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quinta-feira, 25 de março de 2010

A DEPRESSÃO DAS LARANJAS (5 - Parte VII)


As Palavras (Parte VII)

Nessa noite, tremendo de paixão ante a poderosa deusa de carne que dançava, Priapyo murmurou a frase mais alta, mais profunda, mais quente e mais sábia alguma vez escrita. Hodju sentiu, pela primeira vez na sua vida, que alguma força se sobrepunha ao poder da própria magia. Com um mecânico estalar dos dedos, suspendeu o ataque do amantíssimo bandido; escreveu apressadamente as divinas (ou diabólicas?) palavras na folha de carvalho, acrescentando um rápido adeus para Margo (“Adeus, minha querida. Até sempre!”). Logo a seguir, reacendeu o sonho de Priapyo, que era já o seu também.
Nunca mais se ouviu falar de Hodju, desde essa altura. Nem mais se viu o dono do castelo negro, criatura que (diz-se) vagueia pelos corredores nocturnos do palácio, à procura de algo que ninguém sabe bem o que é.
Delfim chorou ao ler a última missiva do mágico. Envolveu no seu choro a neta do velho, explicando-lhe com gestos gagos a tristeza das notícias. As lágrimas da moça fizeram-na mais linda do que nunca; e seu arfar realçou a curva citrina do peito; e seu desespero despenteou formosamente os sensuais cabelos. De modo que o príncipe, naquele instante, se descobriu enamorado de Margo – e a ela dedicou, num jorro essencial, pouco gaguejando, todas as frases guardadas, olhando-a muito nos olhos de ave.
Deram-se as mãos, ao fim de um só segundo (ainda se ouvia o eco da última palavra que Hodju encontrara e o perdera). Pareceu ao príncipe que a escolhida esposa o compreendera, apesar da surdez. E assim era, de facto: é da natureza do amor que as mais belas palavras sejam ditas pelos olhos. E que o silêncio, então, signifique tudo.

Ribeira de Pena, já 23 de Março de 2010.
Joaquim Jorge Carvalho
[Trata-se do 7.º e último excerto do 5.º texto de “A Depressão das Laranjas” (Ribeira de Pena, Ed. Casa de Santa Marinha, 1999). A imagem-supra é o cartaz do filme "Shadowlands" (1993), de Richard Attenborough, com Anthony Hopkins e Debra Winger nos principais papéis. O título em português é “Dois Estranhos, Um Destino”.]

quarta-feira, 24 de março de 2010

A DEPRESSÃO DAS LARANJAS (5 - Parte VI)


As Palavras (Parte VI)

Por um completo ano estendeu esta aventura, sendo cada vez mais difícil, a Hodju, resistir à beleza fatal das palavras que Priapyo lhe ia dedicando. Por um completo ano se estendeu esse caminho de ida e volta, a cavalo ou a pé, de Margo aos aposentos do príncipe (uma discreta estalagem onde discretamente Delfim se mantinha, sempre impaciente). Por um completo ano, as concubinas do ladrão de palavras deixaram de o servir, por manifesta ausência de vontade do macho, que acordava tarde e ansiava, a cada instante, pela chegada da noite.
Um dia, ao fundo do texto recuperado e transcrito, por Hodju, na folha de carvalho costumeira, acrescia uma nota: “Amanhã recuperarei a última frase. Não sei se conseguirei resistir. Honrai o acordo que fizemos.”
Preocupado com tais linhas, o príncipe quis interromper o perigo e, através da doce Margo, fez chegar ao mágico um pedaço de papiro: “As frases que temos são já suficientes. Chega. Volte para sua casa.”
Mas Hodju estava apaixonado pela boca do homem que, todas as noites, o tentava com as mais belas palavras. Desse encantamento resultava que cada vez menos se reconhecia o ancião que era, e cada vez mais se assumia como a mulher que magicamente se fingia oferecer.
[Continua.]


Ribeira de Pena, 24 de Março de 2010.
Joaquim Jorge Carvalho
[Trata-se do 6.º e penúltimo excerto do 5.º texto de “A Depressão das Laranjas” (Ribeira de Pena, Ed. Casa de Santa Marinha, 1999). A imagem-supra é do filme “O Fabuloso Destino de Amélie” (2001), de Jean-Pierre Jeunet.]

terça-feira, 23 de março de 2010

A DEPRESSÃO DAS LARANJAS (5 - Parte V)


As Palavras (Parte V)

