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Número de Ondas

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

A DEPRESSÃO DAS LARANJAS (2)


O Cavalo Louco

Uma menina polaca ganhou, aos oito anos, a prenda de aniversário mais desejada do último milénio: uma boneca vestida de verde, com pilhas dentro, capaz de dizer papá e mamã em inglês. Quem lhe ofereceu a preciosa coisa foram precisamente o papá e a mamã da menina polaca.
A menina polaca veio a ser a esbelta rapariga que, aos dezasseis anos de idade, venceu o prémio nacional da canção juvenil, cuja final gloriosa decorreu em Varsóvia.
Onze meses mais tarde, na exacta véspera da morte do papá, a jovem estreava-se, com razoável sucesso, no teatro ligeiro de Lodz. Durante o funeral do senhor Boniek, a moça reviu o quarto da infância e chorou por longos minutos, abraçada à boneca antiga (que perdera, entretanto, a voz, o braço direito e o cabelo.)
Com vinte e sete anos, Margo Boniek era considerada a mulher mais sexy do principal corpo de baile do “Crazy Horse”. Desnuda, nem assim a minha atenção se cravou nas longas pernas que revolviam o campo da visão espectadora: concentrei-me nos seus olhos. Como eram os seus olhos?
Disse-lhe, à mesa de um “bistro” sebento de Paris velho, no intervalo de uma água com gás (sua) e de um café (meu):
- Os teus olhos, sabes, nunca estão parados. Acho que saltitam.
Ela riu e eu, desconsolado, desconfiei que alguém, antes de mim, lhe dissera já tal.
Já em Portugal, dois anos e meio depois, li no “France Soir” que a amada bailarina supra-dita se suicidara, lançando-se ao Sena, por volta da hora do almoço. No espelho luxuoso de um camarim do “Crazy Horse”, deixara escrito (com o tradicional bâton) o motivo da decisão tomada: “Estou farta de estar nua!”
A mamã da menina Margo só conheceu o triste evento dois meses depois de mim. Não tivera mais filhos. Vejo-a sentar-se lentamente sobre a cama antiga da filha, murmurando “Meu Deus” ou “Merda” ou “Porquê?”, em polaco amargo e rouco. Vejo-a suspirar, pesada, feia, olhando para lado nenhum e antecipando a própria morte. E vejo-a ainda acariciando a boneca de há dezanove anos, já sem voz, sem olhos, sem braços, sem o vestido verde.
Hesito, em matéria de metáfora: sou eu mesmo (sem Margo), a boneca nas mãos da velha mãe, ou a própria velhice órfã da sua criação mais bonita?

A Polónia estava, nessa tarde de Setembro, completamente nua.

Coimbra, 17 de Fevereiro de 2010.
Joaquim Jorge Carvalho
[Trata-se do 2.º texto do volume “A Depressão das Laranjas” (Ribeira de Pena, Ed. Casa de Santa Marinha, 1999). A foto de Lodz foi colhida (com a devida vénia) em www.tripadvisor.com.br.]

terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

A DEPRESSÃO DAS LARANJAS (1)


O Guardanapo

Era uma vez um poeta de periferia urbana que, em Outubro frio e ocioso, esboçou certo poema breve, à mesa esconsa de um Café parisiense. Não se entusiasmou com a obra feita (doze versos pouco originais, sem rima, apesar de uma metáfora interessante sobre o amor). Dobrou e abandonou, pois, o guardanapo onde tentara, pela enésima vez, a imortalidade – e saiu.
Dez minutos depois, Margo Boniek, donzela formosa e muito conhecida na cidade, bebeu um chá e comeu uma torrada, à mesa coincidente do parágrafo anterior.
Por não haver, a essa hora essencial de limpar os beiços, outro papel disponível, a donzela utilizou o guardanapo aparentemente intacto do poeta.
E foi assim que, pelas seis da tarde, o autor se cruzou com a sua metáfora bonita sobre o amor, visivelmente bailando sobre os lábios moranguinos da moça.

Joaquim Jorge Carvalho
Coimbra, 16 de Fevereiro de 2010.
[Trata-se do 1.º texto do volume “Depressão das Laranjas” (Ribeira de Pena, Ed. Casa de Santa Marinha, 1999).]

