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Número de Ondas

sábado, 20 de maio de 2017

ZONA DE PERECÍVEIS (88)



Aparição


Num dos seus grandes romances, Aparição, Vergílio Ferreira relata um episódio cheio de uma religiosidade estética que para sempre me impressionou: uma menina (Cristina) toca piano de forma tão bela que Alberto Soares, a personagem principal da narrativa, voa para fora de si próprio e, por instantes, parece atingir o Absoluto. 
Num ensaio sobre a ideia de clássico, o escritor sul-africano (nobelizado) J. M. Coetzee fala do seu encontro com Bach, num improvável contexto de ruralidade e simplicidade tropicais, desse modo provando, com base em sua própria experiência, a natureza mágica, transtemporal e universal da arte (neste caso, da música).
Aconteceu comigo, aí por Março do corrente ano, enquanto tardiamente jantava, ouvir cantar, na televisão, um moço de aspecto estranho. Sobre o meu sofá (sobre o meu prédio, sobre Ribeira de Pena) caiu um manto de inefabilíssima beleza. Aos gritos, chamei a minha mulher, ocupada a corrigir testes de Português, e pedi-lhe que comigo testemunhasse o que ali se passava. E ela sucumbiu, como eu, ao encanto que vos digo. O rapaz, soubemos depois, chamava-se Salvador Sobral e a canção, “Amar pelos dois” (letra e música de Luísa Sobral, irmã do cantor). O programa que passava era o Festival RTP da Canção, primeira eliminatória. E nós, que há mais de vinte anos ignorávamos ostensivamente este concurso tão cada vez mais pimba, ficámos, desde logo, a torcer pelo apuramento daquele concorrente. Um júri formado por gente da música e do espectáculo deu-lhe, por unanimidade, o 1.º lugar. Mas o sistema de votação, como a seguir percebemos, também implicava votos telefónicos da turba espectadora – de modo que “Amar pelos dois” ficou, salvo erro, na 4ª posição (ainda assim apurado para a final).
Na minha Escola, para além deste vosso cronista, o maior entusiasta da canção foi o professor de Música. No geral, notei só indiferença ou menosprezo. Veio a final e Salvador Sobral voltou a convencer o júri, apesar de obter apenas um 2.º lugar no televoto. Contas feitas, foi declarado vencedor e eleito representante da RTP no Festival da Eurovisão, em Kiev (Ucrânia). Eu estava, na altura, a borrifar-me para o Eurofestival, juro. Mas atrevi-me a, nesse mês de Março, fazer um pequeno comentário no Facebook sobre o tema escrito pela Luísa Sobral. Online e ao vivo, entre agradáveis cumplicidades, soube igualmente de uma espécie de desprezo, ora pedante, ora bruto, à volta da canção. As opiniões mais patuscas (para ser simpático) diziam que “aquilo não era nada”, que seria “mais uma vergonha para Portugal lá fora”. E eu bem tentava responder-lhes que isso dos votos não me interessava coisa alguma, que apenas me parecia profundamente bonita a canção, que o Salvador Sobral era um grande intérprete, que eu nem sequer estava interessado em telever o Festival.
Entretanto, segundo li depois, as “bolsas de apostas” começaram a falar do – surpreendente – favoritismo da canção portuguesa. Músicos consagrados (incluindo, por exemplo, o senhor Caetano Veloso) confessaram-se encantados com “Amar pelos dois”. Notei, então, online e in vivo no Café diário, um certo incómodo da parte dos “especialistas” em eurofestivais, que temiam estar errados. Lá admitiam que talvez fosse bonita a melodia, sim, mas – acrescentavam – “não era para festivais”.
Finalmente, sucedeu que o Salvador Sobral e a irmã convenceram alguns milhões de ouvintes/telespectadores: aconteceu-lhes, creio, o mesmo que a mim e à minha mulher naquela noite de Março, quando a Beleza desceu sobre Trás-os-Montes e nos fez reféns (gratos) daquela melodia e daquela voz.
Não assisti em directo ao concurso (estava em Vila Real a ver o meu Sporting perder com o Feirense). Mas a minha Filha, via telefone, foi-nos relatando, no regresso a Ribeira de Pena, o que ia sucedendo. E o que os três nos rimos quando soubemos da irónica conclusão disto tudo: a tal canção que, por muito bonita que fosse, “não era para festivais”, tinha ganho!
O que veio depois já é do domínio lamentável da pimbalhada mediática (só faltou dizer-se que o Salvador era o quarto pastorinho de Fátima). Eu não sou fã do rebanho patrioteiro que foi para o aeroporto cantar o hino de Portugal, e muito desconfio que o Salvador Sobral também não. Talvez, até, se o adivinhasse, ele houvesse optado por recusar o convite da irmã e preferisse ficar descansado a cantar o seu jazz (a propósito: ouçam Excuse me, o primeiro álbum do rapaz – e deliciem-se).
Sumário de quanto vos queria dizer: nasceu uma formosíssima canção, “Amar pelos dois” (que confirma o talento da Luísa Sobral) e revelou-se-nos um extraordinário cantor (e músico), Salvador Sobral. Desejo aos dois irmãos, da varanda d’O Ribatejo e do meu coração, muitas felicidades para as suas carreiras. Por eles e por mim, que gosto de música e de arte em geral.

Vila Real, 15 de Maio de 2017.
Joaquim Jorge Carvalho
[Esta crónica foi publicada no semanário O Ribatejo, edição de 18-05-2017. Na versão digital do jornal, o texto é exactamente o mesmo; na versão em papel, por razões gráficas, os primeiros dois parágrafos não aparecem. A foto (com Salvador Sobral e Luísa Sobral) foi colhida - com a devida vénia - em http://www.flash.pt.]

sexta-feira, 12 de maio de 2017

Mar de mim


O Mar:
Versão eternamente virgem de si
Repetição afinal não afinal novidade
Corpo absoluto do Tempo
Filme de acção sem princípio nem fim
Máquina de estar sempre a acontecer
Vidas, Vida.

Olhai, senhores, a espuma
Memória da última onda
Expectativa do que há-de seguir-se
Esperanças.
Olhai, senhores, a vaga nascente-crescente
Adamastor esbracejante e magno
Hipérbole do limite excessivo de si próprio.
Olhai, senhores, a rebentação na areia
Os milhares de átomos da bruta força
A espuma.

O Mar:
Eu ao espelho da minha infância
Eu durante a enganosa imortalidade dos sonhos
Eu espalhado pela areia insegura
Eu espuma.

