Bússola do Muito Mar

Endereço para achamento

jjorgecarvalho@hotmail.com

Número de Ondas

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

A DEPRESSÃO DAS LARANJAS (11)


O Amor (I)



O quê?


Coimbra, já 25 de Fevereiro de 2010.
Joaquim Jorge Carvalho
[Trata-se do 11.º texto do volume “A Depressão das Laranjas” (Ribeira de Pena, Ed. Casa de Santa Marinha, 1999). E o 11.º texto é – mesmo – apenas isto. A imagem-supra é a do cartaz do maravilhoso filme “A Amante do Tenente Francês”, de Karel Reisz (1981), interpretado por Meryl Streep e Jeremy Irons. O argumento do filme, já agora, é de Harold Pinter (com base no romance homónimo de John Fowles).]

Daniel Abrunheiro


1.
Aí pelos finais de 90 do século XX, quiseram que eu dissesse, na Rádio Universidade de Coimbra, quais eram os melhores escritores vivos do nosso tempo. Não perdi a ocasião para um clichê intemporal e verdadeiro: os melhores escritores estão todos, por definição, vivos, seja qual for o século de onde os vejamos. Depois, falei em Herberto Helder, Ruy Belo, Saramago, Sophia, talvez Mário de Carvalho. E acrescentei um nome marginal ao conhecimento comum: Daniel Abrunheiro. Tão bom ou melhor – defendi – como qualquer um dos consagrados que antes referira.

2.
Não me enganei, como nestes últimos quinze anos pude confirmar pela produção literária deste autor. Poucos conseguiram, como ele, convocar-me o espanto e a admiração. O religioso enlevo de que fala Pessoa comentando, sob a semi-máscara de Bernardo Soares, a prosa de Vieira – eis uma imagem aproximada para a estética reacção que a escrita do Daniel fatalmente (me) suscita.
É verdade que o escritor é meu Amigo, circunstância que – concedo – pode sempre contaminar de subjectividade afectiva o rigor da análise e da avaliação. Mas eu sou leitor desde que me conheço; modéstias à parte, li (leio) milhares de autores, estudo e lecciono a matéria literária, investigo e discuto regularmente o fenómeno, escrevo. Ouso, pois, dizer-vos que sei do que falo.

3.
Temos cumplicidades biográficas. O Daniel andou, como eu, pela Escola Básica e Secundária da Pedrulha e cursou, como eu, Letras, em Coimbra.
Depois, foi professor, estudante de jornalismo no CENJOR, monitor de Língua Portuguesa, professor de Comunicação, músico, barman, trabalhador da construção civil, formador. Mas foi, antes e acima de tudo quanto se enuncia, escritor. Sempre.
Escreveu (e escreve) crónica, conto, romance, teatro, poesia. No que ele é melhor, acho eu, é no território dos versos, o que aliás explica por que, inevitavelmente, nas histórias que cria ou nas opiniões que produz, jamais deixamos de encontrar o omniburilado discurso poético.
Em “Vida e Obra de Fernando Pessoa”, ficamos a saber quanto Gaspar Simões admirava o autor de “Mensagem”. À semelhança de Régio (entre outros), Gaspar Simões reconhecia em Pessoa um valor extraordinário e um papel – digamos – seminal e revolucionário na história da literatura portuguesa. Igualmente ficamos a saber que João Gaspar Simões faz este juízo, não “a posteriori” (como é mais comum e confortável), mas no reduto compreensivo da própria contemporaneidade em que a geração de “Orpheu” e da “Presença” co-residiam.

4.
Gaspar Simões reconhece em Pessoa a excelência poética e percebe o tesouro que significa, para Portugal e para a Humanidade, a existência do poeta dos heterónimos. Mais: entende, à luz da preclara descoberta do valor de Pessoa/Caeiro/Campos/Reis/Soares, o privilégio que é poder alguém conviver com um génio vivo, no durante da sua mortalidade física. Isto é, a vantagem cósmica de poder falar com o Poeta (de viva voz), interrogá-lo, corresponder-se com ele, convidá-lo a participar em projectos literários comuns, vê-lo beber café ou vinho, ouvir-lhe comentários, piadas, silêncios oblíquos.

5.
Devo recordar que o próprio João Gaspar Simões, além de crítico e ensaísta, era escritor (sobretudo, no domínio da narrativa). E ele compreendeu que o seu culto de Pessoa não significava apagamento-de-si-próprio-Gaspar Simões, antes a lúcida consciência de que o lugar desse Poeta era único e não configurava qualquer território de disputa ou de assassina rivalidade. Acho que esta relação lembra a de Jorge Valdano com o mago Maradona, na selecção argentina de futebol. Aquele sabia bem da superioridade deste, a qual aliás não coibiu o actual director desportivo do Real Madrid de severas críticas à irregular conduta de Diego. (Certo dia, conta-se, cansado dos caprichos e inconveniências de Maradona, que se julgava acima de regras e regulamentos comuns, Valdano disse-lhe: “Atenção, Diego! Lembra-te de que jogas como divinamente, mas não és Deus!”) Mas Jorge Valdano estimava sinceramente o compatriota e foi dele o mais generoso admirador.

