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domingo, 8 de maio de 2016

A mercearia exemplar (uma alegoria da comunicação)



O senhor Silva é o merceeiro mais antigo da vila. Um ano depois de se ter casado com a menina Maria Paciência, inaugurou o estabelecimento, numa cerimónia simples, mas agradável, que meteu o presidente da junta, Horácio Honrado, o padre Asdrúbal, a professora primária, Dona Vanda Vidas, alguns amigos e também, já depois dos discursos, muita população – gente curiosa face à novidade e que não queria perder os rissóis e os bolos de bacalhau à disposição, nem o vinho (tinto ou branco) servido pela mãe do proprietário em generosas canecas de barro.
Ao longo de quatro décadas, houve muitas mercearias inauguradas na vila, mas o negócio do senhor Silva resistiu exemplarmente à concorrência, tornando-se numa espécie de instituição local, que nem o centro comercial nascido, no início do século XXI, conseguiu derrubar.
Os clientes mais velhos dizem que o segredo do sucesso está sobretudo na forma como o senhor Silva trata os clientes. Apesar de não ter passado da 4ª classe, o merceeiro – já septuagenário, hoje – é um mestre na mui necessária e delicada arte de bem tratar quem entra na sua loja. Ele dá voz aos interlocutores, espera serenamente a vez de também falar, evita o ruído, usa o tom de voz adequado – e, se vier a propósito, solta uma gargalhada franca, dá um abraço cúmplice, ou deixa o útil manto do silêncio descer sobre a conversa.
A dona Glória, esposa do senhor José da Farmácia, diz que o senhor Silva é um cavalheiro e que, para além de muito bem-educado, sabe comunicar com as pessoas. E, diga-se, a dona Glória nem sempre é uma cliente fácil…
DONA GLÓRIA (com modo afectado, senhoril): Senhor Silva, algumas castanhas tinham bicho!
SR. SILVA (com sincera simpatia): Não me diga! Lamento muito, dona Glória, sinceramente.
DONA GLÓRIA:  O meu Zé ficou muito aborrecido, sabe?
SR. SILVA: E com inteira razão, dona Glória! Quando eu vou à farmácia, ele também não me dá remédios estragados…
DONA GLÓRIA (sorrindo, evidentemente satisfeita com a resposta): Exactamente. Ora ainda bem que percebe…
SR. SILVA: Sem dúvida! Hei-de transmitir ao meu fornecedor a sua informação, dona Glória.
DONA GLÓRIA (já com um tom de voz amigável, cúmplice): Uma pessoa, assim, sente-se enganada.
SR. SILVA: Compreendo, dona Glória. Espero que a próxima remessa já seja do seu agrado. (Sorri.) Mas, em compensação, a senhora já viu o aspecto maravilhoso destas maçãs?
DONA GLÓRIA (muito interessada): Na verdade…
O senhor Vítor Valadas, comandante da esquadra da GNR, não troca a mercearia do senhor Silva por nada deste mundo. Para comprar uma caixa de fósforos, alguns quilos de bacalhau ou um saco de carvão, é à loja mais antiga da vila que o militar recorre.
VÍTOR VALADAS (em tom de voz grave): Bom dia, Sô Silva.
SR. SILVA (com simpatia): Senhor comandante, como está?
VÍTOR VALADAS: Cá vamos andando.
SR. SILVA: É o que é preciso. Se possível, com saúde.
VÍTOR VALADAS: Então o Boavista lá ganhou, hã?
SR. SILVA: É verdade. E ainda bem!
VÍTOR VALADAS (como se tivesse sido ofendido): Ainda bem?! O senhor sabe que eu sou adepto da Académica. A vitória do Boavista foi o pior que me podia acontecer!
SR. SILVA (serenamente): Compreendo. Foi mau para o seu lado, na verdade. Mas, sabe, o meu cunhado é boavisteiro… O senhor conhece-o.
VÍTOR VALADAS (serenando): Claro que conheço. É o Tó das Finanças.
SR. SILVA: Ele mesmo. Bom homem…
VÍTOR VALADAS (voltando ao assunto com paixão): Mas a Académica é um histórico, ó sô Silva!
SR. SILVA (com entusiasmo): Absolutamente. No futebol português, trata-se quase de “um grande”…
VÍTOR VALADAS (indignado): Quase? A Académica é mesmo um grande, sô Silva!
SR. SILVA (serenamente): Tem alguma razão. É um grande também, se pensarmos no prestígio…
VÍTOR VALADAS (satisfeito com o discurso do interlocutor): Na tradição!
