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sexta-feira, 12 de maio de 2017

O carpinteiro sem jeito



Era uma vez um viúvo com dois filhos a cargo. O mais velho cedo começara a acompanhar o pai nos trabalhos do campo. O mais novo, apesar de mostrar uma inteligência invulgar e uma enorme aptidão para a escrita, era visto pela população como preguiçoso e inútil: mal sabia cavar, cansava-se (ou aborrecia-se rapidamente) e não poucas vezes era apanhado pelo irmão mais velho a ler, escondido atrás de uma árvore ou de um muro, livros de aventuras. O pai irritava-se com ele e, de vez em quando, castigava-o à noite, suprimindo-lhe o jantar. 
O padre da aldeia, que andava a ler As pupilas do senhor reitor, de Júlio Dinis, sugeriu que o viúvo pusesse o filho num seminário, pois a vida religiosa garantiria ao rapaz uma vida virtuosa, merecedora do respeito de todos e, assim que se ordenasse, também com direito a casa e a comida oferecidas pelos paroquianos que lhe coubesse em sorte. E lá foi o rapaz para o Porto, sem entusiasmo que se visse. Desistiu, contudo, ao fim de poucos meses. 
- Aquilo não é para mim, meu pai. Eu prefiro a natureza, o convívio com as pessoas… e hei-de querer, um dia, uma mulher e uma família!
O pai encolheu os ombros e tentou, com paciência de santo, ensinar-lhe o ofício de carpinteiro (ocupação a que se dedicava o próprio irmão, há trinta anos). Mas o filho revelava pouco jeito e era frequentemente vítima da troça do tio (irmão do pai), que a toda a gente garantia, sobre o sobrinho, que era “a maior ave rara que já vira na vida”.
Aos vinte e dois anos, o irmão mais velho era já um lavrador respeitado pela aldeia e arredores. O pai lamentava-se:
- Que há-de ser do futuro deste rapaz? Agora deu-lhe para escrever versos!...
O tempo passou. Morreu entretanto o tio carpinteiro e o poeta teve de se dedicar mais a sério à carpintaria. Mas era mais frequente vê-lo na escrita do que a serrar tábuas ou a martelar pregos. Pouco dinheiro retirava do seu trabalho, na verdade. Por piedade, o irmão, já casado e com filhos, lá o convidava para almoçar ou jantar, pois bem notava a sua magreza e a sua palidez.
Até que a escrita de tantos anos deu em compensar: veio um prémio de Lisboa, atribuído pelo Ministério da Cultura; depois, uma medalha oferecida pelo Presidente da República; elogios, dinheiro e prestígio de indivíduos e instituições diversas.
O carpinteiro tornou-se escritor famoso e quase rico. Na condição de remediado, o irmão mais velho, certo dia, lamentou-se na tasca do Manuel Tibúrcio:
- Fartei-me de trabalhar e mal ganho para as sopas. O meu irmão passou a vida a escrever e só falta beijarem-lhe os pés… Acha justo, ó Tibúrcio?
Foi um velho professor, já reformado, quem lhe respondeu:
- Tu és um homem bom, trabalhador e honesto, não há dúvida! Mas o teu irmão não te fica atrás – o seu ofício é que é outro. É um poeta!
- E para que serve isso, senhor professor? – reagiu o taberneiro, que estava inclinado a tomar o partido do irmão mais velho.
O professor suspirou e disse:
- Para pôr em palavras o que vemos, sentimos e não somos capazes de dizer. Para nos confortar. Ou simplesmente para criar beleza. Parece-te pouco?
Ao longe, sob o Sol, uma cigarra cantava, e era como se a sua música fizesse parte da luz que iluminava a aldeia.

Arco de Baúlhe, 03 de Maio de 2017.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, na internet.]

sexta-feira, 24 de abril de 2015

Fogo



Convidou-a para um cineminha vespertino e ela aceitou. Viram um filme (talvez sueco ou norueguês) sobre a vida na pré-história. Mais ou menos a meio, uma tribo festejava o nascimento do fogo, produto mágico da fricção persistente de um graveto em outro graveto. Ele serenamente sorriu, por essa altura. Porque uns bons dez minutos antes, quando o seu joelho tocara no dela (ou o joelho dela tocara no dele), um fogo muito maior se lhe acendera já.

Ribeira de Pena, 22 de Abril de 2015.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.gcn.net.br.]

sexta-feira, 11 de julho de 2014

História Familiar (1)

[Conto de minha autoria, incluído na obra 39 Poemas e Contos Contra o Racismo (Edição ACIDI)]



