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Número de Ondas

domingo, 30 de dezembro de 2012

Uma Morte Súbita: J. K. Rowling sabe contar, iô!


A MP e a VL ofereceram-me Uma Morte Acidental (título original: The Casual Vacancy), de J. K. Rowling, Lisboa, Editorial Presença, 2012. Os jornais tinham anunciado a primeira obra “para adultos” desta autora, o que já era motivo razoável de curiosidade; mas a mim interessava-me sobretudo perceber – mais do que isso: confirmar – que o talento de bem engendrar e de bem contar histórias não se esgota num público-alvo específico (etário ou outro). Sim, eu lera alguns livros da saga Harry Potter e encantara-me já com a evidente capacidade de invenção de plots e com a brilhante destreza narrativa de Rowling. Tratava-se agora, segundo anunciavam os jornais, de uma obra de cariz realista, com personagens e contextos da actualidade. Adivinhei que vinha aí coisa válida e, para o Natal, sugeri à MP e à VL este presente.
É um volume com 497 páginas, aviso. Mas desde o primeiro capítulo que a teia mágica da intriga nos agarra. Aprendemos os nomes e os tiques de umas vinte personagens, familiarizamo-nos rapidamente com uns dez (ou mais) cenários de acção, partilhamos ou abominamos algumas idiossincrasias particulares de uma cidadezinha inglesa (que me pareceu, por vezes, uma aldeia de Júlio Dinis) e, enfim, tornamo-nos moderados habitantes de Padford.
À roda da morte súbita de um notável da cidade (odiado & amado por outros notáveis), constrói-se um novelo riquíssimo de histórias - que passam por ridículas ambições políticas (à Eça), pela fome de brilho mundano (à Garrett), por certa degradação neo-realista da sociedade moderna (à Soeiro Pereira Gomes), pela violência doméstica (à Lídia Jorge), pelo mistério de laços familiares (à Camilo), pelo amor (à Yourcenar) e pela tocante fragilidade de que somos todos feitos (à Vergílio Ferreira).
O estilo de Rowling é simples e competente (à Júlio Dinis, à David Lodge), preterindo eventuais grandes arroubos de linguagem em favor da clareza da história, das histórias.
Para mim, que ando à procura de escrever o (meu) romance sonhado, a obra de Rowling recordou-me algumas noções fundamentais sobre este território genológico – nomeadamente, a importância de tornar familiares os espaços literários da intriga (“familiares” não significa conhecidos, note-se; significa “reconhecíveis” no universo da obra), a importância de distribuir generosamente a atenção do narrador por várias personagens, complexificando-as (de modo a aproximar cada ser ficcional da condição complexa e rica de seres humanos), a importância do saudável convívio e  concomitância entre acção principal e acção secundária (ou “acção” e “intriga”, como diria Carlos Reis; ou “intriga nuclear” e “intriga periférica”, como escrevi eu próprio, na minha tese sobre Júlio Dinis).
De menos positivo, para além da obediência ao novo acordo ortográfico, talvez o facto de a narração compreender demasiados casos dramáticos (e até trágicos), o que – num contexto geral representativo de certa rotina existencial – é susceptível de banalizar (e, ergo, de comprometer, desvalorizando) o acontecimento extraordinário.
Li Uma Morte Súbita entre as duas horas do dia 25 e as sete horas de hoje, dia 29. Quando acabei a leitura, já a luz decembrina da minha rua iluminava o quarto. E a própria luz romanesca era, como agora percebo, tão fresca como aquela manhã.

PS: A tradução desta obra foi certamente difícil. Gostei do modo como se representou-enunciou, em Português, a variedade de registos linguísticos, os regionalismos e o calão. Também a escolha de Uma Morte Súbita para título é um verdadeiro achado. Contudo, talvez pressionada por alguma urgência editorial, a equipa de tradutores (Alberto Gomes, Manuel Alberto Vieira, Marta Fernandes e Helena Sobral) fez, aqui e ali, várias opções manifestamente desaconselháveis (sublinhei cerca de quinze casos de tradução menos feliz). Mas são, repito, 497 páginas – e nisto de avaliação de traduções é tudo tão subjectivo…

Coimbra, 29 de Dezembro de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho

quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

Coração contra o frio (2 apontamentos)



1. Algures entre o entardecer e a noite, uma voz interroga-me: "Existes para quê?" A minha resposta é um murmúrio silente: "Para proteger aqueles que amo." A voz ri-se do que digo e insiste: "Para os protegeres de quê?" Quase nem preciso de pensar: "Do frio." Talvez por nesta altura haver em Coimbra uma temperatura amena,  a voz transforma-se numa gargalhada cínica: "Do frio? De que frio, ó triste?" Respondo como quem faz um resumo da sua biografia essencial: "Existo para proteger aqueles que amo do frio do mundo."

2. A minha mãe foi abordada na igreja, ainda antes do início da missa, por um velhinho frágil, muito magro, quase transparente (mais velho, notai, que ela própria). O senhor trazia consigo umas dezenas de papéis. E ele mesmo explicou que se tratava de orações, por si copiadas à mão, numa elegante caligrafia como já não se usa. Levava os dias a passá-las para quartos de folhas A4 e, depois, distribuía-as por transeuntes. Deliberadamente fugia a fotocopiar as orações por tal não ser "a mesma coisa". A oração tinha de - explicou - passar primeiro pelo seu coração. Como se, digo eu, a sua mão direita caligrafasse as preces.

Coimbra, 26 de Dezembro de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho

quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

Discurso talvez do meu Pai para mim em altura de ocaso

Sobre o delicado chão do presente, caminho.
Vislumbro, algures no que há-de ser, uma porta em forma de meia lua.
Escuta, filho: é ali o fim dos meus passos, mas não do caminho; é ali o fim do presente, mas não do tempo; é agora a minha última noite, mas não a nossa.

Arco de Baúlhe, 19 de Dezembro de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.cpantiguidade.wordpress.com.]

terça-feira, 18 de dezembro de 2012

Semiótica d'amor

A literatura só fala
Com quem bem a entender
E é preciso amá-la
Para a perceber.

Ribeira de Pena, 17 de Dezembro de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem (de Thomas Mann) foi colhida, com a devida vénia, em http://www.escenastur.com.]

quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

Relógio à chuva

Dói-me o fascismo das horas passando
O falecimento sazonal das flores -
Breve a vida ardendo em lume brando
Pulcra a finitude dos amores.

