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Número de Ondas

segunda-feira, 30 de julho de 2012

João, Mestre


Há dois anos, pela hora exacta em que escrevo, eu vi um homem agonizando numa cama do hospital do Funchal. Tinha uma barba de talvez dois dias, o cabelo desusadamente enorme, uma máscara de oxigénio sobre a boca e o nariz, os olhos fechados para o mundo, a respiração ofegante e desesperada como a de um náufrago doutro Noé.
Era o meu sogro. Na Madeira, chamavam-lhe quase todos “mestre João”; não eu, que me habituei a chamar-lhe “senhor João” – e contudo lhe reconhecia, como os demais, essa condição maior de virtuoso e exemplar professor da vida.
Eu e a MP falávamos sobre ele aí pelas seis da tarde do dia 30 de Julho de 2010, passeando melancolicamente pela promenade de Machico. Não sabendo então como dizer a minha falta de esperança em melhoras, optei por me lembrar apenas, em voz alta, de episódios pícaros ou épicos que o Mestre João protagonizara há (parecia-nos) tão pouco tempo.
Depois, o telefone tocou. Era a L. a dar-nos conta de que falecera o pai, sogro, avô, vizinho, amigo de tanta gente.
Trouxe-me o casamento este bónus nada despiciendo: ter por sogro o Mestre João. Isto é, conhecer um sábio que era santo, um santo que era sábio. E tão profunda impressão me causou, senhores, que é como se este homem bom estivesse para sempre vivo.

Coimbra, 30 de Julho de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho

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