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sexta-feira, 18 de outubro de 2013

A gramática e a querida literatura




1. Uma excelente aluna queixava-se, no final do ano lectivo passado, do facto de, nas aulas de Português (esclareço: nas minhas aulas de Português), haver pouco tempo para ler. Explico melhor (explicou-me ela melhor): apetecia-lhe que, nas aulas de Português, houvesse mais tempo para ler. Mais tempo para saborear a magia dos livros, das histórias, das palavras bailarinas ou acrobatas.
2. Eis, da minha parte, uma confissão triste: ela tinha razão. Ela tem razão. Culpo a extensão dos programas. E culpo, em particular, a obscena quantidade de conteúdos gramaticais a ensinar ou a consolidar.
3. Alguns amáveis teóricos defendem a possibilidade de se leccionar gramática nos (suaves e breves) intervalos da leitura e da escrita. Sugiro a quem, de boa -fé, queira estudar o assunto o favor de espreitar os programas de Português do 5.º. do 6.º, do 7.º, do 8.º e do 9.º ano. Verificarão facilmente que não é possível cumprir os programas, em matéria de gramática, sem efectivamente limitar o exercício da leitura, da interpretação, da discussão dos textos e da escrita a partir dos textos lidos - com óbvio dano da qualidade e do prazer das aulas de Português. Eu sei disso porque amo a literatura. E sei-o do ponto de vista do aluno (que também fui e, em boa verdade, continuo sendo) e, naturalmente, do ponto de vista do docente.
4. Uma real reforma no ensino do Português, que realmente quisesse elevar as competências dos alunos na comunicação oral e escrita, passaria pela supressão tout court, no primeiro e segundo ciclos, do ensino da gramática (na sua dimensão, sublinho, de conhecimento explícito da língua). No terceiro ciclo, o trabalho no território do conhecimento explícito da língua deveria limitar-se a aspectos verdadeiramente básicos. Só no ensino secundário se justificaria o ensino da gramática com a profundidade e a complexidade a que, no presente, se obrigam os alunos do terceiro ciclo. Mais: neste caso, os alunos do ensino secundário (em particular, os de humanidades) deveriam ter, além de Português, uma disciplina específica e exclusivamente ocupada da gramática – a que poderíamos, talvez, chamar “Gramática da Língua Portuguesa”.
5. Sei que o que digo não coincide com a vontade oficial da contemporaneidade. Mas eu colho da minha velhice esta possibilidade da livre expressão, sem medo e sem falsos pudores. Digo o que penso.

Cabeceiras de Basto, 18 de Outubro de 2013.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www. neverendingstory.com.]

segunda-feira, 1 de julho de 2013

Eu versos eu versus eu


Não me parece justa nem produtiva a ideia de olhar para a poesia de um autor como se fôssemos um polícia em busca do pensamento verdadeiro de quem escreveu este ou aquele poema. Creio que um poeta só responde perante o que, em cada momento, diz (ou canta), naquele preciso momento em que escreve (canta) o que quer que seja. Fora desse contexto, será sempre espúria qualquer ilação.
Os poemas são frutos pessoais, sim. Feitos em dada circunstância, sim. Mas a poesia (lida, percebida) é universal e intemporal.
Um poema não aspira, portanto, a ser lei jurídica ou verdade científica. É um estado de alma, simplesmente. Um poema meu pode dizer o contrário do que diz um outro poema meu.
E não é, a esta luz, necessário que cada poeta seja Fernando Pessoa para, aqui e ali, discordar de si próprio.

 
Arco de Baúlhe, 01 de Julho de 2013.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.mizebeb.wordpress.com.]

domingo, 30 de dezembro de 2012

Uma Morte Súbita: J. K. Rowling sabe contar, iô!


A MP e a VL ofereceram-me Uma Morte Acidental (título original: The Casual Vacancy), de J. K. Rowling, Lisboa, Editorial Presença, 2012. Os jornais tinham anunciado a primeira obra “para adultos” desta autora, o que já era motivo razoável de curiosidade; mas a mim interessava-me sobretudo perceber – mais do que isso: confirmar – que o talento de bem engendrar e de bem contar histórias não se esgota num público-alvo específico (etário ou outro). Sim, eu lera alguns livros da saga Harry Potter e encantara-me já com a evidente capacidade de invenção de plots e com a brilhante destreza narrativa de Rowling. Tratava-se agora, segundo anunciavam os jornais, de uma obra de cariz realista, com personagens e contextos da actualidade. Adivinhei que vinha aí coisa válida e, para o Natal, sugeri à MP e à VL este presente.
É um volume com 497 páginas, aviso. Mas desde o primeiro capítulo que a teia mágica da intriga nos agarra. Aprendemos os nomes e os tiques de umas vinte personagens, familiarizamo-nos rapidamente com uns dez (ou mais) cenários de acção, partilhamos ou abominamos algumas idiossincrasias particulares de uma cidadezinha inglesa (que me pareceu, por vezes, uma aldeia de Júlio Dinis) e, enfim, tornamo-nos moderados habitantes de Padford.
À roda da morte súbita de um notável da cidade (odiado & amado por outros notáveis), constrói-se um novelo riquíssimo de histórias - que passam por ridículas ambições políticas (à Eça), pela fome de brilho mundano (à Garrett), por certa degradação neo-realista da sociedade moderna (à Soeiro Pereira Gomes), pela violência doméstica (à Lídia Jorge), pelo mistério de laços familiares (à Camilo), pelo amor (à Yourcenar) e pela tocante fragilidade de que somos todos feitos (à Vergílio Ferreira).
O estilo de Rowling é simples e competente (à Júlio Dinis, à David Lodge), preterindo eventuais grandes arroubos de linguagem em favor da clareza da história, das histórias.
Para mim, que ando à procura de escrever o (meu) romance sonhado, a obra de Rowling recordou-me algumas noções fundamentais sobre este território genológico – nomeadamente, a importância de tornar familiares os espaços literários da intriga (“familiares” não significa conhecidos, note-se; significa “reconhecíveis” no universo da obra), a importância de distribuir generosamente a atenção do narrador por várias personagens, complexificando-as (de modo a aproximar cada ser ficcional da condição complexa e rica de seres humanos), a importância do saudável convívio e  concomitância entre acção principal e acção secundária (ou “acção” e “intriga”, como diria Carlos Reis; ou “intriga nuclear” e “intriga periférica”, como escrevi eu próprio, na minha tese sobre Júlio Dinis).
De menos positivo, para além da obediência ao novo acordo ortográfico, talvez o facto de a narração compreender demasiados casos dramáticos (e até trágicos), o que – num contexto geral representativo de certa rotina existencial – é susceptível de banalizar (e, ergo, de comprometer, desvalorizando) o acontecimento extraordinário.
Li Uma Morte Súbita entre as duas horas do dia 25 e as sete horas de hoje, dia 29. Quando acabei a leitura, já a luz decembrina da minha rua iluminava o quarto. E a própria luz romanesca era, como agora percebo, tão fresca como aquela manhã.

