Bússola do Muito Mar

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Número de Ondas

sábado, 31 de julho de 2010

01/01/1932 - 30/07/2010


Vi-o ainda, digamos assim, vivo.
Na cama número 33, piso 8 - Urologia, Hospital do Funchal, um velhinho de cabelo já muito crescido ofegava sob a máscara de oxigénio, a boca ligeiramente virada para a direita.
Mal respirava. Ou, se àquilo chamássemos respirar, era como se a todo o momento se avizinhasse, no devir da sofreguião devorante do ar, o fim da função respiratória.
Ocorreu-me a imagem de um homem subindo a ladeira mais ingreme do mundo, fugindo em desepero da morte.
Despedi-me daquele quarto sem esperança. Eram talvez seis da tarde.
Às sete e um quarto, soubemos do fim. A MP chorou e eu coisa parecida ohando o mar que não se mexia. O mestre João, à vista do oceano em paz sem movimento visível, dizia sempre que o mar estava "doente". Nós bem sabíamos, no intervalo do riso, que havia muita vida nas profundezas oceânicas. Assim o homem que hoje partiu.
O mestre João (já) não era aquilo que víramos na cama 33. Era muito mais, antes e depois do que ali, ofegando desesperadamente, estivera.
É essa parte fundamental que fica, enquanto houver memória.
Mas na sala da casa do Piquinho aconteceu, nessa noite, isto: estava a senhora Maria, a MP, a L, a E, o P, o A, o F, o RS, eu. E a um canto do sofá principal estava, sobretudo, uma nesga de lugar dizendo a ausência do senhor João.
Percebeis?
A pessoa que melhor se divisava ali era a falta da sua pessoa.
A morte, portanto, vê-se.

Machico, 30 de Julho de 2010.
Joaquim Jorge Carvalho

quinta-feira, 29 de julho de 2010

Ler













Paguei um só bilhete de avião, mas não chegarei sozinho ao Aeroporto do Funchal.
Levo comigo Henry Miller, Bolaño, Balzac, Mia Couto, Mário Zambujal, Dostoiévski, Luandino Vieira, Sterne, Giannini Papini, Hernán Neira, Steinbeck, Dinis.
São, comigo, viajantes outros. Serão, em mim, outras viagens.
Viajo, ergo, leio - e vice-versa.

Coimbra, já 29 de Julho de 2010.
Joaquim Jorge Carvalho

A vida não é, mas


Parto pelas seis horas da tarde para a Madeira.
Vou (voo) com a ideia de ainda ver, cúmplice da minha respiração e do meu oxigénio, um homem que foi (é) um santo.
Dizem-me que está muito frágil, algures entre o mundo e a eternidade estrangeira à matéria.
Espero que o avião onde vou (voo) aguente o peso inevitável da minha angústia e da minha tristeza.
As pessoas que amamos envelhecem, adoecem, morrem. A gente julga que já sabia (d)isto há muito tempo. Mas é só quando nos roubam os nossos que tudo faz tragicamente sentido e sabemos parte da bruta verdade.
A minha mãe suspira, pesarosa, às notícias más que a Madeira telefona. Murmura: É a vida. Eu digo: A morte. E ela: Pois.
A vida, atentai, não é uma merda. Mas a mortalidade é.

Coimbra, já 29 de Julho de 2010.
Joaquim Jorge Carvalho

sábado, 24 de julho de 2010

Pentear macacos


A proposta do PSD que prevê o fim do cariz tendencialmente gratuito da saúde trouxe-me à memória o senhor Brito Brás.
Recorde-se: de acordo com Passos Coelho, a saúde deve ser paga por quem pode e só gratuita para quem não pode pagar. Aparentemente, está certo, é justo, compreende-se.
Sucede porém que foi essa lógica que levou à destruição da Escola Pública e da Saúde Pública em muitos países.
Previsão fácil: sobrevirá a Escola Privada e a Saúde Privada de qualidade, paga por quem puder; ficará uma espécie de Escola Pública e de Saúde Pública (baratucha e residual) para quem não puder.
Quem esfrega as mãos de contentamento são os empresários que vêem nesta janela constitucional uma oportunidade de negócio em grande. E ninguém está a ver os donos do dinheiro a preterir o lucro em favor da generosidade humanista. Está bem, está.
É preciso, entretanto, lembrar que o serviço nacional de saúde já é pago com os nossos impostos. É gratuito apenas na medida em que o pagamos num macro-bolo que deveria também chegar para educação, justiça, defesa, segurança interna, etc. E se o dinheiro fosse bem gerido, certamente chegaria...
Quem tem isto a ver com o senhor Brito Brás?
Brito Brás era um presidente de um clube da terceira divisão nacional. Queria lutar pelo título, mas o orçamento dificilmente permitia contratar jogadores de qualidade. A opção de jogar apenas com os jogadores possíveis, moderando as ambições e alguns gastos sumptuários (que apenas alimentavam o ego do presidente e irritavam os habitantes da aldeia vizinha), desagradava a Brito Brás.
Que fez, portanto? Inicialmente, foi vivendo da generosidade do município e de alguma publicidade. Depois, começou também a recorrer ao crédito. Antes de o clube acabar, aumentou por três vezes as quotas, provocando mal disfarçada azia aos associados.
No último ano, quis aumentar o número de sócios. Entre outros brindes, a campanha falava da vantagem que era, para um sócio, ter antecipadamente bilhetes garantidos para toda a época. Não grátis, note-se; apenas pagos a priori com leve desconto.
Mas a última proposta de Brito Brás, um mês antes de o clube acabar, foi que, para além das quotas, os associados pagassem também os bilhetes dos jogos disputados na aldeia.
Um camionista perguntou-lhe, nessa assembleia geral:
- Então, qual é a vantagem de pagarmos quotas?
E o senhor Brito Brás respondeu despudoradamente:
- Isto é para salvar o clube.
O camionista levantou-se e, antes de sair, mandou-o pentear macacos.
Ora bem, face a Passos Coelho (que é uma espécie de Sócrates, mas sem vaselina), eu sou o camionista do clube da aldeia:
- Então, qual é a vantagem de pagar impostos?
Ele que venha dizer que isto é para salvar o país...