Cabeceiras de Basto, 13 de Dezembro de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.caosfilosofico.blogspot.pt.]

terça-feira, 11 de dezembro de 2012

Coisas com pessoas


A Professora Lepecky ensinou-me que, na narrativa, o espaço é um lugar semantizado, isto é, um lugar devindo coisa com significado devido, atentai, à presença de humanidade.
Assim na nossa vida, digo eu, mas não apenas com sítios, também com objectos, datas, ideias. Sei disto quando me ponho a pensar na ideia de esperança e, por dentro da palavra, surge a minha mãe, o meu (falecido) pai, o meu (falecido) sogro, o meu (falecido) cunhado. Ou quando me ponho a pensar em Natal e dou de caras com o meu avô em estado de saudade, já não deste mundo  (o meu avô que, digo-vos, era o meu Natal mais verdadeiro). Etc.
Hoje, por exemplo, dei também por mim a olhar, manhã cedo, para raios de sol rompendo entre nuvens, gaiteiros como espíritos renitentes ao inverno - e lembrei-me logo do Mestre João que dizia, sobre a sua Igreja, que não tinha tecto.

Arco de Baúlhe,  11 de Dezembro de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho

sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

Convite simples para ler Poesia



A poesia é feita de corações em forma de linguagem
Ou da luminosa inteligência soando como grito.
Às vezes, é a música dos passos em viagem
Ou o regaço sereno do mar infinito.

O poema és tu, sou eu, a humanidade:
As dores ou os sonhos que há em nós
A palavra certa, a grata verdade
A música dos versos, nossa voz.

O poeta revela-se revelando-nos também -
O poema é o verso e o reverso de si.
Lemos mais do que o poeta, se o lermos bem:
Olha ali a sua vida, olha nós ali.

Arco de Baúlhe, 07 de Dezembro de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho
[Contributo para a promoção da leitura, feito no âmbito do meu trabalho
na Biblioteca da Escola Básica de Arco de Baúlhe)

quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

Ave, Vita - Morituri te Saluntant

Desde sempre, vejo as estações de comboios e os aeroportos como lugares muito belos e – sem contradição nenhuma –  terrivelmente tristes. É nestes territórios de humanidade avulsa que sinto aquela absurda vontade de sofrer dita em verso, por Cesário Verde, a propósito do entardecer lisboeta.
Em visita (benigna) ao I.P.O., acompanhando familiar, voltei a sentir, hoje, algo semelhante. No regresso a Ribeira de Pena, reflicto sobre a coincidência sensacionista: em que medida aqueles corredores são uma espécie de estação ferroviária ou de aerogare?
Surpresa nenhuma. Creio que tudo, como sempre, tem que ver com a mortalidade. Frágeis, leves, voláteis, transitórios, indefesos – ali vejo seres, como eu, partindo ou vendo partir. Encontrando-se, desencontrando-se, despedindo-se.
Voltarei ao I.P.O. daqui a um ano, segundo a agenda das consultas. Talvez aí nos reencontremos, queridos contemporâneos. Ou não. Repito: talvez.
Talvez é um delicado monumento linguístico à esperança, mas admite já a ominosa possibilidade da decepção. Uma ponte de cristal entre acreditar e resignarmo-nos. Entre sermos e termos de, um dia, deixar de ser.
A rua da minha infância, quando havia vento, trazia os murmúrios de comboios indo e vindo. O nome popular desta Estação de Coimbra-B é Estação Velha (dita velha, notai, desde a meninice de quem agora, maduro, a recorda). E ocorre-me que essa é uma adequada designação da própria Vida: Estação Velha desde que nascemos.

Ribeira de Pena, 06 de Dezembro de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.verride.blogspot.pt.]

segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

Santa Cruz


Para a MP (e para a VL)

A vida tem sido, apesar de tudo, uma augusta rua.
A viagem, não obstante tantos danos e tantas dores, tem sido amável e certa como poucas.
A casa fez-se e, embora etimologicamente imperfeita (e ainda não paga), tem o odor conhecido da una pele familiar.
De modo que comprei três rosas. Três alegres rosas. Três tiros lindos contra o frio, a distância e o medo do futuro.

Ribeira de Pena, 03 de Dezembro de 2012 (29 anos depois).
Joaquim Jorge Carvalho
[As imagens foram colhidas, com a devida vénia, em - respectivamente - http://www.segredosdecoimbra.blogspot.pt. e http://www.imagens.face.com.]

quarta-feira, 28 de novembro de 2012

Sextilha coimbrã (seguida de dois apontamentos em prosa)

I
Regresso a Coimbra agora
Como a um amor antigo
E quero vê-la de fora
Mas não consigo –
Ó minha cidade, meu amor!
Minha certa coisa interior!

II
A minha mãe foi de bela a velha a olhos vistos. Regressa de velha a bela a olhos escritos.

III
A minha mãe já teve as faces rosadas. Depois, foi-lhe fugindo o sangue, a cor. Parece-me, às vezes, um ser a caminho da transparência, esse estado último e cósmico em que, já não bem estando, inteira permanece afinal – em todas as pessoas, em todas as coisas.

Coimbra, 25 de Novembro de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.sonsoflyon.blogspot.com.]

domingo, 25 de novembro de 2012

Lógica da terra & lógica do céu

1. Ouvi uma vez mais certa abóbora disfarçada de jovem a defender, na televisão, a extinção das SCUT. Quem quer estradas boas, defendeu, paga-as.
Eis a lógica tão moderna, tão cheia de gel e de desassombro neoliberal: as estradas más, lentas, perigosas – são para os pobres. As boas são para os outros.
Ora, há nisto, concedamos, uma certa lógica mundanal.

2. O líder do grupo parlamentar do CDS-PP incomodou-se com a linguagem de um deputado do PCP sobre o “roubo” dos subsídios aos funcionários públicos e aos pensionistas. (“Roubo” foi a palavra usada pelo deputado comunista; é também a que costumo utilizar quando me refiro ao assunto. Roubo, isto é, roubo, ou seja, roubo, quero dizer – roubo!)
Já o senhor primeiro-ministro, há tempos, se insurgira contra esta linguagem, coitadinho.
Curiosamente, poucos parecem escandalizar-se com o facto de notáveis engravatados e cínicos em geral falarem do povo português como uma gente que viveu, durante décadas, “acima das suas possibilidades”.
Haverá também nisto, especulo, alguma espécie de mundanal lógica.

3. A minha contemporaneidade é politicamente um tempo nojento. Os que nos matam – ora mais à bruta, ora mais subtilmente – hão-de, estou certo, morrer impunes. Mas eu, perdoai as virgens da situação, vou à linguagem dos meus avós e desejo isto: que os responsáveis pelas políticas que temos, hoje, ardam um dia (nem que seja daqui a cem anos) nas profundezas do inferno.
Justiça poética, compreendeis? Ou, dito de outro modo, espécie de lógica divina.