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

NOTÍCIAS DO MUNDO IMAGINÁRIO


Do Shake-hands ao Undergreeting

Com o objectivo de articular tradição e modernidade, o governo inglês tem vindo a renovar o (até agora) rígido protocolo a que gerações sucessivas de nobres e governantes se têm submetido. Numa primeira fase, segundo fonte autorizada de Downing Street, substituir-se-á o tradicional “shake-hands” pelo “undergreeting” – um toque rápido, feito com três dedos (indicador, médio e anelar), na zona genital da pessoa cumprimentada. Este cumprimento poderá ter nuances, naturalmente, como gentis apalpões em bustos femininos ou beliscões (de intensidade variável) no traseiro de conhecidos, amigos e familiares.
A inovação tem provocado alguma celeuma, mas a reacção da opinião púbica, aliás, pública, tem sido geralmente positiva. O maior problema parece residir nas longas sessões de cumprimentos que têm lugar, por imperativos oficiais, o que implica a troca de saudações com muita gente. Gordon Brown, por exemplo, após uma primeira experiência de “undergreeting”, na Câmara dos Comuns, ocorrida na semana passada, após a aprovação do orçamento para 2010, queixou-se do escroto, mas garantiu que só lhe doía muito quando urinava.
A ideia chegou já ao Parlamento Europeu e a comissão responsável pelo estudo prévio deste projecto tem vindo a receber sugestões variadas, a equacionar em futuro muito próximo. Há contudo vozes reticentes quanto a avanços excessivos, pelo que as propostas serão sempre objecto de cuidadosa triagem. “Há que dar tempo ao tempo”, defendeu Joseph du Bonnet, um deputado francês: “A evolução pode levar anos e nem tudo será tão pacífico como até aqui.” Por isso, saudações como a de joelhos, com leve manuseamento da parte cumprimentada (sugerida por Bill Clinton) ou a do popular pontapé no traseiro (sugerida por A. J. Jardim) estão de momento postas de parte.

Coimbra, 15 de Fevereiro de 2010.
Joaquim Jorge Carvalho
[Este texto já tem cerca de dois anos, mas nunca foi publicado. Sai agora, em quadra conveniente. A imagem-supra foi colhida (com a devida vénia) de um blogue português - http://www.duas_ou_tres.blogspot.com.]

Coimbra, Outubro, 2005.
JJC

Navegar


O tempo anterior ao mar não conta. O seguinte chama-se navegação e é disso que falamos quando falamos de existir.
Por entre o polegar e o indicador de Deus, talvez se veja a porção de mar que me foi concedida.
A divina mão que me avia é a esquerda.
A Sua mão direita ocupa-se da quantidade de terra que me caberá para morrer.
Não se vê essa mão, porque na morte, ao contrário do que acontece com o mar, nenhuma parte nos pertence. Melhor, provavelmente, assim.

Coimbra, já 15 de Fevereiro de 2010.
joaquim Jorge Carvalho

[Nota: O desenho ("Um Pedaço de Mar") é da minha colega e Amiga, Rosário Coelho.]