PS: A tradução desta obra foi certamente difícil. Gostei do modo como se representou-enunciou, em Português, a variedade de registos linguísticos, os regionalismos e o calão. Também a escolha de Uma Morte Súbita para título é um verdadeiro achado. Contudo, talvez pressionada por alguma urgência editorial, a equipa de tradutores (Alberto Gomes, Manuel Alberto Vieira, Marta Fernandes e Helena Sobral) fez, aqui e ali, várias opções manifestamente desaconselháveis (sublinhei cerca de quinze casos de tradução menos feliz). Mas são, repito, 497 páginas – e nisto de avaliação de traduções é tudo tão subjectivo…

Coimbra, 29 de Dezembro de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho

quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

Ave, Vita - Morituri te Saluntant

Desde sempre, vejo as estações de comboios e os aeroportos como lugares muito belos e – sem contradição nenhuma –  terrivelmente tristes. É nestes territórios de humanidade avulsa que sinto aquela absurda vontade de sofrer dita em verso, por Cesário Verde, a propósito do entardecer lisboeta.
Em visita (benigna) ao I.P.O., acompanhando familiar, voltei a sentir, hoje, algo semelhante. No regresso a Ribeira de Pena, reflicto sobre a coincidência sensacionista: em que medida aqueles corredores são uma espécie de estação ferroviária ou de aerogare?
Surpresa nenhuma. Creio que tudo, como sempre, tem que ver com a mortalidade. Frágeis, leves, voláteis, transitórios, indefesos – ali vejo seres, como eu, partindo ou vendo partir. Encontrando-se, desencontrando-se, despedindo-se.
Voltarei ao I.P.O. daqui a um ano, segundo a agenda das consultas. Talvez aí nos reencontremos, queridos contemporâneos. Ou não. Repito: talvez.
Talvez é um delicado monumento linguístico à esperança, mas admite já a ominosa possibilidade da decepção. Uma ponte de cristal entre acreditar e resignarmo-nos. Entre sermos e termos de, um dia, deixar de ser.
A rua da minha infância, quando havia vento, trazia os murmúrios de comboios indo e vindo. O nome popular desta Estação de Coimbra-B é Estação Velha (dita velha, notai, desde a meninice de quem agora, maduro, a recorda). E ocorre-me que essa é uma adequada designação da própria Vida: Estação Velha desde que nascemos.

Ribeira de Pena, 06 de Dezembro de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.verride.blogspot.pt.]

quarta-feira, 18 de julho de 2012

In-dependências

Diz-nos a História de todas as seitas que os convertidos mais recentes tendem a ultrapassar, em entusiasmo e militância, os seus mais antigos defensores.
Não por acaso, os chamados cristãos-novos, na Idade Média e até em períodos posteriores (que chegaram, pelo menos, ao século XVIII), eram alguns dos mais diligentes perseguidores de judeus & derivados.
Tratar-se-ia talvez de uma pulsão sobrevivente: os novos “cristãos” quereriam mostrar serviço, provar aos outros (e quiçá a si próprios) que eram tão puros e notáveis como os (insuspeitos) “cristãos velhos”.
Lembrei-me disto ao ver-ouvir Carlos Abreu Amorim, num programa da RTP Informação, no passado dia 16. Indignado com os ataques a Miguel Relvas, o dito Amorim - ex-comentador e novel deputado – acusava a comunicação social, a Impresa, a esquerda (os socialistas e os comunistas) de um conluio genérico e vil contra o ministro.
Por mim, que tenho passado muito tempo a atacar, como posso, o ministro Miguel Relvas, custou-me não haver, naquele catálogo dos perseguidores, um grupo em que eu pudesse incluir-me confortavelmente. Receio que o senhor Amorim não visite o Muito Mar. Mas eu leio-o e ouço-o há muito tempo. Lembro-me dele a atacar gordamente (e com a minha entusiástica concordância) a falta de ética de Coelhos, de Varas, de Sócrates. E, confesso, tenho saudades daquele seu ímpeto crítico e livre.
Percebo que aquele senhor é agora deputado do PSD, vice-presidente do grupo parlamentar. No seu afã de agradar aos novos chefes, ataca até o guru Marcelo, um excêntrico que ousa pensar pela sua própria cabeça.
Custa-me pensar, a posteriori, que aquela antiga independência seria apenas (talvez, talvez) uma obesa candidatura às listas do partido laranja. Pobre Amorim rico.

Coimbra, 17 de Julho de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.dinheirovivo.pt.]


domingo, 8 de julho de 2012

Ensaio da inquietação


“Cantanhede, Cantanhede
Tenho sede de aprender
A lição da Novidade
(A lição da Novidade).
Dá-me sede, Cantanhede,
De aprender e de ser
Cidadão da Liberdade
(Cidadão da Liberdade,
Cidadãos da Liberdade)!”