Coimbra, 24 de Novembro de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.oclarinet.blogspot.pt.]

sexta-feira, 23 de novembro de 2012

A MONTANHA DA ÁGUA LILÁS, de Pepetela: a história e as lições que uma história oferece



Artur Carlos Maurício Pestana dos Santos, mais conhecido como Pepetela, nasceu no dia 29 de outubro de 1941, em Angola. Em 1960, entrou na Faculdade de Engenharia de Lisboa, mas acabou por optar por Letras e, mais tarde, enveredou por uma carreira política, vindo a ingressar no MPLA – Movimento Popular para a Libertação de Angola, em 1963. Lutou pela independência de Angola e, por esse motivo, foi obrigado a fugir para França e para a Argélia. Após a libertação de Angola, o romancista foi para o seu país, em 1975, sendo então nomeado vice-ninistro da Educação, durante a presidência de Agostinho Neto. Durante o exílio, licenciara-se em Sociologia na Universidade de Argel, tornando-se mais tarde, já em Angola, professor na Faculdade de Arquitetura de Luanda.
Em 1997, Pepetela venceu o Prémio Camões, um dos mais importantes da língua portuguesa. Esta distinção ajuda a consagrálo como um nome muito importante da nossa literatura.
A Montanha da Água Lilás é uma espécie de fábula em que o escritor, para, além de contar uma história divertida, passada na selva, consegue fazer pensar os leitores em assuntos fundamentais da vida em geral (dos animais e – sobretudo – dos humanos).
A comunidade de macacos representa a própria organização das sociedades humanas. Há naquela sociedade da montanha diferentes modos de ser, de agir, de pensar. Há os que mandam e os que obedecem. Há os que gostam de trabalhar e os que são preguiçosos. Há os que são amáveis e generosos, há os que são arrogantes e agressivos. Quando se dá a descoberta de uma riqueza (a água lilás, que tem propriedades maravilhosas), deveríamos esperar, em princípio, uma melhoria significativa da vida da comunidade. Contudo, a novidade acaba por provocar transformações que, pouco tempo depois, significarão uma verdadeira degradação da vida do povo “lupi” e de todos animais em geral.
O livro acaba por ser, pois, uma lição sobre os perigos da ambição desmedida, do egoísmo, da inveja, da arrogância, da intolerância e da vaidade.
Os únicos seres que parecem resistir ao mal são um Pensador e um Poeta. O Pensador representa, claramente, a Filosofia (a capacidade de refletir sobre a vida e sobre o comportamento das sociedades e dos indivíduos). É a voz da Razão: vê, desde logo, o perigo que há em ceder à preguiça, ao egoísmo, à inveja, ao culto do lucro fácil, à arrogância.
Por sua vez, o Poeta (representante da Poesia, da Arte e do Sonho) tem, para além da sua natural inteligência, uma sensibilidade particularmente apurada que lhe permite saber, com antecipação, o que irá acontecer no futuro se os seus semelhantes teimarem em perseguir apenas a riqueza material, sem terem em atenção o bem-estar físico e psicológico dos seus semelhantes.
No fundo, o Pensador e o Poeta são, ali, os últimos resistentes. São, no fundo, os que sobrevivem sem perder o sentido ético (o sentido do Bem, da Verdade e da Justiça) e o sentido da Liberdade (pensar pela própria cabeça, sem medo de castigos e sem medo do esforço que uma vida livre e digna exige).
Não ler este livro é perder uma excelente história. E é também desperdiçar a oportunidade de dialogar com um importante escritor da língua portuguesa.

Arco de Baúlhe, 23 de Novembro de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho

quinta-feira, 22 de novembro de 2012

Ensaio sobre a vida a (ha)ver


Gosto da quase-nudez da árvore outonal
Que pesarosa recorda o fim do Verão
E, cansada já do próprio cansaço, mal
Acredita ainda na ressurreição.

Arco de Baúlhe, 22 de Novembro de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho
[A formosa foto foi colhida, com a devida vénia, em http://www.baixaki.com.]

domingo, 18 de novembro de 2012

A Sabedoria fora das bibliotecas

A minha amiga Olívia Sofia ofereceu-me recentemente, não pela primeira vez, um livro precioso. Título: História do Sábio Fechado na Sua Biblioteca. Autor: Manuel António Pina.
Como em tantos outros casos, Manuel António Pina escreveu um livro para adultos disfarçado de livro para crianças – ou, no mínimo, um livro para toda a gente disfarçado de livro para gente mais pequenina.
A lição no conto é muito simples: a verdadeira sabedoria está na vida. Voilà!
Na vida, expliquemo-nos, vivida, experimentada, feita de cores e cheiros e pele e vozes e animais e plantas e força e doença e amores e lutas e solidão e desertos e água e, sobretudo, de humanidade (que é tudo quanto há no nosso olhar consubstancial).
Um sábio desce da sua biblioteca (espécie de torre de marfim onde é suposto existirem todas as respostas sobre o que o mundo e a vida são) e descobre a vasta ignorância que há, afinal, nestes infinitos livros divorciados da rua, das gentes.
A História do Sábio Fechado na Sua Biblioteca confirma: não há verdadeira sabedoria sem humanidade. (É claro que, para mim - e decerto também para Pina – tão-pouco haveria humanidade sem a sabedoria dos livros. Adiante.)
Atrevo-me ainda a ver, nesta formosa moralidade do imorredoiro M. A. Pina, um murro nos queixos de governantes que trocam as pessoas por fanáticos números em Excel; uma bofetada nos catedráticos que trocam a intervenção na sociedade pelo olimpo chique de convenções amestradas; uma sova nos teóricos e curiosos da educação que trocam a realidade por obscenas demagogias sem coração nem vergonha.
A vida sabe mais dos homens que os livros, diz-lhes (diz-nos) Pina.
E não deixa de ser irónico que o genial autor no-lo diga em livro

