Bússola do Muito Mar

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Número de Ondas

segunda-feira, 17 de junho de 2019

Vida pecanina

Cão da rua, cão visto de manhã
Cão visto à tarde no regresso a casa 
Cão de tantos dias, meses, anos
Cão não velho até ser velho
Cão lento, cão doente, cão mortal
Cão espelho da minha antiguidade
Cão com cio cão latido cão uivo 
Cão rosnando cão ladrando
Cão mordendo cão morrendo
Cão presente cão ausente
Cão saudade. 

Ribeira e Pena, 16 de Junho de 2019. 
Joaquim Jorge Carvalho 
[A imagem (o famoso Brian, de Family Guy) foi colhida, com a devida vénia, em https://clipartportal.com.] 

quarta-feira, 12 de junho de 2019

Sépia

Gosto de fotos antigas
De ver os agora mortos vivendo ainda tanto 
Tão fora de não estar vivos 
De ver as casas ainda jovens 
Muito anteriores à ruína do devir 
De ver campos e flores em vez de cimento civil 
De perceber a pureza ingénua dos gestos 
Ainda livres do cinismo técnico-tecnológico. 

Até em fotos de guerra vejo humanidade – 
Um esgar de aflição ou de prazer 
Um sorriso malandro, uma dúvida qualquer 
Uma mulher fugindo sensualmente das bombas 
Um soldado fumando no intervalo do medo. 

Gosto de ver o presente que há ali 
Em fotos para sempre cheias de esperança 
Como senão houvesse morte seguinte Àquele momento           
Como se cada instante fotografado fosse 
A eternidade. 

Arco de Baúlhe, 12 de Junho de 2019. 
Joaquim Jorge Carvalho
[A foto, já usada neste blogue, grava no tempo um instante familiar, na Praia de Mira, aí por 1968.]

domingo, 2 de junho de 2019

Café Facebook

Há muito que explico a minha (esparsa) ligação às redes sociais com a imagem de um Café onde se vai para uma breve visita, quiçá para uma breve conversa. É um lugar para ver e se ser visto, não necessariamente para interagir, pois para tal é preciso disposição, vontade e tempo. 
Ultimamente tem-me apetecido dizer adeus para sempre a esse convívio, nem sempre higiénico, nem sempre amável, nem sempre civilizado. Os frequentadores mais ferozes destes espaços assemelham-se cada vez mais a milícias furiosas e maledicentes, com traços bipolares (talvez “multipolares” seja a palavra certa), como se buscassem o mínimo pretexto para expelir ódios, frustrações, veneno e depressão. É tudo de um maniqueísmo básico e radical, muito preto-branco, muito salazarento (“Quem não está por nós, ó meus amigos, está contra nós!”). 
Há pouco, sucedeu-me comentar a atitude de Sérgio Conceição, treinador do Futebol Clube do Porto, que se recusou, na tribuna de honra do estádio do Jamor, após perder a final da Taça de Portugal em futebol, a cumprimentar o presidente do Sporting Clube de Portugal. O que defendi foi que toda a gente, enquanto indivíduo, tem o direito de escolher cumprimentar ou não cumprimentar outrem - mas que, no plano institucional, marcado por aquilo a que chamo o “decoro institucional”, devemos sacrificar a pulsão individual e agir de forma digna. (“Digna”, sublinho, no sentido etimológico, i.e. no sentido de estar à altura das circunstâncias.) 
Não foi, naquele contexto, o indivíduo Sérgio Conceição quem deu provas de arrogância e mau perder. Foi algo muito maior do que o (provisório) funcionário: o secular Futebol Clube do Porto. Creio, aliás, que o que pretendia ser visto como um gesto de afirmação de carácter acabou por redundar num muito feio episódio de arruaça.
Como compreenderão, a discussão extravasa o cariz clubístico-tribal. Trata-se de preservar um reduto mínimo de civilidade e de educação. Mas caiu-me logo, sobre a prosa, um adepto do FCP (e, "por arrastamento", do cidadão Sérgio Conceição), dizendo que o arruaceiro era eu, que os “meus” (referia-se aos jogadores do Sporting) haviam feito um “jogo sujo”, que o árbitro não sei quê. Assinalei-lhe, em resposta, alguns erros de ortografia e manifestei-lhe a óbvia indisponibilidade para manter qualquer “diálogo”, arrependendo-me mil vezes de ter ido ao Café Facebook. 
Como diria o amado escritor/filósofo Jean-Paul Sartre, “L’enfer, c’est les autres”. (Mas nós somos os outros dos outros…) 
Cada vez mais o Café virtual se parece mais com uma tasca, com espinhas, beatas de cigarro, cascas de tremoços e insultos pelo chão e pelo ar. Talvez passar por lá seja má opção. Talvez o melhor seja ficar em casa, respirar ar ainda puro, passear pela humanidade serena em quem confiamos. Questão já, diria eu, de sobrevivência. 