1. Este texto abre com uma epígrafe, como repararam: trata-se do refrão do hino da Escola Secundária de Cantanhede (letra minha, música do colega Aurélio Malva). Segue-se, com vossa licença, uma historieta, que não é minha e – pior – de que nem sei a exacta fonte. Ouvi-a há muito tempo, talvez nos tempos de liceu ou faculdade; reouvi-a há umas duas semanas na rádio, em viagem de automóvel entre Arco de Baúlhe e Ribeira de Pena, glosada por um romancista português pouco conhecido (Afonso Cruz) à conversa com Carlos Vaz Marques, da TSF. Historieta boa, atentai.
2. Uma criança vê, por longos minutos, um escultor a trabalhar, percebendo que do labor esculpido na pedra vai resultando uma forma reconhecível, viva, amável. Volta-se para o seu pai e pergunta-lhe: “Papá, como sabia o senhor artista que, debaixo da pedra, estava um cavalo?”
3. A parábola serve para uma inteira biblioteca de interpretações, mas fico-me por esta: o artista busca no todo a parte que interessa, isto é, resgata do caos um pedaço essencial, valioso, significativo de cosmos. Acrescento: a arte é o fruto do trabalho sobre o real, ofício levado a cabo com a imaginação adequada e com aquela pulsão do belo que preside a todo o acto criador.
4. Quero que isto tenha algo a ver com a Escola. Com a nossa Escola. Com Cantanhede, bem entendido, que é a pátria deste formoso boletim. Mas também com a Escola Pública em geral, esse território em que, avulsos e díspares, nos reunimos em busca de um objectivo comum e consensual: a educação dos nossos alunos, a partilha de conhecimentos, a descoberta de competências, a preparação (tanto quanto possível, justa e virtuosa) do futuro.
5. Vivem-se tempos difíceis. Temo, com muitas razões para esta amargura, que a Escola esteja em vias de extinção. Escola, percebei, como nós (românticos até à medula) a entendemos, a entendíamos. A fúria da poupança orçamental comporta o perigo de confundirmos ideais por que pugnámos nas últimas décadas com alguma substância acessória e descartável. Estou a falar, sobretudo, de cultura. Estou a reagir, por instantes, à nova estrutura curricular prevista para o ensino básico e secundário que deixa ao livre arbítrio dos estabelecimentos de ensino a existência de Educação Artística. E estou a falar também do insuportável aumento do número máximo de alunos por turma (até 30!) que tornará impossível, por exemplo, a aprendizagem séria de uma língua estrangeira.
6. Creio que uma Escola Pública de qualidade, a única que justifica o investimento sério do Estado, precisa de não ter medo nem vergonha de gastar – i.e., de investir - muito dinheiro nos recursos humanos e materiais que a tornam possível e digna. E defendo que a organização da Escola nada ganhará com uma reforma que, para cortar alguma despesa, extinga experiências educativas de sucesso, fundindo/confundindo arbitrariamente escolas (e assim ferindo de morte a identidade de lugares, pessoas, projectos), reduzindo a grandeza da aposta nas bibliotecas, tornando as reuniões de qualquer médio departamento num concílio cheio de magno e semiótico ruído, etc.
7. Os mega-agrupamentos são, em meu entender, a face visível de alguma ferocidade tecnocrática do presente, que lê o mundo pelos óculos merceeiros do deve e haver, com inevitável défice de sensibilidade e bom senso. Não se trata sequer de um problema deste governo; é outrossim de vários governos ao longo da história, semelhantes na arte de ignorar opiniões, estudos e conselhos de quem sabe alguma coisa de educação (professores, por exemplo).
8. Um dia destes completarei trinta anos de profissão. O que mantenho de romântico é a fé no futuro e a convicção – inamovível – com que, aula após aula, projecto após projecto, actividade após actividade, trato bem (d)os meus alunos. No pequeno universo de que ainda disponho para ser professor, vou procurando contagiá-los com a minha paixão pelo Conhecimento, pela Língua, pela Cultura, pela Vida.
9. A muitos dos que nos tutelam não faria mal a leitura de alguns autores. Lembro-me, assim de repente, de Steiner para aprenderem um bocadinho sobre a importância da cultura e sobre o significado de “gramática da esperança”. Ou de Sartre, pra recordarem a indispensável condição do conhecimento para se ser livre, e da liberdade para um homem ser verdadeiramente digno da sua condição (quiçá feliz).
10. De modo que o meu texto (talvez o último que tenho a honra de escrever neste boletim) regressa, desaguando, à epígrafe e à historieta com que se fez retoricamente ao mar: é preciso garantir, na Escola, o acesso às artes e à cultura em geral, para que a Escola seja realmente um alfobre de cidadãos da liberdade; é preciso salvar o essencial – fazer emergir um cavalo (ou uma flor) da caótica, bruta, estúpida pedra do mundo.

Arco de Baúlhe, 27 de Junho de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho
[Este texto foi escrito para o Boletim da Biblioteca da (muito querida) Escola Secundária de Cantanhede que, de acordo com notícias recentes - e, em minha opinião, infelizes - se irá agrupar com Febres. A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.escantanhede.pt.]

quarta-feira, 4 de julho de 2012

Sai (mais) uma licenciatura para a mesa do canto!

1.                      Sabe-se que o ministro Miguel Relvas tem uma licenciatura obtida num ano. O escândalo não diminui com a explicação oficial: coisas de Bolonha, da apreciação do currículo profissional do “estudante”, de bondosas equivalências…
1.1.                Relvas, perante o bruá nacional, assustou-se e já diz que não tem culpa, apenas fez o que lhe permitiram, nos termos em que – garante – a lei e a Universidade Lusófona autorizaram.
1.2.                 O primeiro-ministro desvalorizou publicamente esta questão: chamou-lhe “não caso” (sic) e manifestou até regozijo por não haver qualquer ilicitude envolvida. Infelizmente para Passos Coelho, há gravações suas verberando o projecto das Novas Oportunidades que - defendia há meses - apenas certificavam ignorâncias…
1.3.                Falta-nos saber o que pensa deste fenómeno o ministro Nuno Crato, tão tonitruante se revela o matemático, tantas vezes, contra o “facilitismo” e a incompetência reinantes no sistema educativo português.
2.                      Ultimamente, toda a gente se tem lembrado do caso da licenciatura de Sócrates, como uma outra versão desta mesma (triste) história. E têm razão! Porque esta gente parece constituir-se de fura-vidas que são, afinal, clones uns dos outros. E depois chegam a ministros, secretários de estado, administradores da coisa pública ou privada.
2.1.                No caso de Sócrates, o que me chocou mais, na altura, não foi – confesso – a venalidade da Universidade Independente ou a ausência de escrúpulos do ex-governante. Foi sim Mariano Gago, ministro, à época, da Ciência e do Ensino Superior, ter chamado “exemplar” ao percurso académico do ex-chefe de governo.
3.                      Há uns anos, em entrevista, Pina Moura (ex-comunista, depois socialista, depois administrador de grandes empresas) garantia não ter remorsos nem problemas de consciência por, no parlamento, defender mudanças no preço da energia que, quando concretizadas, beneficiariam a Iberdrola (uma firma espanhola em que já trabalhava enquanto ainda deputava). Falta de ética? Talvez não: a criatura explicou que a sua ética era a “ética republicana” – e que tal significava a possibilidade de tudo se fazer desde que fosse legal.
3.1.                E assim se confirmava ali uma célebre ideia de Eça de Queirós que, no século XIX, referindo-se causticamente a alguns portugueses da Regeneração, identificava “respeito” com “medo da polícia”.
4.                      Eu sei que é preciso cuidado quando nos atrevemos a opinar publicamente sobre o carácter das pessoas. Mas Relvas, segundo parece, declarou na Assembleia da República, no espaço relativo ao currículo académico dos deputados, que frequentara o 2.º ano de Direito. Era mentira; ele apenas fizera uma cadeira nesse curso, obtendo a interessante classificação de dez valores. Tendo a considerar que se tratou de um lapso.
4.1.                A explicação de Relvas para o seu miserável currículo académico é a de que, nos anos 80 do século passado, estaria muito empenhado na actividade política. (Esta circunstância, supostamente, deveria merecer do povo português compreensão e gratidão.)
4.2.                Ao invés desta retórica de Relvas, Cavaco Silva, há alguns anos, querendo explicar a sua falta de militância pela liberdade nos tempos do fascismo, explicara que, por estar muito ocupado a estudar, não tivera tempo para actividades políticas.
4.3.                 Para mim, a explicação de Cavaco é pobrezinha, mas honesta. Já a explicação de Relvas parece a desculpa de um cábula que encontra as mais mirabolantes justificações para a sua incapacidade e o seu insucesso escolares.
5.                       Subsiste esta noção de que, hoje como no tempo de José Sócrates, se confunde estudo com obtenção de diplomas. O processo (real aquisição de conhecimentos e competências) é olhado com desprezo por estes novíssimos self-made men, como se se tratasse de pormenores, de superficialidades, de inutilidades, de perdas de tempo!
6.                       Como a contemporaneidade vai cínica, fico à espera de ainda ouvir gente como Miguel Relvas perorar, um dia destes, sobre exigência e rigor na sociedade, em particular na educação. Tudo é possível, senhores. O homem é ministro por enquanto. E é, Deus seja louvado, licenciado para sempre!