6.
Eu conheço o Daniel Abrunheiro há uns bons 35 anos. Ele é mais novo do que eu onze meses apenas, e só foi “mais velho” durante uns tempos porque – como me afirmou certa noite de copos, em Coimbra – perdera, antes de mim, o pai; essa nuance desfez-se, entretanto, com a morte traiçoeira do meu próprio progenitor, em Fevereiro recente.
O Daniel, como alguns espíritos contemporâneos já vão também percebendo, é o maior poeta português do século XXI. Sei que o futuro há-de confirmar esta verdade. Em ensaio famoso, T.S. Eliot explica que a noção de “clássico” implica a existência, num autor e numa obra, de uma força e de um poder verdadeiramente incomparáveis com o legado (linguístico-literário) anterior ou coetâneo. O exemplo de que Eliot se serve é Virgílio, cuja importância determina a fatal falência do Latim, (e)levado ao limite das suas possibilidades de “dizer”, e origina a concomitante emergência de novas línguas. A partir de Virgílio, nada resta aos vindouros, residentes na língua latina, senão seguir, imitar e, ai deles, repetir o Mestre.

7.
A caricatura eliotiana é útil para o que vos quero dizer. É que o (futuro clássico) Daniel anda a fazer “isto” com a língua portuguesa há uns quinze anos, pelo menos. Apenas Herberto Helder terá viajado por caminhos semelhantes no que toca à reinvenção do Português na poesia. Uma, ainda que breve, visita ao seu blogue (canildodaniel.blogspot.com) facilmente confirmará o que afirmo.

8.
Há ainda outro aspecto em que o Daniel Abrunheiro se (me) confirmou escritor na plena acepção do termo, pagando o “preço” que realmente é necessário para merecer o estatuto: ele assumiu o papel central da escrita na sua vida, como irremediável modo de existência. Ora, para quem não é (figas, canhoto!) Rodrigues dos Santos, Sousa Tavares ou Rebelo Pinto, esta assunção não é, em Portugal, fácil. E por isso, o Daniel Abrunheiro é, normalmente, um cidadão pobre de meios e recursos materiais. Como seu amigo, deploro a circunstância; como amante da literatura, entendo-a.
García Márquez explica, em “Viver para Contá-la”, que tudo quanto fez no tempo prévio ou simultâneo ao seu reconhecimento sul-americano e mundial como grande escritor, que não se tratasse de escrita literária, não foram senão desvios, excursos, coisas secundárias. No centro, estivera, pois, sempre a literatura. Esta opção implicou dificuldades financeiras, incompreensão do mundo utilitário circundante, desprezo familiar e social, opróbrio. Mas radicou na certeza absoluta e misteriosa de que a literatura era “o (seu) caminho”. É assim, vista a realidade como eu a vejo, com Daniel Abrunheiro.

9.
Sei do que falo. Eu confesso que não seria capaz de sacrificar tudo (ou quase tudo) pela escrita. Mas sei que os grandes escritores (mesmo Torga, disfarçado de médico; mesmo Vergílio Ferreira, disfarçado de professor) o fizeram, o fazem.
Reli, há poucos dias, numas velhas folhas que recebi do Daniel Abrunheiro, pelo correio, quando este grande poeta estava em Lisboa a estudar no CENJOR, uma metáfora sobre desempregados. Ora, as metáforas importantes aumentam-nos em linguagem, em conhecimento e em aptidão para humana e esteticamente sentirmos o mundo. Esta do Daniel, em particular, ainda ontem me revisitou, à entrada do centro de emprego da minha cidade: quatro ou cinco homens baços, encostados à parede, fumavam. O Daniel diria que ali estavam, indeterminados e economicamente quantificáveis, como um “código de barras”.
Certo dia, encontrei num dos seus blogosféricos textos do “Canil do Daniel” a mais formosa definição de memória que se poderia escrever (e que Agustina decerto não desdenharia): “O amor é cego. A memória é o cão do cego.”

10.
Sinto esta urgência, semelhante talvez à de Gaspar Simões relativamente a Pessoa, de redizer ao mundo uma evidência: anda por aí, insuficientemente notado ainda, o maior poeta português do século XXI. Lede, por exemplo, “Cronicão” (Ed. Publicenso), “O Preço da Chuva” (Pé-de-Página), “Terminação do Anjo” (Portugalia), ou visitai-o no seu blogue e confirmai o que digo.

11.
O meu tributo não é puramente altruísta. Há uma parte de glória do Daniel Abrunheiro que recolho para mim próprio: a de que este altíssimo escritor é meu amigo. Com maiúscula, aliás: Amigo.

Coimbra, já 24 de Fevereiro de 2010.
Joaquim Jorge Carvalho
[A foto-supra data de 1995, quando – a convite do poeta João de Mancelos - o Daniel apresentava, em Aveiro, o meu livro “Desapontamentos dos Dias” (Coimbra, A Mar Arte, 1995).]