Coimbra, 23 de Julho de 2010.
Joaquim Jorge Carvalho
[A foto-supra foi colhida - com a devida vénia - em http://fotosgratis.allfreephotos.com.]

sexta-feira, 23 de julho de 2010

Relatório, outro


Dia 21 de Julho de 2010, oito horas da manhã. Coimbra em versão cinza e fria. Acordo cedo para tratar de assuntos domésticos. É dia de peritagem do meu carro, na sequência de leve acidente na baixa da cidade. Recordo-o. Parei numa passadeira, ao Arnado, aí pelas dez e meia do dia 19. Uma senhora idosa atravessava lentamente a rua. Atrás de mim, um condutor distraído não parou a tempo. Senti a pancada na traseira do carro. A senhora idosa desapareceu, sem curiosidade pelo estrondo ou pelos danos na chapa automóvel. Declaração amigável. Assinaturas resignadas, gestos aborrecidos, rostos tristes. Burocracia, longa espera na seguradora, tempo tão perdido.
Adiante. Sigo agora pela cidade natal, aproveitando o estar acordado desusadamente cedo. Esboço o relatório sobre a licença sabática, à mesa do Café O Moinho. A tese está escrita, falta revê-la, apurá-la, emagrecê-la (se for capaz), confiná-la ao aspecto legalmente imposto. Vou, portanto, andar amarrado a Júlio Dinis ainda por Agosto.
Reflicto gratamente. Fui abençoado com esta possibilidade de, durante um inteiro ano lectivo, ser pago pelo Estado para ler e escrever. Vou lembrar-me com saudades, no futuro, desse calendário maravilhoso de solidão boa, passado no aconchego da minha cozinha ribeirapenense, da minha sala coimbrinha, de bibliotecas municipais-escolares-universitárias. Já me despeço, com dor, do privilégio de andar pelas livrarias e pela internet a comprar livros. De, pela manhã e, sobretudo, pela tarde e noite me ocupar com leituras e escritas.
Ficaram cerca de vinte cadernos de notas e talvez mil ficheiros com e sobre fontes, ideias, sugestões, planos, redacção de capítulos. [Pelo meio, sem que o Estado tenha a ver com isso, pude escrever poesia, teatro, narrativa, crónicas.]
Entre Setembro de 2009 e, digamos, Abril de 2010, senti-me dono absoluto do meu Tempo. A mortalidade só me regressou em Maio, quando ouvi a M.P. lamentar-se da curta duração do 3.º período e do final iminente do ano lectivo.
Este 2010 foi o ano do nascimento do blogue Muito Mar (e não é impossível que venha a ser o ano da sua morte). Inaugurei-o decerto com o fito de, em jeito de recreio íntimo, sair um pouco deste académico jugo a que profissionalmente me sujeitei. Agora, olho para ele como uma espécie de Café Amizade, interessante ponto de encontro de amigos, vizinhos, conhecidos. Também um arquivo, claro, para certos dizeres mais ou menos voláteis (sobre mim e o mundo à volta).
Já depois do almoço, abro o computador. O Fujitsu tem sido um fiel companheiro de lida. Começo a escrever o relatório.
………………………………………………………………………………………………
A minha literatura, em boa verdade, resume-se desde sempre a este exercício. Vivo e faço relatórios, vivo e faço relatórios, vivo e faço relatórios. Foi para isto que aprendi a ler e a escrever, em Outubro de 1970: para (me) relatar, para (me) dizer.

Coimbra, 21 de Julho de 2010.
Joaquim Jorge Carvalho

quarta-feira, 21 de julho de 2010

Solilóquio de Penélope aborrecida


Às vezes, o fim de uma coisa é o princípio de mais nada. Às vezes, o caminho é não haver caminho. Às vezes, o dia nasce com cara já de noite. Às vezes, a vida é uma estrada triste e sem saída. Às vezes, o sol emigra para longe e morre. Às vezes, o princípio assemelha-se muito ao começo do fim. Às vezes, a esperança cansa-se de esperar. Às vezes, à falta de um olá, dizemos Adeus. Às vezes, à falta de chegar, partimos. Às vezes, sucede a desistência à resistência. Às vezes, perde-se o jogo por falta de comparência. Às vezes, falta um mar ao barco. Às vezes, cegamos em vez de olharmos. Às vezes, não existes. Às vezes, não existo. Às vezes, os lobos trocam os uivos pela resignação. Às vezes, a noite parece uma despensa açambarcando para sempre o sol. Às vezes, Telémaco é Ulisses repetido. Às vezes, há mar & mar e não há voltar. Às vezes, acontece a última vez. Às vezes, o futuro é um pássaro velho com a doença de Parkinson. Às vezes, o rio da minha aldeia interrompe o curso e desteimosamente morre. Às vezes, tudo o que falta é já demasiado longe. Às vezes, a pena não vale a pena. Às vezes, a viagem é uma coisa estrangeira visitando-nos. Às vezes, somos visitados por nada em vez de visitantes de muito. Às vezes, em vez de estrelas há setas brilhantes indicando o inferno. Às vezes, as flores secam por não se acreditar nelas. Às vezes, mais valia que o cabrão do galo se esquecesse de cantar. Às vezes, basta.


