Bússola do Muito Mar

Endereço para achamento

jjorgecarvalho@hotmail.com

Número de Ondas

domingo, 28 de fevereiro de 2010

A DEPRESSÃO DAS LARANJAS (14)


A Luz


O mais insuportável da noite
É tu não teres ainda nascido
Ou tardares tanto.



Ribeira de Pena, 28 de Fevereiro de 2010.
[Trata-se do 14.º texto do volume “A Depressão das Laranjas” (Ribeira de Pena, Ed. Casa de Santa Marinha, 1999). Foto de JJC, Machico, 25-08-2007.]

sábado, 27 de fevereiro de 2010

A DEPRESSÃO DAS LARANJAS (13)


O Tempo

Era uma vez, no futuro, um reino tão desenvolvido que, de acordo com cálculos rigorosos, se tornara possível medir (com pequeníssima margem de erro) o tempo que cada cidadão tinha de vida. A contagem decrescente começava no exacto dia em que se registasse o nascimento de um indivíduo. Análises ao sangue, à urina, às fezes, à pele, aos olhos, às unhas, às raízes capilares, etc. – permitiam ao médico de serviço a elaboração de um relatório rigoroso, discriminando os anos, os meses, os dias (e, em certos casos, até as horas e os minutos) que “restavam” ao recém-nascido.
Por esse motivo, os habitantes daquele reino futuro viviam na iminência da respectiva morte, um pouco à imagem tradicional dos faraós observando a construção do próprio túmulo: cada dia, cada pedra, ai, era um passo mais rumo ao desaparecimento final.
Muito raramente havia agressões entre os indígenas ou guerra com reinos periféricos. As gentes daquele lugar sabiam bem que todo o tempo era pouco tempo para a vida, o amor, a felicidade. O conselho de ministros, presidido pelo catedrático Dinis, recomendava muitas vezes à população esse cuidado fundamental: distinguir o essencial do acessório.
Naquele reino do futuro, os homens e as mulheres abominavam a burocracia, as filas de trânsito, as conversas de circunstância e os atrasos em geral. Tinham da vida (como atrás se procurou dizer) a noção de fruto morredoiro, provisório, esgotável – e faziam tudo quanto podiam para aproveitar cada segundo.
Na disciplina delicada do amor, essa cultura obrigava a reduzir drasticamente os motivos das zangas e dos amuos. E, nos casos em que era impossível evitar lágrimas, separações, rupturas, havia nos namorados uma urgência invulgar em reatar laços, resolver disputas, clarificar os dias; sucediam assim, com invulgar celeridade, os casamentos, as flores, os noivados, os suicídios, os poemas, as canções, os passeios pela margem dos rios ou das praias.
Foi neste contexto, curtamente descrito, que Jack convidou Debra para uma viagem de um dia, sob o pretexto oficioso de uma audiência em tribunal, em Buckingham, cidadezinha inglesa com universidade, fábrica e prados à volta. Vinham ambos de Londres, nervosos e silentes, porque aquela era uma segunda-feira grave: iriam fazer amor pela primeira vez.
Jack, farmacêutico, cinquenta anos, casado, sabia - de sua existência – que faltavam só vinte e um anos para morrer. Debra tinha menos onze primaveras que ele, e cabia-lhe a precisa esperança de (ainda) quarenta anos de vida. Era divorciada, professora de música, sem filhos, e gostava, sem perceber muito bem porquê, de pintura impressionista.
Amaram-se talvez ao terceiro dia de conversa. Descobriram-se cúmplices de gostos, tiques, canções, literaturas, modos de ver o mundo. E, atendendo à urgência consabida do relógio, organizaram o primeiro dia para o amor, com pressa e minúcia notáveis, optando por um pequeno hotel a centenas de quilómetros da city, bem longe dos olhos judicativos da convencional vizinhança.
A ideia, em boa verdade de ambos, foi verbalizada por Jack:
- E se nós…
- Na próxima segunda-feira, meu amor.
Por ali, à hora das estrelas escapando-se às aves do olhar (vindo-se) da mulher, caíra já a noite e o nevoeiro. Mas uma espécie de luz atravessava a carne opaca da neblina e, a espaços, coloria as gotas de chuva inglesa na janela: como, digamos assim, pedras preciosas caindo ar.
Quando, extenuado, Jack desfalecia de ternura, e Debra (com lágrimas) se afundava no peito do farmacêutico – plenos ambos -, um certo silêncio inundava docemente o quarto alugado. Não um silêncio de nada, como também há; um silêncio de tudo. E a única circunstância capaz de ferir aquele espaço perfeito era o tique-taque de um Big Ben em miniatura, preso à parede por sólida ferragem.
Naquele reino do futuro, depois de feito o amor, era costume o homem contabilizar mentalmente o tempo que ainda havia para ser feliz. Essa consciência conferia ao momento fruído a sua dimensão única e irrepetível (o seu valor); mas igualmente incomodava os corações dos indivíduos pensadores, vítimas a prazo da morte a haver.
Pelo que, naquele dia, simultânea às lágrimas de Debra, deu-se em Jack a percepção sábia de que a mortalidade é uma coisa bela e muito triste.

Ribeira de Pena, 27 de Fevereiro de 2010.
Joaquim Jorge Carvalho
[Trata-se do 13.º texto do volume “A Depressão das Laranjas” (Ribeira de Pena, Ed. Casa de Santa Marinha, 1999). Foto (fabricada para a ocasião) de JJC, Ribeira de Pena, 26-02-2010.]

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

Zero


O zero é uma invenção da matemática:
A regra dos algarismos é contarem presenças
Coisas, factos, evidências, seres, ganhos, metros
Minutos, horas, dias, meses, anos, séculos –
Mas o zero é isto tudo ausente, o zero
É nada.

Os sábios precisaram do zero para nomear
O que não há, não está, não vive, não importa
E chamaram às operações que dão rigorosamente zero
Contas certas.

O zero está no princípio e no fim dos números
(Ao princípio não era o verbo, era o zero)
E zeros excessivos à frente e atrás
Podem ser a guerra ou podem ser a paz
(Fortunas espantosas ou falências vergonhosas).

Soube desta invenção do zero pela wikipédia
Mas só a percebi verdadeiramente naquela manhã
Quando meu pai morreu, à revelia da primavera
E eu, antes de chorar, recordei a infância, a praia
De mira, o futebol no corredor da casa velha
O after-shave económico, a sua barba rija
O óleo dos carros e a hipocrisia encantadora
Com que enganava a minha pobre mãe.

A morte, pai. Tu nunca mais. Zero,
A conta talvez certa.

Ribeira de Pena, 25 de Fevereiro de 2010.
Joaquim Jorge Carvalho
[O poema foi escrito em Março de 2007. E foi o primeiro depois de ele se ter ido embora. Foto-supra: JJC, Ribeira de Pena, 25-02-2010.]

Pai


No início de Fevereiro de 2007, telefonei-lhe. O assunto era delicado e vasto: o seu divórcio recente, o acordo por formalizar, os bens por dividir, o tribunal, os advogados, o notário. Adiámos a conversa para a semana seguinte, quando eu estivesse em território coimbrinha.
Essa minha viagem, por alguma razão, não se fez. Novo adiamento, pois.
Duas semanas após a nossa conversa, fui finalmente a Coimbra. Alguém, no dia seguinte, disse à minha mãe que o ex-marido havia sido operado, “de urgência”, no Hospital da Universidade. Tremi à notícia. Telefonei a meu pai, duas vezes, nesse dia. Ouvi o toque prolongado das chamadas sem resposta. Pensei: adia-se. Falaremos depois.
Soube, entretanto, por terceiros, que a operação correra bem e o meu pai voltara já à sua casa. Passou uma semana.
No dia 23 de Fevereiro (sábado), o telefone interrompeu-me o sono daquela manhã de 2007. O meu irmão mais novo choramingou, menino outra vez: O pai morreu.
De modo que, senhores, fiquei com um encontro por cumprir. Adiado para sempre.
Todos os dias me lembro disso. Todos os dias me lembro do meu pai. O meu pai, aviso-vos, esteve muito longe de ser um pai perfeito. Já me esqueci mais ou menos disso. Mas todos os dias me lembro dele. Todos os dias sinto a sua falta.
O Blaise Pascal diz que o amor tem razões.

Coimbra, 26 de Fevereiro de 2010.
Joaquim Jorge Carvalho

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

Milhos em Ribeira de Pena


É uma das especialidades gastronómicas da região: os milhos (ricos ou pobres).
Tão gulosamente impressionado fiquei, logo que cá cheguei (há uns 15 anos, já), que o prato aparece no meu romance "O Livros dos Negócios, das Adivinhas e dos Provérbios" (Ribeira de Pena, Ed. Casa de Santa Marinha, 2000).
Nos próximos dias 6 e 7 de Março, terá lugar, na mui formosa Ribeira de Pena, o "III Fim de Semana Gastronómico", dedicado aos milhos penatos.
Aderiram à iniciativa camarária as seguintes casas de repasto:
"Restaurante Transmontano", "Pizzaria Zira", "Restaurante San'T", "Restaurante Tasca do Xico", "Pensão Central" e "Restaurante Bom Retiro" (de Ribeira de Pena), e "Hotel de Cerva", "Restaurante Central" e "Restaurante Convívio" (de Cerva).
Para além dos milhos (o prato principal), há duas sobremesas a destacar: Maçã Pipo de Basto; e Chila no Forno.
Eu, enquanto salivava, já convidei a família.

Ribeira de Pena, 25 de Fevereiro de 2010.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem-supra foi colhida (com a devida vénia) no sítio da C. M. Ribeira de Pena - http://www.cm-rpena.pt.]

Poesia para quê


O fulgor de uma palavra
Que te pudesse saber,
Meu amor, de minha lavra,
Que te soubesse dizer.

Vila Pouca de Aguiar, 25 de Fevereiro de 2010.
Joaquim Jorge Carvalho
[Quadra ocorrida em viagem de automóvel. A imagem-supra é uma pintura de Maria Helena Vieira da Silva (1908-1992) que, salvo erro, Sophia refere numa entrevista, há muitos anos, ao "Jornal de Letras".]

A DEPRESSÃO DAS LARANJAS (12)



O Amor (II)


Amor é confundirmos a noite
Com os arredores da lua.


Coimbra, já 25 de Fevereiro de 2010.
Joaquim Jorge Carvalho
[Trata-se do 12.º texto do volume “A Depressão das Laranjas” (Ribeira de Pena, Ed. Casa de Santa Marinha, 1999). Dois versos, apenas. As imagens-supra foram colhidas no imorredoiro filme “Amor de Perdição” (1978), de Manoel de Oliveira, interpretado por António Sequeira Lopes (Simão), Cristina Hauser (Teresa) e Elsa Wallenkamp (Mariana). Nunca Camilo foi tão bem tratado em cinema ou televisão!]

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

A DEPRESSÃO DAS LARANJAS (11)


O Amor (I)



O quê?


Coimbra, já 25 de Fevereiro de 2010.
Joaquim Jorge Carvalho
[Trata-se do 11.º texto do volume “A Depressão das Laranjas” (Ribeira de Pena, Ed. Casa de Santa Marinha, 1999). E o 11.º texto é – mesmo – apenas isto. A imagem-supra é a do cartaz do maravilhoso filme “A Amante do Tenente Francês”, de Karel Reisz (1981), interpretado por Meryl Streep e Jeremy Irons. O argumento do filme, já agora, é de Harold Pinter (com base no romance homónimo de John Fowles).]

