Bússola do Muito Mar

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Número de Ondas

sábado, 31 de agosto de 2013

Apografia 29: Heaney forever


Passei o dia em Buarcos, com a MP e a VL. Sol, mar maravilhoso (não obstante o friozinho da água, pois), o tempo suspenso como habitualmente acontece nestes instantes voadores, no dificultoso reino da felicidade.
Aí pelas seis da tarde, corri pela marginal – dois mil e duzentos metros até à subida que leva à Serra da Boa Viagem, e dois mil e duzentos metros no regresso ao ponto de partida. Foram cinquenta minutos de exercício com (digamos assim) o mar à cabeceira.
À noite, frango de churrasco com a família (incluindo a Mãe) e oportunidade para telever a segunda parte de um grande jogo, o Chelsea - Bayern de Munique. Rico serão, portanto.

Soube, no final deste dia 30, que morreu o grande poeta Seamus Heaney, autor que leio e admiro desde 1982. Foi, como se sabe, Prémio Nobel da Literatura, em 1995. Lembro-me muitas vezes de um verso seu, que ironicamente glosa uma discussão interminável que ainda ocupa boa parte da humanidade: a existência ou não de vida após a morte. Heaney punha assim o problema (cito de cor):

“Is there life before death?”

Os grandes poetas também morrem? Talvez sim…
E, contudo, no que me caiba a mim decidir, direi que não. Que nunca.

Coimbra, 29 de Agosto de 2013.
Joaquim Jorge Carvalho

[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.narrativemagazine.com.]

Apografia 28: Carrocel sazonal


Mais tarde do que habitualmente, faço o jogging choupalino em velocidade razoável. Começo às oito da noite, acabo às nove menos um quarto. Houve tempo para antes, falar com o meu amigo RC e combinar, sem certezas, um jogo de futebol para sete de Setembro.

O fim do Verão incomoda-me como uma ferida estúpida. Lembro-me do que sentia, em criança, quando terminava o tempo da minha viagem em carrinhos de choque, durante as festas da cidade. Saía do veículo como saio – percebo agora – do meu amado Agosto: contrariado, deficientemente resignado. Triste.

Coimbra, 29 de Agosto de 2013.
Joaquim Jorge Carvalho

[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.adapcede.org.]

quinta-feira, 29 de agosto de 2013

Apografia 27: Sucesso, dinheiro, poder


Dia prévio ao regresso da MP. Corro uma hora no costumeiro percurso choupalino, entre as seis e meia e as sete e meia do meu entardecer coimbrinha. Tenho tempo, enquanto suo, para mastigar uma curiosa afirmação do cantor (e actor) Will Smith, que li à hora do café, no Correio da Manhã. Deixo-a aqui:

“O dinheiro e o sucesso não mudam as pessoas. Apenas nos revelam quem realmente as pessoas são.”

Eu acrescentaria a estas duas variantes (dinheiro, sucesso) uma terceira: o poder. Amen.

Coimbra, 28 de Agosto de 2013.
Joaquim Jorge Carvalho

[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.pt.dreamstime.com.]

quarta-feira, 28 de agosto de 2013

Apografia 26: Despovoamento


Sete horas e meia da noite. Corro novamente a “volta grande” e a “volta pequena” do Choupal. Regresso pela Estação Velha, o Lidl, a rua dr. Manuel Almeida e Sousa. Chego às oito e meia. Ainda há calor. Verão & incêndios, diz a minha Mãe.
Do portão da casa materna, olhos voltados na direcção de Eiras, a paisagem é semelhante à que vi, numa qualquer tarde de 1973.

Vejo agora uma casa em ruínas, no cimo do monte, entre a estrada inferior e o Ingote. Lembro-me dessa casa quando ainda viva: gente entrando e saindo, crianças brincando na vegetação fronteira, uma senhora idosa saindo de um táxi, muito elegante e carregada de sacos, o carteiro com medo do cão.
O Tempo é um deus despovoador.

Coimbra, 27 de Agosto de 2013.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem (uma casa qualquer para ilustrar razoavelmente o meu texto) foi colhida, com a devida vénia, em http://www.wikipedia-org.]

Apografia 25: Cantiga precisa-se


Das sete e meia da noite às oito horas e vinte e quatro, fiz corrida non-stop no Choupal do costume. Durante esta viagem física e mental, ocorreu-me uma ideia para letra de fado coimbrinha. Concretizei o poema no dia seguinte, em Café da zona de Eiras. 


Suspira a bela, ao luar
Mal escondendo de quem passa
O pranto doce.
Custa-lhe não escutar
Cantigas dignas da graça
Que ela fosse.

Percebo bem a tristeza
Da frágil flor, suplicando
À janela.
É que precisa a Beleza
Que sempre se vá cantando
Que é bela!

Coimbra, 27 de Agosto de 2013.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.literatodovale.blogspot.pt.]

segunda-feira, 26 de agosto de 2013

Apografia 24: Mortalidade


Dói-me o ombro esquerdo e um tendão perto do tornozelo (também esquerdo).
Já fiz gelo, já apliquei uma pomada anti-inflamatória, já repousei. A sensação de dor permanece em mim, teimosamente. Hesito, hoje, em correr.
Mas custa-me interromper esta prova estival que me impus desde Julho. Decido-me, afinal, às seis e meia da tarde, por um treino mais  ligeiro: apenas vinte e cinco minutos entre o Choupal e o açude, em modo de resistência; regresso mais lento, em modo de “endurance”.