Ribeira de 17 de Novembro de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho

sexta-feira, 16 de novembro de 2012

90 anos de Saramago – O Conto e o Canto da Ilha Desconhecida







A Biblioteca Municipal António Teixeira de Carvalho, do Arco, quis celebrar os 90 anos do nascimento de José Saramago. A bibliotecária, Maria José Alves, organizou uma pequena exposição com considerável parte da obra do escritor, desafiando-me, de caminho, a preparar e dinamizar uma sessão sobre o legado literário do nosso Prémio Nobel da Literatura.
De modo que, no Auditório da Biblioteca, reuniram-se hoje cerca de 75 alunos do nono ano, acompanhados por três professores (Rosário Mendes, Ângela Lourenço e eu próprio). O que tentei fazer, sobretudo, foi iniciá-los na delicada arte de ler a narrativa saramaguiana.
Pelo meio, dei-me conta de como a jovem audiência se comovia sinceramente com a história de amor entre o escritor e a sua segunda mulher, Pilar del Rio, jornalista e escritora espanhola. Sorriram ao reconhecimento do homem perante os méritos da namorada-esposa, mesmo em matéria de vitórias literárias ("Graças à sua inteligência, à sua capacidade criativa, à sua sensibilidade e também à sua tenacidade, a vida deste escritor pôde ter sido, mais do que a de um autor de razoável êxito, a de uma contínua ascensão humana"). Suspiraram perante as magníficas declarações de amor que Saramago, ao longo de 23 anos, constantemente fez a Pilar - como aquela, depois da pneumonia que o atirou durante meses para a cama do hospital e, mais tarde, para uma cadeira de rodas: “A Pilar, que não me deixou morrer" (A Viagem do Elefante); ou aquela em que, em As Pequenas Memórias, lamenta ter conhecido a mulher da sua vida tão tarde em sua vida: “A Pilar que ainda não havia nascido e tanto tardou a chegar.” Ou aquela em que, numa entrevista ao New York Times, Saramago afirma: "Se eu tivesse morrido antes de te conhecer, Pilar, teria morrido sentindo-me muito mais velho. Aos 64 anos, a minha segunda vida começou. Não posso queixar-me.“ Ou aquela que escutei no documentário Pilar e José, de Miguel Gonçalves Mendes: "Se tivesse morrido aos 63, antes de a conhecer, morreria muito mais velho do que serei quando chegar a minha hora." 
Os alunos do nono ano murmuraram um gentil espanto quando lhes disse que Pilar era, desde 2008, nome de uma rua em Azinhaga, na Golegã (Ribatejo), terra natal de Saramago - e de essa rua se cruzar com a Rua José Saramago, também ali, na Azinhaga. Disse-lhes que o enamorado escritor considerara, no dia da inauguração da rua com o nome do seu amor, que ali se concretizava um "terceiro casamento". Acrescentei-lhes ainda esse pormenor formoso de a espanhola amada ter então desejado que "todos os enamorados do Mundo se encontrem e deem um beijo naquela esquina", sendo que “aquela esquina” era a esquina onde as ruas José Saramago e Pilar del Rio se encontravam.
Não deixei de lhes lembrar esse pormenor delicioso de o primeiro encontro entre ambos em solo espanhol (na cidade de Sevilha), decerto quando ambos já se sabiam destinados um ao outro, os relógios marcarem as 4 da tarde – e de por isso todos os relógios na residência do casal em Lanzarote terem, para sempre, ficado a marcar as 4 horas em ponto
Dei-lhes ainda a conhecer a dedicatória em Caim, que é para mim a mais bela e mineral de todas quantas o apaixonado escritor inventou para Pilar: "A Pilar, como se dissesse água".
Acreditava que o fundamental, nesta ocasião, era dar a conhecer, mais do que pormenores biobibliográficos, a escrita de Saramago. Refiro-me à escrita propriamente dita, à escrita física, material, corpórea - coisa, digamos assim, de ver-ouvir-sentir. Para isso, escolhi como corpus um belo conto, escrito em 1987, por encomenda da Expo’98, intitulado O Conto da Ilha Desconhecida. Sabia bem, claro está, que a prosa do autor, aos iniciados, causa estranheza e tende a aportar não poucos escolhos. Era agora preciso, digamos assim, (re)aprender a ler.
Não sei se os meus leitores se lembram daquelas rodinhas suplementares que se usam para aprender a andar de bicicleta; eu julgo ter optado por algo semelhante na minha aulinha: utilizei a cor vermelha para as palavras ditas pelo homem que pediu um barco ao rei, a cor verde para as palavras ditas pelo rei, a cor azul para as palavras ditas pela mulher da limpeza, a cor castanha para as palavras ditas pelo capitão do porto, a cor preta para as palavras ditas pelo narrador, etc. Depois, quem quisesse, senhores, veria facilmente um sorriso nababo neste meu rosto quase cinquentão à medida que rapazes e raparigas iam lendo o texto, sem que se desse por falta de pontos de interrogação, pontos de exclamação, reticências. Juro-vo-lo! Ao fim de quatro ou cinco diapositivos, os alunos leitores entoavam com exemplar competência os comentários do narrador, as perguntas, os gritos (de espanto ou revolta) e as dúvidas das personagens.
Não é da minha gratidão a Saramago que vos queria aqui falar. É sim desta verdade, que muitos teóricos teimam em ignorar, de a promoção da leitura se fazer (se dever fazer) lendo. De a celebração da literatura e dos livros se fazer (se dever fazer) lendo.  De a dinamização da cultura se fazer (se dever fazer) fazendo.
No final d’O Conto da Ilha Desconhecida, o narrador diz-nos: “Pela hora do meio-dia, com a maré, A Ilha Desconhecida [nome dado ao barco] fez-se enfim ao mar, à procura de si mesma.”
Aproveitei para lembrar aos alunos do nono ano que escrever – como ler, como viver – é essencialmente um exercício de gente à descoberta de si própria. Ora, a navegação (i.e., a vida) não se faz com declarações gongóricas e burocráticas de - boas ou manhosas, reais ou falsas - intenções. Faz-se, meus amigos, soltando amarras, enfrentando o desconhecido, experimentando novos mares e navegando com a mais fiável e generosa de todas as bússolas – o nosso coração leitor.

