-2017, página 31). Durante uma missa, a que presidiu no dia 23 de Fevereiro, na sua residência de Casa Santa Marta, o Papa Francisco, à pergunta (retórica) “O que é um escândalo?”, respondeu: “É dizer uma coisa e fazer outra, é a vida dupla. Eu sou muito católico, vou sempre à missa, pertenço a esta ou àquela associação, mas a minha vida não é cristã, não pago com justiça aos meus empregados, aproveito-me das pessoas, faço negócios sujos. [...] Muitos católicos são assim e por isso causam escândalo. [...] Quantas vezes ouvimos, todos nós, no nosso bairro e noutras partes: para ser um católico como esse, o melhor era ser ateu? É esse o escândalo. Destrói-nos, deita-nos por terra.”
A  etimologia ensina-nos que “pontífice” deriva de “ponte” – e a ponte, neste caso, significa o caminho suspenso entre a Terra e o (simbólico) Céu. A esta luz, consola-me pensar no desassossego dos grandes administradores com salários de milhões, dos presidentes amadores de muros e deportações, dos corruptos da justiça, da economia & finanças e do desporto, dos hipócritas em geral, quando ouvem a autoridade de serviço, reportando uma apóstrofe de Deus, dizer-lhes: “Ó gente sem alma e sem escrúpulos, vós não prestais! Nenhum dinheiro, nenhum poder, nenhuma fama vos esconde desta verdade indiscutível e última: nada valeis! Não prestais!
Das palavras de Francisco, mesmo a quem não tem fé, apetece dizer que são santas.

Vila Real, 26 de Fevereiro de 2017.
Joaquim Jorge Carvalho
[Esta crónica foi publicada no semanário O Ribatejo, edição de 02-03-2017.]

terça-feira, 28 de fevereiro de 2017

ZONA DE PERECÍVEIS (76)


Miró à recepção

À ideia de uma visita de estudo, o pavor toma conta de mim. Assusta-me de morte a possibilidade de um acidente, de um desaparecimento, de um rapto envolvendo alunos. Nos piores pesadelos, uma multidão de pais grita-me, em fero uníssono: “Que estava lá você a fazer, seu incompetente?!” (E esta é a versão mais bondosa.)
Mas, na balança da opção certa, entre os meus medos demenciais e o benefício da actividade, esta ganha àqueles por claríssima goleada. De modo que lá fui com os alunos do 9.º ano ao Porto.
De manhã, assistimos à representação do Auto da Barca do Inferno. A sensibilidade e a graça do, para sempre vivo, António Feio ofereceu-nos um espectáculo maravilhoso. Sem desvirtuar o essencial do texto vicentino, a encenação acrescentou-lhe dinâmica, humor e sentidos. Do ponto de vista de um professor de Português, é talvez a melhor encenação de todas – e eu já vi umas sete ou oito propostas, em vários pontos do país.
À tarde, fomos à Fundação de Serralves, onde está patente, até Junho, uma exposição com trabalhos de Miró, intitulada “Materialidade e metamorfose”. Foi curioso dar conta da estranheza (ora discreta e envergonhada, ora evidente e ruidosa) que os alunos sentiam. “Isto até eu fazia, e mais baratinho!”, asseveravam uns; “Se uma manta com dois baldes colados é arte, vou ali e já venho!”, diziam outros. “Pagámos três euros por isto, sôtor?”, indignavam-se quase todos.
Os guias de serviço bem tentaram explicar os méritos do artista catalão. Convidaram os alunos a esquecer o que entendiam, tradicionalmente, por arte e a abrir a sua atenção (e o seu gosto) a outras possibilidades. Mas os jovens, sem nunca caírem na má educação, encolheram os ombros, de forma geral, ao desafio ali feito.
Já na nossa Escola, no dia seguinte, falámos do assunto. Sincero admirador de Miró, optei por falar-lhes da estética da recepção. Revimos a ideia de código comum, que emissor e receptor devem dominar para se entenderem (mesmo no plano mais elementar da comunicação verbal e não verbal). Uma aluna lembrava-se de ter ouvido à sua guia que o número 2 ao lado de um olho significava, em certo desenho, que a imagem “tinha” dois olhos, apesar de se ver um único. Outra aluna lembrava-se de ter ouvido que uma aranha, nas composições de Miró, simbolizava a mulher. Finalmente, um rapaz lembrava-se de uma imagem, feita sobretudo de linhas, que parecia uma pessoa a correr. Essa figura apresentava, na região da (provável) cintura, uma aranha e tinha uma cabeça que, no dizer de outro discente, parecia o sexo masculino.
Levámos alguns minutos neste jogo (afinal divertido) da descodificação. Não lhes foi difícil sugerir, sorrindo, que aquilo, na tela, era talvez uma mulher a pensar em sexo. E concluímos, sem grandes explicações, que a arte era um diálogo entre o artista e o espectador (ou o leitor, ou o ouvinte). E que o significado de um dado objecto não tinha de ser sempre o mesmo, pois dependia da sensibilidade, da inteligência, da natureza e das emoções de cada receptor. Coisa fatalmente individual, pois, e subjectiva.
Entendo que o desenho presente na segunda sala da exposição representava Miró a pensar numa mulher a pensar em sexo. O leitor de Muito Mar poderá imaginá-lo e dizê-lo como o cronista a pensar em Miró a pensar numa mulher a pensar em sexo. Mas não está livre de outrem achar que se trata de um leitor de Muito Mar a pensar no cronista a pensar em Miró a pensar numa mulher a pensar em sexo. Etc.

