Bússola do Muito Mar

Endereço para achamento

jjorgecarvalho@hotmail.com

Número de Ondas

domingo, 30 de maio de 2010

Escuridão


A escuridão é uma estrada grande
Aflita, misteriosa e engarrafada.
Além disso
Não existe.


Ribeira de Pena, 30 de Maio de 2010.
Joaquim Jorge Carvalho
[Uma primeira versão deste texto foi escrita em 1996, integrando o volume de poesia Milésimo de Torga. Foto JJC.]

Alvão universal


Deste espaço ao alto do Alvão
Vejo tantas coisas e tão vivas
Rindo da ideia de nação
E de pátrias administrativas!
Sabei que esta beleza mundial
Esta poesia antes do verso
É evidência só do universo
E de Deus redondo, Deus geral.
A única coisa portuguesa
Que do Alvão lobrigo
Quando escrevo-digo
O que escrevo-digo
Sou eu e a língua portuguesa.
Mas
A culpa não é do Alvão
Desta paisagem
Do meu olhar vizinha,
Ou deste irregular chão
De viagem:
É minha
Apenas minha.

Ribeira de Pena, 30 de Maio de 2010.
Joaquim Jorge Carvalho
[Uma primeira versão deste texto foi escrita em 1996, integrando o volume de poesia Milésimo de Torga. A imagem-supra foi colhida - com a devida vénia - em http://cm-vilareal.pt.]

sábado, 29 de maio de 2010

Auto mínimo sobre a Verdade e a Morte


CRISTO: De modo que ressuscitei, para os homens acreditarem na vida eterna.
PLATÃO: E eles acreditaram?
ZÉ POVINHO: Eu cá não acreditei totalmente, digo-vos, mas pelo sim pelo não porto-me bem…
PLATÃO: Mas que queres dizer com isso?
CRISTO: Não percebes? Este homem de boa vontade sabe, em seu coração, que o caminho do bem leva à vida eterna…
PLATÃO: E vós, Jesus de Nazaré, acreditais nisso?
CRISTO: Pois se eu próprio sou a vida eterna, Platão…
PLATÃO: A única vida eterna é a soma de todas as vidas provisórias que aos homens é dado viver.
ZÉ POVINHO: Se a conversa mete contas, retiro-me já…
CRISTO: As verdadeiras contas é meu Pai quem as faz.
PLATÃO: Mas vós já tendes idade para fazer contas sozinho.
CRISTO: Amigo grego, lamento muito que não tenhas fé. Sem esse dom, jamais poderás acreditar seja no que for!
PLATÃO: Eu acredito em algumas coisas. Por exemplo, na necessidade da verdade…
CRISTO: E na necessidade do bem?
PLATÃO: O bem é necessário, sem dúvida. Mas o bem é o mesmo que a verdade.
ZÉ POVINHO: Eu cá gostava era de viver num mundo justo!
PLATÃO: Zé, escuta-me: a justiça, o bem e a verdade são a mesma coisa.
CRISTO: Pois eu sou essa Coisa completa que tu dizes. Sou a justiça, a verdade e o bem.
ZÉ POVINHO: E por isso estais no céu... Bem dizíeis vós que o vosso reino não era deste mundo!
PLATÃO: Pois o que o mundo precisava era que o reino dos céus não fosse nos céus.
CRISTO: Tens a certeza?
PLATÃO: Sou homem. Não tenho a certeza de nada. Mas sei que a justiça, o bem e a verdade valem a pena aqui e agora, no mundo dos homens…
ZÉ POVINHO: A mim tal me parece também, Jesus… Sem querer ofender, bem entendido…
CRISTO: Mas vós os dois, dizei-me, que sabeis afinal da justiça, do bem, da verdade?
PLATÃO: Eu sei delas o que se sabe quando nos falta o que nos faz falta.
ZÉ POVINHO: Platão, explique-se lá melhor, por favor, para eu ver se estou de acordo…
PLATÃO: É simples. Sabemos algo sobre a justiça quando sentimos a injustiça…
ZÉ POVINHO: Bem pensado. Percebemos que nos faz falta o contrário do que sofremos, não é? O meu avô dizia que o remédio começa na doença…
CRISTO: Escutai-me, ambos. A única verdade, neste mundo mortal, é a morte.
PLATÃO: É esse o maior problema da humanidade, tendes razão.
CRISTO: E tu, filósofo sem fé, como o resolves?
PLATÃO: Aceitando a morte, por ser verdade a morte.
CRISTO: Ah! Resolves um problema, aceitando-o?
PLATÃO: A verdade é a verdade. A verdade resolve. A verdade nunca é um problema.
ZÉ POVINHO: Ou, como dizia o meu avô, o que não tem remédio remediado está!
CRISTO: Chega! É a última vez que vos trago comigo em passeio sobre as águas do rio Jordão.

