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Número de Ondas

quinta-feira, 12 de julho de 2018

ZONA DE PERECÍVEIS (144)



Condição de gladiador

A lógica das competições a eliminar – como é o caso dos campeonatos da Europa e do Mundo, na modalidade sagrada do futebol – compreende um pressuposto cruel: no final da fase de grupos, de 32 candidatos restam 16; depois, nos oitavos de final, de 16 restam 8; etc. Na final da competição, enfrentam-se duas equipas carregadas de sonhos, de pulsão épica, conscientes do cariz definitivo daquela oportunidade voadora. Sai-se dali herói & imortal, ou em versão morto-vivo, tresandando a falhanço, quiçá sujeito à piedadezinha condescendente ou a coisa pior. 
Depois de sofrer a derrota portuguesa às mãos do Uruguai e depois de assistir à eliminação da Espanha, da Dinamarca, do México e do Japão, confirmei que o reverso da glória de uns é a desmesurada tristeza de outros. Pelo meio, felizmente, há gestos de fair play que nos consolam e educam. Mas a minha simpatia (Europeu de 2016 à parte) vai invariavelmente para os que perdem, i.e. aqueles que experimentam, em determinados momentos, o fel da vida. 
Bem sei que o futebol é apenas um jogo. Bem sei que as derrotas e as vitórias, ali, são realidades de somenos quando comparadas com as verdadeiras tragédias – doenças, guerras, falecimentos, exploração, violência, pobreza, fome. Creio, contudo, que a natureza das lágrimas dos jogadores mexicanos, de uma formosa dinamarquesa ou de um menino espanhol, reagindo à derrota, é a mesma que verteriam noutras circunstâncias, por exemplo na leitura de um romance, no visionamento de um filme, no acto de escutar uma canção, num reencontro familiar, num funeral, durante uma epifania à mesa do Café. Porque somos, enquanto humanos, frágeis e magníficas vítimas da circunstância de pensar e de sentir. 
A memória, via cinema, traz-me os gladiadores que, no tempo dos Romanos, divertiam os espectadores com os seus combates mortais. Diziam, ao entrar para a arena: Ave Caesar, morituri te salutant (traduzo livremente: “Os que vão morrer, ó César, saúdam-te”). Isto é, a morte (nesse dia ou mais tarde) era uma premissa inerente à sua própria condição gladiadora. Fazia – e faz – parte do jogo. Em princípio, note-se, nenhuma equipa joga para perder. Nenhum jogador se demite de sonhar. Nenhum homem entra na competição sem a devida dose de ilusões. Mas o preço a pagar, mais cedo ou mais tarde, para os que perdem, é fatalmente alto. E sabemos bem como as desilusões são atropelamentos graves, que obrigam a recuperações quase sempre lentas e dolorosas. 
Não estou só a falar do Mundial da Rússia. Estou a falar da Vida. Dói-me saber que o Pepe, o Fonte, o Bruno Alves, o Quaresma e o Cristiano Ronaldo já são trintões (como, aliás, o Messi, o Iniesta, o Modric) – e que o seu fulgor tenderá a apagar-se em breve. Quem viver verá, talvez, como os deuses de hoje passarão de apolíneos gladiadores a obesos calvos, sujeitos ao reumatismo e às saudades. 
O futebol continua, claro. E, claro, a vida continua. Novos craques estão a despontar, há novas competições na calha, o presente é já o futuro a mostrar-se. Mestre João, meu tão saudoso sogro, fazia questão de, em qualquer festa, pôr toda a gente a cantar uma quadra que sempre me impressionou: “Primavera das flores / Como ela não há mais! / Ai, Primavera vai e volta sempre, / Ai, Mocidade já não volta mais!” Tem sido essa, na verdade, a melodia que preside a tudo quanto vejo-sinto-escrevo. 

Nota extra: Esta crónica foi a útima que concebi para O Ribatejo, em versão de papel. O timoneiro do semanário informou-me desse iminente fim do nosso jornal na sua dimensão tradicional, corpórea, natural. O último número saiu mesmo a 12-07-2018. Custa-me esse ocaso; conforta-me a ideia de que sobreviverá digitalmente. Não gosto destes tempos, porém. Temo que o papel da imprensa venha a degradar-se com o fim da imprensa de papel. Abraço solidário para todos quantos têm feito e lido o jornal. Gratidão reiterada ao Daniel Abrunheiro e ao Joaquim Duarte, que me trouxeram para este regaço digno e livre. 

