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Número de Ondas

segunda-feira, 14 de março de 2011

A questão nuclear


A tragédia japonesa dos últimos dias trouxe-nos informação altamente perturbadora e comovente. A globalização torna-nos vizinhos de qualquer guerra, de qualquer mistério, de qualquer tsunami. Estamos com o mundo, somos o mundo. É com os japoneses? É connosco.
A recente ameaça de uma catástrofe nuclear de proporções chernobylianas lembrou-me de uma circunstância, também, da contemporaneidade portuguesinha. Aí vai.
Alguns sábios e, sobretudo, senhores importantes da economia lusa vinham, desde há uns três anos, a sugerir a opção pela energia nuclear. Diziam, com a força dos seus cálculos financeiros, que era a opção mais inteligente e moderna. E, com cinismo, ofereciam o rebuçado retórico de se tratar de uma energia limpa, amiga do ambiente.
Perigos? Muito poucos, garantiam. Chernobyl tinha sido há muito tempo já, e fora consequência - sublinhavam - daquele período de transição para o capitalismo, durante o qual os russos se haviam deixado tomar pela incúria.
E, agora, o Japão...
Parece que, de vez em quando, a Mãe Natureza se serve dos mais violentos métodos para ensinar os homens.
Com todo o respeito pela dor dos nossos irmãos japoneses, não deixo de perguntar numa primeira ressaca do sucedido: por onde andarão, nestes dias mais próximos, os entusiastas portugueses da energia nuclear?

Ribeira de Pena, 14 de Março de 2011.
Joaquim Jorge Carvalho

sábado, 12 de março de 2011

Literatura, Cinema: Amores de Perdição


A (re)leitura de uma entrevista de George Steiner a Ramin Jahanbegloo, trouxe-me à memória algumas considerações que teci, oportunamente, sobre o trabalho de adaptação de uma obra literária ao cinema.
Em alguns casos, o resultado é pavoroso. Noutros, encontramos trabalhos brilhantes de reinvenção da narrativa, que acrescentam não poucas vezes luz e profundidade ao enunciado textual.
É o que acontece decerto com a obra Amor de Perdição, de Camilo Castelo Branco / Manoel de Oliveira.
Eu creio que o realizador de cinema é sempre um leitor (apaixonado, na maioria dos casos) de uma obra literária, só depois assumindo um outro estatuto, o de recodificador (ou transcodificador), que pretende traduzir para outro domínio semiótico aquilo que entende ser o essencial do que leu.
Quer o escritor, quer o realizador recorrem à função poética (ou, como aqui prefiro dizer) estética da linguagem, que é uma instância comum ao cinema e à literatura, no sentido em que liberta, nos dois casos, o discurso narrativo dessa pobreza e incompletude que há, regra geral, no chão factual da existência humana.
Ao debruçar-me sobre a questão da interpretação, ocorre-me o famoso poema de Fernando Pessoa, “Autopsicografia”, que tantas (algumas, boas; outras, disparatadas) leituras já motivou. Na primeira quadra, que sei de cor desde o meu 9.º ano, o poeta escreveu:
«O poeta é um fingidor
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.»


Não é por acaso que esta estrofe me vem ao espírito, quando penso na apropriação, pelo cinema, dos principais aspectos da obra literária. Com efeito, tal como nos versos pessoanos se explica, o que o criador literário faz é representar uma realidade pela via da sua transformação de facto (real ou imaginário) em arte. Não há aqui, obviamente, meros objectivos de mimese jornalística, aliás impraticável mesmo que o escritor o desejasse. Há, sim, a intenção de criar (ou recriar) o real, seja pela sua refundação, seja pela sua recusa ou superação. A única “dor” verdadeira, a que o leitor tem acesso (ou a que o leitor tem direito), é a que o poema seja capaz de nele - leitor - gerar.
Deixai, agora, que (hereticamente) eu mesmo reescreva a quadra de Pessoa, para vos/nos recordar o que fundamentalmente acontece ao realizador de cinema, enquanto sujeito receptor e emissor de arte:

O cinema é um fingidor
Finge tão completamente
Que chega a fingir a dor
Que na escrita, lida, sente.


Ribeira de Pena, 12 de Março de 2011.
Joaquim Jorge Carvalho
[Este texto faz parte de um longo trabalho de seminário que concluí em 2008, no âmbito do ano curricular do meu Doutoramento em Literatura Portuguesa. A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.films-sans-frontieres.fr.]

