
A Prudência
Quis sempre que Margo fosse capaz de fugir às rédeas do empresário francês. Aliás: esposo. Aliás: pai da comum filha (Mimette).
Mas Margo preferia sempre sorrir, evitando retóricas incómodas sobre as consequências ou o preço da felicidade. Era, de cada vez que falávamos de nós, o insustentável peso do tempo a abater-se sobre a cidade, o Café, a mesa, a cerveja de ambos: um dia, amor (dizia ela).
Um dia?
Nunca, portanto, a nossa história ultrapassou o imperfeito do conjuntivo. Se pudéssemos…
Prudentes, pois; e ponderados, e cuidadosos, e certinhos, e correctos, e convenientes, e sensatos, e adequados, e reverentes, e meticulosos, e obedientes, e discretos, e rigorosos. Normais, enfim – apesar de o coração e os livros nos dizerem que é errado adiar o inadiável e estúpido evitar o inevitável.
A mim, naquele egoísmo juvenil dos amantes, parecia-me que a resignação era uma imensa, cruel, cínica antecipação da morte. Que o que não fizéramos (o que ficara por fazer) se devia chamar, no calendário essencial do amor, tempo perdido.
Hoje sei, Margo, que a navegação burguesa, à prova de tempestades e de prováveis naufrágios, também é digna de admiração. Mas já não tive tempo de to dizer.
Ribeira de Pena, já 04 de Março de 2010.
Joaquim Jorge Carvalho
[Trata-se do 18.º texto do volume “A Depressão das Laranjas” (Ribeira de Pena, Ed. Casa de Santa Marinha, 1999). O rosto-supra é o da imorredoira estrela de “Morangos Silvestres”, Ingrid Bergman.]
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