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quinta-feira, 12 de julho de 2018

ZONA DE PERECÍVEIS (144)



Condição de gladiador

A lógica das competições a eliminar – como é o caso dos campeonatos da Europa e do Mundo, na modalidade sagrada do futebol – compreende um pressuposto cruel: no final da fase de grupos, de 32 candidatos restam 16; depois, nos oitavos de final, de 16 restam 8; etc. Na final da competição, enfrentam-se duas equipas carregadas de sonhos, de pulsão épica, conscientes do cariz definitivo daquela oportunidade voadora. Sai-se dali herói & imortal, ou em versão morto-vivo, tresandando a falhanço, quiçá sujeito à piedadezinha condescendente ou a coisa pior. 
Depois de sofrer a derrota portuguesa às mãos do Uruguai e depois de assistir à eliminação da Espanha, da Dinamarca, do México e do Japão, confirmei que o reverso da glória de uns é a desmesurada tristeza de outros. Pelo meio, felizmente, há gestos de fair play que nos consolam e educam. Mas a minha simpatia (Europeu de 2016 à parte) vai invariavelmente para os que perdem, i.e. aqueles que experimentam, em determinados momentos, o fel da vida. 
Bem sei que o futebol é apenas um jogo. Bem sei que as derrotas e as vitórias, ali, são realidades de somenos quando comparadas com as verdadeiras tragédias – doenças, guerras, falecimentos, exploração, violência, pobreza, fome. Creio, contudo, que a natureza das lágrimas dos jogadores mexicanos, de uma formosa dinamarquesa ou de um menino espanhol, reagindo à derrota, é a mesma que verteriam noutras circunstâncias, por exemplo na leitura de um romance, no visionamento de um filme, no acto de escutar uma canção, num reencontro familiar, num funeral, durante uma epifania à mesa do Café. Porque somos, enquanto humanos, frágeis e magníficas vítimas da circunstância de pensar e de sentir. 
A memória, via cinema, traz-me os gladiadores que, no tempo dos Romanos, divertiam os espectadores com os seus combates mortais. Diziam, ao entrar para a arena: Ave Caesar, morituri te salutant (traduzo livremente: “Os que vão morrer, ó César, saúdam-te”). Isto é, a morte (nesse dia ou mais tarde) era uma premissa inerente à sua própria condição gladiadora. Fazia – e faz – parte do jogo. Em princípio, note-se, nenhuma equipa joga para perder. Nenhum jogador se demite de sonhar. Nenhum homem entra na competição sem a devida dose de ilusões. Mas o preço a pagar, mais cedo ou mais tarde, para os que perdem, é fatalmente alto. E sabemos bem como as desilusões são atropelamentos graves, que obrigam a recuperações quase sempre lentas e dolorosas. 
Não estou só a falar do Mundial da Rússia. Estou a falar da Vida. Dói-me saber que o Pepe, o Fonte, o Bruno Alves, o Quaresma e o Cristiano Ronaldo já são trintões (como, aliás, o Messi, o Iniesta, o Modric) – e que o seu fulgor tenderá a apagar-se em breve. Quem viver verá, talvez, como os deuses de hoje passarão de apolíneos gladiadores a obesos calvos, sujeitos ao reumatismo e às saudades. 
O futebol continua, claro. E, claro, a vida continua. Novos craques estão a despontar, há novas competições na calha, o presente é já o futuro a mostrar-se. Mestre João, meu tão saudoso sogro, fazia questão de, em qualquer festa, pôr toda a gente a cantar uma quadra que sempre me impressionou: “Primavera das flores / Como ela não há mais! / Ai, Primavera vai e volta sempre, / Ai, Mocidade já não volta mais!” Tem sido essa, na verdade, a melodia que preside a tudo quanto vejo-sinto-escrevo. 

Nota extra: Esta crónica foi a útima que concebi para O Ribatejo, em versão de papel. O timoneiro do semanário informou-me desse iminente fim do nosso jornal na sua dimensão tradicional, corpórea, natural. O último número saiu mesmo a 12-07-2018. Custa-me esse ocaso; conforta-me a ideia de que sobreviverá digitalmente. Não gosto destes tempos, porém. Temo que o papel da imprensa venha a degradar-se com o fim da imprensa de papel. Abraço solidário para todos quantos têm feito e lido o jornal. Gratidão reiterada ao Daniel Abrunheiro e ao Joaquim Duarte, que me trouxeram para este regaço digno e livre. 

Coimbra, 02 de Julho de 2018. 
Joaquim Jorge Carvalho 
[A imagem da última capa d’O Ribatejo em papel foi colhida, com a devida vénia, no sítio do jornal. A foto de Cristiano Ronaldo foi colhida, com a devida vénia, em https://www.sapo-pt-]

segunda-feira, 2 de julho de 2018

ZONA DE PERECÍVEIS (143)


António, Filho de Pedro

Ainda não são onze horas e tenho intervalo na labuta diária até às dezassete. Voo para casa, antecipando mentalmente as tarefas imediatas a cumprir: ficar descalço, substituir calças por calções, tirar a cerveja do frigorífico, pôr o cachecol à janela, ergonomizar o sofá e assegurar a Nosso Senhor Cristiano que confio n’Ele e no(s) Santos. À uma da tarde começa o Portugal-Marrocos. 
Sucede que, como é ainda cedo, faço um zapping mecânico e dou com uma entrevista, na TVI, que me concita a atenção: Manuel Luís Goucha conversa com António Rolo Duarte, Filho de Pedro Rolo Duarte (falecido há pouco tempo, como decerto sabem). Para além do cariz temporão da morte deste jornalista, aos cinquenta e três anos, vítima de doença oncológica, doeu-me que os jornais, a rádio e a televisão tenham perdido um senhor importante, que escrevia e falava bem, que era inteligente, que tinha sentido de humor, que era livre & desassombrado. É dele uma frase verdadeiramente extraordinária (que debati com os meus alunos de Jornalismo, na década de 90 do século XX) – cito de cor: “O Expresso é o maior jornal português; o Público é o melhor; O Independente é o mais importante.” Tudo, à época, uma verdade pura e rigorosa. 
Na entrevista, conduzida de forma respeitosa, segura e amável, Goucha – que é muito mais que aquele boneco pimba de concursos e gritarias de feira – convidou António a falar do Pai, a propósito de um livro (que estou a ler) intitulado Não respire. É uma edição póstuma, que o jornalista concluiu no cais derradeiro da sua existência. Pai e Filho chamaram-lhe, no durante da sua concepção, e rindo-se ambos da pompa vocabular, “a obra”. Encontramos aí memórias, crónicas, episódios cheios de humanidade e vizinhança, reflexões sobre o Presente tão exageradamente fugidio e provisório, apontamentos do encanto e do desencanto, vidas. 
Realço o facto de fazer parte desse volume uma espécie de livro-dentro-do-livro intitulado 16 Ideias Para Um Rapaz de 16 Anos Levar Consigo Para Longe. Trata-se de um opúsculo expressamente escrito por Pedro Rolo Duarte em vésperas de António partir – sozinho - para a Austrália, onde faria o ensino secundário. O Pai, apesar de assustado com a distância a haver, deixou-o ir, mas passou-lhe para as mãos um conjunto de recomendações (sábias, sensatas, divertidas) que deveriam servir também para o adulto, ainda que ausente, estar com o jovem.
Ouvi algumas destas “ideias”, nem todas originais por aí além (sê tu próprio, persegue os teus sonhos, etc.), outras brilhantes (por exemplo, o importante, em relação ao medo, é o que fazemos com ele). Identifiquei-me com António, lembrando-me do meu Pai, ausente há muitos anos, e principalmente com Pedro, lembrando-me da minha Filha, para quem um dia não serei senão memória. Perguntei-me: que reterá de mim a minha Filha quando eu já não estiver para a aconselhar, de viva voz, sobre a existência? Talvez, ocorre-me agora, uma frase que costumo atirar para a mesa das reuniões familiares ou para a areia da praia de Agosto: o fundamental é distinguir, em cada momento, o essencial do acessório; e, atenção, embora o essencial varie de acordo com o contexto, deve estar sempre ligado aos direitos do Amor e aos deveres da Honestidade. Pelo sim, pelo não, inscrevo isto uma crónica de jornal, por ser da natureza da escrita durar mais do que a tão falível circunstância de se estar vivo. 
Sumário: no dia 20 de Junho, houve esta entrevista e, depois, um golo mais de Cristiano Ronaldo. Ganhei o dia por dois a zero. 

