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Número de Ondas

segunda-feira, 28 de junho de 2010

A Coligação Relativista


Há, desde Pedro, Papas e Papas. Bons e maus, está-se mesmo a ver. Em muitos casos, para se dizer qual é o melhor, venha o diabo e escolha.
Um dos que mais pancada tem levado é este, o alemão Ratzinger.
Não hei-de ser eu a defendê-lo, Deus me livre. Mas tenho de confessar que, nos últimos tempos, dou por mim a citá-lo ou a lembrar-me de coisas que ele escreveu e eu, diferida ou directamente, pude ler.
A primeira é a de que a fé se deve (também) provar pela razão. Esta noção conduz a uma versão melhorada da metáfora do rebanho: em vez de uma carneirada acrítica e estúpida, há afinal gente que não abdica de, em defesa das suas convicções mais profundas,reflectir.
A segunda é a do combate ao "relativismo moral". Bem sei que estou em terreno perigoso,movediço, difícil. Mas acho - cada vez mais - que a humanidade não cresce sem linhas definidas sobre verdade e mentira; justiça e injustiça; certo e errado; beleza e fealdade.
Os relativistas militantes dir-me-ão: justiça, verdade, correcção e beleza são conceitos vagos, indeterminados, susceptíveis de interpretação diversa. Ou, como um dia disse Pina Moura, em despudorada viagem de parlamentar a alto dirigente da Iberdrola, "a minha [sua] ética é a republicana - se é legal, é justo". [Cito de cor.]
O tanas, Dr. Pina Moura!
A verdade é a verdade é a verdade é a verdade. O justo é o justo é o justo é o justo. (E, já agora, a lembrar-me da comissão parlamentar sobre a TVI, estas certezas compreendem o "valor" das escutas, por muito ilegais que sejam!)
Creio profundamente que precisamos, hoje, de verdade. Precisamos de referências e de gente que represente princípios. Precisamos de ideologia (de falar de esquerda e de direita). Precisamos de autoridade moral.
Pilar, a viúva de Saramago, dirigindo-se a Mário Soares (ver J.N., ed. de 28-06-2010), disse-lhe: "Continue assim. Precisamos da sua autoridade, mesmo que seja para a discutir."
Sócrates e Passos Coelho, lá no íntimo, mais do que social-democratas ou socialistas, são relativistas.
O Partido Relativista é o mais poderoso e perigoso partido da actualidade.

Ribeira de Pena, 28 de Junho de 2010.
Joaquim Jorge Carvalho

domingo, 27 de junho de 2010

Avô e luz


O meu avô António tinha a mania dos candeeiros. Nenhum objecto estava livre de, por suas mãos, se tornar numa fonte de luz.
Talvez na Pedrulha houvesse quem nesta mania visse a prova provada da senil doidice. Outros, mais ingénuos, murmurariam sobre o génio criador do velho.
Eu, que estive tantas vezes junto dele até o perder, sei que se tratava sobretudo de uma questão de tempo e de dignidade: o meu avô queria ocupar as horas reformadas de forma útil e entretinha-se assim.
Entreter, como entretecer, é verbo lindo: entre-ter; ter entre; entre-tecer; tecer entre.
António dos Reis Mateus, pai de minha mãe Delfina, fazia candeeiros entre horas. Isto é, tecia luminosamente as horas que (ainda) tinha, entre todas as suas manhãs e a noite final.
Eu dou por mim à escrita, muitas vezes, como quem faz candeeiros. Nem senil, nem génio. Isto só: precoce avô do mundo, dignamente derrotado pelo tempo.