Eu não falo e só olho à volta quando ninguém está a olhar para mim. Vivo dentro de uma nuvem e quase mais ninguém entra nela (só a minha mãe e a minha irmã, às vezes, porque ambas não são bem outras pessoas, são como se fosse eu próprio).
Eu sou aquele à direita, na fotografia sobre o aparador. Eu sou aquele junto à senhora de vestido verde com a barriga grande. A senhora de vestido verde é a minha mãe. O meu pai, na fotografia, é aquele homem alto com um bebé ao colo. O bebé cresceu e tornou-se o meu irmão grande. Isto é, o meu irmão tornou-se maior do que eu.
Eu lembro-me do dia em que a fotografia foi tirada. Era uma manhã de Verão. Estava connosco um Estranho. Estava connosco um Outro. O meu pai pediu ao Outro que nos tirasse uma fotografia. (“Ó primo, tire-nos uma fotografia.”) A praia também ficou na fotografia, por detrás do cabelo da minha mãe. A praia chama-se Figueira da Foz. Ainda lá vamos, mas é raro. O Outro já morreu. Ouvi o meu pai, um dia, lamentar a sua morte por ser ainda tão novo para morrer. (“Coitado do teu primo. Era ainda tão novo para morrer.”) Por mim, acho que é sempre cedo para se morrer, mas isto não se aplica aos Outros, porque os Outros, como eu os vejo, já estão mortos, mesmo que estejam vivos. Na fotografia, a minha mãe tem a barriga muito grande. Soube, depois, que havia um bebé dentro da sua barriga. O bebé apareceu em nossa casa a um domingo. Era uma menina. A minha mãe mostrou-ma e disse-me que eu agora já tinha também uma irmã. (“Olha. Agora também já tens uma irmã.”)
Gosto de passar despercebido. Preciso de passar despercebido. A maior parte das vezes consigo passar despercebido. As pessoas, quase todas, são Outros. Quero dizer: quase todas passam por mim como se eu fosse ninguém. É como se a minha nuvem fosse um manto mágico e eu andasse pelo mundo tão invisível como um sonho secreto.
Mas eu sei muito. Vejo quase tudo, ouço quase tudo, sinto quase tudo.
O meu pai tem o cabelo avermelhado e os olhos claros. A sua voz é forte. É uma voz que assusta de início, mas que se torna mansa logo a seguir.
A minha irmã tem os olhos azuis. Ao princípio, achava que era um bocadinho de céu em visita à minha casa. A sua voz parece um canto de ave pequenina ou, então, um longínquo murmúrio do mar, entre a Figueira da Foz e Buarcos. A sua voz. Estou a ouvi-la só por falar nela. A minha irmã toca-me ao de leve na cabeça e eu, apesar de normalmente não gostar que me toquem (sobretudo que me toquem na cabeça), consigo ficar quieto, sem gritar nem fugir. Só a ela e à minha mãe concedo esse direito.
O meu irmão é, visto-sentido de dentro da minha nuvem, mau. O meu irmão é mau. Ouço-o gritar com a minha mãe, o meu pai, a minha irmã. Interrompe, com gargalhadas ou resmungos, a música ou o mar que é sempre a minha irmã contando histórias da universidade. Eu corro, nessas ocasiões, para o meu quarto e sento-me na cama a abanar a cabeça para a frente e para trás, até a minha raiva adormecer e eu sentir que a minha nuvem já se recompôs. A minha nuvem quebra-se e recompõe-se, é assim. Quando isso acontece, sinto muito calor na cara e os cavalos dentro do meu coração deixam de correr como doidos. O regresso da minha nuvem faz-se como se ela fosse um puzzle grande: os seus cacos tornam-se, de novo, uma nuvem inteira.
Ouço frequentemente o meu irmão a empurrar a mesa e as cadeiras, a bater com as portas, a sair de casa, sempre aos gritos. Por vezes, berra na minha direcção:

-O autista é que manda nesta casa de doidos! Tenho de vos pedir desculpa de ser normal, não?

História Familiar (2)

[Conto de minha autoria, incluído na obra 39 Poemas e Contos Contra o Racismo (Edição ACIDI)]




A minha mãe tem uma voz doce. A minha mãe tem a voz de uma nuvem. É como se eu falasse pela sua língua. Sinto-a sempre tão próxima que, às vezes, não sei se é ela ou eu próprio alisando os cobertores, ajeitando a almofada ou desligando o interruptor do candeeiro. A minha mãe cheira a flores, a pão com manteiga, a frutos, ou talvez seja eu que sinto jasmins no meu quarto por ouvi-la falar de jasmins, ou que identifico o odor de maçãs por causa da cor do seu vestido, ou que sonho com pão quando ouço, logo de manhã, os seus passos muito vivos na cozinha.

Ao domingo, almoça connosco uma espécie de pai mais velho. É o pai do meu pai. É o meu avô. O meu avô tem os olhos do meu pai, o nariz do meu pai, a boca do meu pai (com menos dentes). Assobia como o meu pai para chamar o nosso cão. O meu pai chama-lhe pai, e eu fico a pensar, dentro da minha nuvem, que isso é muito estranho. O meu avô é, como eu o vejo-sinto, mau. O meu avô berra tanto como o meu irmão. Toda a gente parece ter medo dele. O meu irmão também parece ter medo dele, embora o meu avô poucas vezes se zangue consigo. Quando o meu avô se enerva, parece que há uma trovoada ou uma guerra dentro da cozinha ou da sala de nossa casa: o meu avô fica vermelho como um fogo grande, sai de casa a dizer que o meu pai é um banana. (“És um banana! Um banana, filho!”) O meu avô chama filho ao meu pai, é de facto muito estranho. Por causa do meu avô, detesto os domingos. À hora das refeições, fico ao seu lado e, para não tremer, costumo fechar os olhos e fazer de conta que ele não existe, não existe, não existe.

A minha irmã chama-se Clara. A mãe esteve a conversar baixinho com ela, num canto da cozinha. Falam assim para mais ninguém ouvir o que dizem. Mas eu ouço e elas não se importam. O avô não gosta que falem baixinho, quero dizer, não gosta que falem sem que ele possa ouvir. Queixa-se ao meu pai (que é seu filho), diz que é uma falta de respeito para com o chefe da casa. (“Ouviste? É uma falta de respeito para com o chefe da casa, meu banana!”) Chefe significa que manda. A mãe fica triste com as palavras do avô. Se o meu pai fala consigo do assunto, ela grita, muito nervosa, ou fica em silêncio. O meu pai dá-se mal com os silêncios ou os gritos da minha mãe: antes de se fechar no quarto, batendo a porta, o rosto torna-se-lhe vermelho, os olhos grandes e maus, as mãos agitadas como uma renda frágil. O meu irmão ri-se e diz que a culpa é da Clara. A Clara tem um amigo especial, como bem percebi na conversa sussurrada na cozinha. Eu quis saber quem é. Perguntei-lho com os olhos e estalinhos na boca. Quando não estou muito nervoso, eu consigo fazer estalinhos na boca. A Clara sorriu, com aquela doçura dela que é um céu para mim. A mãe é que me explicou que a Clara tinha um namorado. (“A Clarinha tem um namorado.”)

