Bússola do Muito Mar

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Número de Ondas

quarta-feira, 31 de julho de 2013

Tertúlia com Futuro dito


Fui convidado pelo Carlos Manuel Batista a participar num colóquio –assumidamente apartidário - sobre a Juventude e a Política. A (boa) ideia do Carlos Manuel foi desafiar a comunidade ribeirapenense, sobretudo os mais jovens, para a discussão do presente e do futuro do concelho (e, numa perspectiva mais compreensiva, da região, do país, do mundo).
O evento teve lugar no Auditório Municipal de Ribeira de Pena, a 18 de Julho, pelas 21h30m.
O meu discurso durou, conforme prometera já ao organizador, doze minutos a ler. [Publicá-lo-ei neste blogue assim que o passe a letra de forma.] Defendi, no meu escrito, à boleia de um magnífico poema de Mário Henrique Leiria, que a atitude de estar/ficar à espera que as coisas aconteçam é, quase sempre, um erro e um perigo.
Foi interessante perceber, na assistência, a consensual vontade de pensar seriamente, lucidamente, asseadamente, a política – essa nobre actividade muitas vezes confundida com porcarias hodiernas de políticos (?) hodiernos.
Vi jovens homens e mulheres (ainda há pouco meninos e meninas que conheci na Escola) debitando opiniões inteligentes e angústias legítimas. Vi uma mocidade ousando sonhar com um Portugal mais justo e mais limpo. Vi candidatos à Câmara Municipal de Ribeira de Pena dirimindo, de modo civilizado, argumentos e propostas. Vi, a meu lado (na mesa dos oradores), jovens de diversas áreas académico-profissionais com ideias muito frescas e muito pertinentes.
O sumário que me ocorreu para uma noite (tão) bem passada foi este: o pensamento em acção é mesmo uma poderosa vacina contra a indiferença. O contrário, digo eu, de estar/ficar à espera.

Ribeira de Pena, 19 de Julho de 2013.
Joaquim Jorge Carvalho

[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.ribeiradepenaontemehoje.blogspot.pt.]

terça-feira, 16 de julho de 2013

Mondego e Mar


Por cerca de uma hora, corri em Coimbra – do Casal Ferrão ao Estádio Universitário, passando pela Estação Velha, pela avenida Fernão de Magalhães, pela Portagem, pela ponte de Santa Clara. No regresso, bordejei o Mondego até à ponte do Açude e, animado pela brisa vespertina de Julho amado, sacudi do corpo o peso da minha já cinquentenária idade.
Fui, por muitos metros, tão puramente jovem como na minha mais primícia mocidade, o Mondego correndo sempre a meu lado, gerúndio como o Tempo inteiro de agora, de antes e de depois de mim.
(Que idade tem o Mondego? Talvez a idade toda. Ou talvez nenhuma, se for verdade aquela serenidade fresca das dezanove horas e quarenta e cinco minutos de domingo, 14 de julho de 2013.)
Quando eu morrer, o Mondego continuará deslizando ao lado da minha sombra. E nunca deixará de achar, na eterna Figueira da Foz, o Mar por que a sua biografia anseia.
Também a minha ausência repousará um dia nesse Mar. Sei-o desde sempre. Mas sei-o hoje mais do que nunca – e nunca tão serenamente como hoje.

Ribeira de Pena, 16 de Julho de 2013.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem (a ponte do Açude, ao longe) foi colhida, com a devida vénia, em http://www.cnpgh.inag.pt.]]

O bom poema


O bom poema tem olhos e ensina-nos a ver. Tem pele e toca-nos. Tem boca e convida-nos a beijar. Tem língua e ensina-nos a dizer. Tem braços e abraça-nos. Tem música e dança connosco por dentro do cérebro, por dentro da alma.

Ribeira de Pena, 15 de Julho de 2013.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem (de Sophia M. B. andresen) foi colhida, com a devida vénia, em http://www.rtp.pt.]