SR. SILVA: Isso mesmo, na tradição. (Sorri.) E, por falar em tradição, ó senhor comandante, este fiambre que aqui leva é do mais tradicional e baratinho do mercado!
VÍTOR VALADAS (curioso e satisfeito): Por acaso, tem bom aspecto…
Ao longo de 40 anos, poucas vezes o senhor Silva teve de se indispor, tão clara é a sua vontade de agradar aos clientes, sempre em nome da boa convivência e do negócio. Houve aquele episódio com o senhor Marco Martelo, ex-oficial da marinha, que andara 30 anos sem beber e, depois da reforma, dera em embriagar-se quase diariamente. Quando vinha à mercearia comprar tabaco, aí pelas 4 da tarde, já tresandava a vinho ou cerveja e qualquer pretexto servia para iniciar uma ruidosa discussão com quem lhe aparecesse à frente.
MARCO MARTELO (falando alto, rudemente): No centro comercial, o tabaco está 5 cêntimos mais barato, ó sô Silva!
SENHOR SILVA (falando amigavelmente): A sério, senhor Martelo?
MARCO MARTELO (com alguma agressividade): A sério, sim! Eu quando falo é a sério!
SENHOR SILVA (sempre sereno): Não duvido, senhor Martelo. Mas, sabe, eu pratico os preços que vêm no contrato com a distribuidora. Nem mais, nem menos.
MARCO MARTELO (cortante, rude): Eu não quero saber do seu paleio, homem!
SENHOR SILVA (pacientemente): E faz bem. O que interessa mesmo é o que o senhor pensa do assunto.
MARCO MARTELO (agressivamente): Não gosto de ser roubado, ó sô Silva!
SENHOR SILVA (sereno, mas igualmente assertivo, em tom de voz muito sério): Ninguém gosta, meu amigo. Mas escusa de gritar, senhor Martelo, porque até me assusta a clientela…
MARCO MARTELO (berrando): Grito o que me apetecer! O senhor saiu-me um bom vigarista!
SENHOR SILVA (solene): Não diga isso, senhor Martelo! O senhor conhece-me, sabe que sou uma pessoa honesta e decente.
MARCO MARTELO (rudemente): Isso é o que você diz! Olhe, dê-me cá dois maços de tabaco, que eu já me estou a irritar com a conversa!
SENHOR SILVA (calmamente): Não se irrite, senhor Martelo. Aqui estão os dois maços que pediu.
MARCO MARTELO (ameaçador): Vai fazer-me o preço que eu pago no centro comercial, não vai?
SENHOR SILVA (calma e assertivamente): Isso é que não pode sr. Para ter esse preço, terá mesmo de ir ao centro comercial, senhor Martelo. Aqui está o troco.
A história não acabou aqui. No dia seguinte, logo pela manhã, o senhor Silva deixou a esposa ao balcão da mercearia e foi ao Café Central. Aí encontrou, como calculara, o Marco Martelo e, no tempo de beber um café, disse-lhe muito assertivamente:
SR. SILVA: Ontem, o senhor Martelo estava bêbedo e tratou-me mal. Queria que, agora, em seu juízo, me pedisse desculpa e me prometesse que aquilo não volta a acontecer.
O ex-oficial da marinha começou por sorrir.
MARCO MARTELO: Isso é mesmo necessário, sô Silva?
SR. SILVA: É mesmo necessário, sim. Custava-me muito perder um cliente, mas tão-pouco posso perder a dignidade, senhor Martelo.
Marco Martelo deu-se conta do ar solene do merceeiro e, fosse pela amizade, fosse para evitar a proibição de entrar, daí em diante, na loja, respondeu:
MARCO MARTELO: Aquilo foi o vinho. Desculpe-me, sô Silva. E o seu café, faço questão, pago eu!
O presidente da Junta, neto daquele que, há 40 anos, estivera na inauguração da mercearia, admira a maneira de ser do senhor Silva. Diz-lhe às vezes:
PRESIDENTE DA JUNTA: O senhor, se tem estudado em novo, era diplomata.
A isto responde o merceeiro:
SR. SILVA: Na vida, todos temos de ser um pouco diplomatas. Às vezes, zangamo-nos mais por causa da forma como dizemos as coisas do que por causa das coisas que dizemos.
PRESIDENTE DA JUNTA: Tem muita razão! E assim se consegue manter uma sã convivência, não é verdade?
SR. SILVA: Sem dúvida. Uma sã convivência e um são negócio!
Ouve-se muitas vezes falar de serviço público – na rádio e na televisão, por exemplo. Por mim, quando ouço falar desse tema, lembro-me do senhor Silva ao balcão da sua loja: sereno, afável. competente, com um eterno sorriso na boca, nos olhos, nas palavras. É um homem que sabe comunicar. Comunicar, etimologicamente, significa “pôr em comum”.