Coimbra, 23 de Junho de 2018. 
Joaquim Jorge Carvalho
[Esta crónica foi publicada no semanário O Ribatejo, edição de 28-06-2018. A imagem (capa do livro de Pedro Rolo Duarte) foi colhida, com a devida vénia, em https://www.fnac.pt.]

terça-feira, 26 de junho de 2018

ZONA DE PERECÍVEIS (142)


Selva Rodoviária

Poucas situações acordam tão facilmente a besta que há em mim como os automobilistas irresponsáveis, capazes de pôr em perigo a sua vida e – pior – a dos outros com manobras estúpidas. 
Não são precisos grandes estudos para perceber, nos comportamentos dos condutores perigosos que assassinam quem calha, um conjunto óbvio de patologias, desde a psicológica necessidade de concitar atenções e admiração dos transeuntes, até à ilusão demencial de ser o melhor (o mais rápido, o mais habilidoso, o mais tudo), nascido para espantar a plebe. Vejo estes pedregulhos mentais por todo o lado: em auto-estradas, em ruas da minha cidade, em vias secundárias que me ligam a residência à vila onde trabalho. Já me salvei várias vezes da morte (in extremis) travando a fundo ou fugindo para a valeta, de modo a que um anormal completasse certa ultrapassagem proibida sem chocar com o meu carro. Já evitei, gritando ou buzinando desesperadamente, o atropelamento de peões (incluindo o da minha Filha), só por ter adivinhado, a tempo, que a loira do carro cinzento não pararia na passadeira. 
Com a idade, dou-me pior com a estupidez e chego a desejar - Deus me perdoe - a morte ou um qualquer acidente exemplar dos que vertiginosamente desafiam a sorte, sem respeito por leis ou, de modo mais lato, pelos outros. 
Regresso, à boleia deste tema, à diferença que me habituei a sublinhar, em conversas de amigos ou em parágrafos académicos, entre o conceito de imoralidade e o de amoralidade. Ambas as palavras têm prefixo, mas o significado que “i” e “a” aportam à palavra-base é diferente. O indivíduo imoral é aquele que comete o crime sabendo que está a cometer um crime. Neste contexto, pode acontecer que o imoral sinta, depois, remorsos. O indivíduo amoral é quem comete o crime sem ter a mínima noção de estar a cometer um crime, marimbando-se para questões de justiça, culpa, falhas éticas. No ser amoral, percebemos uma absolutíssima indiferença pelas consequências dos seus actos, pelos direitos dos outros, pela lei, pela verdade, pelo Bem. Como eu odeio, senhores, os amorais do volante! 
Dir-me-ão: atenção, que a ausência de moral pode ser desculpável; por exemplo, os bêbedos e os drogados devêm inimputáveis por não terem consciência dos seus actos. Respondo eu, fartinho de ser tolerante: são culpados de conduzir bêbedos ou drogados. Ponto final. 
Os antigos acreditavam muito no poder das pragas que se lançassem (silentes ou verbalizadas) – e eu confesso uma esperança mórbida: talvez haja alguns assassinos do volante que, nos últimos anos, tenham sofrido azares diversos, como uma queda, um roubo, uma agressão inesperada, uma doençazita demorada e dolorosa qb, etc. Quiçá esses irritantes contratempos sejam produto das minhas lancinantes pragas, expressas no interior da viatura (enquanto testemunho cabriolices irresponsáveis de condutores símios), à mesa do Café (enquanto leio descrições de acidentes criminosos), em casa (enquanto escrevo uma crónica, lembrando-me da minha Filha quase atropelada por uma cavalgadura chique), ou em declarações à polícia (depois de uma corrida de auto-estrada me ter dado cabo do carro e quase me ter matado). 
Bem sei, isto de rogar pragas é prática pouco cristã. Mas não é natural que, perante as tropelias do Diabo, até um santo perca a paciência? 

Vila Real, 17 de Junho de 2018. 
Joaquim Jorge Carvalho 
[Esta crónica foi publicada no semanário O Ribatejo, edição de 21 de Junho de 2018. A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.direcaodevida.blogspot.com.]

ZONA DE PERECÍVEIS (141)


Sobre a luta dos professores 

Dei por mim a discutir, na sala de professores, no final de uma tarde longa e trabalhosa, a bondade da luta encetada pelos sindicatos de professores nos últimos tempos. Novidade: eu, que sou sindicalizado desde a minha primeira semana na profissão (há já uns bons 33 anos), pus em causa o argumentário anti-governo que tem sido propalado pelos representantes da classe docente. 
Ponto de ordem: estou completamente solidário com a ideia-base destas reivindicações mais recentes, nomeadamente a que defende a contagem integral do tempo de serviço perdido nos últimos (quase) dez anos. Mas a exigência, entretanto matizada, graças a Deus, de uma contagem imediata do tempo perdido já me pareceu excessiva e irrealista. Sim, os professores são uma classe fundamental para o funcionamento normal de uma sociedade moderna e para a construção de um futuro mais capaz, mais digno e mais livre. Mas não são, do ponto de vista das finanças públicas, uma ilha. Não caem os parentes na lama aos sindicatos se, na sua luta, tiverem em conta as reais possibilidade do Estado. 
Para os precipitados que leiam nesta opinião uma canina fidelidade ao governo de Costa, esclareço: sou um livre-pensador, sem outra militância que a da liberdade. Mas apetece-me, aqui, separar as águas, menos por gratidão que por simples sensatez. Foi este governo quem me devolveu rendimentos que outros tiraram; quem me livrou da sobretaxa sanguessuga; quem expressamente preferiu a Escola Pública à Privada; quem descongelou carreiras. Não me parece, senhores, currículo de somenos. 
Já agora: ao longo de quase dez anos, nunca ouvi um colega a verbalizar em público a reivindicação da contagem integral do tempo de serviço “congelado”, para efeitos de progressão na carreira. O que se escutava amiúde era o desejo – desesperado – de receber os subsídios (nem que fosse apenas um; nem que fosse apenas metade); ou o de recuperar a possibilidade de um vencimento sem cortes nem sobretaxas; ou o de finalmente ver o tempo de serviço a contar para se progredir nos escalões… 
Por outro lado, é evidente que o governo não pode autorizar alguns ministérios a conceder a recuperação integral do tempo congelado e impedir outros de igual prática, como infelizmente (e desastradamente) aconteceu. O que me parece razoável é propor um modelo faseado, ao longo de seis-sete anos, em que os maiores prejudicados pelo congelamento do tempo perdido sejam ressarcidos, por exemplo com a diminuição dos anos de permanência nos escalões ou com a aceleração no acesso à reforma. Tenho colegas (dedicados, assíduos, competentes, exemplares até) que sem este tempo contado nunca chegarão ao décimo escalão. E há colegas contratados que sem este tempo vêem adiada para as calendas a sua entrada efectiva na carreira. Não deve ser assi, Não pode ser assim. 
Para terminar: enojam-me as virgens ofendidas que maldosamente colocam em Tiago Brandão Rodrigues as culpas de tudo o que professores sofreram e estão a sofrer. Certa direita, que odeia sindicatos e não sabe o que é pagar-lhes quotas, quer que Mário Nogueira seja mais exigente e mais assertivo. Em última análise, esta direita sonha com a queda do governo. Do ponto de vista de alguns docentes, creio mesmo que tal queda poderia configurar uma espécie de justiça poética: se o governo de Costa caísse, viriam outros (não exactamente novos) tempos; e com Assunção Cristas, por exemplo, outros actores tomariam o palco para tomar decisões. É isso que querem? 

