Bússola do Muito Mar

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Número de Ondas

segunda-feira, 30 de abril de 2012

Teatro da utopia linda

Apresento hoje à noite, no Auditório Municipal de Ribeira de Pena, a peça "A Noite de 24 de Abril". O projecto começou num convite, ainda durante o primeiro período lectivo, da Biblioteca Municipal de Ribeira de Pena, tendo-se desenvolvido, a partir de Fevereiro, com ensaios regulares.
Contei desde cedo com uma querida equipa de actores, constituída por jovens estudantes ribeirapenenses do terceiro ciclo (a maioria dos quais frequenta o 7.º e o 8.º ano de escolaridade). Tive ainda a preciosa colaboração de uma professora já reformada da profissão (mas não da docência), Gabriela Alves.
A preparação de um espectáculo de teatro tem muito de utopia, porque trabalhamos para um ideal de equilíbrio, beleza e perfeição que, como se sabe, não existe - mas que, enquanto ideia (meta), nos guia e nos exige a permanente busca do máximo de nós. Não por acaso, dedico o espectáculo ao herói Salgueiro Maia.
Quisemos celebrar, com esta peça, o segundo aniversário da biblioteca e, simultaneamente, o 38.º aniversário do 25 de Abril. Visto o fenómeno através dos meus olhos, uma coisa tem que ver com a outra, e vice-versa.
Conto com os meus amigos para, no regaço mágico do Teatro, neste espaço magnífico que é o nosso Auditório Municipal (ele próprio um cravo de Abril concretizado), revisitarmos a História. E para, no aconchego digno dos nossos corações e da nossa cidadania, confirmarmos a necessidade de nunca desistir da liberdade e da justiça.
Glosando Sebastião da Gama, "pelo sonho é que vamos".

Ribeira de Pena, 30 de Abril de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho

domingo, 29 de abril de 2012

Revelação

Absolutamente por acaso (Acaso é um heterónimo de Deus, como Mãe ou Música), dei com uma fotografia de 2007. Pormenorizo: de 29 de Abril de Abril de 2007. Imagem, portanto, com cinco exactos anos.
É em Coimbra. Vejo-me nela, com a minha mãe, a MP e a VL. Éramos naquele instante, já, a antecipação de algo. Sei agora, aqui, o que então, ali, não podia saber. Sei o futuro (o futuro é o que estamos hoje).
Da fotografia permanece a admirável circunstância de por cá andarmos ainda vivos, no mesmo reduto de amor e cumplicidade que éramos.
Este meu coração é, cada vez mais, uma espécie de álbum delicado. Isto é, um presente compreensivo e frágil que não distingue ontem de amanhã.

Ribeira de Pena, 29 de Abril de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho
[À falta de digitalizador à mão, fotografei a a imagem original - daí a data "29-04-2012".]

sábado, 28 de abril de 2012

A Educação de Charlie Banks

Há em não ter televisão os seus benefícios. Graças à ausência, em minha casa, daquele dispositivo que a Chularia Nacional nos obriga agora a comprar (TDT), passei parte desta tarde a ler e, depois, a ver um filme realizado por Fred Durst (vocalista dos Limp Bizkit), com o título que dá nome ao presente bilhete postal: A Educação de Charlie Banks.
O filme tem, para mim, uma especial curiosidade: um dos actores principais, Jason Ritter, é filho de um outro actor que me habituei a admirar nas séries americanas, John Ritter.
A história anda à volta de um jovem problemático, um ex-menino de rua, de origem irlandesa, que aprendeu a resolver os seus problemas com violência. Há nele uma espécie de vertigem destrutiva (e auto-destrutiva). A seu lado, outros jovens dividem-se entre o medo daquele rapaz e a generosa crença na sua recuperação.
A lógica da narrativa conduz-nos à perturbadora ideia de que, ao contrário do que Rousseau ou o padre Américo advogavam, há gente que já nasce má - e para sempre. Recordei-me de um trecho de Alçada Baptista (em Catarina ou o sabor da maçã) em que o narrador sustentava a existência (inata e profunda) do Mal em alguns seres humanos.
Sumário: tempo bem empregado, este no visionamento da obra de Durst. (E o dvd, sabei, custou dois euros, no Jumbo.)

Ribeira de Pena, 28 de Abril de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho

Música, vidas, eu

Há talvez já no silêncio uma canção
E canções há que só o silêncio depura –
A música é quanto há e quanto não
Havendo se adivinha ou se procura.

Ribeira de Pena, 28 de Abril de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem (memória de Bach) foi colhida, com a devida vénia, em http://www.mu.qub.ac.uk.]

Detalhe de amores

Dos anos já recebo esta lição
Por livros e por vidas comprovada:
Que quase tudo é nada na paixão
E tudo pode estar em quase nada.

