Bússola do Muito Mar

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Número de Ondas

segunda-feira, 11 de novembro de 2024

Árvores Tombadas, de Rui Conceição Silva: Romance com perfume dinisiano

 


Estou sempre a ler e, quando há, na secretária, vários títulos clamando a minha atenção, gosto de, tanto quanto possível, não me desviar dos livros já encetados. Às vezes, incumpro essa útil disciplina – por exemplo, quando deito os olhos aos primeiros versos de um livro de poesia ou à primeira página de um romance e me acontece o célebre enamoramento da literatura. 

Aconteceu-me com o romance Árvores tombadas, de Rui Conceição Silva, um autor da minha geração, que talvez não receba, como tantos, a atenção que a sua qualidade literária justificaria. 

Contada a várias vozes, a história fundamental do romance remete-nos para um mundo antigo, rural e marcadamente português, historicamente situado no Estado Novo, palco de uma vida geralmente dura (nomeadamente no que se refere ao povo mais humilde), com a omnipresença da pobreza, do desamparo, da fome e da repressão política e policial. Num lugar povoado de tipos populares, simples no pensar e no falar, mas profundamente carregados de humanidade, surge um elemento novo, cujo olhar sobre a terra servirá, aos leitores, de guia e de testemunho: na verdade, os olhos da jovem professora Estrela, que vem da “cidade grande” para aquele pedaço de “Portugal profundo”, serão daí em diante – em grande medida – os nossos olhos. E nossos também, naturalmente, os seus assombros, encantamentos, medos, choros ou prazeres.  

É muito difícil parar de ler uma história de que, logo às primeiras páginas, nos tornamos cúmplices, familiares, íntimos. A narração, embora não disfarce a dureza e a crueldade dos factos relatados (até no vernáculo-calão eminentemente coloquial que, de quando em vez, emerge das falas das personagens), traz consigo uma espécie de melancólica doçura, como se a leitura fosse concomitante às vidas ali convocadas -  mas, atenção, tudo isto muito longe da lágrima fácil ou sentimentalona. Há neste discurso narrativo, digamos assim, para além da construção pormenorizada de um microcosmos profundamente verosímil e, aqui e ali, brutal, a amável incorporação da ternura. 

Não por acaso, aconteceu-me sentir, no final da leitura, saindo da narrativa, um perfume familiar, reconhecível, grato: era, digo-o agora, o eco formoso de Júlio Dinis, cujas histórias desde sempre me encantaram. Pergunta: que segredo há nas histórias que nos prendem, fascinam, conquistam? 

[Durante anos, combatendo o preconceito, o menosprezo ou a indiferença da universidade perante Júlio Dinis, tentei perceber que poder encantatório era aquele emanando da sua escrita – e acabei, mais ou menos fatalmente, por dedicar um doutoramento ao estudo da sua obra, em particular aos seus romances e contos. Esse estudo culminou numa tese – mais tarde, publicada pela Ed. Caleidoscópio  intitulada Acção, Cenas e Personagens na Narrativa Dinisiana: As Pupilas do Senhor Escritor.] 

Em Árvores Tombadas, há esse poder, sim. É o tal perfume (que, à falta de melhor palavra, chamarei “dinisiano”), isto é, essa arte muito complicada de bem contar uma história. Lendo-a, parecer-nos-á talvez que, dada a fluência e leveza do discurso narrativo, não se tratará decerto de trabalho complexo por aí além; ora, a isto de tornar “fácil” o que é consabidamente “difícil”, meus amigos, chama-se talento. 

Árvores tombadas (Ed. Visgarolho, 2024) é um belíssimo romance, que agora celebro e recomendo.


Coimbra, 08 de Novembro de 2024. 
Joaquim Jorge Carvalho

segunda-feira, 2 de setembro de 2024

MENINA VEZES QUARENTA

 


Há 40 anos, eu e a MP inaugurámos (para a nossa Menina) uma linha 24 para assuntos de saúde, uma linha de apoio psicológico, uma linha de orientação profissional, uma linha de assistência ambulatória, um centro de de dia, um centro de cuidados continuados, uma pousada e um serviço de acompanhamento geral e permanente. Valeu tudo a pena e tudo continua a funcionar 24 horas por dia, à base de tempo, atenção e amor.

Parabéns, Vânia - única filha única!


Coimbra, 02 de Setembro de 2024.

Joaquim Jorge Carvalho

terça-feira, 25 de junho de 2024

Parabéns (& obrigado)

 


És tão demasiadamente linda, linda
Tão linda, tão demasiadamente
Que não encontrei um modo ainda
De dizer quão linda és exactamente.

Tão doce permanece o meu enlevo
Tão luminosa és, ó minha flor -
Que em vez de dizer “Amo-te”, eu só escrevo
Obrigado, Pequininha, meu amor!


Ribeira de Pena, 25 de Junho de 2024.
Joaquim Jorge Carvalho

domingo, 5 de maio de 2024

MÃEZINHA




Como todas as Mães, ó minha Mãe
A senhora é perfeita, como sabe:
Leio nos seus olhos todo o bem
Que há na breve vida que nos cabe.

Ainda hoje a trato por Mãezinha
Como se fosse sempre pequenino.
Sabe-me bem, contudo, a palavrinha
E sou eternamente um seu menino.

Lembro-me de a Mãe, durante a lida
Na casa encantada do passado
Cantar a dona Amália e de a vida
Ter cheiro a café e pão torrado.

Gritava: “Zé Tó, Quim, Fatinha, Nelo! -
Cuidado, que o mar está de mau humor!”
(Era em Mira, num tempo novo e belo
E a Mãe era a praia do amor.)

Soube, junto a si, dessa mudança
Consubstancial ao crescimento.
Isto é: que o tempo passa, o tempo avança
E deixa para trás cada momento.

Queria, ó mãezinha, que cantasse
A Amália que cantava noutra altura:
Que a sua viva voz nos transportasse
Ao passageiro tempo da Doçura!

Ribeira de Pena, 05 de Maio de 2019/
Coimbra. 05 de Maio de 2024. 

Joaquim Jorge Carvalho

[Este poema foi data de 2019 e foi actualizado hoje mesmo, 5 anos mais tarde. Na foto, vê-se a minha Mãe na Serra da Estrela, brincando com um floco de neve. Ali leio uma metáfora, mais ou menos instintiva, de a neve ser o Tempo escorrendo-lhe/escorrendo-nos por entre os dedos.]