História Familiar (3)

[Conto de minha autoria,  incluído na obra 39 Poemas e Contos Contra o Racismo (Edição ACIDI)



Sei o que são namorados: é como a minha mãe e o meu pai juntos naquela fotografia do seu quarto, ambos com os rostos tão mais novos, quando ainda não eram a minha mãe e o meu pai. Um dia, disse-me a mãe, a Clara vai ser mãe de alguém como eu. (“Um dia, filho, a Clarinha também vai ser mãe de alguém como tu.”) Mas talvez a minha irmã venha a ser, um dia, mãe de alguém mais fácil do que eu.
O meu pai ouviu a minha mãe e ficou muito preocupado, vi-o na cara severa que deitou sobre o jantar. A mãe, aflita, murmurou-lhe alguma coisa (eu tentei ouvir, mas em vão). O avô e o meu irmão gargalharam, os dois muito longe da nuvem boa que devia haver sempre. O pai limpou os lábios num guardanapo azul e, sem dar tempo a gritos do avô ou do meu irmão, autorizou que o amigo da Clarinha viesse almoçar connosco no próximo domingo (“Podes trazer o teu namorado, filha.”). Domingo é um dia diferente. A mãe vai à missa, o pai trata da casota do cão, o meu irmão e a minha irmã dormem, quase sempre, até muito tarde e o avô, depois de cheirar o almoço, vai ao quiosque comprar um jornal com muitas páginas e muitas notícias.
Neste domingo, a minha irmã entrou na sala acompanhada de um Estranho. De um Outro. O meu irmão murmurou qualquer coisa, mas mais para dentro de si, nem eu consegui ouvi-lo. Talvez dissesse algo mau, como de costume. O meu pai cumprimentou o Outro com um passou-bem. A minha mãe deu-lhe dois beijinhos na cara (um beijinho em cada face). A minha irmã trouxe o Outro até mim e disse qualquer coisa, decerto algo doce, porque era a minha irmã falando comigo. Eu deixei que o Outro me tocasse no ombro direito, sem gostar disso, mas tão-pouco fugindo do toque. Aconteceu que senti que aquele Outro era parte, talvez, da minha irmã, isto é, não me pareceu que ele se tratasse verdadeiramente de alguém estranho. A Clara disse-me junto ao ouvido que o Outro era o seu namorado, o Carlos. “Este é o meu namorado. É o Carlos.” A minha irmã chama-se Clara. O Outro chama-se Carlos. Olhando de soslaio para o Outro, soube que ele tinha o mesmo sorriso da minha irmã. Tenho percebido que os sorrisos e a brutidade das pessoas são coisas contagiosas. No caso dos sorrisos, é algo bom, é até um prazer acolher rostos destes na minha nuvem. No caso da brutidade, é uma coisa assustadora. Basta pensar na raiva que passou, creio eu, do meu avô para o meu irmão. É como se de um bicho do mal pudessem nascer outros bichos, muitos bichos cheios de vontade de invadir a minha nuvem e talvez de me destruir.
Um dia, escondido num canto da minha garagem, dei com o meu irmão e o meu avô preparando a morte de uma aranha. A aranha era gorda e, decerto prevendo o que lhe ia acontecer, aninhara-se entre o armário das ferramentas e uma velha cadeira de metal. Pensei, na altura, que era assim também, em geral, a minha vida: acantonado, muito bem fechadinho na minha querida nuvem, à espera que os outros se fossem embora. A aranha também queria decerto que o meu avô e o meu irmão a deixassem quieta e em paz, na sua nuvenzinha de aranha de garagem. O meu avô e o meu irmão riam-se sem alegria. Vi o meu avô acender um isqueiro e aproximá-lo da aranha. E depois a aranha começou a arder. Sucedeu então que o meu irmão gritou, agarrando-se ao avô. Assustei-me de o ver tão assustado, mas não deixei de observar o resto da cena. Vi muitas aranhas, muitas aranhas pequeninas saindo da aranha sua mãe, todas correndo e morrendo quase ao mesmo tempo.



Tenho medo de aranhas. Não gosto de aranhas. Mas tive pena daquela porque, na verdade, o seu medo do meu avô era igual ao medo que, a cada domingo, eu costumava sentir. O meu avô chamou maricas ao meu irmão (“És um maricas, rapaz!”) Eu fui para o meu quarto abanar a cabeça, para trás e para frente, sentado aos pés da minha cama, da minha cama muito bem feita pela minha mãe. Tive de esperar muito tempo, dessa vez, até ao regresso da minha nuvem querida. Porque a minha nuvem quebra-se e recompõe-se, é assim. Digamos que é uma espécie de puzzle contra a desgraça. A minha nuvem protege-me, salva-me de morrer.

História Familiar (4)

[Conto de minha autoria, incluído na obra 39 Poemas e Contos e Contra o Racismo (Edição ACIDI)