Vila Real, 27 de Abril de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem - do filme "Os verdes anos" (1963), de Paulo Rocha - foi colhida, com a devida vénia, em http://www.amordeperdicao.pt.]

quarta-feira, 25 de abril de 2012

25 de Abril, apesar de tudo

1. Mostrei ontem aos meus alunos o filme Capitães de Abril, de Maria de Medeiros. Comovi-me pela enésima vez. Sofri, a espaços, o desconsolo que algumas personagens de Orwell manifestam em Animal Farm, quando vêem perverter-se o sonho limpo do início. Mas também sorri ao ver meninos e meninas do 8.º ano aprendendo, com atenção e interesse, a sua História.
2. Um velho (parecido com uma personagem do filme) assiste, ao meu lado, à transmissão da celebração do 38.º aniversário da revolução. A televisão mostra os rostos soturnos (vejo, aqui e ali, caras familiares, mas envelhecidas), na Assembleia da República, suportando a retórica oficial. Alguns engravatados trazem o símbolo político-floral à lapela. O velho a meu lado indigna-se e desabafa: "Ó pá, tira daí o cravo que ele não é teu!"
3. No final da cerimónia, já depois do hino nacional, um grupo de alentejanos canta "Grândola Vila Morena". E eu senti-me como Simão (de Amor de Perdição) relendo as suas próprias cartas de amor, devolvidas por Teresa, quando ambos estão à beira do derradeiro suspiro e nenhuma esperança se consente já.

Ribeira de Pena, 25 de Abril de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho

terça-feira, 24 de abril de 2012

In memoriam Miguel Portas

Morreu Miguel Portas, um contemporâneo limpo e digno. Ironia melancólica é esta coisa de um homem assim partir na véspera do 38.º aniversário do 25 de Abril. Mas o 25 de Abril, em boa verdade, partiu antes dele.

Ribeira de Pena, 24 de Abril de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho

segunda-feira, 23 de abril de 2012

Histórias da Idade de Ouro

Já lera algo sobre este filme romeno “Histórias da Idade de Ouro” (2009), um projecto assinado por cinco realizadores – Ioana Uricaru, Hanno Höfer, Räzvan Märculescu, Constantin Popescu e Cristian Mungiu. Custou-me um euro e noventa e nove cêntimos e, em verdade vos digo, vale uma fortuna.
As histórias que o filme conta são uma espécie de anedotas, semelhantes às que ouvimos sobre os bastidores do comunismo na ex-União Soviética, ou sobre o Estado Novo em Portugal ou a ditadura chilena. Retratam o outro lado da oficial felicidade e, pelo riso ou (sobretudo) pelo sorriso, denunciam a hipocrisia de governos e sociedades.
São cinco episódios, digamos assim, passados nos últimos anos de governação de Ceausescu. Os cenários lembram muito os do nosso Portugal profundo, marcadamente pobres, tendencialmente reais, passados com uma humanidade que desesperadamente tenta sobreviver. Acresce que a língua romena é irmã da portuguesa (aqui e ali, encontramos vocábulos absolutamente idênticos, como “casa”). Vemos o filme como quem folheia um álbum de família.
Cada uma daquelas histórias daria um bom livro (e, perdoe-se-me a ignorância, se calhar até deu). Grato foi ter reencontrado na cinzenta tarde de sábado, à boleia deste precioso dvd, um bocadinho do nosso país de antes de Abril – espaço&tempo cheio de problemas, claro, mas familiar e doce se visto com aquela branda ingenuidade que havia no meu olhar de nove-dez anos.
Também por isso o próprio título parece inventado expressamente para mim.

Ribeira de Pena, 23 de Abril de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho

sábado, 21 de abril de 2012

Marão sem Mar (para cantar ao ritmo de "Malhão, malhão")


Ó Marão, Marão
Tens no nome Mar
É uma ilusão
Pois não há mar, não
Neste teu lugar.

Ó Marão sem Mar
Quem dera, Senhor
Que em vez de faltar
Fosse aqui lugar
Do Mar meu amor.

Ribeira de Pena, 21 de Abril de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.gforum.tv.]