Arco de Baúlhe, 09 de Maio de 2017.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, na internet.]

ZONA DE PERECÍVEIS (87)


Expectativa e surpresa

A rotina, ao contrário do que defendem alguns idealistas, é (ou pode ser) um espaço de felicidade, oferecendo-nos um dos mais belos, embora prosaicos, rostos da maiúscula Paz – a segurança. Mas é-nos indispensável também, convenhamos, a expectativa de uma surpresa que nos salve da repetição bruta e cínica. Consola sabermos que o Sol voltará depois do ocaso, e que a noite interromperá, em (e por) tempo oportuno, o ruído fatigante da selva por onde andamos de dia. Sorrimos à probabilidade de vermos rostos conhecidos nos lugares habituais; de ouvirmos as vozes que é costume ouvirmos; de testemunharmos o funcionamento regular da vida antes de falir. Mas secretamente esperamos que uma qualquer novidade alienígena venha colorir esta amável pasmaceira das horas, seja na forma de um rosto tão lindo que não podia ser verdade, seja na qualidade de um telefonema, carta (ou email) de gente amada, seja ainda como abraço vosso, ou livro do Ondjaki, ou canção do Salvador Sobral, ou golo do Cristiano Ronaldo.
(A ideia do golo mete-se-me na escrita, mas a aparição dá-me jeito.)
Acordamos para a vida como quem se prepara para ir a um campo de futebol, com a ideia de assistirmos a um jogo do nosso clube. Tudo é, na base, repetição, rotina, protocolo: estacionar o carro, comprar o bilhete, esperar na fila, com as outras formigas, pela revista das forças de segurança, procurar o nosso lugar, aplaudir o anúncio da equipa titular, sorrir ao nome do árbitro (que já nos prejudicou milhões de vezes). Depois, começa a partida – e tudo é movediço e etéreo como alguns sonhos: sobre um chão de regras, de tácticas e de estratégias, vemos numerosíssimas danças mais acontecidas que ensaiadas, falhanços impossíveis (inadmissíveis), ressaltos de sorte & azar, glórias anunciadas ou improváveis, pesadelos adamastores, gritos, cânticos, palavrões, desassossego, dúvida, esperança, medo que já não haja tempo para um final feliz.
A boa literatura tem muito desta mesma mistura, seja qual for o modo por que viajemos: nos bons romances e nos bons dramas, a sistemática repetição de gestos e eventos dá-nos a ilusão do tempo a passar (tempo realista, verosímil, político, isto é, tempo percebido-sentido na nossa pele, com rugas e tudo) - e depois há, por exemplo, a surpresa de um amor impossível que, por milagre, se afigura possível, e que depois, como temíamos (temêramos) falece tragicamente. Na poesia, por entre frases denotativas e simples, refulgem versos originais e provocatórios que nos mudam, para sempre, a linguagem e a própria vida, ou sons que, partindo da normalidade comezinha, desaguam subitamente em rimas, assonâncias, aliterações, música (dita-ouvida-pensada).
O meu dia começa com o toque do alarme para despertar. Levanto-me. Abro a janela e peço instruções à paisagem para a roupa (muita ou pouca) a usar. Tomo 50 mg de Losartan para a tensão. Faço a barba, lavo os dentes, tomo banho, visto-me. Se o relógio me autorizar, ainda bebo uma chávena de café e engulo um pão com manteiga. Beijo a mulher. Desço a escada, ponho o carro a trabalhar, ligo o rádio, viajo. Na escola, cumprimento os contemporâneos habituais da minha sorte e começo a trabalhar. No meio desta virtuosa rotina, hão-de acontecer-me, sei-o bem, coisas extraordinárias. Talvez versos (lidos, escritos, quiçá testemunhados em seu estado de pré-literatura). E, caros amigos, como poderia eu (como poderíamos nós) viver sem esta expectativa?

Coimbra, 06 de Maio de 2017.
Joaquim Jorge Carvalho
[Esta crónica foi publicada no semanário O Ribatejo, edição de 11-05-2017.]

O carpinteiro sem jeito



Era uma vez um viúvo com dois filhos a cargo. O mais velho cedo começara a acompanhar o pai nos trabalhos do campo. O mais novo, apesar de mostrar uma inteligência invulgar e uma enorme aptidão para a escrita, era visto pela população como preguiçoso e inútil: mal sabia cavar, cansava-se (ou aborrecia-se rapidamente) e não poucas vezes era apanhado pelo irmão mais velho a ler, escondido atrás de uma árvore ou de um muro, livros de aventuras. O pai irritava-se com ele e, de vez em quando, castigava-o à noite, suprimindo-lhe o jantar. 
O padre da aldeia, que andava a ler As pupilas do senhor reitor, de Júlio Dinis, sugeriu que o viúvo pusesse o filho num seminário, pois a vida religiosa garantiria ao rapaz uma vida virtuosa, merecedora do respeito de todos e, assim que se ordenasse, também com direito a casa e a comida oferecidas pelos paroquianos que lhe coubesse em sorte. E lá foi o rapaz para o Porto, sem entusiasmo que se visse. Desistiu, contudo, ao fim de poucos meses. 
- Aquilo não é para mim, meu pai. Eu prefiro a natureza, o convívio com as pessoas… e hei-de querer, um dia, uma mulher e uma família!
O pai encolheu os ombros e tentou, com paciência de santo, ensinar-lhe o ofício de carpinteiro (ocupação a que se dedicava o próprio irmão, há trinta anos). Mas o filho revelava pouco jeito e era frequentemente vítima da troça do tio (irmão do pai), que a toda a gente garantia, sobre o sobrinho, que era “a maior ave rara que já vira na vida”.
Aos vinte e dois anos, o irmão mais velho era já um lavrador respeitado pela aldeia e arredores. O pai lamentava-se:
- Que há-de ser do futuro deste rapaz? Agora deu-lhe para escrever versos!...
O tempo passou. Morreu entretanto o tio carpinteiro e o poeta teve de se dedicar mais a sério à carpintaria. Mas era mais frequente vê-lo na escrita do que a serrar tábuas ou a martelar pregos. Pouco dinheiro retirava do seu trabalho, na verdade. Por piedade, o irmão, já casado e com filhos, lá o convidava para almoçar ou jantar, pois bem notava a sua magreza e a sua palidez.
Até que a escrita de tantos anos deu em compensar: veio um prémio de Lisboa, atribuído pelo Ministério da Cultura; depois, uma medalha oferecida pelo Presidente da República; elogios, dinheiro e prestígio de indivíduos e instituições diversas.
O carpinteiro tornou-se escritor famoso e quase rico. Na condição de remediado, o irmão mais velho, certo dia, lamentou-se na tasca do Manuel Tibúrcio:
- Fartei-me de trabalhar e mal ganho para as sopas. O meu irmão passou a vida a escrever e só falta beijarem-lhe os pés… Acha justo, ó Tibúrcio?
Foi um velho professor, já reformado, quem lhe respondeu:
- Tu és um homem bom, trabalhador e honesto, não há dúvida! Mas o teu irmão não te fica atrás – o seu ofício é que é outro. É um poeta!
- E para que serve isso, senhor professor? – reagiu o taberneiro, que estava inclinado a tomar o partido do irmão mais velho.
O professor suspirou e disse:
- Para pôr em palavras o que vemos, sentimos e não somos capazes de dizer. Para nos confortar. Ou simplesmente para criar beleza. Parece-te pouco?
Ao longe, sob o Sol, uma cigarra cantava, e era como se a sua música fizesse parte da luz que iluminava a aldeia.