Ribeira de Pena, 27 de Junho de 2010.
Joaquim Jorge Carvalho

Feriados neoliberalizados


Tias e tios da deputação andam preocupados com as “pontes” dos portugueses. E vai daí que fazem? Depois de muita força a pensar, aliviam-se de uma proposta muito neoliberal e moderna: mudar as datas dos feriados (ou suprimi-los). Para algumas aventesmas, celebrar o 25 de Abril ou o 1.º de Maio ou o 5 de Outubro num dia outro do mês não retira importância à celebração e sempre impede este irresponsável povo português de sonhar com descansos prolongados (tão inimigos da produtividade). As tias e os tios, que tão facilmente se ausentam da assembleia pelos mais avulsos motivos, não suportam que o empregadito de escritório, o funcionário dos correios, o motorista de autocarros, a educadora de infância ou a menina do call center se auto-atribuam uma segunda-feira ou uma sexta a comer pizza na praia de Mira ou na Caparica.
Mas o mais triste desta proposta, que o grupo parlamentar socialista defenderá doravante com a mesma garra que lhe merece a imposição de portagens nas scut (e outrora lhe mereceu a luta contra as portagens nas scut) é o desrespeito absoluto pela natureza do simbólico.
As datas não são, regra geral, um acaso. O símbolo tem uma dimensão física, material, terrena – só daí voando para a sua significação lata, extensiva, maior. O 25 de Abril, o 1.º de Maio, o 5 de Outubro – entre outras datas – só podem ser celebrados dignamente nos dias 25 de Abri, 1 de Maio e 5 de Outubro.
Nem a Sagrada Economia Toda-Poderosa (prima direita de Sua Eminência, a Hipocrisia Neoliberal), que tutela todos os actos e pensamentos de certa deputação, poderá alterar esta realidade. E contudo...

Ribeira de Pena, 27 de Junho de 2010.
Joaquim Jorge Carvalho

sábado, 26 de junho de 2010

Viagem vista do Berço







Durante o ano lectivo de 2008/2009, leccionei a disciplina de Estudos Literários na Universidade Sénior de Cabeceiras de Basto.
Durante alguns meses, levei a turma a territórios consabidos de modos e géneros. Visitámos, por exemplo, Júlio Dinis e algum Eça, na narrativa; Fernando Pessoa, Ruy Belo, Manuel António Pina, Eugénio de Andrade, Jorge Sousa Braga e Daniel Abrunheiro, na poesia; Sttau Monteiro, Saramago e Garrett, no drama.
Em boa verdade, tratou-se de uma viagem que era muitas viagens, tão difusa e rica é a pátria da literatura em versão de língua portuguesa. Comigo viajaram os alunos seniores, público cheio de interesse, de energia e de vontade de participar. As aulas – ou sessões, como eu preferi sempre chamar-lhes – foram sobretudo um encontro: eu com os meus estudantes-colegas-cúmplices; nós com os textos-os autores-os mil países de sentido & beleza que há nas palavras com mundo dentro.
Um dia, depois de estoicamente me haverem aturado a teoria, sugeriram a possibilidade de experimentar o teatro. Não faltou quase nada para eu os desafiar a tal. Outra vez a ideia de viagem me serve para explicar a magnitude do que decidimos fazer: imaginai, digamos assim, um mar entre nós e o que queríamos; imaginai um barco à espera de gente que tratasse das velas e que, à falta de vento, remasse. Isso mesmo: era uma vez uma peça de teatro à espera de tornar-se realidade.
Marcámos a navegação para o ano lectivo de 2009-2010. Compromissos académicos obrigaram-me a adiar o arranque para Janeiro do presente ano. Hesitantes à partida, aparelhámo-nos em terra (com texto que servisse, teoria q.b., leituras, experiências) e depois fizemo-nos ao mar.
A nossa Índia aconteceu ontem, no Auditório do Mercado Municipal de Cabeceiras, pelas 21h30m. Na presença de muito público, representámos "Romeu e Julieta - Versão Sénior". Como adivinharão, não se tratou simplesmente de uma peça de teatro: foi o porto merecido de uma inteira equipa que se atreveu a sonhar uma viagem difícil apenas - ou sobretudo - porque era uma viagem bela.
Séniores? Só se for no pormenor do bilhete de identidade. Se, como eu profundamente acredito, ser jovem é ser portador de novidade, então estes senhores e estas senhoras estão na flor da vida.
Foi um prazer encenar tão querida e talentosa gente. É uma honra tê-los como Amigos.

PS: Aos amigos supra-ditos (Lucinda, Alice, Arminda, Joaquim, Barroso, Olga, Filomena, Manuel Carneiro, Teresa Mendes, Alcina, Fernanda, Ana, Teresa Ramos, Pereira, Ferreira, Alexandre) acrescento a Rosa Pires e a Nani, que nos ajudaram com eficiência e doçura invulgares.