A DEPRESSÃO DAS LARANJAS (10)


O Essencial

É preciso distinguir o essencial do acessório.
Dou-te a minha vida.
Dás-me a tua vida.
O resto, se houver resto, são os detalhes funcionários do relógio. Tudo, portanto, muito aquém da ideia preciosa do tempo e do significado que há na primeira pessoa do plural.
Dás-me a tua vida.
Dou-te a minha vida.
O resto, se houver resto, são parênteses, suspensões da frase vital, hiatos.
Oh, meu amor, não temas, não morras, não hesites, não saias deste livro, não desilumines o meu olhar, não desapareças da minha estrada.

Sabes: é preciso distinguir o essencial do acessório.

Ribeira de Pena, já 24 de Fevereiro de 2010.
Joaquim Jorge Carvalho
[Trata-se do 10.º texto do volume “A Depressão das Laranjas” (Ribeira de Pena, Ed. Casa de Santa Marinha, 1999). A pintura-supra (“Mulher de branco”) é de Claude Monet (1840-1926).]

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

Presente


A pescada está já pronta a servir, na água ainda morna da fervura. Os ovos também. As batatas, não; em lume brando, resistem ainda à deveniente erosão que as há-de tornar mastigáveis.
No entretanto da espera, na cozinha branca da Avenida da Noruega, tenho tempo para uma visita mais ao senhor José das Dornas, naquela fase epilogal das Pupilas, quando se anuncia enfim a felicidade apetecida.
O tempo é feito de tempos, como o mar de rios e de arroios. Fundem-se, na minha pessoa, a aldeia dinisiana e o perfume doméstico de um jantar já tardio. A minha mulher e eu comeremos, enfim, numa espécie de silêncio bom, sem o ruído da televisão, no contexto preferido da vozearia de João Semana e do senhor Reitor, num país muito distante de injustiças e de azares.
Na minha cozinha, actualmente, mais do que pratos e panelas, há livros e avulsas folhas pelas prateleiras dos armários, pela mesa, pelo mármore vizinho do lava-louças. A nossa refeição é feita, pois, de batatas, peixe, ovos e literaturas (e, já me esquecia, de indispensável pão). Estamos, num recanto pequenino de Trás-os-Montes, juntos. Uma redonda tranquilidade, maior do que o frio, abençoa a casa.
Percebei-me: tenho, às vezes, os serões da província na minha cabeça e no meu coração.

Ribeira de Pena, 23 de Fevereiro de 2010.
Joaquim Jorge Carvalho

Da Sofia à Portagem


Agora, acontece-me por vezes ir a Coimbra. Mas hei-de ser sempre dessa cidade mediana, desse lugar cheio de passado e algo vazio de presente ou futuro.
Há muito tempo que não percorria, com a produtiva lentidão dos turistas, a Ferreira Borges e a Visconde da Luz.
Não há muitos séculos, eu era jovem e imortal nesse território mais coimbrinha de todos. Subia, com os outros imortais da minha geração, da rua da Sofia ao largo da Portagem (passando por Santa Cruz – igreja e Café – e pelo quiosque da irmã do Daniel), mirando montras, raparigas, senhoras, circunstâncias.
Depois, descíamos, repetindo o ofício olhador. Aos percursos ascendentes e descendentes chamávamos “piscinas”.
Na manhã de 22 de Fevereiro, vi os mesmos velhos, junto ao Café Santa Cruz, explicando, com outros nomes, a crise política e a falta de vergonha do século (agora) XXI. Os mesmos pedintes de há 30 anos farejam esmolas, preambulando as missas, exibindo doenças de pele e filhinhos com fome. Tricanas do liceu e da universidade passam, rápidas, a caminho do futuro. O homem das castanhas arrefece serodiamente, esperando clientes. Senhoras carregam pequenas e médias adiposidades, sob perfumados casacos compridos. Jovens e maduras usam botas altas, trotando sobre a calçada portuguesa com reforçado garbo. Um rapaz expõe, no chão, catorze livros usados (um deles é “Terna é a Noite”, do Fitzgerald), que ninguém compra. Mais acima, para quem sobe à Portagem, há um vendedor de artesanato, cheio de fadiga nos olhos, que explica a duas jovens loiras qualquer coisa sobre o governo angolano. Uma mulher com sotaque do campo, junto às escadas que descem para a Sé Velha, cumprimenta o proprietário de uma loja de desporto.
Quase no topo da viagem, no lugar onde era o Café Arcádia, cruzo o meu olhar com uma montra ainda por decorar. Espelhado no vidro, está um homem de 46 anos, muito distinto do imortal que, em 22 de Fevereiro de 1981, subia aquela espécie de Chiado conimbricense, a caminho, então, de um galão tranquilo e de um bolo de arroz (e talvez d’A Bola e do espectáculo do mundo).
No largo da Portagem, passa um velho a vender cautelas. Cumprimenta-me, como se me conhecesse. Quem sabe? Eu bebo, na velha Briosa, um café que atenua, por segundos, o frio da manhã e busco, em redor, o imortal de 1981. Há-de ser já tarde para me encontrar com ele: por 29 anos nos perdemos um do outro.