O velho mágico instruiu a neta no sentido de ali esperar, todas as noites, por novas suas. Pelas imediações da casa, recolheu plantas, frutos, alguma terra; releu antigos manuscritos e ensaiou rezas estranhas; finalmente, visitou o campo onde a mulher e o filho jaziam, enterrados entre malmequeres e couves. Partiu, enfim, após rápido beijo na silenciosa Margo.
Já em Myra, no teritório do terrível Priapyo, arranjou modo de entrar no “Palácio Negro”, assim baptizado pelo medo popular. Ao segundo dia, estava como cozinheiro contratado, então começando a aproveitar a matéria-prima trazida. As ervas, os caldos, os frutos misturados com terra, as rezas – tudo impressionava o pessoal de serviço ao palácio (entre ajudantes, mestres culinários, soldados e simples curiosos). E a verdade é que Priapyo gabava já, em público, esse cozinheiro misterioso, tão em boa hora caído na sua propriedade e ao seu soldo. O mesmo aliás faziam, em uníssono, as oito concubinas que preguiçavam, seminuas, à sua volta, ou os raros nobres que com o poderoso senhor privavam.
À quarta noite, o jantar pareceu provocar um violento sono em Priapyo. Com voz melosa, quase ininteligível, ordenou que os convidados se retirassem e que as mulheres o despissem e deitassem. Assim fizeram as belas escravas (e entre elas talvez a mãe de Margo), inexplicavelmente excitadas na ocasião, após o que saíram e, querendo, se entregaram aos criados, não cuidando de medos ou de decoro, razão pela qual o trovador de serviço chamou “rio torrencial de amores” a essa madrugada.
O patrão do palácio sonhou, nessa noite, com a mais bela mulher jamais vista no mundo: de olhos muito abertos, olhava para o mágico Hodju e louvava-lhe os loiros cabelos, os seios leves, os lábios rebentando de sumo. Quando Hodju se desvestiu do seu manto, Priapyo sentiu-se desfalecer, pois era a nudez inteira e irresistível de Tétis que ali fitava.
Então, o volúvel guerreiro de Myra, sonambulando pelo quarto, pegou numa das chaves que lhe pendiam do colar e com ela se dirigiu a certo cofre de prata. Hodju, nesse entretanto, deitou-se na cama do bandido. Ao regressar, Priapyo fez menção de se atirar sobre a presa, mas um único olhar de recusa, ou adiamento, gelou-o.
Disse então a essa mulher, que só os seus olhos viam, uma frase tão bonita, tão rica de palavras com música dentro, que ao pobre mágico, esquecido da sua pessoa verdadeira e da sua missão real, apeteceu o amor do homem encantado.
Ficou isto a Hodju de primeira lição, sobre o (consabido) perigo que as palavras encerram. Com um estalido de dedos, fez regressar ao mudo sono o senhor do castelo, copiou de memória a poderosa frase ouvida e, extenuado, saiu do palácio, pelas cinco horas da madrugada, ao encontro da neta.

[Continua.]


Coimbra, 23 de Março de 2010.
Joaquim Jorge Carvalho
[Trata-se do 5.º excerto do 5.º texto de “A Depressão das Laranjas” (Ribeira de Pena, Ed. Casa de Santa Marinha, 1999). A imagem-supra é “Corpo de mulher nua sentada sobre uma nuvem”, de Salvador Dalí.]

segunda-feira, 22 de março de 2010

A DEPRESSÃO DAS LARANJAS (5 - Parte IV)


As Palavras (Parte IV)

Feitas as apresentações, explicou o príncipe o motivo da visita e, curvando-se retoricamente perante o ancião, pediu-lhe auxílio. O velho não queria sair dali por muitas razões; a maior de todas era Margo, a neta. Tratava-se da única filha de seu filho Cretz, morto há muitos anos por assaltantes de vindos de Myra.
- E a mãe? – quis saber Delfim.
- Eu estava, então, a cinquenta quilómetros de casa. Segundo pude perceber pelos gestos da menina a sua mãe foi com o chefe dos assaltantes.
- Rap, rap, raptada? – perguntou o príncipe.
- Não – respondeu o velho.
- Por li, li, livre vontade? – espantou-se o príncipe.
O velho sorriu, com óbvio ódio:
- Sim, por vontade própria, mas não exactamente livre. Por paixão! Algo nele a encantou perdidamente: talvez palavras…
Delfim agitou-se:
- E sa, sa, sabes quem era esse ho, ho, homem?
- Julgo saber. Priapyo…
O príncipe não conseguiu impedir-se um grito. Explicou, de novo, a sua própria tragédia, comungou da raiva do velho – e acabou por propor-lhe um acordo de almas: ajudaria de bom grado à subsistência da neta, agora e depois da morte, um dia, do mágico. Assim este oferecesse os seus serviços ao reino de Grodjia.
O velho reflectiu por instantes. Após o que aceitou, dizendo:
- Notai que a empresa é difícil e requer paciência e cuidado, pois o inimigo é poderoso. As palavras preciosas serão, se tudo correr bem, recuperadas pouco a pouco. À medida que eu as souber, escrevê-las-ei numa casca de carvalho e enviá-las-ei por minha neta. Ela ficará aqui a viver durante o tempo necessário. Vós, por conveniência, devereis alojar-vos em estalagem próxima. E prometei-me que, em caso de morte minha, a tratareis como a mais preciosa das criaturas.
- Descansa. Assim será, sob mi, mi, minha palavra de, de, de honra – garantiu o príncipe. E acrescentou: - Mas tu não hás-de mo, mo, morrer.
- Não estou certo disso. Como já percebeste, para obrigar Priapyo a gastar as palavras que roubou, vou seduzi-lo. Em vez do meu corpo de homem velho, o vil verá a donzela mais formosa que algum dia pudera conhecer. Certamente usará algumas das palavras preciosas de modo a tentar conquistar-me. O problema está em que, com as palavras, o feitiço pode voltar-se contra o feiticeiro.
- Co, co, como?
- Posso não resistir aos encantos das palavras e deixar-me possuir pelo homem que as diz. Nesse caso, por razões do feitiço e da vergonha, morrerei imediatamente.
[Continua.]