Ribeira de Pena, já 26 de Junho de 2010.
Joaquim Jorge Carvalho
[Nota: Oportunamente, espero recordar este acontecimento com outras fotos obtidas in loco.]

sexta-feira, 25 de junho de 2010

Nesta data querida


Da rua Augusta a Ribeira de Pena demora-se para aí 28 anos.
Mas de Ribeira de Pena à rua Augusta, é um segundo, metade de um instante, um verso.
1982. Estou à janela do número 25 com uma flor. Vamos comer à cantina do ISCA. Um homem sem pernas pede-nos esmola e, obtendo-a, canta Quando um Coração Chora de Amor. Abolimos o oceano. Tomamos o mesmo sentido. Faz tudo sentido.
A mais bela forma de eternidade, enquanto não morrermos, é esta. (E mesmo depois não sei!)
Ah, é verdade: Ily & parabéns!

Ribeira de Pena, já 25 de Junho de 2010.
Joaquim Jorge Carvalho

PS: Beijinho também para a querida Eduarda, aniversariante a 24. Nunca nos esquecemos de ti (apesar do teu péssimo gosto em relação a clubes)!

Saramago e o aborrecimento presidencial


Talvez tenha sido o presidente Cavaco Silva, de todos os portugueses, o mais genuinamente aborrecido pela morte de José Saramago. Estragou-lhe as férias e, mais do que as férias, aquele remanso de consensualidade que Sua Excelência tanto aprecia. Pior do que aquilo, só o Nobel (e, sobre o prémio da academia sueca, ouvi eu um professor universitário, desconsolado com a notícia, garantir que “a culpa tinha sido do Mário Soares que andara pelo mundo a pedir um Nobel para a literatura lusófona”).
Atenção, senhores. Embora seja uma vergonha para o país que o chefe de estado desvalorize a importância de um vulto como Saramago, nós nem nos deveríamos surpreender.
Este presidente era primeiro-ministro no tempo de Sousa Lara, célebre censor da década de oitenta do século XX, entretanto outra vez famoso nos últimos anos por razões que, de momento, não me lembro.
Este presidente é o mesmo que, em visita a uma escola do ensino básico, se gabou de não saber quantos cantos havia n’ Os Lusíadas.
Este presidente é o mesmo que, julgando estar a produzir uma fina ironia, confessava o seu desamor a Saramago por gostar de vírgulas num enunciado, querendo com tal denunciar um eventual descuido do escritor nesse aspecto da pontuação. Ora, a verdade é que, se ele se tivesse dado ao trabalho de ler (ou de mandar ler por ele) os romances do infame comunista, saberia que o que mais abunda, no estilo saramaguiano de contar, é a vírgula (a qual funciona - nesta estratégia da produtiva promiscuidade entre oralidade e estrita – como vírgula propriamente dita, mas também como dois pontos, travessão, ponto de interrogação, ponto de exclamação, reticências).
Ainda por cima, Saramago era (é) um livre-pensador, fonte de inquietação e desafio permanente, o que incomoda quem tenha do saber a preclara noção de circunstância imutável, não susceptível de dúvidas e muito menos de engano.
Cavaco Silva não teve pachorra para vir homenagear o único prémio Nobel da nossa literatura. Homenagearam-no, por ele, outros – e, entre os outros, muitos estrangeiros, como formosamente aconteceu com ministros espanhóis (com relevo para Zapatero).
Bondosamente, Marcelo Rebelo de Sousa lá disse, sem se rir, que Cavaco Silva não estava nas homenagens fúnebres fisicamente, mas que estava em espírito.
Nos comentários da blogosfera, um atrasado mental glorificava as férias açorianas do presidente por este assim afirmar a sua “personalidade e coerência” (cito). Mas nós já vimos Cavaco Silva, por exemplo, engolir sapos na Madeira, ou dizer mal da lei do casamento gay e, depois, não a vetar.
Falta-lhe grandeza, disse um cronista num jornal de referência (como já teledissera, recordo, Clara Ferreira Alves no “Eixo do Mal” da Sic Notícias). Ora, um sábio francês, Jean de La Bruyère, explicou um dia que – ao contrário do que pensam muitos espíritos – a grandeza ou pequenez de um indivíduo vê-se mais se ele estiver num lugar elevado. Do intelecto de Bush talvez nem ouvíssemos falar se ele se tivesse ficado apenas por governador do Texas, o que privaria o mundo de gargalhadas e também de algumas guerras inúteis.
A lição serve para a nossa actualidade política. Os grandes são maiores se vistos em lugar de proeminência. Os pequenos ficam desgraçadamente mais pequenos.