Coimbra, 20 de Julho de 2010.
Joaquim Jorge Carvalho

terça-feira, 20 de julho de 2010

Hino d'Arco


Agora, que se avizinha uma espécie de inverno interior, parecido com a ideia de fim, deu-me para trautear o Hino do Agrupamento do Arco. Escrevi-o eu, vestiu-o de música o Vítor Santos. Para as coisas amadas há um arquivo chamado saudade.

HINO D’ARCO

Letra: JJC
Música: Vítor Santos


O Arco é um lugar de passagem
Fronteira entre Nada e Ideal
O Arco é uma ideia, uma viagem
De sonho singular para plural.

O Arco de Baúlhe é tantas vidas
É um dominó formoso de sentir
Entroncamento e luz de nossas lidas
Mapa lindo do tesouro de existir!

Refrão:
SOMOS ALEGRIA, EDUCAÇÃO
AMOR, CULTURA E DEVER!
SOMOS TERRA E CORAÇÃO -
SOMOS O FUTURO A NASCER!

SOMOS ALEGRIA, EDUCAÇÃO
AMOR, CULTURA E DEVER!
SOMOS TERRA E CORAÇÃO -
SOMOS O FUTURO A NASCER!


Somos juventude e liberdade
Cidadãos infinitivos de viver
Somos a semente sem idade
De árvores ou frutos a crescer...

Vamos com Camões até ao Mar
E com Pessoa à Índia, outra vez...
O nosso Arco é mais do que um lugar:
É um modo de ser livre em Português!

Refrão:
SOMOS ALEGRIA, EDUCAÇÃO
AMOR, CULTURA E DEVER
SOMOS TERRA E CORAÇÃO
SOMOS O FUTURO A NASCER!

SOMOS ALEGRIA, EDUCAÇÃO
AMOR, CULTURA E DEVER!
SOMOS TERRA E CORAÇÃO -
SOMOS O FUTURO A NASCER!

Coimbra, 19 de Julho de 2010.
Joaquim Jorge Carvalho
[O cravo-supra foi colhido – com a devida vénia – em http://notasaocafe.wordpress.com.]

segunda-feira, 19 de julho de 2010

46664


Leis duras e injustas. Violência policial e social. Pancada, ameaças, prisão quase perpétua.
O mais fácil, o mais cómodo, o mais normal era o homem ter morrido, ou as ideias do homem terem morrido nele.
Mas ele percebeu que a liberdade não era (não é) um fruto fácil, cómodo, confortável.
Há homens incomuns que nascem fadados para salvar do opróbrio os homens comuns.
Há homens e mulheres que são homens como nós, mas também exemplos e espelhos para os homens e as mulheres que querem ser belos e belas por dentro.
A beleza por dentro chama-se dignidade.
Nelson Mandela cumpriu, a 18 de Julho de 2010, 93 anos.
Mas ele é maior que o tempo e o lugar onde circunstancialmente residiu.
Passou pelo século XX e pelo século XXI; viveu na África do Sul. Certo.
O seu verdadeiro lugar, contudo, é a Terra Toda - e o seu verdadeiro tempo é Sempre.

Coimbra, 18 de Julho de 2010.
Joaquim Jorge Carvalho

sábado, 17 de julho de 2010

União, Sporting, Valdano, eu


O senhor Jorge Valdano, ex-grande jogador argentino, actual director desportivo do Real Madrid e, talvez, o melhor escriba contemporâneo em assuntos de futebol & derivados, disse um dia que uma simples partida permite, a cada indivíduo, o regresso semanal à infância.
Desde pequenino, eu “sou” do Sporting Clube de Portugal e do União de Coimbra.
Um amigo antigo riu-se, há dias, desta masoquista preferência:
- Pá, o União já não existe e o Sporting está em vias de extinção.
Encolhi os ombros à sua falta de rigor: o União continua a ter camadas jovens, só já não tem séniores; e o Sporting, tirando o facto de não ganhar, está tão falido como o Porto ou o Benfica.
Mas ainda lhe disse:
- O amor ao clube é para sempre, mesmo que o clube acabe.
E ele:
- Com filosofias dessas, vocês perderam o Moutinho…
E eu (com os meus botões):
- Sou talvez de um clube morto e de outro que está moribundo.
E os meus botões para mim:
- Pois. Mas o principal dos teus clubes é a parte em ti que não se esquece deles.
E o Valdano, saltando do primeiro para o último parágrafo:
- Dá a mão ao teu pai e entra no Estádio Municipal. O União está na primeira divisão e joga com o Sporting. Grita com os golos do Perrichon (pelos azuis) e do Chico Faria e do Yazalde (pelos leões). A multidão cabe no teu olhar de dez anos. Não percas de vista o teu pai. Compreendes?

Compreendo.