Arco de Baúlhe, 04 de Julho de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.sicnoticias.sapo.pt.]

quinta-feira, 21 de junho de 2012

Alienação amável


Hoje é dia de jogo entre a República Checa e Portugal. Quem triunfar passa às meias-finais do Europeu de futebol.
No intervalo de reuniões, de actas e de relatórios, há no meu quotidiano uma espécie de febre que vive, por antecipação, o momento histórico (histórico porque faz parte da minha História pessoal e doméstica). A doença é, aliás, geral. Fazemos prognósticos, lembramos estatísticas, desconfiamos de vagos agoiros, combinamos um jantar, esperamos pelas 19h45m.
É verdade, claro, que a nossa vida  depende sobretudo de secretas conversações entre a Alemanha e a França, ou dos humores dos mercados, ou dos caprichos do (des)governo nacional, ou de vicissitudes climatéricas. O futebol distrai-nos, sem dúvida, daquilo que tende a ser o "essencial" da nossa existência.
Pois eu declaro solenemente: abençoada distracção! Abençoada alienação!
Mil vezes acho mais interessante deter-me num remate genial do Cristiano Ronaldo do que ouvir o pastoso cinismo do ministro das Finanças. Mil vezes entendo mais importante a raça de Coentrão do que comover-me com essa inexistência que finge ser ministro da Economia. Mil vezes é mais admirável a força de Pepe do que a enunciação de manhosas medidas sobre a Escola Pública. Mil vezes gosto mais da magia de Nani do que das mentiras de governos, partidos ou avulsos comentadores sem vergonha na cara.
Amo o futebol. O amor, como decerto sabeis também, é uma fábrica de alienações.
Sou nisto da selecção um assumido alienado, portanto. E estarei hoje com os meus amigos a sofrer (pois, pois, porque há masoquismo nisto dos amores verdadeiros) com Portugal.
Não bem por Portugal; por mim.

Ribeira de Pena, 21 de Junho de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho

segunda-feira, 4 de junho de 2012

O Poder


1
Um antigo professor, a propósito de certos déspotas, falava sempre de "poder com ph" ("phoder", portanto).
2
A questão do poder tem despertado em muitos pensadores (artistas, filósofos, cientistas disto & daquilo, gente em geral) reflexões diversas e nem sempre coincidentes. Ontem, num documentário sobre Bill Clinton, ouvi a este ex-presidente norte-americano uma frase interessante sobre o assunto, proferida no discurso de despedida da Casa Branca: "O poder é importante ou não segundo aquilo que se faz com ele."
Clinton saberia bem do que falava, tendo em conta o que de positivo fez pelo seu país e pelo mundo, e igualmente tendo em conta algumas atitudes menos próprias que mancharam (este verbo é bom) o seu mandato.
3
Sobre a questão do poder, lembro-me sempre de um episódio que vivi na tropa. Quando, em 1987, era um instruendo (o equivalente a "recruta"), eu encontrei, na unidade onde aprendia o ofício da guerra, um ex-aluno que já era "aspirante". Com evidente embaraço, falou comigo, deu-me ordens, assumindo o seu papel de graduado, mas mantendo sempre um cuidado (não reverencial, respeitoso) e uma educação exemplares. Também lá encontrei, já "aspirante", um conterrâneo, ex-colega de liceu e, depois, de faculdade, que aproveitou para - sobre mim e outros - exercer o vil exercício da humilhação gratuita, no sentido (sempre falho de eficácia) de ter piada. Certo dia, depois de uma tarde passada a praxar toda a gente com requintes sádicos e geralmente estúpidos, veio ter comigo, depois do jantar, e pediu-me alguns minutos para conversarmos. A custo, assenti. Ele trouxe-me para o meio da parada, pôs-me em posição de "à vontade" (corpo hirto, mãos atrás das costas à altura da cintura, rosto direito) e perguntou-me, sorrindo cinicamente, se eu estava aborrecido com a sua pessoa. Respondi-lhe mais ou menos assim:
- Estou desapontado, embora nunca tenha tido grandes ilusões acerca do teu mau carácter e da tua deficitária inteligência.  E, em tendo oportunidade, quando ambos formos novamente civis, parto-te o focinho.
Ele ficou possesso, obrigou-me a assumir a posição de sentido e, durante uns quinze minutos, perorou sobre as virtudes da camaradagem e da obediência. No final, fez questão de ouvir da minha parte o pedido de permissão para me retirar. Corrigi-lhe a sintaxe, num tom respeitoso, provocando-lhe novos espasmos de fúria. Não me agrediu, mas daí em diante, sempre que pôde, implicou comigo e, nos limites da sua própria autoridade e liberdade, humilhou-me com o requinte que a sua pobre imaginação paria.
Anos mais tarde, reencontrei-o em Coimbra, num centro comercial. Vinha acompanhado da mulher, uma senhora magrinha com ar triste. Chamou-me e quis falar comigo como velho camarada da tropa. Reacendeu-se em mim, logo, todo o desprezo e revolta que a figura de um canalha sempre me inspira. Disse-lhe, à frente da pobre esposa:
- Não fales comigo. Metes-me nojo. Se algum dia me voltares a cumprimentar, desfaço-te.
O suíno, cobarde maior de todos, tartamudeou, com escândalo e medo:
- Depois de tanto tempo, ainda estás aborrecido?
- Ainda. Para sempre. Metes-me nojo, pá!
Não fiquei orgulhoso com o episódio, mas tão-pouco me arrependo.
E nutro o mesmo sentimento por políticos, gestores, juízes, administrativos, pais, polícias, etc. que se aproveitam do poder (essa arma inevitavelmente provisória) para perseguirem, dominarem, humilharem os seus semelhantes. Não creio, sublinho, que fosse essa a exacta situação de Clinton (aquém e além-Lewinski). No presente do nosso país, lugar onde a corrupção floresce impunemente e os castigos normalmente prescrevem, creio que é tudo ainda pior.
4
O poder é o que fazemos dele, sim. É  um perigo nas mãos de canalhas. Por mim, perdoai, mas nunca me esqueço de uma canalhice. Nem de um canalha.