Arco de Baúlhe, 03 de Maio de 2017.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, na internet.]

terça-feira, 9 de maio de 2017

ZONA DE PERECÍVEIS (86)



 Saudades de Carlos Pinhão

À semelhança do que ocorre, hoje, com a maioria dos jornais, A Bola está longe de ser aquele espaço de excelência jornalística e, sobretudo, literária que os leitores do século XX testemunharam e aproveitaram. Sinal dos tempos, diz-se. Mau sinal, digo eu.
Entre os muitos notáveis daquela prosa de primeira água que havia n’A Bola, destaco três: Carlos Miranda, que está para Joaquim Agostinho como Luís de Camões para Vasco da Gama; Vítor Santos, cujos textos eram antologias de saber e ética; e Carlos Pinhão (o meu preferido), dono de uma escrita luminosa e cheia de graça. Tive a felicidade de conhecer pessoalmente este último. Nos meus primeiros anos de professor, ousei fotocopiar crónicas suas e dá-las a degustar aos alunos, com óbvio benefício deles e meu. Na prosa de Carlos Pinhão, havia um raciocínio claro e fino, acompanhado quase sempre de certo sorriso cúmplice e divertido, que os leitores mais adivinhavam do que viam.
Aí por 1990, quando leccionava no Paião (vila contígua à majestosa Figueira da Foz), tomei em mãos o projecto de trazer à escola este senhor – para que os alunos o conhecessem, quer na qualidade de repórter e cronista, quer na qualidade de escritor. Tinha lido já, por essa altura, aos meninos e às meninas do 7.º ano, o seu livro Era uma vez um coelho francês, espécie de alegoria divertida e eficaz contra o racismo, e ocorrera-me a ideia de fazer dessa narrativa um textinho para teatro. “Não era engraçado”, perguntei eu à turma, “representarmos esta peça com o autor da história no público?” E a proposta foi aprovada por trinta sins a zero.
Escrevi para A Bola, o Carlos Pinhão respondeu-me, combinámos conversa telefónica. Lembro-me da primeira vez em que ouvi a sua voz franca e meio gaguejada: “Boa noite, professor. Fez bem em telefonar só a seguir à novela…” Um mês depois, se bem recordo, viajou até Coimbra, de comboio, e aí o recebi, acompanhado da sua amabilíssima esposa. Instalei-os num hotel da cidade e, no dia seguinte, manhã cedo, levei-os no meu carro até à escola. O nosso programa dividia-se em duas partes: de manhã, o convidado falaria aos alunos do 8.º e 9.º anos sobre a importância do jornalismo no mundo moderno (havia a primeira invasão do Iraque como pano de fundo); de tarde, assistiria à representação da peça “Era uma vez um coelho francês” e falaria, depois, aos alunos do 7.º ano sobre a sua obra literária, tendencialmente dirigida ao público infantil e juvenil.
A visita foi um imenso sucesso, e o prazer do Carlos Pinhão não foi o menor dos motivos para a minha tão grande felicidade de então. Recordo em especial aquela tarde em que o vi sorrir perante o seu coelho francês adaptado ao teatro; a emoção da sua esposa por ouvir, no final da peça, a canção “Amigo”, do amado Zeca Afonso; as suas respostas certeiras e geralmente divertidas às perguntas (preparadas ou espontâneas) dos alunos – por exemplo, quando o interrogaram sobre o melhor livro escrito por si: “Ó pá, tu nunca perguntes a um pai qual é o seu filho favorito!
Impressionou-me igualmente o aspecto de namorados que ele e a esposa mantinham, apesar da idade já madura de ambos. Ainda hoje retenho, até como referência para a minha própria vida familiar, aquela cumplicidade especial, aquela harmonia de gestos e de palavras entre os dois, aquela serenidade e doçura que deles emanava. A propósito: na viagem entre Coimbra e o Paião, o Carlos Pinhão pediu-me para deixar a mulher na Figueira da Foz até à hora do almoço, pois ela – dizia – “já estava farta de o ouvir dizer sempre as mesmas coisas”. Eu preparava-me para anuir ao pedido-ordem do convidado ilustre, mas a sua companheira de tantos anos saiu-se com esta: “Ó Carlos, a mim parece-me que é sempre a primeira vez que te ouço!” E ele, rindo-se, evidentemente feliz: “Já viu, professor? Tenho ou não tenho muita sorte?” A sorte, pensei eu, foi terem-se os dois conhecido (e haver gente tão bonita para grato consumo do mundo).
Que pena tive, senhores, anos mais tarde, quando soube do falecimento do senhor Carlos Pinhão, esse tão grande nome do jornalismo limpo, ledo e lindo que já houve em Portugal.