Coimbra, 17 de Julho de 2010.
Joaquim Jorge Carvalho

Tarde de Julho


Um livro transportando-me a uma praia certa, à medida do que preciso mereço quero.
Uma praia levando-me a um livro que hei-de escrever.
Um livro (que me sonha) numa praia que nunca vi.
Uma praia (que eu sonho) com páginas de sol e de tempo suspenso.
Tinta como mar ou dunas. Eu como barco ou vento visitante.
Pago o café. A praia adormece. Página 63.

Coimbra, 16 de Julho de 2010.
Joaquim Jorge Carvalho
[Foto JJC]

quinta-feira, 15 de julho de 2010

Cegos


Dois jovens cegos discutem sonorosamente, ao cimo da Conchada. Estão ambos embriagados, a uns vinte metros do restaurante onde, horas antes, terá havido uma festa estudantil.
O cego mais baixo dá conselhos ao mais alto, e este ri-se muito da ponderação daquele, lançando-lhe palavrões. Percebe-se que, dos dois, o que grita mais é o bêbedo em pior estado. Isso torna o outro menos cego.
Um velhinho, em estupor cúmplice do meu, observa a cena e, antecipando-se à minha própria intervenção, oferece-lhes ajuda.
O cego mais alto recusa e gargalha, revirando os olhos. O outro explica que estão à espera de colegas. Mas talvez esta versão não corresponda verdade, já que – logo de pois de o ancião se afastar – ele telefona para alguém e pede auxílio.
- Estamos os dois perdidos – confessa.
E eu, que ia a pensar em coisas tristes, disse para mim mesmo:
- Já somos três.

Coimbra, 15 de Julho de 2010.
Joaquim Jorge Carvalho
[A foto-supra foi colhida – com a devida vénia – em http://www.comboios.org.]

terça-feira, 13 de julho de 2010

Revisão em baixa


Os economistas estão para a economia como os poetas para o amor: são muito melhores a fazer autópsias que diagnósticos.
A cura, para eles, não é uma possibilidade porque, a dar-se, perderiam o emprego ou a serventia.

Coimbra, 13 de Julho de 2010.
Joaquim, Jorge Carvalho
[A imagem-supra (de Bocage) foi colhida, com a devida vénia, em http://www.portalsaofrancisco.com.br]

Sobre a ideia de Família


A família consanguínea, já se sabe, não se escolhe. É. Somos.
Mas é muito triste acharmos que essa inevitabilidade significa abdicar de sermos o que profundamente somos, incluindo o que sonhamos ser.
Somos também, afinal, a família a que pertencemos, devendo tal significar que o essencial de nós é para a família integrar, aceitar e, podendo, estimar.
Acresce a esta democrática visão o facto de nós e família, em nome da inteligência e da esperança, evoluirmos, isto é, devermos evoluir.
Sem dramas, sem mutilações desnecessárias, progredimos. Somos o que somos mais o que queremos ser. Somos o que somos mais o que vamos conseguindo ser.
Ora, isto tudo, que é pouco mas sincero, vale para mim e para o meu país.

Coimbra, já 13 de Julho de 2010.
Joaquim Jorge Carvalho
[Foto JJC]

segunda-feira, 12 de julho de 2010

Mãe, Rainha, Santa


Eça de Queirós, em Correspondência de Fradique Mendes, diz (cito de cor) que as manifestações de fé são essencialmente sublimes, independentemente da entidade para que se evolam.
Confesso que me incomodam os (algo exibicionistas) martírios que algumas pessoas se auto-infligem, por exemplo subindo de joelhos a rua Visconde da Luz. Parece-me mais estupidez medieva que amor por uma divindade.
Mas quero falar-vos de um lado outro. Há muitos anos que conheço em minha mãe a devoção profunda pela Rainha Santa, padroeira de Coimbra. Tantas vezes lhe vi as bienais lágrimas, ao simples aparecimento da imagem, chegando da ponte de Santa Clara ou saindo da Igreja de Santa Justa. Desde menino que me habituei ao convívio, na casa materna, com réplicas (em cerâmica ou em papel) da Santa dos pobres, e sei bem da confiança que a minha mãe deposita nessa Senhora.
Ontem, pelas seis e meia da tarde, a minha mãe voltou a chorar e eu, pela primeira vez, dei-lhe um beijinho (como se fosse seu pai). Ela, menina, retribuiu o ósculo e talvez tenha encostado a sua cabeça no meu ombro.
Tenho por minha mãe a devoção que ela própria nutre pela esposa de D. Dinis.
A caminho do carro, estacionado bem longe, junto à faculdade de Letras, veio-me à cabeça uma letra de fado que, por muito kitsch que pareça a outros, tem sempre o condão de me emocionar. Reza assim (cito novamente de cor):
Vi minha mãe a rezar
Aos pés da Virgem Maria.
Estava uma Santa a escutar
O que outra Santa dizia.
Nem todas as velas de todas as confrarias de todas as procissões dos últimos quinhentos anos são suficientes para dizer a luz toda que uma Mãe é.

Coimbra, já 12 de Julho de 2010.
Joaquim Jorge Carvalho

sábado, 10 de julho de 2010

Religioso mais ou menos


Meu Deus, se existes, desculpa-me isto de às vezes duvidar da Tua existência.
Se não existes, ignora esta prece. Aliás, se não existires, esta prece – ela própria – Te ignorará.
De qualquer modo, amen.

Coimbra, 10 de Julho de 2010.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem-supra foi colhida – com a devida vénia – em http://www.liberdadeepensar.blogspot.com.]