Coimbra, 02 de Julho de 2018. 
Joaquim Jorge Carvalho 
[A imagem da última capa d’O Ribatejo em papel foi colhida, com a devida vénia, no sítio do jornal. A foto de Cristiano Ronaldo foi colhida, com a devida vénia, em https://www.sapo-pt-]

segunda-feira, 2 de julho de 2018

ZONA DE PERECÍVEIS (143)


António, Filho de Pedro

Ainda não são onze horas e tenho intervalo na labuta diária até às dezassete. Voo para casa, antecipando mentalmente as tarefas imediatas a cumprir: ficar descalço, substituir calças por calções, tirar a cerveja do frigorífico, pôr o cachecol à janela, ergonomizar o sofá e assegurar a Nosso Senhor Cristiano que confio n’Ele e no(s) Santos. À uma da tarde começa o Portugal-Marrocos. 
Sucede que, como é ainda cedo, faço um zapping mecânico e dou com uma entrevista, na TVI, que me concita a atenção: Manuel Luís Goucha conversa com António Rolo Duarte, Filho de Pedro Rolo Duarte (falecido há pouco tempo, como decerto sabem). Para além do cariz temporão da morte deste jornalista, aos cinquenta e três anos, vítima de doença oncológica, doeu-me que os jornais, a rádio e a televisão tenham perdido um senhor importante, que escrevia e falava bem, que era inteligente, que tinha sentido de humor, que era livre & desassombrado. É dele uma frase verdadeiramente extraordinária (que debati com os meus alunos de Jornalismo, na década de 90 do século XX) – cito de cor: “O Expresso é o maior jornal português; o Público é o melhor; O Independente é o mais importante.” Tudo, à época, uma verdade pura e rigorosa. 
Na entrevista, conduzida de forma respeitosa, segura e amável, Goucha – que é muito mais que aquele boneco pimba de concursos e gritarias de feira – convidou António a falar do Pai, a propósito de um livro (que estou a ler) intitulado Não respire. É uma edição póstuma, que o jornalista concluiu no cais derradeiro da sua existência. Pai e Filho chamaram-lhe, no durante da sua concepção, e rindo-se ambos da pompa vocabular, “a obra”. Encontramos aí memórias, crónicas, episódios cheios de humanidade e vizinhança, reflexões sobre o Presente tão exageradamente fugidio e provisório, apontamentos do encanto e do desencanto, vidas. 
Realço o facto de fazer parte desse volume uma espécie de livro-dentro-do-livro intitulado 16 Ideias Para Um Rapaz de 16 Anos Levar Consigo Para Longe. Trata-se de um opúsculo expressamente escrito por Pedro Rolo Duarte em vésperas de António partir – sozinho - para a Austrália, onde faria o ensino secundário. O Pai, apesar de assustado com a distância a haver, deixou-o ir, mas passou-lhe para as mãos um conjunto de recomendações (sábias, sensatas, divertidas) que deveriam servir também para o adulto, ainda que ausente, estar com o jovem.
Ouvi algumas destas “ideias”, nem todas originais por aí além (sê tu próprio, persegue os teus sonhos, etc.), outras brilhantes (por exemplo, o importante, em relação ao medo, é o que fazemos com ele). Identifiquei-me com António, lembrando-me do meu Pai, ausente há muitos anos, e principalmente com Pedro, lembrando-me da minha Filha, para quem um dia não serei senão memória. Perguntei-me: que reterá de mim a minha Filha quando eu já não estiver para a aconselhar, de viva voz, sobre a existência? Talvez, ocorre-me agora, uma frase que costumo atirar para a mesa das reuniões familiares ou para a areia da praia de Agosto: o fundamental é distinguir, em cada momento, o essencial do acessório; e, atenção, embora o essencial varie de acordo com o contexto, deve estar sempre ligado aos direitos do Amor e aos deveres da Honestidade. Pelo sim, pelo não, inscrevo isto uma crónica de jornal, por ser da natureza da escrita durar mais do que a tão falível circunstância de se estar vivo. 
Sumário: no dia 20 de Junho, houve esta entrevista e, depois, um golo mais de Cristiano Ronaldo. Ganhei o dia por dois a zero. 

Coimbra, 23 de Junho de 2018. 
Joaquim Jorge Carvalho
[Esta crónica foi publicada no semanário O Ribatejo, edição de 28-06-2018. A imagem (capa do livro de Pedro Rolo Duarte) foi colhida, com a devida vénia, em https://www.fnac.pt.]

Foto com talvez 20 anos


A foto é antiga, meu amor, 
Mas guarda eternamente a ilusão
De não existir aquela Dor
De ser tão provisório o Verão.

Tirando o fotógrafo, ali estão
Todos, meu amor, vivos ainda.
E eu solto o flash desta gratidão
Por pertencer a esta foto linda!