Amor é


O amor é essencial, sem dúvida. Nada de verdadeiramente importante se faz sem amor – e esta verdade verdadinha vale para tudo quanto existe no mundo e que, a não existir, faria realmente falta. Incluindo o próprio amor, evidentemente.

Ribeira de Pena, 15 de Julho de 2013.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem é a do cartaz do filme "L'Écume des jours", segundo romance homónimo de Boris Vian.]

segunda-feira, 1 de julho de 2013

Eu versos eu versus eu


Não me parece justa nem produtiva a ideia de olhar para a poesia de um autor como se fôssemos um polícia em busca do pensamento verdadeiro de quem escreveu este ou aquele poema. Creio que um poeta só responde perante o que, em cada momento, diz (ou canta), naquele preciso momento em que escreve (canta) o que quer que seja. Fora desse contexto, será sempre espúria qualquer ilação.
Os poemas são frutos pessoais, sim. Feitos em dada circunstância, sim. Mas a poesia (lida, percebida) é universal e intemporal.
Um poema não aspira, portanto, a ser lei jurídica ou verdade científica. É um estado de alma, simplesmente. Um poema meu pode dizer o contrário do que diz um outro poema meu.
E não é, a esta luz, necessário que cada poeta seja Fernando Pessoa para, aqui e ali, discordar de si próprio.

 
Arco de Baúlhe, 01 de Julho de 2013.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.mizebeb.wordpress.com.]

Ao sol


Domingo muito quente. Acabo de correr meia hora junto à piscina coberta de Ribeira de Pena. Um pouco menos anafado que ao início do exercício, regresso lentamente ao carro que, a uns vinte metros do circuito escolhido, sofria a violência (boa) do último dia de Junho. Já ao volante, ao passar pelo portão principal do cemitério municipal, assusto-me com um toque no vido do carro, à minha direita. Um homem, já velho, de cabelos níveos, chama-me: “Senhor, senhor…”
Faço correr o vidro e, disfarçando um medo infantil, interrogo-o: “O que se passa?”
Ele sorri e diz: “Desculpe, desculpe. Julgava que era outra pessoa.”
Sigo para casa. Durante o banho, pergunto-me se este encontro não foi com a Morte, regozijando-me com o facto de ela me ter confundido com outra (pobre) pessoa.

 
Arco de Baúlhe, 30 de Junho de 2013.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.vivasvieira.blogspot.pt.]

sábado, 22 de junho de 2013

Quadra fraquinha, mas sincera, sobre o Verão amado


Eu te saúdo, ó virgem Verão
Presente novo que ainda vi!
Quem me dera, Irmão, que não
Te fosses nem eu de ti!

Ribeira de Pena, 21 de Junho de 2013.
Joaquim Jorge Carvalho

quinta-feira, 20 de junho de 2013

A luta. As lutas. (Ou Junho indignando-se contra o avesso de Abril)


Conversa à porta da Escola, há cerca de uma semana. A luta dos professores. As lutas em geral. Disse, então, algo. Direi-escreverei agora um pouco mais (ou reglosarei o mesmo, quiçá mais claramente).
Nisto de lutas, nem sempre o mais importante é o mais óbvio. O essencial, às vezes, nem sequer é visível, a olho nu.
A luta dos professores é pelo emprego, sim. É pelas condições de trabalho, sim. Mas é também – e sobretudo – pela Escola Pública que Abril prometeu e, até certo ponto, cumpriu. Pelo Futuro que falta.
Disse-o, há dias, a um ex-aluno, hoje na universidade. A luta é por manter uma Escola a que ele teve, no seu tempo, direito e a que, se os circunstanciais governantes (estes ou outros) forem deixados à rédea solta, os vindouros já não terão.
É, aliás, por isso que a passividade, a indiferença e o cinismo fazem parte, na minha gramática mental, de um mesmíssimo holónimo: o nojo.  

PS: Aproveito para cumprimentar os milhares de professores que, nas suas Escolas, se organizaram para, até – pelo menos – ao dia 19 de Junho, fazer ouvir a sua voz, a sua preocupação, a sua (incalável) exigência de dignidade e justiça.

