Bússola do Muito Mar

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Número de Ondas

quinta-feira, 2 de setembro de 2021

Parabéns, Vanovska!



A vida verdadeira é toda feita no modo condicional.
O amor verdadeiro é feito todo de modo incondicional.
A vida será-seria assim, se as circunstâncias forem-fossem assim.
O amor é eu estar disposto a morrer por ti, se precisares que eu morra para viveres. Os meus pulmões? Toma-os. O meu fígado? Ei-lo. O meu coração? Dou-to.
Chegaste como uma bênção. És um orgulho.
Feliz aniversário, ó leoa do papai e da mamãe!

Coimbra. 02 de Setembro de 2021.
Joaquim Jorge Carvalho
[Foto MPC]

segunda-feira, 26 de julho de 2021

4. Tarzan & Sidónio


Aí pelos 40 anos, Sidónio Sargento deu em embirrar com os animais de estimação, particularmente com cães e gatos. Custava-lhe ver os familiares próximos sujeitos à tirania da bicharada, que enchia de pêlos os sofás e o chão, que miava ou gania-ladrava-uivava por mil motivos, que urinava sobre as plantas e os tapetes, que destruía colchas e cortinados seculares cheios de história. 
O pior foi quando se apercebeu de que a rua onde vivia estava pejada destes animais, sobretudo de cães, tornando impossível – de manhã cedo até altas horas da noite – um pouco de sossego, tal o ruído dessa numerosa matilha sitiando o silêncio, ladrando-ganindo-uivando, uivando-ladrando-ganindo, sem pausa ou misericórdia. O seu ódio desviou-se para os donos das feras, que aprisionavam os bichos em minúsculos apartamentos e – vergonha maior – nas tão reduzidas varandas dos prédios económicos, condenando-os a uma solidão de dias inteiros e cruéis. 
Quando morreu a sogra, a filha herdou alguma louça, uma mesa de cozinha e, raios partissem a sorte, um cão chamado Tarzan. O senhor Sidónio, no imediato, engoliu este infortúnio por respeito à dor lutuosa da esposa. Na semana seguinte, porém, começou a murmurar a sua infelicidade e a sua revolta. Avisou a mulher para a provável iminência de urina espalhada pela casa (e de outras escatologias piores). Essa ominosidade acabou por perturbar a companheira: 
- Achas? Ai, homem, se isso acontecer, levo-o para a casa do meu tio Ernesto. Aquele que vive em Viseu…
O marido disfarçou a sua satisfação, desejando que o mijo canino aparecesse logo nesse dia. Mas o Tarzan vinha bem educado e esperava pacientemente pela manhã. Só se aliviava durante o passeio de dez minutos, entre a casa e um pequeno jardim ali a cinquenta metros. De modo que a irritação do homem cresceu e, à falta de coisa mais substancial, enumerava outros inconvenientes: o cheiro do cão, os pêlos que nenhuma limpeza evitava, aquele hábito de ladrar contra os gatos ou humanos que passavam na rua. Percebeu, com amargura, que tudo aquilo eram, para a esposa, pormenores facilmente tolerados. E teve, enfim, uma ideia.
À noite, quando a mulher já dormitava frente à televisão, escapuliu-se até à cozinha e urinou num canto, mesmo ao lado do lava-louças. No dia seguinte, fez o mesmo no corredor. Mais tarde, no chão do quarto e até sobre a colcha da cama conjugal. 
A mulher ralhava com o cão e, de viés, apreciava a paciência do marido, que apenas fechava tristemente os olhos, como um mártir capaz de tudo sofrer pela harmonia do lar. Finalmente, o animal foi entregue ao tio Ernesto, que afinal morava em Vildemoinhos e, para sorte de todos, era proprietário de um enorme quintal à volta de sua casa. O velhote aceitou logo o animal, pois estava habituado à presença – numerosa e variada – de bicharada. 

Aos oitenta anos, o senhor Sidónio Sargento queixou-se à filha da vingança que o cão da sogra lhe reservara: sustentava que o Tarzan lhe mijava a roupa, os sapatos, os lençóis da cama, o chão. A filha dizia-lhe que não e que aquilo era confusão da sua cabeça. E ele: 
- Para cúmulo, a tua mãe não diz nada, sabias?
Nessa tarde, a filha suspirou mais profundamente, também ela já velha.
- A mãe já morreu, paizinho. E o Tarzan também, está claro.
O velho, sempre pronto a indignar-se com todos, ficou dessa vez em silêncio. Mas, pouco depois, voltou ao assunto, apontando para a poça de urina sob os seus pés:
- Ai é? E isto?
A filha chamou a empregada do Lar de Nossa Senhora das Aflições.
- Ó dona Maria, desculpe. O meu pai descuidou-se outra vez.
O senhor Sidónio observou, por momentos, a empregada limpando o chão. A filha conduziu-o para a casa de banho, incapaz de evitar um suspiro longo e sonoro, que misturava o cansaço dos dias com alguma tristeza e alguma impaciência (involuntárias ambas). Ao velhote, aquele som pareceu um uivo ou um ganido.