Coimbra, 25 de Maio de 2019. 
Joaquim Jorge Carvalho 
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em https://saude.abril.com.br.]

quarta-feira, 29 de maio de 2019

Pão nosso


Estive no funeral da Mãe de um amigo. Abracei-o, com a inteira solidariedade que há no facto de todos sermos filhos e de a morte daquela Mãe ser, no plano da percepção, a morte da nossa própria fonte.
A uns metros da descida final do caixão à eternidade subterrânea, um familiar do meu amigo falava da morte de uma outra senhora, contemporânea da que ali se despedia do mundo, e que na semana anterior falecera também, de forma inopinada. 
Guardei a narração num cantinho do meu coração: a senhora passara bem o dia, jantara com a família, deitara-se. De manhã, a filha estranhou o facto de tanto tardar o pão da manhã, trazido diariamente pela senhora sua mãe. Acabou por dar o pequeno-almoço ao marido com o pão duro restante do dia anterior. Passou uma hora, passaram duas. A Mãe não aparecia. 
A filha foi à casa onde a senhora vivia. Bateu à porta. Ninguém veio abrir. Usou a chave que tinha para ocasiões destas e assustou-se com o silêncio. No quarto, já memória, estava a sua Mãe, como se dormisse. 
Abracei o narrador, genro desta senhora, e segui para o meu carro. Batia-me na cabeça uma ideia muito triste e talvez poética: quando uma Mãe parte, perde-se-nos o pão de cada dia. 

Coimbra, 26 de Maio de 2019. 
Joaquim Jorge Carvalho 
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em https://www.sulinformacao.pt.]

sábado, 11 de maio de 2019

Amor vs. Inverno (Quadra sucedida durante o banho matinal)


Levo sobre o corpo o casacão
Contra a geada.
E levo-te, amor, no coração
Contra o nada.

Arco de Baúlhe, 09-05-2019.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem faz parte do belíssimo filme Casablanca, de 1942, com a realização de Michael Curtiz e com a interpretação superior de Ingrid Bergman e Humphrey Bogart.]

domingo, 5 de maio de 2019

Mãezinha



Como todas as Mães, ó minha Mãe 
A senhora é perfeita, como sabe: 
Leio nos seus olhos todo o bem 
Que há na breve vida que nos cabe. 

Ainda hoje a trato por Mãezinha 
Como se fosse ainda pequenino.
Sabe-me bem, contudo, a palavrinha 
E sou - palavra! - um eterno menino. 

Lembro-me de a Mãe, durante a lida 
Na casa encantada do passado 
Cantar Amália e de a nossa vida 
Ter cheiro a café e pão torrado. 

Gritava: “Zé Tó, Quim, Fatinha, Nelo! 
Cuidado, o mar não está de bom humor!” 
(Era em Mira, num tempo novo e belo 
E a Mãe era a praia do amor.) 

Soube, sob as suas asas, da mudança 
Consubstancial ao crescimento. 
Isto é: que o tempo passa, o tempo avança
E deixa para trás cada momento. 

Preciso, mãezinha, que me cante 
A Amália que cantava noutra altura: 
Traga-nos de novo cada instante 
Da felicidade nunca mais tão pura. 