Coimbra, 25 de Junho de 2018.
Joaquim Jorge Carvalho
(ILYSM)

terça-feira, 26 de junho de 2018

ZONA DE PERECÍVEIS (142)


Selva Rodoviária

Poucas situações acordam tão facilmente a besta que há em mim como os automobilistas irresponsáveis, capazes de pôr em perigo a sua vida e – pior – a dos outros com manobras estúpidas. 
Não são precisos grandes estudos para perceber, nos comportamentos dos condutores perigosos que assassinam quem calha, um conjunto óbvio de patologias, desde a psicológica necessidade de concitar atenções e admiração dos transeuntes, até à ilusão demencial de ser o melhor (o mais rápido, o mais habilidoso, o mais tudo), nascido para espantar a plebe. Vejo estes pedregulhos mentais por todo o lado: em auto-estradas, em ruas da minha cidade, em vias secundárias que me ligam a residência à vila onde trabalho. Já me salvei várias vezes da morte (in extremis) travando a fundo ou fugindo para a valeta, de modo a que um anormal completasse certa ultrapassagem proibida sem chocar com o meu carro. Já evitei, gritando ou buzinando desesperadamente, o atropelamento de peões (incluindo o da minha Filha), só por ter adivinhado, a tempo, que a loira do carro cinzento não pararia na passadeira. 
Com a idade, dou-me pior com a estupidez e chego a desejar - Deus me perdoe - a morte ou um qualquer acidente exemplar dos que vertiginosamente desafiam a sorte, sem respeito por leis ou, de modo mais lato, pelos outros. 
Regresso, à boleia deste tema, à diferença que me habituei a sublinhar, em conversas de amigos ou em parágrafos académicos, entre o conceito de imoralidade e o de amoralidade. Ambas as palavras têm prefixo, mas o significado que “i” e “a” aportam à palavra-base é diferente. O indivíduo imoral é aquele que comete o crime sabendo que está a cometer um crime. Neste contexto, pode acontecer que o imoral sinta, depois, remorsos. O indivíduo amoral é quem comete o crime sem ter a mínima noção de estar a cometer um crime, marimbando-se para questões de justiça, culpa, falhas éticas. No ser amoral, percebemos uma absolutíssima indiferença pelas consequências dos seus actos, pelos direitos dos outros, pela lei, pela verdade, pelo Bem. Como eu odeio, senhores, os amorais do volante! 
Dir-me-ão: atenção, que a ausência de moral pode ser desculpável; por exemplo, os bêbedos e os drogados devêm inimputáveis por não terem consciência dos seus actos. Respondo eu, fartinho de ser tolerante: são culpados de conduzir bêbedos ou drogados. Ponto final. 
Os antigos acreditavam muito no poder das pragas que se lançassem (silentes ou verbalizadas) – e eu confesso uma esperança mórbida: talvez haja alguns assassinos do volante que, nos últimos anos, tenham sofrido azares diversos, como uma queda, um roubo, uma agressão inesperada, uma doençazita demorada e dolorosa qb, etc. Quiçá esses irritantes contratempos sejam produto das minhas lancinantes pragas, expressas no interior da viatura (enquanto testemunho cabriolices irresponsáveis de condutores símios), à mesa do Café (enquanto leio descrições de acidentes criminosos), em casa (enquanto escrevo uma crónica, lembrando-me da minha Filha quase atropelada por uma cavalgadura chique), ou em declarações à polícia (depois de uma corrida de auto-estrada me ter dado cabo do carro e quase me ter matado). 
Bem sei, isto de rogar pragas é prática pouco cristã. Mas não é natural que, perante as tropelias do Diabo, até um santo perca a paciência? 

Vila Real, 17 de Junho de 2018. 
Joaquim Jorge Carvalho 
[Esta crónica foi publicada no semanário O Ribatejo, edição de 21 de Junho de 2018. A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.direcaodevida.blogspot.com.]

ZONA DE PERECÍVEIS (141)