Coimbra, 19-07-2021.
Joaquim Jorge Carvalho
[Na imagem, aparece a Dara, a nossa cadela (já falecida).]

sábado, 17 de julho de 2021

Jeremias & Jerimum

 

3.

A esposa do senhor Jeremias Magala estranhou o facto de, no bolso interior do casaco esponsal, ter encontrado pevides cruas, ainda por secar. A mulher sofria moderadamente ciúmes, mas a descoberta pareceu acender-lhe demenciais suspeitas de alguma patuscada com amásias vorazes e amorais. Ao fim do dia, quando o marido chegou do trabalho na seguradora, ela gritou-lhe, esperneando-bracejando, a acusação que mal contivera no peito durante cinco ou seis horas.

O homem negou a sugestão “sem sentido e sem lógica - aliás, estúpida” (sic) da sua senhora. E num esforço de ironia, acompanhada de um esgar que era para ser sorriso, atirou: 
- Encontras pevides no bolso do meu casaco e concluis que se trata de um caso com uma mulher!

A esposa baixou a crista, sobretudo depois de o companheiro ter jurado pelos filhos. Contrafeita, acabou por pedir-lhe desculpa e o cônjuge fingiu-se amuado. (Na verdade, estava satisfeito e aliviado, não imaginais porquê.)

Deitaram-se logo a seguir ao jantar. Ele levou tempo a adormecer: na sua cabeça, bailavam ainda imagens escandalosas do seu último encontro com certa abóbora maravilhosa, que ele em boa hora salvara do Halloween.

Coimbra, 16 de Julho de 2021.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em lifestyle.sapo.pt.]

quarta-feira, 14 de julho de 2021

Cão e galinha

 



2.

Ao terceiro dia da morte do dono, o cão desistiu de chorar. A fome deveio mais forte do que a tristeza e ele deitou-se à caça, farejando pombas ingénuas ou galinhas distraídas. Teve azar: Rodrigo o dono do galinheiro que havia frente à casa do falecido dono, não lhe perdoou o ataque brutal à única pedrês da criação (fiel fornecedora do ovo nosso de cada dia) e atirou-lhe um tiro de espingarda, à queima-roupa. A rua soube de tudo, quase em directo, mas não ligou muito ao caso.

Coimbra, 13 de Julho de 2021.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em super.abril.com.br.]

Maluco e Sol

 



1.

O maluco da rua atirou uma pedrada ao Sol. O Sol, farto de malucos, pregou-lhe com uma insolação. O maluco esteve a morrer, mas recuperou milagrosamente. Aliás, deixou de ser maluco: trabalha para a câmara, é dirigente do clube local e noivou uma moça bonita, que trabalha na Padaria Central. O Sol, esse, está na mesma.

Coimbra, 13 de Julho de 2021. 
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem (evocando Chaplin) foi colhida, com a devida vénia, em publico.pt/2014/03/21.]

domingo, 4 de julho de 2021

Domingo & sombra

 



1
Da minha janela vê-se o Domingo:
Um cão antigo atravessa a rua
Um imigrante fala ao telemóvel
Dois reformados gemem-se queixas

2
Subitamente some-se o Sol
E o quase nada disto devém nada.

3
Bocejo sobre a vila adormecida
Cansado da inércia própria e alheia


4
Apetece-me agora outro lugar
Ver para lá do que se vê –
Desesperado, zappo na tv
E busco algum cenário com mar.


Ribeira de Pena, 04 de Julho de 2021.
Joaquim Jorge Carvalho
[Foto JJC]