Ribeira de Pena, 05 de Maio de 2019. 
Joaquim Jorge Carvalho
[A primeira foto regista a eternidade de um momento em que comecei a nascer: uma tarde de namoro com Mãe e Pai nos papéis principais. A segunda, de há alguns anos, tem outro amor em fundo - a amada Coimbra.]

terça-feira, 30 de abril de 2019

25 de Abril (Tributo ao Sol)





Na celebração do 45.º aniversário do 25 de Abril de 1974, a Biblioteca da minha escola recebeu, entre outras digníssimas individualidades, o coronel Sousa e Castro, um dos Capitães de Abril. Para além de um encontro com a História, foi uma oportunidade para jovens alunos do 9.º ano exercitarem o delicado exercício da Memória e o da Gratidão.
Duas alunas interpretaram um textinho meu, expressamente elaborado para a ocasião.Não lhe chamaria sequer poesia, antes um Obrigado em verso. Para os meus leitores perceberem bem a magia do momento, ficará a faltar que  tivessem visto in vivo a comoção do coronel Sousa e Castro e in vivo ouvissem a cristalina voz da nossa juventude cantando Abril. 


Os meus pais falam-me às vezes dos Capitães de Abril
(E outras vezes são os professores, sobretudo os mais velhos,
Que me falam desses jovens com um mês cheio de Sol agarrado ao nome.)
Também acontece vê-los na televisão, a preto & branco, vitoriados
Por gente com alegria colorida e pura. 



Sei razoavelmente o que se passou: Portugal vivia a noite triste 

Da falta de liberdade, da miséria e da guerra - 
E um movimento de jovens Capitães disse: Basta! 
Com risco de vida, expulsaram os tiranos e abriram a porta ao Sol 
Da modernidade, quero dizer: inauguraram o Futuro.

O meu manual de História diz que já foi há muito tempo 
(foi em 1974, noutro século: já lá vão 45 anos),
Mas o meu pai diz sempre: “Parece que foi ontem!” 
E a minha mãe canta, enquanto se penteia, “Uma gaivota 
Voava, voava” (até eu já a acompanho cantando Como ela 
Somos livres, somos livres de voar”!). 

É tão bom vivermos, agora, em liberdade e em democracia, 
Não estarmos orgulhosamente sós, isto é, no Passado, 
Isto é, na Noite, isto é, estupidamente sós. 
O perigo da passagem do tempo é a gente esquecer-se 
Da importância do Sol (como se não tivéssemos de o merecer, 
De zelar por ele, de o conquistar, de o defender). 

Dou por mim frequentemente a desejar conhecer um Capitão 
Daquele dia. 
Um Capitão, senhores, cheio dessa coragem luminosa 
Que acende os caminhos e exemplarmente aponta 
À Liberdade. 
Gostava de o ver, talvez de o ouvir. Sobretudo, gostava 
De lhe dizer obrigado. Que estou aqui. Que sou livre. Que valeu a pena! 
Valeu a pena, Capitão! 

Arco de Baúlhe, 04-04-2019.
Joaquim Jorge Carvalho

quarta-feira, 24 de abril de 2019

Abril. 45 vezes Abril. Abril sempre!

1.
Antes de Abril, houve a Noite, e muitos dos contemporâneos dessa ausência do Sol deixaram então - por medo, por cobardia, por preguiça ou por gulosa conveniência - que tudo fosse ficando como estava.
(Sei lá se eu próprio, caso fosse adulto à época, não faria o mesmo. Sabemos lá o que faríamos todos em cada circunstância que não vivemos.)
Mas houve quem não se resignasse. Quem, com risco de perder o emprego, o sossego, a própria vida, se recusou à resignação e lutou. 
Para todos quantos combateram a Noite, aí vai a luz máxima da minha gratidão. Para todos quantos foram Capitães de Abril, incluindo os que nem sequer foram à tropa, o meu obrigado eterno.

2.
Abril significa a conquista do direito ao Sol. Quarenta e cinco anos após o luminoso dia 25, continua a haver quem não tenha Sol. Mas há agora (ainda há) a Liberdade de reclamar o direito ao Sol. O Sol, se não é ainda de todos, deveria ser de todos. 
Os direitos são importantes, por isso custa tanto conquistá-los. Mas não chega ter direitos. É igualmente importante lutar por que se eles cumpram. 
De que nos vale existir o Sol se ele não nos iluminar e nos aquecer? 
Viva, pois, o Abril que já há e o que falta cumprir!