No domingo em que a Clara trouxe o Carlos, o meu avô atrasou-se. O meu avô chegou já depois de todos termos almoçado. Na mesa, apenas estava ainda o meu pai e eu. O meu avô queixou-se do barulho à noite junto de sua casa. Disse que a sua rua estava cheia de vândalos e que a polícia não queria saber. (“A minha rua está cheia de vândalos! A polícia não quer saber!”) Depois, saímos para o jardim e o meu avô viu o Carlos brincando com o cão. Olhou para o Carlos como se ele fosse apenas um Outro qualquer, sem nada que ver com a Clara, e ordenou-lhe que não tocasse no cão (“Não toque no cão, ouviu?”). A seguir, houve muito barulho, tanto barulho, demasiado barulho, muitos cacos rompendo a paz da rua, da casa, da minha nuvem. Todos pareciam gritar. O meu avô gritava mais do que todos. O pai gemia como se ralhasse-chorasse com as mesmas palavras. A mãe chamava pela Clara (“Clara! Clarinha!”), muito aflita, com o cabelo caindo-lhe desajeitadamente sobe o olhar. O meu irmão soltou uma gargalhada da casa de banho, aparecendo com a escova dos dentes na mão e um fio de espuma escorrendo-lhe da boca. O meu avô perguntou, berrando, ao meu pai:
- Mas afinal quem é o preto?
O preto era, visto pelo meu avô, o Outro. Acho que preto era mesmo a sua forma de dizer o Outro. O Outro, para mim, já era o Carlos. O Carlos saiu de nossa casa com um olhar triste. Saiu, segundo me pareceu, como se caminhasse dentro de uma nuvem sua. Ainda assim, sorriu-me, e na boca vi-lhe o mesmo sorriso que costumo ver na minha irmã Clara.
O avô não quis a sopa que a mãe lhe ofereceu. Disse que a paciência tinha limites (“A paciência tem limites, catano!”). Eu fui para o quarto da Clara e sentei-me a olhar para ela, abanando um pouco a cabeça para a frente e para trás. Ela tocou na minha mão e eu deixei. Se eu fosse capaz de falar, dizia-lhe ali que ela era um céu e que, em ela querendo, eu a deixaria habitar a minha nuvem; que, em ela querendo, eu lhe daria a minha nuvem. A minha nuvem, Clara, comigo dentro, para tu estares, para tu viveres. Para tu, explico, fugires dos gritos que a brutidade produz e espalha, como aranhas más.
O meu pai disse ao meu avô que já era hora de crescer. Que já era hora de todos crescerem. O avô começou a gritar, o pai começou a gritar. O meu avô gritava muito alto. O meu pai gritava mais alto do que o meu avô. A minha mãe tinha os olhos molhados e tocou na mão do meu pai. Gosto muito de ver a mão dela na mão dele. Certa noite, vi a minha mãe e o meu pai amontoados, sob os cobertores da sua cama. Os dois como se fossem um apenas. Assustei-me com o som que faziam, uma correria de sussurros magoados. Eu julguei que estivessem ambos a chorar. Mas eles olharam para mim e eu vi-senti que estavam felizes. O meu pai deslizou para o seu lado da cama e a minha mãe sorriu para mim, inteira e linda, com os olhos molhados. Ela quis saber se estava tudo bem comigo (“Está tudo bem contigo, meu querido?”) e havia na sua voz e no seu rosto muita felicidade, tanta felicidade.
No final daquela tarde de domingo, a minha mãe tinha também os olhos molhados e a sua mão estava na mão do meu pai. Notei como ela o mirava ternamente, como se lhe agradecesse o ter gritado com o meu avô. O Carlos disse obrigado ao meu pai. (“Obrigado, senhor José.”) A Clara sorriu. O meu irmão ficou em silêncio. O meu irmão não costuma ficar em silêncio. O meu irmão ficou em silêncio, como se estivesse nessa altura muito livre da brutidade habitual. O meu avô saiu de casa e agora vem visitar-nos menos vezes.
Eu gosto do meu pai e da minha mãe. Gosto um pouco menos do meu irmão, mas afinal o meu irmão não é bem mau. Tem-me parecido menos bruto, o meu irmão. É por isso que digo que o meu irmão não é bem mau. É só alguém incompletamente bom. Gosto mais, sem dúvida, da minha irmã, a Clara. O Carlos está muitas vezes com ela. Já ninguém o vê como Outro. Está com a minha irmã, é uma parte da minha irmã. É o Carlos.
O meu avô, há dias, pôs-se a falar para mim. Tinha bebido o vinho todo da garrafa do almoço, enquanto o pai e a mãe estavam no sótão a arrumar roupas e calçado. Creio que não lhe passou pela cabeça que eu o entendesse. Falava como se não falasse. Tinha a voz esponjosa como se tivesse a boca cheia de batatas cozidas. Lá foi dizendo que gostava de toda a gente, até de mim. (“Até de ti, criatura!”). E que ninguém o compreendia, que a família tinha endoidecido, que todos um dia se haveriam de arrepender, que lhe haveriam de pedir desculpa, e que só quando o Outro se fosse embora é que tudo voltaria à normalidade (“Ninguém me compreende. A família endoideceu. Um dia, todos se hão-de arrepender e hão-de pedir-me desculpa. Só quando o preto se for embora é que tudo volta à normalidade…”)
O meu avô, visto-sentido como eu o vejo-sinto, é que é o Outro.


FIM

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

Rei fora da história


Houve, parece, um quarto rei mago naquela história de há dois mil e onze anos (mais ou menos natal). O seu caminho não teve, ao contrário dos seus três homólogos, estrelas. E ele perdeu-se, atrasou-se, desesperou, maldisse – Deus lhe perdoasse – a ideia de se ter posto a caminho.
Nunca se fala do quarto rei mago porque ele se perdeu da história. Parece, aliás, que nunca chegou a conhecer o menino a quem levava, de uma praia do seu reino, certa areia branca num pequeno cofre. A areia era diferente de todas as areias jamais vistas na Palestina, mas ele nunca o chegou, parece, a provar.
Ao chegar a Belém, o quarto rei mago soube da inutilidade da sua viagem e, disso não há dúvida, chorou. Ofereceu a areia essa uma criança árabe que brincava junto ao mercado dos frutos. Depois, reentrou no deserto de onde viera lamentando a sua sina pobre em estrelas e em sorte.
Caminhou por mais de mil anos, até aqui, a este texto aparecido em

Vila Real, a 07 de Fevereiro de 2012, assinado (pouco rigorosamente) por
Joaquim Jorge Carvalho

[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www. eportuguese.blogspot.com.]