Soube que o meu tio T. está bastante doente, no hospital. A conversa, em casa da Mãe, estende-se tristemente para as temáticas da velhice e da doença. Ainda me doem ombro e perna. A minha Mãe sente-se cansada. Uma brisa fria parece anunciar o fim do meu amado Verão.
O Verão é bom. A vida também. Custa-me tanto que haja fim.

Coimbra, 25 de Agosto de 2013.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.olhares.sapo.pt.]

Apografia 23: Reportagem

Casa de partida (Mãe), Estação Velha, Choupal, hipódromo, regresso. Início da corrida às seis da tarde. Chegada às sete e meia. O exercício físico propriamente dito não ultrapassou os trinta e cinco minutos, mas a passagem pelo Choupal tomou-me mais tempo do que habitualmente. Explico-o.

Na vala que desvia (virtuosamente) a água do Mondego para os campos agrícolas, vi um cão grande e negro debatendo-se, nadando de forma desajeitada, lutando pela vida, não conseguindo subir até à margem. Pareceu-me uma tarefa quase impossível, aquela, porque o cimento que alberga a água é uma espécie de parede oblíqua, decerto impeditiva da aderência de mãos ou. No caso, patas. O cão desesperava. O dono, um rapaz de vinte e poucos anos, perseguia o animal, à velocidade da corrente. Um outro rapaz gritava pelo animal e pelo amigo, correndo também. Eu estava no lado contrário daquela margem e doía-me não poder ajudar.
O dono do cão conseguiu ganhar uns dez metros de vantagem e deitou-se sobre a vala, estendo as mãos enquanto aguardava a passagem do cão. O cão percebeu o socorro e aproximou-se do salvador. Por um instante julgámos que iria conseguir solucionar o problema. Afinal, o homem acabou por cair também.
Agora, cão e homem debatiam-se, levados pela feroz corrente. O amigo do dono tentou deitar-se e oferecer os pés como ponto de apoio. Ia caindo também. Transeuntes, cúmplices daquele desespero, tentavam ajudar. Todos corriam (todos corríamos) ao longo da vala, porque a corrente filha-da-puta nunca abrandava.
Um homem apareceu subitamente com um longo ramo que fora buscar à mata. Três homens seguraram o ramo que o dono do cão conseguiu dificultosamente alcançar, sempre com o cão junto a si, puxado pela coleira. A história acaba com abraços, o cão saracoteando-se e algumas lágrimas nascidas da emoção.
Limpei as minhas e segui o percurso habitual. A vida é um fertilíssimo palco de histórias más e histórias boas. Hoje, boa.

Coimbra, 24 de Agosto de 2013.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.fabiodutra.com.br.]

sábado, 24 de agosto de 2013

Apografia 22: Cansaço


Hoje, mais à noite, joga o Sporting. Antecipo, por isso, a corrida. Saio de casa às cinco, sob o sol ainda feroz deste Agosto que vai chegando ao fim. Por cerca de uma hora, aguento o suor e, mais para o final, a sede. Entre o açude e o Choupal, escutei o coro misterioso de mil pássaros, em suas casas vegetais. Aqui e ali, entre as ervas e os arbustos do caminho, há animais que, ouvindo os meus passos, mudam rapidamente de lugar. Talvez ratos, ou lagartixas, cobras, cães, gatos. A sudação atrai a nuvem habitual das moscas, dos mosquitos, das melgas. Somos uma multidão naquele percurso corredor.
Canso-me? Sim, mas não me aborreço por estar cansado. A minha fadiga, no Verão, é dolente e pacífica. E os meus passos, mesmo lentos, parecem-me sempre seguros e certos.

Coimbra, 23 de Agosto de 2013.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.dm.dei.uc.pt.]

Apografia 21: Verão (tão) breve


Sete horas da noite: corro a “volta grande” do Choupal (vai-se até ao hipódromo volta-se) e a “volta pequena” (estende-se o exercício até ao açude e regressa-se). Cinquenta minutos, uma vez mais, ao ritmo muito digno dos meus cinquenta aninhos – reparai, amigos, no nome que hoje assina esta apografia…

Temo que se esteja a esgotar o meu amado Agosto – isto é, Coimbra, o tempo fingindo-se parado, a minha Mãe perto, as saudáveis corridas ao fim da tarde, estas tão lindas horas livres e solares do Presente.
Entendo o Verão como um beijo sazonal de Deus.

Coimbra, 22 de Agosto de 2013.
Jogging Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.bairrodaboavista-lisboa.blogspot.com.]


quinta-feira, 22 de agosto de 2013

Apografia 20: Final de Verão


Entre as sete e as oito da noite, fiz novamente a "volta grande" e a "volta pequena" do Choupal. Cinquenta e cinco minutos bem corridos, com uma frescura que me surpreendeu e entusiasmou.
Recebi, entretanto, recados da minha Escola: um documento para eu enviar, alguns esclarecimentos - e, embrulhadas na circunstância, algumas notícias trágicas: a iminente fatalidade de recomeçar o trabalho, de deixar Coimbra, de retomar a rotina sobrevivente que me vai pagando a luz, a água, a comida, o gasóleo, a casa. "Dá-te por satisfeito", avisam-me, avisadamente, alguns familiares. (E eu, egoísta, não me dou por satusfeito...)