Coimbra, 22 de Fevereiro de 2010.
Joaquim Jorge Carvalho

A DEPRESSÃO DAS LARANJAS (9)


O Tesouro

Um homem cava – ao sol, à chuva, durante a manhã, durante a tarde, durante a noite – a terra suja de um recanto florestal.
Passam pessoas pelo local e, de genérico modo, riem-se, comentam jocosamente, reprovam-no com murmúrios, berros ou silêncios. Alguns dos passantes chegam a insultar o homem que cava a terra, e há mesmo entre eles quem atire pedras e paus ao cavador.
A cena dura horas, dias, meses, talvez anos. O homem cava sempre. Às vezes, cansado, morrente, triste, desesperado. Mas sempre cavando.
Multidões de transeuntes observam, reobservam, riem, criticam: um homem (dizem) tão novo, tão inteligente, tão bom, assim perdendo seu tempo, sua força, sua juventude, sua beleza, seu talento, em tarefa (dizem) tão suja, tão (dizem) inútil.
O homem cava à procura de um tesouro que existe, algures, por ali, sob a terra negra. Há-de valer a pena o sacrifício inteiro se as mãos do homem chegarem a tocar no tesouro escondido. E outra não pode ser a resposta do homem aos risos e vitupérios da multidão convencional, tão outra de si e da sua fé.
Reside nesta história, como se adivinha, o risco de o homem não encontrar o tesouro procurado. Mas não é esse motivo bastante, não é esse motivo digno e legítimo para suspender o exercício cavador e crente. É destino do homem (considera o homem) buscar, na terra preta que pisa, o valioso golo que anima a sua vida desde sempre. Já se disse o quê: um tesouro.
Entre os homens e mulheres que riem, há os que nunca souberam do tesouro escondido; os que, sabendo, nunca acreditaram no tesouro escondido; os que, acreditando um dia, desistiram entretanto de acreditar no tesouro escondido; os que, não tendo desistido de acreditar, perderam a força necessária à procura do tesouro escondido; e ainda os que, embora acreditando sempre e muito querendo encontrar o tesouro escondido, fingem o contrário, à espera de um tempo certo para cavar, longe dos olhares judicativos da multidão a que pertencem.
A natureza do amor só se percebe bem com um intervalo crítico de cinquenta anos. Porque a maior tragédia, na vida, não é um cavador de tesouros jamais encontrar o objecto da sua busca: é, cinquenta anos depois, chorar a cobardia de nunca haver tentado.
Sei de uma metáfora (minha) sobre homens e mulheres que não foram capazes de lutar por si próprios. De cavar à procura do seu destino, do querido tesouro de que falo.
É assim a metáfora: um coração antropomorfizado, com rosto, braços, mãos, pernas. O rosto do coração é lamentável como uma criança triste. Os braços estão caídos, desistentes, molemente ao longo do corpo.
O coração está sentado. As pernas do coração estão imóveis, jazendo suspensas da superfície do assento.
O assento em que o coração está residindo, ao longo da metáfora, é uma cadeira de rodas.
O resto da paralisia são duas ou três nuvens magras e negras, pairando sobre o coração. De certo modo, o desenho das nuvens lembra a biografia melancólica de ratos, no devir de respectivas ratoeiras mortais.

Continuamos esta conversa daqui a cinquenta anos. Entretanto, Margo, a enxada.

Ribeira de Pena, 23 de Fevereiro de 2010.
Joaquim Jorge Carvalho
[Trata-se do 9.º texto do volume “A Depressão das Laranjas” (Ribeira de Pena, Ed. Casa de Santa Marinha, 1999). A pintura-supra (“O homem com a enxada”) é de Jean-François Millet (1814-1875).]

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

A DEPRESSÃO DAS LARANJAS (8)


A Unidade

I
Margo Boniek foi, durante anos, esposa mais ou menos pública de Louis Dietz, bem sucedido empresário do “Crazy Horse”. Havia desse homem, à volta da mulher, uma adoração absoluta e possessiva. Chamava-lhe “rosa do leste”. E houvera, da parte de Margo, uma inicial ingratidão pelo amor oferecido, que contudo rapidamente substituiria pelo desconforto e pelo medo.
Após uma semana de suores repetidos, de ardentes juras e ofertas caras, sobreveio na jovem polaca o desejo de passear, de ver teatro, de falar francês nas ruas parisienses. O empresário assustou-se: pelas esquinas do bairro, da cidade inteira, do país, via a baba predadora de milhares (milhões) de machos. Temia a eventual perda da rosa.
Por alguns meses, o quotidiano de Margo cingiu-se aos ensaios e aos espectáculos nocturnos (palco um: coreografia de canções; palco dois: strip-tease). A tal seguia-se o regresso liminar a casa, o sexo – furioso ou metódico – de Louis, e o sono opaco.
Até que o empresário se cansou do amor, mas não da posse. Um imenso “segurança”, que apenas comunicava através de agressões ou esgares, conduzia a mulher ao apartamento e por aí permanecia, fumando, até à chegada do patrão (ou, em vez dele, da notícia de que não viria nessa noite).
Esta vigilância apenas se atenuaria ano e meio depois, após o nascimento de Mimette Dietz, menina loira como uma madrugada de Varsóvia.