Daniel Abrunheiro


1.
Aí pelos finais de 90 do século XX, quiseram que eu dissesse, na Rádio Universidade de Coimbra, quais eram os melhores escritores vivos do nosso tempo. Não perdi a ocasião para um clichê intemporal e verdadeiro: os melhores escritores estão todos, por definição, vivos, seja qual for o século de onde os vejamos. Depois, falei em Herberto Helder, Ruy Belo, Saramago, Sophia, talvez Mário de Carvalho. E acrescentei um nome marginal ao conhecimento comum: Daniel Abrunheiro. Tão bom ou melhor – defendi – como qualquer um dos consagrados que antes referira.

2.
Não me enganei, como nestes últimos quinze anos pude confirmar pela produção literária deste autor. Poucos conseguiram, como ele, convocar-me o espanto e a admiração. O religioso enlevo de que fala Pessoa comentando, sob a semi-máscara de Bernardo Soares, a prosa de Vieira – eis uma imagem aproximada para a estética reacção que a escrita do Daniel fatalmente (me) suscita.
É verdade que o escritor é meu Amigo, circunstância que – concedo – pode sempre contaminar de subjectividade afectiva o rigor da análise e da avaliação. Mas eu sou leitor desde que me conheço; modéstias à parte, li (leio) milhares de autores, estudo e lecciono a matéria literária, investigo e discuto regularmente o fenómeno, escrevo. Ouso, pois, dizer-vos que sei do que falo.

3.
Temos cumplicidades biográficas. O Daniel andou, como eu, pela Escola Básica e Secundária da Pedrulha e cursou, como eu, Letras, em Coimbra.
Depois, foi professor, estudante de jornalismo no CENJOR, monitor de Língua Portuguesa, professor de Comunicação, músico, barman, trabalhador da construção civil, formador. Mas foi, antes e acima de tudo quanto se enuncia, escritor. Sempre.
Escreveu (e escreve) crónica, conto, romance, teatro, poesia. No que ele é melhor, acho eu, é no território dos versos, o que aliás explica por que, inevitavelmente, nas histórias que cria ou nas opiniões que produz, jamais deixamos de encontrar o omniburilado discurso poético.
Em “Vida e Obra de Fernando Pessoa”, ficamos a saber quanto Gaspar Simões admirava o autor de “Mensagem”. À semelhança de Régio (entre outros), Gaspar Simões reconhecia em Pessoa um valor extraordinário e um papel – digamos – seminal e revolucionário na história da literatura portuguesa. Igualmente ficamos a saber que João Gaspar Simões faz este juízo, não “a posteriori” (como é mais comum e confortável), mas no reduto compreensivo da própria contemporaneidade em que a geração de “Orpheu” e da “Presença” co-residiam.

4.
Gaspar Simões reconhece em Pessoa a excelência poética e percebe o tesouro que significa, para Portugal e para a Humanidade, a existência do poeta dos heterónimos. Mais: entende, à luz da preclara descoberta do valor de Pessoa/Caeiro/Campos/Reis/Soares, o privilégio que é poder alguém conviver com um génio vivo, no durante da sua mortalidade física. Isto é, a vantagem cósmica de poder falar com o Poeta (de viva voz), interrogá-lo, corresponder-se com ele, convidá-lo a participar em projectos literários comuns, vê-lo beber café ou vinho, ouvir-lhe comentários, piadas, silêncios oblíquos.

5.
Devo recordar que o próprio João Gaspar Simões, além de crítico e ensaísta, era escritor (sobretudo, no domínio da narrativa). E ele compreendeu que o seu culto de Pessoa não significava apagamento-de-si-próprio-Gaspar Simões, antes a lúcida consciência de que o lugar desse Poeta era único e não configurava qualquer território de disputa ou de assassina rivalidade. Acho que esta relação lembra a de Jorge Valdano com o mago Maradona, na selecção argentina de futebol. Aquele sabia bem da superioridade deste, a qual aliás não coibiu o actual director desportivo do Real Madrid de severas críticas à irregular conduta de Diego. (Certo dia, conta-se, cansado dos caprichos e inconveniências de Maradona, que se julgava acima de regras e regulamentos comuns, Valdano disse-lhe: “Atenção, Diego! Lembra-te de que jogas como divinamente, mas não és Deus!”) Mas Jorge Valdano estimava sinceramente o compatriota e foi dele o mais generoso admirador.

6.
Eu conheço o Daniel Abrunheiro há uns bons 35 anos. Ele é mais novo do que eu onze meses apenas, e só foi “mais velho” durante uns tempos porque – como me afirmou certa noite de copos, em Coimbra – perdera, antes de mim, o pai; essa nuance desfez-se, entretanto, com a morte traiçoeira do meu próprio progenitor, em Fevereiro recente.
O Daniel, como alguns espíritos contemporâneos já vão também percebendo, é o maior poeta português do século XXI. Sei que o futuro há-de confirmar esta verdade. Em ensaio famoso, T.S. Eliot explica que a noção de “clássico” implica a existência, num autor e numa obra, de uma força e de um poder verdadeiramente incomparáveis com o legado (linguístico-literário) anterior ou coetâneo. O exemplo de que Eliot se serve é Virgílio, cuja importância determina a fatal falência do Latim, (e)levado ao limite das suas possibilidades de “dizer”, e origina a concomitante emergência de novas línguas. A partir de Virgílio, nada resta aos vindouros, residentes na língua latina, senão seguir, imitar e, ai deles, repetir o Mestre.

7.
A caricatura eliotiana é útil para o que vos quero dizer. É que o (futuro clássico) Daniel anda a fazer “isto” com a língua portuguesa há uns quinze anos, pelo menos. Apenas Herberto Helder terá viajado por caminhos semelhantes no que toca à reinvenção do Português na poesia. Uma, ainda que breve, visita ao seu blogue (canildodaniel.blogspot.com) facilmente confirmará o que afirmo.

8.
Há ainda outro aspecto em que o Daniel Abrunheiro se (me) confirmou escritor na plena acepção do termo, pagando o “preço” que realmente é necessário para merecer o estatuto: ele assumiu o papel central da escrita na sua vida, como irremediável modo de existência. Ora, para quem não é (figas, canhoto!) Rodrigues dos Santos, Sousa Tavares ou Rebelo Pinto, esta assunção não é, em Portugal, fácil. E por isso, o Daniel Abrunheiro é, normalmente, um cidadão pobre de meios e recursos materiais. Como seu amigo, deploro a circunstância; como amante da literatura, entendo-a.
García Márquez explica, em “Viver para Contá-la”, que tudo quanto fez no tempo prévio ou simultâneo ao seu reconhecimento sul-americano e mundial como grande escritor, que não se tratasse de escrita literária, não foram senão desvios, excursos, coisas secundárias. No centro, estivera, pois, sempre a literatura. Esta opção implicou dificuldades financeiras, incompreensão do mundo utilitário circundante, desprezo familiar e social, opróbrio. Mas radicou na certeza absoluta e misteriosa de que a literatura era “o (seu) caminho”. É assim, vista a realidade como eu a vejo, com Daniel Abrunheiro.

9.
Sei do que falo. Eu confesso que não seria capaz de sacrificar tudo (ou quase tudo) pela escrita. Mas sei que os grandes escritores (mesmo Torga, disfarçado de médico; mesmo Vergílio Ferreira, disfarçado de professor) o fizeram, o fazem.
Reli, há poucos dias, numas velhas folhas que recebi do Daniel Abrunheiro, pelo correio, quando este grande poeta estava em Lisboa a estudar no CENJOR, uma metáfora sobre desempregados. Ora, as metáforas importantes aumentam-nos em linguagem, em conhecimento e em aptidão para humana e esteticamente sentirmos o mundo. Esta do Daniel, em particular, ainda ontem me revisitou, à entrada do centro de emprego da minha cidade: quatro ou cinco homens baços, encostados à parede, fumavam. O Daniel diria que ali estavam, indeterminados e economicamente quantificáveis, como um “código de barras”.
Certo dia, encontrei num dos seus blogosféricos textos do “Canil do Daniel” a mais formosa definição de memória que se poderia escrever (e que Agustina decerto não desdenharia): “O amor é cego. A memória é o cão do cego.”

10.
Sinto esta urgência, semelhante talvez à de Gaspar Simões relativamente a Pessoa, de redizer ao mundo uma evidência: anda por aí, insuficientemente notado ainda, o maior poeta português do século XXI. Lede, por exemplo, “Cronicão” (Ed. Publicenso), “O Preço da Chuva” (Pé-de-Página), “Terminação do Anjo” (Portugalia), ou visitai-o no seu blogue e confirmai o que digo.

11.
O meu tributo não é puramente altruísta. Há uma parte de glória do Daniel Abrunheiro que recolho para mim próprio: a de que este altíssimo escritor é meu amigo. Com maiúscula, aliás: Amigo.

Coimbra, já 24 de Fevereiro de 2010.
Joaquim Jorge Carvalho
[A foto-supra data de 1995, quando – a convite do poeta João de Mancelos - o Daniel apresentava, em Aveiro, o meu livro “Desapontamentos dos Dias” (Coimbra, A Mar Arte, 1995).]

A DEPRESSÃO DAS LARANJAS (10)


O Essencial

É preciso distinguir o essencial do acessório.
Dou-te a minha vida.
Dás-me a tua vida.
O resto, se houver resto, são os detalhes funcionários do relógio. Tudo, portanto, muito aquém da ideia preciosa do tempo e do significado que há na primeira pessoa do plural.
Dás-me a tua vida.
Dou-te a minha vida.
O resto, se houver resto, são parênteses, suspensões da frase vital, hiatos.
Oh, meu amor, não temas, não morras, não hesites, não saias deste livro, não desilumines o meu olhar, não desapareças da minha estrada.

Sabes: é preciso distinguir o essencial do acessório.

Ribeira de Pena, já 24 de Fevereiro de 2010.
Joaquim Jorge Carvalho
[Trata-se do 10.º texto do volume “A Depressão das Laranjas” (Ribeira de Pena, Ed. Casa de Santa Marinha, 1999). A pintura-supra (“Mulher de branco”) é de Claude Monet (1840-1926).]

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

Presente


A pescada está já pronta a servir, na água ainda morna da fervura. Os ovos também. As batatas, não; em lume brando, resistem ainda à deveniente erosão que as há-de tornar mastigáveis.
No entretanto da espera, na cozinha branca da Avenida da Noruega, tenho tempo para uma visita mais ao senhor José das Dornas, naquela fase epilogal das Pupilas, quando se anuncia enfim a felicidade apetecida.
O tempo é feito de tempos, como o mar de rios e de arroios. Fundem-se, na minha pessoa, a aldeia dinisiana e o perfume doméstico de um jantar já tardio. A minha mulher e eu comeremos, enfim, numa espécie de silêncio bom, sem o ruído da televisão, no contexto preferido da vozearia de João Semana e do senhor Reitor, num país muito distante de injustiças e de azares.
Na minha cozinha, actualmente, mais do que pratos e panelas, há livros e avulsas folhas pelas prateleiras dos armários, pela mesa, pelo mármore vizinho do lava-louças. A nossa refeição é feita, pois, de batatas, peixe, ovos e literaturas (e, já me esquecia, de indispensável pão). Estamos, num recanto pequenino de Trás-os-Montes, juntos. Uma redonda tranquilidade, maior do que o frio, abençoa a casa.
Percebei-me: tenho, às vezes, os serões da província na minha cabeça e no meu coração.