Vi homens, à Praça da República, cortando a folhagem das árvores, preparando a cidade para o Outono. No chão, sujeitas à tímida baforada do vento, as decepadas folhas tremiam - como se chorassem por serem dispensadas. Acumulavam-se no chão, sem seventia, desesperadas como funcionários públicos às mãos do FMI.
Eu senti pena das folhas.
Senti também pena dos troncos, condenados à nudez sazonal que lhes há-de parecer para sempre.
E senti pena de mim, pedaço metonímico de raça humana que, estrebuchando embora, não consegue parar o cabrão do Tempo!

Coimbra, 21 de Agosto de 2013.
Joaquim Jorge Crvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.claudioantunesboucinha.wordpress.com.]

quarta-feira, 21 de agosto de 2013

Apografia 19: Sextilha com muito ar na rima

Novamente a Tocha, praia formosa e asseada como poucas. Lembra-me (muito, muito) a praia de Mira da minha infância e adolescência, sobretudo porque há aqui também barcos desafiando as ondas, e depois a ansiosa expectativa que precede o regresso das redes.
 Hoje, li o jornal e alguns capítulos de Stanley Gardner, dormitei, molhei-me avulsamente no mar, observei o mundo alegre à volta, saudei aquele Mar que metonimicamente amo há cinquenta anos.
À tardinha, aí pelas sete horas, cumpri no Choupal uma hora e cinco minutos (corrida pontuada por quatro pausas para caminhar e normalizar o fôlego).
Ficou-me da incursão à praia da Tocha uma sextilha ortografada num cantinho do jornal. Aqui a deixo:

Barquinho do meu lembrar
Sai de Mira para o Mar -
Não sei bem se vai pescar
Ou apenas passear
Barquinho do meu lembrar
Vai de mim até ao Mar.


Praia da Tocha, 20 de Agosto de 2013.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.cm-cantanhede.pt.]

terça-feira, 20 de agosto de 2013

Apografia 18: Silêncio


Dia muito quente em Coimbra. Corrida pelas seis e meia da tarde, no Choupal. Fiz a “volta grande” e a “volta pequena”, quase seguidas. Uma hora e cinco minutos de suor honesto. É um consolo quando, a meio do percurso, a ramagem de mil árvores nos protege do sol. Igualmente gratificante é esta suspensão do ruído que, por instantes, percebo e invariavelmente me agrada. Creio que o corredor solitário é, por natureza, um experimentador de limites.

Penso: o pior da solidão é talvez o silêncio. Mas o melhor da solidão é também o silêncio. Há, portanto, um silêncio bom e um silêncio mau.
Eu preciso regularmente do meu silêncio bom – umas vezes para pensar, outras vezes (diabo de paradoxo!) para não pensar.


Coimbra, 19 de Agosto de 2013.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.reocities.com.]

segunda-feira, 19 de agosto de 2013

Apografia 17: Defeitos essenciais


Hoje, Domingo, foi dia de S. Futebol. Jogava o Sporting, o Benfica, o Porto, o Barcelona e o Real Madrid. Necessitei da tarde inteira para, no Centro Comercial Fórum Coimbra, me dedicar ao delicioso ofício de espectador da bola. Ora, para isso, antecipei o meu treino diário e, pelas onze da manhã, estava já no Choupal para a “volta grande”. Tarefa (penosa) para trinta e cinco minutos.

Ando a reler romances policiais (há, na minha biblioteca doméstica, três inteiras prateleiras com exemplares do género). O mais revisitado tem sido o senhor Erle Stanley Gardner. Tenho na cabeça, em particular, uma personagem que odeia de morte um ex-amigo por este o ter traído num negócio. Reflicto.
Há muitas formas de ódio, nem todas estimáveis. Mas pior que muitos ódios é, de facto, a deslealdade e, já agora, a ingratidão. A gente finge que se esquece, mas não se esquece. Nunca se esquece.


Coimbra, 18 de Agosto de 2013.
Joaquim Jorge Carvalho

[A imagem (com os intérpretes das personagens Perry Mason e Della Street) foi colhida, com a devida vénia, em http://www.dvdtalk.com.]

domingo, 18 de agosto de 2013

Apografia 16: Espécie de casa


Encontrei o meu amigo R.C. e, como fazíamos antigamente (há duas barrigas a esta parte), combinámos correr juntos. Entre as dezanove e trinta e as vinte e trinta, fizemos a “volta grande” do Choupal, com espaço para alongamentos no parque de jogos. Pusemos a conversa em dia, rimo-nos da comum gordura, prometemo-nos um copo para breve.
Estar com um amigo verdadeiro é como estar em casa.


