
A
metáfora, como eu a entendo, é a cósmica tentativa de articular a verdade com o
verbo humano. Radica numa espécie de consciência do défice da linguagem normal,
e na concomitante necessidade (urgência até) de criar modos de dizer o que,
existindo, não se explica facilmente, normalmente. Um dia, em viagem de
automóvel, à conversa com a minha filha, percebi isto muito bem.
Ela
tinha, então, quatro anos. Íamos buscar a minha mulher, que trabalhava a
quarenta quilómetros da nossa residência. Para entreter a monotonia das rectas,
eu ia falando, contando histórias, questionando-a. A miúda respondia com a
simplicidade (de modos e de vocabulário) que a sua pouca idade explica. A certa
altura, perguntei-lhe se gostava de mim.
Ela
respondeu: «Gosto.»
Perguntei-lhe
se também gostava da mãe. Ela disse: «Também.»
Levantei
a fasquia da dificuldade e perguntei-lhe se gostava mais da mãe ou do pai. A
miúda levou mais tempo a responder, mas desenrascou-se bem: «Gosto dos dois.»
Prossegui
a entrevista, complexificando a conversa, já talvez adivinhando a sua
desistência iminente: «Quanto é que gostas de mim?»
Ela,
cada vez mais embaraçada, foi ainda capaz de se exprimir: «Muito.»
Temi
pela minha filha, tão à beira de um esgotamento lexical, mas arrisquei ainda: «Muito,
quanto?»
Caiu
então um mui espaçado silêncio sobre a noite. A menina decerto sentia a
resposta, mas não havia (em seu pobre vocabulário de infante) palavras para
dizer o que inteiramente sentia.
E
nós passávamos enfim por Cantanhede, a caminho da vila de Febres, quando ela, interrompendo
silêncio e breu, apontou para o maior edifício à vista e exclamou: «Gosto de ti
aquela casa toda!»
Entendeis? A minha filha tinha descoberto a metáfora e oferecera-ma.
Ribeira de Pena, Fevereiro de 2010.
Joaquim Jorge Carvalho
[Este texto foi por mim revisto no dia 28 de Julho de 2015, aquando do envio de uma crónica para o jornal O Ribatejo, com o qual comecei a colaborar nesta data. O nome que escolhi para o meu espaço, neste jornal, foi "Zona de Perecíveis". Na origem desta nova imprudência está o meu Amigo Daniel Abrunheiro.]
1 comentário:
Gosto de ti aquela casa toda!
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