II
Quando eu cheguei à vida de Margo Boniek, nesse mês de Outubro, era tão difícil falar-lhe como celebrar missa no palco número dois. E então: naquele pic-nic de burguesas, oh Cesário amado, houve uma coisa simplesmente bela. Foi quando Margo, subitamente indisposta, saiu do rebanho profissional que tirava fotografias no Bois de Boulogne, para cartazes, e foi a certo Café próximo colher um copo de água (que bebeu, sôfrega, como uma papoula aflita). Os seus olhos snobs sorriram da minha admiração – e a minha admiração era pelo vestido rubro (de papopula), os braços finos, os olhos de ave e de estrelas. Meu amor.
Ergui-me numa inspiração. Juntei-me ao seu rubor, ofereci-lhe uma cadeira vizinha. Falávamos – os dois –um francês hesitante, é verdade; mas dos olhos de ambos chisparam, no silêncio intermédio às palavras, os poemas mais bonitos daquele século. Fomos felizes durante uns vinte minutos, que é a duração média da felicidade humana na terra, por cada cem anos.
Até chegar Louis Dietz, rude e educado (simultaneamente) como um empresário gaulês pode ser.
- Margo, alors?
Era uma manhã de Outono e, na Polónia, a essa hora, havia uma procissão em honra de Nossa Senhora de Lodz. Silêncio, pois. Silêncio e silêncio. Eu detive-me nos olhos do dono de Margo: verdes. Belos e frios como uma sintaxe imperadora.
Soergui-me à despedida de Margo. E tive pena de não lhe haver dito o meu nome.
Àquele Café voltei todos os seguintes dias (excepto às terças-feiras, porque fechava), sempre à hora celebrada em que te vira pela primeira vez. E dos amantes pacientes é o reino da Luz: vieste, doze dias depois, vaga e morrente, quando eu pagava o habitual chá de estar à espera.
- Margo, olá. Lembra-se de mim?
E tu, tímida ave da estratosfera, sorriste meninamente e disseste:
- O português. Lembro-me do seu cheiro.
Eis pois – oh deuses domésticos de todos os lugares – como é útil exagerarmos, em nós, o uso de bálsamos para depois da barba. E de como é profunda a memória dos perfumes, no secreto arquivo dos afectos humanos.
Dizias-me, tantas vezes, na esquina combinada das Tulleries, no banco mais esconso dos Elísios, nos táxis apressados entre o trabalho e o almoço:
- O teu cheiro. Nas cartas que escreves, na tua voz ao telefone, na minha lembrança nocturna, acho que há sempre o teu cheiro. E é decerto por isso que as saudades me doem tanto…
Margo Boniek, bonequinha verde que iluminou a minha vida: por ti, os melhores poemas; por ti, todos os filmes, todas as músicas, todas as árvores, todas as histórias de homens e civilizações; por ti, uma nova fábula de mim.

III
«Era uma vez um cidadão triste, longe do seu país, anónimo professor de Literatura Comparada, que (por amor) poupava na alimentação e na roupa para frequentar as melhores mesas do “Crazy Horse”. E que (igualmente por amor) soube aprender a dificílima arte da canalização e da instalação de sistemas eléctricos: assim ele entrava em tua casa, de fato-macaco ouvrier, iludindo a bruta vigilância de Louis ou dos primatas contratados; assim ele te soltava o robe e te oferecia a unidade que, amantes, eram. À saída, deixava-te ainda as instruções para novas avarias em torneiras, esgotos, tomadas. O estratagema duraria pouco tempo ou uma ternidade, conforme fossem os olhos de ler esta história. Mas é preciso dizer que não havia, então, o tempo mortal dos humanos no calendário sábio de Margo e daquele professor-operário.»

IV
No primeiro dia em que fizemos amor, tu tinhas na mão direita o anel que eu trouxera de Portugal. E eu era o fruto e o sol estrangeiros que procuravas. Em França, nada (nada!) existia senão a lua (ou sol) brilhando sobre os nossos corpos – mais a música perfeita de um americano negro, adivinhador da Alegria maiúscula dos nossos corações. Tinhas a mania de perguntar:
- Escreves porquê?
E eu:
- Para dar ordem à minha vida.
Quem olhasse, muito de fora da música que havia em nós ou do vinil rouco de Louisiana, não perceberia talvez que aquela confusa cama era a sagrada pátria do cosmos. E que de rosa a rosa a ave vai a distância livre do amor verdadeiro, o único que vale a pena.

Coimbra, já 22 de Fevereiro de 2010.
Joaquim Jorge Carvalho
[Trata-se do 8.º texto do volume “A Depressão das Laranjas” (Ribeira de Pena, Ed. Casa de Santa Marinha, 1999). A imagem que ilustra o texto é uma pintura de Amadeo de Souza Cardoso (1887-1918) - “Entrada” (1917).]

domingo, 21 de fevereiro de 2010

Abraço aos Ornelas


A Madeira sofre? Portugal inteiro sofre.
A minha família diz-me que o pior, por aquelas paragens, já passou.
Oxalá.
Abraço-os, entretanto. Eles, a Madeira.
O meu abraço é (quer ser) o contrário da tempestade.
Eu sei-o. Eles sabem.