Ribeira de Pena, 23 de Fevereiro de 2010.
Joaquim Jorge Carvalho

Da Sofia à Portagem


Agora, acontece-me por vezes ir a Coimbra. Mas hei-de ser sempre dessa cidade mediana, desse lugar cheio de passado e algo vazio de presente ou futuro.
Há muito tempo que não percorria, com a produtiva lentidão dos turistas, a Ferreira Borges e a Visconde da Luz.
Não há muitos séculos, eu era jovem e imortal nesse território mais coimbrinha de todos. Subia, com os outros imortais da minha geração, da rua da Sofia ao largo da Portagem (passando por Santa Cruz – igreja e Café – e pelo quiosque da irmã do Daniel), mirando montras, raparigas, senhoras, circunstâncias.
Depois, descíamos, repetindo o ofício olhador. Aos percursos ascendentes e descendentes chamávamos “piscinas”.
Na manhã de 22 de Fevereiro, vi os mesmos velhos, junto ao Café Santa Cruz, explicando, com outros nomes, a crise política e a falta de vergonha do século (agora) XXI. Os mesmos pedintes de há 30 anos farejam esmolas, preambulando as missas, exibindo doenças de pele e filhinhos com fome. Tricanas do liceu e da universidade passam, rápidas, a caminho do futuro. O homem das castanhas arrefece serodiamente, esperando clientes. Senhoras carregam pequenas e médias adiposidades, sob perfumados casacos compridos. Jovens e maduras usam botas altas, trotando sobre a calçada portuguesa com reforçado garbo. Um rapaz expõe, no chão, catorze livros usados (um deles é “Terna é a Noite”, do Fitzgerald), que ninguém compra. Mais acima, para quem sobe à Portagem, há um vendedor de artesanato, cheio de fadiga nos olhos, que explica a duas jovens loiras qualquer coisa sobre o governo angolano. Uma mulher com sotaque do campo, junto às escadas que descem para a Sé Velha, cumprimenta o proprietário de uma loja de desporto.
Quase no topo da viagem, no lugar onde era o Café Arcádia, cruzo o meu olhar com uma montra ainda por decorar. Espelhado no vidro, está um homem de 46 anos, muito distinto do imortal que, em 22 de Fevereiro de 1981, subia aquela espécie de Chiado conimbricense, a caminho, então, de um galão tranquilo e de um bolo de arroz (e talvez d’A Bola e do espectáculo do mundo).
No largo da Portagem, passa um velho a vender cautelas. Cumprimenta-me, como se me conhecesse. Quem sabe? Eu bebo, na velha Briosa, um café que atenua, por segundos, o frio da manhã e busco, em redor, o imortal de 1981. Há-de ser já tarde para me encontrar com ele: por 29 anos nos perdemos um do outro.

Coimbra, 22 de Fevereiro de 2010.
Joaquim Jorge Carvalho

A DEPRESSÃO DAS LARANJAS (9)


O Tesouro

Um homem cava – ao sol, à chuva, durante a manhã, durante a tarde, durante a noite – a terra suja de um recanto florestal.
Passam pessoas pelo local e, de genérico modo, riem-se, comentam jocosamente, reprovam-no com murmúrios, berros ou silêncios. Alguns dos passantes chegam a insultar o homem que cava a terra, e há mesmo entre eles quem atire pedras e paus ao cavador.
A cena dura horas, dias, meses, talvez anos. O homem cava sempre. Às vezes, cansado, morrente, triste, desesperado. Mas sempre cavando.
Multidões de transeuntes observam, reobservam, riem, criticam: um homem (dizem) tão novo, tão inteligente, tão bom, assim perdendo seu tempo, sua força, sua juventude, sua beleza, seu talento, em tarefa (dizem) tão suja, tão (dizem) inútil.
O homem cava à procura de um tesouro que existe, algures, por ali, sob a terra negra. Há-de valer a pena o sacrifício inteiro se as mãos do homem chegarem a tocar no tesouro escondido. E outra não pode ser a resposta do homem aos risos e vitupérios da multidão convencional, tão outra de si e da sua fé.
Reside nesta história, como se adivinha, o risco de o homem não encontrar o tesouro procurado. Mas não é esse motivo bastante, não é esse motivo digno e legítimo para suspender o exercício cavador e crente. É destino do homem (considera o homem) buscar, na terra preta que pisa, o valioso golo que anima a sua vida desde sempre. Já se disse o quê: um tesouro.
Entre os homens e mulheres que riem, há os que nunca souberam do tesouro escondido; os que, sabendo, nunca acreditaram no tesouro escondido; os que, acreditando um dia, desistiram entretanto de acreditar no tesouro escondido; os que, não tendo desistido de acreditar, perderam a força necessária à procura do tesouro escondido; e ainda os que, embora acreditando sempre e muito querendo encontrar o tesouro escondido, fingem o contrário, à espera de um tempo certo para cavar, longe dos olhares judicativos da multidão a que pertencem.
A natureza do amor só se percebe bem com um intervalo crítico de cinquenta anos. Porque a maior tragédia, na vida, não é um cavador de tesouros jamais encontrar o objecto da sua busca: é, cinquenta anos depois, chorar a cobardia de nunca haver tentado.
Sei de uma metáfora (minha) sobre homens e mulheres que não foram capazes de lutar por si próprios. De cavar à procura do seu destino, do querido tesouro de que falo.
É assim a metáfora: um coração antropomorfizado, com rosto, braços, mãos, pernas. O rosto do coração é lamentável como uma criança triste. Os braços estão caídos, desistentes, molemente ao longo do corpo.
O coração está sentado. As pernas do coração estão imóveis, jazendo suspensas da superfície do assento.
O assento em que o coração está residindo, ao longo da metáfora, é uma cadeira de rodas.
O resto da paralisia são duas ou três nuvens magras e negras, pairando sobre o coração. De certo modo, o desenho das nuvens lembra a biografia melancólica de ratos, no devir de respectivas ratoeiras mortais.

Continuamos esta conversa daqui a cinquenta anos. Entretanto, Margo, a enxada.

Ribeira de Pena, 23 de Fevereiro de 2010.
Joaquim Jorge Carvalho
[Trata-se do 9.º texto do volume “A Depressão das Laranjas” (Ribeira de Pena, Ed. Casa de Santa Marinha, 1999). A pintura-supra (“O homem com a enxada”) é de Jean-François Millet (1814-1875).]

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

A DEPRESSÃO DAS LARANJAS (8)


A Unidade

I
Margo Boniek foi, durante anos, esposa mais ou menos pública de Louis Dietz, bem sucedido empresário do “Crazy Horse”. Havia desse homem, à volta da mulher, uma adoração absoluta e possessiva. Chamava-lhe “rosa do leste”. E houvera, da parte de Margo, uma inicial ingratidão pelo amor oferecido, que contudo rapidamente substituiria pelo desconforto e pelo medo.
Após uma semana de suores repetidos, de ardentes juras e ofertas caras, sobreveio na jovem polaca o desejo de passear, de ver teatro, de falar francês nas ruas parisienses. O empresário assustou-se: pelas esquinas do bairro, da cidade inteira, do país, via a baba predadora de milhares (milhões) de machos. Temia a eventual perda da rosa.
Por alguns meses, o quotidiano de Margo cingiu-se aos ensaios e aos espectáculos nocturnos (palco um: coreografia de canções; palco dois: strip-tease). A tal seguia-se o regresso liminar a casa, o sexo – furioso ou metódico – de Louis, e o sono opaco.
Até que o empresário se cansou do amor, mas não da posse. Um imenso “segurança”, que apenas comunicava através de agressões ou esgares, conduzia a mulher ao apartamento e por aí permanecia, fumando, até à chegada do patrão (ou, em vez dele, da notícia de que não viria nessa noite).
Esta vigilância apenas se atenuaria ano e meio depois, após o nascimento de Mimette Dietz, menina loira como uma madrugada de Varsóvia.

II
Quando eu cheguei à vida de Margo Boniek, nesse mês de Outubro, era tão difícil falar-lhe como celebrar missa no palco número dois. E então: naquele pic-nic de burguesas, oh Cesário amado, houve uma coisa simplesmente bela. Foi quando Margo, subitamente indisposta, saiu do rebanho profissional que tirava fotografias no Bois de Boulogne, para cartazes, e foi a certo Café próximo colher um copo de água (que bebeu, sôfrega, como uma papoula aflita). Os seus olhos snobs sorriram da minha admiração – e a minha admiração era pelo vestido rubro (de papopula), os braços finos, os olhos de ave e de estrelas. Meu amor.
Ergui-me numa inspiração. Juntei-me ao seu rubor, ofereci-lhe uma cadeira vizinha. Falávamos – os dois –um francês hesitante, é verdade; mas dos olhos de ambos chisparam, no silêncio intermédio às palavras, os poemas mais bonitos daquele século. Fomos felizes durante uns vinte minutos, que é a duração média da felicidade humana na terra, por cada cem anos.
Até chegar Louis Dietz, rude e educado (simultaneamente) como um empresário gaulês pode ser.
- Margo, alors?
Era uma manhã de Outono e, na Polónia, a essa hora, havia uma procissão em honra de Nossa Senhora de Lodz. Silêncio, pois. Silêncio e silêncio. Eu detive-me nos olhos do dono de Margo: verdes. Belos e frios como uma sintaxe imperadora.
Soergui-me à despedida de Margo. E tive pena de não lhe haver dito o meu nome.
Àquele Café voltei todos os seguintes dias (excepto às terças-feiras, porque fechava), sempre à hora celebrada em que te vira pela primeira vez. E dos amantes pacientes é o reino da Luz: vieste, doze dias depois, vaga e morrente, quando eu pagava o habitual chá de estar à espera.
- Margo, olá. Lembra-se de mim?
E tu, tímida ave da estratosfera, sorriste meninamente e disseste:
- O português. Lembro-me do seu cheiro.
Eis pois – oh deuses domésticos de todos os lugares – como é útil exagerarmos, em nós, o uso de bálsamos para depois da barba. E de como é profunda a memória dos perfumes, no secreto arquivo dos afectos humanos.
Dizias-me, tantas vezes, na esquina combinada das Tulleries, no banco mais esconso dos Elísios, nos táxis apressados entre o trabalho e o almoço:
- O teu cheiro. Nas cartas que escreves, na tua voz ao telefone, na minha lembrança nocturna, acho que há sempre o teu cheiro. E é decerto por isso que as saudades me doem tanto…
Margo Boniek, bonequinha verde que iluminou a minha vida: por ti, os melhores poemas; por ti, todos os filmes, todas as músicas, todas as árvores, todas as histórias de homens e civilizações; por ti, uma nova fábula de mim.