Coimbra, 09 de Junho de 2018. 
Joaquim Jorge Carvalho 
[Esta crónica foi publicada no semanário O Ribatejo, edição de 14 de Junho de 2018. A imagem (uma ponte, pois claro) foi colhida, com a devida vénia, em http://www.pngtree.com.]

domingo, 10 de junho de 2018

ZONA DE PERECÍVEIS (140)



Psicologia do aconchego

A minha Mãe foi internada de urgência e sujeita a operação delicada. Retiraram-lhe parte substancial do intestino grosso, numa madrugada interminável de Maio. À porta do hospital, lá estavam o Z.T. (filho primogénito), o N. (filho mais novo), a F. (anjo-da-guarda da Mãe), e eu com a consubstancial MP. Uma tribo. Reconfirmámos mil vezes a dificuldade de lidar com a mortalidade em geral e com a das Mães em particular. 
No dia seguinte, a nossa paciente mal conseguia falar, estava confusa e sentia-se exausta. Ainda assim, apesar de não ter os dentes colocados, ofereceu-nos um sorriso feliz – e eu li-o como se fosse um daqueles poemas simples e profundos que há, por exemplo, em Sophia ou Jorge Sousa Braga: dizia conforto, alegria, gratidão por não a deixarem ali só.
Confesso-vos que me dou bem com a solidão. Gosto de momentos em que não estou para o mundo, ocupado apenas com o ser dono absoluto do meu tempo – para ler, escrever, meditar, fazer contas e planos, arrumar a secretária e a vida. Encaro esses instantes como uma recarga de oxigénio e deles necessito para enfrentar, depois, o resto da existência. Não é, atentai, uma solidão contra os outros; é apenas um caso de amor & interesse que discretamente mantenho com o universo. Mas assusta-me a outra solidão, a involuntária. A da pobreza de amor, i.e. a da falta desse aconchego vital de que, umas vezes mais do que outras, precisamos tanto. Por isso me orgulha o sentido tribal que há na minha família mais nuclear: em alturas de crise, em nome de uma Causa Maior, esquecem-se as tricas, os caprichos, os azedumes fátuos. E assim foi, uma vez mais, desta feita pela amadíssima matriarca. Dei por mim a pensar, à sua cabeceira, ouvindo gemer na cama ao lado certa idosa sem visitantes, que um dos maiores sofrimentos, na doença, pode ser o sofrer-se sozinho.
Há dias, numa aula, a L. confidenciou à turma que gostava muito das suas sessões com a psicóloga. A revelação surgiu a propósito da palavra “psicologia” (exemplo de palavra morfologicamente composta). Eu lembrei a importância que, para muitas pessoas de todo o mundo, têm os psicólogos. Em países altamente desenvolvidos, o seu apoio é fundamental para o cidadão comum e também para gente famosa das artes, dos média, das finanças, da política, etc. - e não por acaso, acrescentei, há psicólogos muitíssimo bem remunerados. 
A R. saiu-se com esta pergunta: “Mas que faz um psicólogo?”
A L. e eu próprio descrevemos, de forma sucinta, o trabalho destes profissionais. A R. voltou à carga: “Mas, afinal, eles apenas conversam com as pessoas?”
Admiti: “No essencial, sim.”
“Ora”, concluiu a R., “para isso tenho os meus amigos e escuso de pagar!”
Voltámos aos exercícios à roda da formação de palavras. Na minha cabeça ficou esta verdade denotativa e poética: ter amigos (como ter família) é também um seguro de saúde nada despiciendo. Um dia, pensei, escrevo uma crónica sobre esta ideia.

Coimbra, 01 de Junho de 2018.
Joaquim Jorge Carvalho
[Esta crónica foi publicada no semanário O Ribatejo, edição de 07-06-2018. A fotografia - já utilizada neste blogue - junta a minha Mãe e a minha Filha. Únicas ambas.]

sexta-feira, 1 de junho de 2018

ZONA DE PERECÍVEIS (139)


Rugido leonino

As primeiras páginas dos jornais não enganam: o Sporting Clube de Portugal é a notícia. Infelizmente, não por bons motivos. O meu clube especializou-se, nas últimas décadas, na delicada arte da autofagia - e agora, de escândalo em escândalo, serve-se no prato cínico dos adversários e dos inimigos figadais. De alegadas trafulhices – do meu clube ou de outros - não falo enquanto se justificar a civilizada presunção da inocência. Refiro-me tão-só aos sucessivos terramotos que a direcção sportinguista vem fabricando de forma (digamos assim) incontinente.
No olho do tufão, aparece Bruno de Carvalho, espécie de Rei-Sol da loja dos trezentos. Vejo-o estrebuchando na pantalha mediática, naquele papel épico-pícaro de herói mortinho por se tornar imortal, querendo defrontar tudo & todos, cheio de raiva e de presunção. De tão primário, o seu discurso chega a ser comovente: ele vê-se como o génio que mais ninguém consegue ver; ele é a vítima e todos os outros são vilões; ele faz o favor de existir e o injusto mundo ignora-o ou não lhe canta as loas que merece.
Não (lhe) sou ingrato, note-se: o homem, com esta mesma truculência que agora mais nos enoja, foi o bem-vindo ruído que interrompeu a tranquilidade do monopólio vermelho/azul & branco. Veio dar um murro na mesa desta pasmaceira nacional e lembrou que o Sporting existia e que exigia respeito. Revolucionou a dinâmica das modalidades do clube. Inventou soluções financeiras. Entrou no mui dificultoso mercado das grandes transferências futebolísticas. Injectou na turba leonina um significativo reforço de auto-estima e, em consequência, reencheu Alvalade. Ergueu o pavilhão João Rocha, infra-estrutura que vergonhosamente se adiara por décadas.
Depois, ai de nós, veio a inevitabilidade da natureza. Os traços de carácter do indivíduo estavam há muito latentes: como uma bomba-relógio, víamos aqui e ali assomos de megalomania, auto-deslumbramento, intolerância, vaidade exponencial, tiques ditatoriais. Tudo desculpável ou relativizável, à luz da psicologia das massas, se o clube fosse ganhando e o monstruoso ego presidencial não degradasse a gestão desportiva e económica da instituição. Veio a confirmar-se que Bruno de Carvalho está perdidamente apaixonado por si próprio e que, como os antigos filosofaram ou cantaram em verso, “o amor é cego”.
A cegueira de Bruno de Carvalho conseguiu o milagre de chocar alguns milhões que, antes, o defendiam galhardamente. Num ápice, o crédito de estima e popularidade deveio falência de confiança e desespero. Ao coro (desprezível) do inimigo juntou-se infelizmente a voz de sócios e adeptos.
Dizem-me que Bruno de Carvalho precisa do Sporting para sobreviver. Não no sentido poético, diga-se, mas no do venal salário, no do (seu) equilíbrio doméstico, no da sua circunstância social. Lamento-o. Mas isso não é, do lugar de onde olho para a situação, o mais importante. É da vida do Sporting que se tem de falar. Se Bruno de Carvalho quiser mesmo contribuir para o sucesso do Sporting, de forma objectiva e desinteressada, a atitude a tomar é óbvia – demitir-se. Ele próprio já lembrou que os jogadores vêm e vão, que os treinadores vêm e vão. Certo. Falta-lhe dizer que com os presidentes se passa o mesmo – e que é chegada a hora de sair da frente para não estorvar o futuro.
Porque o futuro urge. O futuro ruge. 