Coimbra, já 22 de Março de 2010.
Joaquim Jorge Carvalho
[Trata-se do 4.º excerto do 5.º texto de “A Depressão das Laranjas” (Ribeira de Pena, Ed. Casa de Santa Marinha, 1999). A pintura-supra, “The Alchimist”, é do inglês Joseph Wright (1734-1797) e foi colhida na Wikipédia.]

domingo, 21 de março de 2010

A DEPRESSÃO DAS LARANJAS (5 - Parte IV)


As Palavras (Parte IV)

O velho mágico foi fácil de encontrar, não obstante os rigores da viagem e o eterno mau humor do príncipe. Vivia num casinhoto muito humilde, no interior do reino de Tofzo. À porta daquela morada (indicada, em murmúrio, por uma mendiga velha e corcunda), havia uma rapariga de corpo bem feito, tranquilamente estendendo roupa ao sol, quase de costas para quem chegava.
- Boa tarde – disse Delfim.
A moça não respondeu.
- Bo, boa tarde – tornou o príncipe, já impaciente, quase gritando.
A moça não respondeu.
Determinado, um dos guardas caminhou para a jovem e fê-la voltar-se, com rispidez militar. A rapariga pareceu assustar-se bastante.
- Costumas igno, igno, ignorar quem te, te, te cumprimenta? – perguntou Delfim.
A moça, muito linda e formosa, quase sorriu, mas voltou a não responder.
- Largai a menina, canalhas! – gritou um velho de longas barbas brancas, que se arrastara das traseiras da casa, apoiando-se num bastão escuro. Tinha, como a moça, os olhos claros, vivos, saltitantes: aves brincando com as estrelas. Trovejou ainda:
- A pobrezinha é surda-muda.
O príncipe desceu do cavalo e, com um único gesto, suspendeu a agressividade remanescente da guarda-real. Fez uma generosa vénia ao velho e perguntou-lhe:
-És tu o fa, fa, famoso Hodju?
O velho fitou o nobre perguntador durante cinco segundos. E respondeu baixinho:
- Depende de quem pergunta.

[Continua.]


Coimbra, já 21 de Março de 2010.
Joaquim Jorge Carvalho
[Trata-se do 4.º excerto do 5.º texto de “A Depressão das Laranjas” (Ribeira de Pena, Ed. Casa de Santa Marinha, 1999). A imagem-supra, beleza pura em versão Nastasia Kinski, foi colhida em “Tess” (1979), filme de Roman Polansky baseado na obra homónima de Thomas Hardy.]]

sábado, 20 de março de 2010

A DEPRESSÃO DAS LARANJAS (5 - Parte III)


As Palavras (Parte III)

No dia seguinte, uma delegação do reino de Gordjia dirigiu-se a Myra, exigindo rápidas medidas para castigar o bando de Priapyo. A resposta veio rápida e lamentosa: os homens de Priapyo eram quase tão numerosos como os das tropas reais, e talvez mais armados que estes. Dois quintos do território de Myra pertenciam ao vilão e, embora pesaroso, o rei vizinho não tinha meios para satisfazer o pedido grodjiano.
Reuniu o conselho de ministros a pedido expresso do jovem Delfim, que voltara a muito gaguejar. Discutiu-se a verba necessária para uma guerra longa e dura. Dessa vez, o ministro das ciências e humanidades eximiu-se a propor fosse o que fosse; tão-pouco os colegas se atreveram a tal; o próprio rei, tão amigo do filho, ressentia a necessidade de um gasto colossal: muito fizera já o reino em matéria de despesas – gado, terras, mulheres, ouro, até um jovem secretário do ministério domar.
- Meu filho, senhores ministros, só vejo uma solução possível para o nosso problema. Em vez da força e do aparato, optemos pela astúcia, o talento, a imaginação.
Levantou-se na sala, sem ruído, uma enorme aragem interrogativa. O rei explicou:
- Há, na província distante de Tofzo, um velho mágico, que outrora serviu o meu falecido pai. Chama-se Hodju e há-de ter, se for vivo, noventa anos ou mais. Amanhã, Delfim e dez soldados partirão para Tofzo e aí procurarão o homem. Deverão persuadi-lo a que nos ajude; as suas inigualáveis artes farão por certo o resto.


Coimbra, já 20 de Março de 2010.
Joaquim Jorge Carvalho
[Trata-se do 3.º excerto do 5.º texto de “A Depressão das Laranjas” (Ribeira de Pena, Ed. Casa de Santa Marinha, 1999). O desenho-supra é de uma querida colega e amiga, a Rosário Coelho.]

quinta-feira, 18 de março de 2010

A DEPRESSÃO DAS LARANJAS (5 - Parte II)


5. As Palavras (Parte II)
Nem dois dias depois, começaram a chegar magos, doutores, génios, cientistas, eremitas, cavaleiros – e com eles as palavras e as frases mais belas que na Terra pudesse haver. Difícil foi convencer um dos eremitas a escolher entre os prémios oferecidos: queria por força um rapaz, em vez de uma rapariga, porque assim (explicava) era a natureza das suas preferências. O ministro do tesouro, depois de (em vão) o ameaçar com a prisão ou a forca, ofereceu-lhe mais dinheiro; contudo, no entretanto da questão, o eremita fez amizade com o juvenil secretário do ministro do mar e partiu, pela calada da noite, com seu amigo novo, desprezando as moedas do cofre real.
As palavras eram guardadas a sete chaves, à medida que se adquiriam. Junto ao baú onde se recebiam e registavam, em finas folhas de carvalho gravado, estavam sempre cinco guardas reais, em feroz vigilância. Quando se atingiu a décima segunda frase (sendo “frase” a unidade de medida que se utilizava para valoração das palavras), o processo de aquisição deu-se por cumprido. Delfim andava então numa azáfama, por entre alfaiates ou diplomacias com o reino de Vaclaw: aproximava-se a data de encontro com Lada e o príncipe, embora excitado, de tão optimista quase não gaguejava.
Aconteceu, no entanto, que um bando de malfeitores do reino de Myra, sabendo da existência de um tal tesouro (famoso até no longínquo reino de Espanha, ao que se dizia), atacou a capital de Grodjia na madrugada que se seguiu ao encerramento do concurso público. Através do suborno de alguns funcionários do palácio, e bem assim de alguns assassínios mais ou menos rápidos, os homens do pérfido e poderoso Priapyo entraram na ala leste do vetusto edifício.
Levavam um objectivo preciso, pelo que outra coisa não roubaram senão o baú onde as palavras preciosas estavam. O roubo demorou, segundo o único dos cinco guardas reais sobrevivente aos punhais invasores, dois minutos. Nessa mesma altura, Delfim sonhava com Lada.