Vila Real, 24 de Junho de 2010.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem-supra é do filme Ensaio sobre a Cegueira, de Fernando Meireles baseado no romance homónimo de Saramago.]

quinta-feira, 24 de junho de 2010

Clássico


Coetzee, para explicar o seu conceito de “clássico”, fala de um episódio – inventado ou não – que se terá passado na sua infância. Algures na África do Sul, por entre a vegetação e o cimento de uma zona residencial, música de Bach interrompeu a realidade. Era (digo eu) o mágico som da arte, intemporal e universal, espécie de súbito oiro cósmico, reconciliando o chão dos passos com o ilimite barroco dos céus.
Eu ouvi Bach durante uma viagem entre Cabeceiras de Basto e Ribeira de Pena. Não sei se a minha experiência se pareceu, em algum aspecto, com a do escritor nobelizado de Desgraça. O que sei é que senti, por dentro, os olhos caminharem por entre as próprias lágrimas até 1970: a minha mãe, durante a lida da casa, canta Povo Que Lavas No Rio, muito melhor que a famosa Amália. Em 1974, canta Ó Papão Vai-te Embora, para adormecer o meu irmão Emanuel, no fim de uma tarde de Novembro. É tão nova para sempre a sua voz, e tão grande o regaço que há na melodia que ela é!
Com Bach, regresso à Coimbra de 1986: o meu pai pisca o olho vivo a uma sopeirita gorda, à saída do hotel Astória e diz-lhe que já vem. Vou ainda a Machico, no ano re-presente de 2005 e está o José Manuel gargalhando vivamente sobre um episódio passado na fábrica do cimento. É tudo tão imortal, senhor Johann Sebastian. Talvez Deus, a existir, seja afinal uma música sua.
Mesmo porque é Deus, para os humanos de todos os tempos, o clássico dos clássicos.

Vila Real, 23 de Junho de 2010.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem-supra é a do retrato de Johann Sebastian Bach feito por Elias Gottlob Haussmann, em 1746.]

terça-feira, 22 de junho de 2010

Economia & Ouro


Tudo na vida é explicável em termos de economia?
Talvez. O valor da vida, por exemplo, mede-se em tempo.
Há quem tenha muito, quem tenha pouco, quem fale dele, quem se esqueça dele, quem o desperdice sem sentido, quem o poupe, quem o ganhe, quem o roube aos outros, quem o dê aos outros.
O valor mais elevado é, também nesta economia, o ouro. Mas, em tal caso, o ouro é designado pela palavra amor.
De modo que não basta ter tempo para se ser feliz.
É preciso, sobretudo, que haja nesse tempo o ouro do amor.
Aliás, é este o tempo inconfundível que verdadeiramente choramos quando já nos é escasso o tempo.
Digo-vos nada mais que a verdade: amar é não perder tempo.

Ribeira de Pena, já 22 de Junho de 2010.
Joaquim Jorge Carvalho
[Dedicado à V. L., que passou no exame de condução no dia 21 de Junho, um ano e um dia depois de ter removido as amígdalas. A foto já tem quase 5 anos “de tempo”!]

sexta-feira, 18 de junho de 2010

Saramago, José


José Saramago morreu. Viva Saramago.
Sou saramaguiano a.N., isto é, de antes do Nobel. O meu desvelo começou em 1982, com Levantado do Chão, oferta da amiga Salvina Góis no dia dos meus 19 anos. Prosseguiu com crónicas, romances – e, muito mais tarde, com menor admiração, abarcou até a sua lírica e o seu teatro. Sou autor de uma adaptação da peça A Noite que cheguei a sonhar ser, um dia, possível apresentar ao seu criador primordial. No ano da atribuição do Nobel, frequentei um curso sobre Literatura Portuguesa Contemporânea na Universidade Católica de Braga e aí defendi ferozmente, perante certo Professor menos entusiasmado com o Memorial do Convento, a excelência da obra e do escritor. Na semana seguinte à discussão, entrei na sala e vi muitos sorrisos cúmplices à minha roda. O Professor cumprimentou-me como se o prémio fosse meu: “O senhor doutor deve estar muito satisfeito”, disse. Devolvi-lhe o sorriso: “Estamos todos, não é?”
O que mais admiro na obra romanesca de Saramago é a ideia de a narrativa ser, se globalmente considerada, uma representação e uma ordenação do mundo. Uma leitura ética do real. Uma visão da condição humana que articula a cínica lucidez do autor com a generosa ternura e poesia do enunciado.
A morte de Saramago dói-me como se fosse a morte de um amigo próximo ou de um familiar. É um pedaço do meu mundo que desaparece. Percebeis? Faz parte do nosso crescimento, enquanto não desaparecemos, que desapareça o que connosco era a vida.
Há muito que descobri, na minha frágil existência, a mortalidade. Tenho de viver com ela, enquanto não me liberto, morrendo, dela. Mas há a escrita. A saudade produtiva que é a voz do já passado ter futuro. A revisitação de, por exemplo, Todos os Nomes, uma das mais belas histórias que eu alguma vez pude ler.
Já não existe José Saramago? Vou lê-lo. José Saramago existe.
Por isso, em vez de dizer adeus e obrigado ao Amigo que morreu, digo-lhe olá. E digo-lhe, de qualquer modo, obrigado. Por, atentai nisto, ele não bem ter morrido.


