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sexta-feira, 29 de março de 2013

Fardo


O presidente do Chipre declarou, falando sobre o futuro do seu país, que todos se tinham de preparar para suportar "o fardo".
Somos também cipriotas, como é evidente. E é este o futuro que os senhores da Europa têm para nos oferecer: um fardo. A existência humana volta a ser encarada com olhos medievais: expiamos a culpa de estarmos vivos, o erro de querermos ser felizes (ainda) na Terra, a estupidez de acalentarmos sonhos acima das nossas possibilidades.
Não se trata apenas de não haver dinheiro. Hoje, não há esperança. Não há futuro. Nada há senão este túnel longo, feio, cínico - sem luz à vista.
Vamos percebendo, aliás, que a luz é para quem tem dinheiro. E isso da esperança, do futuro e da luz é talvez dispensável. Quiçá um vício. Ora, como já se dizia no país do Estado Novo, quem não tem dinheiro não tem vícios...

Coimbra, 29 de Março de 2013.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem (representando a bela Europa) foi colhida, com a devida vénia, em http://www.mitologiagreca.blogspot.pt.]

4 comentários:

Lys Fernanda disse...

Seguindo o blog, parabéns. Gostei daqui!

Paulo Pinto disse...

Arriscando uma espécie de fábula (com votos de boa Páscoa): a Europa é uma união zoológica, em que certos países são girafas de pernas altas, outros são cangurus com possantes patas traseiras, mas outros são pesadas tartarugas ou desajeitados orangotangos. Um dia, a Europa pôs-se em marcha; reconhecendo a menor capacidade das tartarugas e dos orangotangos para acompanhar a passada dos demais, foram-lhes disponibilizados alguns acessórios: uns patins para o réptil, um skate barato para o símio. E assim, em suposta igualdade, começaram a sua marcha. E os bichos mais lentos, enquanto as forças estavam intactas, lá foram dando ao pedal e tentando acompanhar o que para os outros era um movimento natural e espontâneo, pois para ele estavam à partida bem equipados.
Ao longo do caminho, porém, com o cansaço a vir ao de cima, a incapacidade locomotora dos animais lentos foi-se tornando evidente. Os mais rápidos puseram-se a censurá-los pelo seu atraso, atribuindo-o a preguiça e teorizando sobre a inferioridade natural dos restantes, embora se saiba que a tartaruga supera todos em longevidade e o orangotango se destaca em inteligência. Relutantemente, os bichos velozes propuseram dar aos outros um empurrão, recebendo um bom pagamento por isso, mas em troca esperavam que eles daí por diante abandonassem a sua suposta preguiça e passassem a correr como gazelas.
(...)
Assim foi morto e enterrado o projecto da eterna solidariedade animal, preconizado em tempos pelo canguru Monet e pelo elefante Adenauer.

Joaquim Jorge Carvalho disse...

Subscrevo a fábula. Abraço!

Joaquim Jorge Carvalho disse...

Lys, agradeço a sua vinda a este (cúmplice) Mar. Bj. JJC