terça-feira, 31 de dezembro de 2013
Versos contra os ratos
Sou um queijo já velho. O Tempo é um rato.
Aliás: o Tempo são muitos ratos.
O Tempo é uma praga, um veneno em nós.
Os meus versos são uma ratoeira. Escrevo
Para me vingar. Para adiar a devoração.
Para fazer de conta que o veneno sou eu.
Coimbra, 30 de Dezembro de 2013.
Joaquim Jorge Carvalho
[Na imagem, estou eu e a VL - e foi ela que, sei lá porquê, a pôs no Facebook.]
In-Invisibilidade
Os restos da refeição, claro,
Como sempre, sobre a mesa,
No devir da farta festança
Mas também, digo, os restos
Do tempo, a degradação inescondível
Dos corpos e do sangue morredoiro,
As ausências que vão crescendo mais
Do que as presenças, pessoas
Que, em vez de lembrarem nomes d’outrora,
São nomes já d’outrora que lembramos
Jovialmente, no nevoeiro falacioso do vinho.
Alguém, sei, dirá (quem dera que não dissesse) –
É a vida, e encolheremos os ombros,
Muito carregados de resignação e idade.
Era tudo ainda agora, tão limpo e lindo
(Pergunta Pessanha: “Quem poluiu, quem
Rasgou os meus lençóis de linho?”). Era tudo,
Escrevo eu, tão claro de promessas e luz,
Senhor!
A minha mãe disse (quem dera
Que não dissesse esse refrão triste, Mãezinha,
Tão doloroso, sabe, tão inditoso) – É a vida.
Encolhemos os ombros, cansados, antigos,
Que se há-se fazer, não é verdade?
E de repente reparo (Senhor!) que à mesa
Somos já tão poucos.
Coimbra, 25 de Dezembro de 2013.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a
devida vénia, em http://www.narcel.com.br.]
domingo, 22 de dezembro de 2013
Natal com caligrafia
O meu tempo, em matéria de humanidade, era melhor do que este tempo em que hoje sobrevivemos.
Talvez esta missiva seja, por isso, mais uma rendição triste: também eu, reparai, me socorro deste cómodo cadeirão digital e daqui vos envio os meus votos.
Ei-los: boas festas, feliz ano novo!
No fundo, serei igual aos meus contemporâneos. Seja. A única diferença, queria eu, era que se percebesse no meu texto a caligrafia sincera do meu coração.
Coimbra, 22 de Dezembro de 2013.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.truca.pt.]
terça-feira, 10 de dezembro de 2013
In-migrações (Estatuto de carreira)

Graças às raízes poder não cair;
Por causa das raízes não poder fugir.
Ribeira de Pena, 09 de Dezembro de 2013.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.casaconhecimento.com.br.]
sexta-feira, 6 de dezembro de 2013
Mandela, Salgueiro Maia do mundo
Morreu Nelson Mandela. Passei a minha vida a olhar para exemplos de homens maiúsculos (HOMENS) como este. Ele foi capaz de sacrificar o conforto burguesinho e medíocre por uma Causa maior do que o seu tempo, a sua circunstância.
A minha gratidão por este cidadão da liberdade, da paz e de um certo humanismo puro e (dolorosamente) belo vai mais longe do que a simples celebração do político. Vai até ao Homem Maiúsculo que conseguiu ser. Serve-me para pôr em perspectiva estes fardos de nada que hoje enxameiam a contemporaneidade: políticos vácuos e bácoros com mais silicone, interesses ou banhas que gramática e bom gosto.
Ao espelho de Mandela, a humanidade deve orgulhar-se, em primeiro lugar. Depois, pensando nesse Grande Resto sem ideal nem estética que pulula à nossa volta (governantes domésticos, governantes europeus, governantes mundiais), a humanidade deve também envergonhar-se.
Joaquim Jorge Carvalho
[Nota: Soube que o meu amigo (e altíssimo Escritor) Daniel Abrunheiro associou igualmente, no Facebook, o nome de Mandela ao do herói Salgueiro Maia. Ainda bem! "Les beaux esprits se rencontrent", modéstias e vaidades à parte.]
Nenhum drama senão aquele drama do fim
Nenhum drama há no tempo a passar
Senão o saber que, tendo passado, um dia
Se acabou, sem remédio, de escoar
O tempo que havia.
Porto, 05 de Dezembro de 2013.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.segundaescolha.blogspot.com.]
segunda-feira, 2 de dezembro de 2013
Céu dentro do sono
Não é a primeira vez que me acontece sonhar com gente que já partiu e me faz, todos os dias, falta. Entre o dia 29 e o dia 30 de Novembro, "estive" - aliás, estive (para quê as aspas?) - com o meu amigo Botelho, com o meu sogro (Mestre João) e com o o meu Pai.