Coimbra, 21 de Fevereiro de 2010.
Joaquim Jorge Carvalho

A DEPRESSÃO DAS LARANJAS (7)


A Laranja

Duas semanas antes de, pela primeira vez, possuir o corpo amadíssimo de Margo Boniek, eu desembarcava em Alcântara, na luminosa manhã de um Novembro portuguesinho. Não havia ninguém à minha espera; havia, sim, a anónima multidão do cais, os passos desencontrados de homens e mulheres com pressa viajante.
Pouco me impressionou a vozearia lusitana, as colinas pátrias, a pobreza bela da mendiga de treze anos, os cães farejando ossos ou fêmeas. Havia, em mim, então, a ave polaca que dançava em França. Como um cavalo, já o adivinhais, o meu amor sitiava-me o olhar e crescia por dentro do próprio oxigénio, alimentando-me os pulmões, os gestos, o movimento cidadão.
Vim a Portugal por questões de heranças: morrera-me a tia Rosário, espécie de mãe dos meus cinco anos, deixando-me (como a um filho) os livros, a casa e um terreno periférico à capital. Fora necessário apor a minha assinatura em documentos rigorosos, reconhecê-la em sede notarial, patrocinar a publicação de editais, receber advogados e firmas de comércio, responder civilmente a familiares despeitados…
Ao todo, sofri as agruras das saudades durante nove dias. Escrevi a Margo, entretanto, três cartas – e dela recebi uma única, aliás curta, escrito no verso de um roteiro camarário (que anunciava, na casca da missiva, certa feira do livro no “quartier latin”). Li essa cartinha milhares de vezes, segundo creio, desde as sete da noite até à incerta hora da madrugada em que adormeci. E, no sonho que sobreveio, reli, tornei a reler, tantíssimas vezes, as suas palavras, aquela gramática irregular com perfume imigrante, o odor francês das suas mãos nervosas – e era (acreditai) já da sua própria boca que, no meu sonho, saíam as mais ingénuas juras de amor. Oh minha boneca polaca, com vestido verde por dentro do coração!
Havia uma última nota na epístola de Margo, subitamente redigida, como uma luz raiando do caroço da escrita feita, ali perto do “Pont Neuf” (que é muito antigo), mirando os barcos de uma qualquer camioneta perigosa que se avizinhava: pedias-me, meu amor, laranjas do meu país. Souberas, em conversa de camarim, que Portugal era terra de muito sol.
Eu levei, pois, no meu regresso, uma laranja para oferecer. Era uma laranja luzidia, esbelta, queridamente doce. A tinta, sobre aquela superfície esférica, escrevi: “Para a Margo devorar.» Sorriria essa deusa polaca decerto se algum dia lesse a inscrição, bem o sei. Mas o mar do regresso esteve alteroso, o meu pobre estômago burguês soçobrou demasiadas vezes, tive a terrível febre dos navegantes, e não fui capaz de comer durante dois dias e meio. No minuto seguinte à minha ressurreição, descobri-me sozinho, dentro do camarote, sem forças para gritar por água e alimento urgentes. Ao meu lado direito, serena e sorridente, estava apenas a laranja para o meu amor.
De modo que matei a fome e a sede próprias com esse fruto soberano. A Margo, em vez da laranja pedida, levei-lhe um anel comprado na baixa lisboeta, à tardinha do dia em que chegara a Portugal. Achara-o uma prenda inteligente: representava, no aquém do ouro exterior, a circularidade do meu desejo à volta de si, saudades portanto sem princípio nem fim, aliança de nós.
- Et l’orange? – perguntaste, ainda eu não tivera tempo de te soltar a blusa, de te sentir a pele de lençol limpo, de te segredar a minha paixão e o meu suor.
Percorrias, no exacto segundo aqui narrado, com teu doce olhar de ave (talvez desconsolada), o anel posto e o ouro circular do símbolo. Eu prosseguia a insana tarefa de medir-te, beijo a beijo, dedo a dedo, instante a instante. Até dizer-te, enfim, quase sem fôlego, eventualmente sorrindo:
- L’orange? L’orange, c’est moi.

Coimbra, já 21 de Fevereiro de 2010.
Joaquim Jorge Carvalho
[Trata-se do 7.º texto do volume “A Depressão das Laranjas” (Ribeira de Pena, Ed. Casa de Santa Marinha, 1999). A imagem que ilustra o texto é uma pintura de Pablo Picasso - “Os Amantes” (1923).]