III
«Era uma vez um cidadão triste, longe do seu país, anónimo professor de Literatura Comparada, que (por amor) poupava na alimentação e na roupa para frequentar as melhores mesas do “Crazy Horse”. E que (igualmente por amor) soube aprender a dificílima arte da canalização e da instalação de sistemas eléctricos: assim ele entrava em tua casa, de fato-macaco ouvrier, iludindo a bruta vigilância de Louis ou dos primatas contratados; assim ele te soltava o robe e te oferecia a unidade que, amantes, eram. À saída, deixava-te ainda as instruções para novas avarias em torneiras, esgotos, tomadas. O estratagema duraria pouco tempo ou uma ternidade, conforme fossem os olhos de ler esta história. Mas é preciso dizer que não havia, então, o tempo mortal dos humanos no calendário sábio de Margo e daquele professor-operário.»

IV
No primeiro dia em que fizemos amor, tu tinhas na mão direita o anel que eu trouxera de Portugal. E eu era o fruto e o sol estrangeiros que procuravas. Em França, nada (nada!) existia senão a lua (ou sol) brilhando sobre os nossos corpos – mais a música perfeita de um americano negro, adivinhador da Alegria maiúscula dos nossos corações. Tinhas a mania de perguntar:
- Escreves porquê?
E eu:
- Para dar ordem à minha vida.
Quem olhasse, muito de fora da música que havia em nós ou do vinil rouco de Louisiana, não perceberia talvez que aquela confusa cama era a sagrada pátria do cosmos. E que de rosa a rosa a ave vai a distância livre do amor verdadeiro, o único que vale a pena.

Coimbra, já 22 de Fevereiro de 2010.
Joaquim Jorge Carvalho
[Trata-se do 8.º texto do volume “A Depressão das Laranjas” (Ribeira de Pena, Ed. Casa de Santa Marinha, 1999). A imagem que ilustra o texto é uma pintura de Amadeo de Souza Cardoso (1887-1918) - “Entrada” (1917).]

domingo, 21 de fevereiro de 2010

Abraço aos Ornelas


A Madeira sofre? Portugal inteiro sofre.
A minha família diz-me que o pior, por aquelas paragens, já passou.
Oxalá.
Abraço-os, entretanto. Eles, a Madeira.
O meu abraço é (quer ser) o contrário da tempestade.
Eu sei-o. Eles sabem.

Coimbra, 21 de Fevereiro de 2010.
Joaquim Jorge Carvalho

A DEPRESSÃO DAS LARANJAS (7)


A Laranja

Duas semanas antes de, pela primeira vez, possuir o corpo amadíssimo de Margo Boniek, eu desembarcava em Alcântara, na luminosa manhã de um Novembro portuguesinho. Não havia ninguém à minha espera; havia, sim, a anónima multidão do cais, os passos desencontrados de homens e mulheres com pressa viajante.
Pouco me impressionou a vozearia lusitana, as colinas pátrias, a pobreza bela da mendiga de treze anos, os cães farejando ossos ou fêmeas. Havia, em mim, então, a ave polaca que dançava em França. Como um cavalo, já o adivinhais, o meu amor sitiava-me o olhar e crescia por dentro do próprio oxigénio, alimentando-me os pulmões, os gestos, o movimento cidadão.
Vim a Portugal por questões de heranças: morrera-me a tia Rosário, espécie de mãe dos meus cinco anos, deixando-me (como a um filho) os livros, a casa e um terreno periférico à capital. Fora necessário apor a minha assinatura em documentos rigorosos, reconhecê-la em sede notarial, patrocinar a publicação de editais, receber advogados e firmas de comércio, responder civilmente a familiares despeitados…
Ao todo, sofri as agruras das saudades durante nove dias. Escrevi a Margo, entretanto, três cartas – e dela recebi uma única, aliás curta, escrito no verso de um roteiro camarário (que anunciava, na casca da missiva, certa feira do livro no “quartier latin”). Li essa cartinha milhares de vezes, segundo creio, desde as sete da noite até à incerta hora da madrugada em que adormeci. E, no sonho que sobreveio, reli, tornei a reler, tantíssimas vezes, as suas palavras, aquela gramática irregular com perfume imigrante, o odor francês das suas mãos nervosas – e era (acreditai) já da sua própria boca que, no meu sonho, saíam as mais ingénuas juras de amor. Oh minha boneca polaca, com vestido verde por dentro do coração!
Havia uma última nota na epístola de Margo, subitamente redigida, como uma luz raiando do caroço da escrita feita, ali perto do “Pont Neuf” (que é muito antigo), mirando os barcos de uma qualquer camioneta perigosa que se avizinhava: pedias-me, meu amor, laranjas do meu país. Souberas, em conversa de camarim, que Portugal era terra de muito sol.
Eu levei, pois, no meu regresso, uma laranja para oferecer. Era uma laranja luzidia, esbelta, queridamente doce. A tinta, sobre aquela superfície esférica, escrevi: “Para a Margo devorar.» Sorriria essa deusa polaca decerto se algum dia lesse a inscrição, bem o sei. Mas o mar do regresso esteve alteroso, o meu pobre estômago burguês soçobrou demasiadas vezes, tive a terrível febre dos navegantes, e não fui capaz de comer durante dois dias e meio. No minuto seguinte à minha ressurreição, descobri-me sozinho, dentro do camarote, sem forças para gritar por água e alimento urgentes. Ao meu lado direito, serena e sorridente, estava apenas a laranja para o meu amor.
De modo que matei a fome e a sede próprias com esse fruto soberano. A Margo, em vez da laranja pedida, levei-lhe um anel comprado na baixa lisboeta, à tardinha do dia em que chegara a Portugal. Achara-o uma prenda inteligente: representava, no aquém do ouro exterior, a circularidade do meu desejo à volta de si, saudades portanto sem princípio nem fim, aliança de nós.
- Et l’orange? – perguntaste, ainda eu não tivera tempo de te soltar a blusa, de te sentir a pele de lençol limpo, de te segredar a minha paixão e o meu suor.
Percorrias, no exacto segundo aqui narrado, com teu doce olhar de ave (talvez desconsolada), o anel posto e o ouro circular do símbolo. Eu prosseguia a insana tarefa de medir-te, beijo a beijo, dedo a dedo, instante a instante. Até dizer-te, enfim, quase sem fôlego, eventualmente sorrindo:
- L’orange? L’orange, c’est moi.

Coimbra, já 21 de Fevereiro de 2010.
Joaquim Jorge Carvalho
[Trata-se do 7.º texto do volume “A Depressão das Laranjas” (Ribeira de Pena, Ed. Casa de Santa Marinha, 1999). A imagem que ilustra o texto é uma pintura de Pablo Picasso - “Os Amantes” (1923).]

sábado, 20 de fevereiro de 2010

TLEBS


Vêm aí novos programas de Língua Portuguesa. Sei alguma coisa sobre o assunto e concordo com muito do que aí vem. A excepção é a TLEBS.
Eu não tenho medo da [nova] TLEBS (Terminologia Linguística para o Ensino Básico e Secundário). Julgo que nenhum professor a receia, ainda que a novidade obrigue a uma revisitação de termos e conceitos que não deixará de abalar o edifício da (nossa) formação académica e profissional.
Mas há, em mim e em muitos outros colegas, um iniludível desconforto: o de entender(mos) que esta inovação pouco ou nada contribui para a melhoria das competências linguísticas dos nossos alunos.
A nova terminologia e os conceitos científicos sobre os quais assenta são de natureza mais complexa do que os termos e os conceitos até há pouco em vigor. A ideia de que os nossos alunos aprenderão facilmente “esta” gramática é algo ingénua, mas não digo que não possa – com articulação de esforços docentes e discentes – concretizar-se.
Contudo, a ideia de que, aprendendo “esta” gramática, os nossos jovens melhorarão as suas competências, essa, está (muito) por provar.
Desconfio de que, ainda antes de os doutos especialistas da língua se reunirem para decidir programas e práticas, há certas conclusões pré-agendadas: o que se vem fazendo está, de modo geral, errado; o que aí vem, sob a égide das doutas orientações, é a Magnífica Solução.
Lendo as novidades apresentadas pela (nova) terminologia, pergunto: o que aí vem é mesmo melhor? Tenho, desculpai, muitas dúvidas.
Julgo, antes de mais, que a gramática deveria - como aliás acontece com os sinais de trânsito - situar-nos e orientar-nos, contribuindo para a segurança, sucesso e beleza da viagem (de cada viagem).
Já tereis visto, como eu, lugares onde a informação em matéria de semiótica rodoviária é tão complexa e excessiva que, em lugar de orientar, confunde e é motivo de riso. Receio que casos semelhantes ocorram, doravante, no realista universo das nossas aulas.
Deixai-me desabafar: a TLEBS, vista deste lugar muito terreno onde me encontro, é mais um contributo no sentido de afastar os alunos da disciplina de Língua Portuguesa (Entretanto, farei o que é a minha obrigação: estudar bem a TLEBS para a ensinar, depois, da melhor forma que for capaz…)

Coimbra, 19 de Fevereiro de 2010.
Joaquim Jorge Carvalho

A DEPRESSÃO DAS LARANJAS (6)


A Depressão das Laranjas

Às vezes, apesar do açúcar e do sol prováveis, sou uma laranja triste: é quando não estás; ou quando, estando, te vejo coberta da poeira dos outros e passas, distraída e indiferente, por mil gomos da minha solidão redonda.
Sabes? Uma laranja triste é um fruto muito estranho: em momentos de crise, viaja da própria casca ao íntimo caroço de si – e por aí reside até ao regresso de meteorologias mais amenas.

Coimbra, já 20 de Fevereiro de 2010.
Joaquim Jorge Carvalho
[Trata-se do 6.º texto de “A Depressão das Laranjas” (Ribeira de Pena, Casa de Santa Marinha, 1999). O quadro que ilustra o texto, “Rapariga com brinco de pérola”, é de Vermeer (1632-1675).]
Nota-extra: O leitor (ou leitora) atento(a) terá notado que, neste blogue, se passa do 4.º texto de “A Depressão das Laranjas” directamente para o 6.º. Explique-se: o 5.º texto deste volume, intitulado “As Palavras” (um dos meus preferidos, aliás), é muito longo e poderia, neste território bolgosférico, tornar-se fastidioso. Prudentemente, opto – para já – por omiti-lo.

Antes da Conta


Aqui, no bar onde ora se encontra
O Presente, o Dado, a minha Sorte
Até à hora de pedir a conta
Nada custa, não há morte.

Aqui, hoje, é dia de nascer. É dia
De novidade inaugural, pois.
Hoje o mar começaria, se a vida fosse
Rio até certo ponto, e depois foz, e depois
Navegação filosofal.

Hoje é dia de princípio:
Dia príncipe, de início.

É, pois, um dia a haver, nascituro.
Dia de abrir abrigos.
Dia de acreditar, dia de amigos
E de futuro.

Entrai, amigos, ou possibilidade
De amigos, gente com vontade
De cerveja e de sonhar!
Haveis de voltar, sair, voltar
Ainda. Só depois morrer.
(Viver, portanto. Só depois partir.)

E o coração dirá de vossos dias muitos
Que antes da morte estivemos juntos
E que estarmos juntos era resistir
A estarmos mortos.

Hoje é dia de nascer; é dia
De acreditar em ser feliz; é dia
De podermos ser diferentes, novos.
É dia de sermos ingénuos.
É mais que um dia: é dia um.

