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segunda-feira, 7 de setembro de 2020

Rio olhando para trás



A memória: 

rio caminhando para a nascente.


Coimbra, 06 de Setembro de 2020.

Joaquim Jorge Carvalho

[Foto JJC: o amado mar de Machico,]


quinta-feira, 9 de janeiro de 2020

Remédio chamado Amigos



Do Tempo se diz que é letal; 
Que não há, contra ele, abrigos 
E que viver conduz ao fim fatal. 

Mas há, entretanto, alguns Amigos.

De alguns veros Amigos me contento 
E orgulho, só por estar em suas vidas: 
Eles fazem do meu tempo mais cinzento 
Horas sempre novas, coloridas! 

Coimbra, Dezembro de 2019. 
Joaquim Jorge Carvalho
[A ilustração foi colhida, com a devida vénia, em http://www.pt.png.tree.com.]

sexta-feira, 16 de agosto de 2019

AnEurisma


O mundo é a nossa casa.
Os outros visitam-nos ou 
Passam ao largo, vizinhos ou quase. 
Um dia somos levados de casa 
E os outros também, embora
Não obrigatoriamente ao mesmo tempo. 
O melhor, como disse o senhor Fernando, pessoa 
Que tanto pensava nisto 
Seria não pensarmos nisto tanto - 
Para ao menos não termos as saudades de tudo 
Antes do tempo certo de as sentirmos. 

Coimbra, 05 de Agosto de 2019. 
Joaquim Jorge Carvalho 
[A imagem (espécie de convenção alada nos fios do prédio materno) data de 16-08-2019. Foto JJC.]

domingo, 14 de julho de 2019

Autoclismo & Bernardim


Toda a noite em surdina 
Um autoclismo acordado
Denunciou a ruína
Do vizinho do lado.

A dona do rés-do-chão
Está fartinha de saber
A clínica condição
Daquela morte a haver.

Tenho pena, coitadinho –
Aquilo é mal sem remédio!
Já o pai morreu novinho
Num outro andar do prédio…

Espécie de sino chorado
Ou ave de Bernardim
O autoclismo do lado
Toda a noite disse fim.

Vila Real, 13 de Julho de 2019.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em https:/www.vivareal.com.br.]

segunda-feira, 1 de julho de 2019

Diária luz




Acordei ao som do murmúrio
Do Sol:
Sibilantes de luz invadiram-me
Quarto, sono, pele
E ouvi na chegada voz a esperança
Seguinte à noite.
Respondi-lhe: Bom dia, Sol. Estou
Contigo. Obrigado por existires.
Depois, saí para a rua
(para a vida)
Alegre como uma criança
(Ou um prisioneiro)
Correndo para a liberdade
Grato pelo afago calorífero
Grato pela iluminação do caminho
Grato sobretudo pela diária lição
Do Sol sobre a eternidade:
A eternidade, pá, é apenas esta possibilidade
De renascermos.

Arco de Baúlhe, 01 de julho de 2019.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, na internet e (re)traz ao blogue as inesquecíveis personagens Calvin e Hobbes, criação do genial Bill Watterson.]

quinta-feira, 20 de junho de 2019

Feriado de Corpo de deus


Hei-de um dia ter saudades deste dia 
Das mãos do meu amor, do meu conforto – 
De modo que celebro essa alegria 
Tão simples de hoje não estar morto. 

Celebro a frágil Mãe, que vive ainda 
O livro com que falo ultimamente 
A minha Filha única, tão linda 
A amável torrada, o café quente. 

Hoje fui correr pela manhã 
(Venci muita preguiça, muita dor) 
Depois senti-me forte, a mente sã 
E o coração cheinho de amor. 

Vi da janela, à tarde, a romaria 
A procissão pisando o chão de flores 
E ouvi uma senhora de Alvadia 
Agradecer a Deus por Seus favores. 

Eu de mui simples coisas me alimento: 
Nada é mais eterno que o Momento. 

Ribeira de Pena, 20 de Junho de 2019. 
Joaquim Jorge Carvalho 
[Foto JJC]

segunda-feira, 17 de junho de 2019

Vida pecanina

Cão da rua, cão visto de manhã
Cão visto à tarde no regresso a casa 
Cão de tantos dias, meses, anos
Cão não velho até ser velho
Cão lento, cão doente, cão mortal
Cão espelho da minha antiguidade
Cão com cio cão latido cão uivo 
Cão rosnando cão ladrando
Cão mordendo cão morrendo
Cão presente cão ausente
Cão saudade. 