[Continua]


Ribeira de Pena, já 18 de Março de 2010.
Joaquim Jorge Carvalho
[Trata-se do 2.º excerto do 5.º texto de “A Depressão das Laranjas” (Ribeira de Pena, Ed. Casa de Santa Marinha, 1999). A imagem-supra foi colhida em “Gladiador” (2000), filme de Ridley Scott com Russel Crowe no papel principal.]

A DEPRESSÃO DAS LARANJAS (5 - Parte I)


As Palavras (Parte 1)


Era uma vez um príncipe solteiro, no reino distante e célebre de Grodjia, a norte de Varsóvia (província de Admavok). O pormenor do celibato é importante para esta história, como adiante se há-de comprovar.
Delfim, o príncipe, amava em segredo, nunca antes confessado, Lada, uma excelente princesa do reino vizinho de Vaclaw. O consórcio, a existir, seria ideal para o realíssimo jovem: havia razões essenciais do coração & também outras, não despiciendas, do foro político-militar.
O problema estava em que, apesar de seu carácter recto e sua índole generosa, o príncipe se achava demasiado feio para sonhar tão alto. A bela Lada era um céu supremamente doce, um sol perfeito, um absoluto mar de luz: olhos, nariz, cabelo, boca, seios, voz, dedos – representavam, em sua harmonia grega, uma acabada obra dos deuses. E Delfim, esse, era menos alto que a maioria dos seus vassalos nobres, religiosos ou plebeus; o nariz, embora não exagerado, tinha um não sei quê de agressivo em seu pontiagudo prolongamento; uma borbulha irremovível jazia, cravada como um cogumelo, pouco acima do sobrolho direito; para cúmulo, quando muito nervoso, gaguejava.
Naquele dia em que a história começa, supra-sinalizado como “Era uma vez”, o príncipe teve um sonho muito triste e acordou com a sensação de, por instantes, haver vislumbrado todo o deserto que o seu futuro provável reservava. Deserto, pois, se há-de chamar à falta que Lada já antecipadamente lhe fazia.
- Pai – disse -, gostava de me, me, me casar com, com, com Lada, a princesa de, de, de Vaclaw.
O velho rei de Grodjia sorriu e considerou, após majestosa pausa:
- Excelente ideia, meu filho. Por que esperas para a pedir em casamento?
Delfim gaguejou, em silêncio, por três minutos de tempo. Após o que decidiu dizer:
- Fal, fal, faltam-me as palavras para me de, de, declarar, meu pai.
O assunto foi, nesse mesmo dia, levado a conselho de ministros. O duque Fernando, responsável pelas ciências e humanidades do reino, sugeriu (ao fim de longa discussão):
- Que se faça, com autorização do Altíssimo Rei, anúncio público de aquisição de palavras preciosas, essas de que nos trazem notícias os magos, os anacoretas e os trovadores, as capazes (segundo dizem) de convencer a mulher mais rara e a mais caprichosa.
- E como pagar essas palavras, decerto caríssimas? – quis saber, desconfiado, o ministro do tesouro, e o rei franziu o real sobrolho.
- Com gado e com terra, pois terra e gado existem, com abundância, em nosso reino – disse o ministro das terras e dos animais, e o rei sorriu.
- Com o ouro que há de sobra no cofre real – disse o ministro do mar, e o rei sorriu de novo.
- Com mulheres – disse o ministro dos caminhos e dos transportes, e o rei deu uma gargalhada feliz.
Assim se fez. Por todo o reino de Grodjia, pelos reinos vizinhos de Vaclaw, de Baltyar e de Myra, arautos anunciaram aquele concurso público para aquisição de palavras preciosas, sublinhando as apetecíveis recompensas oferecidas.

[Continua]


Ribeira de Pena, já 18 de Março de 2010.
Joaquim Jorge Carvalho
[Trata-se do 1.º excerto do 5.º texto de “A Depressão das Laranjas” (Ribeira de Pena, Ed. Casa de Santa Marinha, 1999). A imagem-supra, beleza pura em versão Nastasia Kinski, foi colhida em “Tess” (1979), filme de Roman Polansky baseado na obra homónima de Thomas Hardy.]

segunda-feira, 15 de março de 2010

A DEPRESSÃO DAS LARANJAS (29)


A Biografia da Laranja

A laranja é o fruto da laranjeira, essa preciosa árvore da família das rutáceas, corpo vegetal de tronco e folhas muito resistentes. É um fruto rico em vitaminas, nomeadamente a C. Come-se na sua fase dourada, quando a pele se aproxima da tonalidade que o próprio nome diz: cor de laranja, pois.
Há-as amargas e doces. O travo é sobretudo uma questão de tempo e de solo: quanto mais pacientes e generosos estes, mais doce aquele.
A laranja precisa essencialmente de sol para aceder ao estatuto de esfera farta de glucose e sumo.
Vou dizer-vos mais, irmãos: se lançásseis uma laranja ao mar, veríeis como, durante um instante, toda a memória do mundo navegaria diante dos vossos olhos. A laranja acabaria sempre por morrer, picada por aves e peixes, cozida pelo frio, o sal e o calor mareantes. Mas nunca se apagaria do vosso olhar essa luz, mais bela de todas, caminhadora à procura de marés e de cais provavelmente impossíveis.
No fim do meu livro sobre Margo, o que vejo é uma praia (talvez Porto Santo) à espera do desenlace (narrativo ou lírico) desta escrita: uma gaivota frágil, improvável, equilibra-se sobre uma laranja e nela dificultosamente repousa.
Eu digo-lhe: Vamos.