Arco de Baúlhe, 04 de Junho de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://krommus-briosa.blogspot.com./]


terça-feira, 29 de maio de 2012

Crónica sobre a profissão principal

Vou falar-vos da minha vida profissional. Faço-o envolto numa ideia que brilha em certo poema de Eugénio (“Poema à mãe”) – a de o destino dos pássaros ser, logo após a aprendizagem do voo, eles partirem, irem-se embora. Voarem para fora de nós.
A minha filha é um desses seres voadores que deu em crescer e em ter vida própria, à revelia dos pais. É assim a vida? É. Eu é que nunca me habituei a tal independência voadora e sofro muito.
A minha biografia, sabei, resume-se hoje ao medo constante de que a ave caia, se magoe, se desiluda, sofra alguma injustiça – e que eu não esteja (não possa estar) por ali perto do seu voo pessoal para, sendo necessário, interferir, domar o destino, evitar a má sorte.
Prometi que falaria da minha vida profissional, não foi? E cumpri, senhores. Ora atentai: nasceu-me, há já vinte e sete anos, uma filha e o meu ofício principal tornou-se, daí em diante, para todo o sempre, ser pai.

Arco de Baúlhe, 29 de Maio de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem (a "Luluzinha" de uma bd que eu e a VL gostamos) foi colhida, com a devida vénia, em http://www.nomesportugueses.blogspot.pt]

terça-feira, 22 de maio de 2012

Escrito a Norte


No Verão de 1980, o Clube de Futebol União de Coimbra estava no Algarve, em Lagos, para um torneio de futebol. No primeiro dia, empatámos 1-1 e eu fiz um grande jogo. À noite, meio acordado, meio a sonhar com o meu futuro brilhante, andei por aquela cidade tão cosmopolita com o Lobo, o Bonacho, o Marroni, talvez o Januário, todos com aquele espanto de que só as crianças e os provincianos gloriosamente são capazes.
Numa festa à entrada de um hotel, vi certa loira muito linda, provavelmente alemã, a dizer (em inglês) a um macho luso que não poderia sair, oh my darling, porque o marido estava just there. Vi um casal quarentão (mais jovens, ambos, do que eu agora, altos, talvez americanos) dançando no cais uma melodia que, ali, mal se ouvia, sem ninguém à volta senão o adolescente encantado à espera do dia certo para escrever sobre a coisa vista. Vi um pescador bastante velho a vomitar num muro da marginal. Vi o meu treinador, o senhor Pinho, numa larga esplanada, a rir-se de uma anedota do director Sarmento. Vi meninas portuguesas e estrangeiras tão bonitas como as mais belas actrizes  que eu conhecia só do cinema e dos sonhos (a preto e branco ou a cores). Vi gajos maricas e senhoras trintonas interrogando-me, com os olhos, sobre a disponibilidade para alguma aventura de rápida carne.
O mar de Lagos sentia-se à roda, mais do que se via. Estava um calor bom de Verão bom. Houve só, por segundos, esse pormenor de muito ao longe algum relógio d'igreja bater as horas. Mas havia festa por todo o lado e eu era tão jovem, tão brilhante, tão cheio de esperanças - que não poderia adivinhar o outro lado daquilo: o estar, trinta e dois anos depois, escrevendo sobre a falta que me faz Lagos, isto é, esse exacto tempo e esse exacto lugar da minha muito amada juventude.
Na manhã seguinte, mal dormidos, ganhámos a final (golo, creio, do Moinhos) e, no regresso, prometi a mim próprio que, mal me reformasse do futebol, aplicaria parte da fortuna ganha na aquisição de casa junto à praia, naquele cantinho do Algarve que afinal ficou, para sempre, demasiado a Sul de mim.

Ribeira de Pena, 21 de Maio de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem (foto de Lagos) foi colhida, com a devida vénia, em http://www.barlionheart.com/.]

sexta-feira, 18 de maio de 2012

Palavras por cidade

As palavras são perigosas. Pode começar-se uma guerra com palavras. E uma guerra pode, por exemplo, destruir uma inteira cidade. Mas as palavras também podem ajudar a reconstruir uma cidade. (Não bem reconstruir, se formos rigorosos, porque uma cidade destruída nunca mais pode voltar a ser a mesma cidade.)
As palavras podem matar, portanto, uma cidade. E extensões da cidade, já agora: a simpli-cidade, a feli-cidade. Dá-se ainda o caso de outras palavras poderem ajudar a reconstruir estes territórios destruídos. (Não bem reconstruir, se formos rigorosos, porque a simplicidade e a felicidade, uma vez destruídas, nunca mais poderão voltar a ser as mesmas coisas.)
O pior de tudo, neste panorama perigoso das palavras, talvez seja a cumpli-cidade. Nenhuma palavra é capaz de, uma vez destruído este reduto tão puro, lindo e querido, nos devolver o oxigénio cúmplice em que, por instantes, fomos-somos capazes de residir.
A cidade da cumplicidade é um condomínio fechado e raro, não obstante ser um lugar e um tempo fundamentalmente simples. Podemos ser felizes lá.