Ribeira de Pena, 19 de Fevereiro de 2017.
Joaquim Jorge Carvalho
[Uma versão desta crónica foi publicada no semanário O Ribatejo, edição de 23-02-2017.]

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

ZONA DE PERECÍVEIS (75)

 
 
Narrativa leve, breve & alegre
 
Além dos textos oferecidos pelos manuais de Português, os alunos têm ainda de ler obras integrais, no âmbito do que se convencionou chamar “Educação literária” (o nome é tão mau ou tão bom como outro qualquer). No caso do meu 7.ºA, já vamos no segundo livro – o primeiro foi O Cavaleiro da Dinamarca, de Sophia; o segundo, História de uma gaivota e do gato que a ensinou a voar, de Luis Sepúlveda.
A ideia de ler, com os alunos, um inteiro volume, ao longo de algumas semanas, parece-me profundamente virtuosa. A melhor forma de instituir-cultivar hábitos de leitura passa pelo mui singelo acto de ler. Por muito que alguns (muitos) alunos estranhem, assustados com o número de páginas, com a quietude do exercício, com a exigência de uma atenção prolongada, pode bem suceder que o gosto se lhes entranhe (para usar uma conhecida fórmula de Fernando Pessoa, à roda da coca-cola).
A meados de Janeiro, deitámo-nos à leitura da novela de Sepúlveda. Apercebi-me, em certa manhã, de um silêncio amável caindo sobre a aula. Nos rostos dos meninos, podia ver-se o sinal claro do encantamento e da curiosidade. Dessa vez, quando se ouviu o toque para sair, senti um quase-enfado, tão pouco habitual nesta iminência de liberdade. Na aula seguinte, uma aluna perguntou-me, assim que me viu no corredor, se íamos continuar a ler a história. Prometi-lhe que sim, se conseguíssemos cumprir, antes, o sumário essencial (leitura do mito de Aracne e exercícios com o discurso directo e indirecto). E voltámos, de facto, às peripécias do gato Zorbas, da gaivota Ditosa e do enciclopédico Sabetudo. Comecei, aliás, eu próprio a contagiar-me do enlevo discente, ao ponto de, nas duas aulas seguintes, ter dedicado a maior parte do tempo à visitação voraz do texto de Sepúlveda.
Na semana passada, só nos faltava ler três capítulos. Distribuí a leitura por todos os alunos e reservei o último capítulo para mim. (Eles gostam de me ouvir, creio, porque faço vozes distintas para cada personagem e acompanho cada situação com caretas e gestos teatrais.)
Quando se aproximava o final, que era o momento de sabermos se a gaivota conseguiria mesmo voar, eu parei subitamente e dirigi-me ao computador da sala. A turma manifestou ruidoso desagrado pela interrupção. Pedi-lhes paciência, assegurando que a leitura seria retomada logo a seguir. Mas um aluno advertiu-me, angustiado: “Mas olhe que só faltam cinco minutos para tocar!”
Sosseguei-os: era tempo suficiente. O que fiz foi procurar no Youtube o tema “Ave Maria”, de Schubert, e usar esta peça como ilustração musical do crescendo da história, rumo ao desenlace glorioso e apetecido – o voo da Ditosa.
Antes de a aula terminar, no seguimento de uma pérola literária que o narrador enuncia (“Só voa quem está disposto a voar”), a andorinha voou enfim. E os alunos desataram a bater palmas, como se festejassem um golo ou a conclusão de um espectáculo admirável.
Brinquei: “Escusam de me aplaudir…”
Uma menina explicou-me: “As palmas são para a gaivota.” Mas eu fiquei feliz na mesma. Como se as palmas, senhores, fossem também para mim.