E não há Fim.


Ribeira de Pena, já 15 de Março de 2010.
Joaquim Jorge Carvalho
[Trata-se do 29.º - e último - texto do volume “A Depressão das Laranjas” (Ribeira de Pena, Ed. Casa de Santa Marinha, 1999). A imagem-supra é a da capa do volume “A Depressão das Laranjas”.]

Nota: A pedido de uma multidão de leitores (quatro, salvo erro), publicarei neste blogue, nos próximos dias, o 5.º texto de “A Depressão das Laranjas” (“As Palavras”). Por se tratar de um texto algo extenso, optarei por dividi-lo em três ou quatro partes.

domingo, 14 de março de 2010

A DEPRESSÃO DAS LARANJAS (28)


28. A Nudez

Louis Dietz exigiu à mulher que, em determinado número do palco dois, protagonizasse uma nudez total, ao som de Mozart. Margo não gostava da música escolhida (“Ein Klein Nachtmusik” – Allegro) e, alegando esse motivo, recusou.
O episódio causou uma crise conjugal grave, com mútuas disposições de separação misturadas com ameaças (pouco veladas) de apropriação exclusiva de Mimette, a filha. Roubou-nos também, a ambos, a doce possibilidade da rotina amadora (mãos dadas, conversa, livros, bilhetinhos impacientes). Por fim, Margo acedeu à vontade do esposo, e este (para agradar à fêmea) optou afinal por um trecho de Verdi (retirado de “Aida”).
Foi essa a primeira vez que Margo me disse, no intervalo suado do amor:
- Estou farta de estar nua!
Percebi que não se referia à pele ali vista, ao corpo exposto (em público e em privado). Queixava-se, pobre polaca das estrelas, da frágil natureza que era, da sua insegura condição de ave, da dependência perante o dinheiro, as conveniências civis e sociais, o estatuto de imigrante e de mamã. Dizia-me:
- É só contigo que regresso à simplicidade da minha vida antiga. À Polónia.
E chamava-me, dedilhando-me cútis, tarde, quietude, dentes:
- Minha laranja portuguesa…
Eu nem sei se a merecia. Amava-a tanto, tanto que lhe exigia os mais íntimos sacrifícios, torturando-a por uma palavra a mais ou a menos, um gesto precipitado ou esquecido. Dei até em querer ser dono dos seus silêncios, reclamando a explicação de um olhar vago, uma nuvem triste, um suspiro.
Explicava-lhe, impaciente:
- Quero-te, percebes, inteira, transparente. Não me escondas nada.
E ela aceitava, quase de imediato, urgente a curar-me estes pueris amuos. Pergunto-me se não era esta minha lamentável obsessão outra forma de a despir, contra a sua vontade; de lhe roubar o direito (inalienável) a um certo mistério mínimo que deve pertencer a todos os eus.

Quando Louis Dietz descobriu as minhas cartas, não fui visitado por gorilas da segurança; não fui agredido; não fui objecto de denúncia aos serviços de imigração; não fui sequer impedido de entrar (como habitualmente) no edifício do “Crazy Horse”. Soube, por coristas e barmen, que o empresário e a mulher haviam partido, em viagem prolongada, para Munique; e daí para Viena; e daí para Bruxelas; e daí para Madrid…

Foi assim que Margo deixou a minha vida: subitamente. Como uma luz devinda ardida e morta.
Resisti em Paris por ano e meio e vi, nesse entretanto, a minha vizinha (talvez Thérèse) amancebar-se com um professor de latim, com um vendedor de perfumes e com o carteiro. Enfim, envelhecido pela desesperança, regressei a Portugal e tornei-me co-proprietário de uma livraria lisboeta.
Um dia, li no “France Soir” a notícia da morte de Margo. Mas, olhando a porta da livraria, ao fundo, acreditei que viesses, meu amor, de repente (com flores, um texto bonito sobre saudades, um livro).

O que é o fim?



Ribeira de Pena, já 14 de Março de 2010.
Joaquim Jorge Carvalho
[Trata-se do 28.º – e penúltimo – texto do volume “A Depressão das Laranjas” (Ribeira de Pena, Ed. Casa de Santa Marinha, 1999). A pintura-supra, “Prima Ballerina”, data de 1878 e é de Edgar Degas (1834-1917). Foi colhida na Wikipédia.]

sábado, 13 de março de 2010

A DEPRESSÃO DAS LARANJAS (27)


27. O Piano

Sentas-te à minha beira e tocas-me –
Exactos os dedos percorrem-me, certo
O peso e o jeito da carícia, sábia
A harmonia dos gestos sequentes.

Está o Mundo suspenso no durante
Da canção colhida no silêncio de mim;
E lê-se no teu olhar a pauta nova, a chuva
Sobre as laranjas à espera de ser.

Quando parares, fechar-me-ás, ternamente.
Interromperás os aplausos com um sorriso
Triste.
E interrogarás, já só, o meu silêncio regressado:
Porquê?

Responder-te-ei: Sou como vês –
É preciso que te sentes ao pé de mim,
Me toques com o peso, o jeito, o tempo
Certos.
É necessário que aqui estejas e me acordes

Para haver música.