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

Biografia de um ex-poeta


Era uma vez um poeta pobre. (Poeta pobre, numa narrativa portuguesa, é quase redundância, convenhamos.) Muito cedo órfão, ele vivera trinta e poucos anos às custas de uma avó remediada e, durante esse tempo, mais não fizera que contemplar o mundo e escrever versos se lhe apetecesse.
Quando a avó morreu, a necessidade de sobreviver obrigou-o a tomar novo rumo, porque da fome não estão dispensados nem os maiores líricos. Pediu emprego numa série de lojas, empresas, instituições e, para sua surpresa, ninguém pareceu reconhecer-lhe utilidade ou interesse, não obstante a qualidade da sua sintaxe e a variedade do seu vocabulário.
Até que conheceu uma engenheira loira, mulher linda linda que transportava em seus olhos a cor indefinível de certas manhãs primaveris. Era ela a líder dos recursos humanos na poderosa Transportex International e, tendo escutado do homem o pedido de trabalho, levou-o a sério.
Aquela donzela linda linda percebeu os motivos do interlocutor, mediu bem a urgência do seu discurso, tomou até como natural a profissão que ele afirmou exercer até aí: poeta.
- Que género de poeta? – quis saber.
Em resposta, o homem deu-lhe para a mão cerca de quinhentas páginas de versos – dísticos, quadras, quintilhas, sonetos, alguns parágrafos em prosa poética.
Competente, a linda linda dama foi para casa e leu um a um cada texto. A leitura levou uma semana e muito a emocionou a generosidade com que o artista ali tratava da violência da mortalidade, do desamor seguinte ao amor, da injustiça do mundo, da falência da esperança, das saudades de uma perdida meninice.
“Versos contra a passagem do tempo, contra o desconcerto do mundo, contra a imperfeição do universo”, pensou.
E mais pensou:
“E versos que compreendem tão bem a grandeza de cada gesto humano por mínimo que pareça, isto é, versos de lúcida bondade e de, digamos assim, consolação.”
Na segunda-feira seguinte, chamou o homem ao seu gabinete e ofereceu-lhe emprego.
Desde esse dia até hoje, o ex-poeta ficou a trabalhar na área de "apoio ao cliente – secção de reclamações e devoluções".

Arco de Baúlhe, tarde-noite de 02 de Fevereiro de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem (depois editada e trabalhada) foi originalmente colhida, com a devida vénia, em http://www.catteryfernando pessoa.com.]

terça-feira, 21 de junho de 2011

Anedota ordinária (com Bocage, para disfarçar)


Era uma vez, outra vez, Bocage.
Noite sadina avançada, o poeta ama uma cantora estrangeira (talvez italiana, se considerarmos o facto de ela gemer com as vogais muito abertas) e compõe, mentalmente, certo soneto com vocação para escândalo.
Na sala ao lado, um amigo do escritor, religioso mais de ofício que de vocação, extermina garrafas de tinto e pedaços de frango, fingindo-se incomodado com o barulho dos amores vizinhos. Berra:
- Manuel Maria! Elmano! Afasta-te das mulheres que elas são o Mal!...
O pré-romântico responde-lhe lá de dentro, comovido pela violência (urrada, dramática) do êxtase da fêmea:
- Deixá-lo, padre inquisidor. Há males que se vêm por bem!

Ribeira de Pena, 20 de Junho de 2011.
Joaquim Jorge Carvalho

sábado, 16 de abril de 2011

Anedota com sapatos


Centro comercial, um casal sessentão, fim de tarde.
Ela lamenta-se:
- Vi algumas mulheres com sapatos como eu queria...
Ele (um brilho filho-da-mãe nos olhos):
- Eu também.
Ela (desconfiada):
- Tu também?
Ele (o filho-da-mãe do brilho nos olhos de lobo reformado):
- Pois. Vi algumas mulheres como eu queria.
Ela (indignadíssima):
- Como tu querias?
Ele (filho-da-mãe):
- Com sapatos, filha. Com sapatos.

Coimbra, 16 de Abril de 2011.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.efacec.pt.]

sexta-feira, 8 de abril de 2011

Roedores


Era uma vez um homem reformado e viúvo que, por gostar tanto de ler, se esqueceu de cuidar da higiene própria e da casa.
Ao fim de alguns meses de obsessiva dedicação à leitura, a casa era um antro de odores e de lixo espalhado por corredores, quartos, cozinha, sala, biblioteca.
O que mais lhe custava era a quantidade de rataria com que sempre se cruzava, de dia ou de noite, e sobretudo o ruído que os roedores faziam devorando restos de comida ou livros.
Aos ratos que pastavam no lado da biblioteca, chamava “inteligentes”; dos outros dizia que eram “a turba”. Esta discriminação estendia-se, até, à hora da morte dos hóspedes: quando encontrava um qualquer sobre o lava-louças, na cozinha sebenta, o homem murmurava com notório desprezo: “Viveste estupidamente e morreste estupidamente, meu nabo!”
Quando encontrava um rato jazendo numa prateleira da estante, saudava-o com uma espécie de cúmplice entusiasmo: “Ah, meu maganão! Consolaste-te antes de morrer, hein?…”
E, folheando um livro velho muito degradado, ali a um palmo do roedor falecido, acrescentava: “ Comeste-me os doze trabalhos do Hércules e o episódio do Ciclope!”