Sobre a luta dos professores 

Dei por mim a discutir, na sala de professores, no final de uma tarde longa e trabalhosa, a bondade da luta encetada pelos sindicatos de professores nos últimos tempos. Novidade: eu, que sou sindicalizado desde a minha primeira semana na profissão (há já uns bons 33 anos), pus em causa o argumentário anti-governo que tem sido propalado pelos representantes da classe docente. 
Ponto de ordem: estou completamente solidário com a ideia-base destas reivindicações mais recentes, nomeadamente a que defende a contagem integral do tempo de serviço perdido nos últimos (quase) dez anos. Mas a exigência, entretanto matizada, graças a Deus, de uma contagem imediata do tempo perdido já me pareceu excessiva e irrealista. Sim, os professores são uma classe fundamental para o funcionamento normal de uma sociedade moderna e para a construção de um futuro mais capaz, mais digno e mais livre. Mas não são, do ponto de vista das finanças públicas, uma ilha. Não caem os parentes na lama aos sindicatos se, na sua luta, tiverem em conta as reais possibilidade do Estado. 
Para os precipitados que leiam nesta opinião uma canina fidelidade ao governo de Costa, esclareço: sou um livre-pensador, sem outra militância que a da liberdade. Mas apetece-me, aqui, separar as águas, menos por gratidão que por simples sensatez. Foi este governo quem me devolveu rendimentos que outros tiraram; quem me livrou da sobretaxa sanguessuga; quem expressamente preferiu a Escola Pública à Privada; quem descongelou carreiras. Não me parece, senhores, currículo de somenos. 
Já agora: ao longo de quase dez anos, nunca ouvi um colega a verbalizar em público a reivindicação da contagem integral do tempo de serviço “congelado”, para efeitos de progressão na carreira. O que se escutava amiúde era o desejo – desesperado – de receber os subsídios (nem que fosse apenas um; nem que fosse apenas metade); ou o de recuperar a possibilidade de um vencimento sem cortes nem sobretaxas; ou o de finalmente ver o tempo de serviço a contar para se progredir nos escalões… 
Por outro lado, é evidente que o governo não pode autorizar alguns ministérios a conceder a recuperação integral do tempo congelado e impedir outros de igual prática, como infelizmente (e desastradamente) aconteceu. O que me parece razoável é propor um modelo faseado, ao longo de seis-sete anos, em que os maiores prejudicados pelo congelamento do tempo perdido sejam ressarcidos, por exemplo com a diminuição dos anos de permanência nos escalões ou com a aceleração no acesso à reforma. Tenho colegas (dedicados, assíduos, competentes, exemplares até) que sem este tempo contado nunca chegarão ao décimo escalão. E há colegas contratados que sem este tempo vêem adiada para as calendas a sua entrada efectiva na carreira. Não deve ser assi, Não pode ser assim. 
Para terminar: enojam-me as virgens ofendidas que maldosamente colocam em Tiago Brandão Rodrigues as culpas de tudo o que professores sofreram e estão a sofrer. Certa direita, que odeia sindicatos e não sabe o que é pagar-lhes quotas, quer que Mário Nogueira seja mais exigente e mais assertivo. Em última análise, esta direita sonha com a queda do governo. Do ponto de vista de alguns docentes, creio mesmo que tal queda poderia configurar uma espécie de justiça poética: se o governo de Costa caísse, viriam outros (não exactamente novos) tempos; e com Assunção Cristas, por exemplo, outros actores tomariam o palco para tomar decisões. É isso que querem? 

Coimbra, 09 de Junho de 2018. 
Joaquim Jorge Carvalho 
[Esta crónica foi publicada no semanário O Ribatejo, edição de 14 de Junho de 2018. A imagem (uma ponte, pois claro) foi colhida, com a devida vénia, em http://www.pngtree.com.]

segunda-feira, 11 de junho de 2018

Origem do poema

Como nasce um poema, perguntaste. 
Nascendo, disse eu, como os outros seres vivos. 
O poema é, disse depois, talvez um mamífero 
Ou um vegetal (da taxonomia da rosas). Nasce
Do ventre que há no olhar ou no coração 
Ou na pele da Senhora Dona Criação. Ou nasce 
Do húmus paciente da Mãe-Terra, com espinhos 
E lava e perfumes misturados de água. 
O poema é talvez um animal nascido de um beijo
De um encontro, de uma voz buscando 
O direito a ser corpo independente e livre – 
E segue-te, nota, correndo ou voando. 
Quiçá seja simplesmente uma rosa consubstancial 
À Primavera 
Diria melhor: uma súbita reunião de pétalas 
Que exclusivamente te ofereço. 

Cabeceiras de Basto, 16 de Maio de 2018. 
Joaquim Jorge Carvalho 
[A imagem foi colhida, co a devida vénia, em https:www.pinterest.com.]

domingo, 10 de junho de 2018

Formiga diária


A formiga levantou-se cedo. Pegou na mala, na carteira dos documentos e no molho de chaves. Despediu-se da outra formiga adulta (as crias dormiam) e saiu do buraco. Percorreu em silêncio a distância entre ali e o lugar onde jazia um pão escuro e duro. Pacientemente-diligentemente-esforçadamente, reuniu algumas razoáveis migalhas e regressou ao buraco originário. Beijou pela segunda vez, nesse dia, a sua metade conjugal e as formigas infantes. A família jantou com apetite e alegria e rapidamente se esgotaram as migalhas. A formiga paterna deitou-se e ficou a olhar para o teto abstrato do buraco-lar. Foi quando lhe assomou à cabeceira uma das filhas: 
- Pai, agora já não há mais pão. E amanhã? 
A formiga patriarcal murmurou, cheia de sono e de fadiga: 
- Amanhã é outro dia. 

Viagem entre Vila Real e Coimbra, 09 de Junho de 2018. 
Joaquim Jorge Carvalho 
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em https://www.pinterest.com.]