Inveja, segundo Caneças


No mesmo dia em que, por todo o país, decorria a manifestação da “Geração à rasca”, Lili Caneças aparece na revista “Vidas – Correio da Manhã” (p. 74) perorando sobre o problema maior do Portugal contemporâneo: «a inveja» [sic].
Permiti que contextualize…
Entre outras pérolas filosóficas, a vetusta senhora defende, numa entrevista à “TV 7 Dias” (citada pelo jornalista do CM, Leonardo Ralha), que um reality show envolvendo gente rica terá consequências previsivelmente positivas sobre o povo:

«Se virem pessoas que vivem bem, podem pensar que, se trabalharem, também podem ter uma vida assim.»


Depois, recorrendo ao seu (decerto) enciclopédico conhecimento do mundo, explica que o problema dos portugueses é serem «acomodados e invejosos», ao contrário do que sucede – aprendamos todos! – na Índia:

«Na Índia não há inveja; os pobres acreditam que foi Deus que os fez assim – e não invejam os ricos… Caso contrário, aquela imensidão de gente matava os marajás todos.»


Parece-me perigoso e injusto desvalorizar estas teses da mediática anciã. Com efeito, em vez de andarmos – com textos, manifestações, petições, moções de censura, votos, etc. – a aborrecer os marajás da vida, talvez devêssemos (também) acreditar que é tudo obra do Criador.
É verdade que, de um ponto vista meramente conceptual, a argumentação tem consequências pouco simpáticas para a figura de Deus, assim reduzido (convenhamos) a um sádico de primeira apanha.
Mas, do ponto de vista do quotidiano português, atenção, tem as suas vantagens: assim se salvaguardaria dignamente, talvez, a imagem, a tranquilidade e o bem-estar dos varas, dos mexias, dos bavas, dos loureiros.
E das lilis, claro.

Vila Real, 12 de Março de 2011.
Joaquim Jorge Carvalho
[A foto foi colhida, com a devida vénia, em http://www.inepcia.com.]

Manifestação da Geração com Toda a Razão


Estou convosco, espoliados-traídos-explorados-enganados-vigarizados-roubados.

Estou contigo, Vânia!

Ribeira de Pena, 12 de Março de 2011.
Joaquim Jorge Carvalho

Vida gloriosa do senhor Joaquim Antunes


O senhor Joaquim Antunes é funcionário dos correios, na baixa de Coimbra. A sua casa fica nem cem metros a norte da loja empregadora. É uma casa velha e modesta, de renda baixa, com as paredes saudosas de tinta e o soalho muito amante da humidade e do caruncho. Tem uma filha, que é advogada de razoável sucesso na Figueira da Foz. A esposa foi sempre doméstica e, tirando as dificuldades de visão, é uma cinquentona bastante saudável.
A rotina é, para o senhor Joaquim Antunes, uma boa amiga. Levanta-se todos os dias às sete e meia da manhã, toma o seu rápido banho, trata do hálito, das pilosidades e do cabelo (tudo em sete minutos), veste-se com vagar e rigor, toma um café e come uma torrada. Depois, passa ainda pela pastelaria Saturno e alimenta o sangue de uma chávena mais de cafeína, enfim começando, pontualmente, o serviço distribuidor às nove. Ao almoço, beija a mulher, vem com ela até à Praça 8 de Maio em passeio de namorados serenos, despede-se pela uma e meia da tarde e recomeça, com a mesma britânica disciplina, a sua lida profissional às catorze horas.
De tarde, passa pelo Núcleo Sportinguista do Arnado, bebe um, dois copos de vinho tinto, come (nem sempre) umas pataniscas de bacalhau, conversa e ri sobre a vida e, assobiando uma modinha da juventude, regressa a casa nunca depois das oito da noite.
Já teve carro, agora não. Era muita despesa e muita preocupação: gasolina, seguros, imposto de circulação, inspecção periódica, manutenção (travões, óleo, pneus, filtro de ar), e o dinheiro de um funcionário não estica. Pelos mesmos motivos, não tem cartões de crédito e há muito desistiu de contrair empréstimos - por isso lhe diz pouco, aliás, este rumor de pânico que parece acompanhar, nas pessoas e nos jornais, as notícias de juros subindo, de taxas euribor, de revisões de spread.
O seu luxo é, de vez em quando, meter-se com a mulher no comboio ou na camioneta e ir à praia: em Mira, na Tocha ou na Figueira da Foz, percorre longamente as marginais ao mar, com a sua namorada de sempre, numa espécie de eternidade provisória que mais ninguém, senão os amantes, poderia perceber.
Ao fim de semana, gosta muito de ler no pátio soalheiro que, em lugar inacessível aos olhos dos que passam na rua, circunda parte da sua casinha. Também, Deus lhe perdoe, escreve. Raramente se aventura na poesia, mas gosta de imaginar e, mais raramente, de escrever contos sobre detectives, marinheiros e crianças aventurosas.
Espera pouco da vida, por crer que tudo quanto tem é tudo quanto há para ter.
Quando a filha está com o casal progenitor, Joaquim Antunes sente-se completo como uma obra de arte.