Vila Real, 11 de Fevereiro de 2017.
Joaquim Jorge Carvalho
[esta crónica foi publicada no semanário O Ribatejo, edição de 16-02-2017.]

terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

História contada por ti


Ao princípio há rios e montes
Na tua história sobre mim.
Por favor, amor, não me contes
O fim!

Vila Real, 12 de Fevereiro de 2017.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.]genial.guru.com.]

ZONA DE PERECÍVEIS (75)



 Mulheres
 
Foi à minha Mãe que primeiramente ouvi a expressão “Mau, Maria”, que era (na sua boca) uma espécie de formal advertência, antes do grito ou do chinelo terminal. Disse-me o meu avô, seu pai, não sei se brincando, que a primeira pessoa a pronunciar essa frase fora José, pai terreno de Cristo, quando Maria lhe falou da gravidez milagrosa.
Ouvi o mesmo dito a meu Pai (“Mau, Maria”) durante uma conversa domingueira, ao almoço, à roda do tema “os direitos da Mulher”. Foi nessa ocasião também que o meu tio Eduardo se saiu com esta: “Os direitos da Mulher são uma vassoura na mão e a boca colada com fita isoladora.”
Creio ter sido em Camilo que li uma máxima – ou mínima – de sentido semelhante: “Deus nos livre de mula que faz him e de mulher que sabe latim”. Esta ideia de a cultura ser prejudicial, na verdade, estendeu-se por séculos a outros grupos, etnias e classes sociais, na avisada visão de quem mandava: o statu quo explorador era mais fácil de manter no sossego da ignorância dos explorados.
Cresci entre operários e pequenos burgueses. Não testemunhei graves atropelos à dignidade da Mulher, que no bairro da minha meninice era vista, em geral, como companheira de sofrimentos e sacrifícios, ou como cúmplice de revoltas e de sonhos. Mas lembro-me de, naquele tempo, durante uma missa, quando o padre falava do aparecimento de Eva, “a primeira mulher na Terra”, um senhor distinto, amigo de meu Pai, ter arrancado sorrisos à família com um simples murmúrio: “Coitado do Adão…” E o meu primo, estudante de mecânica, na esplanada do Café Lusa Nova, quando se falava da fama conversadora de algumas senhoras, perguntou-nos: “Sabem por que motivo é que foram mulheres os primeiros seres a ver Cristo ressuscitado?” Dissemos que não sabíamos, e ele explicou: “Foi para a notícia se espalhar mais depressa.”
A formatação das pessoas faz-se lentamente, subtilmente, insidiosamente. Apesar das leis, das campanhas mediáticas, do trabalho da Escola moderna – a noção de igualdade entre géneros esbarra ainda num muro milenar de preconceito, de desconfiança, de pouco secreto desprezo. E muito disto desagua em discriminação no acesso à profissão, no exercício do poder e na retribuição salarial, ou em violência machista nos territórios do namoro e do casamento. Digo-vos: aquela piadola do poeta Jorge de Aguiar, fabricada já no século XV (“Lembra-te que são mulheres”), perdeu toda a graça desde o nascimento da minha Filha. 
A minha vida está cheia de mulheres admiráveis, extraordinárias. A minha Avó cuidava da casa, tratava dos filhos e, quando o dinheiro faltava, fazia à pressa uns chinelos de pano para vender e, com o dinheiro, comprar algum peixe ou alguma carne, assim garantindo a urgente refeição do agregado. Outras vezes, fazia gelados de café e, tostão a tostão, arranjava dinheiro para o leite que faltava tanto aos mais pequenos. E amava devotadamente o marido, apesar de o meu avô ser uma pessoa difícil de amar. Era a pessoa mais bondosa do país da minha infância. Morreu com problemas de coração (talvez por ser demasiado grande para um peito tão pequenino). 
A minha Mãe herdou muito desse carácter bondoso e generoso da progenitora. Só de vê-la, era-me fácil entender o significado (misterioso para muitos) da santidade. Por isso, aliás, me tem parecido lógico que, com a idade, o seu aspecto devenha cada vez menos físico, menos corpóreo, menos terreno – caminhando para a transparência (ou invisibilidade) desse conceito mais vaporoso de todos, o Bem.
Há ainda, entre tantos exemplos, a minha Mulher, que me foi ficando, mais do que cúmplice, consubstancial, um fenómeno de terna cosmogonia, creio, não apenas romântico, não exactamente biológico. E há a minha Filha, cuja natureza livre e individual não cessa de me espantar. Falo de a ter a visto sair do berço, ler, ter opinião, divergir da tutela paternal-maternal, ser uma mulher (uma Pessoa) inteligente e dona do seu nariz, com sonhos e projectos próprios, seus. 
Para a minha avó Adília, e para a minha avó Emília, e para a minha Mãe, e para a minha Mulher, e para a minha Filha (e para a minha sogra, e a minha irmã, e as minhas tias, e as minhas cunhadas, e as minhas professoras, e as minhas colegas, e as mulheres de todos os tempos), deixo aqui um beijo em forma de crónica. É pouco, eu sei, mas é do coração – e, como fica escrito, é para sempre.