sexta-feira, 20 de abril de 2012

O regresso de Gracinda mulher


O senhor Valter tinha uma surpresa ao chegar a casa, na primeira sexta-feira de Janeiro: a esposa Gracinda esperava-o junto à porta, com as suas malas e um volumoso saco de legumes (oferecidos, à última hora, pela mãe, na hora da partida da camioneta).
- Voltaste? – perguntou-lhe o funcionário dos correios, sem a beijar ou abraçar, mas carinhosamente. Ela encolheu os ombros.
- É como vês. Pensaste que já eras viúvo?
Riram-se então brandamente e tudo parecia anunciar uma reconciliação fácil. O problema foi a foca, que não conhecia a nova residente – sua homónima – e manifestou, desde os primeiros instantes, uma irredutível antipatia face à rival. A mulher tão-pouco se deu ao trabalho de fingir que gostava do bicho: queixou-se do seu aspecto (“Parece o diabo!”), do odor (“Um cheiro de mortos!”), da vergonha (“Hão-de dizer que esta casa é um jardim zoológico!”). O senhor Valter, às primeiras lamúrias, ainda pensou na conveniência de manter as malas da esposa fechadas para o caso, digamos assim, de nova crise conjugal. Mas era um homem misericordioso e pôs de lado, quase imediatamente, a tentação.
À noite, a foca soltou gemidos ciumentos por ver, na cama, ao lado do dono, aquela mulher. Não admitiu que, na sua banheira, se colocassem dois tapetes de borracha azuis (comprados em Viseu, numa loja chinesa). E urinou sobre as pantufas do senhor Valter, decerto para se vingar do barulho d’acasalamento que atravessava as paredes do quarto principal. No dia seguinte, recusou-se a tocar na comida que, orientada pelo esposo, a Gracinda mulher disponibilizara no soalho da cozinha, sobre um cartão.
Ao longo da semana, o panorama agravou-se: a foca impediu-lhes o sono e a normal vida doméstica em geral (com urros, silvos, empurrões), mostrando-se cada vez mais agressiva, sobretudo com a nova patroa. Quando, uma semana depois do regresso da esposa, o senhor Valter encontrou a mulher no chão, apoplética, tentando libertar-se do peso da foca (que, deitada em cima da humana, assistia ao "Preço Certo"), lá tomou a decisão de devolver ao zoo de Lisboa aquele ser com barbatanas e mau feitio.
Mas, apesar de nos meses seguintes visitar regularmente (sempre sozinho) a sua foca, na capital, as saudades doer-lhe-iam, de aí em diante, como uma chaga profunda e crónica.
A mulher, essa, após alguns esboços de gratidão pela atitude do marido, rapidamente voltou àquela conduta habitual, feita de frio e de ressentimento sem razão óbvia. Ao esposo, por vezes, apetecia-lhe perder a paciência, mas a sua natureza fundamental levava-o sempre a perdoar, não sem grande dificuldade, as neuras esponsais. Se os amigos, a brincar, lhe perguntavam – na tasca do Antunes, ali ao Arnado – qual das Gracindas tivera ele de entregar no jardim zoológico, o funcionário dos correios encolhia os ombros e respondia sem satisfação evidente:
- A foca.
Contudo, pensava muitas vezes: “Antes fosse a outra!”

Ribeira de Pena, 19 de Abril de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.opengalleries.org.]

quarta-feira, 18 de abril de 2012

Notas sobre a ausência de mar


1. Agarro-me às metáforas como náufrago às tábuas mais à mão. Quero salvar-me. A incomunicação é, como se sabe, uma forma terrível de afogamento.
2. Da sala de professores à sala de aulas, subo por um búzio. Vozes de um cardume juvenil lembram o mar para onde, por livros, decerto iremos.
3. O sol é uma carta de meu pai, não bem morto há quatro anos. Missiva de luz, essa, que subitamente sai de um envelope de nuvens e me traz notícias do outro lado do mundo. (Ou do outro lado da vida.) Na minha pele, a meio da manhã, inscreve-se o braile de Deus.
4. Por todo o lado se nota muito a ausência de mar. Os montes são belos também, decerto, mas servem sobretudo para pastar os pensamentos. É do oceano que preciso para os meus sonhos saírem de casa.
5. Tenho saudades dos mortos que, vivos, me tornavam a vida tão mais leve: o meu pai, o meu sogro o meu cunhado, alguns amigos, alunos precocemente reduzidos à condição de sombras.
6. Custa-me muito esta falta de eternidade que, como o mar, admiramos e tememos. Custa-me muito que haja para tudo um fim.
7. Não havendo música nos dias, a literatura consola-me. Dá, digamos assim, um sentido à tristeza que é a gente saber-se provisoriamente viva. Não nos salva de morrer, é verdade. Mas salva-nos do nada, que é a pior das mortes.
8. Escrevo e leio como quem, à força de sentir falta do mar, inventa para si próprio (e para quem mais queira) um oceano incertamente eterno.

Cabeceiras de Basto, 18 de Abril de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho

domingo, 15 de abril de 2012

Noção de consubstância


Não cabe nos dias que me são dados viver
O quanto da vida ainda espero.
É subversiva a secreta contabilidade da alma:
Multiplicam-se entre si parcelas com sinal menos
Confundem-se multiplicações com fracções e ausências
E nunca (nunca) há nas contas resto zero.

O meu corpo, se morresse hoje, não caberia
No caixão da minha limitada idade
Porque eu tenho estrelas agarradas aos braços
Porque há ruas inteiras coladas às minhas costas
Porque os meus olhos são a praia de Mira
E a baía de Machico para sempre à espera!

Estou a morrer porque o tempo passa
(Tudo passa, eu sei, mas então para quê
Haver em mim a ideia de eternidade?)
Estou a morrer porque o tempo se me gasta.
Estou a escrever. Estou a escrever-me
Isto é, estou a viver o que ainda há -
E não me digam por favor que se acabará
(Um dia, Joaquim Jorge, um dia)
Tudo quanto ainda vejo, tenho, escrevo!

É tão insuficiente a escrita que vos dou
Para tanto que vos queria dizer
E afinal o que vos digo ou falta dizer é o que sou!
A minha voz é exactamente isto que escutam
Incluindo os silêncios que sou eu em paz
Consubstancial às flores
E ao mar.

Vila Real, 15 de Abril de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho
[Foto JJC]

Aniversário


Eis em mim presente a pálida versão
De mim criança pura, original -
Ficou do quanto fui o coração
Que bate brinca brilha sempre igual.