Ribeira de Pena, 07 de Abril de 2011.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://cristina-projecto1.wikispaces.com.]

sábado, 28 de agosto de 2010

O Sol é de quem


Este sol é meu, disse o senhor Fidalgo, cioso da luz recém-nascida.
Tementes do poder aristocrático, os velhos faziam de conta que não sentiam os dedos solares beijando-lhes graciosamente a velhice.
Uma criança, contudo, saiu daquele bolor obediente e gritou (repetindo o murmúrio do próprio avô): O sol é de todos.
O senhor Fidalgo hesitou entre o silêncio e o escândalo da indignação verbal. Optou por soprar como um touro poderoso e seguir o seu caminho, na pose proprietária de quem mede o seu tesouro pessoal, ameaçando com o olhar quem se atrevesse a usufruir do sol.
À passagem do o auto-proclamado dono da luz e do calor, a criança repetiu: O sol é de todos - e soltou até um traque admirável para tão jovem organismo.
Os velhos não se contiveram e por toda a praça se escutou uma gargalhada antiga e livre. O senhor Fidalgo disse: Que pouca vergonha, que pouca vergonha.
E os habitantes da vila regressaram, sem medos nem pudores, ao aconchego daquele sol.
O sol, não sei se vós já percebestes, é (mesmo) de todos.

Machico, 25 de Agosto de 2010.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, co a devida vénia, em http://blolog.globo.com.]

quarta-feira, 2 de junho de 2010

Rato do Futuro


Disse o urbano hamster para o amigo transmontano:
- E o fumo, e os carros, e o cimento (que são o mundo), onde estão?
Respondeu o transmontano rato:
- Vê tu ali o monte chamado da estupidez. Vê, depois, o monte mais alto dito do futuro. Há no meio dos dois um monte que ainda não se vê: aí encontras as ausências que procuras.
Esta conversa ocorreu no cimo de um monte chamado da memória (a quilómetros da vila onde resido), juntinho à estrada onde viria a morrer, atropelado por um automóvel de matrícula estrangeira, o hamster urbano com saudades do fumo.


Ribeira de Pena, já 02 de Junho de 2010.
Joaquim Jorge Carvalho
[Escrevi uma primeira versão deste texto em 1996, integrando-o, então, no volume Milésimo de Torga. A imagem-supra é do filme Ratatouille (2007), de Brad Bird, e foi colhida – com a devida vénia – em http:www.adorocinema.com.]

sábado, 29 de maio de 2010

Auto mínimo sobre a Verdade e a Morte


CRISTO: De modo que ressuscitei, para os homens acreditarem na vida eterna.
PLATÃO: E eles acreditaram?
ZÉ POVINHO: Eu cá não acreditei totalmente, digo-vos, mas pelo sim pelo não porto-me bem…
PLATÃO: Mas que queres dizer com isso?
CRISTO: Não percebes? Este homem de boa vontade sabe, em seu coração, que o caminho do bem leva à vida eterna…
PLATÃO: E vós, Jesus de Nazaré, acreditais nisso?
CRISTO: Pois se eu próprio sou a vida eterna, Platão…
PLATÃO: A única vida eterna é a soma de todas as vidas provisórias que aos homens é dado viver.
ZÉ POVINHO: Se a conversa mete contas, retiro-me já…
CRISTO: As verdadeiras contas é meu Pai quem as faz.
PLATÃO: Mas vós já tendes idade para fazer contas sozinho.
CRISTO: Amigo grego, lamento muito que não tenhas fé. Sem esse dom, jamais poderás acreditar seja no que for!
PLATÃO: Eu acredito em algumas coisas. Por exemplo, na necessidade da verdade…
CRISTO: E na necessidade do bem?
PLATÃO: O bem é necessário, sem dúvida. Mas o bem é o mesmo que a verdade.
ZÉ POVINHO: Eu cá gostava era de viver num mundo justo!
PLATÃO: Zé, escuta-me: a justiça, o bem e a verdade são a mesma coisa.
CRISTO: Pois eu sou essa Coisa completa que tu dizes. Sou a justiça, a verdade e o bem.
ZÉ POVINHO: E por isso estais no céu... Bem dizíeis vós que o vosso reino não era deste mundo!
PLATÃO: Pois o que o mundo precisava era que o reino dos céus não fosse nos céus.
CRISTO: Tens a certeza?
PLATÃO: Sou homem. Não tenho a certeza de nada. Mas sei que a justiça, o bem e a verdade valem a pena aqui e agora, no mundo dos homens…
ZÉ POVINHO: A mim tal me parece também, Jesus… Sem querer ofender, bem entendido…
CRISTO: Mas vós os dois, dizei-me, que sabeis afinal da justiça, do bem, da verdade?
PLATÃO: Eu sei delas o que se sabe quando nos falta o que nos faz falta.
ZÉ POVINHO: Platão, explique-se lá melhor, por favor, para eu ver se estou de acordo…
PLATÃO: É simples. Sabemos algo sobre a justiça quando sentimos a injustiça…
ZÉ POVINHO: Bem pensado. Percebemos que nos faz falta o contrário do que sofremos, não é? O meu avô dizia que o remédio começa na doença…
CRISTO: Escutai-me, ambos. A única verdade, neste mundo mortal, é a morte.
PLATÃO: É esse o maior problema da humanidade, tendes razão.
CRISTO: E tu, filósofo sem fé, como o resolves?
PLATÃO: Aceitando a morte, por ser verdade a morte.
CRISTO: Ah! Resolves um problema, aceitando-o?
PLATÃO: A verdade é a verdade. A verdade resolve. A verdade nunca é um problema.
ZÉ POVINHO: Ou, como dizia o meu avô, o que não tem remédio remediado está!
CRISTO: Chega! É a última vez que vos trago comigo em passeio sobre as águas do rio Jordão.