Ribeira de Pena, 18 de Maio de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem (da melhor série de sempre, Seinfeld) foi colhida, com a devida vénia, em http://www.alternative-prison.blogspot.pt.]

quinta-feira, 12 de abril de 2012

Conhecer & amar (revisões)

"On ne voit bien qu'avec le coeur..." (Antoine de Saint-Exupéry, Le Petit Prince)
Transeuntes olhares vêem-na na paragem de autocarro. Trata-se, se optarmos por uma linguagem económica, de uma velha. Isso mesmo: uma velha. Normal, vulgar, indiferenciada. Veste de forma igual à de outras velhas, embora haja nela uma espécie de elegância remediada e se adivinhe, no rosto, a beleza da escultura original. Tem, como tantas velhas, o olhar fatigado e triste. Quando sobe para o interior do autocarro, quem nela distraidamente atentou - por segundos - esquece-a e olha para outra realidade qualquer. Mas aquela mulher é a minha mãe. Vista por mim, não é uma velha e muito menos uma velha qualquer. É a minha mãe. Já me segurou na cabeça enquanto, na minha frágil infância, eu tinha muita febre e vomitava. Já me contou histórias de encantar. Já me aturou birras, caprichos, desistências. Já se riu mil vezes das minhas palhaçadas. Já me deu sábios conselhos. A sua fadiga tem a ver com o facto de amar tanto e de modo tão competente. Esteve sempre presente na minha vida. É a mais formosa e distinta das senhoras. Habituei-me a vê-la em minha casa, na nossa casa. Aliás: habituei-me a entendê-la como a minha, a nossa Casa. Não é, portanto, uma mulher normal, vulgar, indiferenciada, como erradamente a poderia considerar um qualquer olhar transeunte. Eu, que a conheço tão bem, sei que é única. Admiro-a totalmente e amo-a totalmente - uma coisa por causa da outra e vice-versa. 

 Ribeira de Pena, 12 de Abril de 2012. 
Joaquim Jorge Carvalho 
[A imagem lembra Eunice Muñoz numa cena de Mãe Coragem, de Brecht.]

segunda-feira, 2 de abril de 2012

Steps Coelho


A minha filha deu-se conta de que tem cada vez menos tempo para praticar desporto. Como alternativa à sua prática ideal (natação, jogging, ténis, etc.), optou por adquirir um aparelho de ginástica. Chama-se "step". O exercício consiste basicamente na ilusão de estarmos subindo uma escada interminável, assim se queimando calorias e peso. Eu não quero aqui debater os méritos desta actividade, mas gulosamente aproveito dela as potencialidades metafóricas. Ora, por obséquio, pensai comigo...
Um aparelho que está fixo, colado ao solo, usado para manter ocupado o corpo e quiçá a mente; um aparelho em que fazemos de conta que subimos uma escada, sem nunca sairmos do mesmíssimo chão; um aparelho básico, repetitivo, cansativo...
Vejo, num pedal, José Sócrates e, no outro, o seu heterónimo - Pedro Passos Coelho. Pedalamos, determinados ou furiosos, sem escaparmos do mesmo sítio.
Na minha exegese, o aparelho não se chama "step": chama-se Portugal, ou, extensivamente, Europa. Nele obedientemente cumprimos a (assim chamada) ginástica de manutenção. Ginástica para mantermos sei lá eu o quê!

Coimbra, 02 de Abril de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.odivelas-lisboa.olx.pt.]

domingo, 26 de fevereiro de 2012

Mãos de Pai


Em 1970, na barrinha de Mira, aprendi a nadar de costas. Na gloriosa estreia desta competência nova, dei por mim afastando-me de terra e, com alguma preocupação, fui vendo os rostos da Mãe, do Pai, dos irmãos Tó e Fátima cada vez mais longínquos. Quis dar meia volta e não consegui. Assustei-me, tentei pedir ajuda. Nada. A aflição paralisou-me braços e pernas, a água escondeu-me de toda a gente, senti ali a vida a deixar-me docemente.
“A morte”, podia eu ter pensado.
Mas não. Uma mão forte levantou-me, arrancando-me dali. O meu Pai, que não sabia nadar, senhores, salvou-me a vida com a precisão e o brilho de um herói de cinema.
Tenho-me lembrado muitas vezes do meu Pai. Porque o amo apesar de morto (assim o salvando de estar morto). E porque todos os dias há traiçoeiras águas em que, por culpa nossa ou alheia, caímos, ficando a faltar-nos uma mão que nos ajude, nos salve. A mão de um Pai.

Ribeira de Pena, 26 de Fevereiro de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem (Barrinha, Praia de Mira) foi colhida, com a devida vénia, em http://www.dganodontacygnea.blogspot.com.]

sábado, 18 de fevereiro de 2012

História breve da minha consciência social


Quando eu era criança, a riqueza de cada um de nós media-se em coisas muito diferentes dos modernos telemóveis, ipodes, tabletes, gadgets, videojogos, etc. No meu caso pessoal, toda a gente sabia que era milionário de uma tribo inteira de índios em miniatura e de uma inteira cavalaria às ordens de Daniel Boone.
Um dia, talvez por causa de alguma consulta médica a que a minha mãe não pôde faltar, tive de levar aaquela riqueza infantil para casa de uma tia ainda solteira, empregada fabril e sempre alegre. Por horas daquela tarde inteira, brinquei sozinho (isto é, com os meus cowboys e os meus índios) aos raptos, aos recontros militares, às emboscadas, à concepção arquitectónica de fortes e de acampamentos. Até chegar a minha adorada mãe e eu voltar para o lar essencial que gloriosamente éramos. O problema foi que me esqueci, em casa de minha tia, dos bonecos. Antes que chorasse, a minha mãe prometeu que no dia seguinte a dita fortuna estaria de novo comigo.
Aconteceu que, no tal dia seguinte, a minha tia recebeu a visita do patrão e sua esposa (acompanhados de uma criança de uns cinco anos). A meio do chá e das torradas de cortesia fabril, o filho dos patrões descobriu os meus bonecos e exigiu-os. E a minha tia, a pensar no emprego, deu-lhos.
Nesse dia, à noite, inacreditando no que sucedera, odiei a minha tia o mais que pude (e era muito).
Anos depois, nunca esquecendo aquela tragédia, odiei o miúdo mimado e os seus pais.
Finalmente, odiei a imperfeição do mundo que leva as melhores pessoas a fazerem tanto mal umas às outras.