Coimbra, 17 de Agosto de 2013.
Joaquim Jorge Carvalho

[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.magrysaudavel.wordpress.com.]

sábado, 17 de agosto de 2013

Apografia 15: Beleza formigável


A minha vida, hoje, passou pela bela praia da Tocha. Céu limpo, mar infinito, uma leve brisa temperando os excessos de sol. Tempo para ver quase duas centenas de gaivotas (a contabilidade é, garanto, razoavelmente segura) viajando, balético-vertiginosas, de norte para o centro da praia, à cata de peixe recém-chegado nas redes.
Regressei a Coimbra por volta das seis da tarde. Às sete e vinte comecei o meu exercício diário: corrida da rua dr. Manuel Almeida e Sousa até à ponte do açude, entrada no percurso do Choupal, continuação até ao hipódromo, regresso pela zona do canil municipal, pausa para alongamentos (observando, de viés, centenas de formigas em filas operárias, num conhecido turno estival), e nova corrida até ao ponto inicial. Quase uma hora de honesto suor.

Ideia para conto: um dia de trabalho de laboriosas formigas. Uma carreirinha segue no sentido de um gafanhoto acabado de morrer. Outra carreirinha regressa, carregando víveres, ao formigueiro. A fila que se dirige àquele gafanhoto devindo comida parece subitamente desorientada: algures no caminho, certa formiga estacou, saiu do alinhamento, estabelecendo grande confusão e, minutos depois, o caos. Uma formiga chefe descobre a causadora da interrupção da rotina e da eficiência. Pergunta-lhe:
- Camarada número 1504, por que diabo de razão saíste da fila?
A interpelada responde, sem tirar os olhos do horizonte:
- Ali ao fundo… veja… há uma espécie de bola de luz caindo sobre o rio…
- E achas isso mais importante do que o nosso trabalho?
- Não sei. Mas é bonito.
A formiga chefe irrita-se:
- Camarada 1504, não sabes que é rigorosamente proibido sair da fila?
A formiga prevaricadora retorque, suspirando, como se chorasse:
- Se eu não saísse da fila, não veria bem isto que lhe mostrei…


Coimbra, 16 de Agosto de 2013.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.molelos.no.sapo.pt.]


sexta-feira, 16 de agosto de 2013

Apografia 14: Ainda


A V. foi para o Algarve, com o namorado. Solidariamente, levantei-me pelas sete da manhã e despedi-me com a preocupação do costume. Duas horas e meia depois, andava por Coimbra com a F. e a Mãe, cumprindo tarefas domésticas meticulosamente agendadas no dia anterior. Notaram ambas que estava com cara de poucos amigos. Explico-lhes que é do sono. Ao almoço, em vez do frango de churrasco, preferi melão e sumo. A meio do noticiário, adormeci profundamente.
Ressuscitei pelas sete da noite, comi um pão com fiambre e bebi um café, e fui até ao Choupal correr cerca de quarenta minutos.
Durante os alongamentos, naquela ponte que dá acesso ao percurso pedonal, encontrei amigos de há vinte anos. Reconhecemo-nos com desigual competência (eu decoro rostos, olhares, tiques, vozes, modos de falar - mas tendo a olvidar nomes, o que é sempre embaraçoso). A conversa escorre alegremente: comparamos barrigas (o A., generoso, diz que eu estou na mesma), informamo-nos sobre a descendência que entretanto gerámos, enunciamos óbitos conhecidos, rimo-nos com episódios da nossa pré-história. Depois, despedimo-nos, sem a certeza de nos voltarmos a ver.
A crise também pairou por ali. O L. está desempregado há algum tempo e o subsídio acaba no final de Setembro. A mulher não trabalha, os filhos (bons alunos) estão na universidade. Apesar de tudo, aquele meu amigo esteve sempre jovial durante a conversa. Foi ele que me perguntou, assim que apareci:
- Ainda estás vivo, ó Quim Jorge?
Eu disse:
-Ainda.
Na nova gramática, “ainda” é um advérbio de predicado.
Por uma vez, a nova terminologia linguística faz algum sentido.


Coimbra, 15 de Agosto de 2013.
Joaquim Jorge Carvalho

[A imagem (representando Tom Sawyer e amigos) foi colhida, com a devida vénia, em http://www.journalofseeing.wordpress.com.]

quinta-feira, 15 de agosto de 2013

Apografia 13: Falta


Saio, correndo, da rua de S. Miguel, aí pelas sete e meia da noite. Passo a Nissan, a Escola Secundária D. Dinis, a Makro, o Diário de Coimbra. Paro junto à placa que diz “Eiras” e faço alongamentos. Regresso logo a seguir, mas mais lentamente, porque está muito calor, demasiado calor, e porque me doem joelhos e músculos. Em casa, faço abdominais, suando exageradamente. Longos cinquenta minutos é o tempo desta prática desportivo-masoquista.
Estendo agora a toalha velha sobre uma cadeira e vejo a primeira parte do Portugal-Holanda. O banho virá depois, como um prémio. No intervalo do jogo, enquanto subo as escadas, ouço certo locutor falar da ténue recuperação da economia. Não quero saber disso. Uma neura com cara de Kierkegaard anda-me pelo cérebro desde manhã.

Na contabilidade do amor, as saudades são uma espécie de IVA. Leia-se: Imposto de Valor Acorrentado.