Ribeira de Pena, 15 de Abril de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem (do imorredoiro Cinema Paraíso, de Giuseppe Tornatore) foi colhida, com a devida vénia, em http://www.luxeeternel.wordpress.com.]

sábado, 14 de abril de 2012

Nós a nossa ausência


Seremos nós a nossa ausência um dia
(O presente é ir vivendo a nossa sorte);
Felizes os que em vida a Alegria
Descobrem e partilham contra a Morte.

Ribeira de Pena, 14 de Abril de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho

sexta-feira, 13 de abril de 2012

Sextilha eterna


Também o ontem é felicidade
E o ter sido não bem deixa de ser.
Verdadeiramente, o que é a saudade
Senão trazermos ao presente
O quanto de vida já ausente
Não suportamos perder?

Cabeceiras de Basto, 13 de Abril de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho

quinta-feira, 12 de abril de 2012

Conhecer & amar (revisões)


"On ne voit bien qu'avec le coeur..." (Antoine de Saint-Exupéry, Le Petit Prince)

Transeuntes olhares vêem-na na paragem de autocarro. Trata-se, se optarmos por uma linguagem económica, de uma velha. Isso mesmo: uma velha. Normal, vulgar, indiferenciada. Veste de forma igual à de outras velhas, embora haja nela uma espécie de elegância remediada e se adivinhe, no rosto, a beleza da escultura original. Tem, como tantas velhas, o olhar fatigado e triste. Quando sobe para o interior do autocarro, quem nela distraidamente atentou - por segundos - esquece-a e olha para outra realidade qualquer.
Mas aquela mulher é a minha mãe. Vista por mim, não é uma velha e muito menos uma velha qualquer. É a minha mãe. Já me segurou na cabeça enquanto, na minha frágil infância, eu tinha muita febre e vomitava. Já me contou histórias de encantar. Já me aturou birras, caprichos, desistências. Já se riu mil vezes das minhas palhaçadas. Já me deu sábios conselhos. A sua fadiga tem a ver com o facto de amar tanto e de modo tão competente. Esteve sempre presente na minha vida. É a mais formosa e distinta das senhoras. Habituei-me a vê-la em minha casa, na nossa casa. Aliás: habituei-me a entendê-la como a minha, a nossa Casa. Não é, portanto, uma mulher normal, vulgar, indiferenciada, como erradamente a poderia considerar um qualquer olhar transeunte. Eu, que a conheço tão bem, sei que é única. Admiro-a totalmente e amo-a totalmente - uma coisa por causa da outra e vice-versa.

Ribeira de Pena, 12 de Abril de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem lembra Eunice Muñoz numa cena de Mãe Coragem, de Brecht.]

quarta-feira, 11 de abril de 2012

Voyeur


O senhor Valter dos correios adormecia, em regra, pelas onze da noite. A janela do seu quarto, última da fachada predial – se contássemos da esquerda para a direita –, dava para a rua, mesmo sobre o banco da paragem de autocarro. Em finais de Julho, ele reparou que aí se encontrava, entre sussurros e moderada galhofa, um casalinho. Vira-os, certo dia, ao chegar do pavilhão da Palmeira, depois do treino de ténis de mesa. Estavam sentados, muito juntinhos. Não eram já novos. Ela, loira e pálida, muito magra e frágil, teria os seus trinta e cinco; ele, alto, forte, de bigode circunflexo, teria não menos de quarenta anos. Valter apercebera-se da ternura latente sob o tecto da paragem e pensara: o amor vem sempre a tempo.
Nas noites seguintes, ouvira-os arrulhando como pombos e, nem sempre mantendo a calma, escutara suspeitos suspiros pela frincha da janela. Quando o encontro se prolongava, também adivinhava gemidos, e então – tanto quanto se percebia pelo movimento nervoso dos corpos (ora sentados, ora de pé) – o idílio não se limitava já à asséptica poesia do início.
Durante dois meses, assistiu à história bonita do casal e adoptou como sua aquela normalidade feliz. Mas a uma terça-feira (dia primeiro do treino de cada semana no pavilhão da Palmeira), ao chegar a casa, o funcionário dos correios ouviu uma altercação. A mulher queixava-se; o homem respondia num murmúrio humilde. O senhor Valter entrou no lar e, prescindindo até do jantar, foi pôr-se atrás da cortina para saber do que ali se passava. A loira acusava o seu amor de cobardia e de mentiras. Ele respondia “Não-não-não”, mas o seu tom denunciava que sim.
Na quarta-feira, já só apareceu o quarentão. O senhor Valter viu-o de viés, em pé ou sentado junto ao banco da paragem, fumando inquietamente, mirando o cimo da rua, suspirando. Tossia com frequência, o triste. Ao fim de uma hora e meia, mais ou menos, saiu dali com passos lentos. Voltaria na quinta e na sexta-feira, sempre em vão. E, enfim (em fim), desistiu.
O dono da janela imaginou que alguma coisa precipitara o ocaso daquela novela particular - e facilmente se dispôs a esquecer acção e personagens.
Mas reviu, no princípio de Novembro, o homem. Foi na Praça da República, a um sábado, pelas três da tarde: o indivíduo passeava com a mulher e dois filhotes, aparentando a serenidade de um patriarca realizado. A esposa, uma morena gordinha com olhos grandes (talvez azuis), parou por momentos, ali ao início da rua Padre António Vieira, apoiando-se no ombro do cônjuge enquanto tirava do sapatinho direito uma areia incómoda.
O senhor Valter também se cruzou, por alturas do Natal, com a loira balzaquiana que tantas vezes vira e ouvira da janela do quarto. Foi no edifício dos correios: solitária, na fila do telefone, esperava pesadamente pela sua vez. Trazia na mão um livro (Boris Vian, A Espuma do Dias) e tinha um ar cansado. Estava evidentemente grávida.