Ribeira e Pena, 16 de Junho de 2019. 
Joaquim Jorge Carvalho 
[A imagem (o famoso Brian, de Family Guy) foi colhida, com a devida vénia, em https://clipartportal.com.] 

quarta-feira, 12 de junho de 2019

Sépia

Gosto de fotos antigas
De ver os agora mortos vivendo ainda tanto 
Tão fora de não estar vivos 
De ver as casas ainda jovens 
Muito anteriores à ruína do devir 
De ver campos e flores em vez de cimento civil 
De perceber a pureza ingénua dos gestos 
Ainda livres do cinismo técnico-tecnológico. 

Até em fotos de guerra vejo humanidade – 
Um esgar de aflição ou de prazer 
Um sorriso malandro, uma dúvida qualquer 
Uma mulher fugindo sensualmente das bombas 
Um soldado fumando no intervalo do medo. 

Gosto de ver o presente que há ali 
Em fotos para sempre cheias de esperança 
Como senão houvesse morte seguinte Àquele momento           
Como se cada instante fotografado fosse 
A eternidade. 

Arco de Baúlhe, 12 de Junho de 2019. 
Joaquim Jorge Carvalho
[A foto, já usada neste blogue, grava no tempo um instante familiar, na Praia de Mira, aí por 1968.]

sábado, 11 de maio de 2019

Amor vs. Inverno (Quadra sucedida durante o banho matinal)


Levo sobre o corpo o casacão
Contra a geada.
E levo-te, amor, no coração
Contra o nada.

Arco de Baúlhe, 09-05-2019.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem faz parte do belíssimo filme Casablanca, de 1942, com a realização de Michael Curtiz e com a interpretação superior de Ingrid Bergman e Humphrey Bogart.]

domingo, 5 de maio de 2019

Mãezinha



Como todas as Mães, ó minha Mãe 
A senhora é perfeita, como sabe: 
Leio nos seus olhos todo o bem 
Que há na breve vida que nos cabe. 

Ainda hoje a trato por Mãezinha 
Como se fosse ainda pequenino.
Sabe-me bem, contudo, a palavrinha 
E sou - palavra! - um eterno menino. 

Lembro-me de a Mãe, durante a lida 
Na casa encantada do passado 
Cantar Amália e de a nossa vida 
Ter cheiro a café e pão torrado. 

Gritava: “Zé Tó, Quim, Fatinha, Nelo! 
Cuidado, o mar não está de bom humor!” 
(Era em Mira, num tempo novo e belo 
E a Mãe era a praia do amor.) 

Soube, sob as suas asas, da mudança 
Consubstancial ao crescimento. 
Isto é: que o tempo passa, o tempo avança
E deixa para trás cada momento. 

Preciso, mãezinha, que me cante 
A Amália que cantava noutra altura: 
Traga-nos de novo cada instante 
Da felicidade nunca mais tão pura. 

Ribeira de Pena, 05 de Maio de 2019. 
Joaquim Jorge Carvalho
[A primeira foto regista a eternidade de um momento em que comecei a nascer: uma tarde de namoro com Mãe e Pai nos papéis principais. A segunda, de há alguns anos, tem outro amor em fundo - a amada Coimbra.]

terça-feira, 30 de abril de 2019

25 de Abril (Tributo ao Sol)





Na celebração do 45.º aniversário do 25 de Abril de 1974, a Biblioteca da minha escola recebeu, entre outras digníssimas individualidades, o coronel Sousa e Castro, um dos Capitães de Abril. Para além de um encontro com a História, foi uma oportunidade para jovens alunos do 9.º ano exercitarem o delicado exercício da Memória e o da Gratidão.
Duas alunas interpretaram um textinho meu, expressamente elaborado para a ocasião.Não lhe chamaria sequer poesia, antes um Obrigado em verso. Para os meus leitores perceberem bem a magia do momento, ficará a faltar que  tivessem visto in vivo a comoção do coronel Sousa e Castro e in vivo ouvissem a cristalina voz da nossa juventude cantando Abril. 