Vila Real, 28 de Abril de 2017.
Joaquim Jorge Carvalho
[Esta crónica foi publicada no semanário O Ribatejo, edição de 04 de Maio de 2017.]

segunda-feira, 1 de maio de 2017

ZONA DE PERECÍVEIS (85)


Abril, segundo o senhor Mateus

Eu já tinha um irmão em França, na região de Paris”, disse-me o senhor Delfim Mateus (nome fictício), octogenário de uma vila transmontana onde estou há já 21 anos. “O meu irmão tinha sido chamado para a tropa e deu em pensar que, uma vez embarcado no famoso Niassa, era certo e sabido o adeus para sempre à metrópole, ou o regresso final em caixão. Metrópole era como então se dizia Portugal sem as colónias. Fugiu e, digo-o sem remorsos, fez bem, que aquela guerra era uma causa perdida, mais do interesse de outros cujos filhos nem lá punham os pés.”
Mas eu fui. Passei pela Escola Prática de Administração Militar, ali ao Lumiar, perto do estádio do Sporting, e depois abalei para Moçambique. Não viajei de barco, por acaso, mas de avião. Ainda me doem os braços e as lágrimas de minha mãe, à despedida, que o meu pai, esse, não chorou coisa que se visse. Na vinda, dois anos mais tarde, só estava a minha mãe, e o abraço repetiu-se, talvez ainda com mais lágrimas (dela e minhas). O meu pai já estava com o meu irmão em Bezon, a lutar contra a miséria da sua vida portuguesa.
Disse-me a minha mãe que antes assim, porque lhe custara muito a visita de dois pides, certa noite, convocando o marido para uma conversa na esquadra da GNR da terra. E tudo porque, num Sábado à noite, na tasca, dera em dizer mal do país e da guerra, responsabilizando o Marcelo Caetano pela minha eventual morte. À saída da missa, na semana seguinte, o doutor Tibúrcio (que, segundo o povo, era bufo da polícia política), recomendou-lhe, com má catadura, muito cuidado e juizinho na cabeça.
Em menos de meio ano, já eu estava também em França. Fui a salto, que era um modo de chegar ao destino sem a chatice dos papéis e dos interrogatórios. A França, senhor! Se soubesse o que aquilo parecia a um emigrante português! Alguns dizem, para explicar isto, que era outro país, muito diferente do nosso. Mas eu creio que a diferença era coisa muito mais profunda e, como agora se diz, radical. A França, vista pelos olhos de quem lá chegava, vindo da pobreza e da escuridão lusas, era outro planeta! Isso mesmo: outro planeta!
Havia trabalho, progresso, direitos garantidos para quem trabalhava (salário digno, subsídios, médicos e medicamentos para quem precisasse, férias, licença de maternidade, boas escolas para os filhos). Andava-se por estradas decentes, modernas, muito diferentes dos caminhos de cabras que então havia entre a minha aldeia e a sede do concelho. Toda a gente tinha casa de banho, água canalizada, luz. E as pessoas eram livres, compreende? Livres de falar, de pensar pelas suas cabeças, de reclamar na justiça, de escolher o melhor para as suas vidas.
Eu digo, às vezes, que Portugal é agora como a França que eu conheci. Mas nós chegámos lá com uns 40 ou 50 anos de atraso, não é verdade?
Na nossa vila, hoje, há escolas, centro de saúde, campos desportivos, biblioteca, até piscinas. Somos nós que escolhemos os governantes. Vivemos em democracia e liberdade. Há problemas? Há razões de queixa dos políticos, dos partidos, dos governos? Claro que sim. Mas isso é próprio da vida, que nunca é perfeita, e da humanidade, que nunca está completamente satisfeita.
Ainda hoje digo aos mais novos que, a par do casamento e do nascimento dos filhos (e de um ou outro golo do Yazalde), o 25 de Abril foi o dia mais importante da minha vida.

Coimbra, 23 de Abril de 2017.
Joaquim Jorge Carvalho
[Esta crónica foi publicada no semanário O Ribatejo, edição de 27-04-2017.]

quinta-feira, 20 de abril de 2017

ZONA DE PERECÍVEIS (84)


Galafura, Dublin, Vidago & Nós
 
Recebi, ao longo da última semana, a visita de um cunhado madeirense. Servi-lhe de guia turístico, tanto quanto pude e soube. Ele ouvira-me, certo Verão, durante uma caminhada pela Ponta de S. Lourenço, para lá do Caniçal (na sua Madeira), comparar a beleza da paisagem com a espantosa vista de S. Leonardo de Galafura (na região de Trás-os-Montes) – e confessou-me o seu interesse em conhecer esse lugar, já tão celebrado, muito antes de mim, por Miguel Torga.
Lá estivemos, pois. À maravilhosa imagem do “navio de penedos”, como genialmente o descreveu o poeta nascido em S. Martinho de Anta, acrescentei a admiração silente e comovida do meu amigo Alberto Ornelas. Torga chamou a este espaço, no Diário IX, um “poema geológico” (expressão que, Deus me perdoe, adoraria ter sido eu a inventar).
Na verdade, há lugares que nunca mais são os mesmos depois de terem sido ditos por artistas (“ditos” significa aqui, naturalmente, descritos, representados, recriados – e o verbo “dizer” compreende não apenas a literatura, mas também a pintura, a escultura, a música, etc.).
A identidade de Galafura é hoje inseparável do verbo torguiano. Como, aliás, sucede com Trás-os-Montes em geral. Algo semelhante acontece com outros escritores & outros lugares: Manuel da Fonseca & o Alentejo; Ferreira de Castro & as Beiras; Eça, Pessoa, Saramago, Cesário & Lisboa; Vergílio Ferreira & Évora; Carlos de Oliveira e a Gândara; Garrett & Santarém; Trindade Coelho, Assis Pacheco, Daniel Abrunheiro & Coimbra; Júlio Dinis & o Porto; James Joyce & Dublin; etc.
A nossa percepção dos lugares fica para sempre condicionada (quero dizer: enriquecida) pela percepção-enunciação dos autores amados. Ou seja, os lugares ganham (mais) sentido, lógica, profundidade, vida. Porque a arte, meus senhores, ensina a ver. No mínimo, a ver melhor.
Cruza-se quanto vos digo com a exibição, na RTP, de uma excelentíssima série intitulada Vidago Palace (com realização de Henrique Oliveira). Há 21 anos que estou a trabalhar no Norte de Portugal, na fronteira (imaginária) entre o Minho e Trás-os-Montes. Já passei muitas vezes por Vidago, já lá tirei fotografias e já especulei mentalmente sobre o bulício mundanal de outrora, tão distinto da imagem de abandono que, há pouco tempo, feria os olhares e os corações visitantes. Em Vidago Palace, o velho hotel ressuscita – e esse milagre acaba por nos recordar a própria História, sob a forma de humanidade-em-movimento (um festival de amores e desilusões, de ideias e de combates, de rotinas e de assombros, de estar e de devir). Temos o privilégio, enquanto espectadores, de testemunhar o que de nobre e de miserável é capaz de fazer a raça humana em seu mui sanguíneo ofício de existir.
Em suma, a vida compreende-se – sobretudo - vivendo. Mas muito se ganha, ó cúmplices leitores, com o trabalho dos artistas, que pegam na realidade e a reconfiguram esteticamente (e/ou a reequacionam eticamente). Tudo para que possamos todos, até os mais distraídos, saber de que tesouro se fala quando se fala de viver.
 