Coimbra, 26 de Maio de 2018.
Joaquim Jorge Carvalho
[Esta crónica foi publicada no semanário O Ribatejo, edição de 31-05-2018. A imagem foi colhida, com a devida vénia, em https://www.youtube.com.]

segunda-feira, 28 de maio de 2018

ZONA DE PERECÍVEIS (138)


Dizer tudo 

Dei a ler aos alunos do 7.º ano, no início do estudo do texto poético, um enunciado de Alice Vieira intitulado “O que é a Poesia?” (homónimo de um ensaio de J. Evans Pritchard, que o filme Clube dos Poetas Mortos, de Peter Weir, arrasa espectacularmente). No texto, de forma pedagógica, a escritora portuguesa defende que a poesia serve para os seres humanos exprimirem por palavras as mais vívidas emoções e os mais profundos sentimentos que neles habitam; lembra que cabe no poema qualquer pedacinho de realidade, de sonho, de imaginação; sublinha que as palavras são tão importantes quanto nelas haja a humanidade de quem escreve ou de quem lê/ouve. 
Ao longo de uma semana, nós lemos poemas-histórias, poemas-desabafos, poemas-filosofia e poemas-brincadeiras (cheios de musical rima, de cómicas aliterações ou assonâncias, de inesperados trocadilhos). À volta dos versos, tecemos interpretações e discutimos versos, vidas, Vida. Seguiram-se algumas horas de oficina de escrita, honestamente precedidas de um aviso: o professor não quer fazer dos seus alunos, por milagre ou ordem, poetas; quer tão-só ajudá-los a melhorar a sua condição de leitores. Desafiei-os a recordar alguns momentos importantes das suas biografias, felizes ou nem por isso: o melhor amigo da escola primária que viajou para a Alemanha com os pais e que o R. não mais voltou a ver; o dia em que o avô da I. regressou do hospital, alegadamente curado do mal que o queria matar; a cadelinha que desapareceu para sempre da casa de M.; o pai da F., que perdeu a batalha com a doença prolongada; o desejo infinito que há no V. de viajar por todo o mundo; as alegrias e as dores da paixão da S.; etc
Pedi-lhes, a seguir, que enunciassem, para cada situação, as emoções e os sentimentos vividos no mais profundo recanto dos seus corações sinceros. E, finalmente, propus-lhes que dissessem-escrevessem isso, de forma tanto quanto possível original e cuidada. Na aula, rascunhámos um exemplo, à roda da paixão da S. (que todos conheciam, aliás, à excepção do docente). Sem surpresa, o trabalho de casa consistiu na elaboração de poemas – com um mínimo de 4 versos e um máximo de 20, rimando ou não, de preferência usando alguns dos recursos expressivos trabalhados nas aulas anteriores. 
No bloco lectivo da última 6ª feira, a F. trouxe-nos as saudades do Pai-guerreiro, contador de anedotas e sempre farto de hospitais, de quem se lembrava todos os dias, apesar de mortalmente ausente; a I. recordou a cadeira vazia de onde, quando vivo, o avô iluminava a cozinha e a casa toda, até Novembro passado; o V. confidenciou-nos a sua obsessão por viagens, exprimindo um amor absoluto pelas que já fez e por tantas que quer fazer no resto da sua vida; a M. contou-nos a esperança que mantém no regresso da Daisy, a cadelinha mais divertida do universo; a S. garantiu, em 4 versos, que o amor é estúpido, doentio e maravilhoso; o J. revelou-nos o profundo prazer que sente por pizzas e gelados; e a B. (a maior surpresa da sessão, pois parecera, nas aulas anteriores, sempre indiferente aos encantos da lírica) agradeceu formosamente à Mãe por estar sempre presente e sempre pronta. 
O que é a Poesia? Eu já tentei explicar isso em verso, mas de forma muito incompleta, claro, como é da natureza de cada verdade dita. Nesta crónica, atrevo-me a dizer que é o sangue e a música da nossa condição. Isto é: um fio sincero e frágil da vida sendo dita enquanto acontece. Isto é: um canto gritado ou murmurado contra o nada iminente. Isto é: tudo. 

Coimbra, 20 de Maio de 2018. 
Joaquim Jorge Carvalho 
[A imagem (do filme O Carteiro de Pablo Neruda) foi colhida, com a devida vénia, em http:www.seisetreze.blogspot.pt.]

segunda-feira, 21 de maio de 2018

ZONA DE PERECÍVEIS (137)


A doença do esquecimento

O Jornal de Notícias (JN) do dia 11 de Maio dava conta, numa das suas páginas de informação local, da dramática saga que envolveu certa idosa, no centro do País. A senhora, que sofre de Alzheimer, esteve desaparecida durante vários dias, vindo a ser encontrada a uns dez quilómetros de casa, contra probabilidades e expectativas, bem viva, apesar de desorientada, sem a sua prótese dentária e com algumas escoriações no rosto. 
O mesmo JN, no mesmo dia 11 de Maio, num espaço de evocação cultural, lembrava a figura do general Sousa Brandão, um republicano do século XIX, natural de Santa Maria da Feira. Este engenheiro, segundo aprendi, assumiu particular papel no incremento do transporte ferroviário em Portugal. O artigo sublinhava o facto de, no concelho natal deste vulto, quase ninguém saber fosse o que fosse sobre a sua biografia essencial e de tão-pouco a autarquia o celebrar daquela forma convencional que costuma usar-se: nem uma rua com o seu nome, ou um edifício, ou uma escola, ou uma associação, ou um prémio literário-académico-jornalístico. Nada.
Obviamente, as duas notícias cruzam-se com a ideia de Alzheimer: no primeiro caso, na dimensão literal do fenómeno; no segundo caso, num sentido mais simbólico, mas não menos físico. Para ataque à primeira situação, a ciência parece ainda movimentar-se pelo território geralmente incipiente das hipóteses e da experimentação. Confiemos, entretanto, na generosidade, inteligência e teimosia dos investigadores. O ataque à segunda situação tem respostas – digo eu – mais óbvias, embora igualmente dependentes de um trabalho generoso, inteligente e teimoso, consubstanciável num esforço de informação consistente e sustentada, bem como de respeito pela História e de celebração & estudo dos que, no passado, através do exemplo, criaram beleza, progresso e justiça, oferecendo a contemporâneos e vindouros um País melhor. Camões, nesse seu gigantesco projecto literário chamado Os Lusíadas, quis cantar “aqueles que por obras valerosas / se vão da lei da Morte libertando”. A ignorância, a ingratidão, a preguiça e, às vezes, a indiferença são uma espécie de vírus cultural e histórico. O desprezo (voluntário ou involuntário) das gentes da Feira por Sousa Brandão, vista a coisa a partir desta crónica, são apenas um símbolo do Alzheimer nacional que, em forma de silêncio, recusa o tributo devido a escritores-filósofos-políticos-filantropos-militares-juristas-desportistas-etc
Ora, um Povo que não saiba (e quiçá nem queira saber) dos seus heróis é uma velhinha andando perdidamente por montes e vales, sem rumo nem memória, à procura de nada. 