Os meus pais falam-me às vezes dos Capitães de Abril
(E outras vezes são os professores, sobretudo os mais velhos,
Que me falam desses jovens com um mês cheio de Sol agarrado ao nome.)
Também acontece vê-los na televisão, a preto & branco, vitoriados
Por gente com alegria colorida e pura. 



Sei razoavelmente o que se passou: Portugal vivia a noite triste 

Da falta de liberdade, da miséria e da guerra - 
E um movimento de jovens Capitães disse: Basta! 
Com risco de vida, expulsaram os tiranos e abriram a porta ao Sol 
Da modernidade, quero dizer: inauguraram o Futuro.

O meu manual de História diz que já foi há muito tempo 
(foi em 1974, noutro século: já lá vão 45 anos),
Mas o meu pai diz sempre: “Parece que foi ontem!” 
E a minha mãe canta, enquanto se penteia, “Uma gaivota 
Voava, voava” (até eu já a acompanho cantando Como ela 
Somos livres, somos livres de voar”!). 

É tão bom vivermos, agora, em liberdade e em democracia, 
Não estarmos orgulhosamente sós, isto é, no Passado, 
Isto é, na Noite, isto é, estupidamente sós. 
O perigo da passagem do tempo é a gente esquecer-se 
Da importância do Sol (como se não tivéssemos de o merecer, 
De zelar por ele, de o conquistar, de o defender). 

Dou por mim frequentemente a desejar conhecer um Capitão 
Daquele dia. 
Um Capitão, senhores, cheio dessa coragem luminosa 
Que acende os caminhos e exemplarmente aponta 
À Liberdade. 
Gostava de o ver, talvez de o ouvir. Sobretudo, gostava 
De lhe dizer obrigado. Que estou aqui. Que sou livre. Que valeu a pena! 
Valeu a pena, Capitão! 

Arco de Baúlhe, 04-04-2019.
Joaquim Jorge Carvalho

quarta-feira, 17 de abril de 2019

F(r)ases da Lua


Nota prévia: a minha Colega/Amiga Rosário Coelho pediu-me pequeninos textos que começassem por determinadas letras. Essas frases completariam o cenário que preparara para o Sarau da nossa Escola, concretizado no dia 3 de Abril do corrente ano. Andei com esse pedido na cabeça durante um dia. Devo ter parecido, então, aos que me rodeavam bastante distraído e alguém, com razão, me acusou de "estar na lua". Era verdade - daí ter chamado "Frases da Lua" (depois "F(r)ases da Lua") ao conjunto de frases fabricadas. Ei-las.



Três para a letra B -

“Boa noite”, disse a lua, aparecendo no céu.
“Boa noite”, respondeu o poeta. O meu poema estava à tua espera.

“Branca como a neve só a própria neve”, disse a neve. “Para me perceberem, têm de ver, de pensar, de sentir como eu. Têm de ser como eu. Têm de ser eu.”

Beatriz é o nome do grande amor de Dante. O famoso “Inferno de Dante” não é um lugar: é não ter Beatriz junto a si.


Cinco para a letra D - 

Dá-me a tua mão, amor, contra a escuridão. Quero dizer: para haver Sol.

Disseste que seria para sempre. Não venhas agora com as desculpas da mortalidade ou do tédio, ouviste?

“Ditosa Pátria minha amada”, disse Camões. E, grata e orgulhosa, a Pátria volveu Poema.

Descemos para o chão, por nos dizerem que tínhamos de viver com os pés aí. Depois, passámos a vida com saudades de voar.

Depois do mar, é provável que nada exista. Por isso navego, como se o mar fosse tudo.



Duas para a letra I -

Irmãos, está-se a acabar o Futuro. Não podemos perder tempo!

Ir é um verbo com bichos-carpinteiros. Os bichos metem-se no verbo, cheios de sonhos e de impaciências, e vão. 



Três para a letra J -

- Janela, que há lá fora?
- Mais tarde, hás de saber.
- Mas podes dizer-me agora?
- Não perguntes, vai lá ver.

Jesus, por ser poeta, falava como as aves, cantando como se fosse um pássaro. Quem o ouvisse com o coração, voaria para o céu.