Coimbra, 14 de Agosto de 2013.

Joaquim Jorge Carvalho

terça-feira, 13 de agosto de 2013

Apografia 12: Sobre o habitat (re-visões)


Percurso mais ou menos habitual deste meu Agosto atlético: Rua dr. Manuel Almeida e Sousa, Estação Velha, Fernão de Magalhães, Choupal, e regresso pela estrada de Eiras (com subida, ao Lidl, de primeiríssima categoria). Alongamentos e abdominais no pátio da casa materna, já pelas nove da noite. No total, um generoso suor com a idade de cinquenta minutos.
Observo a cidade, a cidade observa-me.

Em Coimbra, toda a paisagem me parece, mais do que familiar, lógica. A geografia natal permanece em mim, apesar das descoincidências biográficas, apesar da distância, apesar das velhices que fui conhecendo. Edifícios, caminhos, entradas e saídas, proeminências geodésicas, avenidas, ruas, pontes, esquinas, travessas, cúpulas de igreja, universidade, Cafés, fontanários, Eiras, a Estação Velha, a Pedrulha, o Loreto, o Casal Ferrão, luzes e sombras – tudo se afigura formoso, pertinente e certo.
A minha cidade é esta: o seu regaço tem a força e a graça de uma Mãe. Coimbra, sim: uma Mãe com árvores, rio e o tempo todo.


Coimbra, 13 de Agosto de 2013.
Joaquim Jorge Carvalho

segunda-feira, 12 de agosto de 2013

Apografia 11: Apontamentos com esperança


Percurso de hoje: saio da rua de S. Miguel pelas sete da noite, passo o bairro do Brinca, a Estação Velha, o açude, até chegar ao Estádio Universitário. Aí, faço alguns alongamentos e, já cansado, regresso ao ponto de partida. Uma hora de exercício, pelo menos.
Ocorreu-me, correndo, a ideia de a esperança ser consubstancial ao verbo caminhar (e de caminhar ser, nesta mesma esfera semântica, o infinitivo viver). Vejamos.

A caminhada é também feita de pedras, que mordem os pés, e de rochedos difíceis de escalar.
Às vezes, o caminhante encontra cursos de água que impedem a passagem para a outra margem.
A própria distância, se for grande, tende a prejudicar a respiração e o ânimo.
Pode acontecer, contudo, que a teimosa repetição dos passos vá fazendo das pedras areia, e que nas rochas se vão esculpindo degraus adequados e cómodos.
Pode acontecer que nos cursos de água se mate a sede e que entre as margens se construam pontes.
Pode acontecer que, ao lutar com a distância, se fortaleça a respiração do caminhante, e que nele se reforce e refine a amável persistência.
Embora sofrendo, caminha-se.
Caminho.

Coimbra, 12 de Agosto de 2013.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.claretianos.pt.]

Apografia 10: Mãe, sempre


Por causa do Sporting-Fiorentina, corri apenas trinta e cinco minutos, non-stop, da rua de S. Miguel ao “Diário de Coimbra”, e vice-versa. Pude, ainda antes do banho, ver a primeira parte em casa (grande golo do Montero!) e depois vi o resto da nossa vitória no magno lar de minha mãe, com a V.L. ao lado.
Doíam, de novo, as costas à minha mãe. Para aquela mulher se queixar, algo de sério se passa. Custa-me saber que ela sofre tanto com o mal do Tempo: coluna, articulações, sistema respiratório.
Revi há dias uma sua fotografia de 1970, num cartão da segurança social. Conheço muito bem aquele rosto, porque me lembro de o ver nos dias lindos da minha e sua imortalidade, e porque ainda me acontece vê-la exactamente assim (se eu entrefechar os olhos), jovem e saudável como aparece naquela fotografia.
A razão ensina-nos a dividir a vida em passado, presente e futuro. Já o coração é só presente – e esse presente é a vida toda. Às vezes, aleluia, parece até que viver é esta coisa linda que nunca acaba.

Coimbra, 11 de Agosto de 2013.

Joaquim Jorge Carvalho

domingo, 11 de agosto de 2013

Apografia 9: Adeus a Urbano Tavares Rodrigues


Em casa, fiz os costumeiros exercícios abdominais. Depois, ainda não eram oito e um quarto da noite, fui em corrida até Eiras e voltei. Por trinta e cinco minutos fiz de conta que não estava cansado.
Já em casa, pingando suor, reouço a notícia da morte de Urbano Tavares Rodrigues. Considero-o um bom e honesto escritor. )Nota folclórica: Há alguns anos, fez parte do júri do Concurso Literário de Conto da CGTP, de que fui orgulhosíssimo vencedor. Não esteve na cerimónia de entrega de prémios – já - por motivos de saúde, o que me impossibilitou de o conhecer pessoalmente.)
Pude ler hoje, no jornal do Café (Correio da Manhã), um trecho –muito, muito lindo - do prefácio que o escritor escreveu para Nenhuma Vida, obra ainda inédita, a publicar futuramente pela Dom Quixote. Partilho-o aqui convosco:

Daqui me vou despedindo pouco a pouco, lutando com a minha angústia e vencendo-a, dizendo adeus à agua fresca do mar e dos rios onde nadei, ao perfume das flores e das crianças, e à beleza das mulheres.