Coimbra, 04 de Fevereiro de 2017.
Joaquim Jorge Carvalho
[Uma versão mais magra desta crónica foi publicada no semanário O Ribatejo, edição de 09-02-2017.]

terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

ZONA DE PERECÍVEIS (73)



Espécie de Pedro
 
1. Imagino Pedro, pouco tempo depois da morte do Mestre, a vaguear por Roma, decerto cansado, talvez com fome, dividido entre o espanto pelo luxo e pela miséria cosmopolitas da sede do império e a indiferença ou animosidade dos transeuntes. A multidão parecer-lhe-ia excessiva para ruas tão pequenas e estreitas, a vozearia tornaria improváveis quaisquer diálogos, a celeridade dos passos gentios impediria o exercício civilizado da atenção.
Imagino Pedro em seu susto profundo – ter uma missão e achá-la, quem sabe, impossível. Como pregar a vinda (e a ressurreição) do Salvador num contexto tão avesso à abertura perante o estrangeiro e suas extraordinárias novas? Como obter deles a bondade de algum cantinho para a peroração, um suficiente silêncio para o discurso se ouvir, uma pausa quieta para o espírito se alimentar?
Do ponto de vista da história das religiões, a viagem de Pedro terá sido um sucesso. E não trago aqui, notai, questões de fé ou de avaliação comparativa dos méritos do cristianismo. Falo de um homem com uma missão fundada na palavra, uma empresa baseada na comunicação persuasiva e eficaz (capaz, digamos, de acender sentidos, de acordar simpatias e cumplicidades entre orador e público).
2. Comecei, na semana passada, a lecionar Os Lusíadas, de Luís de Camões, aos alunos do 9.º ano de escolaridade. É preciso que eles percebam a importância de Luís Vaz na literatura portuguesa e universal; que entendam os planos da epopeia (a narrativa da viagem de Gama, a História de Portugal, a intervenção fantasiosa dos deuses, os comentários felinos do Poeta); que admirem a coragem dos marinheiros e se riam do pícaro pânico de Veloso; que se deliciem com o génio poético de Camões; e, enfim, que se acrescentem de uma cultura literária susceptível de os tornar mais portugueses, isto é, mais cúmplices uns dos outros (dos que estão vivos, dos que já morreram e dos que ainda hão-de nascer).
A minha Roma tem também problemas de espaço. Multidões e objectos atrapalham-me o movimento vital. Televisão, computadores, telemóveis e tablets são um ruído opressor e quase impeditivo da conversa. A existência é feita de pressa brutal e muitas vezes caótica, sem folgas para reflectir ou para contemplar o mundo. Como conseguir que me ouçam?
3. Eu tenho uma missão. É difícil, não haja dúvida. Mas é igualmente amada e formosa: sou, por estes dias, apóstolo de Luís Vaz e da Língua Portuguesa.
Imagina, Pedro.
 
