Bússola do Muito Mar

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Número de Ondas

sexta-feira, 21 de julho de 2017

ZONA DE PERECÍVEIS (96)




O paiol da hipocrisia

 O (alegado) roubo de material, em Tancos, teve o condão de pôr a falar de tropa alguns tudólogos que, mal sabendo a diferença entre à vontade, firme e sentido, lá puseram a marchar as respectivas (más) línguas. Facilmente se percebeu, na sanha geral dos comentários, que o episódio lhes pareceu sobretudo uma maravilhosa oportunidade para malhar no ministro da Defesa e, mais concretamente, no governo que por agora manda em Portugal.
 Sobre a guerra partidária, não tenho, por estes dias, paciência para escrever. Mas da mesma maneira que a alergia do PS às demissões me faz sorrir, não consigo evitar uma profunda gargalhada quando ouço a direita clamar por cabeças ministeriais. A mesma direita que apenas estremeceu perante as notícias dos impostos por pagar de Passos Coelho (e aquela história, muito mal esclarecida, da “exclusividade” como deputado, que o deputado não queria por estar a trabalhar para uma empresa, mas que não o impediu de, no final do mandato, pedir um chorudo subsídio por, afinal, o trabalho fora da assembleia ter sido realizado carinhosamente pro bono). Ainda se lembram? A mesma direita que compreendeu, comovida e doce, a revogada irrevogabilidade do ministro Portas (ou a bondade das suas explicações submarinas). A mesma direita que aguentou até ao limite (ou para lá do limite) o escândalo do cábula Relvas, os tiros no pé de Machete, as previsões erradas de Gaspar, o caos trazido aos tribunais por Paula Teixeira da Cruz, os swaps mal explicados de Maria Luís. 
 Quando eu estive na tropa, durante a década de 80 do século XX, em plena “semana de campo”, fui contemporâneo de um instruendo meio maluco (que veio a ser dispensado por motivos – adivinhai – psiquiátricos). Certa manhã, após o seu serviço de vigia, veio queixar-se ao comandante de que uns brincalhões do seu pelotão lhe haviam roubado e escondido a G3. O comandante, apoplético, quis logo saber quem fora o autor dessa enormidade. O doido respondeu-lhe: “Sei lá. Eu estava a dormir!” 
 A arma veio a ser encontrada, mas ninguém se acusou – e, em resultado desse silêncio, todo o pelotão (creio) foi castigado. A ninguém ocorreu culpar o comandante da unidade ou o ministro da Defesa de então pelo sucedido.
 Estou convencido de que o mais perigoso inimigo da tropa é o relaxamento que acontece em situações de paz. A inexistência de conflitos iminentes tende a adormecer os homens e as instituições. É evidente que a instituição castrense tem de responder perante o Estado, quando há problemas como o de Tancos. Ao poder político, que representa o Estado, caberá perceber o que se passou. Depois, em articulação com as forças armadas, punir os culpados e prevenir quaisquer outros (futuros) problemas. Mas a única demissão admissível, neste contexto, é a da fuga cobarde e irresponsável.
 O bruá hipócrita que se levantou, entre civis e militares carregadinhos de demagogia e de interesses (mal) disfarçados, compreendeu choros à roda do “desinvestimento na defesa”, da falta de efectivos e da ausência de videovigilância. Mas nenhum militar que se preze explica o (alegado) roubo de armas com faltas de dinheiro, de tropas ou de câmaras de filmar. Sabem bem que ali houve, de certeza, distracção, desconcentração, relaxamento.
 A paz prolongada talvez dificulte o cumprimento cuidadoso e focado dos mais básicos deveres militares. Ora, convenhamos: não há outra maneira de as forças armadas desempenharem bem a sua função senão agir como se houvesse guerra, mesmo quando (felizmente) não há.

Vila Real, 16 de Julho de 2017.
Joaquim Jorge Carvalho
 [A imagem (da BD “Recruta Zero”) foi colhida, com a devida vénia, na net.]

sexta-feira, 14 de julho de 2017

ZONA DE PERECÍVEIS (96)