Ribeira de Pena, 18 de Junho de 2010.
Joaquim Jorge Carvalho

quinta-feira, 17 de junho de 2010

Aviso


Amigo(s),

Por várias razões (literárias, académicas e outras), volto só na próxima 2.ª feira.

Abraço e pedido: voltem sempre!

JJC

PS - UM CONVITE:
No dia 25 de Junho (6.ª feira), pelas 21 horas, terá lugar no Auditório do Mercado Municipal de Cabeceiras de Basto a representação da peça "Romeu e Julieta - Versão Sénior". O texto e a encenação são da minha responsabilidade; a interpretação estará a cargo dos alunos da Universidade Sénior de Cabeceiras de Basto. Entrada (muitíssimo) livre.
JJC

[Nota: a imagem-supra - colhida, com a devida vénia, em wikipedia - é a de uma pintura a óleo (de 1870) da autoria de Ford Madox Brown. A pintura retrata a famosa cena do terraço de Romeu e Julieta.]

quinta-feira, 10 de junho de 2010

Dia 10 de Junho


No seu discurso, Cavaco Silva diz que este “não é o tempo para querelas partidárias ou ideológicas”.
Lamento contrariar Sua Excelência, mas julgo que se passa exactamente o contrário. Este é o tempo em que, mais do que nunca, no jogo da política, as opções partidárias e, a montante, ideológicas fazem todo o sentido. O que resta do regime não apenas o autoriza como, sem dúvida, o exige.
Importará, pois, que os actores políticos respondam a certas perguntas fundamentais:
a) Como se chegou a esta crise (“insustentável”, para utilizar o adjectivo presidencial)?
b) Como se resolve a crise insustentável?
c) Como se resolve a crise insustentável de forma justa?
d) Que país queremos ser (partindo do pressuposto generoso de que queremos ser um país)?
e) Que Europa queremos (partindo do pressuposto generoso de que a Europa dá aos portugueses voto na matéria)?
Por mim, confesso, estou hoje com o desassombro de Jerónimo de Sousa, comentando o discurso de Cavaco: “Não se pode pedir às vítimas que ajudem os carrascos.”

Ribeira de Pena, 10 de Junho de 2010 (data de aniversário do Tó: parabéns, Tó!).
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem-supra (litografia a partir da obra de Francisco Amatucci) foi colhida – com a devida vénia – em http://www.pedraformosa.blogspot.com]