Nem sempre me recordo do que sonhei e, também neste caso, não me lembro de toda a narrativa (?) em que terão entroncado as diversas cenas por onde andei, durante um sono decerto agitado. Mas algo ficou de vívido e reportável. Digo-vo-lo.
O Francisco Botelho estava comigo numa espanada sobranceira a algum episódio divertido, porque ambos nos ríamos do que divisávamos nesse patamar inferior (fisicamente inferior) ao nosso olhar. Talvez estivéssemos ambos num Café do céu.
O meu sogro ia a meu lado, em viagem de carro, perorando sabiamente sobre a humanidade e a beleza. A viagem não tinha um rumo definido.
O meu Pai, esse, veio esperar-me à porta da Escola onde trabalho e disse-me que estava orgulhoso de mim. Em vida, igualmente mo fez saber, sublinho; mas desta vez, no momento em que mo dizia, abraçava-me, gesto que nele não era frequente. Sabei que aquele abraço me soube muito bem, apesar de, pouco depois, eu ter acordado nervoso, sentindo uma espécie de pedra sobre o peito.
Avisadamente, a família preocupou-se com esta minha sensação de peso e aperto, recomendando-me uma ida urgente ao médico. Mas eu prefiro regressar ao querido sonho e pensar que aquilo era o tronco antigo e familiar do meu Pai encostado ao meu peito. Isto é, o meu Pai abraçando-se à minha saudade.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.blogdocatarino.com.]
quinta-feira, 21 de novembro de 2013
5 Aforismos reformados (2)
Quem parte e reparte e não
fica com a maior parte - ou sou eu ou é de Marte.
Dá Deus as vozes a quem
não tem gentes.
Amigo que rouba amigo tem
cem anos de castigo.
Quem tudo cala pouco
acerta.
A mentira tem as pernas
putas.
Ribeira de Pena, 21 de Novembro de 2013.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.antoniobokel.com.]
Chama
Este meu pobre coração tem
a forma de um fósforo que, a cada escurecer, magicamente se renova. Acende-se, normalmente,
ao aproximar-se das altas temperaturas da Beleza, mas também se incendeia,
tantas vezes, no contacto com a lixa da realidade irregular.
Ribeira de Pena, 21 de Novembro de 2013.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em
http://www.infoescola.pt.]
quarta-feira, 20 de novembro de 2013
A Casa misteriosa
Quando chegou ao País da
Sabedoria, Rui estranhou o facto de haver tão poucas casas. Uma senhora
elegante e amável esclareceu-o:
- Muitos dos nossos
habitantes partilham o mesmo tecto…
À frente de uma linda
casa, à entrada da rua principal da cidade mais antiga do País, o rapaz viu um
senhor muito bem vestido, de modos correctos, que observava algo nos céus. Ao
fim de dois minutos, o homem entrou.
A senhora elegante e
amável explicou quem era aquela figura tão delicada e firme:
- É o senhor António Média.
A sua profissão é informar. Precisamos muito dele em casa. Dá-nos factos,
faz-nos relatos de acontecimentos, mantém-nos sempre actualizados.
Depois, chegou uma menina
vestida de azul e verde, linda como uma manhã de Primavera. O Rui suspirou,
sentindo palpitações no coração.
- Quem é aquela?
- É a menina Sofia Poesia
– disse a senhora amável. – Passeia pelos bosques, pela cidade, pela praia, e traz,
a cada nova viagem, uma canção, um poema, uma forma única de olhar para o mundo
que oferece aos habitantes da casa. Sem ela, não saberíamos, tantas vezes, como
explicar verdadeiramente o que sentimos ou somos.
Logo a seguir, chegou um
casal de velhinhos muito simpáticos, que cumprimentaram quem passava antes de
entrarem na casa. O Rui já nem teve de perguntar fosse o que fosse, pois a
senhora amável de imediato satisfez a sua curiosidade:
- Aqueles são o casal
Narrativa. Ela é Maria dos Contos e Lendas. Ele é o José dos Romances. São um
precioso tesouro da casa, porque estão sempre a lembrar-se de histórias
maravilhosas, que partilham com quem os quer ouvir. São sempre belas histórias
que descobriram ou que simplesmente inventaram. Ouvindo-os, é como se o mundo
recuperasse, no nosso entendimento, alguma espécie de ordem e de claridade.
Finalmente, era já quase
noite, chegou uma senhora loira com os seus muitos filhos alegres e
barulhentos. Ao caminhar, a mãe ia dizendo, segundo pareceu a Rui, frases admiráveis,
porque as crianças à volta soltavam interjeições de espanto (oh!, ah!, ui!,
eh!) e, por vezes, batiam palmas.
- É a madame Núria Teatro. Diverte muito os habitantes da casa e do nosso
País em geral. Nos seus gestos, nas suas palavras, até nos seus silêncios,
vemos reflectida a nossa vida essencial.
