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O Milagre
Margo Boniek (a mais perfeita bailarina do “Crazy Horse”) era, graças à prodigiosa atenção e aos seus finos sentidos, capaz de acumular, na memória, infinitas variedades de paisagens, luzes, cheiros, cores e ares da Polónia natal. Fazia-o igualmente com Paris, seu ninho adoptivo e pátria natural da filha.
Eu, com menos brilho e maior esforço, transportava em mim as laranjas portuguesas (textura, volume, odor, sumo, tonalidade), e também as praias, o fado doce-triste de Coimbra, a noite e o amanhecer transmontanos.
“Isto” para quê?
Para que, de cada vez que subíamos ao meu quarto, ou a um qualquer do hotel combinado (Matur-Paris), fizéssemos do lugar a aérea, alada, volucre casa de Nós.
Assim renasciam sempre, felizes, os nossos corpos, as nossas vozes, as nossas almas, a nossa estrada una – e invariavelmente se dava esse milagre singelíssimo: por horas, apesar da fome ou do cansaço sobrevenientes, todo o compartimento cheirava a (por exemplo) tremoços portugueses e a carne fumada de Lodz.
Joaquim Jorge Carvalho
[Trata-se do 22.º texto do volume “A Depressão das Laranjas” (Ribeira de Pena, Ed. Casa de Santa Marinha, 1999). A imagem-supra é um pormenor do cartaz do filme "Oito e Meio", de Fellini, estreado em 1963. O filme contava no elenco com (entre outros) Marcello Mastroianni, Claudia Cardinale, Anouk Aimé e Sandra Milo.]
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