ZONA DE PERECÍVEIS (140)



Psicologia do aconchego

A minha Mãe foi internada de urgência e sujeita a operação delicada. Retiraram-lhe parte substancial do intestino grosso, numa madrugada interminável de Maio. À porta do hospital, lá estavam o Z.T. (filho primogénito), o N. (filho mais novo), a F. (anjo-da-guarda da Mãe), e eu com a consubstancial MP. Uma tribo. Reconfirmámos mil vezes a dificuldade de lidar com a mortalidade em geral e com a das Mães em particular. 
No dia seguinte, a nossa paciente mal conseguia falar, estava confusa e sentia-se exausta. Ainda assim, apesar de não ter os dentes colocados, ofereceu-nos um sorriso feliz – e eu li-o como se fosse um daqueles poemas simples e profundos que há, por exemplo, em Sophia ou Jorge Sousa Braga: dizia conforto, alegria, gratidão por não a deixarem ali só.
Confesso-vos que me dou bem com a solidão. Gosto de momentos em que não estou para o mundo, ocupado apenas com o ser dono absoluto do meu tempo – para ler, escrever, meditar, fazer contas e planos, arrumar a secretária e a vida. Encaro esses instantes como uma recarga de oxigénio e deles necessito para enfrentar, depois, o resto da existência. Não é, atentai, uma solidão contra os outros; é apenas um caso de amor & interesse que discretamente mantenho com o universo. Mas assusta-me a outra solidão, a involuntária. A da pobreza de amor, i.e. a da falta desse aconchego vital de que, umas vezes mais do que outras, precisamos tanto. Por isso me orgulha o sentido tribal que há na minha família mais nuclear: em alturas de crise, em nome de uma Causa Maior, esquecem-se as tricas, os caprichos, os azedumes fátuos. E assim foi, uma vez mais, desta feita pela amadíssima matriarca. Dei por mim a pensar, à sua cabeceira, ouvindo gemer na cama ao lado certa idosa sem visitantes, que um dos maiores sofrimentos, na doença, pode ser o sofrer-se sozinho.
Há dias, numa aula, a L. confidenciou à turma que gostava muito das suas sessões com a psicóloga. A revelação surgiu a propósito da palavra “psicologia” (exemplo de palavra morfologicamente composta). Eu lembrei a importância que, para muitas pessoas de todo o mundo, têm os psicólogos. Em países altamente desenvolvidos, o seu apoio é fundamental para o cidadão comum e também para gente famosa das artes, dos média, das finanças, da política, etc. - e não por acaso, acrescentei, há psicólogos muitíssimo bem remunerados. 
A R. saiu-se com esta pergunta: “Mas que faz um psicólogo?”
A L. e eu próprio descrevemos, de forma sucinta, o trabalho destes profissionais. A R. voltou à carga: “Mas, afinal, eles apenas conversam com as pessoas?”
Admiti: “No essencial, sim.”
“Ora”, concluiu a R., “para isso tenho os meus amigos e escuso de pagar!”
Voltámos aos exercícios à roda da formação de palavras. Na minha cabeça ficou esta verdade denotativa e poética: ter amigos (como ter família) é também um seguro de saúde nada despiciendo. Um dia, pensei, escrevo uma crónica sobre esta ideia.

Coimbra, 01 de Junho de 2018.
Joaquim Jorge Carvalho
[Esta crónica foi publicada no semanário O Ribatejo, edição de 07-06-2018. A fotografia - já utilizada neste blogue - junta a minha Mãe e a minha Filha. Únicas ambas.]

sábado, 2 de junho de 2018

Anedota onomatopeica



Um casal de patos passeia nas imediações do Centro Cultural de Belém e, para fugir ao calor, experimenta entrar numa das salas de exposições temporárias. O porteiro, culto e vigilante, enxota-os dali:
- Por favor, saiam. Os animais não podem entrar nesta sala.
Os patos reagem de forma assustada, grasnando interrogativamente:
- Quá? Quá?
O porteiro reitera:
- Sortez. Les animaux ne peuvent pas entrer dans cette salle.

Cabeceiras de Basto, 12 de Abril de 2018.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em https://www.historiaopatinho.blogspot.com.]


Centro Comercial


Centro comercial

São uma espécie de castelo
As pernas dessa mulher
Que fecha à chave o que é belo –
Não se abrem se ela não quer.

Quiseras tu ver aberto
O portão da fortaleza?
Quiseras tu ver de perto
A mais secreta riqueza?

O melhor é entenderes
Que as pernas dessa mulher
Não se abrem por tu quereres:
Abrem-se se ela quiser.

Cabeceiras de Basto, 19 de Abril de 2018.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em https://www.thinkstock.]

O caso do soneto incompleto


O caso do soneto incompleto 


Esvoaçam folhas pelo Café e crianças 
Passando riem-se enquanto o já velho 
Poeta se aflige e desesperadamente procura 
Os versos. 
O empregado traz-lhe dois tercetos 
Mas não a folha com as duas quadras
Em falta, de modo que o soneto se torna 
Viúvo de si, para sempre incompleto. 
O poeta recusa-se a amaldiçoar o vento
Porque o ama, como tudo quanto conhece
Da natureza e da vida. 
O empregado vê-o ao fundo, escrevendo 
Nervosamente-desperadamente, 
Tenazmente: 
Procura duas quadras desaparecidas, não 
Já pelo chão do Café ou da rua, mas 
No interior de si próprio. 