Aqui o teu o meu o nosso instante:
Um cheiro da bonança.
Suspensão de estarmos sós.

Um copo, portanto, dois copos. E presunto,
Desabafos, risos, sonhos, memórias,
Batatas fritas, música, pessoas bonitas
(e boazonas, ai, que alimentem as hormonas).

Até à hora de pedir a conta
Não há morte.
A morte é como o dono do bar
À saída: queres fiado, toma
(que ele geralmente não perdoa)!

Mas até à hora de pedir a conta
(É esta a cúmplice lição que vos dou
e tomo)
Não há morte.

Coimbra, 20 de Fevereiro de 2010.
Joaquim Jorge Carvalho
[Este texto foi inicialmente escrito em Março de 2007 (por alturas da inauguração do novo Bar do Carlos Massas), e aparado de pequenas migalhas no presente. Gosto nele da ideia, nada nova, do “Carpe Diem”, que agora me lembra “o bonde do fim da vida” do Drummond de Andrade. Vale para o Bar do Massas e para outros bares da nossa vida. A ilustração é um pormenor do auto-retrato de Jean-Baptiste Debret (século XIX) e foi colhida em barelanchestaboao.blogspot.com.br.]

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

A DEPRESSÃO DAS LARANJAS (4)


O Assalto

- Mãos ao ar. Isto é um assalto – disse ela, sem sequer mexer os lábios.
- O amor ou a vida! – exclamou, na mesmíssima quietude e snob delicadeza em que eu sempre a vira.
Habituado à mediocridade dos meus dias, dei-lhe o amor (querendo, com tal opção, poupar a vida que então me parecia mais preciosa que tudo). E admirai-vos: o amor era muito maior do que eu podia imaginar, por isso demorando também o assalto muito mais do que era legítimo esperar-se em tão periclitante ocasião.
Ao fim de horas, dias, meses, o assalto prosseguia – e dava-se o caso, mais estranho entre todos, de o assaltado sorrir reconhecidamente para a fera assaltante.
Despreocupado já com a prosaica questão de pormenores e trocos, dei-lhe também a vida. E mantive, sem que me obrigassem a tal, as mãos no ar; não por obediência conforme ao roubo, portanto: antes numa prece ao Tempo para prolongar a maravilhosa violência que (me) feria de morte o cinzento baço dos dias.

Coimbra, 19 de Fevereiro de 2010.
Joaquim Jorge Carvalho
[Trata-se do 4.º texto do volume “A Depressão das Laranjas” (Ribeira de Pena, Ed. Casa de Santa Marinha, 1999.) A imagem recorda o filme “Casablanca” (1942), realizado por Michael Curtiz e interpretado por Humphrey Bogart e Ingrid Bergman.]

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

Ideais (Precisa-se)


Portugal não foi sempre isto. Nem o Partido Socialista foi sempre isto.
O PS de Mário Soares, de Álvaro Guerra, de Manuel Alegre, de Sottomayor Cardia, de Almeida Santos, de Salgado Zenha – era outra loiça. Havia idealismo, generosidade, cerviz.
A nossa triste contemporaneidade trouxe o que está à vista. As causas deram lugar a tácticas e interesses. A vida deu lugar à vidinha. É assim nos maiores partidos portugueses. Mas dói-me isto mais no PS por me ter habituado a, no passado, identificar o punho ou a rosa com a própria ideia de digna liberdade.
Muitos dos actuais políticos portugueses chocaram nos aviários chamados Jotas: JS, JSD. JC, JCP. Dali saem formatados, boys & girls já muito velhos, correndo ao cheiro de cargos e sinecuras: lugares nos parlamentos, nas secretarias importantes, nos bancos, nos governos, nas empresas públicas e – seja lá o que isso for – nas empresas privadas.
A moral é uma palavra que, hoje, não significa nada. Pina Moura, ex-comunista, quando há uns anos ainda tinha um pé na Iberdrola (espanhola) e outro na Assembleia da República (portuguesa), ao ser questionado sobre a questão do conflito de interesses, respondeu que a sua ética era a “republicana”. E concretizou: sendo a sua situação “legal”, não havia problemas. Talvez seja assim, de um ponto de vista puramente jurídico, cínico. Mas a ética (republicana, monárquica, rosa, laranja, azul, vermelha) é outra coisa. Deveria ser outra coisa.
Também Mariano Gago, o ministro da Ciência e do Ensino Superior, disse um dia na televisão, sem se rir, a propósito da – digamos assim – licenciatura do primeiro-ministro, que se tratara de “um percurso académico exemplar”. Foi, pois, mais longe que Pina Moura; não apenas as vicissitudes deste curso, cheio de equivalências e de pormenores singulares, foram legais, no entender de Gago, como ascendem à categoria de “exemplo” para a juventude portuguesa.
Acreditei então, como agora, que Sócrates não cometeu qualquer crime nessa sua saga na falecida Independente. Mas recusei dá-lo como paradigma à minha filha, a qual fez os normais cinco anos de universidade para se licenciar em Direito. Chamai-me antiquado.
Entretanto, vou estando farto das notícias que, todos os dias, afligem o país. De negociatas, de arranjos subentendidos, de jogos, de favores, de compadrios. Vou estando farto, aliás, deste país que também sou eu. E não se pode emigrar para fora de nós.
Creio que boa parte do problema de Portugal está em que, por falta de comparência das grandes figuras, a classe política se encheu de mediania e de mediocridade. António Vitorino e Marcelo Rebelo de Sousa, por exemplo, preferem o conforto do comentário à condução dos respectivos partidos (e do governo); essa espécie de desistência abre caminho a uma gente normalmente inculta, sem ideais, sem causas e muito pobre de gramática.
Não acredito que Mário Soares ou Pinto Balsemão durmam descansados.

Ribeira de Pena, 18 de Fevereiro de 2010.
Joaquim Jorge Carvalho

A DEPRESSÃO DAS LARANJAS (3)


O Brilho

Disse-te há muito tempo: saltitantes, os olhos. Mas não bem: queria dizer olhos vivos, percebes, olhos redivivos, olhos a cada segundo renascentes.
Margo Boniek: como se, dentro do teu olhar, houvesse uma ave brasileira jogando futebol com as estrelas.

Coimbra, 18 de Fevereiro de 2010.
Joaquim Jorge Carvalho
[Trata-se do 3.º texto do volume “A Depressão das Laranjas” (Ribeira de Pena, Ed. Casa de Santa Marinha, 1999). A pintura-supra é do meu cunhado Alberto Ornelas.]

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

A DEPRESSÃO DAS LARANJAS (2)


O Cavalo Louco

Uma menina polaca ganhou, aos oito anos, a prenda de aniversário mais desejada do último milénio: uma boneca vestida de verde, com pilhas dentro, capaz de dizer papá e mamã em inglês. Quem lhe ofereceu a preciosa coisa foram precisamente o papá e a mamã da menina polaca.
A menina polaca veio a ser a esbelta rapariga que, aos dezasseis anos de idade, venceu o prémio nacional da canção juvenil, cuja final gloriosa decorreu em Varsóvia.
Onze meses mais tarde, na exacta véspera da morte do papá, a jovem estreava-se, com razoável sucesso, no teatro ligeiro de Lodz. Durante o funeral do senhor Boniek, a moça reviu o quarto da infância e chorou por longos minutos, abraçada à boneca antiga (que perdera, entretanto, a voz, o braço direito e o cabelo.)
Com vinte e sete anos, Margo Boniek era considerada a mulher mais sexy do principal corpo de baile do “Crazy Horse”. Desnuda, nem assim a minha atenção se cravou nas longas pernas que revolviam o campo da visão espectadora: concentrei-me nos seus olhos. Como eram os seus olhos?
Disse-lhe, à mesa de um “bistro” sebento de Paris velho, no intervalo de uma água com gás (sua) e de um café (meu):
- Os teus olhos, sabes, nunca estão parados. Acho que saltitam.
Ela riu e eu, desconsolado, desconfiei que alguém, antes de mim, lhe dissera já tal.
Já em Portugal, dois anos e meio depois, li no “France Soir” que a amada bailarina supra-dita se suicidara, lançando-se ao Sena, por volta da hora do almoço. No espelho luxuoso de um camarim do “Crazy Horse”, deixara escrito (com o tradicional bâton) o motivo da decisão tomada: “Estou farta de estar nua!”
A mamã da menina Margo só conheceu o triste evento dois meses depois de mim. Não tivera mais filhos. Vejo-a sentar-se lentamente sobre a cama antiga da filha, murmurando “Meu Deus” ou “Merda” ou “Porquê?”, em polaco amargo e rouco. Vejo-a suspirar, pesada, feia, olhando para lado nenhum e antecipando a própria morte. E vejo-a ainda acariciando a boneca de há dezanove anos, já sem voz, sem olhos, sem braços, sem o vestido verde.
Hesito, em matéria de metáfora: sou eu mesmo (sem Margo), a boneca nas mãos da velha mãe, ou a própria velhice órfã da sua criação mais bonita?

A Polónia estava, nessa tarde de Setembro, completamente nua.

Coimbra, 17 de Fevereiro de 2010.
Joaquim Jorge Carvalho
[Trata-se do 2.º texto do volume “A Depressão das Laranjas” (Ribeira de Pena, Ed. Casa de Santa Marinha, 1999). A foto de Lodz foi colhida (com a devida vénia) em www.tripadvisor.com.br.]

terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

A DEPRESSÃO DAS LARANJAS (1)


O Guardanapo

Era uma vez um poeta de periferia urbana que, em Outubro frio e ocioso, esboçou certo poema breve, à mesa esconsa de um Café parisiense. Não se entusiasmou com a obra feita (doze versos pouco originais, sem rima, apesar de uma metáfora interessante sobre o amor). Dobrou e abandonou, pois, o guardanapo onde tentara, pela enésima vez, a imortalidade – e saiu.
Dez minutos depois, Margo Boniek, donzela formosa e muito conhecida na cidade, bebeu um chá e comeu uma torrada, à mesa coincidente do parágrafo anterior.
Por não haver, a essa hora essencial de limpar os beiços, outro papel disponível, a donzela utilizou o guardanapo aparentemente intacto do poeta.
E foi assim que, pelas seis da tarde, o autor se cruzou com a sua metáfora bonita sobre o amor, visivelmente bailando sobre os lábios moranguinos da moça.

Joaquim Jorge Carvalho
Coimbra, 16 de Fevereiro de 2010.
[Trata-se do 1.º texto do volume “Depressão das Laranjas” (Ribeira de Pena, Ed. Casa de Santa Marinha, 1999).]

