A paixão é uma dor bonita que se escreve
A dois, passo a passo, no silêncio da areia
No segredo das praias.
É bela consoante a música dos passos.
Dura o tempo de a maré não voltar
E é grandiosa e trágica porque é impossível
Adiar a última onda.
Na areia da praia os passos escrevem
O amor
E apagam-se e nunca voltam.
Quando não há passos desenhados, existem
Silêncios de passos antigos.
Quando não há passos, há memórias.
O poeta existe nos passos e na onda
Que apaga os passos.
No silêncio lembrando-se.
(Às vezes, na própria saudade de tudo).
Por isso o poeta é um sábio e um ingénuo -
Do amor o amante mais triste.
Coimbra, já 09 de Abril de 2010.
Joaquim Jorge Carvalho
[Trata-se de um poema do meu livro “Desapontamentos dos Dias” (Coimbra, Ed. A Mar Arte, 1995). Faz também parte da Antologia Poética “Memória da Palavra” (Coimbra, Ed. Secretaria de Estado da Cultura – Delegação Regional do Centro, 1995). Foto JJC.]
3 comentários:
"Do amor o amante mais triste". Lindo!
O valor de um verso é uma coisa algo química: tem a ver com a reacção provocada por elementos diversos (eu que escreve, eu do texto, eu que lê). A temperatura necessária à experiência é variável (suspeito até que se possa falar, em alguns casos, de fusão a frio).
Obrigado pela leitura, portanto, que trouxe - mais do que descobriu - valor ao verso destacado!
JJC
Sei disso por si e por outros excelentes professores que tive. Obviamente já conhecia este seu lindíssimo poema. Foi-me um dia oferecido o protótipo do livro onde saiu, lembra-se?
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