Cabeceiras de Basto, 23 de Março de 2018. 
Joaquim Jorge Carvalho 
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em https://www.antoniozai.wordpress.com.]


sexta-feira, 1 de junho de 2018

ZONA DE PERECÍVEIS (139)


Rugido leonino

As primeiras páginas dos jornais não enganam: o Sporting Clube de Portugal é a notícia. Infelizmente, não por bons motivos. O meu clube especializou-se, nas últimas décadas, na delicada arte da autofagia - e agora, de escândalo em escândalo, serve-se no prato cínico dos adversários e dos inimigos figadais. De alegadas trafulhices – do meu clube ou de outros - não falo enquanto se justificar a civilizada presunção da inocência. Refiro-me tão-só aos sucessivos terramotos que a direcção sportinguista vem fabricando de forma (digamos assim) incontinente.
No olho do tufão, aparece Bruno de Carvalho, espécie de Rei-Sol da loja dos trezentos. Vejo-o estrebuchando na pantalha mediática, naquele papel épico-pícaro de herói mortinho por se tornar imortal, querendo defrontar tudo & todos, cheio de raiva e de presunção. De tão primário, o seu discurso chega a ser comovente: ele vê-se como o génio que mais ninguém consegue ver; ele é a vítima e todos os outros são vilões; ele faz o favor de existir e o injusto mundo ignora-o ou não lhe canta as loas que merece.
Não (lhe) sou ingrato, note-se: o homem, com esta mesma truculência que agora mais nos enoja, foi o bem-vindo ruído que interrompeu a tranquilidade do monopólio vermelho/azul & branco. Veio dar um murro na mesa desta pasmaceira nacional e lembrou que o Sporting existia e que exigia respeito. Revolucionou a dinâmica das modalidades do clube. Inventou soluções financeiras. Entrou no mui dificultoso mercado das grandes transferências futebolísticas. Injectou na turba leonina um significativo reforço de auto-estima e, em consequência, reencheu Alvalade. Ergueu o pavilhão João Rocha, infra-estrutura que vergonhosamente se adiara por décadas.
Depois, ai de nós, veio a inevitabilidade da natureza. Os traços de carácter do indivíduo estavam há muito latentes: como uma bomba-relógio, víamos aqui e ali assomos de megalomania, auto-deslumbramento, intolerância, vaidade exponencial, tiques ditatoriais. Tudo desculpável ou relativizável, à luz da psicologia das massas, se o clube fosse ganhando e o monstruoso ego presidencial não degradasse a gestão desportiva e económica da instituição. Veio a confirmar-se que Bruno de Carvalho está perdidamente apaixonado por si próprio e que, como os antigos filosofaram ou cantaram em verso, “o amor é cego”.
A cegueira de Bruno de Carvalho conseguiu o milagre de chocar alguns milhões que, antes, o defendiam galhardamente. Num ápice, o crédito de estima e popularidade deveio falência de confiança e desespero. Ao coro (desprezível) do inimigo juntou-se infelizmente a voz de sócios e adeptos.
Dizem-me que Bruno de Carvalho precisa do Sporting para sobreviver. Não no sentido poético, diga-se, mas no do venal salário, no do (seu) equilíbrio doméstico, no da sua circunstância social. Lamento-o. Mas isso não é, do lugar de onde olho para a situação, o mais importante. É da vida do Sporting que se tem de falar. Se Bruno de Carvalho quiser mesmo contribuir para o sucesso do Sporting, de forma objectiva e desinteressada, a atitude a tomar é óbvia – demitir-se. Ele próprio já lembrou que os jogadores vêm e vão, que os treinadores vêm e vão. Certo. Falta-lhe dizer que com os presidentes se passa o mesmo – e que é chegada a hora de sair da frente para não estorvar o futuro.
Porque o futuro urge. O futuro ruge. 

Coimbra, 26 de Maio de 2018.
Joaquim Jorge Carvalho
[Esta crónica foi publicada no semanário O Ribatejo, edição de 31-05-2018. A imagem foi colhida, com a devida vénia, em https://www.youtube.com.]

segunda-feira, 28 de maio de 2018

ZONA DE PERECÍVEIS (138)


