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terça-feira, 4 de maio de 2010

Naufrágio d'Ilha



É notícia de primeira página no JN: a ribeirapenense Ilha dos Amores, cunhada e celebrada por Camilo (à boleia de Camões) vai desaparecer devido à construção de uma barragem.
Razões literárias e outras – como a questão dos terrenos expropriados, a mágoa pelo fim de uma paisagem afectiva, etc. – compareceram já, numa espécie de avesso da notícia.
Já no século XIX, para não irmos mais longe, a fúria empreendedora de Fontes Pereira de Melo foi mal recebida por muitos portugueses: a construção de estradas de macadame e a expansão da linha férrea sacrificaram campos de cultivo, residências antigas, vilas e aldeias, jardins, pomares, recantos naturais cheios de tradição. O progresso, ainda que bem intencionado, nem sempre é compreendido, e não deixa de ser verdade que, muitas vezes, estraga mais do que beneficia.
Lembro-me de ouvir, em Coimbra, um septuagenário pintor, de conversa fácil e interessante, falar (com admiração verdadeira) sobre as ruas estreitinhas da baixa. Àquele homem, nascido na cordura antiga e familiar da Rua da Moeda, da Rua dos Sapateiros, da Rua das Padeiras, da Rua Direita, do Bota-Abaixo, etc., doía a possibilidade de um dia se destruir um património simultaneamente coimbrinha e pessoal, seu.
A ouvi-lo estava também o C., filho de um bombeiro, que sensatamente nos recordou a dificuldade que, em caso de incêndio, os soldados da paz sentiriam para combater as chamas.
- Aquilo é um perigo – avisou. – Nem um carro de bombeiros passa por ali.
De modo que, em relação à submersão da Ilha dos Amores, convenhamos: há sempre dois ângulos, pelo menos, por onde analisar a questão. Todas as épocas são palco desta tensão entre presente (relicário do passado) e futuro (presente a haver).
O ideal seria que o progresso se fizesse numa comunhão bonita de passado e presente. Marguerite Yourcenar, pela boca de Adriano (em Memórias de Adriano) defende que “construir é colaborar com a terra”. Mas a ideia, embora formosa, implica um nem sempre possível equilibrismo.
O futuro dirá se vale(u) a pena a barragem e o seu preço . De qualquer modo, importa lembrar que, ao contrário daquela porção de terra em vias de extinção, a memória (a do coração das gentes e a documental) não é facilmente submergível – e ainda bem!


Ribeira de Pena, já 04 de Maio de 2010.
Joaquim Jorge Carvalho
[As fotos-supra foram colhidas, com a devida vénia, em http://www.cm-rpena.pt.]

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