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

NOTÍCIAS DO MUNDO IMAGINÁRIO


Do Shake-hands ao Undergreeting

Com o objectivo de articular tradição e modernidade, o governo inglês tem vindo a renovar o (até agora) rígido protocolo a que gerações sucessivas de nobres e governantes se têm submetido. Numa primeira fase, segundo fonte autorizada de Downing Street, substituir-se-á o tradicional “shake-hands” pelo “undergreeting” – um toque rápido, feito com três dedos (indicador, médio e anelar), na zona genital da pessoa cumprimentada. Este cumprimento poderá ter nuances, naturalmente, como gentis apalpões em bustos femininos ou beliscões (de intensidade variável) no traseiro de conhecidos, amigos e familiares.
A inovação tem provocado alguma celeuma, mas a reacção da opinião púbica, aliás, pública, tem sido geralmente positiva. O maior problema parece residir nas longas sessões de cumprimentos que têm lugar, por imperativos oficiais, o que implica a troca de saudações com muita gente. Gordon Brown, por exemplo, após uma primeira experiência de “undergreeting”, na Câmara dos Comuns, ocorrida na semana passada, após a aprovação do orçamento para 2010, queixou-se do escroto, mas garantiu que só lhe doía muito quando urinava.
A ideia chegou já ao Parlamento Europeu e a comissão responsável pelo estudo prévio deste projecto tem vindo a receber sugestões variadas, a equacionar em futuro muito próximo. Há contudo vozes reticentes quanto a avanços excessivos, pelo que as propostas serão sempre objecto de cuidadosa triagem. “Há que dar tempo ao tempo”, defendeu Joseph du Bonnet, um deputado francês: “A evolução pode levar anos e nem tudo será tão pacífico como até aqui.” Por isso, saudações como a de joelhos, com leve manuseamento da parte cumprimentada (sugerida por Bill Clinton) ou a do popular pontapé no traseiro (sugerida por A. J. Jardim) estão de momento postas de parte.

Coimbra, 15 de Fevereiro de 2010.
Joaquim Jorge Carvalho
[Este texto já tem cerca de dois anos, mas nunca foi publicado. Sai agora, em quadra conveniente. A imagem-supra foi colhida (com a devida vénia) de um blogue português - http://www.duas_ou_tres.blogspot.com.]

Coimbra, Outubro, 2005.
JJC

Navegar


O tempo anterior ao mar não conta. O seguinte chama-se navegação e é disso que falamos quando falamos de existir.
Por entre o polegar e o indicador de Deus, talvez se veja a porção de mar que me foi concedida.
A divina mão que me avia é a esquerda.
A Sua mão direita ocupa-se da quantidade de terra que me caberá para morrer.
Não se vê essa mão, porque na morte, ao contrário do que acontece com o mar, nenhuma parte nos pertence. Melhor, provavelmente, assim.

Coimbra, já 15 de Fevereiro de 2010.
joaquim Jorge Carvalho

[Nota: O desenho ("Um Pedaço de Mar") é da minha colega e Amiga, Rosário Coelho.]

domingo, 14 de fevereiro de 2010

Carnaval & Verão


O carnaval brasileiro é o maior do mundo. Maior significa, neste caso, quantidade (de investimentos, de participantes, de lucros, de riscos, de espectadores, etc.) e de qualidade (de cor, criatividade, alegria, festa, emoção). Mas há outros carnavais, um pouco por todo o mundo.
Sabe-se que há, na génese do carnaval brasileiro, tradições europeias antiquíssimas, de cariz obviamente profano. Há, pois, Portugal também na raiz do celebrado espavento do Rio, da Baía (e derivados). Mas, hoje, ninguém se atreve a pôr em causa a primazia da festa brasileira, espécie de bilhete de identidade de um povo genuinamente de bem com a vida, não obstante a dimensão da pobreza, injustiça e violência com que convive ao longo do ano. Não é de mais dizer-se que a alegria tem sotaque brasileiro.
No nosso país, tenho assistido, com irregular frequência, a arremedos do carnaval de além-atlântico verdadeiramente patéticos. Para além da circunstância, sempre vexatória, de a cópia ser, por natureza, inferior ao original, há este pormenor não despiciendo do clima. Vi, muitas vezes, corsos tiritando, tristemente, de frio; espectadores, num silêncio funéreo, bem agasalhados e de ar respeitoso, apreciando as carnes saltitantes de bailarinas (nacionais ou importadas), ao som de uma cidade maravilhosa de encantos mil, muito distante dos lugares portugueses.
Julgo que seria interessante pensar-se na possibilidade de deslocar, no calendário, a celebração do carnaval português para os (nossos) meses quentes: Julho, Agosto, mesmo Setembro. Chamassem-lhe, digamos, “Carnaval de Verão” ou coisa semelhante. Penso, aliás, que a alteração redundaria em maior afluência de público, maior alegria dos participantes e maiores dividendos para os organizadores.
Claro que a tradição é importante. Mas a tradição também se faz. Um ano, depois outro, depois outro, depois outro – e normalizar-se-ia, na percepção popular, esta forma portuguesa de carnaval. (Aliás, dizem-me que, na Figueira da Foz, vem sendo tentado algo semelhante.)
Se leitores conservadores se ofenderem com esta heresia sugerida, peço desculpa. Mas lembro que o faço no convencional período de carnaval. É suposto que me não levem a mal, não é?

Coimbra, 14 de Fevereiro de 2010.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida no JN (com a devida gratidão e vénia).]

Faculdade de Letras, 1982


Era uma vez não eu ter nada e não saber que era pobre.
Era uma vez uma ilha na minha cabeça, cercada de solidão.
Era uma vez eu a ler, pouco entendendo, histórias e poemas sobre o que era o amor.
Era uma vez uma ilha na minha cabeça, com um único habitante, que era o meu coração.
Era uma vez uma aula de Cultura Francesa sobre o Père Goriot (de Balzac).
Era uma vez, ao entardecer, um barco à vela chegando, secreto, à ilha na minha cabeça.
Era uma vez a a juventude, a faculdade, o princípio de tudo.
Era uma vez uma mulher saltando do barco para uma certa ilha que era o meu coração.
Era uma vez uma ilha que deixou de ser ilha por, à volta, a solidão ter desaparecido.
Era uma vez o amor.
O amor é um barco entre o estar sozinho e o lado que falta.

Coimbra, 14 de Fevereiro de 2010.
Joaquim Jorge Carvalho

sábado, 13 de fevereiro de 2010

Aliteração q.b.


Boas tardes, sô Barbosa,
Tudo bem?
Bote aí:
Bica, bola e bolo de arroz…
(Bebes bica também, Beta?)
Bom, bote mais uma bica.
“A Bola”:
Braga bate Belenenses em Belém!
Boa! Bravo! Bestial!
Bem, já bebeste a bica, Beta?
Então, ‘’bora.
Adeus sô Barbosa,
‘’té breve!

Ribeira de Pena, Fevereiro de 2010.
Joaquim Jorge Carvalho
[A ilustração-supra é de Van Gogh (O Café Terrace na Praça do Fórum, Arles, à noite, 1888) e foi colhida no blog oegodequeiros.blog.sapo.pt.]

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

Cão e Noite


São quase quatro da manhã, em Ribeira de Pena. O frio todo do mundo veio passar este breu connosco. Aconchegadas no geral silêncio, as pessoas dormem, confiando no sol que há-de vir. O vento, de vez em quando, assobia pelos ramos do plátano à curva da estrada. Uma janela do prédio bate ébrias palmas às rajadas mais brutas. A minha mulher dorme lá dentro, suspensa das horas, talvez sonhando.
Estou só, na noite acordada, mas quase feliz. Escrevo sobre as personagens secundárias de Júlio Dinis e não poucas vezes acontece-me habitar a aldeia que o escritor inventou. Gostava de poder entrar na loja de João da Esquina e ouvi-lo comentar, escandalizado, duzentos anos antes do Bush e da Sarah Pallin, o evolucionismo de Darwin. “Entrar”, isto é, fisicamente, porque “estar lá” do modo consabido de leitor, isso, há muito que posso (e não é coisa pouca).
Também a vila onde resido mereceria, por certo, o “seu” romance, como – segundo parece – Ovar mereceu de Dinis. Não me tem apetecido; há o problema de eu estar aqui, fisicamente muito aqui, neste contexto tão vizinho e familiar. É muito delicado trazer para a literatura os caracteres humanos que nos rodeiam. Por muito que eu fosse rigoroso (e não acredito que o conseguisse ser; nem sequer acredito que se possa sê-lo), a verdade é que ninguém se gosta de ver ao espelho dos outros. Isso, aliás, explica a deliberada omissão de nome nas aldeias dinisianas: Minho, Beiras, Portugal, todos os lados em geral e nenhum em particular?
Ouço lá fora um barulho semelhante ao da chuva. Espreito da sala. Não chove. É, afinal, um velho cão lazarento, de luto por si próprio, que dorme as tardes e, decerto, as noites nos arredores da igreja do Salvador. Veio ao chafariz dessedentar-se, com vagares de velho proprietário. Penso: é dele a noite. E algo minha, um pouco.
A sede do cão deu-me sede também. A torneira da cozinha chia enquanto o copo se enche: água siberiana, esta. Antes do regresso a Júlio Dinis, espreito novamente a rua. Ao longe, um sino lembra as horas. O cão já lá vai, pachorrento sempre, dono do tempo.

Ribeira de Pena, 12 de Fevereiro de 2010.
Joaquim Jorge Carvalho

Lápis Filosofal


(Sobre um instante recolhido no Centro Comercial do costume)


Caminhas sobre a dor da tua própria lembrança
Dos dias d’ouro em que o mundo vinha à porta
Para te ver passar.
Sabes da beleza que eras e isso há-de doer
Agora,
No reverso das rosas à míngua d’ água
Nos passos pela galeria indiferente
Aos teus passos.

Antes imaginar que há de novo olhares
Flores por ti na transeunte saliva masculina.
Antes seres outra vez, fingindo,
Menina
Não é?

Mas vem.
O meu poema há-de ver-te como eras
(Como olhando por dentro 'inda te vês) -
Que há elixir nos versos, se deles bebermos
A quantidade certa.
Vê como o teu busto renasce
O teu rabo se ri de Newton
As pernas hipicamente me fascinam.

Vem, pois.
O comércio é justo e transparente:
Enterneces-me,
Eternizo-te.

Ribeira de Pena, 12 Fevereiro de 2010.
Joaquim Jorge Carvalho

[O desenho-supra é de Stuart Carvalhais (1887-1961).]