Em contraponto, deliberadamente ignoro o cinismo e a hipocrisia de alguns que, para jornal ver, debitaram admirações ocas e falsas sobre o homem e a obra. Questão de higiene, sobretudo.



Coimbra, 09 de Agosto de 2013.
Joaquim Jorge Carvalho

[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.terraalentejana.blogspot.com.]

sábado, 10 de agosto de 2013

Apografia 8: O tamanho do mundo


Corri cinquenta minutos sem parar, não contando com aqueles segundos a cumprimentar o amigo Januário, que bicicletava na margem do Choupal.
Corri mais rapidamente, hoje, do que tem sido costume. Senti-me forte, talvez capaz de mais cinquenta minutos.
Às oito e meia da noite, passei pela casa da minha mãe e, enquanto fazia alongamentos, pus-me a olhar para o pomar que há nas traseiras do prédio. Na minha cabeça, tratava-se de um território enorme, onde joguei à bola, comi figos, fui índio e cobói, contei e ouvi segredos, cacei lagartixas – um mundo!
Mas vejo, agora, apenas um acanhado espaço, entalado entre o prédio vizinho e o moderno Lidl que está, aliás, no lugar onde era a minha escola primária.
De modo que, concluo, o mundo diminui com a idade. (A literatura, vá lá, é uma compensação.)

Coimbra, 09 de Agosto de 2013.
Joaquim Jorge Carvalho

[A imagem (consensual monumento do kitsch) foi colhida, com a devida vénia, em http://www.riscadoagiz.blogspot.com.]

quinta-feira, 8 de agosto de 2013

Apografia 7: Constelação da saudade



Para o meu pai
e
para o Mestre João.

É impossível viver sem um mínimo de céu para onde olhar. E poderia parecer, às vezes, que o céu desapareceu, se não houvesse lua ou estrelas que no-lo deixassem ver.
O valor da estrelas é óbvio. Em primeiro lugar, porque nos obrigam a olhar para cima e o simples gesto de as contemplar é já uma libertação da condição rasteira de homens tristes. Depois, porque as estrelas, além de belas, são fisicamente necessárias, por iluminarem e orientarem quem, da terra, as estima.
Ora, há pessoas que passam pela nossa vida como estrelas. Pessoas que, mesmo já não estando, continuam a estar. Memórias de luz que são ainda a luz.

Coimbra, 08 de Agosto de 2013.
Joaquim Jorge Carvalho

[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.gaticha.blog.sapo.pt.]

Apografia 6: Santo da casa


Saí da rua de S. Miguel e corri, a razoável ritmo, até à placa que diz Eiras. Fiz alongamentos junto a uma loja chinesa, sob os protestos de um cão que, a cerca de cinquenta metros, felizmente amarrado a uma trela, ladrava e uivava o seu desprezo e a sua raiva face a humanos dados ao desporto. Eu vivia já, então, a alegria de uma história com final feliz que, por muitas horas, me parecera narrativa para acabar mal. Aqui fica o relato.

Desde a tarde de ontem que eu não sabia da minha carteira. Tinha lá algum dinheiro, cartões de débito e de crédito, cartão de cidadão, cartão de contribuinte, carta de condução - e dois ou três versos em estado de barro bruto (à espera de oleiro paciente que lhes desse forma). Vasculhei o meu carro, a minha casa, a casa de minha mãe. Fui a Cafés próximos, à estação de serviço habitual, à padaria da rua. Telefonei à polícia. Contactei até a um banco para saber de eventuais movimentos feitos por eventual ladroagem. Nada. Nada de nada. A carteira não aparecia.
A minha mãe endereçou a S. Gonçalo de Vila Nova uma reza que – garante – trata destes casos. Enquanto tal, eu repetia, sem cessar, a minha própria busca, cada vez com menos esperança: sob mesas, cadeiras, sofás, armários; no interior mais recôndito de todas as gavetas; nos quartos, no escritório, na despensa, na casa-de-banho. Subi e desci escadas como um Sísifo em modo automático.
Até que, dentro de uma maleta da M.P., encontrei uma fotografia do meu sogro, o Mestre João, madeirense falecido a 30 de Julho de 2010 e que foi, talvez, a mais sábia e mais justa das criaturas que já conheci. Lembrei-me do que, há anos, a V.L. nos confidenciara: que a memória do seu querido avô João (meu sogro), esse optimista alegre como um santo pós modernista, tinha poderes. E que fiz eu? Olhei para o rosto sereno da fotografia e murmurei: “Ajude-me, senhor João.”
A seguir, desci novamente as escadas e detive-me junto do aparador que fica no hall de entrada. Já me acontecera colocar a carteira sobre certos copos de cristal que aí esperam, em vão, por uso. Espreitei. Uma vez mais, não vislumbrei nem sinal do objecto perdido. Contudo, em lugar de desistir de olhar, optei por retirar, um a um, todos os copos da frente. Caída, no magro intervalo que havia entre a primeira e a segunda fila, lá encontrei a carteira.
Aliviado como passarinho que, in extremis, escapasse a um poço mortal, soltei uma expressão muito característica do Mestre João: “Basta que sim!”
E depois, claro, ainda lhe disse: “Obrigado.”