Cabeceiras de Basto, 24 de Abril de 2019.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.radioregionaldocentro.com.]


domingo, 21 de abril de 2019

Dor de mudar


Desde menino que me dói a mudança, por mínima que seja. Custava-me saber que um casal qualquer da rua estivesse de partida (para o Norte, para o Sul, para o estrangeiro). Custava-me que um velhote tivesse morrido e nunca mais o voltasse a ver tão anónimo e silente, sentado num muro branco, à saída das oficinas da Renault, quando eu regressava a casa no fim das aulas. Custava-me que a câmara municipal arrancasse uma árvore antiga, com o pretexto da sua velhice e de algum perigo para a população da minha rua. Custava-me o final iminente do livro que andasse a ler. Custava-me o ocaso de uma série televisiva. 
Pressentia-o antes, sei-o agora: a minha dor era a de o tempo passar e de isso significar que tudo tinha um fim (e de não haver remédio capaz de contrariar essa doença). Era a de saber que o tempo todo é um empréstimo com prazo e juros. Uma estadia provisória e volátil. No meu primeiro livro, Desapontamentos dos Dias (nascido na década de 90 do século XX), escrevi:

Cortaram mais uma árvore
Na rua onde fui menino. 
Cada vez há menos árvores
E a rua vai-me fugindo.

Lá estava a rua, isto é, a vida em fuga. É uma coisa muito triste, e eu digo-a. Não a digo – isto é, não a escrevo – apenas por ser triste, mas por ser também uma coisa estranhamente bela. 

Coimbra, 20 de Abril de 2019. 
Joaquim Jorge Carvalho 
[Na foto, estou eu, com 12 anos menos, e está Coimbra, sem idade.]

quinta-feira, 18 de abril de 2019

LER PARA SALVAR


Li, numa crónica de Manuel S. Fonseca, publicada no Correio da Manhã, edição de 18-04-2019, a confirmação do que já defendi em múltiplos contextos da minha vida pessoal, profissional e académica: ler às crianças, praticamente desde o berço, ajuda-as a desenvolver (exponencialmente) a linguagem, a inteligência, a atenção, a personalidade. O cronista do CM refere um estudo da Sociedade Americana de Pediatria que garante esta verdade científica: "aos cinco anos, uma criança a quem os pais leram um livro por dia [durante algum tempo], sabe um milhão e 400 mil palavras mais do que os catraios murchos que os pais arrumaram a xixi e cama".
Ignoro se o valor enunciado, no que respeita à mais-valia vocabular, é literal ou hiperbólico. De qualquer modo, a ideia faz muito sentido. E tudo isto ganha particular pertinência no território estupidificante da modernidade hiper-tenológica em que vivemos. Impera aqui a alienação provocada por tablets, iphones & computadores, que sugam a atenção e a inteligência dos utilizadores-consumidores-usuários, em fatal detrimento do convívio com o mundo, a humanidade, o Sol. Já agora, acreditem ou não: um familiar (muito jovem ainda) confessou-me, há dias, que odiava livros.
A parte mais incisiva do texto de Manuel S. Fonseca é esta: os pais/educadores, ao ler para as crianças, ajudam-nas salvando-as dessa calamidade que é o défice de linguagem. Ora, os que, por preguiça ou ignorância, não o fazem, hélas, estão a incumprir parte importante das suas funções, dos seus deveres. Ou seja, "baldam-se".

Coimbra, 18 de Abril de 2019.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.estudokids.com.]

quarta-feira, 17 de abril de 2019

F(r)ases da Lua


Nota prévia: a minha Colega/Amiga Rosário Coelho pediu-me pequeninos textos que começassem por determinadas letras. Essas frases completariam o cenário que preparara para o Sarau da nossa Escola, concretizado no dia 3 de Abril do corrente ano. Andei com esse pedido na cabeça durante um dia. Devo ter parecido, então, aos que me rodeavam bastante distraído e alguém, com razão, me acusou de "estar na lua". Era verdade - daí ter chamado "Frases da Lua" (depois "F(r)ases da Lua") ao conjunto de frases fabricadas. Ei-las.



Três para a letra B -

Boa noite”, disse a lua, aparecendo no céu.
“Boa noite”, respondeu o poeta. O meu poema estava à tua espera.