Vila Real, 29 de Janeiro de 2017.
Joaquim Jorge Carvalho
[Esta crónica foi publicada no semanário O Ribatejo, edição de 02-02-2017.]

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

Circunstancial



As flores que nasceram antes de mim não me dizem respeito: não cheguei a espantar-me com a sua beleza, nem a embriagar-me do seu perfume.
As flores vindouras não me dizem respeito, exactamente pelas razões que aduzi para as passadas.
Mas as do meu Presente são minhas e não as dispenso. Não sou inteiramente eu sem o que delas (e nelas) vejo, sem a sua fragrância que me incendeia os sentidos, sem o aveludado céu de si por onde me roço.
Só involuntariamente venero as flores de ontem e as de amanhã: é quando trato das flores de hoje, celebrando-as e perpetuando-as com o meu corpo passageiro e o meu amor circunstancial.

Vila Real, 30 de Janeiro de 2017.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.vida-rural.pt.]

Só (sumário elementar)



Só custa a vida enquanto estamos vivos.
Só vale a pena a vida enquanto vivos estamos.
O que sofremos ou ganhamos
São só alguns instantes fugitivos.


Vila Real, 30 de Janeiro de 2017.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.mat-absolutamente.net.]

sexta-feira, 27 de janeiro de 2017

ZONA DE PERECÍVEIS (72)



Elogio da rotina
 
Se o prazer da rotina for exclusivo dos velhos (do que eu duvido), é porque sou idoso desde a mais tenra infância. Tal não significa eu gostar de tudo quanto, ao longo dos rotineiros dias, ocorre. Aos seis anos, já me custava muito acordar cedo, já me doía profundamente a ideia de trabalhos de casa (cópias, contas), já me era um suplício ir ao supermercado da dona Cilinha, pelas seis da tarde, comprar pão, ovos, fruta. O que havia de prazer na rotina talvez nem eu o percebesse nessa meninice dourada: era uma espécie de eternidade, fundada na renovada repetição de tudo, que representava (digo-o agora) um Presente para sempre. 
Aí por 1983, morreu-nos uma tia muito velhinha, que vivia numa aldeia chamada Lavacolhos, irmã da mãe da minha Mãe. Apercebi-me, à noite, de um murmúrio triste, que se estendia da minha casa à de tios, primos, avós, e às casas de outros familiares espalhados pelo país. Impressionou-me o negrume das indumentárias que homens e mulheres vestiam no dia seguinte. O encontro de todos deu-se num Café próximo de minha casa, havendo exclamações de quem não se revia há muito tempo, e risadas, e brindes com cerveja, vinho e vermute, e chocolates para a miudagem. Parecia uma festa, pensei, mas não era senão a preparação da viagem rodoviária, em familiar frota, rumo ao funeral.
A boa disposição desapareceu à chegada à aldeia: gritos, suspiros, silêncios pesados substituíram as anedotas do tio Vítor ou os atrevimentos femeeiros do meu Pai. E vi, de chofre, o caixão aberto – uma velhinha serena, de mãos cruzadas sobre o peito, dormindo eternamente, na mais doce indiferença pelo choro à volta. Custou-me muito entender a irredutibilidade daquele estado, não apenas o facto de aquela senhora (que eu já vira falar e sorrir, pelo menos uma vez) não mais existir, mas a ideia de toda a gente estar destinada àquela mesmíssima terminação.
Passei a amar ainda mais desesperadamente a rotina em que morava. Era-me desconfortável a circunstância de todos fazermos anos e de passarmos de classe (ou de mudarmos de escola). Não suportava o fim de uma série televisiva (Espaço 1999, Bonanza, Casei Com Uma Feiticeira), a reforma de um jogador do Sporting, a mudança de emprego do Pai. Queria profundamente que nada mudasse – e murmurei, certa noite, aos miúdos meus contemporâneos, no recato inseguro das escadas do prédio: “O que mais desejo é que os meus pais nunca morram.”
Tenho aperfeiçoado, ao longo de décadas, este culto da rotina, aproveitando dela o que tem de melhor: de manhã, pago-me a dor de acordar com o prazer do banho; adio o trabalho da tarde, à hora de almoço, com jornais ou livros, degustando café e às vezes um bolinho; ensino os meus alunos como se aprendesse (e vice-versa), alimentando-me, enquanto envelheço, daquela juventude eterna de todas as turmas; falo com as pessoas que amo tantas vezes quanto posso; ao entardecer, compro diariamente o pão e a fruta, beijo a mulher, e depois janto com a satisfação de um milionário em núpcias num hotel paradisíaco; já refastelado, à lareira, leio um romance de Aquilino (ou O Ribatejo); televejo um pouco de Family Guy ou de Uma Família Muito Moderna, na Fox Comedy; tomo os meus prudentes comprimidos (para a diabetes e para o colesterol); e enfim durmo o sono tranquilo das vidas remediadas e honestas.
É verdade que, nos intervalos da melodia desta vida linda, há acidentes, interrupções, ruído, abalos. Por exemplo, o telefone toca e já não há o Pai vivo. Mas, a cada crise, procuramos refazer-nos, recuperar o equilíbrio, tentar que a vida regresse a alguma normalidade. À rotina.
A rotina, como eu a vejo, é a eternidade possível.
 