domingo, 14 de fevereiro de 2010

Carnaval & Verão


O carnaval brasileiro é o maior do mundo. Maior significa, neste caso, quantidade (de investimentos, de participantes, de lucros, de riscos, de espectadores, etc.) e de qualidade (de cor, criatividade, alegria, festa, emoção). Mas há outros carnavais, um pouco por todo o mundo.
Sabe-se que há, na génese do carnaval brasileiro, tradições europeias antiquíssimas, de cariz obviamente profano. Há, pois, Portugal também na raiz do celebrado espavento do Rio, da Baía (e derivados). Mas, hoje, ninguém se atreve a pôr em causa a primazia da festa brasileira, espécie de bilhete de identidade de um povo genuinamente de bem com a vida, não obstante a dimensão da pobreza, injustiça e violência com que convive ao longo do ano. Não é de mais dizer-se que a alegria tem sotaque brasileiro.
No nosso país, tenho assistido, com irregular frequência, a arremedos do carnaval de além-atlântico verdadeiramente patéticos. Para além da circunstância, sempre vexatória, de a cópia ser, por natureza, inferior ao original, há este pormenor não despiciendo do clima. Vi, muitas vezes, corsos tiritando, tristemente, de frio; espectadores, num silêncio funéreo, bem agasalhados e de ar respeitoso, apreciando as carnes saltitantes de bailarinas (nacionais ou importadas), ao som de uma cidade maravilhosa de encantos mil, muito distante dos lugares portugueses.
Julgo que seria interessante pensar-se na possibilidade de deslocar, no calendário, a celebração do carnaval português para os (nossos) meses quentes: Julho, Agosto, mesmo Setembro. Chamassem-lhe, digamos, “Carnaval de Verão” ou coisa semelhante. Penso, aliás, que a alteração redundaria em maior afluência de público, maior alegria dos participantes e maiores dividendos para os organizadores.
Claro que a tradição é importante. Mas a tradição também se faz. Um ano, depois outro, depois outro, depois outro – e normalizar-se-ia, na percepção popular, esta forma portuguesa de carnaval. (Aliás, dizem-me que, na Figueira da Foz, vem sendo tentado algo semelhante.)
Se leitores conservadores se ofenderem com esta heresia sugerida, peço desculpa. Mas lembro que o faço no convencional período de carnaval. É suposto que me não levem a mal, não é?

Coimbra, 14 de Fevereiro de 2010.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida no JN (com a devida gratidão e vénia).]

Faculdade de Letras, 1982


Era uma vez não eu ter nada e não saber que era pobre.
Era uma vez uma ilha na minha cabeça, cercada de solidão.
Era uma vez eu a ler, pouco entendendo, histórias e poemas sobre o que era o amor.
Era uma vez uma ilha na minha cabeça, com um único habitante, que era o meu coração.
Era uma vez uma aula de Cultura Francesa sobre o Père Goriot (de Balzac).
Era uma vez, ao entardecer, um barco à vela chegando, secreto, à ilha na minha cabeça.
Era uma vez a a juventude, a faculdade, o princípio de tudo.
Era uma vez uma mulher saltando do barco para uma certa ilha que era o meu coração.
Era uma vez uma ilha que deixou de ser ilha por, à volta, a solidão ter desaparecido.
Era uma vez o amor.
O amor é um barco entre o estar sozinho e o lado que falta.

Coimbra, 14 de Fevereiro de 2010.
Joaquim Jorge Carvalho

sábado, 13 de fevereiro de 2010

Aliteração q.b.


Boas tardes, sô Barbosa,
Tudo bem?
Bote aí:
Bica, bola e bolo de arroz…
(Bebes bica também, Beta?)
Bom, bote mais uma bica.
“A Bola”:
Braga bate Belenenses em Belém!
Boa! Bravo! Bestial!
Bem, já bebeste a bica, Beta?
Então, ‘’bora.
Adeus sô Barbosa,
‘’té breve!

Ribeira de Pena, Fevereiro de 2010.
Joaquim Jorge Carvalho
[A ilustração-supra é de Van Gogh (O Café Terrace na Praça do Fórum, Arles, à noite, 1888) e foi colhida no blog oegodequeiros.blog.sapo.pt.]

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

Cão e Noite


São quase quatro da manhã, em Ribeira de Pena. O frio todo do mundo veio passar este breu connosco. Aconchegadas no geral silêncio, as pessoas dormem, confiando no sol que há-de vir. O vento, de vez em quando, assobia pelos ramos do plátano à curva da estrada. Uma janela do prédio bate ébrias palmas às rajadas mais brutas. A minha mulher dorme lá dentro, suspensa das horas, talvez sonhando.
Estou só, na noite acordada, mas quase feliz. Escrevo sobre as personagens secundárias de Júlio Dinis e não poucas vezes acontece-me habitar a aldeia que o escritor inventou. Gostava de poder entrar na loja de João da Esquina e ouvi-lo comentar, escandalizado, duzentos anos antes do Bush e da Sarah Pallin, o evolucionismo de Darwin. “Entrar”, isto é, fisicamente, porque “estar lá” do modo consabido de leitor, isso, há muito que posso (e não é coisa pouca).
Também a vila onde resido mereceria, por certo, o “seu” romance, como – segundo parece – Ovar mereceu de Dinis. Não me tem apetecido; há o problema de eu estar aqui, fisicamente muito aqui, neste contexto tão vizinho e familiar. É muito delicado trazer para a literatura os caracteres humanos que nos rodeiam. Por muito que eu fosse rigoroso (e não acredito que o conseguisse ser; nem sequer acredito que se possa sê-lo), a verdade é que ninguém se gosta de ver ao espelho dos outros. Isso, aliás, explica a deliberada omissão de nome nas aldeias dinisianas: Minho, Beiras, Portugal, todos os lados em geral e nenhum em particular?
Ouço lá fora um barulho semelhante ao da chuva. Espreito da sala. Não chove. É, afinal, um velho cão lazarento, de luto por si próprio, que dorme as tardes e, decerto, as noites nos arredores da igreja do Salvador. Veio ao chafariz dessedentar-se, com vagares de velho proprietário. Penso: é dele a noite. E algo minha, um pouco.
A sede do cão deu-me sede também. A torneira da cozinha chia enquanto o copo se enche: água siberiana, esta. Antes do regresso a Júlio Dinis, espreito novamente a rua. Ao longe, um sino lembra as horas. O cão já lá vai, pachorrento sempre, dono do tempo.