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

Mestre João (1)


O texto literário tem, por natureza, um alcance universal. As dores e as glórias do indivíduo escrevente só ascendem à condição de literatura se, entre outros requisitos, puderem ser lidas como dores e glórias da condição humana. A isto há-de acrescer, bem entendido, que a gramática seja respeitada (e, em alguns casos, melhorada) e que haja fundamental beleza na coisa escrita.
Eu creio que a literatura é a minha forma principal de comunicar. Uma linguagem. Quisera ser, em cada texto, como diria Júlio Dinis, uma humilde casa para autor e alguns leitores morarem ou, juntos, estarem.
Se vos trago, pois, de vez em quando, nomes e lugares da minha vida, por favor tomai-os como nomes e lugares que são – também - vossos, da vossa vida e até (sendo a ração melhorada), “a” vossa vida.
O meu sogro chama-se João Ornelas. Em Machico, onde toda a sua biografia se fez, quase toda a gente se lhe refere como Mestre João. O título, prévio ao nome, não é académico; é profissional, de quando ele era “mestre de obras”.
Mas, para além de pedreiro brilhante, este homem foi autodidacta ao longo de toda a vida. Leu mais do que muito mestres uinversitariamente chancelados (anteriores e posteriores a Bolonha). Teve oito filhos e fez tudo por eles; arranjou amigos em todos quantos o conheceram; aprendeu com a experiência bruta do quotidiano, reflectindo e – pasmai – habituando-se a, todas as noites ao deitar, tomar notas (numa eterna agenda de bolso de que nunca se esquecia) das observações e aprendizagens feitas ao longo do dia. Já agora: como todos os sábios verdadeiros, foi sempre uma pessoa humilde. Falo-vos de “um santo”, no sentido em que Eça falava de Antero.
Hei-de aqui contar como o Estado ignobilmente o roubou, no cálculo manhoso da reforma, retirando-lhe noventa Euros ao que normalmente receberia. (Noventa Euros “descontados” de uma reforma de quatrocentos e noventa Euros, atentai, não de uma dessas pensões milionárias que os governantes distribuem por Bancos, Direcções-Gerais e Parlamento.) Ficará para outra altura.
O que hoje não deixarei de lembrar é o tesouro que representa para nós esta gente mais velha e de coração limpo, se houver a humildade e o tempo certos para a escutarmos. Aviso, pois: quero trazer aqui o Mestre João, com regular frequência; quero, gulosamente, inscrever na perenidade do enunciado algumas das pérolas que lhe fui descobrindo e oferecer-vo-las.
E fica, para já, uma só.
Em certa tarde de Agosto, discutia-se a discreta beleza da igreja de Machico, cotejando-a com a imponente igreja de Santa Cruz (de Coimbra). O mestre João conhecia, naturalmente, ambas, e não tomou partido, concordando ora com os partidários desta, ora com os admiradores daquela. Mas quando, a certa altura, se comparava a abóboda de uma com a de outra, interrompeu a assembleia e soltou, num sorriso:
- Ah, isso… A minha igreja ideal é diferente. Não tem tecto.

Ribeira de Pena, 11 de Fevereiro de 2010.
Joaquim Jorge Carvalho

Leão triste


Em Ribeira de Pena, é-se do Benfica ou do Porto. Eu sou, nesta rígida dicotomia, uma civilizada aberração. É que, na minha Coimbra natal, até há pouco tempo, era-se do Benfica ou do Sporting. Eu, por influência familiar (como é normal nestes casos), fiquei leão.
Sofro, desde criança, com as glórias e tragédias verde-brancas. Odeio hoje mortalmente Xistras, Olegários, Ferreiras, como já odiei no passado Paratys, Calheiros, Garridos e Pereiras. Sou incapaz de sofrer em silêncio as opiniões enviesadas de águias ou dragões sobre a enésima vez em que fomos vítimas de azar ou de arbitral injustiça. Tomo a palavra e argumento, seja onde for, convicto da minha indiscutível verdade. Chamo múmia e pé frio ao pobre Jesualdo (que os portistas não suportam mesmo ganhando)e rio-me publicamente das (in)competências linguísticas do Jorge Jesus (que assassina o Português com chicletada pose catedrática, afirmando que "a gente vamos muita fortes, adonde..."). Mas ouço, com atenção respeitosa, o Carvalhal explicar que "o 4.º golo do Cardoso veio descontextualizar o que se passou na partida". Sou um caso perdido.
O pai de um amigo meu, sportinguista e doente como eu, levou esta irracional afeição a um épico limite. Na década de 80 do século passado, o Sporting foi eliminado da Taça UEFA pelo Nápoles (de Maradona), após desempate por "penalties"; ora, o pai deste meu amigo, na ressaca do revés, ficou em silêncio aquele resto de serão, recusando o jantar, conversas, um chá. Foi, já noite avançada, deitar-se e morreu.
Lamento-o e percebo-o muito bem. Eu próprio morro, de forma mais escondida e covarde, a cada jornada, quando as coisas correm mal. E, em épocas como esta, haveis de convir, a dor assume proporções inauditas. Ao contrário, quando o Miguel Garcia marcou, na Holanda, no último minuto do prolongamento contra o AZ Alkmaar, e "nos" levou à final de uma competição europeia, o mundo pareceu-me um lugar formoso e justo...
Tenho saudades de andarmos a lutar por títulos. Preciso urgentemente que o inverno deste futebol acabe e tudo seja possível, de novo. A nossa primavera começa lá para Julho, com treinador novo. Bem sei que, à minha volta, a turba maioritária anda eufórica. Mas até me consola o facto de sermos menos que "eles": é condição da coisa preciosa que seja (mais) rara. Passa-se isto mesmo com o ouro, no universo dos outros metais.
Entretanto, é preciso que o Adrien saia do onze.

Ribeira de Pena, 11 de Fevereiro de 2010.
Joaquim Jorge Carvalho

Direito & Mar


A turista acumulava o sol
Com o estudo:
Sebentas de Direito entardeciam
Indiferentes ao oceano.

Subitamente o vento apareceu
E, devasso, incomodou a praia:
Fotocópias de opas e sucessões voam
Mar adentro.

Ao longe, como barquinhos
Vêem-se pedaços de lei navegando
Para as Desertas.

Não há maior Direito que o mar
(Pensou a turista, espreguiçando-se
E esquecendo-se.)

Ribeira de Pena, 11-02-2009.
Joaquim Jorge Carvalho

[Poema revisto com base num original dado à luz em Machico, no ano já longínquo de 2007. Dedicado agora, como então, à V. que se licenciou em Direito no dia 19 de Dezembro desse ano. A imagem-supra reproduz uma pintura de José Malhoa, "Praia das Maçãs" (1918).]

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

Astronomia contada aos adultos


A Terra à volta do Sol:
Movimento de translação da Terra.

A Terra à volta de si própria:
Movimento de rotação da Terra.

Os meus olhos à volta de Ti:
Movimento de admiração da Terra.

Joaquim Jorge Carvalho
(Para a pequininha)
[in Inquietação de Barcos, Ribeira de Pena, Ed. Fórum Metanóia, 2008.]

Urbanização com mar a seguir (poema em 4 andamentos)


I
Hei-de saber daqui a muitos anos isto
O presente
A velhinha arrastando um saco do Modelo
A empregada com sotaque do campo
A chuva triste embaciando o entardecer.

Hei-de saber pelo retrovisor da lembrança
A viagem perdida
O tempo dos semáforos incolores
A raiva pelo roubo do plasma
A intranquila voz da filha ao telefone.

Hei-de saber à cabeceira da minha morte
A vida
O que fugia em cada instante nosso
A metamorfose da beleza nas fotografias velhas
O amor emagrecendo até ao essencial
O meu pai em cabeceira anterior à minha.

Hei-de saber o contrário disto tudo
O nada.
O fim devindo de uma gazela correndo num livro
O silêncio depois da música e da vozearia
O indivíduo ao espelho de não existir ninguém outro
O beco ao fundo do aparente infinito.

Hei-de saber o sentido da escrita, já lida
A talvez fénix que voe dos teus olhos
O sabor do café muito para lá da chávena
A carne antecedendo a carne sucedendo à carne
O beijo encarnado no dia concreto e o outro
Seguinte aos lábios e à separação dos dedos –

O resto
O importante.

II
Miraste as mil maravilhosas montras
Durante a eternidade desta tarde comercial.
Raramente percebeste o enfado pouco canino
Do teu cão cansado.
Talvez não visses sequer os olhos tristes
E o uivo escondido entre as mãos nos bolsos.

Deste-me em algumas lojas sacos e cabides
E a tua voz interrompeu o silêncio de ambos
Para queixas sobre os preços e o ar condicionado.
Entre o multibanco e o restaurante, fugi
E revisitei o ouro da tua inocência nossa
(Um vestido largo, uma bandolete, uma canção
Um par de namorados no Estádio Municipal–
Isto é, uma outra eternidade anterior à Ikea).

Quando regressei, havia essa estranha mulher
Carregada de sacos, de pressa, de casadas rugas
E eu encolhi-me, qual ostra afásica
No umbigo do tempo.
Em todas as montras se via a nossa morte,
Amor.

III
Sobes as escadas cheia de idade
E há muito mais degraus que tempo.
Olhas o céu antes da chuva e talvez rezes
Lá desse subterrâneo esconso da solidão que és –

Compraste peixe de mares estrangeiros
Para o almoço reformado das viuvezes lusas.

Tens os olhos azuis, acho que cegos
Como Deus.

O peixe há-de saber-te a outra coisa diversa de peixe
E ainda falta a noite.



IV
Veio o vento e nada.
Vieram remos e nada.
Veio electricidade e nada.
Vieram motores, maus humores, rumores
E nada.

Este barco não anda, lamuriou-se o arma-
Dor.

Mas veio o arrais e o barco partiu.
Por que te atrasaste, perguntou o patrão.
Estive a sonhar, disse o arrais,

Para haver viagem.

Ribeira de Pena, Fevereiro de 2010.
Joaquim Jorge Carvalho

História (quase jornalística) de amor


1.
Não desfez a barba por falta de tempo. A mulher não apreciava esse desleixo; dizia-lhe sempre que assim parecia um bandido, que ficava mais velho e mais feio, e fazia beicinho. Mas era já muito tarde, a manhã quase despontava; daí a minutos ouviria a buzina da carrinha, conduzida pelo António, e às oito e meia deveria já estar na labuta diária da Efacec.
Engoliu o naco de pão que sobrara do dia anterior e meteu à boca uma meia caneca de café amargo, limpou os beiços com as costas da mão e, enfim, como fazia sempre, foi ao quarto despedir-se dela. A Luísa estava talvez acordada, enrolada na filhota, e como de costume ignorou a saudação esponsal.
O António não veio, nesse dia. Quem vinha a conduzir era o Vieira Um-Dia, ex-pescador, que coxeava devido a um acidente sofrido na tropa e que devia a alcunha ao hábito conhecido de, a cada momento, suspirar e anunciar emigrações: “Um dia, ponho-me a andar daqui para fora…”
-O Tónio? – perguntou Manuel.
- Não pôde vir. Parece que tem de ir ao Porto tratar de assuntos…
- É estranho. Ainda ontem aqui esteve em minha casa, à noite, e não me disse nada.
Entrou na viatura e, sem cerimónia, ligou o rádio. Era o luxo de todas as manhãs: o encosto confortável do banco da frente, o nevoeiro bonito do caminho para o trabalho, o baloiço viajante, a música, a meteorologia e a voz serena do locutor. Nessa manhã de Março de 1972, fazia frio em todo o país; em África, a guerra ia sendo ganha; Eusébio estava lesionado; Madalena Iglésias preparava um novo disco.
À chegada ao parque de estacionamento da empresa, o Vieira disse:
- Um dia destes, vais ver, é de vez!
- Pões-te a andar daqui para fora? – perguntou Manuel.
Vieira Um-Dia percebeu a troça nos arredores da pergunta. Encolheu os ombros:
- Tu vais ver.
O barulho das máquinas e das vozes interrompeu-lhes um possível diálogo sobre sonhos e limites. Manuel apagou o cigarro e sacou do bolso direito um velho par de luvas.
- Até logo, Vieira.
- Até logo – resmungou o coxo, ainda amuado.
Quando, pelas sete da tarde, regressou a casa, Manuel encontrou, em vez da mulher e da filha (e do jantar), um bilhete, escrito no rótulo do detergente Omo:
“A menina está em casa da senhora Adília.
Desculpa, mas a gente não manda no coração. Luísa”