Coimbra, 21 de Janeiro de 2017.
Joaquim Jorge Carvalho
[Esta crónica foi publicada no semanário O Ribatejo, edição de 25-01-2017.]
 

terça-feira, 24 de janeiro de 2017

ZONA DE PERECÍVEIS (71)





Ao encontro de Aquilino
 
Numa carta ao dr. Brito Camacho, datada de 1926, em jeito de nota prefacial para o livro Andam faunos pelo bosque, Aquilino Ribeiro tece algumas (preciosíssimas) considerações sobre o ofício de escritor. 
Entre diversas pérolas que ali nos são oferecidas, destaco as afirmações acerca do trabalho de revisão. Defende Aquilino, como Torga, que se trata de uma tarefa incessante: “Não julgo um livro produto estático na carreira do profissional das letras. Antes o suponho o que o jardim é para o jardineiro e a lição para o didáctico. Ano por ano, um e outro enxertam, podam, corrigem. Edição por edição, o escritor, sequioso de aperfeiçoamento, pode trepar um degrau nesta dolorosa e infinita escada de Jacob que é a arte literária. Numa palavra, um livro para mim é como as pedras que Deucalião atirava para trás das costas e se convertiam em almas; podem desamparar-se almas?
Toca-me também o que afirma sobre a independência do trabalho criador: “O que fiz é honrado: não plagiei; não extorqui a jóia mais humilde ao mais invulgar dos escritores; não cedi às correntes que hoje são cortejos triunfais, amanhã depenadas Danças da Bica. Perdurei o que sou por temperamento, e adquiri por educação e algum estudo. Confesso essa soberba. Escrevi com o meu sangue; nunca molhei a pena na pia da água benta, nem nos lavabos perfumados das viscondessas.
Finalmente, impressiona-me o sumário crítico que faz da sociedade do seu (nosso também) tempo: “Compu-lo [ao livro] com a linguagem que, juvante Deo, amanhã me há-de servir para pintar o que por aí abunda: quebra-esquinas, banqueiros que vendem a alma e venderiam a pátria, se fosse veniaga ao seu alcance, mulheres que arremedeiam a francesa na moda e na moral, sábios balofos, políticos sem vergonha nem ideias, e uma que outra pessoa de bem.
Tenho andado a reler Aquilino Ribeiro (A casa grande de Romarigães, O homem que matou o Diabo, Andam faunos pelos bosques, Quando os lobos uivam, Batalha sem fim), confirmando que se trata de um escritor maior. Abençoado Amigo Paulo Pinto, devoto aquiliniano, mui exemplar apóstolo do (seu) autor preferido! À sua boleia me achei viajante por literatura tão vivíssima e tão portuguesíssima. E é um prazer, com a madurez dos cinquenta anos (upa, upa), dar-lhe razão e devir cúmplice do seu credo.
Razão tinha igualmente o meu saudoso professor Gouveia, docente de Português na Escola Rainha Santa Isabel (Pedrulha, Coimbra), aí por 1975, quando nos assegurava, enquanto líamos o Romance da Raposa, que o senhor Aquilino Ribeiro era uma espécie de Camilo do século XX.
E do século XXI, digo agora eu.
 