Ribeira de Pena, 16 de Dezembro de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho
[A primeira imagem (cartoon de Vasco) foi colhida, com a devida vénia, em http://www.ponteeuropa.blogspot.pt. As fotos são de Maria José Alves.]

sábado, 10 de novembro de 2012

Crónica da sazonal melancolia

Da mesa da cozinha vê-se a orografia ainda outonal que o calendário previa: uma montanha algo desgrenhada, com franjas verdes-castanhas-negras-amarelas e um fio de nuvem no topo escapando-se rumo ao céu. A totalidade vista parece-me um segmento de pintura triste, como se o artista houvesse aqui retratado alguma coisa outra que, não se vendo, também existe e é mais forte.
Assim eu. Por dentro do cansaço, escondido das olheiras, anterior ao frio, mais cavernoso que a teimosa tosse, há este outono interior que tenho sido desde menino.
Dou por mim a fazer riscos no papel. Como um militar involuntariamente na guerra africana ou um injustiçado prisioneiro de longa duração, conto os dias que faltam, no calendário, para a liberdade. Isto é, para o sol.
Este governo deles, esta gripe minha, estes ignorantes e estes fanáticos com poder; a falta de literatura nas conversas dos Cafés; o Sporting a cair para um abismo qualquer; o tempo esboroando-se ante o meu reumatismo mental – é tudo uma forma de outono, quase inverno. Que há-de um homem fazer senão resistir, esperar, ir estando, estar sendo?
Leio (por exemplo) Martin Amis, cubro-me de roupa, aqueço água para a botija, bebo o chá da MP e degusto torradas, distraio-me com uma série cómica, falo brevemente com a VL e a minha Mãe, escrevo (pouco, quase nada). A montanha escurece, o sino da igreja toca, o dia passa.
Faltam 140 dias para a primavera. Faltam 263 dias para o verão.

Ribeira de Pena, 10 de Novembro de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.cssernancelhe2.com.]

quarta-feira, 7 de novembro de 2012

Outono(mia)

De roupas mudou já o arvoredo
(outonomia triste do que sei) –
Também me dispo eu do verão, que cedo
Deveio o inverno todo que fiquei.

Cabeceiras de Basto, entardecer de 06 de Novembro de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.essaseoutras.xpg.com.]

segunda-feira, 5 de novembro de 2012

VII Concurso de Conto Infantil - Discurso de Júri

    Fiz, uma vez mais, parte do Júri do VII Concurso Literário de Conto Infantil da Câmara Municipal de Cabeceiras de Basto. A cerimónia de entrega de prémios decorreu no passado sábado, dia 27 de Outubro. Ficou a meu cargo a elaboração do discurso do júri. Como percebi, entretanto, que esse texto não aparecerá em qualquer (outro) meio de comunicação social, decidi publicá-lo aqui, no "Muito Mar", salvando-o da efémera existência a que, de outro modo, estaria votado.

Cabe-me a honra de, nesta ocasião, em nome do Júri do VII Concurso Literário de Conto Infantil de Cabeceiras de Basto - composto pela Dra. Adelina Pinto, pela Dra. Fátima Marinho e por mim próprio, Joaquim Jorge Carvalho, com a preciosa assessoria da Dra. Maria José Alves, bibliotecária -, fazer o discurso de apresentação formal dos contos vencedores, circunstância que aproveito para algumas outras (breves) considerações acerca da literatura e das artes, da cultura, da condição humana em geral.
Antes de mais, é de toda a justiça cumprimentar a Câmara Municipal de Cabeceiras de Basto pela saudável teimosia com que, pela sétima vez consecutiva, leva a cabo este concurso. Numa altura em que os ventos económico-financeiros não são de feição, a aposta na cultura ganha contornos de especial relevo.
Numa bela crónica de Alice Vieira (por sinal, ela própria autora de créditos firmados na área da literatura infantil-juvenil), tomei pela primeira vez conhecimento de um episódio alegadamente passado com Winston Churchill, primeiro-ministro inglês durante a II Guerra Mundial. Discutia-se a iminência de fatais cortes no orçamento de muitos ministérios, de modo a concentrar-se a maioria dos recursos no esforço de guerra contra os nazis. Um assessor do estadista sugeriu-lhe que cortasse forte e feio nas verbas previstas para a cultura. Churchill não percebeu de imediato a sugestão e o assessor concretizou a sua ideia: de todos os orçamentos sectoriais, o menos prioritário, naquele contexto, era o da cultura. Churchill - que foi também Prémio Nobel da Literatura - respondeu-lhe (cito livremente):

- Esta nossa guerra é contra a barbárie, a ignorância, a brutidade. Se cortarmos na cultura, por que coisa estaremos a lutar?

Eis uma história que a muitos dos nossos governantes explicaria algo.

Um concurso literário celebra, logo à partida (e simplesmente por existir) a utilidade e o interesse da literatura. Deixai que vos fale um pouco deste amado tema.
Tive a oportunidade de, durante três anos, no âmbito de um Doutoramento em Literatura Portuguesa, estudar a obra de um grande escritor português do século XIX, Júlio Dinis, infelizmente nem sempre suficientemente valorizado pelo cânone literário português. Nos seus livros (sobretudo, nos seus contos e romances), destaca-se uma certa dimensão educativa que, pelo menos para jovens leitores, assume uma importância indiscutível. Não me choca a ideia de, associada ao relato de histórias, à enunciação de espaços e circunstâncias divertidas ou dramáticas, encontramos sábia e subtilmente edificados os valores da justiça, da honestidade, do empenho, dos sonhos, da bondade e da grandeza da condição humana.
Fará decerto sentido lembrar este aspecto muito recorrente na narrativa dinisiana (premiar o bem; castigar o mal) num discurso – como este - acerca de trabalhos inscritos na área do conto infantil. Aqui, ainda de modo mais claro, afigura-se fundamental que, concomitante às histórias narradas, haja uma componente educativa e, de modo geral, eivada desse optimismo humanista que podemos explicar como a possibilidade de, em cada momento, ser possível aos indivíduos a evolução e crescimento pessoal, a sempre possível redenção, a iniciática descoberta da virtude, a construção de um futuro mais agradável e mais justo.
No romance A Morgadinha dos Canaviais, de Júlio Dinis, há uma personagem chamada Manuel Bernardo (aliás, conselheiro Manuel Bernardo), que é o pai da Morgadinha. Este homem é deputado e, durante meses a fio, vive em Lisboa, onde está o parlamento, apenas visitando a casa da família em raras ocasiões (como o Natal ou as férias estivais). A sua vida é feita de intrigas políticas, tácticas, jogos de interesses, amabilidades convencionais, cobranças e cedências, cinismo utilitário. Em jovem, foi um idealista, com ideias muito claras sobre a honra, a ética, a justiça social, o progresso, um sonho de liberdade e de abastança gerais; ao dobrar os quarenta anos, tinha consciência das mudanças em si operadas, isto é, dos efeitos iniludíveis de alguma corrupção da alma, de alguma degradação do carácter.
Mas havia sempre um momento em que, despido das obrigações mudanas, sociais, político-partidárias, este homem se sentia novamente livre, puro, formoso: era quando entrava na casa da família, algures no Minho, e toda a existência regressava a uma simplicidade querida, bondosa, verdadeira. O homem, então, longe da hipocrisia da vida parlamentar, voltava interiormente a ser a pessoa que outrora fora e, já sem a preocupação das conveniências aparentes, era feliz, profundamente feliz.
Maria Irene Ramalho dos Santos (emérita professora de literatura na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra)  ensinou-me a dividir, de modo retoricamente muito produtivo, a nossa existência em dois planos – mundo político e mundo poético. Por mundo político, devemos entender o mundo da gestão da “polis”, isto é, o das rotinas necessárias que constituem as regras e os procedimentos da vida económica, da convivência social, do cumprimento dos nossos deveres e do exercício dos nossos direitos. Por mundo poético, devemos entender as pontuais fugas à normalidade cansativa e opressora, a prevalência do profundo (e, muitas vezes, adiado) amor sobre a fria razão, a perseguição do sonho, a autorização de momentos (pessoais, só nossos) de prazer e de beleza que não cabem no mundo político.
Precisamos do mundo político, claro: precisamos de alimentação, de roupas, de casa, de segurança, de serviços essenciais como a educação, a justiça, a saúde, a governança. Mas igualmente precisamos de mundo poético: de música, de pintura, de dança, de literatura, etc. – espaços de criação e fruição de beleza e de verdade, territórios da linguagem maior que nos diz e nos aumenta, nos distingue dos animais sem alma. Não sobreviveríamos, enquanto civilização, sem o mundo político. Mas também não viveríamos verdadeiramente sem o mundo poético, que nos oferece diversão, consolação, comunhão, beleza - e que igualmente permite a eterna celebração da nossa condição de humanidade.
Ao mundo poético, a este reduto querido de Manuel Bernardo, na Morgadinha (e nosso), eu gosto de chamar uma espécie de aconchego mínimo de que a condição humana essencialmente precisa. No plano da realidade física, haverá contextos específicos que garantam esta paz, esta felicidade (família, clube, amigos, desporto). Mas um dos mais seguros e eficazes territórios de felicidade que conheço é o do mundo das artes, entre os quais deliberadamente privilegio o da literatura e, em especial, o da narrativa.