Coimbra, 07 de Agosto de 2013.

Joaquim Jorge Carvalho

terça-feira, 6 de agosto de 2013

Apografia 5: Casa de partida


Durante cinquenta e cinco minutos, fiz o que na tropa se designava por “mar-cor” (marcha e corrida). A casa de partida foi a casa da minha mãe, aí pelas oito horas da noite. (Nota: nunca me soou tão bem a expressão “casa de partida”). Andei pela baixa, cruzei-me com indígenas e turistas correndo também, atravessei a ponte, tornei à Estação Velha pelo Choupal.
Por alguns segundos, no caminho de regresso à casa de partida, atravesso um túnel – e sobre mim, nos exactos instantes da penumbra durante, um comboio passa fragorosamente, rumo à Figueira da Foz.
Aquele barulho ferroviário incomoda-me. Mas invejo-lhe a força e o destino. Boa parte da minha biografia tem sido assim.

Coimbra, 06 de Agosto de 2013.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida situação, em http://www.panoramio.com.]

Apografia 4: Coisas sobre caminho e caminhar



Corri apenas meia hora (Casal Ferrão, açude, Fernão de Magalhães). O corpo pediu-me, hoje, alguma clemência. Atendi-o.
Sou revisitado, após o banho, pelo espanhol António Machado e pela nossa Sophia. Esta (cito de cor) fala de navegadores que “navegavam sem o mapa / que faziam”. Aquele lembrava ao “caminero” que, em boa verdade, “no hay camino”, porque “el camino se hace andando”.
Aproveito estes motes preciosos e gloso-os – isto é, caminho com eles, caminho sobre eles.
O caminho começa no lugar em que se inicia a caminhada.
O caminho termina no lugar em que cessam os passos caminhantes. Contudo, o caminho também é feito de pausas, porque as pernas, o coração e o cérebro precisam, aqui e ali, de descansar.
O caminho é sempre mais curto do que o caminhante interiormente teme ou deseja.
O caminho é feito de muita terra. De subidas, descidas, planícies, pântanos, pedras, pomares, desertos. E de pontes e estradas. E de água e ar.
O caminho é a vida das gentes entre quase nada e alguma coisa.

Coimbra, 05 de Agosto de 2013.
Joaquim Jorge Carvalho

segunda-feira, 5 de agosto de 2013

Apografia 3: O valor do Presente

Vinte horas e dois minutos. Saio da rua de S. Miguel, passo pelo bairro do Brinca, a Estação Velha, a avenida Fernão de Magalhães, o largo da Portagem, a ponte de Santa Clara, o Estádio Municipal. Uma pausa para alongamentos, olhos sobranceiros ao Mondego (muito cheio, hoje). Retomo a corrida, à beira-rio e só paro, por minutos na rua Manuel Almeida e Sousa, para rápida visita à Mãe. Já em casa, entro no chuveiro mais de uma hora depois de iniciado o exercício.
Durante os alongamentos, pensei no fascismo que, muitas vezes, há nessa autoridade do Passado e do Futuro. Isto é, no respeitinho que temos pela tradição e pelos vindouros. Não descreio da necessidade (afectiva e civilizacional) de ter em conta a história o mundo, ou de pensar nas consequências dos nossos actos para os habitantes da Terra no próximo século. Mas tendo a estrebuchar um pouco quando sinto que, em nome do ocorrido ou do a ocorrer, me empurram para uma espécie de miséria ou culpa, sem demais alternativas. Mas o Presente também tem direitos. Também tem de ter direitos. Será isto um – digamos – egoísmo contemporâneo?
O que é o Tempo, afinal, se o segmentarmos convencionalmente? Vejamos…
O Passado são os pais dos meus avós. Aliás: os avós de todos os pretéritos avós.
O Futuro são os netos dos nossos netos. Aliás: os netos de todos os nossos netos.
O Presente é o que resta: nós, os nossos avós, os nossos pais, os nossos filhos, os nossos netos.
De modo que: o Presente não é tudo, claro, mas eu exijo mais respeitinho pelo Presente que é quase tudo quanto tenho.

PS: Ortega Y Gasset, para explicar (lapidarmente) a importância do contexto histórico, inventou a expressão “o homem e a sua circunstância”. Julgo que esta expressão, se se visse ao espelho, veria algo como “o Tempo e a sua (muita ou pouca) humanidade”.