Coimbra, 18 de Fevereiro de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.lista.mercadolivre.com.]

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

A Escola moderna


A experiência aumenta-nos o volume e a qualidade dos conhecimentos, é certo. Mas igualmente nos brinda, pouco caridosamente, com dúvidas, hesitações, reavaliação (dolorosa, assustadora) do que por anos nos habituáramos a dar por adquirido.
A questão dos "grupos de nível", por exemplo. Acostumei-me a pensar que não fazia sentido discriminar alunos, elegendo turmas de "muito bons", "médios" e "fraquinhos". Encostei-me ao ideal democrático de se elevar toda a gente ao máximo conhecimento possível. Defendi, às vezes agressivamente, a necessidade de não abandonar à sina da mediocridade os menos bafejados pela fortuna socioeconómica ou intelectual.
Entretanto, o tempo, a vida, a profissão.
Tenho-me deparado com a frustração que é não poder avançar porque, na estrada de aprender, se atravessam teimosos ignorantes sem vontade de se demitirem dessa condição. A frustração não tem a ver especialmente comigo, mas com outros alunos (às vezes uma minoria; outras vezes uma boa parte do todo) que querem aprender e não podem. Nesta contemporaneidade, aulas inteiras (ou quase) são passadas a pedir silêncio, atenção, compostura, civilidade. Admito que nem tudo é, aqui, desperdício - mas fica o amargo de as matérias previstas para cada aula (e o tempo de leitura; e o tempo de debate; e o tempo de exercícios sobre as noções aprendidas) se gastar inexoravelmente, quase inutilmente em catequeses comportamentais.
Os jovens problemáticos têm lugar na escola? Sem dúvida.
Mas - e os jovens que querem simplesmente aprender? Isto é - e os outros alunos (os que teimam em se comportar responsavelmente, civilizadamente, normalmente)? Qual é, na escola moderna, o seu lugar?
Eu fui de uma "turma A", desde o 10.º ano de escolaridade, no velhinho Liceu José Falcão, em Coimbra. Não se tratou de cunha ou de estatuto económico (o meu querido pai era um simples operário dos automóveis): estas turmas "de qualidade" formavam-se com alunos que traziam no currículo essa medalha singela de terem sido, até àquela data, bons alunos. Era um prazer ser estudante, ali. E deveria ser também, imagino eu, uma grande alegria ser professor daquelas turmas!
Às vezes, comove-me o olhar fatigado de bons alunos que esperam, com paciência triste, que a interrupção da aula termine e se possa recomeçar o ofício da aprendizagem. São como automóveis na autoestrada impedidos de circular devido à presença inoportuna de (sem ofensa) tractores na via.
Não tenho certezas sobre este assunto, confesso. Mas sei que esta questão do direito à educação não é simples, dada a pluralidade de situações existentes no terreno. Em boa verdade, há nuances neste direito a que a Escola moderna não pode fugir. Uma Escola para todos não tem de ser uma Escola igual para todos.

Arco de Baúlhe, hora d'almoço, 15 de Fevereiro de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.infonet.com.]

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

Sporting: o fim de Domingos à Segunda-Feira


Crónica de um desencontro anunciado, esta.
Domingos Paciência teve dinheiro para comprar jogadores. Teve poder para dispensar jogadores. Teve o ambiente certo para trabalhar. Teve a generosidade, a compreensão e (sem trocadilhos) a paciência dos adeptos e da comunicação social. Durante cerca de sete meses, viveu num estado de graça que não tiveram Paulo Bento, Carvalhal, ou Paulo Sérgio.
Jornadas a fio, os sportinguistas foram esperando por algo de positivo: qualidade de jogo, resultados, títulos. Apesar de alguns fogachos, raramente fomos (mesmo) bons. Dei por mim, muitas vezes, a comparar o nosso futebol com o de equipas como o Paços de Ferreira, o Gil Vicente, o Marítimo, a Académica - e desse cotejo não resultava que fôssemos melhores do que os outros. Vulgarizámo-nos, resignámo-nos, habituámo-nos a uma "aurea mediocritas" triste e sem esperança. Deixámos, por assim dizer, de ser "grandes", isto é, de ser Sporting.
A culpa não é (nunca é) só do treinador, obviamente (basta pensar na invulgar quantidade de lesionados que houve esta época, ou nos senhores do apito que foram ajudando ao enterro). Mas os doentes em estado crítico precisam de tratamento de choque. Com a partida de Domingos, voltará - nem que seja por pouco tempo - uma aragem de novidade e de renovada esperança em melhores dias.
Alguma coisa ficou de bom, julgo eu, da passagem do treinador portuense por Alvalade: a afirmação de Rui Patrício (no matter what); o reconhecimento de que os centrais têm de ter corpo para a função (confio em Oniewu, Rodrígues e Xandão); um lateral esquerdo (Ínsua) como não há outro em Portugal e um direito (Arías) que pode vingar; dois médios de grande qualidade (Elias e Schaars) e um outro que, julgo eu, poderia vir a fazer esquecer certo traidor que desertou em Julho (Martins); finalmente, um um menino avançado que pode vir a ser um fenómeno no futebol mundial (Carrillo). O "resto" (incluindo-se aqui Wolswinkel, Rubio e Ribas) é ainda uma incógnita.
Para Domingos, nesta hora de despedida, vai um cumprimento pouco entusiasmado mas respeitoso. Esteve no meu clube, fez o que pôde, e o que pôde foi pouco para as expectativas dos sportinguistas.
Parece que fica, para já, Sá Pinto. Agrada-me a ideia. E espero que, para além da sua garra, se veja - como "marca" do novo treinador - um regresso aos jogadores da formação, esse viveiro misteriosamente secundarizado nos últimos tempos.
Por mim, aquém e além triunfos, sou sempre do Sporting, claro! E digo (imitando o discurso desses meus amigos que torcem por outros emblemas): graças a Deus que não sou dos outros.