Vila Real, 29 de Maio de 2010.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem-supra (rio Jordão) foi colhida, com a devida vénia, em wikipedia.]

domingo, 16 de maio de 2010

A Oficina Literária (Fábula)



1.
Era uma vez um homem que tinha uma livraria. O homem era filho de um conhecido comerciante e de uma costureira. Antes de o homem ter uma livraria, os seus pais haviam mantido um bem diferente negócio numa cidade pequenina, junto ao mar: uma loja de roupas que fornecia também serviços de ajustamento ou reparação de peças de vestuário (ali compradas ou não).
Até à reforma, a loja fora um sucesso, mas o filho do casal formara-se entretanto em letras e preferira investir no negócio dos livros.
Não obstante terem pena, os pais venderam a loja e financiaram uma livraria.
Inspirado pela experiência profissional da filiação, o herdeiro decidiu que, além da venda de literatura, aquele espaço comportaria um serviço de reparação de livros com defeito. Mas tinham de ser livros comprados na sua loja, porque o homem era ainda solteiro e não podia estar a ocupar-se de todas as peças defeituosas do universo literário.
À secção de reparações de livros avariados chamou, sem grandes investimentos de imaginação, “Oficina Literária”.
A história que aqui se conta aconteceu logo ao segundo dia de funcionamento deste serviço.

2.
Numa manhã fria de Março, aí pelas dez horas, duas pessoas chegaram, praticamente ao mesmo tempo. A primeira era uma mulher de talvez 40 anos, de olhar triste: trazia um sucesso editorial de certa autora muito elegante que ganhava a vida a escrever histórias que supunha originais. A segunda era um homem de talvez 30 anos, cheirando a perfume caro: trazia um opúsculo esverdeado de um poeta português do século XX.
O dono da livraria (e da oficina literária) começou por atender a mulher. Perguntou:
- Minha senhora, qual é o problema com esse livro?
- Nem sei explicar bem. Talvez tenha a ver com o título … - respondeu ela.
- Os títulos podem ser enganadores – lembrou o homem.
- Talvez. Mas como falava em amor, sabe, eu achei que não poderia tratar-se de engano…
- Deixe-me ver.
O homem, então, leu uma, duas, vinte e quatro páginas e, já convencido da avaria reportada, disse:
- Tem razão. É um problema de fabrico. O livro tem defeitos irreparáveis. Tecnicamente, trata-se de um problema de vacuidade literária…
- Mas – contrapôs a mulher – o livro parece bom. Tem palavras, tem uma história…
- Histórias e palavras nem sempre chegam para se fazer um livro, minha senhora. Falta aqui o mais importante – disse o homem.
- O que é? – perguntou a mulher.
- Não lhe posso dizer – respondeu o homem.
- É segredo? – tornou a mulher.
- Não exactamente. É (como é que lhe hei-de dizer?) uma questão de alma e de linguagem. É difícil de explicar, na literatura, o que falta quando algo falta, mas nota-se facilmente que algo falta quando nos pomos a ler com olhos de ler.
- E então?
- Então, vou dar-lhe um vale literário na importância do objecto que comprou, acrescida de dez euros de indemnização. Com este vale, a senhora pode comprar um livro que esteja em condições.
A mulher aceitou, agradada da amabilidade e competência do atendimento.

3.
Despachada a primeira cliente da oficina literária, seguiu-se o senhor perfumado.
- O meu problema é o mesmo daquela senhora – avisou.
- Nenhum problema é igual a outro – garantiu o dono da livraria. – Faça o favor de expor a sua situação.
O senhor perfumado explicou:
- Eu chamo-me Rui Merrick. Tenho este nome estrangeiro porque o meu avô era inglês.
- Muito prazer – disse o dono da loja, estranhando a apresentação.
O senhor perfumado continuou:
- Digo-lhe o nome porque a primeira coisa que me encantou no livro foi o nome do autor: Rui como eu.
- Rui Merrick? – admirou-se o dono da loja.
- Rui Belo. Rui com y. Ruy – precisou o senhor perfumado.
- Ah! – exclamou o dono da loja, sorrindo. – Conheço. É um grande escritor.
O senhor perfumado encolheu os ombros, céptico.
- Talvez seja. Mas o título dizia “O Problema da Habitação” e eu, que estou há mais de quinze anos no ramo imobiliário, achei que fosse um livro sobre casas.
- De certa forma, é… – considerou o dono da loja, procurando encontrar palavras que explicassem o funcionamento de uma metáfora.
- Perdão! - interrompeu-o o senhor perfumado. – Não há aqui nada sobre casas. Aliás, tanto quanto percebi, não há aqui nada sobre nada. É um conjunto de palavras incoerente. Falta-lhe (deixe ver se lhe explico isto bem) comunicação.
- Compreendo – suspirou o dono da loja.
- Ora – continuou o senhor perfumado – um livro tem de comunicar, não é verdade?
O dono da loja, um pouco nervoso, dissertou sobre o assunto com esforçada bonomia:
- Para comunicar, caro cliente, é preciso que haja mais do que um elemento. Comunicar é sobretudo um diálogo.
Mas o senhor perfumado parecia zangado com o tom tautológico da exposição. Sem mais palavras, passou o livro para as mãos do dono da loja, e deu em tamborilar com três dedos (o anelar, o médio e o indicador) sobre o balcão de atendimento. Tirando esse batuque impaciente, sucedeu na loja um silêncio embaraçoso que durou uns quinze segundos.
- Então? – perguntou depois o senhor perfumado. – Não me vai ressarcir do prejuízo?
O dono da loja guardou o livro, foi à caixa registadora e devolveu ao cliente o exacto valor que este gastara.
O senhor perfumado contou o dinheiro e perguntou:
- Por que não me deu, em vez disto, um vale literário?
E, lembrando-se de um pormenor importante, perguntou também:
- E por que não tenho direito aos dez euros de indemnização?
O dono da loja, já não nervoso, disse-lhe com sereníssima bonomia:
- O defeito, neste caso, não está no livro. Está no leitor. Lamento, caro senhor, mas a minha oficina não está habilitada a tratar do seu caso. Muito bom dia.