quarta-feira, 9 de junho de 2010

Para sempre


Dos 12 aos 18 anos, apaixonei-me para aí umas vinte vezes, nem sempre pela mesma pessoa. Não se tratou, em qualquer dos casos, de desvario de lana caprina ou de inócuo passatempo. Foi sempre coisa profunda e para sempre, de acordo com o testemunho mais fidedigno de todos, o meu.
Aos treze anos, dava-me para fazer poemas e ouvir singles de Demis Roussos. Suspirava nas aulas, nos corredores, antes do sono e a correr para o autocarro. Via-a por cinco minutos ou por um segundo e pedia, ao deus dentro de mim, que ela tivesse reparado no meu olhar, no meu blusão de ganga, no meu cabelo, na jogada do golo contra o 7.º D, no Muito Bom que a professora me escrevera no teste.
Um dia, o último antes das férias, dancei com ela e senti a textura misteriosa que há nos anjos: o meu coração pulsou três minutos contra o volume citrino do seu peito, as minhas mãos autorizaram-se o sacrilégio de andar por aquele cabelo loiro que, tão antes de tocar, sonhara, uma parte de mim uivava a fúria de lobo juvenil e virgem. Usava-se socas, na altura, e isso fazia-me tão alto como Paul Newman.
Despedimo-nos com um beijinho na vizinhança dos lábios. Entretanto, fui ao Choupal tomar banho no Mondego, à praia de Mira, às festas na Pedrulha, ao cinema Sousa Bastos, ao futebol com o meu pai. Na praia, apaixonei-me duas vezes para sempre, nos quinze dias alugados junto ao Café S. José. Já em Coimbra, comi cerejas em casa da tia Lurdes, roubei laranjas na quinta de um homem rico, fumei cigarros proibidos entre as árvores do Casal Ferrão.
O Demis Roussos cantava, às ordens de certa agulha perecível: Goodbye my love, goodbye, Goodbye and au revoir, as long as you remember me I’ll never be too far. O Demis Roussos era muito gordo e, dizia-se, não usava cuecas sob aquelas túnicas que vestia. Lembro-me de pensar que, durante a lírica interpretação, aquilo tudo deveria abanar muito. O Gianni Morandi cantava (e eu com ele): Non son degno di te. O meu avô fazia candeeiros a partir de qualquer objecto: uma garrafa, um calhambeque, um tronco oco, uma boneca. Eu li o Miguel Strogoff e quis escrever um romance chamado Pessoas Não São Países. Depois, descobri, no mesmo Verão, O Dumas pai, com os Três Mosqueteiros, e o Dumas filho com A Dama das Camélias. Enchi logo uns caderninhos com episódios de espionagem e esgrima, e outros com coisas sobre o ciúme e o destino que, se eu fosse o Camilo, não seriam ridículas. Quando descobria uma palavra nova, sobretudo na prosa trissemanária de Victor Santos d’A Bola, ficava mortinho por a utilizar em textos meus: subterfúgio, vernáculo, filigrana, coesão, acuidade, explanação, virtuosismo. Roubei, talvez uns dois ou três anos antes, num quiosque da rua da Sofia, As Pupilas do Senhor Reitor, enquanto a minha mãe comprava a Crónica Feminina. Que diria o bondoso Júlio Dinis desta vileza que mo deu a conhecer? Se eu lhe dissesse que, um dia, pegaria na memória da aldeia que aquele livro me trouxe e começaria a escrever uma tese muito minha sobre o encanto e utilidade essencial da literatura, ou que viria a perceber e a defender a ideia de que é preciso ler para gostar de ler?
Quando veio o Outono, eu comecei a jogar no União de Coimbra, senti-me uma espécie de pai do meu irmão mais novo, conheci holandeses que ajudaram a acabar com o bairro de lata da Relvinha, comecei a beber café no Lusa Nova como as pessoas grandes. Apaixonei-me decerto por outras raparigas, para sempre. Eu bem lhes dizia, em prosa e em verso, que era para sempre. Algumas, temo-o bem, não acreditavam. Mas era verdade, mas é verdade.


Ribeira de Pena, 09 de Junho de 2010.
Joaquim Jorge Carvalho

Para recordar, já agora, a letra do “Goodbye, my love, goodbye”:

Hear the wind sing a sad, old song
it knows I'm leaving you today
please dont cry or my heart will break
when I go on my way

Chorus:

Goodbye my love goodbye
goodbye and au revoir
as long as you remember me
I'll never be too far

Goodbye my love goodbye
I always will be true
so hold me in your dreams
till I come back to you

See the stars in the sky above
they'll shine wherever I may roam
I'll pray every lonely night
That soon they'll guide me home

Chorus

terça-feira, 8 de junho de 2010

Aldeia onde valha a pena


1.
Deixai-me evocar aqui alguns pormenores que em A Morgadinha dos Canaviais, um delicado e (também) poderoso romance de Júlio Dinis, pude colher.

2.
A personagem Vicente, um ervanário já muito velho, vê a sua casa e as suas árvores, plantas e flores serem destruídas para que uma nova estrada atravesse a aldeia. Morre, mais de desgosto que de velhice, poucos dias depois.
A personagem Cancela, um almocreve de uns 35 anos, viúvo, vê morrer a sua única filha, Ermelinda, devido a doença. (A doença talvez fosse consequência de jejuns e outros martírios fanáticos que uma seita por ali recomendava às almas ingénuas.) Cancela decide emigrar para o Brasil.
A personagem Augusto, jovem mestre-escola, é vítima de injustas suspeitas de abuso de confiança e roubo. Desesperado, decide também emigrar para o Brasil.