Junho inunda o calendário de Sol e de cheiro a maresia real ou imaginada. Acontece-me, por essa altura, acreditar que o Inverno não existe.


 Uma para a letra L -

Lavei o rosto com a água de um regato pequenino e anónimo. Só depois comecei a ler. O livro, sorrindo, deixou-me entrar como se fosse da casa.


Uma para a letra A -

Amor não é bem uma palavra. É o som do mundo à procura de música.


Uma para a letra V -

Virei à hora habitual do entardecer, com aquela urgência de chegar ainda com luz, só para te ver passar a caminho de não estares.


Duas para a letra F -

Felizes os que caminham felizes só pela felicidade de caminhar.

Faz de conta que sou um piano e toca-me, com a delicadeza e a competência necessárias, para enfim suceder a música querida.


Coimbra, 17 de Abril de 2019.
Joaquim Jorge Carvalho
[Desenho de Rosário Coelho.]

quarta-feira, 28 de novembro de 2018

Bordado outonal




O súbito frio da manhã 

À saída do prédio; 
Vultos lentos dos velhos 
À porta do laboratório; 
Estrangeiros altos tagarelando 
Sobre a barragem da Iberdrola; 
Grupos de jovens carregando mochilas
A caminho da escola; 
Eu também na minha lida novembrina 
De olhar cómico-cósmico, 
Esgaravatando o horizonte 
Buscando tudo quanto à vista haja 
E para tudo procurando um fio unificador 
Deste bordado humano que entretanto teço:
Mundo, tempo, gente, vida a passar 
Poema. 

Arco de Baúlhe, 27 de Novembro de 2018. 
Joaquim Jorge Carvalho 
[A imagem (pormenor de bordado madeirense, muito antigo) foi colhida, com a devida vénia, em http://www.pinterest.pt.]

segunda-feira, 2 de julho de 2018

Foto com talvez 20 anos


A foto é antiga, meu amor, 
Mas guarda eternamente a ilusão
De não existir aquela Dor
De ser tão provisório o Verão.

Tirando o fotógrafo, ali estão
Todos, meu amor, vivos ainda.
E eu solto o flash desta gratidão
Por pertencer a esta foto linda!

Coimbra, 25 de Junho de 2018.
Joaquim Jorge Carvalho
(ILYSM)

segunda-feira, 11 de junho de 2018

Origem do poema

Como nasce um poema, perguntaste. 
Nascendo, disse eu, como os outros seres vivos. 
O poema é, disse depois, talvez um mamífero 
Ou um vegetal (da taxonomia da rosas). Nasce
Do ventre que há no olhar ou no coração 
Ou na pele da Senhora Dona Criação. Ou nasce 
Do húmus paciente da Mãe-Terra, com espinhos 
E lava e perfumes misturados de água. 
O poema é talvez um animal nascido de um beijo
De um encontro, de uma voz buscando 
O direito a ser corpo independente e livre – 
E segue-te, nota, correndo ou voando. 
Quiçá seja simplesmente uma rosa consubstancial 
À Primavera 
Diria melhor: uma súbita reunião de pétalas 
Que exclusivamente te ofereço. 

Cabeceiras de Basto, 16 de Maio de 2018. 
Joaquim Jorge Carvalho 
[A imagem foi colhida, co a devida vénia, em https:www.pinterest.com.]

domingo, 10 de junho de 2018

Formiga diária


A formiga levantou-se cedo. Pegou na mala, na carteira dos documentos e no molho de chaves. Despediu-se da outra formiga adulta (as crias dormiam) e saiu do buraco. Percorreu em silêncio a distância entre ali e o lugar onde jazia um pão escuro e duro. Pacientemente-diligentemente-esforçadamente, reuniu algumas razoáveis migalhas e regressou ao buraco originário. Beijou pela segunda vez, nesse dia, a sua metade conjugal e as formigas infantes. A família jantou com apetite e alegria e rapidamente se esgotaram as migalhas. A formiga paterna deitou-se e ficou a olhar para o teto abstrato do buraco-lar. Foi quando lhe assomou à cabeceira uma das filhas: 
- Pai, agora já não há mais pão. E amanhã? 
A formiga patriarcal murmurou, cheia de sono e de fadiga: 
- Amanhã é outro dia. 