Coimbra, 12 de Abril de 2017.
Joaquim Jorge Carvalho
[Esta crónica foi publicada no semanário O Ribatejo, edição de 20-04-2017.]

 

Violeta & Carolina



Em caixa sem cor dorme sem se ver
A violeta antes da música, parecendo
A Branca de Neve antes de haver
O beijo de um Príncipe sofrendo

A dor dessa beleza interrompida
(A dor de bruta Morte, bruto Nada);
É por amor que a beija e lhe dá vida,
É do Amor a Vida retornada.

A menina que liberta do torpor
A violeta, e lhe devolve som & cor
É alma linda, leda, leve, acesa –

Eu vejo na menina uma Princesa
E a violeta é toda a Beleza
Salva de ser Nada por Amor!

Coimbra, 18 de Abril de 2017.
Joaquim Jorge Carvalho
[Nota: Este soneto celebra o dia de aniversário de uma querida Sobrinha, Carolina Ornelas, Filha dos meus Cunhados Paulo e Ana. Violeta é o nome de um instrumento musical, muito semelhante, na forma, ao violino.]

terça-feira, 18 de abril de 2017

ZONA DE PERECÍVEIS (83)



O pormenor da idade

Morreu José Vala, um belíssimo jogador de futebol dos anos 70 e 80 do século XX, que se notabilizou ao serviço da Académica de Coimbra e encantou colegas, adversários, treinadores, dirigentes e público em geral com a sua apurada técnica e a sua invulgar visão de jogo. Vim a ser amigo de um seu irmão, Rui Vala, meu rival nas camadas jovens (ele na Académica, eu no União de Coimbra) e meu companheiro no Anadia.
Nos comentários seguintes à notícia do óbito, alguém me dizia, suspirando, que o Zé Vala “também já não era novo”. Na verdade, ele tinha apenas 65 anos, mas o facto de, desde muito jovem, ter o nome nos jornais e nos relatos radiofónicos criou no público a ilusão de uma antiguidade exagerada.
Já me aconteceu algo de semelhante. Em certo Verão de 1995, com 32 anos, eu andava a jogar em torneios de futsal por Coimbra e arredores. Devido à minha paixão pela bola e à dificuldade que sentia em dizer não a convites para entrar nesta ou naquela equipa (do Café de um amigo, do agrupamento de escuteiros da minha Filha, da loja de ferragens de um vizinho), acabei a fazer dois jogos por dia, em pavilhões diferentes e afastados entre si, com brevíssimos intervalos de horas.
Há-de ser até partires uma perna”, previa a esposa. E foi. Num jogo disputado à noite, em S. Martinho do Bispo (Coimbra), logo no início do prélio, senti que os ligamentos do joelho esquerdo se me rasgavam como farrapos exaustos. Nos primeiros cinco minutos, as dores pareceram-me insuportáveis, e acabei mesmo por ter de ir ao hospital. Mas o que me afligiu mais (o que me indignou visceralmente), naquele episódio, foi ouvir, enquanto era assistido no campo, junto à vedação, certo treinador daquela época comentando para um espectador qualquer: “Ele também já tem uma idadezinha...
No futebol, a crueldade da passagem do tempo só é superada pela crueldade da percepção que os outros têm da passagem do tempo. Aos 17 anos, somos fulgurantes promessas; pouco depois, somos atletas experientes; aos 30-32, já somos veteranos; e os que sobrevivem para lá desse limite, frequentemente com competência e brilho, são vistos como patéticos exemplares de jogadores acabados arrastando-se pelos relvados.
A vida é curta, não o discuto. Mas convém não exagerar no modo como se tende a arrumar, por idades, o que cada pessoa é ou vale. Cada vez mais me assusta a ditadura da juventude obrigatória, essa filosofia de pacotilha que mede o mérito e o valor pelo grau de frescura etária.
Tive um treinador que, por querer no campo os 11 melhores em cada momento, ignorava deliberadamente a idade dos seus jogadores. Dizia que, a jogar, há velhos como novos e novos como velhos.
Escrevo esta crónica numa manhã com Sol. E sinto-me, não sei se o adivinháveis já, novinho em folha.

Coimbra, 06 de Abril de 2017.
Joaquim Jorge Carvalho 
[Esta crónica foi publicada no semanário O Ribatejo, edição de 13-04-2017.]

domingo, 9 de abril de 2017

ZONA DE PERECÍVEIS (82)