Branca como a neve só a própria neve”, disse a neve. “Para me perceberem, têm de ver, de pensar, de sentir como eu. Têm de ser como eu. Têm de ser eu.”

Beatriz é o nome do grande amor de Dante. O famoso “Inferno de Dante” não é um lugar: é não ter Beatriz junto a si.


Cinco para a letra D - 

Dá-me a tua mão, amor, contra a escuridão. Quero dizer: para haver Sol.

Disseste que seria para sempre. Não venhas agora com as desculpas da mortalidade ou do tédio, ouviste?

Ditosa Pátria minha amada”, disse Camões. E, grata e orgulhosa, a Pátria volveu Poema.

Descemos para o chão, por nos dizerem que tínhamos de viver com os pés aí. Depois, passámos a vida com saudades de voar.

Depois do mar, é provável que nada exista. Por isso navego, como se o mar fosse tudo.



Duas para a letra I -

Irmãos, está-se a acabar o Futuro. Não podemos perder tempo!

Ir é um verbo com bichos-carpinteiros. Os bichos metem-se no verbo, cheios de sonhos e de impaciências, e vão. 



Três para a letra J -

- Janela, que há lá fora?
- Mais tarde, hás de saber.
- Mas podes dizer-me agora?
- Não perguntes, vai lá ver.

Jesus, por ser poeta, falava como as aves, cantando como se fosse um pássaro. Quem o ouvisse com o coração, voaria para o céu.

Junho inunda o calendário de Sol e de cheiro a maresia real ou imaginada. Acontece-me, por essa altura, acreditar que o Inverno não existe.


 Uma para a letra L -

Lavei o rosto com a água de um regato pequenino e anónimo. Só depois comecei a ler. O livro, sorrindo, deixou-me entrar como se fosse da casa.


Uma para a letra A -

Amor não é bem uma palavra. É o som do mundo à procura de música.


Uma para a letra V -

Virei à hora habitual do entardecer, com aquela urgência de chegar ainda com luz, só para te ver passar a caminho de não estares.


Duas para a letra F -

Felizes os que caminham felizes só pela felicidade de caminhar.

Faz de conta que sou um piano e toca-me, com a delicadeza e a competência necessárias, para enfim suceder a música querida.


Coimbra, 17 de Abril de 2019.
Joaquim Jorge Carvalho
[Desenho de Rosário Coelho.]

AVISO

Por razões técnicas, não tenho conseguido publicar novos textos no meu (vosso, nosso) blogue. Espero retomar a a atividade nos próximos dias. Abraço a todo(a)s!

Coimbra, 17 de Abril de 2019.
Joaquim Jorge Carvalho

segunda-feira, 11 de março de 2019

O segredo do guarda-chuva

O rapaz viu o guarda-chuva esquecido no chão, à entrada da sala de trabalhos oficinais, e reconheceu-o logo: pertencia à menina loira que amava desde a primeira visão, aí por Outubro de 1975, na paragem de autocarro.
Entregou o guarda-chuva a uma colega de turma da proprietária (dona, pensou, daquela utilidade e também do seu coração menino). A amada mal sabia quem era o rapaz, não obstante o esforço descritor da amiga. Seria, pensou, um dos tantos admiradores da sua beleza luminosa e inignorável. 
O rapaz, muito metido naquela bolha de fogo e desmaio, escondeu para (quase) sempre um segredo: que, às escondidas, cheirara-acariciara-beijara aquele guarda-chuva antes de o devolver. 

Ribeira de Pena, 07 de Março de 2019. 
Joaquim Jorge Carvalho 
[A imagem (que recorda a famosa Pipi das Meias-Altas, foi colhida, com a devida vénia, em http://www.colorirdinokids.blogspot.com.]