Arco de Baúlhe, 11 de Abril de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.ecosdotempo.blogs.sapo.pt.]

terça-feira, 10 de abril de 2012

Terceiro período


Reencontro com Ribeira de Pena e Arco. Chuva e frio muito respeitáveis. Bulício habitual da humanidade minha contemporânea. Desiguais energias à volta - algumas esfusiantes, outras ainda em fase de regresso (pouco entusiasmado) à lida diária. O Sporting-Benfica dominando o debate (mais penalty menos penalty, há um bondoso consenso favorável à justiça da vitória verde&branca). Terceiro período lectivo já. Advérbios e nomes em Língua Portuguesa; l'impératif em Francês; Plano Nacional de Leitura em Estudo Acompanhado; A Irmã de Maria Parda em Teatro. Depois, uma conversa agradável ao final do dia, com queridos colegas, sobre a nova terminologia linguística, a universidade, a música "do nosso tempo", a insaciável austeridade, a vida. Alguém diz: "Parece impossível que estejamos já no terceiro período!" Assentimento unânime. Uma locução latina, velha como uma catacrese, desce sobre o entardecer: Tempus fugit.
E voa o tempo, sim, independente de nós.

Arco de Baúlhe, 10 de Abril de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.subsolodasmemorias.blogspot.com.]

segunda-feira, 9 de abril de 2012

Beijo de Sol (Epifania)


O futuro (eu sei) causa-nos medo
Que o fim (a gente sabe) há-de chegar
Mas hoje eu acordei, amor, bem cedo
E vi o pulcro dia a clarear.

E havia tanta luz tanta beleza
Na luz desse súbito presente
Que me lavei de angústias e tristeza
E fui feliz, então, eternamente.

Coimbra, 09 de Abril de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem (aspecto da Rua da Sofia) foi colhida, com a devida vénia, em http://www.panoramio.com.]

domingo, 8 de abril de 2012

Ressurreição


Noite no século XX. O meu Pai deita-se, muito cansado. A minha Mãe cuida das crias e prepara já o dia seguinte. Ao longe, às vezes, há o barulho dos comboios que o vento nocturno traz à nossa casa. De manhã, o som da água das torneiras, a voz do Pai e da Mãe falando (quase sempre) de dinheiro, o cheiro intenso de café (ou de café com leite) e torradas, o rádio emprestando música ao dia novo. O autocarro. A escola. Novidades (sempre novas, as novidades). Angústias e amores. Muito futebol dito e jogado. O regresso a casa. A televisão e algum livro. Noite outra vez.
Nada disto era verdadeiramente repetição, senhores. E tudo se mantém, apesar de algumas (traiçoeiras) mortes. Hoje como antes, a ressurreição e a eternidade são coisas terrenas e fazem parte da nossa vida.

Coimbra, 08 de Abril de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.ecosurfista.blogspot.com.]