Ribeira de Pena, 20 de Junho de 2013.
Joaquim Jorge Carvalho
[A foto, colhida na internet, é de um grande herói da Humanidade, Martin Luther King.]

segunda-feira, 17 de junho de 2013

Crase (Auto-epitáfio esdrúxulo e razoavelmente prévio)


Pífio fui. E cândido. E ínfimo. Decerto mínimo
Dos mínimos.

Mas também ávido. E lúcido. E único. Decerto máximo
De mim.          

Vila Real, 16 de Junho de 2013.
Joaquim Jorge Carvalho
[A foto foi colhida, com a devida vénia, em http://www.maximoferreira.livejournal.com.]

sexta-feira, 7 de junho de 2013

Casa necessária


 

Às vezes é preciso começar
A casa pelo telhado –
Tecer o que falta só depois
Até chegarmos ao certo solo
Até colocarmos a porta
Até sairmos para a rua chã.
Na poesia, por exemplo, já tive
Casas que nasceram assim
De uma ideia em altura
De mim, enfim, sobre a telha
Calcária, vária e solidária
Anterior à casa necessária.
 

Ribeira de Pena, 07 de Junho de 2013.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.mundodastribos.com.]

quinta-feira, 6 de junho de 2013

Tempo

A mulher, ainda jovem, corre rua acima com o filhote pela mão. Não sei dizer para onde vai, por que razão corre assim. Mas vejo o que vejo: um corpo gracioso agitando-se, sob o movediço e leve embrulho de um vestidinho amarelo. Pernas esguias e ágeis equilibrando-se dificultosamente sobre saltos altos. Quadris saudáveis moldando-se àquele frágil têxtil tão à espera (especulo) de ser tocado.
O petiz quer um gelado. A mãe recusa, puxa-o, explica-lhe:
- Não tenho tempo, filho.

Mas tinha. Mas tem.

Ribeira de Pena, 06 de Junho de 2013.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.dolivrinho.blogs.sapo.pt.]

terça-feira, 4 de junho de 2013

Vice & versa


Vai-se de nada ao amor e vice-versa
Sempre a descer, sempre a sofrer.
A gente morre e torna a nascer
E morre de novo (o resto é conversa).

Ribeira de Pena, 04 de Junho de 2013.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem é do cartaz do (grande) filme Thelma & Louise, com a maravilhosa Geena Davis e a interessante Susan Sarandon.)

Sonolência

Café de vila. Um velho dormita frente ao jornal. Uma mulher (esposa do adormecido) fala do passado com um outro homem, claramente mais novo do que o casal. Ouço tudo, de forma involuntária ao início, despudoradamente voluntária a seguir. O interlocutor da velha sai do Café, com mesuras amáveis. A velha acorda o marido. Pergunta-lhe se se lembra do Rui. Do filho do Antunes, que estudou para médico. O velho lembra-se.
- É muito bom rapaz. Nunca mais o vi.
A esposa diz-lhe que o Rui Antunes ali esteve e que já saiu. "Tinha pressa, coitado."
- E tu não me acordaste, porquê? - resmunga o velho.
- Para quê? - atira-lhe a mulher. - Estavas a dormir tão bem...
O velho encolhe os ombros e regressa às sonolentas notícias do dia.
Penso: talvez aquele velho nunca mais tenha a oportunidade de ver o tal médico.
Penso isto e, depois, suspiro, com uma espécie de culpa a interromper-me a modorra, ali entre o sumo de maçã e alguns trabalhos de casa de Francês.

Ribeira de Pena, 04 de Junho de 2013.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.aorodardotempo.blogspot.pt.]

segunda-feira, 3 de junho de 2013

Pergunta

 
Entre Ribeira de Pena e o Arco, aí a um quilómetro da ponte de Cavez, vejo uma cobra morta no meio da estrada. É uma cobra cinzenta, mal enrolada sobre si, em forma de ponto de interrogação. Como tenho a mania dos símbolos, vejo ali uma pergunta no meio da minha via rotineira, habitual, funcionária. Isto é, no meio do meu percurso, há talvez esta pergunta: "Para quê, Joaquim Jorge?"
A pergunta é desenhada com uma cobra morta. E eu pergunto-me se não será ela já uma pergunta morta.