O Rui estava muito
impressionado. E fez uma última pergunta:
- Mas, afinal, como se
chama esta casa, minha senhora?
A dama, sempre amável,
respondeu:
- Chama-se Livro. Sou eu a
sua guardiã, a mademoiselle Leda Leitura.
Podes visitar-nos sempre que queiras.
Arco
de Baúlhe, 19 de Novembro de 2013.
Joaquim
Jorge Carvalho
[A
imagem foi colhida, com a devida vénia, em gabigabiruska.com. Este texto foi
elaborado no âmbito do trabalho da promoção da leitura que venho levando a cabo,
no seio da Biblioteca da minha Escola.]
segunda-feira, 18 de novembro de 2013
Para sempre navegar
Farto da terra serena
Saí do cais de meus pais
Numa barquinha pequena
Buscando no mar sinais
D' ilha que valesse a pena.
- Adeus, até nunca mais!
Ribeira de Pena, 18 de Novembro de 2013.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.zazzle.pt.]
Manual de sobrevivência
Há olhares, sabes, como
dedos
E enlevos como palatos
provando
A paisagem.
Há palavras como pés
dançarinos
E abraços súbitos como náufragos
Salvando-se da morte.
Há homens devindo poetas
Decorosamente chorando a
ausência
De mundo disponível.
Há música que arrancamos
ao cimento
Dos dias, beijos
conquistados ao caroço
De frutos caídos.
Há delicados malabarismos
de alma
Equilíbrios hábeis de coração
e pão
Trapezismos de sonho.
Outros modos de sobreviver
não
Sei.
Ribeira de Pena, 18 de Novembro de 2013.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.contracorrentealternativas.blogspot.com.]
domingo, 17 de novembro de 2013
Cansaço
A prosa do mundo chove sobre nós. Os ideais estão em saldo, sonhar é motivo de troça oficial, Durão Barroso é presidente de não sei quê na Europa e está cada vez mais gordo e vácuo, temos o pior governo de que há memória, muitos comentadores televisivos acusam-me de viver acima das minhas possibilidades, eu que comi caldo verde ao almoço e me concedo, parcas vezes, o luxo de jantar uma francesinha no centro comercial, ponho-me a duvidar da legitimidade da minha respiração, não sei se o oxigénio que consumo paga juros, da água sei já que é um luxo e por isso vai ser privatizada, Nuno Crato condenou entretanto ao desemprego milhares de colegas que fazem falta à Escola, conheço alunos com necessidades educativas especiais cujas necessidades educativas deixaram, por decisão governamental, de existir, um certo (abominável) César das Neves, com obesa certeza, diz que aumentar o salário mínimo é, para os pobrezinhos, algo criminoso, sem corar de vergonha, e o licenciado Passos Coelho diz, sorrindo numa sala em Cantanhede, que a Irlanda é um exemplo para nós por ter imposto mais sacrifícios do que os que em Portugal conhecemos, isto tudo, sublinho, num contexto de frio gradualmente maior e de uma penúria de esperança grassando pelo espaço e tempo que me é dado, ainda, viver. Sinto-me acossado, cansado, tão cansado que...
Ribeira de Pena, 17 de Novembro de 2013.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.naoperguntou.blogspot.com.]
quarta-feira, 13 de novembro de 2013
5 aforismos reformados (1)
Há mares que
vêm por bem.
Quem morre
por gosto não dança.
A esperança
é a última a morder.
Homem
pequenino, velhaco ou menino.
Mais vale nenhum
pássaro na mão que mãos sem voar.
Cabeceiras
de Basto, 13 de Novembro de 2013.
Joaquim Jorge
Carvalho[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.construirtextos.blogsot.com.]
segunda-feira, 11 de novembro de 2013
Refrega
É pequeno e pobre o meu poder,
que tão pouco ordeno, quase nada
obtenho, por exemplo, a proibir
a morte, a suspender despedidas, a
ressuscitar-te juvevirginal chegando,
lembras-te, oferecendo-me o beijo
para sempre primeiro.
Defendo-me mal, tu sabes, apenas
sobrevivo.
Atiro canhões de naïves nuvens contra
o exército da mo(r)dernidade, isto é,
o cimento diário que nos atiram
para cima, e a minha guerra é afinal
talvez ridícula e improdutiva, apesar
de melodiosa e às vezes bela.
A prosa, meu amor, vai-nos ganhando
o mundo.
E até a minha revolta frequentemente é
mal compreendida:
vê tu como eu ergo um poema contra
a brutidade inimiga
e o impronunciável general vencedor confunde
estes meus versos
na ousada folha branca
com uma usada rendição.
Mas não, amor, não.
Vila Real, 09 de Novembro de 2013.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.ocontraditorio.pt.]
Subscrever:
Mensagens (Atom)