Viagem entre Vila Real e Coimbra, 09 de Junho de 2018. 
Joaquim Jorge Carvalho 
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em https://www.pinterest.com.]

sábado, 2 de junho de 2018

Centro Comercial


Centro comercial

São uma espécie de castelo
As pernas dessa mulher
Que fecha à chave o que é belo –
Não se abrem se ela não quer.

Quiseras tu ver aberto
O portão da fortaleza?
Quiseras tu ver de perto
A mais secreta riqueza?

O melhor é entenderes
Que as pernas dessa mulher
Não se abrem por tu quereres:
Abrem-se se ela quiser.

Cabeceiras de Basto, 19 de Abril de 2018.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em https://www.thinkstock.]

O caso do soneto incompleto


O caso do soneto incompleto 


Esvoaçam folhas pelo Café e crianças 
Passando riem-se enquanto o já velho 
Poeta se aflige e desesperadamente procura 
Os versos. 
O empregado traz-lhe dois tercetos 
Mas não a folha com as duas quadras
Em falta, de modo que o soneto se torna 
Viúvo de si, para sempre incompleto. 
O poeta recusa-se a amaldiçoar o vento
Porque o ama, como tudo quanto conhece
Da natureza e da vida. 
O empregado vê-o ao fundo, escrevendo 
Nervosamente-desperadamente, 
Tenazmente: 
Procura duas quadras desaparecidas, não 
Já pelo chão do Café ou da rua, mas 
No interior de si próprio. 

Cabeceiras de Basto, 23 de Março de 2018. 
Joaquim Jorge Carvalho 
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em https://www.antoniozai.wordpress.com.]


sexta-feira, 24 de novembro de 2017

5 Quadras & 1 Sextilha (tudo por amor)

  


O meu amor é concreto, literal
Terreno e corpóreo. E tem
Cheiro, pele macia, algum sinal
Um certo paladar que sabe bem.

Não posso descrevê-lo por figura
De estilo esquisita, burilada:
O meu amor não quer senão ternura
E ri-se da paixão metrificada.

Ai, o meu amor é tão moderno!
Por exemplo, eu constipo-me amiúde
E adiamos beijos no Inverno
Por puros motivos de saúde.

Amo em meu amor quanto ele tem:
O olhar sereno-doce, ou a voz rouca
Gosto de sentir a sua boca
Na minha, sem saber qual é de quem.

Nunca lhe falo de eterna paixão
Por ser algo abstracto o sentimento;
Amo o meu amor neste momento
Como é de quem ama obrigação.

Com o meu amor, vou por aí
Simplesmente feliz. E se houvesse
Literatura que dissesse a alegria
De estar fisicamente junto a si
(Pode haver, mas nunca vi)
Eu, meu amor, comprá-la-ia.

Cabeceiras de Basto, 26 de Janeiro de 2017.
Joaquim Jorge Carvalho
Participei, com este poema, no Concurso de Textos de Amor Manuel António Pina – 2017, uma organização do Museu Nacional de Imprensa. O júri foi constituído por Fernando Pinto do Amaral (Director do Plano Nacional de Leitura), José Luís Pires de Laranjeira (Professor da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra), Luísa Marinho Antunes Paolinelli (Professora da Universidade da Madeira) e Luís Humberto Marcos (Director do Museu). No dia 18-11-2017, tive a honra de receber uma simpática menção honrosa e de conhecer Ana Pina e Sara Pina, as duas filhas do grande - e para sempre vivo - Manuel António Pina. Nota importante: retirei, com a devida vénia, estas fotos da página de Facebook do Museu Nacional de Imprensa. Numa delas, estou com uma formosa fadista (infelizmente, não consigo recordar-me do seu nome), de cujas mãos recebi o meu diploma. Na outra, vemos Ana Pina, Sara Pina, Luís Humberto Marcos e o Professor Pires de Laranjeira.]

segunda-feira, 14 de agosto de 2017

Infância


O tempo da minha infância,
Senhor Gasset,
Não tinha circunstância
Nem tinha de ter.
Não cabia na filosofia
Nem tinha de caber.
Era sempre o mesmo Dia
O mesmo estar e ser.

Tocha, 09 de Agosto de 2017.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.imagui.com.]