FIM

Joaquim Jorge Carvalho
Ribeira de Pena, 08 de Maio de 2016.

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

História (quase jornalística) de amor


1.
Não desfez a barba por falta de tempo. A mulher não apreciava esse desleixo; dizia-lhe sempre que assim parecia um bandido, que ficava mais velho e mais feio, e fazia beicinho. Mas era já muito tarde, a manhã quase despontava; daí a minutos ouviria a buzina da carrinha, conduzida pelo António, e às oito e meia deveria já estar na labuta diária da Efacec.
Engoliu o naco de pão que sobrara do dia anterior e meteu à boca uma meia caneca de café amargo, limpou os beiços com as costas da mão e, enfim, como fazia sempre, foi ao quarto despedir-se dela. A Luísa estava talvez acordada, enrolada na filhota, e como de costume ignorou a saudação esponsal.
O António não veio, nesse dia. Quem vinha a conduzir era o Vieira Um-Dia, ex-pescador, que coxeava devido a um acidente sofrido na tropa e que devia a alcunha ao hábito conhecido de, a cada momento, suspirar e anunciar emigrações: “Um dia, ponho-me a andar daqui para fora…”
-O Tónio? – perguntou Manuel.
- Não pôde vir. Parece que tem de ir ao Porto tratar de assuntos…
- É estranho. Ainda ontem aqui esteve em minha casa, à noite, e não me disse nada.
Entrou na viatura e, sem cerimónia, ligou o rádio. Era o luxo de todas as manhãs: o encosto confortável do banco da frente, o nevoeiro bonito do caminho para o trabalho, o baloiço viajante, a música, a meteorologia e a voz serena do locutor. Nessa manhã de Março de 1972, fazia frio em todo o país; em África, a guerra ia sendo ganha; Eusébio estava lesionado; Madalena Iglésias preparava um novo disco.
À chegada ao parque de estacionamento da empresa, o Vieira disse:
- Um dia destes, vais ver, é de vez!
- Pões-te a andar daqui para fora? – perguntou Manuel.
Vieira Um-Dia percebeu a troça nos arredores da pergunta. Encolheu os ombros:
- Tu vais ver.
O barulho das máquinas e das vozes interrompeu-lhes um possível diálogo sobre sonhos e limites. Manuel apagou o cigarro e sacou do bolso direito um velho par de luvas.
- Até logo, Vieira.
- Até logo – resmungou o coxo, ainda amuado.
Quando, pelas sete da tarde, regressou a casa, Manuel encontrou, em vez da mulher e da filha (e do jantar), um bilhete, escrito no rótulo do detergente Omo:
“A menina está em casa da senhora Adília.
Desculpa, mas a gente não manda no coração. Luísa”

2.
Não percebera bem, a princípio, toda a dimensão da tragédia que se abatera sobre si. Como ébrio, recebera da vizinha, a viúva Adília, a pequena de dois anos que Luísa ali deixara; recebera igualmente o suspiro piedoso da velha, algumas meias sugestões de desconfiança antiga, a mão maternal sobre o ombro.
- Obrigado, Ti’ Adília.
Ninguém em Leça do Balio o vira chorar. Foi trabalhar para a Cuf Portuense - para fugir, dentro do possível, à pena venenosa dos camaradas. Livrou à tropa (com uma cunha, dizia-se, do patrão). Sobreviveu. Todos os dias, muito cedo, ia até casa da irmã, e aí deixava a filha, em silêncio, até às seis e meia da tarde, que era quando voltava do trabalho. Soube, sem nunca perguntar fosse o que fosse, da partida da Luísa e do António para Lisboa, do salão de cabeleireira que a mulher abrira, já depois do 25 de Abril, na zona de Belém, e do sucesso económico do António (na área da restauração).
Não mais quis saber de mulheres na sua vida, tirando um ou outro momento de fraqueza homeostática que curava, com uma centena de escudos, em bares manhosos de Matosinhos ou, mais raramente ainda, no Porto. A sua vida passou a chamar-se Clara, a filha. Era com ela que passava quase todos os momentos, e havia mães que suspiravam, impressionadas, à visão daquele homem passeando pelo porto de Leixões, de mãos dadas com a petiza, comendo gelados ou castanhas, num aconchego de amor tão raro.
A mulher do Vieira Um-Dia, farta do álcool e da violência do esposo, gritara-lhe, algumas vezes:
- É corno, é corno, mas tem uma vida bonita e é um pai como deve ser!
Ao princípio, estas ousadias custavam-lhe uns encontrões ou uns olhos negros, mas com o tempo o sonhador tornara-se um farrapo triste e passivo, que passava as tardes no Café da rua, a olhar cegamente para o mar. Certo dia, deu mesmo em vomitar sangue e, pouco depois do internamento no Hospital S. João, morreu de cirrose. Manuel, a pedido da viúva, tomou conta dos órfãos naquela tarde de terça-feira em que o funeral se fez.
Clara, já com dez anos, teve muita pena dos dois miúdos (ambos muito pequeninos, ainda).
- Já viste, pai? Ficarem assim órfãos…
E foi nessa ocasião que, como Einstein, o operário da cervejeira percebeu que tudo é relativo.