sábado, 3 de julho de 2021

Metáfora em forma de cápsulas

Depositamos as cápsulas de café num recipiente de vidro e acontece sentirmos, por dentro da alma, um sorriso crescendo: é a memória e a antecipação do prazer. (Quem não for viciado em café, notai, escusa de ler, pois nada do que se segue fará, nesse caso, sentido.)
Regressemos às cápsulas. Às vezes, são dezasseis que ali colocamos; outras, dez. Depende, já se vê, do pacotinho cartonado que adquirimos antes. Serão consumidas em, no máximo, dez dias, quiçá menos.
Calha doer-nos, ao retirar do frasco uma (e outra, outra e outra) cápsula, a presciência do vazio futuro. Sim, haverá um tempo em que o futuro estará sem cápsulas. Dito de outro modo: haverá um tempo sem direito ao prazer cafeínico que tomamos, regra geral, por garantido.
Chegamos a uma idade em que tendemos a ver na mais chã das circunstâncias uma metáfora profunda sobre esta coisa triste que nasce connosco: a mortalidade. Isso me sucedeu, há pouco tempo, na minha cozinha, ao olhar para a penúria circunstancial de cápsulas de café.
Compramos mais uma caixa (talvez duas, para prevenir neuras futuras). Assim pomos fim, por algum tempo, ao perigo do fim. De algum modo, também essa possibilidade existe, até certo ponto, na metáfora sobre as nossas vidas: podemos adiar o ocaso com uma operação, um comprimido, um bypass coronário.
Premonição prosaica: um homem acordará, um dia, e descobrirá que se acabaram as cápsulas de café.
Ponte metafórica: um dia, esgotam-se os últimos segundos do frasco vital e não acordamos mais.
A parte boa disto foi que desenhei este texto enquanto tomava o primeiro café do dia, sabendo que ainda há onze cápsulas para consumir. Tanta imortalidade, irmãos!

Vila Real, 03 de Junho de 2021.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em https://pt.vecteezy.com.]

segunda-feira, 28 de junho de 2021

Choro de homem



Um homem olha para a cama vazia da sua mãe e chora. Ela está ainda, para ser rigoroso, razoavelmente viva, mas passou a dormir numa outra casa. A nova casa providencia-lhe cuidados de saúde, de higiene, de alimentação, de repouso e de vigilância que, se continuasse na sua própria casa, não teria. O homem lamenta que a vida seja assim. Apesar de não ter culpa de ser apenas um homem, sente remorsos e interroga-se sobre o que poderia ainda ter feito para evitar este desenlace trágico. A mãe, frágil de corpo e esvaziada de memória, não sabe que lhe aconteceu esta mudança. Os médicos e os vizinhos louvam “a decisão” da família. O homem chora, derrotado, de frente para a cama sem a mãe. Murmura-lhe um pedido de perdão. A esposa rega as poucas flores que, no exterior da casa, junto à porta, resistiam num vaso antigo. 

O homem recorda-se de um conto de Hemingway, “Indian camp”. Perante a cruel novidade da morte, um rapaz, o filho de um médico, jura a si mesmo que nunca há-de morrer. Pensa (de cor): “He decided that he would never die.” É uma “decisão” patética da criança, que é suficientemente ingénua para ignorar a inevitável morte a haver, ou que está tão consciente do fim que, em negação aparente, prefere acreditar na imortalidade. Em ambos os casos, aquela é uma personagem digna da piedade leitora.

O homem, ao pensar na mãe, parece uma criança: não suporta a distância, pede-lhe mentalmente perdão por crimes que não são senão imputáveis à velhice e à morte. Passado um ano, o choro do  triste permanece. Às vezes, a mulher apercebe-se de que o marido continua a sofrer, como uma criança, a falta da mãe. À porta de casa da mãe do homem, um ano depois de tudo ter acontecido, há um vaso sem vestígio de flores.

O homem, quando leu aquele conto de Hemingway, teve pena do rapaz que se recusava a aceitar a morte. Agora, sobre o desaparecimento, aos poucos, da mãe, o homem decide que, no que depender de si, ela nunca lhe morrerá.


Coimbra, 27 de Junho de 2021.
Joaquim Jorge Carvalho

sábado, 26 de junho de 2021

Bocelli em Coimbra



Vinte e cinco de Junho de dois mil e vinte um. Eu e a MP saímos de Trás-os-Montes pelas dezoito horas, após aulas e reuniões. Destino: Coimbra. Era dia de aniversário (não o meu, mas meu também, por razões de amor e de estado civil). Na minha pasta, levava os certificados de vacinação contra a covid. Na carteira da MP, iam os dois bilhetes para o concerto de Andrea Bocelli, no Estádio Cidade Coimbra (“Believe world tour”). Tratava-se de uma prenda que a Filha nos oferecera no Natal de 2019. A puta da pandemia adiou e adiou o espectáculo, mas ele veio mesmo a concretizar-se. 