Coimbra, já 13 de Março de 2010.
Joaquim Jorge Carvalho
[Trata-se do 27.º - e antepenúltimo- texto do volume “A Depressão das Laranjas” (Ribeira de Pena, Ed. Casa de Santa Marinha, 1999). A pintura-supra, “Ao Piano”, é de Pierre-Auguste Renoir (1841-1919) e foi colhida na Wikipédia.]

sexta-feira, 12 de março de 2010

A DEPRESSÃO DAS LARANJAS (26)


26. O Cansaço

Na dimensão cristalina dos afectos, o maior perigo é o cansaço. As pessoas, sei-o bem, precisam de rotinas, de funcionais ancoradouros do tempo e das mãos, mas igualmente naufragam nessas areias, por distracção e preguiça na maioria das vezes.
Margo, em certa quarta-feira, não apareceu no Café combinado. Ponderei trezentas razões para tal: doença, imprevisto doméstico, carta familiar, incêndio, inundação, esquecimento...
Mas o motivo fora outro: não lhe apetecera.
Era o quarto mês do nosso amor. Sofri a revelação como se de uma punhalada traiçoeira se tratasse. Margo interrogava-me, receosa:
- Era melhor esconder-te a verdade?
Disser-lhe que não. Mas duvidava da minha própria resposta.
Numa outra ocasião, eu telefonei-lhe para casa e pedi-lhe que viesse mais cedo ao meu encontro: chegavam primos de Lisboa e eu devia esperá-los ao entardecer. Margo achou que era uma violência ter de preparar-se à pressa e sugeriu-me, leve, que simplesmente nos não víssemos nesse dia. Nocturno, acedi.
Acontecia-lhe muitas vezes atrasar-se. À quinta ou sexta oportunidade, optou por substituir as justificações por um beijo doce e uma carícia no meu cabelo. Eu amava-a tanto que me esquecia, então, de reclamar.
Certa sexta-feira, tendo o marido viajado para Londres em viagem de negócios (o “Crazy Horse” parisiense internacionalizava-se), tive uma inspiração: partir com Margo para Portugal e aproveitar essa semana e meia de liberdade para o nosso amor. Planeei tudo com minúcia e imaginação. Margo iria oficialmente à Polónia (o que Louis não poderia deixar de entender); a pequena Mimette ficaria em Bezon, a onze quilómetros de Paris, com a avó paterna; o transporte correria por minha conta.
Era apenas necessário aproveitar e partir, nessa mesma sexta-feira, porque o barco fazia a viagem apenas de quatro em quatro dias.
Margo objectou: era ela, na altura, a responsável por uma coreografia nova do palco número um. Nesse dia, ensaiava-se o seu “tema” pela primeira vez.
Eu disse: Mas. E repeti: Mas. E ela pedia-me, Deus meu, que compreendesse...
Pelo que chegou a mim próprio o horrível espectro do cansaço. É essa a experiência mais próxima da morte, pelo menos como eu a vejo.
Diabólica, a memória trouxe-me (em revoadas ressentidas) episódios anteriores, cicatrizes, imperfeições do nosso amor. Paris, velho e doente, parecia abanar-se de tosse antiga e pneumónica, cheio de uma expectoração resignada que apagava canções, jardins, luares, flores.
Durante quase um mês, não nos vimos. Eu embrenhei-me nos livros, nas cartas para Portugal, nas conversas de tertúlia literária e etílica – e passei a dar mais atenção a uma jovem vizinha do andar em frente, cujos azuis olhos se me ofereciam, óbvios, à hora do café da manhã. Talvez esta francesa se chamasse Thérèse.
Fiz, entretanto, reserva de bilhete para Lisboa. Devia partir numa ou duas semanas.
Depois: seriam nove da noite quando a campainha da porta soou. Eu acabara de sair do banho, no devir de uma corrida à volta do boulevard que escandalizava a vizinhança. Em roupão, dirigi-me à porta.
- Margo!
O meu amor deu-me flores, um texto bonito sobre as saudades e um livro. Louis Dietz regressaria a casa dentro, disse-me, de duas horas e ambos deveriam ir, então, buscar a filha (Mimette) a casa da avó Dietz.
Durante o amor feito, refeito, transfeito, prometemo-nos, pela milésima vez, não perder tempo com os irrelevantes pormenores do mundo.
Mas tínhamos (ela e eu) cada vez maior pavor do fim.



Ribeira de Pena, já 12 de Março de 2010.
Joaquim Jorge Carvalho
[Trata-se do 26.º texto do volume “A Depressão das Laranjas” (Ribeira de Pena, Ed. Casa de Santa Marinha, 1999). A imagem-supra é o cartaz do filme “O Amante de Lady Chatterley” (2006), de Pascale Ferran, com base na obra homónima de D. H. Lawrence.]

quinta-feira, 11 de março de 2010

A DEPRESSÃO DAS LARANJAS (25)


A Chuva

O gesto essencial da chuva é cumprir-se: chove, é.
Sem este gesto, árida seria a terra e impossível a vida.
Conheço um advérbio de tempo para emigrantes desencontrados à procura de si próprios; é “quando”.
Quando, Senhor, a chuva que são?