sábado, 20 de fevereiro de 2010

TLEBS


Vêm aí novos programas de Língua Portuguesa. Sei alguma coisa sobre o assunto e concordo com muito do que aí vem. A excepção é a TLEBS.
Eu não tenho medo da [nova] TLEBS (Terminologia Linguística para o Ensino Básico e Secundário). Julgo que nenhum professor a receia, ainda que a novidade obrigue a uma revisitação de termos e conceitos que não deixará de abalar o edifício da (nossa) formação académica e profissional.
Mas há, em mim e em muitos outros colegas, um iniludível desconforto: o de entender(mos) que esta inovação pouco ou nada contribui para a melhoria das competências linguísticas dos nossos alunos.
A nova terminologia e os conceitos científicos sobre os quais assenta são de natureza mais complexa do que os termos e os conceitos até há pouco em vigor. A ideia de que os nossos alunos aprenderão facilmente “esta” gramática é algo ingénua, mas não digo que não possa – com articulação de esforços docentes e discentes – concretizar-se.
Contudo, a ideia de que, aprendendo “esta” gramática, os nossos jovens melhorarão as suas competências, essa, está (muito) por provar.
Desconfio de que, ainda antes de os doutos especialistas da língua se reunirem para decidir programas e práticas, há certas conclusões pré-agendadas: o que se vem fazendo está, de modo geral, errado; o que aí vem, sob a égide das doutas orientações, é a Magnífica Solução.
Lendo as novidades apresentadas pela (nova) terminologia, pergunto: o que aí vem é mesmo melhor? Tenho, desculpai, muitas dúvidas.
Julgo, antes de mais, que a gramática deveria - como aliás acontece com os sinais de trânsito - situar-nos e orientar-nos, contribuindo para a segurança, sucesso e beleza da viagem (de cada viagem).
Já tereis visto, como eu, lugares onde a informação em matéria de semiótica rodoviária é tão complexa e excessiva que, em lugar de orientar, confunde e é motivo de riso. Receio que casos semelhantes ocorram, doravante, no realista universo das nossas aulas.
Deixai-me desabafar: a TLEBS, vista deste lugar muito terreno onde me encontro, é mais um contributo no sentido de afastar os alunos da disciplina de Língua Portuguesa (Entretanto, farei o que é a minha obrigação: estudar bem a TLEBS para a ensinar, depois, da melhor forma que for capaz…)

Coimbra, 19 de Fevereiro de 2010.
Joaquim Jorge Carvalho

A DEPRESSÃO DAS LARANJAS (6)


A Depressão das Laranjas

Às vezes, apesar do açúcar e do sol prováveis, sou uma laranja triste: é quando não estás; ou quando, estando, te vejo coberta da poeira dos outros e passas, distraída e indiferente, por mil gomos da minha solidão redonda.
Sabes? Uma laranja triste é um fruto muito estranho: em momentos de crise, viaja da própria casca ao íntimo caroço de si – e por aí reside até ao regresso de meteorologias mais amenas.

Coimbra, já 20 de Fevereiro de 2010.
Joaquim Jorge Carvalho
[Trata-se do 6.º texto de “A Depressão das Laranjas” (Ribeira de Pena, Casa de Santa Marinha, 1999). O quadro que ilustra o texto, “Rapariga com brinco de pérola”, é de Vermeer (1632-1675).]
Nota-extra: O leitor (ou leitora) atento(a) terá notado que, neste blogue, se passa do 4.º texto de “A Depressão das Laranjas” directamente para o 6.º. Explique-se: o 5.º texto deste volume, intitulado “As Palavras” (um dos meus preferidos, aliás), é muito longo e poderia, neste território bolgosférico, tornar-se fastidioso. Prudentemente, opto – para já – por omiti-lo.

Antes da Conta


Aqui, no bar onde ora se encontra
O Presente, o Dado, a minha Sorte
Até à hora de pedir a conta
Nada custa, não há morte.

Aqui, hoje, é dia de nascer. É dia
De novidade inaugural, pois.
Hoje o mar começaria, se a vida fosse
Rio até certo ponto, e depois foz, e depois
Navegação filosofal.

Hoje é dia de princípio:
Dia príncipe, de início.

É, pois, um dia a haver, nascituro.
Dia de abrir abrigos.
Dia de acreditar, dia de amigos
E de futuro.

Entrai, amigos, ou possibilidade
De amigos, gente com vontade
De cerveja e de sonhar!
Haveis de voltar, sair, voltar
Ainda. Só depois morrer.
(Viver, portanto. Só depois partir.)

E o coração dirá de vossos dias muitos
Que antes da morte estivemos juntos
E que estarmos juntos era resistir
A estarmos mortos.

Hoje é dia de nascer; é dia
De acreditar em ser feliz; é dia
De podermos ser diferentes, novos.
É dia de sermos ingénuos.
É mais que um dia: é dia um.

Aqui o teu o meu o nosso instante:
Um cheiro da bonança.
Suspensão de estarmos sós.

Um copo, portanto, dois copos. E presunto,
Desabafos, risos, sonhos, memórias,
Batatas fritas, música, pessoas bonitas
(e boazonas, ai, que alimentem as hormonas).

Até à hora de pedir a conta
Não há morte.
A morte é como o dono do bar
À saída: queres fiado, toma
(que ele geralmente não perdoa)!

Mas até à hora de pedir a conta
(É esta a cúmplice lição que vos dou
e tomo)
Não há morte.

Coimbra, 20 de Fevereiro de 2010.
Joaquim Jorge Carvalho
[Este texto foi inicialmente escrito em Março de 2007 (por alturas da inauguração do novo Bar do Carlos Massas), e aparado de pequenas migalhas no presente. Gosto nele da ideia, nada nova, do “Carpe Diem”, que agora me lembra “o bonde do fim da vida” do Drummond de Andrade. Vale para o Bar do Massas e para outros bares da nossa vida. A ilustração é um pormenor do auto-retrato de Jean-Baptiste Debret (século XIX) e foi colhida em barelanchestaboao.blogspot.com.br.]