Problema(s) de Memória


Vem na última página do “Correio da Manhã”, edição de 09-07-2010:
«Mário Mendes, secretário-geral da Segurança Interna, disse ontem que não se lembra do acidente na Av. da Liberdade e que, se for chamado [a tribunal], falará a favor do motorista.»
Compreende-se. Já passou algum tempo (talvez um ano). É normal que as pessoas se esqueçam – e, para mais, gente tão ocupada com assuntos tão importantes.
Percebe-se, aliás, melhor por que motivo os governos em Portugal faltam tão frequentemente às promessas eleitorais: o tempo passa, as pessoas esquecem-se.
Uma (impertinente) vozinha interior diz-me: “Mas eles têm programas onde as promessas estão escritas…”
Pois sim. Mas os dirigentes, adivinho eu, de tão ocupados com a governação, não devem ter tempo para ler os seus programas de governo. Tudo certo, portanto.

Coimbra já 10 de Julho de 2010.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem-supra representa Mnemosine, Deusa (grega) da Memória.]

sexta-feira, 9 de julho de 2010

O amor quê


O amor mata.
Tenho, de livros, canções e filmes, muitos testemunhos desse poder. E eu acredito na verdade que há nos livros, nas canções e nos filmes.
Mas a nossa própria vida no-lo diz: o amor mata.
Basta pensar no facto de as pessoas que amamos serem capazes de, morrendo, nos matarem da sua falta.
Isto é, os seres amantes morrem (também) com a morte dos seres amados
E é, atentai, a mais cruel morte de todas: morremos e, contudo, estamos suficientemente vivos para não deixarmos de chorar.
É assim. Coisa muito bela e muito triste. O amor mata.

Coimbra, já 09 de Julho de 2010.
Joaquim Jorge Carvalho

quarta-feira, 7 de julho de 2010

Amigos


Tenho por auto-exigência que os meus textos, no Muito Mar, se não circunscrevam aos domésticos eventos do quotidiano, ou pelo menos que deles se dê literária conta apenas no sentido em que possam, pela leitura, universalizar-se.
Talvez o que se siga seja uma excepção.
Sei que há, hoje, uma sardinhada na minha Escola. Estou a 260 quilómetros, ando a fazer um tratamento dentário cruel e moroso, estou todos os dias em suspenso de notícias da minha família madeirense, e não vou ao Arco.
Mas queria estar, à dimensão das minhas possibilidades,com os professores e funcionários de um Agrupamento a muitos níveis exemplar.
Se eu tivesse de provar em tribunal que éramos (somos) um Agrupamento como deve ser, chamaria como testemunhas os principais beneficiários de tanta dedicação e tão subido profissionalismo: os alunos e, mais diferidamente, os pais e encarregados de educação.
Nas pessoas da Isabel Teixeira, do Feliciano, da Elsa, da Manuela, do Albino e da Senhorinha, quero aqui deixar uma flor. É bom sermos dirigidos por quem sabe dirigir. Foi uma honra ter servido sob vossa orientação. Sois parte do meu restrito mundo de amigos. Estimo-vos e admiro-vos.
Um copo à saúde do que fomos e do que havemos de ser.
Os alunos e as famílias acompanham-me, seguramente, no gesto (os alunos com sumo, como é óbvio).
Disse o Antonio Machado (cito de cor): Caminero, no hay camino / El camino se hace andando...
Sigamos, pois.

Coimbra, 07 de Julho de 2010.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem-supra foi colhida, com a devida vénia, em http://www.malmaior.blogspot.com.]

Brasa


Inclemente, o sol assola a cidade.
Homens e mulheres desistem, em desigual cadência, do decoro e vão-se despindo.
De Celas à rua da Sofia só não é Copacabana porque falta o mar. Muito afogueadas, as senhoras destilam – do cabelo aos pés – as torradas e o chá do inverno engordante. Uma à minha frente, na esplanada, sopra para dentro da blusa (refrigerando os globos) e abana a saia (arejando o universo).
É à distância que o sofrimento feminino é sensual. De perto, é tudo tão óbvio de penoso que, em vez de mulheres belas, percebe-se apenas a cruel mortalidade delas.
Além, um senhor muito gordo, com pasta preta, cumprimenta de passagem o operário à porta da oficina de automóveis; o gordo deve ter dito uma piada sobre o calor porque o homem de fato-macaco ri-se e responde-lhe com um palavrão, distraindo-se ambos logo a seguir um do outro, porque um corpo juvenil de calçãozinho mínimo passa. Demora tudo não mais que três segundos, e segue-se a humilhação habitual que é o cabrão do desejo rir-se deles por dentro.
Derivação machista: se houvesse mar e não tivéssemos esta mundial crise pesando sobre o presente e sobre a esperança, seria este o lugar certo para um homem estar. O lugar certo para fingir que o tempo não passa. O lugar certo para fazer de conta que o corpo e a mente são ainda sensíveis ao cheiro da caça, e capazes da fome, e à altura da predação.
Um velhinho interrompe o trânsito, ao Arnado, atravessando a rua com vagares de bengala doente. O terrível calor deve acelerar-lhe a morte. Há depois um claxon impaciente contra a velhice. Eu estou atrás, olhando de viés esta parte de Coimbra. Vou ouvindo Simon & Garfunkel no aconchego do ar condicionado.
Sigo para a Casa da Cultura, onde trabalharei na revisão bibliográfica da tese. Na galeria Pinho Dinis, há uma exposição sobre Alberto Sampaio (homem importante das filosofias e – descubro agora – também da vitivinicultura). Já sabia que fora contemporâneo e amigo de Antero de Quental. A exposição compreende cartas trocadas entre os dois (sobre vinhos, amizade e tempo). Gosto sempre destas literaturas epistolares.
Coincidência interessante: na parede fronteira à minha mesa de trabalho, diviso vários poemas em caracteres garrafais, e o mais próximo é de Antero. Sirvo-me da última quadra para terminar este escrito, começado mentalmente a 40 graus e terminado no remanso burguês de uma sala fresca:

Mas dize tu, ó Mondego
Pois todos levam seu fado
Tu que foges e eu que fico
Qual de nós vai mais pesado?