Estava marcado para as dez da noite. As gigantescas filas, contudo, devem ter atrasado os planos da organização e os dos clientes mais temporões. Mesmo assim, foi bom residir naquele serão de Verão amável, cheio de roupa fresca e colorida em redor e dentro do estádio. Clima de paz e de expectativa. Notai que há já considerável felicidade na antecipação da felicidade – e, para além de Coimbra ser a cidade mais formosa do mundo (seria perfeita, se fosse banhada pelo mar), toda a gente sabe, tirando os burros e os ingratos, que é privilégio sem medida isto de termos nascido em Portugal. 
Andrea Bocelli acrescentou a sua voz extraordinária à beleza do momento. A noite perfumou-se de Bizet, Verdi, Hoffenbach, Giordiano, Puccini, Rota, Tosti, Bocelli, Piazzola, Di Capua, Amália Rodrigues, Velasquez, Richard Rodgers, Sartori. Não invento, senhores: tudo quanto atrás reporto está escrito no programa (que fui consultando, durante os curtos intervalos e as palmas). O tenor italiano foi acompanhado pela magnífica Orquestra Filarmónica das Beiras e por três Coros – o Coro dos Antigos Orfeonistas, o Coro Misto da Universidade de Coimbra e Coro Coimbra Vocal. Houve lugar ainda à (curta e aclamada) participação de Mariza, à atuação potentíssima da soprano Maria Aleida, a um duo vigoroso de guitarras (Carisma) e a momentos de dança por uma agilíssima moça chamada Britanny O’Connor. 
Já a meio do concerto, eu murmurei à MP: “Bela prenda que a miúda nos ofereceu.” A MP sorriu, e o seu sorriso foi, sem exagero, outra bela música, que não vinha no programa. Comovi-me muito e comovi-me muitas vezes durante aquelas quase duas horas. Novidade nenhuma: a profunda-avassaladora-divina beleza da Música comove-me, do mesmo modo que um romance, um poema, a fala de um ator ou certa imagem de um filme falando sobre o amor ou realçando a crueldade do tempo a passar. Para escândalo, talvez, de melómanos mais dignos, a interpretação que mais mexeu comigo foi a de um tema de 1945, de Richard Rodgers, o “We’ll never walk alone”, hoje conhecido como o hino do Liverpool. Lembrei-me, durante o voo interpretativo de Bocelli, de uma jornada épica ainda recente, no Estádio Anfield, quando o clube inglês eliminou o Barcelona, depois de uma remontada das antigas. 
Falei do concerto a um amigo antigo (o AR). Devo ter-lhe falado da intensidade e duração das palmas que se sucediam a cada tema: 
- Impressionante, pá. Mesmo para quem ganha bem, faz parte do cachet ver a admiração sincera dos espectadores…
O meu amigo quis fazer uma piada:
- Ver como? O gajo não é cego?
Fiz de conta que não percebi:
- Só para quem não vê.

Coimbra, 26 de Junho de 2021.
Joaquim Jorge Carvalho
[Imagem colhida, com a devida vénia, em 24.sapo.pt.]

sexta-feira, 25 de junho de 2021

Aniversário da Pequininha




- Coração, eu quis aquela
  Tão linda, da rua Augusta!
- Todos querem a mais bela:
  Querer muito pouco custa.

- Coração, estava escrito
  Que do mar ela viesse.
- Quem sabe seja por isso
  Que o mar sempre te apetece.

- Amo-a desde que a vi:
  Soube logo que era ela.
- Ela já morava em ti
  Na forma de ideia bela.

- Fiquei com ela, coração:
  Sempre soube que era aquela.
- Ficaste com ela? Não:
  Ficaste para sempre dela.

Coimbra, 25 de Junho de 2021. 
Joaquim Jorge Carvalho

segunda-feira, 7 de setembro de 2020

Rio olhando para trás



A memória: 

rio caminhando para a nascente.


Coimbra, 06 de Setembro de 2020.

Joaquim Jorge Carvalho

[Foto JJC: o amado mar de Machico,]


A música da idade



Com a velhice, a música  dos dias altera-se aos poucos - e vamos perdendo ritmo, é certo, mas apuramos a melodia.


Coimbra, 06 de Setembro de 2020.