Vila Real, 29 de Maio de 2010.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem-supra (rio Jordão) foi colhida, com a devida vénia, em wikipedia.]

sexta-feira, 28 de maio de 2010

Nota mínima sobre o número máximo de deputados


Este frenesim da austeridade tem pelo menos um lado positivo: mostrar, sem diáfanos mantos de fantasia ou eufemismos, a nudez forte do desperdício de fundos públicos que em muitas repartições do Estado vem durando há anos. Ora, depois de casa roubada, trancas na porta. O país anda de calças na mão, à vista de toda a gente, equacionando drásticos cortes na despesa.
Voltou entretanto ao debate, neste contexto agreste da crise económico-financeira, a questão do número de deputados e (adivinha-se) do sistema eleitoral português. Corre na internet, aliás, uma petição a exigir a diminuição do total de parlamentares com assento na Assembleia da República. É uma ideia cheia de bondade, mas também ingénua e até perigosa.
Visto o problema de repente, estamos todos condenados a concordar: poupa-se dinheiro, reduzindo os indivíduos à mesa do orçamento republicano; aperta-se o crivo da qualidade dos deputados, expulsando medíocres que tanto faz que lá estejam como não; renova-se a dinâmica do trabalho parlamentar, fazendo-se o mesmo ou melhor com menos recursos. Mas esta é, perdoai, uma visão superficial do problema.
A redução do número de deputados implicaria, se feita à pressa e sem critério, uma redução sobretudo da qualidade da vida democrática. Objectivamente, redundaria – para já – na quase extinção dos grupos parlamentares dos partidos mais pequenos. Mas eu creio que forças como o CDS-PP, o PCP e o Bloco de Esquerda são importantes, não obstante a sua menor expressão eleitoral na actualidade.
É preciso pensar no que seria do debate político e do exercício da governação se à compita estivessem apenas o PS e o PSD, repetindo-se e perpetuando-se no poder em disfarçadas poses de alternância.
Talvez esse modelo trouxesse “estabilidade”, mas só se por estabilidade entendermos aquela calma que, segundo se crê, há nos cemitérios municipais.


Ribeira de Pena, 28 de Maio de 2010.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem-supra (a famosa Porca, de Rafael Bordalo Pinheiro) foi colhida - com a devida vénia – em http://raivaescondida.wordpress.com.]

quinta-feira, 27 de maio de 2010

Direito à moderada alienação


Leio no JN de hoje a história de um português de 38 anos que foi ver um treino da selecção portuguesa, tendo levado consigo, ao colo, um filho.
Num frenesim leonino, notável em época de leões tão magros, ele queria sobretudo ver o Liedson:
«Que é do Liedson? Onde está o Liedson?»
Enfim, tratou-se, de acordo com o enunciado jornalístico, de um dia muito feliz para aquele sportinguista beirão.
Ah, falta dizer que a vida deste homem não tem corrido especialmente bem. Está desempregado e tem uma família a seu cargo.
Agora, digo-vos: sou incapaz de levantar um só dedo contra a pontual alienação em que, como aquele concidadão entusiasmado, incorremos todos, uma vez por outra: futebol, alguma literatura, sono, religião, certa música, viagens em busca do sol, converseta de amigos sobre nenhum sonho em especial, televisão.
É que a realidade é insuficiente, senhores. De vez em quando, sabe bem voar para lá (ou para cá) da brutidade quotidiana. Como diria o meu amigo Daniel, antes isso que andar na droga.