Ribeira de Pena, 12 de Fevereiro de 2010.
Joaquim Jorge Carvalho

Lápis Filosofal


(Sobre um instante recolhido no Centro Comercial do costume)


Caminhas sobre a dor da tua própria lembrança
Dos dias d’ouro em que o mundo vinha à porta
Para te ver passar.
Sabes da beleza que eras e isso há-de doer
Agora,
No reverso das rosas à míngua d’ água
Nos passos pela galeria indiferente
Aos teus passos.

Antes imaginar que há de novo olhares
Flores por ti na transeunte saliva masculina.
Antes seres outra vez, fingindo,
Menina
Não é?

Mas vem.
O meu poema há-de ver-te como eras
(Como olhando por dentro 'inda te vês) -
Que há elixir nos versos, se deles bebermos
A quantidade certa.
Vê como o teu busto renasce
O teu rabo se ri de Newton
As pernas hipicamente me fascinam.

Vem, pois.
O comércio é justo e transparente:
Enterneces-me,
Eternizo-te.

Ribeira de Pena, 12 Fevereiro de 2010.
Joaquim Jorge Carvalho

[O desenho-supra é de Stuart Carvalhais (1887-1961).]

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

Mestre João (1)


O texto literário tem, por natureza, um alcance universal. As dores e as glórias do indivíduo escrevente só ascendem à condição de literatura se, entre outros requisitos, puderem ser lidas como dores e glórias da condição humana. A isto há-de acrescer, bem entendido, que a gramática seja respeitada (e, em alguns casos, melhorada) e que haja fundamental beleza na coisa escrita.
Eu creio que a literatura é a minha forma principal de comunicar. Uma linguagem. Quisera ser, em cada texto, como diria Júlio Dinis, uma humilde casa para autor e alguns leitores morarem ou, juntos, estarem.
Se vos trago, pois, de vez em quando, nomes e lugares da minha vida, por favor tomai-os como nomes e lugares que são – também - vossos, da vossa vida e até (sendo a ração melhorada), “a” vossa vida.
O meu sogro chama-se João Ornelas. Em Machico, onde toda a sua biografia se fez, quase toda a gente se lhe refere como Mestre João. O título, prévio ao nome, não é académico; é profissional, de quando ele era “mestre de obras”.
Mas, para além de pedreiro brilhante, este homem foi autodidacta ao longo de toda a vida. Leu mais do que muito mestres uinversitariamente chancelados (anteriores e posteriores a Bolonha). Teve oito filhos e fez tudo por eles; arranjou amigos em todos quantos o conheceram; aprendeu com a experiência bruta do quotidiano, reflectindo e – pasmai – habituando-se a, todas as noites ao deitar, tomar notas (numa eterna agenda de bolso de que nunca se esquecia) das observações e aprendizagens feitas ao longo do dia. Já agora: como todos os sábios verdadeiros, foi sempre uma pessoa humilde. Falo-vos de “um santo”, no sentido em que Eça falava de Antero.
Hei-de aqui contar como o Estado ignobilmente o roubou, no cálculo manhoso da reforma, retirando-lhe noventa Euros ao que normalmente receberia. (Noventa Euros “descontados” de uma reforma de quatrocentos e noventa Euros, atentai, não de uma dessas pensões milionárias que os governantes distribuem por Bancos, Direcções-Gerais e Parlamento.) Ficará para outra altura.
O que hoje não deixarei de lembrar é o tesouro que representa para nós esta gente mais velha e de coração limpo, se houver a humildade e o tempo certos para a escutarmos. Aviso, pois: quero trazer aqui o Mestre João, com regular frequência; quero, gulosamente, inscrever na perenidade do enunciado algumas das pérolas que lhe fui descobrindo e oferecer-vo-las.
E fica, para já, uma só.
Em certa tarde de Agosto, discutia-se a discreta beleza da igreja de Machico, cotejando-a com a imponente igreja de Santa Cruz (de Coimbra). O mestre João conhecia, naturalmente, ambas, e não tomou partido, concordando ora com os partidários desta, ora com os admiradores daquela. Mas quando, a certa altura, se comparava a abóboda de uma com a de outra, interrompeu a assembleia e soltou, num sorriso:
- Ah, isso… A minha igreja ideal é diferente. Não tem tecto.