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

A DEPRESSÃO DAS LARANJAS (4)


O Assalto

- Mãos ao ar. Isto é um assalto – disse ela, sem sequer mexer os lábios.
- O amor ou a vida! – exclamou, na mesmíssima quietude e snob delicadeza em que eu sempre a vira.
Habituado à mediocridade dos meus dias, dei-lhe o amor (querendo, com tal opção, poupar a vida que então me parecia mais preciosa que tudo). E admirai-vos: o amor era muito maior do que eu podia imaginar, por isso demorando também o assalto muito mais do que era legítimo esperar-se em tão periclitante ocasião.
Ao fim de horas, dias, meses, o assalto prosseguia – e dava-se o caso, mais estranho entre todos, de o assaltado sorrir reconhecidamente para a fera assaltante.
Despreocupado já com a prosaica questão de pormenores e trocos, dei-lhe também a vida. E mantive, sem que me obrigassem a tal, as mãos no ar; não por obediência conforme ao roubo, portanto: antes numa prece ao Tempo para prolongar a maravilhosa violência que (me) feria de morte o cinzento baço dos dias.

Coimbra, 19 de Fevereiro de 2010.
Joaquim Jorge Carvalho
[Trata-se do 4.º texto do volume “A Depressão das Laranjas” (Ribeira de Pena, Ed. Casa de Santa Marinha, 1999.) A imagem recorda o filme “Casablanca” (1942), realizado por Michael Curtiz e interpretado por Humphrey Bogart e Ingrid Bergman.]

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

Ideais (Precisa-se)


Portugal não foi sempre isto. Nem o Partido Socialista foi sempre isto.
O PS de Mário Soares, de Álvaro Guerra, de Manuel Alegre, de Sottomayor Cardia, de Almeida Santos, de Salgado Zenha – era outra loiça. Havia idealismo, generosidade, cerviz.
A nossa triste contemporaneidade trouxe o que está à vista. As causas deram lugar a tácticas e interesses. A vida deu lugar à vidinha. É assim nos maiores partidos portugueses. Mas dói-me isto mais no PS por me ter habituado a, no passado, identificar o punho ou a rosa com a própria ideia de digna liberdade.
Muitos dos actuais políticos portugueses chocaram nos aviários chamados Jotas: JS, JSD. JC, JCP. Dali saem formatados, boys & girls já muito velhos, correndo ao cheiro de cargos e sinecuras: lugares nos parlamentos, nas secretarias importantes, nos bancos, nos governos, nas empresas públicas e – seja lá o que isso for – nas empresas privadas.
A moral é uma palavra que, hoje, não significa nada. Pina Moura, ex-comunista, quando há uns anos ainda tinha um pé na Iberdrola (espanhola) e outro na Assembleia da República (portuguesa), ao ser questionado sobre a questão do conflito de interesses, respondeu que a sua ética era a “republicana”. E concretizou: sendo a sua situação “legal”, não havia problemas. Talvez seja assim, de um ponto de vista puramente jurídico, cínico. Mas a ética (republicana, monárquica, rosa, laranja, azul, vermelha) é outra coisa. Deveria ser outra coisa.
Também Mariano Gago, o ministro da Ciência e do Ensino Superior, disse um dia na televisão, sem se rir, a propósito da – digamos assim – licenciatura do primeiro-ministro, que se tratara de “um percurso académico exemplar”. Foi, pois, mais longe que Pina Moura; não apenas as vicissitudes deste curso, cheio de equivalências e de pormenores singulares, foram legais, no entender de Gago, como ascendem à categoria de “exemplo” para a juventude portuguesa.
Acreditei então, como agora, que Sócrates não cometeu qualquer crime nessa sua saga na falecida Independente. Mas recusei dá-lo como paradigma à minha filha, a qual fez os normais cinco anos de universidade para se licenciar em Direito. Chamai-me antiquado.
Entretanto, vou estando farto das notícias que, todos os dias, afligem o país. De negociatas, de arranjos subentendidos, de jogos, de favores, de compadrios. Vou estando farto, aliás, deste país que também sou eu. E não se pode emigrar para fora de nós.
Creio que boa parte do problema de Portugal está em que, por falta de comparência das grandes figuras, a classe política se encheu de mediania e de mediocridade. António Vitorino e Marcelo Rebelo de Sousa, por exemplo, preferem o conforto do comentário à condução dos respectivos partidos (e do governo); essa espécie de desistência abre caminho a uma gente normalmente inculta, sem ideais, sem causas e muito pobre de gramática.
Não acredito que Mário Soares ou Pinto Balsemão durmam descansados.

Ribeira de Pena, 18 de Fevereiro de 2010.
Joaquim Jorge Carvalho

A DEPRESSÃO DAS LARANJAS (3)


O Brilho

Disse-te há muito tempo: saltitantes, os olhos. Mas não bem: queria dizer olhos vivos, percebes, olhos redivivos, olhos a cada segundo renascentes.
Margo Boniek: como se, dentro do teu olhar, houvesse uma ave brasileira jogando futebol com as estrelas.

Coimbra, 18 de Fevereiro de 2010.
Joaquim Jorge Carvalho
[Trata-se do 3.º texto do volume “A Depressão das Laranjas” (Ribeira de Pena, Ed. Casa de Santa Marinha, 1999). A pintura-supra é do meu cunhado Alberto Ornelas.]