Vila Real, 12 de Maio de 2018. 
Joaquim Jorge Carvalho 
[Esta crónica foi publicada no semanário O Ribatejo, edição de 17-05-2018. A imagem (retrato de Sousa Bandão) foi colhida, com a devida vénia, em https://pt.wikipedia.org.]

segunda-feira, 14 de maio de 2018

ZONA DE PERECÍVEIS (136)



Pobreza & riqueza (revisões) 

A Câmara Municipal de Ribeira de Pena (vila do distrito de Vila Real, Trás-os-Montes), no âmbito da comemoração do 44.º aniversário da amada revolução dos cravos, ofereceu aos seus munícipes um espectáculo de teatro de invulgar qualidade. Foi no dia 24 de Abril, pelas 21 horas, no magnífico auditório da terra. A Companhia de Teatro Filandorra, sedeada em Vila Real, apresentou a peça À manhã, de José Luís Peixoto, com sábia encenação de David Carvalho. Era 6ª feira, véspera de feriado, eu estava cansado, disse à minha mulher que não me apetecia sair. Ela insistiu, eu fui. Ainda bem duas vezes. 
A peça fala-nos sobretudo de solidão. Em palco, vemos-ouvimos velhos e velhas, numa qualquer aldeia portuguesa, vítimas da idade e da desertificação. Podia ser num lugar alentejano, ou beirão, ou transmontano. Podia ser uma história com os nossos avós, ou com os nossos pais. Podia ser connosco. 
Durante cerca de hora e meia, comovi-me perante os devaneios de uma idosa com demência; perante o desespero do marido já viúvo antes de o ser (que a esposa confunde com o falecido pai); perante a generosidade de um vizinho, que ilumina as trevas da sua antiguidade e do seu isolamento com a esperança de uma chuva salvadora das couves; perante a desesperada luxúria de uma solteirona, que bem alto afirma a sua virgindade e pouco discretamente a oferece em troca de algum adiado prazer proibido; perante uma viúva bonita, que sofre a falta do seu falecido, a distância (emigrante) de filhos e netos e também uma certa pulsão convivial e erótica, concomitante à circunstância de continuar vivendo. 
A peça de José Luís Peixoto atropelou-me o coração, atirando-me para cima aquela pobreza feita de solidão e de isolamento. Aquela pobreza, sim, que se vê melhor no contexto fragilíssimo da velhice. Recordo Sophia (lida num maravilhoso volume intitulado O Nome das Coisas): “Cortaram os trigos. / Agora / a minha solidão vê-se melhor.” Na verdade, depurada do foguetório ruidoso e colorido da juventude, da saúde, dos sonhos, da esperança, o que fica da nossa circunstância em trânsito é o essencial – neste caso, a tristeza da finitude e da humana impotência face à degradação fatal. E confirmamos, hélas, que a percepção da doença é mais vívida e trágica quando se está sozinho. 
A peça funda-se numa realidade portuguesa, familiar, próxima. As personagens são, de um ponto de vista económico e social, os nossos próprios velhos, sós e pobres, pobres e sós. Mas a pobreza maior, ali, visto o fenómeno pelos olhos comovidos do espectador, é mesmo a já dita solidão e o já dito isolamento. O meu sogro, num já longínquo Agosto, ao entardecer, numa espanada fronteira à praia de Machico, na Madeira, quando se discutia as vantagens de ser rico, disse-me: “Ser rico é não estarmos sós.” 
Ando a ficar lamechas com a idade. Isso ajudará a explicar as minhas lágrimas, no final, durante o longo aplauso aos actores e ao encenador, tributo em que participei também. E as lágrimas que vieram a seguir, durante a interpretação de “Grândola, Vila Morena”, do nosso amado Zeca, que juntou as vozes de artistas e público. Digo-vos: naquela mui rica hora da minha vida, no regaço do Teatro e de Abril, não havia solidão. 

Vila Real, 05 de Maio de 2018. 
Joaquim Jorge Carvalho 
[Esta crónica foi publicada no semanário O Ribatejo, edição de 09-05-2018. A imagem foi colhida, com a devida vénia, em https://www.avozdetrasosmontes.pt.]


quinta-feira, 3 de maio de 2018

ZONA DE PERECÍVEIS (135)

O chapéu do Vilaça e a justiça

Quase no final dessa obra-prima chamada Os Maias, do grande Eça, há um episódio de cariz burlesco que parece interromper o curso trágico dos acontecimentos. É no capítulo XVII. Carlos da Maia conversa com João da Ega sobre o Destino, concretamente sobre a extraordinária coincidência de um homem se apaixonar, entre tantas mulheres possíveis, pela própria irmã, na ignorância, ai dele, do parentesco. A este drama romântico junta-se um pormenor terrível, já mais próximo do imaginário naturalista-realista: Carlos, inebriado pela proximidade do corpo feminino de Maria Eduarda, não resiste a uma noite mais de amor, mesmo já ciente do concomitante incesto. No meio do colóquio com o melhor amigo, o protagonista é interpelado pelo procurador da família, o senhor Vilaça, que não sabe do seu chapéu e precisa dele para sair de casa. Lá se procura o chapéu, mas em vão. O Vilaça sai, pedindo desculpas pelo incómodo, e os amigos retomam a conversa. Poucos minutos depois, aparece novamente o Vilaça, pois o chapéu não há meio de aparecer e pode dar-se o caso de antes não se ter procurado bem. Lá voltam a procurar o chapéu, uma vez mais em vão. O Vilaça redobra as suas desculpas pelo incómodo e sai, permitindo que novamente ali se reate a melodia trágica da má fortuna caindo sobre pobres burgueses mortais. Mas, breves instantes depois, é Baptista, o criado-de-quarto de Carlos da Maia, quem os interrompe, porque o chapéu teima em não aparecer em lado algum, e o senhor Vilaça não quer ser visto na rua sem ele. Carlos explode, impaciente e indignado, manda que se empreste ao Vilaça um chapéu qualquer, irra, e sobretudo que não o importunem mais. 
Eu lembro-me de ouvir José Augusto Bernardes, Professor da Universidade de Coimbra, durante o ano curricular do meu doutoramento (aí por 2009), explicar o episódio como a omnipresença (diegética) do ambiente burguês na ação principal, forma de ilustrar a sociedade portuguesa tão dada a aparências, a formalismos, a convenções: o pobre procurador receava, ali, perder o respeito e a credibilidade pessoais se o vissem na rua sem tão importante apêndice indumentário. 
Na mesma sessão, falei eu próprio deste episódio como um exemplo de economia narrativa: uma pequena história interrompia a história principal, disputava-lhe a atenção, consumia-lhe tempo de discurso. Defendi que o grito final de Carlos da Maia significaria, ali, a prevalência narratológica da acção nuclear sobre a secundária. Era preciso continuar a narração mais importante, logo o chapéu do Vilaça deveria reduzir-se, a determinada altura, à sua insignificância relativa. 
Voltei a lembrar-me do chapéu do Vilaça a propósito da justiça portuguesa, que anda entretida com vídeos de interrogatórios a Sócrates e – no território da futebolice – com questões técnico-jurídicas sobre o acesso a emails e o cariz (legal ou ilegal) da consabida venalidade de árbitros, jogadores, dirigentes, oficiais de justiça, advogados, juízes, dirigentes. Explosões de ruído histriónico, de retórica ociosa, de fogo-de-artifício manhoso ou de maquiavélico caos multiplicam-se pela pantalha, pela radiofonia, pela papelaria mediática. São o chapéu do Vilaça, senhores! E é preciso que a gente não se distraia. Nestas tragédias, queremos mesmo saber, acima de tudo, o que aconteceu, o que acontece, o que vai acontecer em termos de acção principal. 