Crónica de estar cansado

Da janela do quarto transmontano onde durmo há cerca de quinze anos, avista-se uma avenida bonita, dita “da Noruega” em homenagem aos nórdicos que, no pós-25 de Abril, ajudaram a custear o Centro de Saúde local. É por aí que me entra o Sol de cada novo dia, e também a vozearia viva dos ribeirapenenses, ou, no Inverno, os gemidos do vento e o choro da chuva.
Há poucos dias, à hora de deitar, chegou-me dessa janela um ruído semelhante ao de dedos batendo no vidro. Curioso, subi a persiana e apanhei um dos maiores sustos da minha vida: do lado de fora, pousada no parapeito exterior, olhando-me seraficamente, estava uma pomba. Não sei porquê, pareceu-me uma pomba velha. Soltei um palavrão cobarde e chamei a minha mulher para que visse o que eu via.
Ficámos ambos, nos segundos devenientes, sob o olhar triste da ave. Depois, eu bati no vidro, para que ela voasse dali pra fora e se concluísse tamanha estranheza nocturna. O animal estremeceu um pouco, mas não voou. Tentei assustá-lo com a descida da persiana. Em vão. Lá acabámos por nos conformar com aquela vizinhança misteriosa. Mas fiquei, por bastantes minutos, de olhos abertos na escuridão, a pensar naquilo – e quando a minha mulher murmurou “Que estranho…”, não pude deixar de sorrir, avaliando o milagre que era estarmos ambos tão preocupados com uma pomba triste. Disse-lhe: “Se calhar, está apenas doente…”.
De manhã, a ave já lá não estava. Não caíra morta na varanda sob a janela, nem na rua. Talvez tivesse continuado a sua saga viajante por outras casas. O parapeito exterior da fenestra ficou pejado de excrementos e de algumas penas.
Ultrapassada a possibilidade (vulgar e bruta) de esta história não significar coisa alguma, interrogo-me: que pode significar esta história verdadeira? Eu gosto de pensar, como diz Antonio Skármeta (pela voz de Pablo Neruda falando com o seu carteiro da Isla Negra), que a linguagem da Natureza é o que a Natureza nos mostra: o mar e as suas marés são a vida e as suas marés; a noite e o dia são a nossa morte e a nossa ressurreição; as estações do ano são as faces do senhor Tempo; um rio correndo é o humano caminho entre o princípio e o fim (ou entre o nada e o tudo). Etc.
Aquela pomba veio dizer-me o quê? (Parênteses: não me apetece aqui a dimensão da galhofa – era fácil associar a pomba ao Espírito Santo do catecismo e a sua tristeza à falência de um banco de más contas.)
E se fosse a Paz que, por uma noite, desistiu de voar? E se fosse o Espírito Santo original que me trazia um abraço (triste) de quem me morreu? E se fosse Deus, até, muito cansado de existir ou de não existir? E se a pomba fosse eu próprio, depois do telejornal, cansado de tudo?

Coimbra, 08 de Julho de 2017.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.thedodo.com.]

terça-feira, 11 de julho de 2017

ZONA DE PERECÍVEIS (95)

Sobre o Teatro

Alguém, algures, há muito ou pouco tempo, escreveu uma peça de teatro. Entre a imaginação de quem escreve e o papel propriamente dito, viajam pessoas-personagens, coisas de mercearia e de alma, emoções, ideias, gestos, amores, vozes, cenários, luzes e sombras, sons de vento ou tempestade, talvez música: um mundo.
Eu leio essa peça. Surpreendo-me, rio-me, aborreço-me, comovo-me, indigno-me, tomo as dores de personagens-pessoas em papel-carne, amo-as ou odeio-as, aprendo (ou reaprendo) a olhar para a raça humana, vejo até, eventualmente, o que somos, o que sou.
Enceno essa peça. Quero ver no palco as pessoas-personagens-pessoas que me perturbaram, me encantaram, me desafiaram a mais profundamente perceber o que se passa, entre cada respiração e cada passo, comigo e com a vulgar humanidade que em conjunto somos. Preciso que os actores (escolhidos por mim) encarnem dignamente as palavras que li-senti no texto escrito por alguém, algures, há muito ou pouco tempo. Quero construir os exactos cenários para a peça, de acordo com as instruções didascálicas ou as sugestões psicadélicas concomitantes à leitura. Pretendo oferecer aos meus contemporâneos – ao público – um mundo novo, quiçá em forma de interrogação, ou de novidade, ou de inferno, ou de abrigo.
Entre alguém que há muito ou pouco tempo escreveu uma peça de teatro e a minha circunstância encenadora, há um fenómeno de comunicação não apenas cerebral, mas sobretudo estética. O nosso encontro resulta fundamentalmente de duas dimensões: amor e beleza. É dessa (e nessa) cumplicidade que nasce o espectáculo teatral. Imagem possível: o fósforo risca a lixa e incendeia-se. O espectáculo é o fogo enquanto dura (como, em outros voos, escreveu Vinicius), tanto faz que o dramaturgo seja o fósforo ou a lixa da metáfora, e o encenador idem.
A minha paixão pelo teatro começou na infância. Há, pelo menos, 30 anos que acrescento à minha missão de apóstolo da língua e da literatura a dinamização de clubes de teatro (e, na última década, de cinema). Não conheço melhor território para desenvolver, nos nossos jovens, o gosto pelo trabalho em equipa. O processo (feito de repetições, de correcção de erros, de interacção produtiva) tende a consolidar o princípio, prático e filosófico, de que o brilho do outro nos ajuda a brilhar a nós próprios, e de que a beleza geral do espectáculo depende de numerosos e distintos contributos de cada um.
Acabei de escrever o relatório que, na condição de coordenador do Clube de Teatro & Cinema da minha escola, tinha de apresentar no final do ano lectivo. No documento, recordei os objectivos deste espaço extra-curricular: contribuir para a formação cultural dos alunos; desenvolver o conhecimento e o gosto dos alunos na área da expressão dramática; cultivar o sentido estético e crítico dos alunos face a espectáculos de cariz performativo; contribuir para a auto e a heterodescoberta de talentos e capacidades, reforçando a autoestima individual e grupal; estimular a leitura de obras literárias de género dramático (sobretudo da Língua Portuguesa); treinar activamente a memória; desenvolver e sistematizar o trabalho em grupo; desenvolver competências essenciais na área da comunicação (no domínio da escrita, da oralidade e da expressão corporal); articular áreas do saber (Literatura, História, Ciências) com áreas eminentemente técnico-tecnológicas e artísticas (uso do computador; recurso a luz, som, desenho, pintura, música, dança); enriquecer o nosso plano de actividades.
Faltou-me dizer que o teatro é, muito para além das semanas de ensaios e dos trinta-quarenta minutos de récita, o que fica na cúmplice memória de público e actores: o termos estado juntos, naquele cósmico instante em que nos rimos ou nos comovemos - como se todos, ali, naquele momento, fôssemos a inteira humanidade.