Ribeira de Pena, 11 de Fevereiro de 2010.
Joaquim Jorge Carvalho

Leão triste


Em Ribeira de Pena, é-se do Benfica ou do Porto. Eu sou, nesta rígida dicotomia, uma civilizada aberração. É que, na minha Coimbra natal, até há pouco tempo, era-se do Benfica ou do Sporting. Eu, por influência familiar (como é normal nestes casos), fiquei leão.
Sofro, desde criança, com as glórias e tragédias verde-brancas. Odeio hoje mortalmente Xistras, Olegários, Ferreiras, como já odiei no passado Paratys, Calheiros, Garridos e Pereiras. Sou incapaz de sofrer em silêncio as opiniões enviesadas de águias ou dragões sobre a enésima vez em que fomos vítimas de azar ou de arbitral injustiça. Tomo a palavra e argumento, seja onde for, convicto da minha indiscutível verdade. Chamo múmia e pé frio ao pobre Jesualdo (que os portistas não suportam mesmo ganhando)e rio-me publicamente das (in)competências linguísticas do Jorge Jesus (que assassina o Português com chicletada pose catedrática, afirmando que "a gente vamos muita fortes, adonde..."). Mas ouço, com atenção respeitosa, o Carvalhal explicar que "o 4.º golo do Cardoso veio descontextualizar o que se passou na partida". Sou um caso perdido.
O pai de um amigo meu, sportinguista e doente como eu, levou esta irracional afeição a um épico limite. Na década de 80 do século passado, o Sporting foi eliminado da Taça UEFA pelo Nápoles (de Maradona), após desempate por "penalties"; ora, o pai deste meu amigo, na ressaca do revés, ficou em silêncio aquele resto de serão, recusando o jantar, conversas, um chá. Foi, já noite avançada, deitar-se e morreu.
Lamento-o e percebo-o muito bem. Eu próprio morro, de forma mais escondida e covarde, a cada jornada, quando as coisas correm mal. E, em épocas como esta, haveis de convir, a dor assume proporções inauditas. Ao contrário, quando o Miguel Garcia marcou, na Holanda, no último minuto do prolongamento contra o AZ Alkmaar, e "nos" levou à final de uma competição europeia, o mundo pareceu-me um lugar formoso e justo...
Tenho saudades de andarmos a lutar por títulos. Preciso urgentemente que o inverno deste futebol acabe e tudo seja possível, de novo. A nossa primavera começa lá para Julho, com treinador novo. Bem sei que, à minha volta, a turba maioritária anda eufórica. Mas até me consola o facto de sermos menos que "eles": é condição da coisa preciosa que seja (mais) rara. Passa-se isto mesmo com o ouro, no universo dos outros metais.
Entretanto, é preciso que o Adrien saia do onze.

Ribeira de Pena, 11 de Fevereiro de 2010.
Joaquim Jorge Carvalho

Direito & Mar


A turista acumulava o sol
Com o estudo:
Sebentas de Direito entardeciam
Indiferentes ao oceano.

Subitamente o vento apareceu
E, devasso, incomodou a praia:
Fotocópias de opas e sucessões voam
Mar adentro.