A literatura é um território da língua em que a profundidade, a originalidade e o alcance da linguagem são maiores. E a narrativa compreende a ordenação do mundo (contar é ordenar); compreende a iluminação metonímica da vida; e compreende ainda a maravilhosa possibilidade de, escrevendo ou lendo, vivermos outras vidas.
Lembro aqui, à laia de formoso exemplo, o conto O Cavaleiro da Dinamarca, de Sophia de Mello Breyner Andresen. Essa narrativa assenta no sonho de um dinamarquês corajoso que quer ir à Palestina. Nós, leitores, vamos com a personagem e, através dos sucessivos episódios e histórias secundárias metidas na história principal, viajamos por lugares onde nunca estivemos e onde talvez nunca venhamos a estar; acrescentamo-nos de informação e de imaginação; percebemos melhor o mundo, a vida, a nossa própria condição de indivíduos com sensações, sentimentos e sonhos. No final do conto de Sophia, o Cavaleiro regressa a casa, não sem antes sofrer as agruras do caminho, os perigos da noite e a dureza do clima. De novo em casa, tudo parece regressar à normalidade, mas não: o Cavaleiro é outro, carregando no seu cérebro e no seu coração a memória dos lugares que viu, das emoções que experimentou, das lições que aprendeu. O mesmo sucede com os leitores que, acabada a leitura, regressam a si próprios, dessa viagem, indivíduos mais ricos, mais experientes, mais sábios.

A escrita de um conto implica a obediência (modal e genológica) a regras essenciais, directa ou indirectamente enunciadas, aliás, nos critérios de classificação tidos em conta pelo Júri. De maneira sucinta, diremos que o autor deverá ser capaz de, num número reduzido de páginas, edificar um contexto ficcional compreensível, coerente, tutelado por alguma espécie de lógica, ainda que diferente da lógica que na vida real conhecemos. E esse novo mundo, digamos assim, será o palco da história narrada.
Acresce que, neste caso específico do conto infantil, como já atrás se sublinhou, será conveniente que a um relato idealmente interessante de episódios corresponda uma concomitante e estratégica (ainda que subtil) intenção pedagógica. Poderá o público leitor, eventualmente, acrescentar ao prazer de conhecer/viver uma história extraordinária o potencial prazer de aprender (ou re-aprender) alguns conceitos, princípios e valores interessantes (a honestidade, a solidariedade, a tolerância, o respeito pelos mais velhos, a importância de tratar bem a natureza, etc.).
A esta luz, os contos que o Júri decidiu distinguir foram os que, de facto, mais corresponderam às exigências e expectativas artístico-literárias e genológico-modais do conto infantil. Tratou-se de uma tarefa exigente, esta, porque a avaliação do objecto literário comporta uma margem de subjectividade que, por muito balizada que esteja do ponto de vista dos critérios de classificação, tem sempre forçosamente a ver com o gosto de cada leitor(a). E, não obstante ser verdade que a nossa decisão foi relativamente fácil, por ter havido nos jurados uma rápida comunhão de pontos de vista, a verdade é que cabe aqui uma palavra de admiração e reconhecimento dirigida a todos os candidatos não premiados. Com efeito, outros contos interessantes estiveram a concurso - e o facto de não terem sido distinguidos com prémio não significa por si só que, no plano absoluto do mérito literário, sejam de menor qualidade; o escalonamento decorre da decisão de um Júri específico que, no exercício circunstancial da sua autoridade, fez as suas opções. Apenas isso.

(Entre parêntesis: eis por que razão é tão importante proceder, com regularidade, à renovação de um Júri de um concurso desta natureza – dar azo a que outras sensibilidades, outros ângulos de análise, outros gostos possam participar nestes concílios deliberativos.)