Coimbra, 01 de Julho de 2017.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem é a de um cartaz anunciando um espectáculo a que pude assistir ao vivo, em Coimbra (no Teatro Avenida), há muitos anos. Fui então gratamente atropelado pelo belo texto de Eduardo de Filippo, Nápoles Milionária. O cartaz da Companhia Teatral do Chiado reproduz o original, datado de 1945. Na versão portuguesa, brilhava sobretudo o génio inesquecível do actor Mário Viegas.]

sábado, 1 de julho de 2017

ZONA DE PERECÍVEIS (94)











Recordações do Sol

Fui espectador (distraído) de um debate recente sobre os problemas do ensino superior. Confesso-vos: o maior de todos, visto o fenómeno das profundezas do meu egoísmo, foi (é) a minha Filha ter saído de casa para estudar em Coimbra.
Tenho para sempre na memória aquele rosto à janela rodoviária dizendo-nos adeus, e o nosso desespero sorridente retribuindo o gesto, enquanto a camioneta se afastava. Como náufragos, órfãos da “menina”, voltámos a casa, pressentindo que a vida não mais seria a mesma.
Passou a estar demasiadamente arrumado e quieto o quarto da nossa Filha. E foi por esse tempo que, na parede exterior da divisão vaga, um casal de andorinhas fez o seu ninho. Apressei-me a fotografar a novidade e a enviar as imagens para a dona dos aposentos. Ela própria, ao fim-de-semana, se encantou com a escolha das aves e participou comigo na exegese possível desse tácito poema.
Agora, a nossa “menina” é já uma senhora e tem a sua vida muito fora do radar progenitor. Licenciou-se. Trabalhou em Coimbra, no Porto, em Lisboa. Tem conta bancária, despesas, prazos, cumplicidades & adversidades só dela, mundo próprio. Nós, ora discretamente, ora de forma desajeitada, obrigamo-la a dizer se está tudo bem, se já jantou, se já foi ao médico, se já fez as pazes com sabemos lá quem, se precisa de ajuda. Só adormecemos depois da certeza de ela estar bem, como há vinte e tantos anos, quando vínhamos do hospital pedriático, cheios de angústia e medicamentos para uma gastroenterite infantil.
Quando coincidimos em casa, num Sábado qualquer, sinto uma quase indizível sensação de completude cósmica, como se, por horas, tudo-mesmo-tudo estivesse certo.
Aprecio agora, ainda mais, o regresso das andorinhas. Elas trazem no bico as primeiras sílabas da Primavera e, sem cerimónia, ocupam o seu lugar na nossa casa.
O problema de sofrermos desta doença chamada poesia está em antecipadamente sabermos que partirão, que o ninho vivo volverá a ninho vazio. Ora, quando as aves anunciadoras do Sol se afastam do lugar de onde as vemos-vimos o que fica? Resposta: o tê-las visto; o tê-las tido connosco enquanto foi possível. Não há, senhores, outra eternidade.
Já (me) tinha explicado esta estima e esta gratidão pela memória, há uns anos, nuns versos que compus para uma sessão (escolar) de poesia e teatro. Recordo-vo-los:

Deixa lá, não fiques triste:
O voo que já não vês
Pode ser voo outra vez
Se te lembrares do que viste.

Coimbra, 24 de Junho de 2017.
Joaquim Jorge Carvalho
[Fotos JJC - Ribeira de Pena, 06 de Junho de 2017.]