Dizer tudo 

Dei a ler aos alunos do 7.º ano, no início do estudo do texto poético, um enunciado de Alice Vieira intitulado “O que é a Poesia?” (homónimo de um ensaio de J. Evans Pritchard, que o filme Clube dos Poetas Mortos, de Peter Weir, arrasa espectacularmente). No texto, de forma pedagógica, a escritora portuguesa defende que a poesia serve para os seres humanos exprimirem por palavras as mais vívidas emoções e os mais profundos sentimentos que neles habitam; lembra que cabe no poema qualquer pedacinho de realidade, de sonho, de imaginação; sublinha que as palavras são tão importantes quanto nelas haja a humanidade de quem escreve ou de quem lê/ouve. 
Ao longo de uma semana, nós lemos poemas-histórias, poemas-desabafos, poemas-filosofia e poemas-brincadeiras (cheios de musical rima, de cómicas aliterações ou assonâncias, de inesperados trocadilhos). À volta dos versos, tecemos interpretações e discutimos versos, vidas, Vida. Seguiram-se algumas horas de oficina de escrita, honestamente precedidas de um aviso: o professor não quer fazer dos seus alunos, por milagre ou ordem, poetas; quer tão-só ajudá-los a melhorar a sua condição de leitores. Desafiei-os a recordar alguns momentos importantes das suas biografias, felizes ou nem por isso: o melhor amigo da escola primária que viajou para a Alemanha com os pais e que o R. não mais voltou a ver; o dia em que o avô da I. regressou do hospital, alegadamente curado do mal que o queria matar; a cadelinha que desapareceu para sempre da casa de M.; o pai da F., que perdeu a batalha com a doença prolongada; o desejo infinito que há no V. de viajar por todo o mundo; as alegrias e as dores da paixão da S.; etc
Pedi-lhes, a seguir, que enunciassem, para cada situação, as emoções e os sentimentos vividos no mais profundo recanto dos seus corações sinceros. E, finalmente, propus-lhes que dissessem-escrevessem isso, de forma tanto quanto possível original e cuidada. Na aula, rascunhámos um exemplo, à roda da paixão da S. (que todos conheciam, aliás, à excepção do docente). Sem surpresa, o trabalho de casa consistiu na elaboração de poemas – com um mínimo de 4 versos e um máximo de 20, rimando ou não, de preferência usando alguns dos recursos expressivos trabalhados nas aulas anteriores. 
No bloco lectivo da última 6ª feira, a F. trouxe-nos as saudades do Pai-guerreiro, contador de anedotas e sempre farto de hospitais, de quem se lembrava todos os dias, apesar de mortalmente ausente; a I. recordou a cadeira vazia de onde, quando vivo, o avô iluminava a cozinha e a casa toda, até Novembro passado; o V. confidenciou-nos a sua obsessão por viagens, exprimindo um amor absoluto pelas que já fez e por tantas que quer fazer no resto da sua vida; a M. contou-nos a esperança que mantém no regresso da Daisy, a cadelinha mais divertida do universo; a S. garantiu, em 4 versos, que o amor é estúpido, doentio e maravilhoso; o J. revelou-nos o profundo prazer que sente por pizzas e gelados; e a B. (a maior surpresa da sessão, pois parecera, nas aulas anteriores, sempre indiferente aos encantos da lírica) agradeceu formosamente à Mãe por estar sempre presente e sempre pronta. 
O que é a Poesia? Eu já tentei explicar isso em verso, mas de forma muito incompleta, claro, como é da natureza de cada verdade dita. Nesta crónica, atrevo-me a dizer que é o sangue e a música da nossa condição. Isto é: um fio sincero e frágil da vida sendo dita enquanto acontece. Isto é: um canto gritado ou murmurado contra o nada iminente. Isto é: tudo. 

Coimbra, 20 de Maio de 2018. 
Joaquim Jorge Carvalho 
[A imagem (do filme O Carteiro de Pablo Neruda) foi colhida, com a devida vénia, em http:www.seisetreze.blogspot.pt.]

segunda-feira, 21 de maio de 2018

ZONA DE PERECÍVEIS (137)


A doença do esquecimento

O Jornal de Notícias (JN) do dia 11 de Maio dava conta, numa das suas páginas de informação local, da dramática saga que envolveu certa idosa, no centro do País. A senhora, que sofre de Alzheimer, esteve desaparecida durante vários dias, vindo a ser encontrada a uns dez quilómetros de casa, contra probabilidades e expectativas, bem viva, apesar de desorientada, sem a sua prótese dentária e com algumas escoriações no rosto. 
O mesmo JN, no mesmo dia 11 de Maio, num espaço de evocação cultural, lembrava a figura do general Sousa Brandão, um republicano do século XIX, natural de Santa Maria da Feira. Este engenheiro, segundo aprendi, assumiu particular papel no incremento do transporte ferroviário em Portugal. O artigo sublinhava o facto de, no concelho natal deste vulto, quase ninguém saber fosse o que fosse sobre a sua biografia essencial e de tão-pouco a autarquia o celebrar daquela forma convencional que costuma usar-se: nem uma rua com o seu nome, ou um edifício, ou uma escola, ou uma associação, ou um prémio literário-académico-jornalístico. Nada.
Obviamente, as duas notícias cruzam-se com a ideia de Alzheimer: no primeiro caso, na dimensão literal do fenómeno; no segundo caso, num sentido mais simbólico, mas não menos físico. Para ataque à primeira situação, a ciência parece ainda movimentar-se pelo território geralmente incipiente das hipóteses e da experimentação. Confiemos, entretanto, na generosidade, inteligência e teimosia dos investigadores. O ataque à segunda situação tem respostas – digo eu – mais óbvias, embora igualmente dependentes de um trabalho generoso, inteligente e teimoso, consubstanciável num esforço de informação consistente e sustentada, bem como de respeito pela História e de celebração & estudo dos que, no passado, através do exemplo, criaram beleza, progresso e justiça, oferecendo a contemporâneos e vindouros um País melhor. Camões, nesse seu gigantesco projecto literário chamado Os Lusíadas, quis cantar “aqueles que por obras valerosas / se vão da lei da Morte libertando”. A ignorância, a ingratidão, a preguiça e, às vezes, a indiferença são uma espécie de vírus cultural e histórico. O desprezo (voluntário ou involuntário) das gentes da Feira por Sousa Brandão, vista a coisa a partir desta crónica, são apenas um símbolo do Alzheimer nacional que, em forma de silêncio, recusa o tributo devido a escritores-filósofos-políticos-filantropos-militares-juristas-desportistas-etc
Ora, um Povo que não saiba (e quiçá nem queira saber) dos seus heróis é uma velhinha andando perdidamente por montes e vales, sem rumo nem memória, à procura de nada. 