Foi atribuído o terceiro lugar ao conto “Fábula com fim incerto para um de dois moluscos terrestres”, da autoria de Ema Carreira, que assinou com o pseudónimo de Docelina. Trata-se de um conto bem construído, rico em termos de vocabulário e eivado de curiosos apontamentos irónicos (talvez nem sempre adequados a um público muito jovem). A história compreende uma aventura com um caracol e uma lesma e conclui-se com o castigo desta última personagem insuportavelmente vaidosa e arrogante. Contudo, esta dimensão edificante é talvez prejudicada pela severidade e crueldade da punição relatada (o caracol não encontra, na sua casca, lugar para a lesma e, indiferente ao sofrimento da desgraçada, deixa-se confortavelmente adormecer).
Este conto apresenta uma epígrafe de La Fontaine (“A fábula é uma pintura / em que podemos encontrar o nosso próprio retrato.”). O Júri apreciou a erudição, mas considerou dispensável a inclusão o paratexto no enunciado.
Foi atribuído o segundo lugar ao conto “Uma amizade para a vida”, de Isabel Maria Ferreira Bóia, assinado com o pseudónimo de Gabriela Evander. O texto (que perigosamente lembra um filme de sucesso intitulado “Um porquinho chamado Babe”) relata a amizade improvável entre uma menina e um porco. Logo no início do enunciado, a voz narradora sublinha o preconceito do pai de Aurora face ao animal: “Para ele, o porco só servia para comer. Onde já se vira um porco ser animal de companhia?”
Logo a seguir, a narração oferece-nos a visão (distinta, incomum, diferente) da filha: “Aurora não pensava como o pai. Para ele, aquele ser, por quem nutria um carinho especial, não era um porco, mas sim o seu Malaquias.”
É sobre esta base - a da diferença entre a ideia do pai face ao porco (uma ideia geral, fria, objectiva, assente na tradição e no olhar distante) e a ideia da filha (uma ideia que decorre de uma relação próxima, afectuosa, pessoal, subjectiva) – que se constrói o conto. Muitas peripécias conduzirão o pai de Aurora ao reconhecimento (ou aprendizagem) de que o porco, nesta história, era mais do que um simples animal para comer. Era, como dizia a filha, gente com nome (o “Malaquias”). A viagem – dificultosa e recheada de aventuras – é uma edificante jornada entre o preconceito e a verdade. Aquilo que, pelo coração, já a menina Aurora entendera (que a essência dos seres é mais importante que a sua aparência) é, no final da história, percebido também pelo seu pai.
Foi atribuído o primeiro lugar ao conto “Martinho”, de Flávio Miguel Fraga Silva, que assinou o seu trabalho com o pseudónimo Miguel dos Ventos. Numa primeira leitura, o texto parece não corresponder à forma tacitamente entendida como correcta, no universo convencional do texto narrativo – aparece em verso, constituindo-se de quadras nem sequer sempre perfeitas do ponto de vista da métrica ou da rima. Contudo, ao longo da leitura, o leitor é mergulhado numa aventura extraordinária, recheada de peripécias surpreendente e desconcertantes, ora divertidas ora dramáticas, explicáveis à luz de uma certa tradição de conto fantástico ou maravilhoso que nunca passarão de moda.
Numa segunda leitura, apercebemo-nos da condição eminentemente teatral do conto, que convida – pela leitura expressiva ou pela sua concretização em palco – ao velho mas sempre querido exercício da arte de contar histórias (consabida irmã gémea da arte de ouvir histórias). Martinho e o seu leão de brincar (verdadeiro na imaginação do rapaz e na lógica ficcional da própria história narrada) vivem uma odisseia que, em termos essenciais, provará uma verdade muito simples: “Aquilo que aprendi / Foi que nunca nunca mais / Voltarei a sair de casa / Sem dizer nada aos meus pais”.
Mas talvez essa lição (apenas um leve esvoçar pedagógico da narrativa) foi pretexto para uma rica, colorida, vertiginosa aventura que aportou ao enunciado diferentíssimos lugares, variadíssimas situações, estranhíssimas criaturas (com suas peculiaríssimas formas de falar). Na própria reunião final do Júri, propusemos que este texto fosse apresentado ao público de forma, tanto quanto possível, dinâmica, teatral, espectacular. Creio que esse desiderato foi tido em conta, como adiante se provará.

A terminar, uma nota talvez pessoa. Morreu, no final da semana passada, Manuel António Pina, ele próprio cultor da disciplina do conto, mas também do texto dramático e, sobretudo, da poesia. Descobri-o há uns doze anos e ele era (e é), para mim, acima de tudo, um dos maiores poetas da nossa contemporaneidade.
Costuma dizer-se, nestes casos, que a arte sobrevive ao artista. Julgo que este clichê, apesar de clichê, compreende uma efectiva verdade: Manuel António Pina ofereceu-nos, com a sua literatura, um espaço de excelência linguística, de beleza de raciocínio e sensibilidade, de iluminação – que durarão para lá da sua morte, para lá da nossa morte.
Pina, como artistas e escritores em geral, ofereceu-nos – à sua maneira – alguns territórios de aconchego (como os que referi no início este discurso). O melhor de si está nos livros que escreveu. Ele cala-se, agora, como sempre se cala um escritor para que, depois, possam falar os próprios textos, os próprios livros. Também é esse, em determinada altura, o dever do crítico de literatura.
Leio-vos, antes de me calar, um poema de Pina, intitulado – nem de propósito – “NA BIBLIOTECA”. Escutai-o, por favor, como tributo ao Poeta que morreu na semana passada e, obviamente, uma homenagem sincera à literatura em geral. Notai, por obséquio, esta nota (simples, mas essencial) sobre a indispensabilidade de haver leitores para haver livros – ou de não haver cantores nem canto se não houver quem o(s) ouça
O que não pode ser dito / guarda um silêncio / feito de primeiras palavras / diante do poema, que chega / quando já a incerteza e o medo se consomem / em versos alexandrinos. / Na biblioteca, em cada livro, / em cada página sobre si / recolhida, às horas mortas em que / a casa se recolheu também / virada para o lado de dentro, / as palavras dormem talvez, sílaba a sílaba, / o sono cego que dormiram as coisas / antes da chegada dos deuses. / Aí, onde não alcançam nem o poeta / nem a leitura, o poema está só. / E, incapaz de suportar sozinho a vida, canta.(Manuel António Pina, Poesia, saudade da prosa – Uma Antologia Pessoal, Assírio & Alvim, 2011.)
Calo-me enfim, para que fale, já a seguir, em discurso directo, o texto vencedor do VII Concurso Literário de Conto Infantil de Cabeceiras de Basto.
Parabéns à Câmara Municipal de Cabeceiras de Basto pela iniciativa.
Parabéns aos premiados e, em especial, ao autor do trabalho que elegemos vencedor. Viva a literatura portuguesa. Viva Manuel António Pina! (E viva o professor Manuel Carneiro, que foi – e é – meu querido cúmplice em matéria de vidas e literaturas!)