Coimbra, já 11 de Março de 2010.
Joaquim Jorge Carvalho
[Trata-se do 25.º texto do volume “A Depressão das Laranjas” (Ribeira de Pena, Ed. Casa de Santa Marinha, 1999). A imagem-supra recorda o filme “Casablanca” (1942), realizado por Michael Curtiz e interpretado por Humphrey Bogart e Ingrid Bergman. Os leitores atentos lembrar-se-ão que utilizei já, para acompanhar o texto “O Assalto” - n.º 4 de “A Depressão das Laranjas” - uma fotografia deste mítico filme.]

quarta-feira, 10 de março de 2010

A DEPRESSÃO DAS LARANJAS (24)


Fátima

Vi em Fátima, uma vez, um imenso grupo de fiéis católicos oferecendo velas à Virgem Maria. Eram (recordo) velas de todos os tamanhos, brancas sobretudo, que lentamente ardiam na pira ali colocada para o efeito.
Em relação ao meu olhar, os crentes (mulheres, na sua maioria) estavam de costas. Mantive-me por lá durante minutos, comungando do silêncio grave das pessoas e da estearina. Sentia-se o frio natural da época (acho que era Outubro).
Ao fim de algum tempo, pude enfim ver diversos rostos, gente que deixava o local: havia lágrimas em quase todos – lágrimas quase a ser; lágrimas sendo; lágrimas que tinham sido. Adivinhamos facilmente a panóplia de motivos, não é? Doenças, sonhos, amigos, emprego, amores.
E dei por mim a chorar também. Porquê?
A verdade é que me é muito difícil situar o episódio no tempo cronológico. O mês, já o disse entre parênteses, seria Outubro. Mas o ano?
Eu queria sobretudo, acerca desta lembrança, saber se isto sucedeu antes ou depois de Margo Boniek na minha vida. O pormenor não é despiciendo: é-me necessário para perceber se as minhas próprias lágrimas eram de tristeza por não te haver ainda encontrado; ou se, tendo-te, me doía já a mortal antecipação da perda de nós.


Coimbra, já 10 de Março de 2010.
Joaquim Jorge Carvalho
[Trata-se do 24.º texto do volume “A Depressão das Laranjas” (Ribeira de Pena, Ed. Casa de Santa Marinha, 1999). A imagem-supra, colhida em Wikipedia, é a do cartaz do filme “A Insustentável Leveza do Ser” (1988), de Philip Kaufman, com base no romance homónimo de Milan Kundera. Os actores principais são Daniel Day-Lewis, Lena Olin e – sobretudo! – Juliette Binoche.]

terça-feira, 9 de março de 2010

A DEPRESSÃO DAS LARANJAS (23)


O Lugar



Eu nunca fui à Polónia.
Tirando esse pormenor lamentável, a Polónia é o local mais belo onde já estive.




Coimbra, já 08 de Março de 2010.
Joaquim Jorge Carvalho
[Trata-se do 23.º texto do volume “A Depressão das Laranjas” (Ribeira de Pena, Ed. Casa de Santa Marinha, 1999). A foto-supra é da cidade de Lodz (Polónia) e foi colhida – com a devida vénia – em http://www.tripadvisor.com.br.]

segunda-feira, 8 de março de 2010

A DEPRESSÃO DAS LARANJAS (22)


O Milagre

Margo Boniek (a mais perfeita bailarina do “Crazy Horse”) era, graças à prodigiosa atenção e aos seus finos sentidos, capaz de acumular, na memória, infinitas variedades de paisagens, luzes, cheiros, cores e ares da Polónia natal. Fazia-o igualmente com Paris, seu ninho adoptivo e pátria natural da filha.
Eu, com menos brilho e maior esforço, transportava em mim as laranjas portuguesas (textura, volume, odor, sumo, tonalidade), e também as praias, o fado doce-triste de Coimbra, a noite e o amanhecer transmontanos.
“Isto” para quê?
Para que, de cada vez que subíamos ao meu quarto, ou a um qualquer do hotel combinado (Matur-Paris), fizéssemos do lugar a aérea, alada, volucre casa de Nós.
Assim renasciam sempre, felizes, os nossos corpos, as nossas vozes, as nossas almas, a nossa estrada una – e invariavelmente se dava esse milagre singelíssimo: por horas, apesar da fome ou do cansaço sobrevenientes, todo o compartimento cheirava a (por exemplo) tremoços portugueses e a carne fumada de Lodz.

Coimbra, já 08 de Março de 2010.
Joaquim Jorge Carvalho
[Trata-se do 22.º texto do volume “A Depressão das Laranjas” (Ribeira de Pena, Ed. Casa de Santa Marinha, 1999). A imagem-supra é um pormenor do cartaz do filme "Oito e Meio", de Fellini, estreado em 1963. O filme contava no elenco com (entre outros) Marcello Mastroianni, Claudia Cardinale, Anouk Aimé e Sandra Milo.]

domingo, 7 de março de 2010

A DEPRESSÃO DAS LARANJAS (21)


A Génese

O nosso planeta foi, diz-se, uma grande invenção do, diz-se, Grande Arquitecto. Era preciso um espaço por onde os amadores se dessem as mãos, e onde os amadores brilhassem (belo, felizes) com frutos, flores, animais, relva e muito mundo à roda.
Só a seguir veio a criação seguinte d’Ele: a, diz-se, unidade perfeita, que era tudo quanto supra se diz mais o Tempo em versão inteira.
Depois, algo mudou, diz-se, na Terra. A última parte do “Génesis” é já da responsabilidade de um mui poderoso medíocre. Esse mesmo, o Diabo.

Coimbra, já 07 de Março de 2010.
Joaquim Jorge Carvalho
[Trata-se do 21.º texto do volume “A Depressão das Laranjas” (Ribeira de Pena, Ed. Casa de Santa Marinha, 1999). A pintura-supra, “Criação de Adão”, é de Michelangelo
(1465-1574) e é uma das que se encontram no célebre tecto da Capela Sistina.]

sexta-feira, 5 de março de 2010

A DEPRESSÃO DAS LARANJAS (20)


A Carta (Minuta)

Local, data.