Coimbra, 06 de Julho de 2010.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem-supra foi colhida, com a devida vénia, em http://www.skyscrapercity.com.]

terça-feira, 6 de julho de 2010

Penso, logo, desconfio


Hoje, fui a um Banco tratar de assuntos familiares. Tratava-se de entregar alguma documentação e, por hábito, solicitei uma declaração confirmando que os documentos haviam sido, de facto, recebidos pela delegação bancária em causa.
Uma gentil senhora, funcionária naquele Banco, trouxe-me uma folha A4 em branco e solicitou-me que assinasse ao fundo do rectângulo. Percebendo o meu espanto, tranquilizou-me maternalmente:
- Não tenha medo, assine à vontade. Depois, nós imprimimos uma declaração dizendo que o senhor nos trouxe os documentos, e enviamos-lhe tudo para casa.
Recusei o convite, obviamente. A senhora, estupefacta com a minha atitude, lá foi buscar um carimbo para apor nas cópias das folhas que eu entregara e ofereceu-mas, pouco amigavelmente.
Pude perceber a acrimónia de mais alguns funcionários do Banco, face à minha pessoa.
Ainda me parece que esta minha desconfiança é sensata. Ainda me parece que, na história narrada, a anormalidade não está na minha desconfiança.
Mais: ao que sei, foi por confiança em excesso que o sistema bancário mundial ruiu.

Coimbra, já 06 de Julho de 2010.
Joaquim Jorge Carvalho

segunda-feira, 5 de julho de 2010

Em Prosa


Sou amigo do maior poeta português vivo. Eu também faço versos, quando não sou capaz de me exprimir de outro modo. Mas somos, no modo e na dimensão, diferentes. Nisto da poesia, o meu amigo é uma espécie de Mozart e eu sou um moço jeitoso da banda local.
O meu amigo diz, melhor que ninguém, em verso, a vida (dele, minha, de toda a gente). Só não aprendeu ainda a viver.
É sobre isso que eu tenho de falar com ele. Em prosa muito denotativa.
A grandeza de um homem, mesmo quando se trata de um artista, também se mede por esta dimensão chã de ouvir os outros sobre si e de, pelos outros e por si, se salvar do perigo maior que há na nossa vida: não (a) viver.

Coimbra, já 05 de Julho de 2010.
Joaquim Jorge Carvalho

sábado, 3 de julho de 2010

Espécie de oração


O Mestre João, senhor meu sogro, está a lutar pela vida.
À pressa, a MP e a VL vão para a Madeira. Eu estou atado a Coimbra, por imperativos de trabalho.
Não há mundo suficiente para medir a aflição dos seres que amam perante a mortalidade dos seres amados.
Queremos muito que o Mestre João resista e viva mais anos, mas somos tão pouca coisa para ajudar, somos tão nada.
Estamos com o espírito na sua cama de hospital, no oxigénio que ele dificultosamente respira, na lembrança que decerto ele também vai tendo de nós.
Por mim, esforço-me por acreditar que ainda hei-de ver o Mestre João a sorrir desta prosa aflita e, quase de certeza, a fabricar de improviso uma piada ou um trocadilho genial.
Acontece que levei muitos anos a conhecer um santo. Seria cruel perdê-lo tão intempestivamente.
Ainda não isso, portanto, Senhor.