Ribeira de Pena, 15-01-2017.
Joaquim Jorge Carvalho

[Esta crónica foi publicada no semanário O Ribatejo, ed. de 19-01-2017.]

sábado, 14 de janeiro de 2017

ZONA DE PERECÍVEIS (70)





Mário Soares: contra os Catões, marchar, marchar

Custa sempre ao cronista a queda no tema mais previsível de todos – na circunstância, a morte de Mário Soares e a importância histórica de tal personalidade. Mas desta vez, confesso, nem sequer me esforcei para o evitar. Adiante.
Eu tinha 10 anos em 1974, quando nos chegou aquele dia belo e iniciático de Abril. Ao longo dos seguintes dias, meses, anos, beneficiei de um curso aceleradíssimo de Política, Economia e História. Soube o que era, afinal, o fascismo, o comunismo, a social-democracia, a pide, o Tarrafal, o colonialismo, a liberdade de associação-expressão-escolha. Muitos protagonistas daquele período passaram a fazer parte da minha linguagem diária – e, entre tantos, destacavam-se os de Otelo Saraiva de Carvalho, Salgueiro Maia, Mário Soares, Álvaro Cunhal, António de Spínola, Costa Gomes, Sá-Carneiro, Freitas do Amaral, Vasco Gonçalves, Ramalho Eanes, Melo Antunes, Dinis de Almeida, Rosa Coutinho. Etc.
Cresci com a convicção de que eu era “de esquerda”, por me parecer formosa e justa a exigência da redistribuição da riqueza de um país, a igualdade de oportunidades em matéria de saúde, educação e justiça, a cultura da solidariedade social. Ajudou o facto de ser filho de operários e vizinho da zona industrial de Coimbra, testemunha privilegiada de tantas lutas e manifestações populares.
Passei, nesta minha meninice democrática, pelo encantamento panfletário do comunismo e, aí pelos meus 12 anos, cheguei a afirmar-me “do MES - Movimento de Esquerda Socialista”. Mas a sobrevinda leitura de programas partidários, de jornais e de livros ajudou-me a perceber que em nenhum caso abdicaria da minha liberdade individual e de uma certa ideia de burguesa propriedade (não me entrava na cabeça a obrigatoriedade de ser o Estado, à frente dos descendentes familiares, a herdar o que um homem conseguisse com o seu trabalho). Finalmente, conquanto me parecesse essencial o papel do Estado na regulação da sociedade, desagradava-me a sua omnipresença tutelar, feroz e judicativa.
Mário Soares foi, durante muito tempo, uma amável referência do meu mundo. Ao contrário de outros compatriotas (que, já adultos, aparentemente não se deram conta de viver num regime fascista e, por isso, jamais se revoltaram), este homem sacrificou uma vida confortável à luta pela democracia. Pagou por tal o preço da perseguição, da prisão, da tortura e do exílio. Depois do 25 de Abril, ajudou a evitar os excessos revolucionários contra, por exemplo, a Igreja, e combateu a exclusão do Partido Comunista Português, integrando-o no sistema democrático. Quando se anunciava a possibilidade de novas ditaduras (de esquerda ou de direita), foi sempre dos primeiros a lutar pela liberdade, pela tolerância, pelo pluralismo.
Já reformado da política partidária, talvez mais livre do que nunca, deu-se ao luxo de ser radical e de radicalmente denunciar a agenda neoliberal de Passos & Associados, a deriva autoritária e cínica da Europa, a desumanidade de uma globalização esquecida das pessoas.
Tenho ignorado, com estóica paciência, a baba raivosa de jotinhas e ex-jotinhas da direita ignorante, que insultam, no cadeirão do Facebook, a memória de Soares. Pior: constato que até alguma esquerda também por aí liberta ventos de incompreensão e de ressabiamento venoso. Mas quero, desta tribuna livre de onde vos falo, celebrar o cidadão Mário Alberto Nobre Soares, o verdadeiro fundador político da nossa democracia.
De Fernando Pessoa, que bebia de mais e acreditava em horóscopos, o que me interessa é a sua literatura genial. De Soares, que não foi um santo de pau carunchoso, ficou-me o direito – inalienável e extensível à minha Filha e às gerações vindouras – da maiúscula Liberdade. Por muito que os Catões da vida gemam, esperneiem e espumem, isto não é herança de somenos.