Ribeira de Pena, 13 de Fevereiro de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, no jornal "Sol", edição on line de 13-02-2012.]

domingo, 12 de fevereiro de 2012

Claraboia


Recebi uma anunciada prenda no último Natal: o romance Claraboia (o título aparece grafado assim mesmo, sem o acento), de Saramago.
Já há algum tempo que o li, mas não será ainda hoje que enunciarei, de forma organizada e mais rigorosa, a minha avaliação literária.
Debitarei apenas alguns pormenores, com o fito essencial de comentar um aspecto de natureza editorial que me parece interessante.
Recordo que este livro foi escrito na juventude do autor, tendo a sua publicação sido, à época, recusada pelas editoras que conheceram o manuscrito. O nosso Nobel nunca mais quis publicá-lo em vida, embora reconhecesse nele, já, características que viriam a povoar, no futuro, os seus mais consagrados romances.
A acção de Claraboia passa-se num prédio em Lisboa (a ideia não é original, como num outro texto demonstrarei). A prosa é anterior à da linguagem que posteriormente Saramago inventaria - a partir de Levantado do Chão - e não se distingue muito dos neo-realistas (portugueses, brasileiros e outros) que o autor leria nesse tempo. O que já aparece neste livro de saramaguiano é a capacidade de, em cada avulso, anónimo, vulgar cidadão se encontrar, afinal, motivo de atenção narrativa: cada casa do prédio (cada casa do Mundo) tem gente dentro, e dentro da gente - dentro de cada um - há sonhos e dores, fé e frustrações, vida e desespero. Àquele prédio chega a milenar injustiça social de sempre, consubstanciada na desigual distribuição da riqueza (o título configura a ideia de contacto fatal com a luz exterior). Tudo "isto" não é, no romance, uma abstracta filosofia - vê-se, concretiza-se, somatiza-se em cada episódio, em cada um dos rostos humanos de que o prédio se constitui.
Trata-se, enfim, de um romance digno de José Saramago, ao nível, por exemplo, de Terra do Pecado. Para mim, a parte literariamente menos interessante está no último capítulo. Saramago não resiste ao fabrico de um diálogo, genologicamente próximo do drama, em que põe em evidência a dialéctica entre os que defendem uma revolução tranquila, fundada no amor individual de cada ser humano pelo próximo, e os que preferem uma revolução dura, colectiva, talvez brutal, que sem vacilações ou pruridos erguesse uma nova forma de sociedade. O capítulo é muito palavroso, muito axiomático ou dogmático, muito longe do prédio que albergava a verdadeira acção. Por mim, li ali as diferenças (de filosofia, de métodos e de objectivos) entre a oposição católica ao Estado Novo e a oposição comunista.
Mas este diálogo leva-me à observação sobre o que considero uma falha editorial. Na contracapa, aparece um excerto da obra em que um sapateiro (maravilhosa personagem que representa a revolução tranquila, lenta, fundada no supra-dito amor pelos outros) explica ao hóspede (representante da revolução mais radical, violenta se necessário) a sua praxis em matéria de transformação do mundo: sendo sapateiro, cumpriria o seu papel, isto é, faria apenas o que estava ao seu alcance - reparando bem os sapatos, tratando bem as pessoas.
A quem lê a contracapa sem ler o livro, a resposta do sapateiro parecerá bonita, justa, certa. Mas a retórica do livro inclina-se para a aceitação das ideias do enigmático hóspede, sem o que - como se depreende do enunciado romanesco - nada verdadeiramente mudará. O próprio sapateiro é, com a sua paciência e serenidade, um cúmplice da situação, logo, um obstáculo à revolução. A escolha deste excerto é, portanto, do ponto de vista da verdade do romance, traiçoeira.
Sublinho o facto de eu, enquanto leitor, simpatizar mais com a situação do sapateiro. Mas, descontada a liberdade interpretativa que a leitura literária compreende, o que um romance diz é o que um romance diz.
Creio, aliás, que este episódio não aconteceria se a obra fosse publicada antes de Saramago falecer.
Ponto final: Claraboia é um bom, um (repito) digno romance.

Ribeira de Pena, 12 de Fevereiro de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

Sobre a alergia ao futebolista português (o desperdício como desporto nacional)


Declaração prévia de interesses: eu não sou do Benfica. Sou, muito pelo contrário, do Sporting Clube de Portugal, e essa condição – como eu a vejo – compreende a satisfação por eventuais derrotas dos meus rivais (Benfica e Porto, sobretudo).
Dito isto, gostaria de partilhar convosco uma angústia portuguesa: a falta de oportunidades que os chamados “grandes” do futebol pátrio dão aos jovens. E não me refiro apenas aos jovens portugueses, mas também aos que, oriundos de outros países, o futebol português regularmente fabrica.
Neste território do desperdício nacional, o Benfica é um escandaloso exagero (até à caricatura). Anos a fio, os melhores jogadores das suas camadas jovens são vítimas do mais cruel e incompreensível ostracismo, ainda que o recrutamento desses atletas, desde os infantis até aos juniores, represente sempre uma exigentíssima selecção da melhor matéria-prima de Portugal e, até, do estrangeiro.
O campeonato português (mas não apenas este) está cheio de excelentes jogadores que, tendo feito a sua formação no Benfica, vêem depois as portas da equipa principal do clube fecharem-se-lhes cinicamente. Lembremo-nos de Moreira, Sílvio, João Pereira, João Vilela…
Jogadores que venham de outros emblemas logo ganham, no Benfica, um estatuto superior ao dos que desde novos cresceram no clube. Tenho, por exemplo, a certeza de que se Simão Sabrosa tivesse feito a sua formação no SLB nunca chegaria, tão novo, a titular (e capitão!) das águias. O mesmo acontece agora, obviamente, com Djaló.
Televi hoje o Benfica-Marítimo, e confirmei a imensa categoria de um jogador como Nelson Oliveira (um craque que em muitos aspectos me lembra o Pedro Barbosa do tempo em que não era ainda comentador da TVI). A Nelson apenas oferecem migalhas de jogos e assim se vai adiando a sua afirmação sine die. Igualmente me espantei com a extraordinária capacidade físico-atlética e técnica do maritimista Sami, jogador que foi júnior no Benfica e de que este clube estupidamente prescindiu (não recorrendo sequer à possibilidade de o vincular e, depois, o emprestar a outro clube).
Desculpai-me os amigos benfiquistas, se puderem, mas não resisto a uma provocação final. À porta do balneário do SLB, deveria estar um aviso: “Proibida a entrada a jogadores feitos no clube, em geral – e a portugueses, em particular.”

Ribeira de Pena, 05 de Fevereiro de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.record.pt.]