Coimbra, já 03 de Julho de 2010.
Joaquim Jorge Carvalho

sexta-feira, 2 de julho de 2010

Ronaldo, talvez pela última vez


Vou ver se, doravante, falo menos no Cristiano Ronaldo. Este textito é só, talvez, um último desabafo.
Revisões: o rapaz é um jogador absolutamente fabuloso. Tem velocidade, força, técnica, habilidade, espírito vencedor.
É, além disso, por muito que os invejosos do planeta inventem rótulos, um moço simples, de bem com a vida.
Em Portugal, alguns portistas não lhe perdoam um golo do outro mundo que marcou durante a Champions, numa das balizas do Dragão. Alguns benfiquistas ainda resmungam secretamente à lembrança de um certo dedo espetado ao alto, em fálica resposta a assobios na Luz. Luís Figo, conhecido em Espanha por "El Pesetero", não lhe perdoa desde 2004 que seja (muito) melhor do que ele. Os catalães odeiam-no por obrigação estatutária.
Mas Ronaldo sobrevive. Vi-o, ao longo de toda a temporada espanhola, jogar como ninguém. Talvez não haja, com a única excepção de Eusébio, quem se lhe compare na história do futebol português.
Acusam-no, agora, de não jogar para a equipa. É como se ralhassem com o Miguel Torga por não ter feito patuscadas com a malta; ou dizer ao Picasso que não é assim que se pinta; ou pedir à Dulce Pontes que não suba muito a voz para não se destacar dos outros.
Ronaldo é um solista, cambada! Que culpa tem ele se a orquestra é má e o maestro é um complexado, um empata-paixões (para não lhe chamar uma coisa mais à mão de dizer)?
Está-se mesmo a ver: vai ser preciso que Kaká, Sérgio Ramos, Rooney, etc. venham lembrar aos portugueses zangados que o número 7 da selecção é um altíssimo e raríssimo jogador para os auto-suficientes pátrios, por um segundo, suspenderem a baba zangada...
Ninguém pergunta ao Queiroz por que levou um jogador vulgar - sem ritmo, sem condição sequer clínica para jogar - ao Mundial (falo de Pepe); ninguém se questiona se valeu a pena queimar uma substituição, tirando (por óbvia exaustão) esse trinco inventado e inviabilizando a possível entrada de Deco; ninguém se interroga sobre o mistério que leva uma equipa com Simão, Dany, Liedson, Meireles, Miguel Veloso e Ronaldo a jogar como uma equipa de terceira divisão a quem, por capricho de sorteio, calhou jogar com os grandes do mundo.
Os estrangeiros ficaram aliviados com o adeus da selecção portuguesa. O motivo é simples: a nossa selecção a jogar à Queiroz meteu nojo! Salvou-se - arrepiai-vos, ó inquisidores do futebol pátrio - Ronaldo, o único que, a espaços, fez coisas diferentes, dignas da primeira divisão do futebol mundial.
Quem prefere não ver o óbvio, que se fique pela bajulice ao senhor professor. Que insulte Deco e Ronaldo (os únicos jogadores de top desta equipa) e santifique a vulgaridade bem comportada de Pepe, Tiago e Simão.
Cristiano Ronaldo teve este azar, semelhante ao de Joaquim Agostinho, Herman José, Miguel Torga ou Amália, de nascer português. O pior de tudo é que o rapaz - como, afinal, os outros nomeados - ama o seu país. Mas neste torrão pátrio parece florescer muito mais a inveja e a cegueira do que a bondade e o bom senso.
Atenção. Eu amo, mais pela literatura e pelas praias do que pelo futebol, esta terra onde nasci. Mas, confesso, tenho orgulho em ver brilhar, num verde rectângulo planetário, um artista como Cristiano Ronaldo.
Meu Deus! Bastaria que, para se evitar este ruído estúpido, os mísseis do rapaz houvessem entrado em vez de esbarrarem no poste! Ou que Jorge Jesus, que tem menos livros do que Queiroz mas sabe de futebol (ao contrário do letrado), tivesse feito o favor de treinar a selecção entre 20 de Maio e o final de Julho... Não é certo que fôssemos campeões; mas jogaríamos bem, sem medo e sem dar cabo da vida e da imagem de um dos melhores futebolistas de sempre.
Diz-me uma vozinha interior, muito prudente: "Joaquim Jorge, é preciso respeitar as opiniões dos outros..."
E eu: "Mesmo as dos burros?"
E a voz: "Mesmo as dos burros."
De modo que eu, agora, encolho respeitosamente os ombros de cada vez que um burro diz mal do Cristiano Ronaldo.

Ribeira de Pena, já 02 de Julho de 2010.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem-supra foi colhida, com a devida vénia, no "Correio da Manhã", de 02-07-2010.]

quinta-feira, 1 de julho de 2010

Coisa não chamável Fim


Disseram-me que o nosso Agrupamento vai acabar. Chamaram-lhe facto consumado. Anunciaram-me o fim.
Ora, senhores, o que temos sido, pelo menos no calendário recordável que há do Arco no meu coração, é uma coisa feita de amor pelos alunos e pela terra, de profissionalismo e de generosidade, de honra e dignidade, de teimosia bondosa na crença e descoberta do futuro.
Nós temos sido uma coisa feita de alma, senhores. Um projecto que nunca desistiu de sonhar e do voo cúmplice que pode haver entre os pés na terra e o verbo acreditar.
Há tanta gente no que nós temos sido, senhores: alunos, funcionários, colegas, famílias, gente do Arco e de Cavez (e gente dos arredores).
Éramos, pelo Arco, uma equipa digna e formosa. Éramos? Somos! Não se conjuga o imperfeito quando se trata de dignidade e formosura.
Não sei se este é o meu último texto para o jornal "Arco-Íris". Pelo sim, pelo não, aí vai um abraço especial para uma coisa chamada liberdade. Em sua singularidade própria, esta liberdade, vista do lugar onde me encontro, é uma senhora. Aliás, Senhora (com a maiúscula da admiração). Aliás, Senhorinha (com o sufixo do justo carinho).
Eu, que nunca me senti escravo sob a sua liderança, queria dizer-lhe isto aqui. Para currículo, não me parece coisa pouca. E, embora este meu texto acabe, senhores, não há fim para o que de essencial nele se diz.

Ribeira de Pena, 01 de Julho de 2010.
Joaquim Jorge Carvalho
[Nota: Este texto foi escrito para o jornal "Arco-Íris", em Junho de 2010. Inscrevo-o aqui, agora, para que neste Muito Mar caiba também a saudade antecipada do "meu" Agrupamento. Certeza absoluta: vão maus os tempos para quem não se demite de ter coração.]