Vila Real, 28 de Abril de 2018. 
Joaquim Jorge Carvalho 
[A imagem, que faz parte do filme Os Maias, de João Botelho (2014), inspirado no romance homónimo de Eça de Queirós, foi colhida, com a devida vénia, em www.apaladewalsh.com.]

quinta-feira, 26 de abril de 2018

ZONA DE PERECÍVEIS (134)


O neto do Gaitinhas escreveu ao cronista

Alhandra 24 de Abril de 2018. 

Caro Amigo, 

Andava há anos para lhe escrever. Soube, por conhecidos e familiares, da sua estima e da sua admiração por Soeiro Pereira Gomes, o autor de Esteiros. Comoveram-me alguns textos, lidos em jornais, blogues e trabalhos académicos, que dedicou à obra desse tão talentoso e tão honesto escritor. Eu sou neto do Gaitinhas, veja bem. Do Gaitinhas, sim, um desses meninos a quem roubaram, sem remédio, essa condição. Ouvi muitas vezes o meu avô, por aqui, nos arredores de Paris, recordar o Guedelhas, o Gineto, o Maquineta e Sagui, seus camaradas de sonhos e de tristezas. 
Escrevo-lhe por ser véspera do glorioso dia 25 de Abril. Em 1974, já o senhor Soeiro Pereira Gomes estava morto há mais de vinte anos e o meu avô tinha meio século de idade. Sofria de uma doença nos pulmões, não sei se lhe disseram – e dessa doença também morreria, aliás, alguns anos antes, a minha bisavó, sua mãe, vítima da pobreza em geral e de tuberculose e solidão em particular. Ainda rapaz, o meu avô emigrou para França, à procura do pai. Nunca o encontrou, apesar de por muito tempo o ter procurado. No dia do seu casamento (com uma concierge madeirense, que trabalhava no prédio onde vivia o patrão de ambos), lá soube que o pai morrera há alguns anos, num estaleiro próximo. 
O meu avô Gaitinhas teve uma filha. (“Ainda bem que não foi um rapaz”, costumava ele dizer, ”para evitar chatices com a tropa.”) A filha do meu avô teve dois filhos – o meu irmão António, que foi para a Bélgica trabalhar na televisão, como cameraman, e eu próprio, que herdei de meu pai (também português) uma empresa pequenina de construção civil. Brevemente, o meu genro (um francês de Saint-Galmier) tomará esse lugar, e eu poderei enfim ir viver para Portugal. A minha mulher é espanhola, nada e criada até aos seus doze anos na Galiza, e não se opõe a esta minha vontade. 
Eu nasci em França, caro amigo, mas escolhi ser português por tanto ouvir o avô falar do País. Ele, a quem o regime fascista roubou a infância, o pai e a mãe, o futuro, amou sempre Portugal, fiel como um cão. Conversava connosco em Português, cantava em Português, celebrava a Liberdade, a Democracia e a Igualdade em Português. 
No dia 26 de Abril de 1974, vi-o chorar, à hora do almoço, junto ao rádio, confirmando a chegada do futuro ao seu (nosso) País. Em sua casa, a “Grândola, Vila Morena”, do Zeca, era tão solene como o hino nacional. E a cançoneta “Somos livres”, da actriz Ermelinda Duarte, valia por todos os programas políticos que diariamente eram divulgados por jornais, rádio e televisão. “Não voltaremos atrás”, cantávamos eu e ele em coro. 
O meu avô teve muita pena de não poder celebrar a liberdade com o amigo Soeiro Pereira Gomes, tão cedo falecido. Mas ainda abraçou algumas das personagens de Esteiros. Lembro-me de o ouvir dizer a um deles: “Mesmo que isto já não seja para nós, há-de ser bom para os vindouros, pá!” 
Eu, à época, era um vindouro. Agora, em viagem para velho, sabe-me bem confirmar o vaticínio do Gaitinhas. E comungar a gratidão que ele publicamente manifestava por quem fez a revolução. 
Bem sei que o nosso País continua inevitavelmente imperfeito, mas já não é normal que as crianças sejam mão-de-obra adulta à força; que a miséria seja uma sorte fatal e hereditária; que o destino de todos seja determinado pela tirania de uns poucos. 
Não é como neto do Gaitinhas que lhe agradeço o interesse por Esteiros, caro Amigo. É como português, amante da Liberdade. A ideia de, pela leitura, manter vivo Soeiro Pereira Gomes é, na essência, algo muito parecido com a celebração viva e grata da revolução de 1974. A escritora Agustina fala (salvo erro, na Sibila) de “memória do amor”. Eu fico-me pela memória do meu avô Gaitinhas, que vem a dar ao mesmo. 

Um abraço! 

VL 

[Nota: Esta carta, embora fictícia, está longe de ser mentira. Quem não acreditar, como diria o cronista há 45 anos, a propósito de tudo, é fascista.] 

Vila Real, 22 de Abril de 2018. 
Joaquim Jorge Carvalho
[Esta crónica foi publicada no semanário O Ribatejo, edição de 26-04-2018. A imagem, já utilizada neste blogue, é da autoria do meu Amigo Manuel Vilela, que a fabricou, a pedido, para um libreto relativo ao espectáculo teatral A Noite de 24 de Abril. (Nota: esta peça, levada já por diversas vezes à cena, com interpretação de alunos ou docentes, é uma adaptação minha da obra A Noite, do grande José Saramago.]

sexta-feira, 20 de abril de 2018

ZONA DE PERECÍVEIS (133)


Crónica do não feito

Hipermercado de uma grande superfície comercial coimbrinha. Na zona da fruta, enquanto hesito entre tangerinas e clementinas, um homem ricamente vestido (fato cinzento, camisa creme sob colete talvez azul-escuro, gravata de fundo castanho com oblíquas riscas da cor do colete) queixa-se a um funcionário de algum equívoco no preço das bananas. O funcionário, um moço com não mais de 25 anos, de aspecto honesto e bondoso, ouve-o com grande deferência e, logo que o reclamador se cala para tomar fôlego, pede-lhe desculpas em nome do patrão, usando para o efeito, note-se, vocabulário e sintaxe exemplares.
Percebo facilmente que se trata de uma troca de etiquetas, da responsabilidade de algum funcionário do turno anterior, que confundira o preço da banana importada com o da banana da Madeira. Percebo tudo facilmente porque a explicação do jovem funcionário é ali sempre clara e concisa, para além de amável. Mas o senhor elegante faz questão de se queixar mais e mais, como se a lógica e a gentileza do moço lhe acendessem ou avivassem maiores azedumes e fúrias. Em voz sonorosa, como se discursasse perante um grupo de discípulos relapsos, de insubordinados militares ou de réus culpados dos maiores crimes, garante que a ele não o tomam por parvo, que “vocês não sabem com quem estão a lidar”, que a explicação do empregado é “um chorrilho de tangas”. Em certo momento, olha à volta para colher os aplausos que a sua aristocrática bravata talvez colhesse do público admirador ou (julga o pavão) cúmplice. Eu miro-o com a mais eloquente reprovação de que sou capaz, por me parecer tão evidente a sem-razão daquela gritaria e daquela arrogância, mas isso não lhe diminui o arzinho triunfante. Já com as clementinas ensacadas e pesadas, tenho de me afastar do local. São umas nove e meia da noite. O jovem funcionário deve estar em funções há muito tempo, percebe-se o seu ar cansado, o esforço zigomático para o sorriso profissionalmente cordato, a humilde vontade de resolver o (putativo) problema e de voltar à normalidade pacífica do seu ofício.
Disse-vos, senhores, o que aconteceu. Digo-vos agora o que deveria ter acontecido. Eu deveria ter voltado atrás e cumprimentado o rapaz. Dizer-lhe que eram admiráveis a paciência, a simpatia e a competência ali demonstradas, face à fera do fato rico e da voz sonorosa. Sim, eu deveria ter voltado atrás e dito ao senhor Excremento Nobre que aquela brutalidade contra o funcionário era injusta e parva. Que o rapaz ali sujeito à gratuita humilhação era um simples funcionário a cumprir exemplarmente os seus deveres (à razão provável do ordenado mínimo), sem culpa dos grandes males do mundo ou das pessoais frustrações das excelências engravatadas. Deveria ter voltado atrás, senhores, e soltado a minha própria acrimónia, aliás repetível sempre que (com demasiada frequência) topo com as bestas quadradas da vida.
Perdoai o desabafo, se vos for possível, mas sucede-me pensar, muitas vezes, que a estupidez infernizadora do mundo só se resolve com recurso ao insulto. Ou à chapada. Ou, por razões de civilização, de saúde e de oportunidade, à crónica de jornal.