sábado, 7 de abril de 2012

A foca


O senhor Valter, funcionário dos Correios em Coimbra, não cabia em si de contente: acabara de receber um telefonema do Zoo de Lisboa dando conta de que ele próprio, com a sua frase sobre a "Natureza em Perigo", fora o vencedor do concurso. Telefonou à mulher, muito excitado:
- Gracinda, ganhei o concurso!
A esposa já nem se lembrava de que ele houvesse concorrido fosse a que fosse.
- Qual concurso, homem?
- Aquele da "Natureza em Perigo"... Não te recordas?... Vinha no "Diário de Coimbra"... Eu enviei aquela frase...
Gracinda interrompeu o exercício de descascar batatas e fez um esforço.
- Hum.. Já me recordo... Escreveste qualquer coisa sobre os rios, não foi?
- Sim... "No presente, os rios correm. No futuro, os rios morrem."
- E ganhaste?
- Ganhei. Dão-me o prémio no sábado, de manhã, em Lisboa.
- Quanto é?
- Não é em dinheiro... É uma foca.
- Uma quê?
- Uma foca.
- Morta?
- Morta? Para que queria eu uma foca morta?
- Sei lá... Para comer...
- Estás doida? É uma foca viva para criarmos...
A senhora Dona Gracinda olhou em volta, confirmando o facto de a sua casa não ter senão uma cozinha, um quarto, uma pequena sala de jantar e uma casa-de-banho. Rosnou:
- E onde pensas tu meter a puta da foca?
O senhor Valter encostou mais o auscultador ao ouvido, receando que o chefe dos correios, ali ao lado, ouvisse o vernáculo inconveniente da esposa.
- Olha a linguagem, Gracinda. Eu não te admito...
Mas a mulher não moderou o volume nem a substância da sua indignação. Gritou-lhe:
- A minha mãe não pôde ficar cá de um dia para o outro, quando veio à consulta no hospital, porque (disseste tu) não tínhamos espaço cá em casa. E tu queres meter aqui, agora, uma foca, catano?!
O funcionário dos correios começou a sentir um insuportável calor no rosto. Um frémito percorreu-lhe espinha e pernas. A voz subiu-lhe de tom:
- A foca vai aí para casa, sim senhora! Sou eu quem paga a renda! Ao menos não faz comentários à nossa vida, ao contrário da tua mãe...
Veio, do outro lado, um curto silêncio. Depois, já não gritando, o enunciado metálico da Dona Gracinda:
- Se a merda da foca entra aqui em casa, eu saio.
Valter casquinou, com desprezo, ignorando o trejeito interrogativo do chefe, ali mesmo ao seu lado:
- Pois podes sair. Mais espaço fica.
Quando chegou do emprego, já não viu a mulher, mas não deu importância ao caso. Calculou que ela estivesse em casa da mãe, em Tondela, e indignou-se só de pensar que na residência da sogra se debatesse, com o veneno habitual, a sua vida honesta de funcionário dos correios, colaborador do "Ecos de Santa Cruz", treinador de ténis de mesa no Desportivo de Santa Clara. ("Nem filhos te deu", deve dizer a sogra, com o seu habitual hausto de dor e reprovação.)
Ao serão, preparou um singelo prato de atum e massa, jantou a olhar para o telejornal, adormeceu no sofá e por pouco não chegava tarde ao emprego na manhã imediata. Nos dias seguintes, habituou-se a comprar, na mercearia da rua, pão, legumes, algum acompanhamento (peixe ou carne) e a fazer o jantar. À vizinhança inquiridora, disse que a sua Gracinda tinha ido à terra visitar a mãe.
No final dessa semana, foi a Lisboa receber o prémio: um diploma e a foca. No regresso, incomodou-o um pouco o barulho que o animal fazia, no banco de trás da Peugeot, mas já foi simpatizando com as curiosas expressões do bicho e riu-se a bandeiras despregadas com o susto que apanhou o homem das portagens.
Chamou-lhe "Gracinda", em homenagem à esposa, apesar de se tratar de uma foca-macho. Adaptou a casa e o quotidiano às necessidades da nova hóspede, tendo para isso estudado cuidadosamente, em livros e revistas, os seus hábitos e, sobretudo, a sua alimentação. Grande parte do salário passou a ir para a conta da água e para a conta do peixe. Mas Valter enamorou-se de tal modo do animal que mal pensava em dinheiro. Era, naquele seu modo simples de ver as coisas, um homem feliz.
Duas ou três vizinhas ainda lhe perguntavam, ao fim de um ano, pela Dona Gracinda. Mas ele já nem pensava duas vezes ao responder:
-Lá está. Ou na varanda, ou na banheira, ou na sala a ver o "Preço Certo". O "Preço Certo", acredite... E abana a cauda de cada vez que o Fernando Mendes diz "Espectáculo!"... Vou agora comprar-lhe dois quilos de sardinhas.

Coimbra, 07 de Abril de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.smartkids.com.]

sexta-feira, 6 de abril de 2012

Interrupção do Tempo (Poema que era para ser um soneto mas não quis)


Dói muito, meu amor, este fascismo
Do Tempo que nos leva em direcção
Ao consabido fim, fatal abismo
Da nossa tão terrena condição.

Mas às vezes há a tua mão
O teu sorriso, a voz familiar -
E nesta altura, amor, o Tempo não
Existe. Há só o Mar.

Coimbra, 06 de Abril de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.praiademira.com.]

Amizade


São raros os amigos. E talvez tenha de ser assim, porque é condição da coisa preciosa que seja rara. É uma irresponsabilidade muito triste perdermos amigos por falta de empenho, de tempo, de atenção. Nenhum amigo novo substitui um amigo perdido. Tudo quanto digo pode ser usado contra mim, bem sei. Descuidado e cheio de tarefas, também eu tendo, às vezes, a esquecer-me das minhas obrigações. Como ontem: passei por um amigo e, por preguiça, não parei. Era um lugar sem muito espaço para estacionar; era quase a hora limite para o totoloto; eu tinha ainda de passar pela casa da minha mãe. Disse-lhe adeus, o meu amigo respondeu com o polegar levantado, e foi tudo. (E foi pouco. E foi nada.) Cuidado, Joaquim Jorge. Os amigos são raros. Os amigos são uma prioridade. É uma irresponsabilidade muito triste perdermos um amigo por falta de dedicação.
De modo que amanhã beberemos um copo, como coisa justa, urgente, inadiável. Certo? Certo.