Ribeira de Pena, 27 de Maio de 2010.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem-supra foi colhida – com a devida vénia – em http://desporto.sapo.pt.]

Lírica psico-hípica


Cavalo que ouço correr
Na noite de estar inquieto
É como alguém a morrer
Cansado de estar inquieto;

Cavalo da solidão
Dos sonhos do meu penar –
Cavalga na minha mão
Não deixes de cavalgar;

Cavalo das minhas veias
De ininterruptas corridas
Sonha os sonhos que me anseias
Sara a dor destas feridas;

Cavalo do meu pensar
Cavalo do meu penar
Cavalo do meu esperar –
Não deixes de cavalgar.



Ribeira de Pena, já 27 de Maio de 2010.
Joaquim Jorge Carvalho
[Uma versão deste poema foi originalmente escrita em 1996, integrando – então – o volume Milésimo de Torga. A imagem-supra (capa do single “Cavalos de Corrida”, dos UHF) foi colhida – com a devida vénia – em http://www.cultkitsch.org/musica/tugas.]

Breu de Bragadas


À noite, por Bragadas, se houver vento
O olhar é cego como Camilo sem morte.



Ribeira de Pena, já 27 de Maio de 2010.
Joaquim Jorge Carvalho
[Uma versão deste poema foi originalmente escrita em 1996, integrando – então – o volume Milésimo de Torga.]

terça-feira, 25 de maio de 2010

Possibilidades de Chuva


Viagem de automóvel, fim de tarde.
Diviso na paisagem, para lá das árvores e dos montes, um lindo céu de Maio com nuvens de muitas formas: há o mapa de Portugal, um velho de longas barbas, um girassol cinzento, um gato adormecido, uma chaminé virada para baixo, um coração assimétrico como o que eu talvez desenhasse.
Às cinco e meia, chove sobre a região de Basto.
Sinto bem no corpo, entre o carro e o Café, esta evidência física. E intimamente espero que a água vinda do céu sobre mim seja, entre tantas possibilidades, aquela assimetria de amor.


Ribeira de Pena, 25 de Maio de 2010.
Joaquim Jorge Carvalho

segunda-feira, 24 de maio de 2010

Ler Fotografias


Durante uma noite quase inteira, estive a ver fotografias de família. Era uma espécie de arca carregadinha de álbuns e de avulsos rectângulos a cores ou a preto e branco e, a princípio, andei por ali como quem só está de passagem. Mas, como acontece com certos frutos (denotativos ou simbólicos), acabei por me demorar, entregue à volúpia característica dos vícios.
Vi lugares que nunca mais me viram. Revi rostos que são já definitivamente outros (e isto inclui o meu). Vi vivos que mudaram de condição. Vi a minha mãe, num sítio onde nunca pude estar, sorrindo com esperança no futuro. Vi cães, saltitantes personagens da minha infância, que já morreram. Vi casas onde estive e onde a vida era tão novidade. Vi o meu pai vestindo-se à pressa, com ar maroto, junto a nós, muito longe de imaginar a sua ausência à nossa roda. Vi a minha filha tão antes de ser demasiado grande para trazer ao colo. Vi a minha namorada num degrau da casa madeirense onde talvez lesse as minhas cartas de seduzir.
Deitei-me quase de madrugada, aflito como quem perdeu subitamente o pé na profundidade do tempo. Custou-me a adormecer. A minha mulher perguntou-me se eu estivera a ler, e eu disse-lhe, sem mentir, que sim.
Gosto de fotografias, isso é certo. Parecem-me muitas vezes mais vivas que eu olhando-as. Tantas vezes, é como se reconhecesse a minha verdadeira vida naquela imobilidade de ontem.