Vila Real, 14 de Abril de 2018.
Joaquim Jorge Carvalho
[Esta crónica foi publicada no semanário O Ribatejo, edição de 19-04-2018. A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http:/educaforum.blogspot.pt.]


segunda-feira, 16 de abril de 2018

ZONA DE PERECÍVEIS (132)



O (o)caso de Lula


Terá sido Pierre Vergniaud a dizer, das revoluções, que se assemelhavam a Cronos, também elas devorando os seus filhos. O próprio Vergniaud serviu de ilustração para este mortal apotegma, como se sabe. 
Em Portugal, Otelo será, entre outros exemplos, a mais viva prova do que o francês do século XVIII axiomaticamente postulou. Rosto imperecível do 25 de Abril da nossa liberdade e da nossa democracia, acabou por se meter, no tempo seguinte à madrugada da claridade máxima, em algumas alhadas bem menos luminosas, que envolveram acusações graves e até prisão.
Em muitas latitudes, abundam nomes de anjos populares que, de um momento para o outro, devêm vilões odiados e perseguidos. Quase sempre ocorre, no entretanto, alguma degradação da conduta de cada ainda-agora-tão-amado-herói, e a posteriori a leitura política ou histórica da sua biografia lá tenderá a arrumá-lo numa nevoenta nota de rodapé mais dada ao opróbrio cínico que à elegia épica.
Agora, Lula da Silva. Sob a sua liderança, por anos seguidos, o Brasil foi um maravilhoso exemplo de emancipação democrática e de progresso social e económico. O País promoveu a igualdade dos brasileiros no acesso à educação, à saúde e à justiça, tornando-se, aos olhos de todo o mundo – e com base em insuspeitos estudos e indicadores –, num lugar mais digno, mais justo, mais decente. Que sucedeu depois? O mais fácil é ler o fenómeno à luz da natureza corruptível de todos os seres humanos: talvez o homem do povo se tenha deslumbrado com as mordomias do poder e da riqueza, quiçá acreditando que tantos sacrifícios e méritos pessoais justificariam alguma retribuição venal. Talvez.
Mas essa percepção não elimina a fortíssima suspeita de que todo o processo começara já no oportuno-oportunista descrédito que sofreu o Partido dos Trabalhadores - com culpas próprias, naturalmente -, seguido do impeachment de Dilma Rousseff e culminando na entrega da presidência ao sinistro Michel Temer (sem, note-se, aquela maçada das eleições). Lula seria provavelmente o próximo presidente do Brasil, o que representava, para muitos brasileiros saudosos da ditadura ou assustados com o regresso da esquerda ao governo, um perigo. A sua prisão, nesse contexto, afigura-se muitíssimo conveniente.
Ponto de ordem: Lula da Silva não está, não pode estar acima da lei. Nem os maiores heróis de um País podem, num estado de direito, fugir à justiça. Mas - perdoai a desconfiança de quem, à distância, segue esta telenovela nos média – cheira aqui muito a esturro. E não é irónico que o beneficiário imediato da queda do PT seja um presidente acusado de numerosas ilegalidades, homónimo de um verbo no infinitivo tão curioso como Temer?

Coimbra, 08 de Abril de 2018.
Joaquim Jorge Carvalho
[Esta crónica foi pubçicada no semanário O Ribatejo, edição de 12-04-2018. A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.observador.pt.]



terça-feira, 10 de abril de 2018

ZONA DE PERECÍVEIS (131)





Marx, ópio e futebol

Se Marx visitasse o planeta dos nossos dias, decerto reformularia aquela famosa metáfora que explicava a religião como “o ópio do povo”. À ideia de anestesia servida como combate de fé, acrescentaria (digo eu) uma outra mais moderna e quiçá mais folclórica, mas não menos letal – o futebol. 
Mesmo involuntariamente, testemunho todos os dias a omnipresença da futebolice no quotidiano do mundo, em particular na paróquia da minha circunstância, Portugal. Tenho percebido, com facilidade e melancolia, a semelhança de modos e de argumentação que há entre o clubismo e outras formas mais bárbaras de intolerância, como o racismo, a xenofobia, etc.. 
Nos jornais, na televisão, na rádio, nos cafés, nas escolas, nos hospitais, nas repartições, nas mercearias, nas fábricas do País, a gritaria mais bestial vem substituindo quaisquer hipóteses de convívio ou fraternidade com o outro. Não é sem espanto ou susto que observo, nos olhares, nos gestos, nas palavras dos meus interlocutores pontuais, um absoluto ódio à gente de outros clubes, i.e. à diferença. 
As claques são elas próprias uma espécie de alegoria do futebol dos nossos dias: por um lado, representam uma dimensão estética e emocional que, a inexistir, tornaria o espectáculo muito mais pobre; por outro lado, significam o fanatismo mais primário e perigoso, ali formalmente elevado à categoria de instituição. 
Eu joguei futebol durante muitos anos e, antes & depois desse alegre parênteses biográfico, amei de forma profunda e generosa esta modalidade. Ainda sofro, ó triste, com o meu Sporting, como se em campo estivesse o meu Pai, de quem naturalmente herdei este amor leonino. Sabei que vibro com os golos da minha equipa e, embora com mágoa, também com a qualidade deste ou daquele jogador dos rivais. Mas não tenho paciência já para a vozearia ignorante, balofa e boçal dos que, à roda do futebol, na maioria dos casos sem perceber sequer um átomo desse fenómeno, inundam os média e as nossas ruas de bílis mortal e de escarros palavrosos. 
Atenção: não defendo, com este desabafo higiénico, que a justiça deixe de investigar as alegadas trapaças ultimamente divulgadas. Era o que faltava! Mas gostaria sobretudo de regressar, no aconchego do sofá ou do estádio, àquele estado de pura e feliz comunhão com os que, como o cronista, amam o seu clube e, concomitantemente, o futebol. 
Ópio, senhor Marx? Por um lado, talvez; por outro lado, não. Vista a coisa destas perecíveis linhas, acredite, trata-se sobretudo de uma festa.