Ribeira de Pena, 26 de Outubro de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.aterceira noite.org.]

sexta-feira, 2 de novembro de 2012

Esteiros, de Soeiro Pereira Gomes

Soeiro Pereira Gomes nasceu no dia 14 de abril de 1909 e morreu no dia 05 de dezembro de 1949.
Ao longo da sua vida, não chegou a publicar muitos livros, mas nem por isso deixou de ganhar um lugar de grande relevo na literatura portuguesa do século XX.
Pertenceu a uma corrente de escritores neo-realistas, isto é, autores que – numa espécie de regresso ao realismo literário do século XIX –  pretendiam inscrever, na sua arte, marcas da vida real que permitissem aos leitores uma mais imediata e franca identificação com temas, acontecimentos e personagens.
O romance Esteiros conta a história de um rapaz (o “Gaitinhas”), que, apesar de excelente aluno, é obrigado a desistir da escola por ser pobre. O pai é emigrante, no estrangeiro; a mãe é tuberculosa – e Gaitinhas não tem outro remédio senão ir trabalhar.
Apesar das dificuldades económicas e dos múltiplos motivos para a tristeza e até o desespero, o rapaz tem também espaço para se divertir com os amigos, frequentando festas populares, indo ao cinema, tocando alegremente a sua “gaita de beiços”.
Toda a história é uma espécie de grito contra as injustiças de uma sociedade desigual e aviltante, que condenava os pobres a um destino de escravidão e indignidade.
O trabalho infantil e juvenil, hoje felizmente ilegal e de modo geral combatido pelos países desenvolvidos, é um dos temas fundamentais do livro. Não por acaso, o autor dedica a sua obra “A todos os homens que nunca foram meninos”.
Li o romance aí pelos meus doze anos e já o reli muitas vezes.
Recomendo-o agora a todos os meus amigos (alunos e colegas, sobretudo). É que deixar por ler um grande livro é condenarmo-nos à mais triste das ignorâncias - a ignorância voluntária.

Arco de Baúlhe, 26 de outubro de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho
[Texto expressamente elaborado para a Biblioteca da minha escola, no sentido de contribuir para a divulgação de obras literárias que, no entender dos professores/educadores, vale muito a pena ler.]

domingo, 28 de outubro de 2012

Saudades do professor Manuel Carneiro


Coube-me escrever o discurso para a cerimónia de entrega de prémios do Concurso Literário de Conto Infantil de Cabeceiras de Basto. Para o final do enunciado, agendei uma singela homenagem ao escritor Manuel António Pina, um dos grandes poetas da nossa língua. Achei justo o tributo e, do ponto de vista da retórica em causa, indicado para aquela ocasião: afinal, tratava-se de, à roda do escritor-jornalista falecido recentemente, celebrar a ideia de literatura (e, em termos mais latos) o interesse e a utilidade da própria cultura.
Ao chegar à biblioteca municipal, no Arco, uma notícia terrível interromperia aquela gloriosa tarde de sol. "Morreu o professor Manuel Carneiro..."
O professor Manuel Carneiro foi meu circunstancial "aluno" na Universidade Sénior; meu actor na peça "Julieu e Rometa" (fazendo, com graça e competência, o papel de Julieu); meu colega no Júri do Concurso Literário de Cabeceiras de Bastos. E foi, sobretudo, um prestigiado e  admirado companheiro, cúmplice do bom humor, do gosto pela arte e pelo conhecimento, do amor pela língua portuguesa.
À pressa e sob esse profundo atropelamento que é perdermos uma pessoa verdadeiramente querida, juntei à homenagem a Pina - no discurso - uma homenagem (não menos sentida) ao professor Manuel Carneiro.
A vida e a morte não dependem só da nossa vontade. Mas o esquecimento ou a lembrança, sim.
Por mim, à falta de melhor alternativa, não deixarei que me morra a memória desta extraordinária pessoa.
Amigo Manuel Carneiro, foi uma grande honra e um grande prazer conhecê-lo. Abraço eterno.

Coimbra, 28 de Outubro de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho
[A foto - que o professor Manuel Carneiro me enviou, há anos, via Facebook - foi tirada na noite do espectáculo teatral que tive a oportunidade de encenar com os queridos actores da Universidade Sénior, há já quatro anos, no Auditório do Mercado Municipal.]



sexta-feira, 26 de outubro de 2012

Acaso ocaso

O aluno desenha no papel um coração.
Depois faz do papel um avião
E lança-o no ar, mas não
Voa e cai no chão.

 

Arco de Baúlhe, 26 de Outubro de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.zazzle.com.]

quinta-feira, 25 de outubro de 2012

Aurora


A aurora que falta é uma razão definitiva
para não morrer.

Arco de Baúlhe, fim d'aulas, 25 de Outubro de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho

[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.olhares.sapo.pt.]

segunda-feira, 22 de outubro de 2012

Odor (ó dor!)


À noite, na infância, ouço vozes estranhas. A mãe vem ao quarto e pede-me que durma no sofá. No corredor, diviso gente, malas, um casaco comprido pendurado no bengaleiro. A causa do desassossego chama-se Manuel do Redondo e é amigo do avô, pai do pai. É um velho, como o avô (o avô dirá que se trata de um rapaz do seu tempo). Vem da aldeia para uma consulta. O pai sussurra à mãe que o velho está muito doente. De modo que, por causa do intruso nocturno, eu durmo na sala.
De manhã, bebo o habitual café com leite antes da escola. A mãe vai ao meu quarto buscar-me a roupa e a pasta e explica-me que o velhinho e o pai saíram muito cedo para a consulta.
Sigo para a escola e noto que a bota esquerda está molhada. Não chove, contudo, pelo que é um mistério esta humidade no meu pé esquerdo e aquela mancha mais escura no peito da bota. Ando na segunda classe, a professora chama-se Dona Angélica, gosto da Beatriz e da Manuela João. O meu maior amigo é o Jaime Alves dos Santos. Ele comenta, entre risos, que cheira a mijo na sala. A professora funga e olha, desconfiada, para os meus dois colegas mais pobres.
Ao almoço, revejo o velho. Está desanimado com a conversa do médico e regressará nessa tarde, de camioneta, para sua a aldeia. (A aldeia onde, meses depois, se realizará o seu funeral.)
A mãe pergunta-lhe se dormiu bem. Ele garante que sim. E pede desculpa por, na pressa da manhã, se ter esquecido de despejar o penico. Eu acho estranha aquela conversa porque, ao contrário do que se passava na casa dos avós, não havia penicos em minha casa. O meu pai explica-nos, enquanto o velho arruma a mala lá dentro no quarto, que a doença era nos intestinos mas talvez afectasse também a mente. E suspira:
- Coitado do ti' Manel.
Eu volto para a escola, depois. Ao sair, noto que a bota esquerda tresanda ainda a urina e, por isso, troco de calçado.


Ribeira de Pena, 22 de Outubro de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.portocity.olx.pt.]