Joaquim Jorge Carvalho

[Foto MPC: eu a gozar - talvez - o último dia de mar em 2020.]


quarta-feira, 2 de setembro de 2020

Vanovska & Muito Mar



O surf é uma arte maravilhosa e arriscada.
Habituado a fazer, mesmo sem querer, a constante exegese do mundo, dou por mim a ler metáforas onde, se calhar, não há senão avulsos factos, pontuais sensações, momentâneos acidentes. Sobre o surf, vejo que se trata de não ter medo do Mar (e o Mar, está-se mesmo a ver, é a Vida), de o enfrentar, de o compreender, de não desistir dele, de dele fazer um aconchego e um caminho, de nele - e com ele - criar beleza e de ser, por breves segundos, feliz como um deus.
Não pretendo aprender a surfar, mas a minha Filha experimentou. Quando a vi a viajar de onda, em fotografia real, fiquei impressionado (e, vá lá, um pouco assustado). E foi dessa foto que me lembrei quando chegou o dia 2 de Setembro, data do seu aniversário - para lhe dizer que é um privilégio enorme ser seu Pai e que a admiro e a amo para sempre.
Há ainda (espero) Muito Mar para percorrermos. Juntos, como ficou escrito, há 36 anos, nos nossos cúmplices corações.
Parabéns, Vanovska!

Coimbra, 02 de Setembro de 2020.
Joaquim Jorge Carvalho
[Foto roubada no Facebook.]

quarta-feira, 24 de junho de 2020

Feliz aniversário


A ideia de D. Dinis quando
fundou a Universidade de Coimbra
foi cuidar da ciência pátria
dando aos espíritos alimento para
o querido conhecimento e o amado saber.

A ideia de Deus quando criou
a ideia em D. Dinis foi
que um dia no ano de 1981
nos encontrássemos, 
pequininha.

No fundo, a Universidade de Coimbra foi 
fundada
por amor.

Coimbra, 24 (como 25) de Junho de 2020.
Joaquim Jorge Carvalho

sábado, 4 de abril de 2020

Vilela, Amigo Grande


Há uns vinte e três anos, quando cheguei a Ribeira de Pena, trazia de Coimbra as saudades de família e amigos. Um Amigo antigo, para me consolar, disse-me: “Deixa lá. Fazes novos amigos num instante.” Mas eu bem sabia que não se fazem amigos num instante. Um Amigo leva tempo a fazer. E mesmo quando falamos de amizades feitas no serviço militar, na faculdade, na emigração, que devêm tão grandes como as maiores, é porque o tempo da sua fermentação é aí distinto do tempo calendário. Dias, então, são meses. Meses são anos. Anos, vidas. 
Em Ribeira de Pena, pude conhecer muita gente ao longo destes anos. Fiz novos Amigos (perdi até alguns). O Manuel Vilela foi o primeiro de todos. Uma amável epifania. Trabalhava comigo na Escola local e desde cedo me habituei a com ele trocar cumplicidades, angústias, sonhos. Falávamos de futebol (ele fingia que era do Salgueiros”, mas sofria escandalosamente pelo Benfica). Intercambiávamos histórias. Gostávamos ambos de fado de Coimbra (mesmo em versão karaoke). Ele apreciava o meu humor, eu deliciava-me com a sua alegria de viver e a sua prodigiosa memória. Ficámos fatalmente Amigos. 
Este meu Amigo foi à guerra. Cumpriu serviço militar, na década de 70 do século XX. Como se tratava de um bom contador de histórias, as suas memórias de África foram, para mim, uma magnífica possibilidade de viagem que não poderia desperdiçar. Fiz dessas histórias - contadas no Ali-Babá, no Voice, no Cantinho do Churrasco, no Convívio, na Pastelaria Silva, ao balcão da sala de professores - material literário para um romance (“O Livro dos Negócios, das Adivinhas e dos Provérbios” – Ribeira de Pena, Ed. Casa de Santa Marinha, 2000). O Manuel Vilela autorizou-me essa vindima e o vinho que viesse. Depois, gostou do meu livro, necessariamente distinto da matéria-prima que o ajudou a nascer. 
Conheci, à boleia do meu Amigo, a sua família – com relevo para a maravilhosa Dona Tininha (sua esposa) e o meu Amigo Vasques (meu ex-aluno, seu sobrinho). Ouvi-o, há muito pouco tempo, lamentar o passamento de uma irmã e dei-lhe então uma espécie de abraço. Depois, fomos novamente até à pastelaria Confiança trocar confidências. 
O meu querido Amigo partiu hoje. A minha mulher, a minha filha e eu fomos atropelados quase ao mesmo tempo pela notícia. Para sempre fica Ribeira de Pena, em nós, mais incompleta que nunca. Jamais o esquecerei. Mas até as saudades são uma garantia filha-da-puta de que a dor nunca mais passa. 

Coimbra, 03 de Abril de 2020. 
Joaquim Jorge Carvalho 
[O texto teve por base um texto escrito neste blogue, em Março de 2009, numa época em que éramos – eu e ele – imortais.]