terça-feira, 15 de janeiro de 2019

A professora e o pato

Manuela recebeu um pato, a certa segunda-feira, sem esperar tal gentileza. O senhor Venceslau, pai do Gregório, do 3.º ano, não se esquecera do que a professora fizera pelo filho, aquando do ataque de epilepsia sofrido durante o primeiro período lectivo, Ela apercebera-se do episódio e soubera fazer o que as circunstâncias ditavam: afastara toda a gente do menino, colocara-o em posição de segurança (deitado de lado), puxara-lhe a língua para fora, no sentido de prevenir a asfixia, e sentara-se sobre o seu corpo até ele acalmar. 
O senhor Venceslau era agricultor e tinha uma pequena criação de patos e galinhas. Soubera, pelo filho, que a docente gostava de patos desde menina (dos verdadeiros e dos que via desenhados em livros, em desenhos animados, ou em forma de brinquedos). Ainda tinha pensado em comprar um ganso em porcelana que vira na feira de Cernache, mas a escultura era cara. De modo que optou mesmo por um pato vivo e levou-o à professora, numa segunda-feira. 
A professora sabia que uma eventual recusa seria lida pelo humilde ofertante como uma ofensa. Ficou com o pato, agradecendo-o. Com o tempo, habituou-se à presença do animal e fez dele sua companhia querida e constante. Era vê-la passeando com ele, rua acima, rua abaixo, como se se tratasse de um cão. 
À medida que envelhecia, o juízo da docente ia variando muito, e uma das suas pancadas era ensinar aquele pato a voar. Leu livros de biologia e de aeronáutica, observou o voo de outros patos e demais aves, aconselhou-se dissimuladamente com colegas de profissão, médicos, autarcas e caçadores. Contudo, em mais de uma centena de experiências, nunca o bicho lhe fez a vontade. 
Até que um dia o pato desapareceu. Algumas vizinhas desconfiaram logo de uns jovens arruaceiros, que vinham dos lados de S. João do Campo, e adivinhavam um provável repasto à base de arroz e da carne desfiada da gentil criatura. Mas a professora não parecia preocupada com o desaparecimento do companheiro. Garantia a toda a gente que o Donald finalmente voara e seguira para o Sul. 
- Quem me dera eu própria fazer o mesmo… – dizia. 
Acrescentava, sorrindo: 
– E só não o faço devido às minhas obrigações profissionais e a este défice de asas com que nasci! 

Arco, 15 de Janeiro de 2019. 
Joaquim Jorge Carvalho 
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em https://pt.pngtree.com.]

segunda-feira, 14 de janeiro de 2019

Sísifo, ou o Tom Sawyer do Bairro do Brinca


O Tiago tem apenas oito anos, não lhe peçam para aguentar a missa dominical sem se distrair, bocejar, protagonizar espasmos de impaciência. Aproveita tudo para se ocupar mentalmente, enquanto o senhor padre debita a homilia e o povo corresponde mecanicamente às suas deixas. 
Foi o caso da migalha que uma formiga transportava, naquele Domingo, entre a décima fila de bancos (a contar do altar) e a base de uma coluna encostada à parede direita (para quem entrasse), um pouco à frente da pia baptismal. Interessou-se logo pelo esforço titânico do insecto, à bulha com um pedacinho de pão que tinha o dobro do tamanho do minúsculo ser. Pobre e brava formiga, suportando o peso da comida, a irregularidade do piso, feito de cimento e ladrilhos cheios de poeira ou cotão, o barulho ambiente, composto de vozearia humana, às vezes em rezas uníssonas, outras de tosse, manifestações de catarro, suspiros.
Tiago percebeu que o objectivo da formiga era chegar a um pequeno orifício que mal se vislumbrava, mesmo no início da coluna. Apoiou-a mentalmente, como se ela fosse uma atleta do seu clube preferido, talvez em luta por um título mundial. Quase no final da cerimónia, a multidão de crentes agitou-se. As pessoas murmuraram “Amen” e o padre autorizou-as a sair: “Ide em paz e que o Senhor vos acompanhe.” Umas dezenas de pés cruzaram, em tropel rumo ao exterior da nave, o caminho da formiga, pisando-a ou empurrando-a.
O Tiago ficou para trás. Segundos depois da debandada, já não havia sinais do insecto nem da migalha transportada, naquele meio metro de teatro trágico. A mãe percebeu-lhe a tristeza nos olhos:
- Que foi, filho?
Ele disse:
- Nada.
Quem soubesse o que acontecera nos últimos vinte ou trinta minutos, no solo da igreja, perceberia bem o que o rapaz queria dizer com a sua resposta. (Está bem, o narrador explica: referia-se ao resultado do esforço da formiga.)

Arco, 14 de Janeiro de 2019.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, na net.]