Coisas de aqui & de toda a parte

Revi, a convite de amigos, Histórias da idade do ouro, um filme dirigido por três realizadores romenos (Cristian Mungiu, Razvan Marculescu, Ioana Uricaru), datado já de 2007. O filme (que foi muito apreciado pela crítica internacional) nasce do argumento de Cristian Mungiu, que se propôs reunir várias histórias numa única narrativa. A poética do variegado discurso assenta num desiderato comum: testemunhar, de forma tragicómica, o País de Ceaucescu, que se autoproclamava “uma época de ouro” e tentava disfarçar, com grandiloquente propaganda, uma ditadura feroz e omnivigilante. 
A graça maior, em minha opinião, está no facto de os romenos comuns, em modo de sobrevivência, continuarem a fazer pela vida, sem choros ou dramas, não apenas fugindo quotidianamente à violência do regime, mas aproveitando em seu benefício, sempre que possível, uma certa cegueira acrítica e obediente das autoridade oficiais. Contexto óbvio: a opulência de discursos e de gestos dos governantes contrasta com a miséria da população; o fogo-de-artifício da cartilha comunista, gritada aos quatro ventos, esbarra na modéstia, na desconfiança ou na troça do povo simples.
Ficam na memória os espertalhões que, fingindo-se inspectores da Saúde Pública do Estado, vão às casas de incautos e “engarrafam o ar doméstico”, para – garantem – controlar a qualidade ambiental da cidade. Percebemos depois que este estratagema serve para recolher garrafas de vidro (oferecidas pelos inquilinos de cada prédio visitado) e com elas fazer dinheiro.
Ou os funcionários do Estado que - bem bebidos e bem comidos - entram numa roda gigante (género de carrossel aéreo, daqueles que se vêem nas feiras) e se esquecem, naquela euforia patriótica, de deixar alguém no chão para, em tempo oportuno, desligar a máquina. De modo que ficam para ali às voltas, desesperados e ridículos, sem remédio à vista.
Ou o militante que vai ao interior rural e atrasado da Roménia, imbuído do maior fervor partidário e nacionalista, querendo obrigar os residentes – velhos e novos – a frequentar a escola, com promessas de alfabetização para os cumpridores e ameaças de castigo para os faltosos. Infelizmente para si, não será possível ultrapassar a geral resistência (teimosa e só na aparência ingénua) dos putativos beneficiários.
Ou ainda a história de um director de jornal que obriga os seus jornalistas a uma ginástica editorial, no sentido de disfarçar, a cada fotografia oficial, o défice de altura de Ceaucescu, nomeadamente através da colocação – artificiosa - de um chapéu na cabeça do ditador. Problema gerador de angústia oficial e de riso popular: sem que a redacção se desse conta, o presidente ficaria, na foto publicada, com um chapéu (inventado) na sua cabeça e outro (verdadeiro) na sua mão.
Visto por portugueses com mais de 50 anos, aquele filme é também um documento sobre Portugal. A ditadura, no nosso caso, tinha outras inspirações e outros inimigos públicos, é verdade. Mas reconhecemos a mesma modéstia de viver, a mesma rotina triste e silente das vidas (mal) remediadas, o medo nos mais simples gestos, a prepotência e a arrogância da autoridade – e também a revolta picaresca da arraia-miúda, que vai fintando a brutidade com truques de génio.
Um dos mais impressionantes milagres da arte é mesmo este de o local devir esteticamente toda a parte. E eu voltei a lembrar-me da lapidar definição que Torga inventou para a ideia da universalidade da arte, em texto apresentado numa sua conferência no Brasil: “O universal é o local sem muros.”
Vila Real, 01 de Abril de 2017.
Joaquim Jorge Carvalho
[Esta crónica foi publicada no semanário O Ribatejo, edição de 06-05-2017.]

sexta-feira, 31 de março de 2017

ZONA DE PERECÍVEIS (81)


 
Viver cansa
 
Há uns anos, num sarau poético, a minha Filha disse um poema de José Gomes Ferreira (colhido no volume Poeta Militante). O poema que leu foi “Viver sempre também cansa”. Havia ali uma graça e uma profundidade que, tempo adiante, não mais deixou de me desafiar e encantar. O sujeito poético, partindo da premissa (queixosa) de o mundo se repetir e de o aborrecer, interroga-se: «Pois não era mais humano / morrer por um bocadinho, / de vez em quando, / e recomeçar depois, achando tudo mais novo?». E acrescenta: «Quando viessem perguntar por mim, / havias de dizer com teu sorriso / onde arde um coração em melodia: / “Matou-se esta manhã. / Agora não o vou ressuscitar por uma bagatela.”».
Também a mim aconteceu já esta vontade de me suicidar temporariamente (sublinho: temporariamente – porque a morte definitiva sempre me pareceu estúpida e insuportável). E não sendo possível a liberdade de morrer-sem-morrer-para-sempre, tenho percebido os méritos do cumprimento disciplinado e regular de uma certa solidão terapêutica. Não falo, note-se, de isolamento desistente ou de radical misantropia. Refiro-me ao encontro do eu consigo próprio. À auto-instituição de um tempo para, de modo sereno e lúcido, pensar (n)a vida, muito fora da barulheira obsessionante do mundo - ou simplesmente de um tempo para pensar em nada. 
Lembro-me de, aí por 1993, ter passado por Óbidos, na companhia de um grupo de teatro numeroso e esfuziante. Não sei explicar porquê, mas senti-me, a dada altura, ansioso, desejoso de sair dali. Não houvera qualquer motivo objetivo para a neura (discussões, conflitos, ofensas, medos ou falhas de saúde). Sei que, de maneira disfarçada, como quem prevarica conscientemente, me afastei dos companheiros de viagem e andei pelas ruas da vila à procura de nem eu sabia quê. Até encontrar uma pequena igreja e nela entrar. Estava quase deserta. Vi apenas uma senhora, junto ao altar, que varria o chão. Sentei-me num banco, logo à entrada, e pus-me a pensar em nada. Uma paz (religiosa, dir-se-ia) caiu sobre o que eu era – e por uma boa meia hora descansei. Não houve rezas, vozes saindo da santaria de barro ou da cruz central. Nem coros celestiais de anjos. Nem luzes piscando nos painéis da parede. Houve só o silêncio e o recolhimento inteiro. A paz. Eu ali escondido do mundo, olhando o tecto alto da igreja. O sussurro da vassoura sobre a laje. Aquilo não foi, digo-vos, senão uma espécie de sono-sonho de olhos abertos, a que se seguiu a continuação da vida como ela existia até ao início do presente parágrafo.
Continuo a praticar esta ginástica de morrer de vez em quando. Preciso de morrer de vez em quando para viver bem. Não tem de ser no interior de igrejas, naturalmente. Pode morrer-se muito bem, por horas completas, num Café, num jardim, em nossa casa. Ou dentro de um livro, de um filme, de uma música.
Ainda por cima, é muito agradável a ressurreição deveniente. Acontece-me até, embora seja raro, ainda não ter morrido e já estar mortinho por ressuscitar.
 
Coimbra, 25 de Março de 2017.
Joaquim Jorge Carvalho
[Esta crónica foi publicada no semanário O Ribatejo, edição de 30-03-2017.]

domingo, 26 de março de 2017

ZONA DE PERECÍVEIS (80)