Coimbra, 24 de Maio de 2010.
Joaquim Jorge Carvalho

Pergunta de algibeira (2)


Alguns senhores importantes acham que o Estado resolve o seu problema (aliás, nosso problema) reduzindo a despesa. Isto significa, em especial, cortar em salários (públicos e privados) e em serviços (sobretudo, públicos). O Estado explica as suas medidas mais ou menos nestes termos: não há dinheiro, não se paga. Ou: não há receita, não pode haver despesa.
Vista a coisa do lado de quem trabalha, a solução tem consequências: se já havia pouco dinheiro em seus bolsos humildes, agora passa a haver menos. E apetece perguntar: se tomarmos para nós o raciocínio – não há dinheiro, não há despesas -, podemos cancelar ou diminuir os pagamentos ao Banco, à empresa de leasing, à EDP, ao supermercado, etc.?
Dizem-me que não.
De modo que a diferença entre o Estado e nós está em que, se nós não pagarmos, vamos presos.

Coimbra, 23 de Maio de 2010.
Joaquim Jorge Carvalho

Pergunta de algibeira (1)


Se para o Estado português sobreviver for preciso que o Estado deixe de gastar dinheiro com a Saúde, a Segurança, a Justiça e a Educação, eu humildemente pergunto se vale a pena que o Estado sobreviva.


Coimbra, 23 de Maio de 2010.
Joaquim Jorge Carvalho

sábado, 22 de maio de 2010

O Outro


Roberto Bolaño, chileno, falecido em 2003, é o autor de um fenómeno de vendas intitulado 2666 (obra que é em verdade um conjunto – coerente – de cinco romances), que li no mês passado. Li 2666, digo-vos, como quem entra numa infinita floresta encantada e perigosa de mais de mil páginas. Um grande livro grande.
Na semana passada, graças ao meu cunhado Conceição (que tem vindo a comprar o que há em Portugal deste romancista), pude ler também O Terceiro Reich, editado pela Quetzal. Trata-se também de um romance espantoso, contado de forma vertiginosa, cheio de cor local e de abismos psicológicos. Mas o que, neste curso espaço blogueiro, queria dizer sobre o livro é um pormenor de toda a importância neste jogo intemporal de escrever e de ler. Dir-vo-lo-ei nos últimos três parágrafos.
Ao longo de 46 trechos (como páginas de um Diário, ou de um esboço de Diário), estamos perante certa história passada com o narrador e a namorada, em férias numa praia de Espanha. Aí encontram outros habitantes da intriga e da diegese, num contexto de convívio nem sempre seguro e aprazível, eivado de algum mistério e, finalmente, de adivinhada tragédia. O relato dos acontecimentos cruza-se com um estranho jogo de sociedade denominado “Terceiro Reich”, espécie de monopoly e batalha naval em versão mais sofisticada: o jogo funda-se na própria circunstância histórica e geográfico-temporal dos anos 40 do século XX, e permite a vitória ao jogador mais hábil (representante dos aliados ou do exército nazi).
O narrador (não o autor, note-se) da história é alemão e tem como adversário – feroz, determinado, obcecado com o triunfo – um enigmático indivíduo, vítima de Hitler e do nacional-socialismo. Algumas personagens, à roda do alemão, avisam dos perigos de jogar “aquele jogo” com adversário tão perigoso e talvez letal.
No final do romance, vemos como o narrador, na sequência da derrota, se resigna a uma espécie de inevitabilidade: morrer às mãos do oponente.
Mas não é isso que sucede: o castigo que o vencedor (pelos aliados) impõe ao alemão é tão-só trocar, por momentos, de lugar, de ângulo, de perspectiva. Para que do lado de cá (junto ao mar, no desconforto humilde da areia, do frio e do lento marulhar das embarcações), por algum tempo fique o narrador, ali misturado com a paisagem habitualmente vista da janela do seu hotel, no conforto do quarto.
Que melhor castigo para o derrotado daquele Reich de brincar?
A literatura consiste, em grande medida, nisto mesmo: obrigar-nos a ver um problema (um assunto, um universo, uma pessoa, um jogo) pelo outro lado.
O outro lado, aqui, quer dizer o lado do outro.