(E este é o Joaquim que eu gostava tanto de ser.)

Ribeira de Pena, 12 de Março de 2011.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem da gravura é da autoria de Stuart de Carvalhais.]

sexta-feira, 11 de março de 2011

Discurso da Primavera improvável


Apetecia-me muito um país livre da mediocridade, da hipocrisia, da ingratidão e da estupidez. Eu sei, eu sei: também eu próprio habito, por não poucas vezes, alguns desses lugares da miserável condição humana. Mas lá o reconheço. Mas lá me arrependo. Mas lá me consumo de remorsos.
Sou, perdoai, um bocadinho diferente deste país geral. É nesse bocadinho diferente que está o meu desconforto quase todo. Eu estaria talvez melhor se conseguisse ser um bocadinho mais geral, não é verdade?
Apetecia-me um país melhor, eis tudo. Sei, sei: não há esse país, e se há não é aqui.
Isto, enfim, deve ser cansaço, isto é, uma pedra no coração.
Ainda há alunos que, no final do segundo período, não sabem conjugar o verbo être.
O senhor ministro das finanças diz que há mais medidas de austeridade prontinhas a servir.
Telefonaram a dizer que não podes.
O senhor primeiro-ministro diz que a educação está muito melhor.

O senhor presidente da República diz que os jovens, coitados, sofrem.

Uma pedra no coração, como vos disse. Não há aquele país, eu sei.
Cansaço. Invade-me o espírito uma volúpia perigosa - a de um abismo para onde, caindo, pudesse hibernar deste presente estúpido, desta vida à razão de juros, desta desilusão geral que governo e vida e mundo são.
Adeus, adeus.

Ribeira de Pena, 11 de Março de 2011.
Joaquim Jorge Carvalho
[A pintura ("Alegoria de Primavera", 1482) é de Botticelli.]

quinta-feira, 10 de março de 2011

Bem-vindo, João


No dia 24 de Fevereiro, nasceu-me um novo sobrinho chamado João. A data coincide com a da morte de meu pai, há quatro anos.
Isto é, a vida continua. Nós, mal permanecendo, vamo-nos.
É assim. Vivò João!

Arco de Baúlhe, 09 de Março de 2011.
Joaquim Jorge Carvalho

segunda-feira, 7 de março de 2011

Museu pessoal


Um grupo de alemães desce da Faculdade de Letras para o Museu Machado de Castro. É uma família: o pai tem barba ruiva, usa óculos de aros redondos, aconchega na barriga alguns litros a mais de cerveja e idade; a mãe (cinquentona como herr esposo) é loira, de olhos azuis, o vestido fica-lhe bem, apesar da bunda brasileira; as duas filhas andarão pelas idades indefinidas dos 16-18 anos, vestem como hippies de há quatro décadas, uma delas apresenta uma impressionante cartografia de borbulhas, a outra canta uma coisa qualquer em inglês.
Cruzo-me com estes turistas ali pela entrada lateral da Faculdade de Medicina. Eles vêem-me passar com duas malas muito pesadas e um saco a tiracolo. Devo parecer-lhes um marroquino transeunte, vendedor de tapetes ou de bijuterias. Nunca adivinharão que carrego difucultosamente, desde a Rua Padre António Vieira, vinte volumes de enunciado académico, mailos currículos e os cedês. Nunca adivinharão que aquele exercício violento cumpre a formalidade pré-terminal de um doutoramento (a)venturoso, que tem um bocadinho de épico, outro de lírico, muito (talvez) de patético.
Os alemães vão para o Museu Machado de Castro, oxalá o encontrem aberto ao público. Buscam, neste país a seus olhos estrangeiro, pedaços de Memória universal.
Eu, que elaboro na cabeça o meu museu pessoal, sorrio a caminho da Nissan Primera. Turista de mim próprio, admiro-me desta loucura iniciada há quase quatro anos, devoradora de dinheiro, de tempo, de dioptrias, de sangue.
Ao fundo da curva, está ainda não o fim, mas o meu carro.

Coimbra, 07 de Março de 2011.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.acabra.net.]

domingo, 6 de março de 2011

Homens da Luta


Os Homens da Luta ganharam o Festival da Canção. Alguns espectadores, escandalizados e sofrendo evidentemente de alergia burguesa à irreverência de Jel & Irmão, saíram da sala de forma abrupta. Abruptos, pois. À bruta.
A pior direita é malcriada e, como a pior esquerda, intolerante.
Eu, que não vejo o Festival da Canção desde (talvez) a vitória da Dulce Pontes, estou contente. Muto contente, pá!