3.
Em 1982, durante a greve, toda a freguesia de Leça do Balio viu, na RTP, a cara sorridente de Manuel, porta-voz da comissão de trabalhadores, manifestando a confiança nas negociações com o patronato e referindo-se à Europa com estranha ironia. O Chico do Café, de olhos muito vivos, recordou a quem o quis ouvir que aquele homem tinha a quem sair:
- O pai dele, na Fábrica de Conservas, foi preso por andar à pancada com o encarregado…
Mas esse foi também o dia em que, pela voz da Madalena, filha da falecida Adília, soube da doença súbita de Clara, durante uma aula de Francês. No Hospital, estava a directora de turma da pequena, que lhe deu conta do desmaio, da preocupação da Escola, da ambulância.
A insuficiência renal, disseram-lhe, tinha remédio, mas não se tratava de empresa fácil: era preciso um transplante. Toda a família mais chegada fez exames, à procura de órgãos compatíveis, mas em vão. O médico garantiu-lhe que a Clarinha estava nos primeiros lugares de uma lista nacional:
- Assim que haja um rim disponível, chamam-na, senhor Manuel.
O tempo, contudo, passava. Clara engordara muito devido aos medicamentos e, por indicação clínica, deixara de frequentar a Escola. Manuel trazia-lhe doces que ela agradecia sem comer; contava-lhe episódios do trabalho para a fazer rir; dizia-lhe que em breve o Hospital telefonaria (e, por dentro, sentia-se ridículo como o pobre Vieira de outrora).
A filha sofria muito com a febre e o seu juvenil estômago não suportava já os antipiréticos. Certa noite, muito cansado e sem fé, ele não pôde impedir que uma lágrima se misturasse ao chá de cidreira. Talvez fosse esta mistura a causadora de uma ideia tão improvável como aquela que Clara exprimiu, baixinho, no suor seguinte à infusão tomada:
- Será que a minha mãe não é compatível?

4.
Para um homem nascido em Leça do Balio, não é simples ir a vizinhos perguntar pormenores sobre a vida da mulher que fugiu de casa, ou geografias sobre o ex-amigo que a levou. Não é simples ir a um restaurante chique, num lugar distante como Alverca (perto de Lisboa), e pedir autorização a António para falar com Luísa. Não é simples ficar, por horas, à espera que a cabeleireira mais frequentada de Belém termine o seu dia de lucro e, enfim, se disponha a ouvir uma narrativa confusa de nefrologia e de desespero.
Mas foi essa, então, a biografia de um homem chamado Manuel, a quem ninguém jamais viu chorar ou lamentar-se. Na foz deste rio de peripécias, aconteceu que Luísa se dispôs a fazer análises e se descobriu que era dadora compatível.
O problema foi que António se opôs: temia consequências na saúde da companheira, problemas na delicada operação, talvez até uma perigosa reaproximação ao pai de Clara. Muito dividida, carregada de temores e de remorsos, a mulher pediu tempo para pensar.
Manuel, tão ocupado a pensar na filha, não teve sequer ânimo para insistir mais e voltou a casa, mais baço do que há doze anos.
Passaram meses. Numa quarta-feira de Março, que aniversariava aquela espécie de viuvez do pai, Clara ouviu o telefone e despertou do sono febril onde jazia. Manuel dormia, também, anestesiado em vinho. Foi a pequena a atender a chamada interurbana que termina esta história surpreendentemente feliz:
- Diz ao teu pai que pode contar comigo – afirmou, tremendo, uma voz de mulher.

FIM
[Ilustração-supra: Pintura de Pierre-Auguste Renoir (1841-1919)]