Coimbra, 22 de Maio de 2010.
Joaquim Jorge Carvalho

quinta-feira, 20 de maio de 2010

Feira Medieval e Quinhentista do Arco


Há três anos, o Agrupamento de Escolas do Arco levou a efeito uma “Feira Medieval”, que congregou esforços de alunos, professores e comunidade educativa em geral. Houve música, poesia, teatro de sabor vicentino, autos de fé, torneios de perícia guerreira, gastronomia de outros séculos, guarda-roupa e cenários adequados, música carregada de tempo e religiosidade, dança, frades, cavaleiros, damas e fidalgos, bobos, leprosos, escribas, vendedores, etc.
Retenho dessa mágica empresa certa impressão tão funda e bonita que quase temo anunciar-vos, aqui, a 2.ª edição de um evento assim. Será possível repetir, no presente, a maravilhosa atmosfera daquela festa?
A verdade é que a Feira Medieval (e, agora, também Quinhentista) volta ao Arco. Nos dias 11 e 12 de Junho, portanto, viaja-se livremente na História.
Os arcoenses (eu escrevo assim: “arcoenses” e não “arcuenses”, perdoai) devem estar muito satisfeitos. E eu, que sou “do Arco”, nos termos da minha circunstância humana e profissional, também estou.
Lá irei, de certeza, antecipadamente orgulhoso do brilho que alunos, professores e, enfim, comunidade educativa da minha Escola hão-de conseguir.
Até já.

Ribeira de Pena, 20 de Maio de 2010.
Joaquim Jorge Carvalho

Acordo, que remédio


Participei, no final da tarde de hoje (5.ª feira), no Auditório Municipal de Ribeira de Pena, numa sessão de esclarecimento sobre aspectos do Novo Acordo Ortográfico. A sessão foi promovida pelo Departamento de Línguas do Agrupamento de Escolas de Ribeira de Pena.
Viajámos, com algum humor e indisfarçada inquietação, pelas curvas, rectas, avenidas e armadilhas desta variegada (e dolorosa) novidade.
A verdade é que, aquém e além todas as azias, pouco mais resta aos educadores e professores, enquanto soldados ao serviço da legal potestade, que engolir os sapos atlânticos do acordo – e ensinar as nossas crianças e os nossos jovens (etc.) a escrever segundo novas regras.
De todo o modo, acho eu, a nossa Pátria há-de ser sempre a Língua Portuguesa. Aliás, a nossa Pátria HÁ DE ser sempre a Língua Portuguesa.
Assim é que está correcto. Aliás, CORRETO.
(Mas custa, oh, se custa!)

Ribeira de Pena, 20 de Maio de 2010.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem-supra representa o Padre António Vieira, sublime cultor da nossa Língua, como justamente sublinhou Pessoa, e foi colhida - com a devida vénia - em http://www.historiadoensino.blogspot.com.]

quarta-feira, 19 de maio de 2010

Bondade Silvestre


Gostava, Deus, que a minha história fosse um romance de Júlio Dinis, e que o mundo fosse feito de árvores de frutos, entardeceres tranquilos, madrugadas esperançosas e soalheiras, alguns amores, bondade silvestre.
Ali, um regato fresco.
Aqui, uma casa antiga de janelas limpas, rescendendo a alecrim ou a honesto refogado.
Em baixo, vista da varanda que a minha mãe nunca teve, uma velha tia alimentando as galinhas e os patos.
Este meu amor antiquíssimo pela narrativa dinisiana representa bem uma filosofia e uma certa vida correndo, algures entre Rousseau e Alberto Caeiro (ou Horácio), ambas nascidas muito na infância da Rua Dr. Manuel Almeida e Sousa, da Relvinha, da Pedrulha ou da Soalheira, nesse tempo estrangeiro em que não tinha ainda sido inaugurada a mortalidade.
Leio a Morgadinha como se o meu pai me levasse, pela mão, ao futebol, ou se a minha mãe fosse à tia Lurdes provar um vestido para o casamento do primo Armandito. A minha rua, então, volta a ser mais campo que cidade, e eu também.

Ribeira de Pena, 19 de Maio de 2010.
Joaquim Jorge Carvalho
[A foto-supra, tirada no jardim da casa n.º 90 da minha rua e datada, salvo erro, de 1970, inclui o irmão Zé-Tó, a irmã Fátima et moi-même.]