Ao longe, como barquinhos
Vêem-se pedaços de lei navegando
Para as Desertas.

Não há maior Direito que o mar
(Pensou a turista, espreguiçando-se
E esquecendo-se.)

Ribeira de Pena, 11-02-2009.
Joaquim Jorge Carvalho

[Poema revisto com base num original dado à luz em Machico, no ano já longínquo de 2007. Dedicado agora, como então, à V. que se licenciou em Direito no dia 19 de Dezembro desse ano. A imagem-supra reproduz uma pintura de José Malhoa, "Praia das Maçãs" (1918).]

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

Astronomia contada aos adultos


A Terra à volta do Sol:
Movimento de translação da Terra.

A Terra à volta de si própria:
Movimento de rotação da Terra.

Os meus olhos à volta de Ti:
Movimento de admiração da Terra.

Joaquim Jorge Carvalho
(Para a pequininha)
[in Inquietação de Barcos, Ribeira de Pena, Ed. Fórum Metanóia, 2008.]

Urbanização com mar a seguir (poema em 4 andamentos)


I
Hei-de saber daqui a muitos anos isto
O presente
A velhinha arrastando um saco do Modelo
A empregada com sotaque do campo
A chuva triste embaciando o entardecer.

Hei-de saber pelo retrovisor da lembrança
A viagem perdida
O tempo dos semáforos incolores
A raiva pelo roubo do plasma
A intranquila voz da filha ao telefone.

Hei-de saber à cabeceira da minha morte
A vida
O que fugia em cada instante nosso
A metamorfose da beleza nas fotografias velhas
O amor emagrecendo até ao essencial
O meu pai em cabeceira anterior à minha.

Hei-de saber o contrário disto tudo
O nada.
O fim devindo de uma gazela correndo num livro
O silêncio depois da música e da vozearia
O indivíduo ao espelho de não existir ninguém outro
O beco ao fundo do aparente infinito.

Hei-de saber o sentido da escrita, já lida
A talvez fénix que voe dos teus olhos
O sabor do café muito para lá da chávena
A carne antecedendo a carne sucedendo à carne
O beijo encarnado no dia concreto e o outro
Seguinte aos lábios e à separação dos dedos –

O resto
O importante.

II
Miraste as mil maravilhosas montras
Durante a eternidade desta tarde comercial.
Raramente percebeste o enfado pouco canino
Do teu cão cansado.
Talvez não visses sequer os olhos tristes
E o uivo escondido entre as mãos nos bolsos.

Deste-me em algumas lojas sacos e cabides
E a tua voz interrompeu o silêncio de ambos
Para queixas sobre os preços e o ar condicionado.
Entre o multibanco e o restaurante, fugi
E revisitei o ouro da tua inocência nossa
(Um vestido largo, uma bandolete, uma canção
Um par de namorados no Estádio Municipal–
Isto é, uma outra eternidade anterior à Ikea).

Quando regressei, havia essa estranha mulher
Carregada de sacos, de pressa, de casadas rugas
E eu encolhi-me, qual ostra afásica
No umbigo do tempo.
Em todas as montras se via a nossa morte,
Amor.

III
Sobes as escadas cheia de idade
E há muito mais degraus que tempo.
Olhas o céu antes da chuva e talvez rezes
Lá desse subterrâneo esconso da solidão que és –

Compraste peixe de mares estrangeiros
Para o almoço reformado das viuvezes lusas.

Tens os olhos azuis, acho que cegos
Como Deus.

O peixe há-de saber-te a outra coisa diversa de peixe
E ainda falta a noite.



IV
Veio o vento e nada.
Vieram remos e nada.
Veio electricidade e nada.
Vieram motores, maus humores, rumores
E nada.

Este barco não anda, lamuriou-se o arma-
Dor.

Mas veio o arrais e o barco partiu.
Por que te atrasaste, perguntou o patrão.
Estive a sonhar, disse o arrais,

Para haver viagem.