Coimbra, 04 de Agosto (parabéns, Nelo!), de 2013.
Joaquim Jorge Carvalho

domingo, 4 de agosto de 2013

Apografia 2: Utilidade das árvores maiores

Dezanove horas e vinte minutos. Sigo, correndo, da ponte do Açude, até à zona do hipódromo, Choupal adentro, regressando pela margem esquerda, sempre à beira-rio. Faço alongamentos e abdominais, na companhia de teimosas moscas que salivam pelo meu suor ou, talvez, pelo gel que me escorre generosamente das patilhas. Chego ao carro pelas vinte horas e dez minutos. Cinquenta minutos, não mais, de exercício. Sinto, por essa altura, um estranho cansaço que me apanha pernas, braços e pescoço.
O meu olhar corrente deteve-se sobretudo na vegetação choupalina, de dimensões evidentemente diversas e contíguas entre si: canas, arbustos, árvores grandes. Resisto à hierarquização da importância. Arbustos, canas, árvores mais pequenas, árvores maiores – tudo faz parte do todo.
Mas, confesso eu, dá-me muito jeito que existam, na paisagem da minha corrida, árvores que se destaquem, que me ajudem a perceber onde estou, até onde posso ir. É assim, julgo, também com a espécie humana. Não há problema em sermos canas, arbustos, árvores pequeninas, se formos dignos dessa condição, isto é, se essa for mesmo a máxima condição a que podemos – naturalmente, legitimamente -  aspirar. (Por mim, sempre gostei do aconchego da áurea mediocritas.)
Não obstante, necessitamos, em todas as épocas, de gente que, como as árvores grandes, nos expliquem a diferença entre a preguiça residente e as possibilidades de viagem por nós acima. Marcas geodésicas, direi, entre o chão e o céu.

Coimbra, 03 de Agosto de 2013.
Joaquim Jorge Carvalho

sexta-feira, 2 de agosto de 2013

Apografia 1: Beleza & olhar

Inauguro neste blogue uma nova modalidade de texto, que cruzará dados objectivos sobre a minha actividade físico-desportiva com pequenas observações. Devaneios, filosofias, desabafos, construções na areia da linguagem. Decidi que estes muito curtos textos terão o nome (etiqueta) de “Apografias”. Porque sim.

Apografia 1

Hoje, dia 02 de Agosto, pelas 19h30m, fui do número 90 da rua da minha infância, ali ao Casal Ferrão, até ao Estádio Universitário, passando pela avenida Fernão de Magalhães, a Portagem, a ponte de Santa Clara – e regressando, lavado de grosso suor, pela ponte do Açude, a Estação Velha e o Lidl. Cerca de uma hora e dez minutos de corrida lenta. Entre o Estádio Universitário e a ponte do Açude, ocorreu-me isto:

“A beleza é. O nosso olhar está. A vida da beleza é estar à espera de um olhar digno de si. A missão do olhar é andar à procura da beleza. A beleza é, por natureza, uma ideia eterna e singular. O olhar é plural – é feito de muitos olhares. Um olhar encontra a beleza como um homem encontra uma mulher bonita: com persistência, paciência, competência, concentração e sorte. (Às vezes, apenas com sorte.) Com o aperfeiçoamento do exercício olhador, um olhar pode tornar-se belo. A poética é, de certa forma, um olhar que subiu de estar a ser.”

Coimbra, 02 de Agosto de 2013.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.olhares.sapo.pt.]

quinta-feira, 1 de agosto de 2013

Uma história para homens sem juízo


Comprei, em saldos, um livrinho de Jacques Prévert publicado originalmente em 1963 (ano do meu nascimento) e que a Teorema em boa hora decidiu recuperar. Chama-se Histórias para meninos sem juízo (tradução para Português de Pedro Tamen). Recorrendo ao universo da fábula, o autor fala – sobretudo – da sociedade dos homens.
Houve um excerto que me impressionou particularmente e que ecoa qualquer coisa do Animal Farm, de Orewll. Relatando a exploração a que os cavalos eram submetidos pelos homens, o narrador dá conta da iminente revolta equídea e diz (páginas 62-67):
«Então, todos os outros pobres cavalos começarão a compreender e irão todos juntos falar-lhes grosso. // Os cavalos: “Meus senhores, está bem que puxemos os vossos carros e as vossas charruas, que façamos as vossas corridas e todo o trabalho, mas hão-de reconhecer que é um serviço que lhes prestamos e vocês têm que retribuir; muitas vezes comem-nos depois de mortos, e não temos nada a dizer quanto a isso, já que gostam: é como com o pequeno-almoço da manhã, há os que tomam aveia com café no leito, outros aveia com chocolate, cada um tem os seus gostos; mas também muitas vezes nos batem, e isso não deve tornar a acontecer.” // “Além disto, queremos aveia todos os dias, água fresca todos os dias, e também férias, e que nos respeitem – somos cavalos, não somos bois.” // “Ao primeiro que nos bater, mordemos-lhe.” // “O segundo que nos bater matamo-lo, e pronto.” // E os homens irão compreender que foram um pouco longe de mais e hão-de tornar-se mais cordatos. // O cavalo ri-se ao pensar em todas estas coisas que de certeza hão-de acontecer um dia. // Apetece-lhe cantar, mas está sozinho e só gosta de cantar em coro; então, mesmo assim, grita: “Viva a liberdade!” // Em outras ilhas, outros cavalos ouvem-nos e gritam por sua vez com todas as forças: “Viva a liberdade!” // Todos os homens das ilhas e os do continente ouvem estes gritos e perguntam a si mesmos que será, mas depois tranquilizam-se e dizem encolhendo os ombros: // “Não é nada, são cavalos.” // Mas mal sabem eles o que os cavalos lhes preparam.»

Fiquei a relinchar para os meus botões: Que tem isto a ver comigo? Connosco?

Coimbra, 30 de Julho de 2013.

Joaquim Jorge Carvalho