Coimbra, 01 de Abril de 2018.
Joaquim Jorge Carvalho
[Esta imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.waysup.com.]

sábado, 31 de março de 2018

ZONA DE PERECÍVEIS (130)



Balada do Sol comum

No primeiro dia oficial da Primavera, numa vila chamada Arco de Baúlhe (do concelho de Cabeceiras de Basto, distrito de Braga), houve mais um Sarau na Escola Básica local. A sala de convívio voltou a encher-se de crianças, jovens, adultos velhos e novos, num clima de fraternal festa que não cessa de me impressionar. O coração do evento é o livro, a literatura. Mas a dinâmica abraça a arte em geral: o desenho, a pintura, a dança, o teatro e o cinema dividem a atenção e o aplauso do público com a leitura expressiva (treinada semanas a fio) de poemas.
Para mim, como sempre, as semanas anteriores ao Sarau foram um misto de fadiga extrema e prazer profundo. Revejo-me nesta Escola que, transcendendo a dimensão puramente instrucional, se auto-obriga a oferecer Cultura a alunos e famílias locais. Os rankings e as percentagens de sucesso são importantes? Claro. Mas a nossa função vai (deve ir) para além dessa esfera. Concomitante aos currículos elementares, deve comparecer a educação literária e artística. Os nossos jovens têm o direito a conhecer grandes obras e grandes autores da literatura, mas também o de, pela via da própria experiência estética (como receptores ou intérpretes do corpus lido-estudado), se apropriarem dessa linguagem delicada e preciosa e de por essa via profundamente crescerem.
Encontro, muitas vezes, antigos alunos que me falam, com saudade (e, perdoai a imodéstia) com gratidão, dos nossos espectáculos teatrais, dos nossos filmes, dos nossos projectos de jornalismo, dos nossos encontros de poesia.
O Sarau do Arco fez-se sobretudo dos contributos de três Clubes: o Clube de Música, o Clube de Teatro & Cinema e o Clube de Artes. Durante duas horas, oferecemos momentos de poesia, de música, de teatro de cinema, num espantoso cenário feito dos desenhos e das pinturas de juvenis alunos e de uma maravilhosa professora de Educação Visual (Rosário Coelho).
Dei por mim ali a pensar no misterioso poder da Cultura, essa substância misteriosa que torna menos bestial a humanidade: gente habituada aos Big Brothers televisivos, aos clichês telenovelescos, à rotina violenta dos horários e das contas a pagar, à rivalidade cancerígena da política ou do futebol – ali estava ela rindo-se da comédia, comovendo-se com um pequeno filme, dialogando com os poemas ditos (mais do que declamados) por vozes jovens, batendo palmas ao ritmo da música chegada do palco. Noites assim tão luminosas, senhores, parecem manhãs. E passam depressa, sendo (afinal) a eternidade.
Última nota: pela primeira vez em dez anos, um dos poemas lidos no Sarau era – imaginai – cá do cronista. Foi maravilhosamente lido-dito por três alunas do oitavo ano. Ouso inscrevê-lo aqui, por representar aquela relação improvável, mas fatal, entre a cínica realidade onde sobrevivemos e a literatura que nos faz viver, ou (como brilhantemente me ensinou a Doutora Maria Irene Ramalho dos Santos, da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra) a relação entre mundo político e mundo poético. Com licença:
Deixo a poesia num canto do quarto / E vou trabalhar. / Ela aparece-me por vezes em lugares inconvenientes / E ri-se do meu espanto ou indignação. / “Sai daqui”, digo-lhe então, embaraçado. / Ela ri-se e espreguiça-se, gaiata e trocista, / Sobre um rascunho de acta / Sobre uma grelha de critérios / Sobre um guardanapo de pastelaria / Sobre uma planificação séria. / “Sai tu daí”, grita, fingindo que me beija. / “Já aqui estava antes de ti”, reclamo eu. / “Parece-te”, diz ela. “Eu já aqui andava / Antes de existires.” / Lá acabamos por regressar a casa / Juntos como corpo e sombra / Filhos ambos do mesmo Sol.

O mesmo Sol, Amigos leitores. 

Vila Real, 25 de Março de 2018. 
Joaquim Jorge Carvalho 
[Esta crónica foi publicada no semanário O Ribatejo, edição de 29-03-2018. A imagem foi copiada, com a devida vénia, das dezenas de contributos que a minha Colega Rosário Coelho ofereceu ao Sarau.]

segunda-feira, 26 de março de 2018

ZONA DE PERECÍVEIS (129)

O chico-espertismo diplomado

A crónica que o leitor generosamente lê, hoje, foi esboçada há uma semana, na sequência do justo escândalo à volta do currículo académico de Feliciano Barreiras Duarte. Entretanto, o senhor demitiu-se, só para aborrecer o cronista. 
Para os que, por sorte ou falta de paciência, não acompanham a política nacional, vale a pena recordar que Barreiras Duarte é um destacado militante do PSD, recentemente escolhido para secretário-geral pelo novo presidente, Rui Rio. Para além da carreira política (que inclui o lugar de deputado à Assembleia da República), protagonizou um curioso percurso académico: 1 - obteve a licenciatura em Direito, com a média de 11 valores, após nove anos de matrículas; 2 - quis cursar um doutoramento antes de ser mestre, e lá conseguiu, com base no seu currículo político-profissional, uma abstrusa equivalência a mestrado, pressuposto para a sua admissão ao doutoramento. Li que o facto de ter sido, segundo reportava no CV, “visiting scholar” numa universidade americana foi determinante para a obtenção desta benesse académica. É aqui que “a porca torce o rabo” em matéria de decência ética e até de legalidade: o beneficiário nunca foi “visting scholar” na tal universidade, embora tenha abusivamente acrescentado esse dado às suas, digamos assim, habilitações. 
Resultado deste episódio trágico-cómico (que lembra outros recentes, como a licenciatura domingueira de um ex-chefe de governo, ou o jackpot de equivalências de um ex-ministro): Rui Rio começou torto a sua liderança laranja e, por dolorosos dias, deve ter suspirado pelo rebate de consciência do seu eleito, seguido da higiénica demissão – e talvez (digo eu) de um honesto pedido de desculpas de Barreiras Duarte. 
Questão: o que leva um homem maduro a meter-se em tamanho imbróglio? É demasiado fácil, creio, a mui paternalista e fleumática explicação de que tudo resultará de falta de inteligência e de escrúpulos, ou de permissividade (senão de coisa mais grave) das instituições universitárias hodiernas. 
Sem prejuízo de motivos mais conspícuos para este chico-espertismo, ouso acrescentar duas razões relevantes, que aliás vão muito para além do caso glosado: 
a) os chico-espertos da vida preterem intimamente o mérito académico (i.e., o saber e os conhecimentos resultantes do estudo) em favor do status, por acreditarem que os títulos universitários são apenas instrumentais passaportes para o reconhecimento social e para a carreira(zinha) profissional e política;
b) os chico-espertos estão convencidos de que “o crime compensa”, pois quem chega aos patamares superiores do poder estará, depois, longe da fiscalização pública e, por essa via, ganhará uma espécie de imunidade sagrada. 
Terríveis erros: 
a) nenhum título académico esconderá a ignorância dos ignorantes licenciados, pós-graduados, mestres ou doutores; 
b) quanto mais alto um indivíduo está na hierarquia do poder, maior visibilidade adquire, logo mais susceptível se torna de análise e crítica dos outros, seja na modalidade de reconhecimento de mérito (se o houver), seja na denúncia de defeitos (como tem acontecido neste caso, com o riso e o desprezo habituais do jovial zé-povinho). 
Já agora: tudo quanto vos digo é mais fácil de entender para quem ainda souber o que significa, de facto, ter vergonha na cara. 

Coimbra, 19 de Março de 2018. 
Joaquim Jorge Carvalho 
[Esta crónica foi publicada no semanário O Ribatejo, edição de 22-03-2018. A imagem (com a imorredoira Mafalda, de Quino) foi colhida, com a devida vénia, em http://www.grupoconstruçaocoletiva.blogspot.pt.]