3.
Augusto consegue provar a sua inocência e já não emigra para o Brasil. Aliás, acabará por desposar a mulher amada (Madalena, a Morgadinha).

4.
Há uma moral literária e humana a retirar do que aqui se recorda. Augusto já não emigra porque recuperou a esperança. Ficará, pois, na sua aldeia.
Precisamos todos de uma aldeia de esperança onde valha a pena viver.
Sem esperança, que fazer senão emigrar ou morrer?
(Morrer, aliás, é uma forma violenta de emigração.)


Coimbra, 08 de Junho de 2010.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem-supra é a de um monumento a Júlio Dinis, erigido no Porto, e foi colhida – com a devida vénia – em wikipedia.]

domingo, 6 de junho de 2010

Homo Adiposus


Quando o senhor astronauta era menino e se deitava cansado de correr por campos sem nome, não poucas vezes havia uma nave espacial visitando-lhe os sonhos. Era nela que o menino alunava, marteava, venusava, jupiterava. (Alunar, martear, venusar e jupiterar são os termos usados para aterrar em lugares que não são a Terra.) De manhã, o que ficava de ter sonhado era o desejo secreto de um dia ser astronauta.
Mas hoje, ao leme de naus intergalácticas, ele boceja frequentemente e tem saudades de um campo onde pudesse trocar a barriga pelo cheiro ágil de couves frescas ou malmequeres delicados. As viagens custam-lhe como a quem se levanta para ir trabalhar com impressos.
Que terá mudado em trinta anos?
Tem ali o leme, a nave e os planetas que, em criança, sonhara.
Falta-lhe só a infância e o que na infância são os dois tesouros maiores de todos: tempo a haver e sonhos.

Vila Real, já 06 de Junho de 2010.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem-supra é a do cartaz do filme “A Guerra das Estrelas (1977), de George Lucas, e foi colhida – com a devida vénia – em http:www.cineteka.com.]

sábado, 5 de junho de 2010

Cão e Sol


A noite anda atrás de mim como cão estranho.
Atira-se-me às pernas, rosna-me doenças e morte
Espuma de raiva incontinente, culpando-me
Da condição que de vivo vou levando.

Por ter medo da noite como de cão estranho
Às vezes fecho muito os olhos para enganar a escuridão
E invento por dentro do nocturno presente
Um sol.

Antes sol que mal acompanhado.

Ribeira de Pena, já 05 de Junho de 2010.
Joaquim Jorge Carvalho
[Nota: o último verso já habitou um poema escrito em 1996 (que integrava o volume Milésimo de Torga).]

sexta-feira, 4 de junho de 2010

2 Poemas do (meu) Milésimo


1. Falta de Mar

Aqui
O voo dos pássaros são ondas
Mas não há mar.

A distância tem a profundura dos oceanos
Mas não há mar.

O verde a sul da lua são algas boiando
Mas não há mar.


Se aqui houvesse mar
Em vez deste poema eu faria
Um barco.


2. Rios aqui

Os rios (sabe-se) correm para o mar.

O mar (aqui) não se vê
Mas existe.

O limite dos meus olhos é ainda o rio
Mas havendo fé no olhar
O limite é o mar.

O mar é o que há para lá do que vejo
Uma espécie de Deus
No meu poema.

Em mim escrever é sobretudo uma forma
De acreditar.
Não acreditar é uma modalidade de inferno
Mas escreve-se também.


Ribeira de Pena, já 04 de Junho de 2010.
Joaquim Jorge Carvalho
[Uma primeira versão destes 2 textos foi escrita em 1996, integrando o volume de poesia Milésimo de Torga. Foto JJC.]

quarta-feira, 2 de junho de 2010

Quatro Poemas do (meu) Milésimo


1. A Lua

E disse Deus aos homens e aos montes:
Eu vos declaro unidos
Até que o Norte vos separe.

Sendo certo que o norte do norte máximo
É a lua –
Ficou para sempre o amor do homem
Com medo dos céus.