2.
Não percebera bem, a princípio, toda a dimensão da tragédia que se abatera sobre si. Como ébrio, recebera da vizinha, a viúva Adília, a pequena de dois anos que Luísa ali deixara; recebera igualmente o suspiro piedoso da velha, algumas meias sugestões de desconfiança antiga, a mão maternal sobre o ombro.
- Obrigado, Ti’ Adília.
Ninguém em Leça do Balio o vira chorar. Foi trabalhar para a Cuf Portuense - para fugir, dentro do possível, à pena venenosa dos camaradas. Livrou à tropa (com uma cunha, dizia-se, do patrão). Sobreviveu. Todos os dias, muito cedo, ia até casa da irmã, e aí deixava a filha, em silêncio, até às seis e meia da tarde, que era quando voltava do trabalho. Soube, sem nunca perguntar fosse o que fosse, da partida da Luísa e do António para Lisboa, do salão de cabeleireira que a mulher abrira, já depois do 25 de Abril, na zona de Belém, e do sucesso económico do António (na área da restauração).
Não mais quis saber de mulheres na sua vida, tirando um ou outro momento de fraqueza homeostática que curava, com uma centena de escudos, em bares manhosos de Matosinhos ou, mais raramente ainda, no Porto. A sua vida passou a chamar-se Clara, a filha. Era com ela que passava quase todos os momentos, e havia mães que suspiravam, impressionadas, à visão daquele homem passeando pelo porto de Leixões, de mãos dadas com a petiza, comendo gelados ou castanhas, num aconchego de amor tão raro.
A mulher do Vieira Um-Dia, farta do álcool e da violência do esposo, gritara-lhe, algumas vezes:
- É corno, é corno, mas tem uma vida bonita e é um pai como deve ser!
Ao princípio, estas ousadias custavam-lhe uns encontrões ou uns olhos negros, mas com o tempo o sonhador tornara-se um farrapo triste e passivo, que passava as tardes no Café da rua, a olhar cegamente para o mar. Certo dia, deu mesmo em vomitar sangue e, pouco depois do internamento no Hospital S. João, morreu de cirrose. Manuel, a pedido da viúva, tomou conta dos órfãos naquela tarde de terça-feira em que o funeral se fez.
Clara, já com dez anos, teve muita pena dos dois miúdos (ambos muito pequeninos, ainda).
- Já viste, pai? Ficarem assim órfãos…
E foi nessa ocasião que, como Einstein, o operário da cervejeira percebeu que tudo é relativo.

3.
Em 1982, durante a greve, toda a freguesia de Leça do Balio viu, na RTP, a cara sorridente de Manuel, porta-voz da comissão de trabalhadores, manifestando a confiança nas negociações com o patronato e referindo-se à Europa com estranha ironia. O Chico do Café, de olhos muito vivos, recordou a quem o quis ouvir que aquele homem tinha a quem sair:
- O pai dele, na Fábrica de Conservas, foi preso por andar à pancada com o encarregado…
Mas esse foi também o dia em que, pela voz da Madalena, filha da falecida Adília, soube da doença súbita de Clara, durante uma aula de Francês. No Hospital, estava a directora de turma da pequena, que lhe deu conta do desmaio, da preocupação da Escola, da ambulância.
A insuficiência renal, disseram-lhe, tinha remédio, mas não se tratava de empresa fácil: era preciso um transplante. Toda a família mais chegada fez exames, à procura de órgãos compatíveis, mas em vão. O médico garantiu-lhe que a Clarinha estava nos primeiros lugares de uma lista nacional:
- Assim que haja um rim disponível, chamam-na, senhor Manuel.
O tempo, contudo, passava. Clara engordara muito devido aos medicamentos e, por indicação clínica, deixara de frequentar a Escola. Manuel trazia-lhe doces que ela agradecia sem comer; contava-lhe episódios do trabalho para a fazer rir; dizia-lhe que em breve o Hospital telefonaria (e, por dentro, sentia-se ridículo como o pobre Vieira de outrora).
A filha sofria muito com a febre e o seu juvenil estômago não suportava já os antipiréticos. Certa noite, muito cansado e sem fé, ele não pôde impedir que uma lágrima se misturasse ao chá de cidreira. Talvez fosse esta mistura a causadora de uma ideia tão improvável como aquela que Clara exprimiu, baixinho, no suor seguinte à infusão tomada:
- Será que a minha mãe não é compatível?

4.
Para um homem nascido em Leça do Balio, não é simples ir a vizinhos perguntar pormenores sobre a vida da mulher que fugiu de casa, ou geografias sobre o ex-amigo que a levou. Não é simples ir a um restaurante chique, num lugar distante como Alverca (perto de Lisboa), e pedir autorização a António para falar com Luísa. Não é simples ficar, por horas, à espera que a cabeleireira mais frequentada de Belém termine o seu dia de lucro e, enfim, se disponha a ouvir uma narrativa confusa de nefrologia e de desespero.
Mas foi essa, então, a biografia de um homem chamado Manuel, a quem ninguém jamais viu chorar ou lamentar-se. Na foz deste rio de peripécias, aconteceu que Luísa se dispôs a fazer análises e se descobriu que era dadora compatível.
O problema foi que António se opôs: temia consequências na saúde da companheira, problemas na delicada operação, talvez até uma perigosa reaproximação ao pai de Clara. Muito dividida, carregada de temores e de remorsos, a mulher pediu tempo para pensar.
Manuel, tão ocupado a pensar na filha, não teve sequer ânimo para insistir mais e voltou a casa, mais baço do que há doze anos.
Passaram meses. Numa quarta-feira de Março, que aniversariava aquela espécie de viuvez do pai, Clara ouviu o telefone e despertou do sono febril onde jazia. Manuel dormia, também, anestesiado em vinho. Foi a pequena a atender a chamada interurbana que termina esta história surpreendentemente feliz:
- Diz ao teu pai que pode contar comigo – afirmou, tremendo, uma voz de mulher.

FIM
[Ilustração-supra: Pintura de Pierre-Auguste Renoir (1841-1919)]

Eu e Ruy Belo: Problemas de habitação


Se o poeta Ruy Belo ainda estivesse vivo, teria hoje 76 anos (completaria 77 no final deste mês de Fevereiro). Mas o texto que se segue decorre do facto de Ruy Belo, que faleceu há mais de três décadas, não ter efectivamente morrido. Procurarei explicar-me, já a seguir.
Comprei casa com empréstimo bancário. Pus nela as minhas poupanças, a minha ideia de lugar amável, os meus livros, a minha família. Depois, a casa foi envelhecendo e os juros da Euribor foram subindo. Por ser tão custoso mantê-la, é muito difícil não desistirmos da casa; mas é igualmente inviável não termos uma habitação.
O preço de viver não se mede apenas pelo spread, pelo Banco Central Europeu ou pelo valor do crude. Basta dizer que o Verão vai acabar; que a minha mãe viajou de bela a velha em segundos; que o meu pai morreu no ano passado antes de falarmos; que já me vai faltando a ingenuidade essencial de acreditar.
A poesia sabe disto?
Ruy Belo, poeta “administrador” (vidente) “da tristeza”, sabia. Poucos versos foram capazes, como os seus, de cruzar a frágil terrenidade da existência com uma espécie de Absoluto lindo que é esta ideia de tudo talvez ter um sentido. De haver talvez formosura para lá da usura. De haver talvez Tejo para lá do Tédio. De haver talvez Belo para lá de Ruy.
“É muito triste andar por entre Deus ausente”, senhores. Mas dizê-lo assim, de forma tão por dentro do coração e da lucidez, é uma possibilidade de trazer Deus (ou algo parecido) à realidade incompleta e fragmentária dos caminhos humanos.
Há, depois, essa genial coerência do verbo e da ideia, em Ruy Belo. E, a esta luz, até a revisitação dos seus títulos é um exercício útil: Aquele Grande Rio Eufrates; Boca Bilingue; Homem de Palavra[s]. A Margem da Alegria; Toda a Terra; Despeço-me da Terra da Alegria; O Problema da Habitação. Com estes títulos (aliás, versos) faz-se já um belo poema sobre o poeta e a literatura em geral, não faz?
Ler poesia não resolve o meu problema de habitação. A poesia de Ruy Belo não resolveu o (meu e seu) problema de habitação. Mas ajuda a, dizendo-o, ver o problema que temos (que somos) – e isso, acredite-se ou não, aquece e consola como o sol no inverno.
Pelos versos de Ruy Belo, o meu poeta preferido (de mãos, sei enfim que “Deus é perto como uma árvore”. A árvore tem o nome do meu poeta preferido.

[Nota: Os versos ou expressões que aparecem entre aspas, neste texto, foram colhidos na obra de Ruy Belo, O Problema da Habitação (1962).]

Ribeira de Pena, Fevereiro, 2010.
Joaquim Jorge Carvalho
[Texto escrito em 2008 para “Semanário do Ribatejo, no âmbito de homenagem a Ruy Belo, com o Daniel Abrunheiro metido pelo meio da coisa.]

O valor da metáfora



      A metáfora, como eu a entendo, é a cósmica tentativa de articular a verdade com o verbo humano. Radica numa espécie de consciência do défice da linguagem normal, e na concomitante necessidade (urgência até) de criar modos de dizer o que, existindo, não se explica facilmente, normalmente. Um dia, em viagem de automóvel, à conversa com a minha filha, percebi isto muito bem.
Ela tinha, então, quatro anos. Íamos buscar a minha mulher, que trabalhava a quarenta quilómetros da nossa residência. Para entreter a monotonia das rectas, eu ia falando, contando histórias, questionando-a. A miúda respondia com a simplicidade (de modos e de vocabulário) que a sua pouca idade explica. A certa altura, perguntei-lhe se gostava de mim.
Ela respondeu: «Gosto.»
Perguntei-lhe se também gostava da mãe. Ela disse: «Também.»
Levantei a fasquia da dificuldade e perguntei-lhe se gostava mais da mãe ou do pai. A miúda levou mais tempo a responder, mas desenrascou-se bem: «Gosto dos dois.»
Prossegui a entrevista, complexificando a conversa, já talvez adivinhando a sua desistência iminente: «Quanto é que gostas de mim?»
Ela, cada vez mais embaraçada, foi ainda capaz de se exprimir: «Muito.»
Temi pela minha filha, tão à beira de um esgotamento lexical, mas arrisquei ainda: «Muito, quanto?»
Caiu então um mui espaçado silêncio sobre a noite. A menina decerto sentia a resposta, mas não havia (em seu pobre vocabulário de infante) palavras para dizer o que inteiramente sentia. 
E nós passávamos enfim por Cantanhede, a caminho da vila de Febres, quando ela, interrompendo silêncio e breu, apontou para o maior edifício à vista e exclamou: «Gosto de ti aquela casa toda!»
Entendeis? A minha filha tinha descoberto a metáfora e oferecera-ma.

Ribeira de Pena, Fevereiro de 2010.
Joaquim Jorge Carvalho
[Este texto foi por mim revisto no dia 28 de Julho de 2015, aquando do envio de uma crónica para o jornal O Ribatejo, com o qual comecei a colaborar nesta data. O nome que escolhi para o meu espaço, neste jornal, foi "Zona de Perecíveis". Na origem desta nova imprudência está o meu Amigo Daniel Abrunheiro.]