Arco de Baúlhe, 3 de Maio de 2013.
Joaquim Jorge Carvalho

sábado, 18 de maio de 2013

Dívida a Júlio Dinis



Há muitos anos, fiz algo de que me orgulho muito e de que me não orgulho coisa nenhuma: roubei um livro. Eu sei que roubar é feio, que roubar é errado, que roubar é indigno. Nem a desculpa de, à época, eu ter apenas uns oito ou nove anos, é desculpa que se diga. Mas o livro chamava-se As Pupilas do Senhor Reitor, tinha uma capa bonita que sugeria histórias interessantes, ricas, coloridas, aquele quiosque da Rua da Sofia (em Coimbra) era pouco vigiado – e eu, enfim, Deus me perdoe, roubei aquele romance.
A proeza custou-me, nem dez minutos depois, um valente tabefe da minha mãe e a ameaça de que, em regressando à baixa coimbrinha, haveria de devolver o livro, sofrendo a vergonha provável das testemunhas que ali houvesse. Nunca o devolvi. Fiquei, digamos assim, em dívida.
O tempo, paciente, passou.
Li esse livro roubado com o prazer que só as experiências mais lindas e queridas podem provocar. Descobri que Júlio Dinis era (e é) um dos melhores contadores de histórias da nossa literatura. Não do século XIX, atenção. De sempre!
Fiquei tão apaixonado pela sua prosa que, à medida que tinha dinheiro e oportunidade, dei por mim a comprar tudo quanto o autor escrevera. E que pena foi ele ter morrido tão jovem (com cerca de 30 anos) – tanto que decerto ainda teria escrito, para eu ler, para nós lermos!
Sabei que o primeiro romance que Júlio Dinis escreveu não foi As Pupilas do Senhor Reitor. Foi um outro intitulado Uma Família Inglesa. Mas ele quis publicar, em primeiro lugar, As Pupilas. Teve, digo eu, a clara noção de que, no panorama literário português, era com esse romance que impressionaria o público leitor. Tratou-se, digamos assim, de um “cartão de visita” que fabricou e apresentou ao seu mundo, à sua época. Algo como isto: “Olá. Chamo-me Júlio Dinis. Escrevo assim… Gostam?”
No romance, a história fundamental passa-se no campo (talvez na região do Minho). Tudo começa com a vocação de Daniel para os estudos e para os amores. Depois, através da pena genial do escritor, temos numerosos episódios ora divertidos, ora dramáticos: namoros, discussões, anedotas, passeios, uma desfolhada, alguns conflitos, doces reencontros.
Página a página, há um Portugal colorido e vivíssimo que, ao ritmo apaixonado da leitura, nos entra olhos e alma adentro. Nunca talvez o mundo rural foi tão humanamente contado e mostrado como nos contos e, sobretudo, nos romances de Júlio Dinis.
Não por acaso, cerca de 35 anos depois do roubo que acima recordei, eu defendi uma tese de doutoramento, na área da Literatura Portuguesa – e chamei-lhe “Acção, Cenas e Personagens na Narrativa Dinisiana: As Pupilas do Senhor Escritor”. Foi a minha forma de pagar aquela dívida antiga.
Garantia para os meus jovens alunos: vale muito a pena ler este romance. E não é só para quem goste da maravilhosa magia de uma boa narrativa. É também, ainda, para quem (como eu) gosta da ideia – imaginária ou real – de um mundo simples e belo, em que as pessoas vivem simplesmente, formosamente, naturalmente. O mundo em que, afinal, todos nós gostaríamos de viver.
  
Arco de Baúlhe, 17 de Maio de 2013.
Joaquim Jorge Carvalho

[Texto no âmbito da promoção da leitura que venho a levando a cabo na minha Escola, com outros colegas.]