Bússola do Muito Mar

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segunda-feira, 1 de julho de 2013

Ao sol


Domingo muito quente. Acabo de correr meia hora junto à piscina coberta de Ribeira de Pena. Um pouco menos anafado que ao início do exercício, regresso lentamente ao carro que, a uns vinte metros do circuito escolhido, sofria a violência (boa) do último dia de Junho. Já ao volante, ao passar pelo portão principal do cemitério municipal, assusto-me com um toque no vido do carro, à minha direita. Um homem, já velho, de cabelos níveos, chama-me: “Senhor, senhor…”
Faço correr o vidro e, disfarçando um medo infantil, interrogo-o: “O que se passa?”
Ele sorri e diz: “Desculpe, desculpe. Julgava que era outra pessoa.”
Sigo para casa. Durante o banho, pergunto-me se este encontro não foi com a Morte, regozijando-me com o facto de ela me ter confundido com outra (pobre) pessoa.

 
Arco de Baúlhe, 30 de Junho de 2013.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.vivasvieira.blogspot.pt.]

quinta-feira, 6 de junho de 2013

Tempo

A mulher, ainda jovem, corre rua acima com o filhote pela mão. Não sei dizer para onde vai, por que razão corre assim. Mas vejo o que vejo: um corpo gracioso agitando-se, sob o movediço e leve embrulho de um vestidinho amarelo. Pernas esguias e ágeis equilibrando-se dificultosamente sobre saltos altos. Quadris saudáveis moldando-se àquele frágil têxtil tão à espera (especulo) de ser tocado.
O petiz quer um gelado. A mãe recusa, puxa-o, explica-lhe:
- Não tenho tempo, filho.

Mas tinha. Mas tem.

Ribeira de Pena, 06 de Junho de 2013.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.dolivrinho.blogs.sapo.pt.]

terça-feira, 4 de junho de 2013

Sonolência

Café de vila. Um velho dormita frente ao jornal. Uma mulher (esposa do adormecido) fala do passado com um outro homem, claramente mais novo do que o casal. Ouço tudo, de forma involuntária ao início, despudoradamente voluntária a seguir. O interlocutor da velha sai do Café, com mesuras amáveis. A velha acorda o marido. Pergunta-lhe se se lembra do Rui. Do filho do Antunes, que estudou para médico. O velho lembra-se.
- É muito bom rapaz. Nunca mais o vi.
A esposa diz-lhe que o Rui Antunes ali esteve e que já saiu. "Tinha pressa, coitado."
- E tu não me acordaste, porquê? - resmunga o velho.
- Para quê? - atira-lhe a mulher. - Estavas a dormir tão bem...
O velho encolhe os ombros e regressa às sonolentas notícias do dia.
Penso: talvez aquele velho nunca mais tenha a oportunidade de ver o tal médico.
Penso isto e, depois, suspiro, com uma espécie de culpa a interromper-me a modorra, ali entre o sumo de maçã e alguns trabalhos de casa de Francês.

Ribeira de Pena, 04 de Junho de 2013.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.aorodardotempo.blogspot.pt.]

segunda-feira, 3 de junho de 2013

Pergunta

 
Entre Ribeira de Pena e o Arco, aí a um quilómetro da ponte de Cavez, vejo uma cobra morta no meio da estrada. É uma cobra cinzenta, mal enrolada sobre si, em forma de ponto de interrogação. Como tenho a mania dos símbolos, vejo ali uma pergunta no meio da minha via rotineira, habitual, funcionária. Isto é, no meio do meu percurso, há talvez esta pergunta: "Para quê, Joaquim Jorge?"
A pergunta é desenhada com uma cobra morta. E eu pergunto-me se não será ela já uma pergunta morta.

Arco de Baúlhe, 3 de Maio de 2013.
Joaquim Jorge Carvalho