Coimbra, 05 de Março de 2011.
Joaquim Jorge Carvalho

sexta-feira, 4 de março de 2011

Mesma canção


Dia confuso, corrido, fundamentalmente triste.
Deveria estar em Coimbra, com o Daniel, oferecendo-lhe o magro agasalho da minha presença, na hora da partida de sua Mãe. Mas...
Tinha, antes, de esperar pela impressão/encadernação da tese (2 volumes X 10 cópias = vinte volumes), em Vila Real, para entregar na segunda-feira, em Coimbra. E havia trabalho inadiável na escola. Sei que a minha filha esteve no funeral, e era eu também, no fundo, estando no funeral.
A verdade é que me senti, durante todo o dia, apesar das palavras magnânimas do meu Amigo (ao telemóvel), no lugar errado do mapa. Deveria estar em Coimbra. A sensação era a de estar praticando uma vil traição lesa-irmãos.
Pelas cinco da tarde, um grupo de alunos da Escola Básica de Arco de Baúlhe cantou "A Paixão", de Rui Veloso/Carlos Tê. Por segundos, emocionei-me. A letra tem aquela frase poderosa - "Não se ama alguém que não ouve a mesma canção".
A minha história com os que estimo tem a ver com essa ideia:
residi(r)mos na mesma música.
Gostava que o Daniel e o Fernando acreditassem nisso e me perdoassem.

Ribeira de Pena, 04 de Março de 2011.
Joaquim Jorge Carvalho

quinta-feira, 3 de março de 2011

Mãe do Daniel


Faleceu a Mãe do meu Amigo Daniel Abrunheiro.
Como se fosse comigo, curvo-me perante a sua Dor.
Corrijo: é comigo.
Abraço o maior possível para o Daniel, o Fernando, a Família da Senhora D. Hermínia Leite dos Santos em geral.

Arco de Baúlhe, 03 de Março de 2011.
Joaquim Jorge Carvalho
[A foto foi colhida no blogue do Daniel, http://www.canildodaniel.blogspot.com.]

quarta-feira, 2 de março de 2011

Beleza - efeitos secundários


Luz, levitação, leveza
Às vezes água.
Isso me faz a Beleza
Antes da mágoa.

Vila Real, 02-03-2011.
Joaquim Jorge Carvalho
A pintura de Claude Monet (“Mulheres no jardim”, 1866) foi colhida – com a devida vénia – na wikipédia.]

Parábola da repetição


Somos, digo-vos, repetições
De outras eras, coisas, passos.
Repetimos, por exemplo, corações
Desilusões, cansaços.

Olhai esta mulher rara
Comendo pão ao balcão –
Como Inês de Santa Clara
Roubando a Pedro a razão.

Entre a galega loira tão amada
E a minha de si pulcra tentação
Há aritmética, mais nada
Que humana se repete a condição.


[Ó tão incompleta eternidade
Este fascículo de estar vivendo!
Ó presente, feliz talvez, correndo
Rumo à bruta, a haver, saudade!]


Linda Inês, come o teu pão
(Também dele me alimento).
Sou Pedro d’ocasião:
Corra o sangue em vez do tempo!

Vila Real, 02-03-2011.
Joaquim Jorge Carvalho
[A pintura de Pierre-Auguste Renoir (“Mulher com sombrinha” , 1867), foi colhida – com a devida vénia na wikipédia.]

Pai cadente


Uma espécie de orgasmo de luz cruza o céu. Estrela cadente, talvez. Mas poderia ser um anjo (senão Alguém maior) cambaleando entre planetas, ébrio ou doido, involuntariamente iluminando o universo com a beleza luminosa da folia.
Apesar do frio teimoso, este dia 1 de Março de 2011 acaba num aconchego simpático de muita luz. Tantas são as estrelas interrompendo a noite da minha viagem que, por minutos, regresso a um Natal qualquer da minha infância.
Se a polícia se atravessar no meu caminho, faço de conta que tenho 47 anos e que sou uma pessoa responsável e cumpridora. Por dentro, hei-de rir-me como um anjo bêbedo, cabriolar entre Vénus e Júpiter, inseminar o universo do brilho puro que uma vez fui, fomos todos.
E agora me ocorre que a estrela talvez cadente, entre Cabeceiras e Ribeira de Pena, era o meu pai correndo atrás de mim, ou eu dele, agora e para sempre.

terça-feira, 1 de março de 2011

A primeira


Chegado Março, as andorinhas priam.
Isto é, fazem pri.
Isto é, dizem (já) a primeira sílaba da Primavera.

Coimbra, 28 de Fevereiro de 2011.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, na Wikipédia.]