2. As estrelas

A meu modo, pesco estrelas
Com santa paciência e bondade,
Inutilmente –

Quando sorriem, trans-rainhas de mim
De lá de cima
É evidente e brilhante a minha derrota
Mas também
O meu destino.



3. O destino

Os outros
São seres à superfície
Rentes à vista.
Mas eu não –

Sou água milenar das profundezas
Sub-cave da montanha mais alta
Rés-do-chão das algas no lugar do mar.

A minha identidade é um caminho:
Não nasço, ergo-me
E meus passos são uma teimosia
Contra o vento.

Todas as brisas existem contra mim
E cada sopro adversário é uma faca
E cada gesto meu é uma agilidade
E cada resistência é uma ferida.

Não fujo
Não posso
Não quero fugir.
A morte de mim será uma cicatriz florescendo
E haverá no devir do pus, da dor
Uma rosa-lápide cheirando a alma
E a sangue silvestre.

Ergo, sum.
Não fujo
Não fico
Vou
Vou sempre!


4. O milagre

Uma coisa chamada mão encontrou-me
E a minha mão encontrou uma coisa chamada mão.
A coisa chamada mão deu-se-me
E eu dei a minha mão à coisa chamada mão.

A este milagre
(complexo, na aparência enunciatória)
Chama-se mãos dadas
Ou luz.


Ribeira de Pena, 02 de Junho de 2010.
Joaquim Jorge Carvalho
[Uma primeira versão destes 4 textos foi escrita em 1996, integrando o volume de poesia Milésimo de Torga. Foto JJC.]

Caeiro, Senhor


O senhor Caeiro é um heterónimo de Deus.
O senhor Caeiro é um pastor (isso
está escrito).
O senhor Caeiro é muito meu vizinho
E pobre.
O senhor Caeiro vive viuvamente
Num casebre.

Ninguém sabe se o senhor o Caeiro é o Caeiro
De Pessoa –
Essa é a maior prova de ele ser o Caeiro
De Pessoa
(Deus, portanto).

O senhor Caeiro tem mau hálito
(Mas ao cantar não parece –
Os seus versos são silvestres como água
Limpa.)

O senhor Caeiro é o meu pastor
Preferido.


Ribeira de Pena, já 02 de Junho de 2010.
Joaquim Jorge Carvalho
[Escrevi uma primeira versão deste texto em 1996, integrando-o, então, no volume Milésimo de Torga. A imagem-supra é de Silva Porto (1850-1893) e foi colhida – com a devida vénia – em http://www1.ci.uc.pt.]

Rato do Futuro


Disse o urbano hamster para o amigo transmontano:
- E o fumo, e os carros, e o cimento (que são o mundo), onde estão?
Respondeu o transmontano rato:
- Vê tu ali o monte chamado da estupidez. Vê, depois, o monte mais alto dito do futuro. Há no meio dos dois um monte que ainda não se vê: aí encontras as ausências que procuras.
Esta conversa ocorreu no cimo de um monte chamado da memória (a quilómetros da vila onde resido), juntinho à estrada onde viria a morrer, atropelado por um automóvel de matrícula estrangeira, o hamster urbano com saudades do fumo.


Ribeira de Pena, já 02 de Junho de 2010.
Joaquim Jorge Carvalho
[Escrevi uma primeira versão deste texto em 1996, integrando-o, então, no volume Milésimo de Torga. A imagem-supra é do filme Ratatouille (2007), de Brad Bird, e foi colhida – com a devida vénia – em http:www.adorocinema.com.]

terça-feira, 1 de junho de 2010

Casa procura Inquilino


Era uma vez um livro sem mim
Era uma vez uma casa vazia
Era uma vez o silêncio da solidão

Era uma vez um leitor
Era uma vez eu entrando num livro
Era uma vez uma casa habitada

Era uma vez a leitura
Era uma vez uma luz feita de palavras
Era uma vez uma casa iluminada no meu coração

Era uma vez um livro comigo

Era uma vez um livro sobre mim


Ribeira de Pena, 31 de Maio de 2010.
Joaquim Jorge Carvalho
[Este poema foi escrito em Coimbra, em 2009, a pensar na actividade “Manjar das Letras” que o Agrupamento de Escolas de Ribeira de Pena levou a efeito, com supervisão da MP. A imagem-supra é a da capa de As Aventuras de Huckleberry Finn, de Mark Twain, numa edição da Relógio d’Água, 2009.]