 
Relógio de pulso
 
A minha primeira crónica da Primavera de 2017 apareceu-me ao entardecer. Vi-a atravessar a rua, sem ainda a reconhecer, entrar na pastelaria e vir até à mesa do meu chá vespertino. Cumprimentou-me. Hesitei. Desbloqueou-me a memória dizendo o seu nome (vamos imaginar que é Florência), e também a turma que, há uns quinze anos, fora sua e minha.
No 5.º e no 6.º ano de escolaridade, ela fora oficialmente uma jovem com NEE (Necessidades Educativas Especiais), tendo direito a tratamento pedagógico diferenciado. Mas a legislação mudou, entretanto, e as suas dificuldades deixaram de ser “suficientes” para a integrar na tal lista de alunos com direito a discriminação positiva. A Escola, à falta de melhor alternativa, optou por recomendar a menina para um CEF (Curso de Educação e Formação).
Fui seu professor de Francês nesse específico contexto. Percebi as evidentes dificuldades da Florência em matéria de aprendizagem dos conceitos mais complexos, de aplicação dos conhecimentos (mal) adquiridos, de autonomia na realização da maioria das tarefas propostas. Mas também se lhe notava, a léguas, a alegria esfusiante de viver, a frescura dos desabafos, a espontaneidade do riso ou da momentânea fúria, a teimosa esperança num futuro radioso.
Certa manhã, eu tentava ensinar a turma a dizer as horas en français. Dei conta do embaraço da Florência desde o início da aula. Tentei, com exemplos repetidos, obter dela uma resposta satisfatória (por mim, claro, mas sobretudo por si). E dela nada, senão um esgar de desespero. A dado momento, após desenhar um relógio no quadro, com os ponteiros a indicar talvez as seis e trinta, desafiei-a a dizer que horas eram em português. Também nesse caso, nada. Pior: passei a notar-lhe nos olhos uma espécie de fúria.
Estás zangada comigo, Florência?”, perguntei. Ela deve ter tido tanta pena de mim que, num murmúrio, decidiu explicar-me o que se passava. E era isto: “Ó sôtor, eu nunca aprendi as horas!
Impedi os risinhos dos outros e assegurei-lhe (com estas ou outras palavras) que era uma honra podermos ensiná-la a ver e a dizer as horas, porque isso nos garantia, na sua história de vida, a inesquecibilidade. E, sim, de modo claro, sereno, paciente, eu e os colegas da Florência ensinámo-la.
Já antes desse dia ela usava relógio no seu pulso fino de menina. Mas que alegria, imagino, deverá ter sido, para si, olhar para os ponteiros correndo no aparelho e dizer aos pais, nessa noite, que horas eram!
Falei com a Florência-mulher por poucos minutos. Ela estava de férias em Portugal até ao final da semana e viera à pastelaria buscar pão. Trazia uma irrequieta criança ao colo. “É teu?”, perguntei. “É. É uma menina. O meu mais velho está em casa da minha sogra.” Depois, disse-me que estava na Suíça com o marido há já oito anos, que já se desenrascava a falar alemão com os clientes do restaurante onde trabalhava, que estava bem, graças a Deus.
Subitamente, olhou para o pulso, fez uma cara meio aflita, meio divertida, e declarou que tinha de se despachar. “O meu marido ficou de me esperar lá em baixo, nas bombas de gasolina. Adeus, sôtor!
Adeus, Florência. Vai à tua vida. Não há tempo a perder.
 
Coimbra, 19 de Março de 2017.
Joaquim Jorge Carvalho
[Esta crónica foi publicada no semanário O Ribatejo, edição de 24-03-2017.]

sábado, 18 de março de 2017

ZONA DE PERECÍVEIS (79)



Breviário da gratidão

Em 1979, eu tinha 16 anos e cursava o 11.º ano na prestigiada Escola Secundária José Falcão. Antes de ali chegar, estudara até ao 9.º ano na Escola Rainha Santa Isabel, ali à Pedrulha, na periferia da cidade. Como eu, os meus colegas eram filhos de agricultores, operários, humildes empregados de comércio. Por ter sido, até à data, tão bom aluno, calhou-me depois, na nova-vetusta-chique Escola, ficar na turma A do 10.º ano, eleito para uma espécie de (oficiosa) selecção que, em muitos estabelecimentos de ensino, era frequente fazer-se. 
Estranhei quase tudo: os modos afectados das meninas, a distância dos professores, as roupas de marca, o indisfarçado desprezo a que me votavam os rapazes (filhos, em geral, de gente importante e abastada). Salvou-me da absoluta infelicidade uma razoável notoriedade conquistada à custa dos resultados escolares e do futebol (eu era um momentâneo craque juvenil do União de Coimbra).
Quando surgiu a possibilidade de uma viagem de finalistas ao Algarve, com estadia de uma semana, não me entusiasmei. Para além do desamor pela Escola, havia o pormenor maior dos treinos e dos jogos que eu perderia. Mas um colega da Académica convenceu-me, lembrando-me que poderíamos treinar “lá”. De modo que falei com o treinador, o mister Pinho, e ele – embora criticando a oportunidade do evento – autorizou-me a inscrição. Acrescentou até que um aluno assim, “exemplar”, merecia bem este prémio.
Faltava só falar com a minha família – e pagar. Não tenho exactamente presente o preço, mas deveria andar pelos três contos (hoje, quinze euros). Ora, foi esta circunstância a pôr ali um travão cínico ao sonho de momento. Percebi que aquela importância era, para o meu pobre agregado, excessiva. O meu Pai, contudo, optou por dizer apenas que era muito dinheiro, que se ia ver, que não tivesse muitas ilusões.
Ao longo das duas semanas seguintes, fui-lhe perguntando se sempre iria ou não, porque (repetia) a directora de turma queria ter a lista completa de inscritos. O meu Pai tartamudeava, insistia que era quase impossível, que esperasse. O pior para si, creio, foi eu entretanto ter marcado um grande golo no campo da Arregaça e dar-lhe a assinar, em certa manhã, o teste de Português com um maravilhoso “Muito Bom” chapado no cabeçalho.
Veio, nesta narrativa neo-realista, o fim-de-semana anterior à 3ª Feira final, data-limite para entregar o dinheiro da inscrição, ou – como ia sendo tão provável – declarar a minha desistência (alegadamente por “razões familiares”). O meu Pai foi comigo, nesse Sábado, à sala de bingo do União de Coimbra. Aí pelas onze horas da noite, gritou “Bingo!” tão alto que toda a gente à volta se assustou. O prémio foi, talvez, de uns seis contos (trinta euros). Vi-o fazer mentalmente contas à vida (gasolina, refeições, água ou luz), guardar um conto e quinhentos para si, e enfim entregar-me um grosso maço de notas. “Toma”, disse, “paga a viagem e guarda o resto para gastares lá.”
Agradeci-lho num murmúrio. Apetecia-me até abraçá-lo, mas não tínhamos suficiente à-vontade para tamanha expansão. À hora em que parti para o Algarve, ele não estava. Deixei-lhe um papel sobre a mesinha-de-cabeceira dizendo-lhe que nunca me esqueceria daquela oferta. Contra a morte, ainda hoje lhe agradeço. Na maioria das vezes, por escrito.