Ribeira de Pena, Fevereiro de 2010.
Joaquim Jorge Carvalho

História (quase jornalística) de amor


1.
Não desfez a barba por falta de tempo. A mulher não apreciava esse desleixo; dizia-lhe sempre que assim parecia um bandido, que ficava mais velho e mais feio, e fazia beicinho. Mas era já muito tarde, a manhã quase despontava; daí a minutos ouviria a buzina da carrinha, conduzida pelo António, e às oito e meia deveria já estar na labuta diária da Efacec.
Engoliu o naco de pão que sobrara do dia anterior e meteu à boca uma meia caneca de café amargo, limpou os beiços com as costas da mão e, enfim, como fazia sempre, foi ao quarto despedir-se dela. A Luísa estava talvez acordada, enrolada na filhota, e como de costume ignorou a saudação esponsal.
O António não veio, nesse dia. Quem vinha a conduzir era o Vieira Um-Dia, ex-pescador, que coxeava devido a um acidente sofrido na tropa e que devia a alcunha ao hábito conhecido de, a cada momento, suspirar e anunciar emigrações: “Um dia, ponho-me a andar daqui para fora…”
-O Tónio? – perguntou Manuel.
- Não pôde vir. Parece que tem de ir ao Porto tratar de assuntos…
- É estranho. Ainda ontem aqui esteve em minha casa, à noite, e não me disse nada.
Entrou na viatura e, sem cerimónia, ligou o rádio. Era o luxo de todas as manhãs: o encosto confortável do banco da frente, o nevoeiro bonito do caminho para o trabalho, o baloiço viajante, a música, a meteorologia e a voz serena do locutor. Nessa manhã de Março de 1972, fazia frio em todo o país; em África, a guerra ia sendo ganha; Eusébio estava lesionado; Madalena Iglésias preparava um novo disco.
À chegada ao parque de estacionamento da empresa, o Vieira disse:
- Um dia destes, vais ver, é de vez!
- Pões-te a andar daqui para fora? – perguntou Manuel.
Vieira Um-Dia percebeu a troça nos arredores da pergunta. Encolheu os ombros:
- Tu vais ver.
O barulho das máquinas e das vozes interrompeu-lhes um possível diálogo sobre sonhos e limites. Manuel apagou o cigarro e sacou do bolso direito um velho par de luvas.
- Até logo, Vieira.
- Até logo – resmungou o coxo, ainda amuado.
Quando, pelas sete da tarde, regressou a casa, Manuel encontrou, em vez da mulher e da filha (e do jantar), um bilhete, escrito no rótulo do detergente Omo:
“A menina está em casa da senhora Adília.
Desculpa, mas a gente não manda no coração. Luísa”

2.
Não percebera bem, a princípio, toda a dimensão da tragédia que se abatera sobre si. Como ébrio, recebera da vizinha, a viúva Adília, a pequena de dois anos que Luísa ali deixara; recebera igualmente o suspiro piedoso da velha, algumas meias sugestões de desconfiança antiga, a mão maternal sobre o ombro.
- Obrigado, Ti’ Adília.
Ninguém em Leça do Balio o vira chorar. Foi trabalhar para a Cuf Portuense - para fugir, dentro do possível, à pena venenosa dos camaradas. Livrou à tropa (com uma cunha, dizia-se, do patrão). Sobreviveu. Todos os dias, muito cedo, ia até casa da irmã, e aí deixava a filha, em silêncio, até às seis e meia da tarde, que era quando voltava do trabalho. Soube, sem nunca perguntar fosse o que fosse, da partida da Luísa e do António para Lisboa, do salão de cabeleireira que a mulher abrira, já depois do 25 de Abril, na zona de Belém, e do sucesso económico do António (na área da restauração).
Não mais quis saber de mulheres na sua vida, tirando um ou outro momento de fraqueza homeostática que curava, com uma centena de escudos, em bares manhosos de Matosinhos ou, mais raramente ainda, no Porto. A sua vida passou a chamar-se Clara, a filha. Era com ela que passava quase todos os momentos, e havia mães que suspiravam, impressionadas, à visão daquele homem passeando pelo porto de Leixões, de mãos dadas com a petiza, comendo gelados ou castanhas, num aconchego de amor tão raro.
A mulher do Vieira Um-Dia, farta do álcool e da violência do esposo, gritara-lhe, algumas vezes:
- É corno, é corno, mas tem uma vida bonita e é um pai como deve ser!
Ao princípio, estas ousadias custavam-lhe uns encontrões ou uns olhos negros, mas com o tempo o sonhador tornara-se um farrapo triste e passivo, que passava as tardes no Café da rua, a olhar cegamente para o mar. Certo dia, deu mesmo em vomitar sangue e, pouco depois do internamento no Hospital S. João, morreu de cirrose. Manuel, a pedido da viúva, tomou conta dos órfãos naquela tarde de terça-feira em que o funeral se fez.
Clara, já com dez anos, teve muita pena dos dois miúdos (ambos muito pequeninos, ainda).
- Já viste, pai? Ficarem assim órfãos…
E foi nessa ocasião que, como Einstein, o operário da cervejeira percebeu que tudo é relativo.