Vila Real, 12 de Maio de 2018. 
Joaquim Jorge Carvalho 
[Esta crónica foi publicada no semanário O Ribatejo, edição de 17-05-2018. A imagem (retrato de Sousa Bandão) foi colhida, com a devida vénia, em https://pt.wikipedia.org.]

segunda-feira, 14 de maio de 2018

ZONA DE PERECÍVEIS (136)



Pobreza & riqueza (revisões) 

A Câmara Municipal de Ribeira de Pena (vila do distrito de Vila Real, Trás-os-Montes), no âmbito da comemoração do 44.º aniversário da amada revolução dos cravos, ofereceu aos seus munícipes um espectáculo de teatro de invulgar qualidade. Foi no dia 24 de Abril, pelas 21 horas, no magnífico auditório da terra. A Companhia de Teatro Filandorra, sedeada em Vila Real, apresentou a peça À manhã, de José Luís Peixoto, com sábia encenação de David Carvalho. Era 6ª feira, véspera de feriado, eu estava cansado, disse à minha mulher que não me apetecia sair. Ela insistiu, eu fui. Ainda bem duas vezes. 
A peça fala-nos sobretudo de solidão. Em palco, vemos-ouvimos velhos e velhas, numa qualquer aldeia portuguesa, vítimas da idade e da desertificação. Podia ser num lugar alentejano, ou beirão, ou transmontano. Podia ser uma história com os nossos avós, ou com os nossos pais. Podia ser connosco. 
Durante cerca de hora e meia, comovi-me perante os devaneios de uma idosa com demência; perante o desespero do marido já viúvo antes de o ser (que a esposa confunde com o falecido pai); perante a generosidade de um vizinho, que ilumina as trevas da sua antiguidade e do seu isolamento com a esperança de uma chuva salvadora das couves; perante a desesperada luxúria de uma solteirona, que bem alto afirma a sua virgindade e pouco discretamente a oferece em troca de algum adiado prazer proibido; perante uma viúva bonita, que sofre a falta do seu falecido, a distância (emigrante) de filhos e netos e também uma certa pulsão convivial e erótica, concomitante à circunstância de continuar vivendo. 
A peça de José Luís Peixoto atropelou-me o coração, atirando-me para cima aquela pobreza feita de solidão e de isolamento. Aquela pobreza, sim, que se vê melhor no contexto fragilíssimo da velhice. Recordo Sophia (lida num maravilhoso volume intitulado O Nome das Coisas): “Cortaram os trigos. / Agora / a minha solidão vê-se melhor.” Na verdade, depurada do foguetório ruidoso e colorido da juventude, da saúde, dos sonhos, da esperança, o que fica da nossa circunstância em trânsito é o essencial – neste caso, a tristeza da finitude e da humana impotência face à degradação fatal. E confirmamos, hélas, que a percepção da doença é mais vívida e trágica quando se está sozinho. 
A peça funda-se numa realidade portuguesa, familiar, próxima. As personagens são, de um ponto de vista económico e social, os nossos próprios velhos, sós e pobres, pobres e sós. Mas a pobreza maior, ali, visto o fenómeno pelos olhos comovidos do espectador, é mesmo a já dita solidão e o já dito isolamento. O meu sogro, num já longínquo Agosto, ao entardecer, numa espanada fronteira à praia de Machico, na Madeira, quando se discutia as vantagens de ser rico, disse-me: “Ser rico é não estarmos sós.” 
Ando a ficar lamechas com a idade. Isso ajudará a explicar as minhas lágrimas, no final, durante o longo aplauso aos actores e ao encenador, tributo em que participei também. E as lágrimas que vieram a seguir, durante a interpretação de “Grândola, Vila Morena”, do nosso amado Zeca, que juntou as vozes de artistas e público. Digo-vos: naquela mui rica hora da minha vida, no regaço do Teatro e de Abril, não havia solidão. 

Vila Real, 05 de Maio de 2018. 
Joaquim Jorge Carvalho 
[Esta crónica foi publicada no semanário O Ribatejo, edição de 09-05-2018. A imagem foi colhida, com a devida vénia, em https://www.avozdetrasosmontes.pt.]