Vila Real, 12 de Março de 2017.
Joaquim Jorge Carvalho
[Esta crónica foi publicada no semanário O Ribatejo, edição de 16-03-2017.)

domingo, 12 de março de 2017

ZONA DE PERECÍVEIS (78)



O deserto visto da Escola

Os maiores inimigos da Escola (em particular, da Escola pública) são alguns corvos salazarentos, que por sua natureza odeiam a democratização do conhecimento, bem como alguns (não poucos) pardais porreiristas, que por preguiça ou ideologia barata se dão mal com a tutelar exigência e odeiam a ideia do destaque individual através do esforço e do sacrifício.
Estão errados os que explicam os problemas da Escola unicamente à luz da sua democratização, no pressuposto de que o fenómeno massificador é incompatível com a busca da excelência. Falham igualmente os que vêem no amolecimento da exigência e do rigor escolares a solução para o desinteresse e o insucesso dos alunos.
Ponto de ordem: não entendo que, sobre os deveres de ensinar e de aprender, haja sequer espaço para debate. Os currículos existentes (fruto, supostamente, de um estudo rigoroso, de uma análise cabal e, enfim, de uma responsável fundamentação cultural, pedagógica, legal) são para se cumprir, ponto final. Tão-pouco me parece pertinente equacionar um regresso ao passado, que reduzisse a Escola à cartilha fascista, assente na apreensão/acumulação/reprodução, pelos alunos, de conhecimentos, sem neles se potenciar o espírito crítico, o valor da descoberta, a criatividade e a visão compreensiva e globalizante dos saberes.
A discussão que vale mesmo a pena fazer-se, hoje, é sobre os princípios e os valores a defender-ensinar-praticar-viver no universo escolar. A Escola deve estar aberta ao Presente, à comunidade, à economia, à modernidade? Sim, mas não pode, em meu entender, tornar-se numa Maria-vai-com-as-outras. A sua própria sobrevivência, como espaço decente (probo, virtuoso, democrático, justo, solidário), depende do grau de resistência que nela exista face à sujidade mundanal. Não se trata, em boa verdade, de fechar a Escola ao exterior; trata-se de a defender das agressões externas a que está sujeita - degradação dos relacionamentos interpessoais, violência selvagem, conspurcação da Língua (estropiação da gramática, empobrecimento do vocabulário, desprezo da elegância falante).
Problema óbvio: como obrigar os alunos, habituados à vida “lá de fora”, a frequentar uma Escola cujas regras fundamentais são tão singulares, tão distintas do lodo cínico que é o resto do mundo?
Com triste frequência, muitos professores - ora revoltados, ora resignados - queixam-se de a Escola nada significar, hoje, para os jovens. E de, por isso, o trabalho docente se assemelhar a “pregar no deserto”. Eu creio, ainda assim, que não há outro caminho senão continuar a pregação. Na obra-prima de Saint-Exupéry, O Principezinho, fica claro que o encanto de cada deserto é justamente a possibilidade de, procurando bem, encontrarmos um poço e nele saciarmos a nossa sede.
Na Escola e na vida em geral, é preciso nunca desistirmos da água.

Vila Real, 07 de Março de 2017.
Joaquim Jorge Carvalho
[Esta crónica foi publicada no semanário O Ribatejo, edição de 10-03-2017.]

segunda-feira, 6 de março de 2017

ZONA DE PERECÍVEIS (77)


Recado do Céu


A importância do Papa, no contexto político e cultural do planeta, tem variado de acordo com a interpretação que cada sumo pontífice faz do cargo. Na maior parte das vezes, a voz desta eminência católica adapta-se confortavelmente ao statu quo, observando um prudentíssimo respeito (ou temor) pelos estados mais poderosos e pelas instituições mais abastadas. Quando auto-votado à qualidade de peça meramente decorativa, o Papa evita a agitação das águas e goza, em geral, da simpática condescendência ou do asséptico apreço de líderes políticos, empresários milionários e clérigos de carreira.
Sucedeu que, em 2013, subiu à cadeira de Pedro um argentino invulgar, que não abdicou, após a eleição, da sua mais crua e natural humanidade. O mundo dos interesses & protocolos instalados, do verniz hipócrita e da diplomacia cínica vai-se espantando, com frequência, perante atitudes inesperadas de Francisco: umas vezes, trata-se de um impulsivo abraço a um doente ou de um telefonema improvável a uma anónima idosa (de Portugal ou das Américas); outras vezes, a coisa é mais perigosa – e acontecem discursos desempoeirados sobre xenofobia, racismo, pedofilia, luxos obscenos, pena de morte, indiferença perante a fome e a exploração.
O último episódio conhecido deu-se há poucos dias. Soube dele pelo JN (edição de 24-02-2017, página 31). Durante uma missa, a que presidiu no dia 23 de Fevereiro, na sua residência de Casa Santa Marta, o Papa Francisco, à pergunta (retórica) “O que é um escândalo?”, respondeu: “É dizer uma coisa e fazer outra, é a vida dupla. Eu sou muito católico, vou sempre à missa, pertenço a esta ou àquela associação, mas a minha vida não é cristã, não pago com justiça aos meus empregados, aproveito-me das pessoas, faço negócios sujos. [...] Muitos católicos são assim e por isso causam escândalo. [...] Quantas vezes ouvimos, todos nós, no nosso bairro e noutras partes: para ser um católico como esse, o melhor era ser ateu? É esse o escândalo. Destrói-nos, deita-nos por terra.”
A  etimologia ensina-nos que “pontífice” deriva de “ponte” – e a ponte, neste caso, significa o caminho suspenso entre a Terra e o (simbólico) Céu. A esta luz, consola-me pensar no desassossego dos grandes administradores com salários de milhões, dos presidentes amadores de muros e deportações, dos corruptos da justiça, da economia & finanças e do desporto, dos hipócritas em geral, quando ouvem a autoridade de serviço, reportando uma apóstrofe de Deus, dizer-lhes: “Ó gente sem alma e sem escrúpulos, vós não prestais! Nenhum dinheiro, nenhum poder, nenhuma fama vos esconde desta verdade indiscutível e última: nada valeis! Não prestais!
Das palavras de Francisco, mesmo a quem não tem fé, apetece dizer que são santas.

Vila Real, 26 de Fevereiro de 2017.
Joaquim Jorge Carvalho
[Esta crónica foi publicada no semanário O Ribatejo, edição de 02-03-2017.]