FIM

Ribeira de Pena, 16 de Maio de 2010.
Joaquim Jorge Carvalho
[Este conto foi escrito em Coimbra no dia 9 de Abril de 2010 e lido (de forma dramatizada) no dia 22 de Abril, por mim e pelos meus colegas Olívia Sofia Coutinho, Jorge Magalhães e Telmo Bértolo, durante a sessão “Café & Letras” levada a efeito pelo Agrupamento de Escolas do Arco, no âmbito da celebração do 1.º aniversário da nossa Biblioteca. As ilustrações-supra são da autoria da colega Rosário Coelho.]

terça-feira, 20 de abril de 2010

Cão contra a guerra


Veio até a um lugar geoestratégico nos arredores de Paris, de muito longe, um cão.
Havia por ali, antes de o cão chegar, bastantes homens e muita guerra. Guerra e homens são, na história do mundo, um pleonasmo triste.
O cão veio de muito longe e urinou sobre um tufo de ervas rasteiras.
Urinou pouco tranquilamente, no contexto de calão e tiros, e também de silêncios feridos ou mortos.
Depois, desagradado do lugar, o cão seguiu viagem para muito longe, para lá da lonjura do princípio do texto.
Nem um dia depois, obedecendo à lei de Lavoisier e ao sol, a urina canina transformou-se numa coisa diferente. O cão, segundo se sabe, não.


Ribeira de Pena, já 20 de Abril de 2010.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem-supra é a capa de uma edição brasileira de “O Apelo da Selva”, de Jack London, aqui com o título “O Chamado da Floresta”.]

segunda-feira, 12 de abril de 2010

Uma sílaba de barba


Era uma vez um homem que só escanhoava metade da barba. Isto é, dividia o rosto a meio, no sentido longitudinal, e rapava os pêlos do seu lado esquerdo (pilosidade pescoçal incluída), deixando o lado direito incólume.
A mulher sorriu à ideia do homem. Perguntou-lhe:
- Não fazes a barba toda?
O homem sorriu também e disse:
- Uma parte de mim quer fazer; outra parte não. De modo que, em vez de fazer a barba, faço a bar.
A mulher admirou-se:
- A bar?
O homem explicou-se:
- Sim. Faço apenas uma sílaba da barba.
No final da primeira semana, a diferença entre um lado e outro notava-se bem.
Ao caminhar para o emprego, caminhando ao longo da rua, pessoas do lado direito da sua marcha (o barbeiro, o engraxador, o professor Manolete, a dona Berta da agência de seguros) comentavam, cheias de um azedume burguês:
- Parece que não tem tempo para cuidar do aspecto! Aquilo é doença ou preguiça…
As pessoas do lado esquerdo (o senhor Gregório da papelaria, a menina Lurdes na sua eterna cadeira de rodas, as irmãs Melo da frutaria, às vezes um ou outro marinheiro saindo da pensão Ideal) tinham uma visão diferente:
- Até dá gosto! Sempre muito bem afeitado, com um ar limpo e saudável... Fossem todos assim…
Claro que, no regresso a casa, pelas sete da tarde, o tom dos comentários tendia a transformar-se. As pessoas que o viam regressar, no lado direito da sua marcha (e que, de manhã, lhe ficavam à esquerda do seu movimento andante), admiravam-se bastante do que viam:
- Muito lhe cresce a barba da manhã para a noite. Parece um bicho! Eu não acredito em lobisomens, mas nunca se sabe…
Do outro lado da rua, aqueles que de manhã lhe haviam verberado o mau aspecto, resmungavam novos reparos, carregados de uma ironia venenosa:
- Ainda bem que o emprego lhe dá tempo para fazer a barba. Por isso nos fartamos de esperar na repartição. E queixam-se eles da falta de pessoal…
Dois meses depois da sua ideia, o homem já tinha, no seu lado esquerdo, uma tão imensa barba que, mesmo quem o observava do lado contrário (e sem grande esforço) percebia aquela divisão tão extraordinária.
Dos dois lados da rua, de manhã e de tarde, todos concluíam que se tratava, afinal, de um louco.
Só a esposa, que estava ao corrente da exacta excentricidade do homem, sabia que não era bem loucura. No máximo, seria uma sílaba de loucura. E por isso assegurava, em repetidas conversas com o barbeiro, o engraxador, o professor Manolete, a dona Berta da agência de seguros, o senhor Gregório da papelaria, a menina Lurdes na sua eterna cadeira de rodas, as irmãs Melo da frutaria, às vezes um ou outro marinheiro saindo da pensão Ideal:
- O meu marido é apenas lou.


Ribeira de Pena, já 12 de Março de 2010.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem-supra foi colhida na wikipédia. Trata-se de uma cena de “Recordações da Casa Amarela” (1989), de João César Monteiro, com o próprio no principal papel.]

sábado, 10 de abril de 2010

Morte(s)


O meu anjo da guarda apareceu-me de madrugada, quando eu escrevia novamente sobre o meu pai.
O meu pai morreu-me há 3 anos. Mas, como me lembro dele todos os dias, é como se me nascesse e me morresse continuamente.
O anjo disse:
- Outra vez a escreveres sobre o teu pai?
Eu respondi:
- É mais do que sobre o meu pai. É também sobre mim.
O anjo perguntou-me:
- Sobre ti?
Eu respondi:
- É sobre a morte.
O anjo disse:
- A morte é um assunto muito delicado.
E eu:
- Pois é. Deve ser.
E o anjo:
- Tão delicada que só os mortos deviam estar autorizados a escrever sobre a morte.
E eu:
- Só os mortos?
E o anjo:
- Só os que partiram sabem do que se fala quando se fala da morte.
E eu:
- Mas os que ficam também têm a sua quota-parte de morrer.
E o anjo:
- Quem te disse? Quando o teu pai morreu, só o teu pai morreu. Quando morre uma pessoa, só morre uma pessoa.
E eu:
- Quem te disse?



Coimbra, já 09-04-2010.
Joaquim Jorge Carvalho
[Foto JJC]