Coimbra, 05 de Abril de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem (do filme Rainman) foi colhida, com a devida vénia, na wikipedia.]

quinta-feira, 5 de abril de 2012

Sócrates, Passos Coelho & Verdade (Versos com léxico catroguiano)


O senhor Passos Coelho
E o senhor José, l'ami
Nem num simples pentelho
Se distinguem entre si.

Coimbra, 05 de Abril de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho
[A quadrinha foi quanto de mais suave e decoroso fui capaz de escrever sobre as últimas notícias que envolvem o corte do 13.º e 14.º meses, incluindo aquele "lapso" que o vagaroso Gaspar, hoje, cinicamente admitiu.]

Viagem no tempo


Dez horas, Arganil. Vim com a minha filha à terra onde, há vinte e seis anos, iniciei a carreira de professor. Reconheço, aqui e ali, lugares, pessoas (o farmacêutico, o construtor civil, o jogador de futebol). Arrepia-me o facto singelo de os meus alunos dessa época serem, hoje, maduros cidadãos com quarenta e dois anos.
Toda a manhã parece um poema burilado por um Deus dado a ironias. Por exemplo: meu pai também me trouxe e veio buscar, um quarto de século antes desta manhã, correndo comigo os mesmos cruzamentos, a mesma toponímia. O meu pai morreu. A minha filha viaja agora comigo no lugar que era o meu; e eu viajo no lugar dessa ausência sempre tão triste.
Partilho com a minha filha esta poesia do tempo. Ela acusa-me de ser depressivo.
Tem muita razão. Mas pouco há a fazer quanto a isso. Escrevo e vivo assim desde que me conheço (e nem tenho a certeza absoluta de me conhecer bem).

Arganil, 05 de Abril de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem (foto de Arganil) foi colhida, com a devida vénia, em http://www.eb1-arganil.rcts.pt.]

quarta-feira, 4 de abril de 2012

Praia de Mira, forever


Sonho muito com o Mar
E acordo sempre tristonho
Por já ter morrido o Mar
Que era eterno no meu sonho.

Coimbra, 04 de Abril de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem (foto da mítica Praia de Mira) foi colhida, com a devida vénia, em http://www.puraexperiencia.blogspot.pt.]

terça-feira, 3 de abril de 2012

Versos para divertir os meus sobrinhos


O avô saiu para a rua
Sem o acento circunflexo;
Ao ver a cabeça nua
Ficou muito perplexo.

Depois, lá se lamentou
Em tom grave, meio cavo:
- Assim, já não sou avô;
Sou avo!


Coimbra, 03 de Abril de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem (da mítica Heidi) foi colhida na wikipedia.]

Boaventura de Sousa Santos (Pela mão de Alice)



Estive hoje no foyer do Teatro Académico de Gil Vicente para ouvir Boaventura de Sousa Santos. Já o lera antes; já o ouvira em programas de rádio e de televisão; isto é, já o admirava. Trata-se de um grande nome das Ciências Sociais e, de modo mais genérico (mas não menos rigoroso), da Cultura portuguesa e mundial – e, pormenor para mim não despiciendo, é o marido de um dos maiores vultos da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, a Doutora Irene Ramalho dos Santos.
A sessão foi realizada no âmbito do Projecto “Páginas Tantas”, que os Professores Osvaldo Manuel Silvestre, Rui Namora e Rui Bebiano (elementos muito activos do Centro de Literatura Portuguesa) dinamizam desde há alguns meses. Convenci a MP e a VL (sem dificuldades) a acompanharem-me. No final, ambas me agradeceram. Beneficiámos os três (e, imagino, o restante público), por cerca de duas horas, de uma espécie de banho de luz, ou (deixai que reformule) de uma chuva de lucidez e de sabedoria verdadeiramente ímpares.
O registo foi, quase sempre, o de uma conversa inteligente e bem disposta, excelentemente dirigida por Osvaldo Silvestre (meu professor de Cânone Literário durante o ano curricular do Doutoramento em Literatura Portuguesa) e por Ana Maria Machado (professora de Literatura e Cultura Portuguesas, também na FLUC). Boaventura de Sousa Santos, com brilho e graça, falou da sua biografia pessoal e académica, da “Privataria” (nome que com que designou a fúria privatizadora da nossa contemporaneidade), da diferença entre “economias de mercado” e “sociedades de mercado”, da incultura dos políticos, da falta de humildade de europeus e norte-americanos face aos contributos do Pensamento periférico (por exemplo, de investigadores latino-americanos), da noção de “Objectividade” (um, cito de cor, “ conjunto de intersubjectividades reconhecidas por um auditório cientificamente válido”), da impossível “Neutralidade” (“Só posso ser neutro se a sociedade estiver a meu favor; se estiver do lado contrário, corro o perigo de me liquidarem ou de me invisibilizarem e não posso, já, ser neutro”).
Entre tantas pérolas, fui desviando – de vez em quando – a minha atenção para o rosto singular da Doutora Irene Ramalho dos Santos. Ela sorria sempre. E havia, no seu olhar face ao sociólogo (não tenho dúvidas),para além da habitual serenidade, um profundo amor de mulher académica, de mulher cidadã e de mulher eterna namorada.
A Professora Ana Maria Machado - não sei se citando alguém - ofereceu-me ainda, a propósito de certa obra que sucintamente apresentou, uma frase tão formosa que a reservei para o penúltimo parágrafo do presente texto: “O relato da viagem revela o viajante.”
Abençoada ideia esta de, para remate da tarde, ir ao TAGV!