Meu amor,
Escrevo para te informar de que o pintassilgo polaco que me ofereceste está a morrer. Acho que é dessa célebre doença, fatal para os pássaros, chamada Tempo: feriu-se-lhe o canto, à força da repetição e do cansaço dos dias; e tornaram-se-lhe baças, devido ao olhar dos vizinhos, as penas que eram cores.
Nota: não desejo que me mandes um pintassilgo novo. Quero apenas que não demores e que venhas ainda a tempo de o ouvir trinar um fado de Coimbra que lhe ensinei há dias.
Despeço-me, por agora. (Doem-me as asas já – acreditas? - de escrever tanto.)
Um beijo.

Assinatura

Ribeira de Pena, já 06 de Março de 2010.
Joaquim Jorge Carvalho

A DEPRESSÃO DAS LARANJAS (19)


A Música

Eram talvez quatro horas da manhã quando a chuva interrompeu, por instantes, o exercício monótono de si.
Naquela parte da cidade regularmente adormecida, apenas um polícia (em serviço) e um grilo (de folga) notaram a mudança. O polícia saiu do refúgio onde jazia há muito tempo, olhou o relógio, suspirou – e percorreu a rua vigiada com vagar nocturno. O grilo observou, ainda hesitante, o céu – e deu, nem dois minutos depois, em cantar uma qualquer felicidade que a borrasca adiara.
Então, num prédio apalaçado da urbe, fronteiro à canção do grilo, uma luz se acendeu. Se o animal cantador olhasse para lá, veria uma formosa mulher loira, sob o leve linho de uma camisola mais de despir que de vesti-la. E também: que o cabelo da mulher era um torvelinho de anéis; e que os olhos eram talvez estrelas irreverentes que ali haviam decidido ser o céu; e que o corpo era fugidio e apetecível como um peixe virgem; e que a mulher chorava (chuvosamente chorava) no devir da chuva urbana.
Sumário: o grilo cantava sempre; o polícia marchava pelo lajedo e pelo tempo do turno; a mulher chorava. Era tudo a mesma melodia das quatro horas da manhã parisiense.
Até que Margo abriu a janela. Até que as estrelas que os olhos do meu amor eram, como os das aves, deram em brilhar pela rua inteira. Até que as mãos do meu amor tocaram, como gaivotas delicadas, a janela, o cimento exterior do prédio, a própria noite.
O polícia sorriu nesse momento e trauteou a música persistente do grilo.
O grilo acreditou na bonança do céu e continuou o seu ofício cantor.
A mulher inspirou, com força e ternura simultâneas, o oxigénio vindo do chão e reparou no polícia.
O polícia: magro, triste, olhos escuros, cheio dessa resignação infeliz que há nos habitantes repetidos da cidade. Mas (atenção) sorridente agora, e sensível à melodia grílica da noite sem chuva. Mal vigiando a rua.
O polícia reparou na mulher acordada, junto à janela do prédio apalaçado. A mulher parecia, no segundo em que o polícia encontrara o seu loiro olhar, falar com alguém dentro de casa. (Esse alguém, do lugar de onde se conta esta história, não se via, logo, não entra nela.)
Muito antes de o grilo cantador parar de cantar e de, enfim, adormecer, já a mulher e o polícia estavam, ambos, sem remédio, dentro da música. (Mais tarde, confessei-te que a farda era alugada e que, na tua rua, não havia guardas nocturnos.)
Veio, muito depois, a manhã – que era um dia novo.

Ribeira de Pena, já 05 de Março de 2010.
Joaquim Jorge Carvalho
[Trata-se do 19.º texto do volume “A Depressão das Laranjas” (Ribeira de Pena, Ed. Casa de Santa Marinha, 1999). A pintura-supra é de Picasso (“Mulher chorando com lenço”).]

quinta-feira, 4 de março de 2010

A DEPRESSÃO DAS LARANJAS (18)


A Prudência

Quis sempre que Margo fosse capaz de fugir às rédeas do empresário francês. Aliás: esposo. Aliás: pai da comum filha (Mimette).
Mas Margo preferia sempre sorrir, evitando retóricas incómodas sobre as consequências ou o preço da felicidade. Era, de cada vez que falávamos de nós, o insustentável peso do tempo a abater-se sobre a cidade, o Café, a mesa, a cerveja de ambos: um dia, amor (dizia ela).
Um dia?
Nunca, portanto, a nossa história ultrapassou o imperfeito do conjuntivo. Se pudéssemos…
Prudentes, pois; e ponderados, e cuidadosos, e certinhos, e correctos, e convenientes, e sensatos, e adequados, e reverentes, e meticulosos, e obedientes, e discretos, e rigorosos. Normais, enfim – apesar de o coração e os livros nos dizerem que é errado adiar o inadiável e estúpido evitar o inevitável.
A mim, naquele egoísmo juvenil dos amantes, parecia-me que a resignação era uma imensa, cruel, cínica antecipação da morte. Que o que não fizéramos (o que ficara por fazer) se devia chamar, no calendário essencial do amor, tempo perdido.
Hoje sei, Margo, que a navegação burguesa, à prova de tempestades e de prováveis naufrágios, também é digna de admiração. Mas já não tive tempo de to dizer.

Ribeira de Pena, já 04 de Março de 2010.
Joaquim Jorge Carvalho
[Trata-se do 18.º texto do volume “A Depressão das Laranjas” (Ribeira de Pena, Ed. Casa de Santa Marinha, 1999). O rosto-supra é o da imorredoira estrela de “Morangos Silvestres”, Ingrid Bergman.]