Vila Real, 07 de Janeiro de 2017.
Joaquim Jorge Carvalho
[Esta crónica foi publicada no semanário O Ribatejo, edição de 12-01-2017.]

sexta-feira, 6 de janeiro de 2017

ZONA DE PERECÍVEIS (69)



 A generosidade explicada ao burguês

Caros leitores, deixai que erga, nesta madrugada ainda do novo ano, uma questão incómoda: até onde estais (estamos) dispostos a ir pela justiça, pela verdade, pelo Bem?
Há mais de vinte anos, numa conferência a que assisti, na Escola Secundária de Pombal, sobre a situação do povo timorense, sob o jugo – à época - da Indonésia, uma senhora fez-me (fez-nos) essa mesma pergunta. Era uma mulher baixinha, de gestos serenos e voz melodiosa, que perfumava o discurso com um misterioso sotaque, num Português cheio de distância e cumplicidade. Agradeceu o apoio luso à causa de Timor livre, os nossos cânticos, a nossa poesia, as nossas palavras de ordem nos corredores da escola ou nas ruas, o nosso dinheiro. Mas perguntou: “E se fosse preciso recolher uma família timorense fugida da repressão? Quem estava disposto a tal gesto?”
Houve ali um silêncio embaraçado. O meu (pareceu-me) era o que se ouvia melhor. Repercebi ali a minha burguesa covardia, o pânico de perder o conforto remediado da minha existência, a angústia de sair da doméstica rotina que secretamente busco desde sempre. Para maior vergonha deste que vos fala, alguns colegas e muitos alunos ainda gritaram que, sim, eram capazes de acolher nos seus lares os timorenses necessitados. Admirei-os (admiro-os), mas não fui capaz de os imitar.
Quase no final de 2016, antes de viajar para a consoada coimbrinha, conversei com uma colega sobre o significado da palavra “generosidade”. Ela saiu-se com esta: “As pessoas generosas são generosas porque sim.” E desenvolveu a ideia: “Porque, em dados momentos, acham que têm de fazer o que não pode deixar de ser feito. São generosas naturalmente.”
A este axioma tão pragmático acrescentou um exemplo. Ela própria, há cerca de oito anos, acolheu em casa três meninas, provindas de famílias disfuncionais. As três irmãs beneficiaram, pela primeira vez em suas tenras biografias, de um ambiente familiar saudável e digno. Tinham regras, roupa, refeições, banhos, carinho, paz. Impressionadas com aquela Mãe provisória, as senhoras da segurança social propuseram-lhe a adopção de uma das crianças. A minha colega hesitou, fez contas ao seu tempo e ao seu dinheiro, reflectiu (com a cabeça e sobretudo com o coração) – e acabou por ficar com as três. São as suas três filhas, como legitimamente diz. A mais velha já anda na universidade. Compreendei: o preço da opção é muito maior que todos os euros já gastos ou a gastar no futuro; é a obrigação para sempre contraída de eleger as três meninas como prioridade da sua existência, abdicando de outras hipóteses de bem-estar e de conforto (também legítimos, sublinho). E ela diz que não acha isto “generosidade”, como eu, espantado, lhe chamei.
Regresso à minha questão inaugural: até onde somos capazes de ir pelo Bem? 
E pela interrogação me fico, para não dar confiança a excessos masoquistas que me estraguem os dias. Feliz Ano Novo, amigos! 

Coimbra, 01 de Dezembro de 2017.
Joaquim Jorge Carvalho
[Esta crónica foi publicada no semanário O Ribatejo, edição de 05-12-2017.]