Coimbra, 02 de Abril de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho
[ imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.tantas paginas.wordpress.com e em http://www.submarino.com.br.]

segunda-feira, 2 de abril de 2012

Casa grande


Nunca como hoje o Centro de Emprego se me pareceu tanto com a Poesia: uma Casa acolhendo, pelas nove da manhã, a tristeza e o desespero de muitos homens e muitas mulheres.

[A imagem (que lembra a Grande depressão dos anos 30 do século XX) foi colhida, com a devida vénia, em http://www.constelar.com.]

Steps Coelho


A minha filha deu-se conta de que tem cada vez menos tempo para praticar desporto. Como alternativa à sua prática ideal (natação, jogging, ténis, etc.), optou por adquirir um aparelho de ginástica. Chama-se "step". O exercício consiste basicamente na ilusão de estarmos subindo uma escada interminável, assim se queimando calorias e peso. Eu não quero aqui debater os méritos desta actividade, mas gulosamente aproveito dela as potencialidades metafóricas. Ora, por obséquio, pensai comigo...
Um aparelho que está fixo, colado ao solo, usado para manter ocupado o corpo e quiçá a mente; um aparelho em que fazemos de conta que subimos uma escada, sem nunca sairmos do mesmíssimo chão; um aparelho básico, repetitivo, cansativo...
Vejo, num pedal, José Sócrates e, no outro, o seu heterónimo - Pedro Passos Coelho. Pedalamos, determinados ou furiosos, sem escaparmos do mesmo sítio.
Na minha exegese, o aparelho não se chama "step": chama-se Portugal, ou, extensivamente, Europa. Nele obedientemente cumprimos a (assim chamada) ginástica de manutenção. Ginástica para mantermos sei lá eu o quê!

Coimbra, 02 de Abril de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.odivelas-lisboa.olx.pt.]

Regresso (provisório) ao aconchego natal


Saúdo-te, ó natal Melancolia
Berço de onde, triste, parti;
Prometi-te, amor, que voltaria
E estou aqui!

[A imagem (foto de Arsène Hayes com vista de Coimbra, 1870, in Albumina, colecção de Margarida Costa Alemão) foi colhida, com a devida vénia, em http:www.rosasvadias.blogs.sapo.pt.]

domingo, 1 de abril de 2012

Geografia do coração


A minha geografia começa na Rua Dr. Manuel Almeida e Sousa (ou Casal Ferrão), mesmo que o meu corpo durma, agora, na Rua de S. Miguel. Depois, numa espiral imperfeita, viaja até ao Loreto, ao Choupal, à Pedrulha, à Rua da Sofia, ao Retail de Eiras, a Celas, a Antuzede, à Praça da República, a Taveiro, à Solum, à Mealhada.
Como por magia, sei sempre, neste reino natal, a rua certa por onde levar o meu carro ou os meus passos. Reacende-se na memória um certo Café que havia ali à esquina (que continua a haver), ou um quiosque (que já não), ou uma mercearia (que já não). Semelhanças e diferenças falam comigo. A senhora dos correios é a mesma, mas com mais tempo por dentro e (coitadinha) por fora. A minha vizinha de cima já quase não sai de casa devido à doença. A minha vizinha do lado, que foi bonita, sofre visivelmente de osteoporose e de velhice. O cão do prédio em frente já não mija nas flores à beira da estrada porque morreu. No Parque Dr. Manuel Braga, uma dezena de árvores (talvez mais) foi arrancada, como num poema de Jorge de Sena. No Choupal, o meu percurso habitual cresce de forma inversamente proporcional à minha resistência. O rio emagreceu devido à seca. A minha mãe está mais lenta e ri-se menos.
É a vida, n'est-ce pas? A mim parece-me uma biografia sobretudo de perdas. E, apesar de tudo, amo esta cidade. Sou desta cidade. O que tenho feito noutros lugares é perceber quanto de Coimbra aí há. O meu Café Lusa Nova, de Coimbra, é (pode ser) o Ali Babá, de Ribeira de Pena. A pastelaria da Solum é (pode ser) o Santo André, de Arco de Baúlhe. E assim sucessivamente, incluindo natureza e humanidades.
Um amigo diz-me, em conversa amena e risonha, que eu faço falta. Gosto dessa ideia. Vaidoso, convenço-me de que a minha ausência se nota, como árvores cortadas ou quiosques desaparecidos, nesta mui nobre e querida Coimbra.
Há hoje promoções no Lidl, um hipermercado que foi construído no lugar da minha escola primária, ali onde fui Yazalde, Sandokan, Tom Sawyer. De acordo com um folheto, o bacalhau está mais barato uns 30 por cento. Mas as saudades, essas, estão pela hora da morte.

Coimbra, 01 de Abril de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.velhacaracoleta.blogspot.com.]