3.
Em 1982, durante a greve, toda a freguesia de Leça do Balio viu, na RTP, a cara sorridente de Manuel, porta-voz da comissão de trabalhadores, manifestando a confiança nas negociações com o patronato e referindo-se à Europa com estranha ironia. O Chico do Café, de olhos muito vivos, recordou a quem o quis ouvir que aquele homem tinha a quem sair:
- O pai dele, na Fábrica de Conservas, foi preso por andar à pancada com o encarregado…
Mas esse foi também o dia em que, pela voz da Madalena, filha da falecida Adília, soube da doença súbita de Clara, durante uma aula de Francês. No Hospital, estava a directora de turma da pequena, que lhe deu conta do desmaio, da preocupação da Escola, da ambulância.
A insuficiência renal, disseram-lhe, tinha remédio, mas não se tratava de empresa fácil: era preciso um transplante. Toda a família mais chegada fez exames, à procura de órgãos compatíveis, mas em vão. O médico garantiu-lhe que a Clarinha estava nos primeiros lugares de uma lista nacional:
- Assim que haja um rim disponível, chamam-na, senhor Manuel.
O tempo, contudo, passava. Clara engordara muito devido aos medicamentos e, por indicação clínica, deixara de frequentar a Escola. Manuel trazia-lhe doces que ela agradecia sem comer; contava-lhe episódios do trabalho para a fazer rir; dizia-lhe que em breve o Hospital telefonaria (e, por dentro, sentia-se ridículo como o pobre Vieira de outrora).
A filha sofria muito com a febre e o seu juvenil estômago não suportava já os antipiréticos. Certa noite, muito cansado e sem fé, ele não pôde impedir que uma lágrima se misturasse ao chá de cidreira. Talvez fosse esta mistura a causadora de uma ideia tão improvável como aquela que Clara exprimiu, baixinho, no suor seguinte à infusão tomada:
- Será que a minha mãe não é compatível?

4.
Para um homem nascido em Leça do Balio, não é simples ir a vizinhos perguntar pormenores sobre a vida da mulher que fugiu de casa, ou geografias sobre o ex-amigo que a levou. Não é simples ir a um restaurante chique, num lugar distante como Alverca (perto de Lisboa), e pedir autorização a António para falar com Luísa. Não é simples ficar, por horas, à espera que a cabeleireira mais frequentada de Belém termine o seu dia de lucro e, enfim, se disponha a ouvir uma narrativa confusa de nefrologia e de desespero.
Mas foi essa, então, a biografia de um homem chamado Manuel, a quem ninguém jamais viu chorar ou lamentar-se. Na foz deste rio de peripécias, aconteceu que Luísa se dispôs a fazer análises e se descobriu que era dadora compatível.
O problema foi que António se opôs: temia consequências na saúde da companheira, problemas na delicada operação, talvez até uma perigosa reaproximação ao pai de Clara. Muito dividida, carregada de temores e de remorsos, a mulher pediu tempo para pensar.
Manuel, tão ocupado a pensar na filha, não teve sequer ânimo para insistir mais e voltou a casa, mais baço do que há doze anos.
Passaram meses. Numa quarta-feira de Março, que aniversariava aquela espécie de viuvez do pai, Clara ouviu o telefone e despertou do sono febril onde jazia. Manuel dormia, também, anestesiado em vinho. Foi a pequena a atender a chamada interurbana que termina esta história surpreendentemente feliz:
- Diz ao teu pai que pode contar comigo – afirmou, tremendo, uma voz de mulher.

FIM
[Ilustração-supra: Pintura de Pierre-Auguste Renoir (1841-1919)]