Coisa Chamada Presente


É, ai de nós, pequeno o tempo que a vida nos dá. Não apenas esse tempo que se mede em anos, meses, dias, horas, mas o outro – o dos séculos anteriores e posteriores a nós.
Eu sinto em mim a sede dessa água que não cabe nos limites da canalização contemporânea. Também se morre da sede de passados e de futuros.
Descubro parte disto que me falta olhando coisas-símbolo à volta: um livro, uma casa, um barco, uma fotografia, uma estátua, uma carta, um pai, uma mãe, uma tia, um sogro, um cunhado, um amigo da segunda classe, uma avó, uma moeda fora de circulação (num frasco de café sem café, mas cheirando ainda a café), uma lenda, uma canção, um sonho, uma efeméride, uma praia, um cromo, uma garrafa de licor caseiro, uma rua, um nome, um provérbio, uma estatística, uma lápide, uma árvore, um rio, uma capa de estudante, um medicamento novo, um vulcão velho, uma doença recente, uma dança antiga, uma tecnologia de vanguarda, uma charrua, um caroço talvez semente, uma filha, sete sobrinhos, uma cadela, um verso meu num caderno adolescente do século XXII, uma cidade outra desta que hoje chamo minha, a noite, o sol.
Sim, vejo muito bem, no meu presente tão deficitário, tudo isto ou a sua ausência.
Cansa-me, por isso, a pobreza de um presente assim tão virado para o próprio umbigo. O presente assim é apenas um instante de espuma. O presente assim não basta.
O presente tem de ser mais que a pobre aparência deste presente.
E se, amigos, viésseis comigo ao passado e ao futuro, perceberíeis decerto melhor esta verdade que aqui, no presente, vos deixo.

Ribeira de Pena, 01 de Julho de 2010.
Joaquim Jorge Carvalho
[Nota: Este texto foi escrito, em Maio, para o 2.º número do jornal "Arco-Íris", neste ano lectivo de 2009/2010. A foto-supra foi colhida - com a devida vénia - em http://www.forumcoimbra.com.]

África deles


Tínhamos dois laterais direitos (Miguel e Paulo Ferreira) que, em termos de valor absoluto, não são grande coisa, mas eram os que tínhamos.
Tínhamos um trinco (Pedro Mendes) que, em termos de valor absoluto, não é grande coisa, mas era o que tínhamos.
Tínhamos um médio criativo (Deco) que, em termos de valor absoluto, era dos melhores do mundo, embora não fosse português.
Carlos Queiroz optou por um falso lateral (Ricardo Costa) que, para além de atacar pouco ou nada, defendeu mal. Questão – digo eu – de falta de rotina(s).
Optou por um falso trinco (Pepe) que, para além de lento a defender, foi lento e desajeitado a atacar. Questão – digo eu – de falta de rotina(s).
Optou por deixar de fora Deco, convencido de que certo Tiago goleador (“goleador” contra o Olhanense ou o Leixões do Mundial – a Coreia) também serviria para a Espanha. Eu creio que, lá na sua professoral cabeça cheia de medo, ainda havia a possibilidade de incluir Deco durante a segunda parte. Mas Pepe saiu esgotado (como já acontecera, menos dramaticamente, contra o Brasil) e assim se queimou uma substituição. Entraram Dany, Liedson e Pedro Mendes – e já não pôde entrar o mágico brasileiro que esta selecção nunca bem teve.
A culpa de a Espanha ser melhor do que nós não é dos portugueses; é da Espanha, que tem um meio-campo como o que, em 2004, tínhamos nós. Mas a falta de qualidade (de atitude, de elegância e de eficácia ofensiva) é “nossa”. Aliás, é de Queiroz.
Que pena tive de Ronaldo, utilizado sempre como se se tratasse do craque de uma equipa de terceira divisão que visitasse a Luz, Alvalade ou o Dragão – servido à base de pontapés longos, sem apoio, sem fio de jogo! Quem não sabe nada de futebol há-de culpar o genial madeirense, eu sei. Mas quem gosta (e sabe um bocadinho) de futebol não cairá nesse erro. Muito gostariam os brasileiros, os espanhóis, os italianos ou os ingleses de ter Ronaldo!
O destino, por razões que se calhar até a Nosso Senhor escaparão, fez muito cedo de Carlos Queiroz um campeão mundial (de sub-20). Foi há umas duas dezenas de anos. Esse acaso dificulta, por momentos, que se perceba neste treinador a característica que fundamentalmente o marca: o medo, a gritante falta de audácia, os complexos, a incompetência.
Tirando a acidental Coreia, atacámos o zero. Fomos (quase) zero.
Jorge Jesus talvez seja a antítese do actual treinador de Portugal. Em vez de livros e teoria, tem a paixão do jogo e a ousadia. Com o benfiquista ao leme da selecção, talvez perdêssemos de qualquer modo com a Espanha, mas teríamos deixado a identidade própria do futebol português: qualidade, beleza, prazer do bom futebol.
Com Mourinho, que leu os livros de Queiroz mas é mentalmente mais forte, talvez o futebol fosse também, aqui e ali, queiroziano, mas a atitude seria certamente diferente da que patenteámos no Mundial da África do Sul.
Se o senhor Carlos Queiroz honrosamente se demitisse já, renunciando a indemnizações principescas, eu perdoava-lhe parte deste desgosto que, desde as 21h30m do dia 29 de Junho, me enevoa a alma. Mas, como diria o outro, “Tá bem, tá”.

Ribeira de Pena, já 01 de Julho de 2010.
Joaquim Jorge Carvalho