Bússola do Muito Mar

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Número de Ondas

segunda-feira, 8 de março de 2010

MAIS LONGE


Os meus olhos vão mais longe do que os meus pés.
O meu desejo vai mais longe do que os meus olhos.
A minha escrita vai mais longe do que o meu desejo.
Para lá da minha escrita,
Eurídice,
Tu só.



Ribeira de Pena, já 08 de Março de 2010.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem-supra, com a belíssima Geena Davis em 1.º plano, é do filme “Thelma & Louise” (1991), de Ridley Scott.]

FREI TOMÁS


São vários os exemplos hodiernos que recuperam a cínica lição de Frei Tomás: em Portugal, Silva Lopes, Mira Amaral, Dias Loureiro, Constâncio, etc. Lá fora, Trichet – que tão entusiasticamente verbera os gastos dos estados europeus e recomenda contenção salarial nos funcionários públicos – aumentou(-se) em cerca de 4,4%nos dois últimos anos. Em 2009, notai, os seus rendimentos ultrapassaram os 360 mil Euros.
É por isso que poucos cidadãos, hoje, acreditam nas autoridades políticas e financeiras que (n)os regem. A gestão da coisa pública já foi uma actividade nobre. Hoje, mais do que governar, quem está no poder governa-se. O verbo é aqui, sobretudo, sacar.
Era bem feito que houvesse outra vida depois desta, mais essencialmente justa. E que, como Gil Vicente faz com as venais almas no porto final, o Dramaturgo-Mor os castigasse bem. E, ainda, que não houvesse estatuto ou cunhas capazes de valer a esta gente!

Ribeira de Pena, já 08 de Março de 2010.
Joaquim Jorge Carvalho
[O recorte-supra foi colhido, com a devida vénia, na página 39 do DN, ed. de 06-03-2010).]

domingo, 7 de março de 2010

Mundo Virtual


A notícia vem nos diários de 6 de Março de 2010: um casal esqueceu-se, durante horas, talvez dias, do filho recém-nascido. Entretidos a brincar na internet, num sofisticado jogo que imitava a vida real, olvidaram o dever de alimentar a cria. A cria, ao fim de um período longo, desistiu de esperar e morreu.
A ironia maior de tudo quanto se diz está no facto de o jogo alienador ter a ver com um bebé virtual que era preciso alimentar. Os adultos (?) desse não se esqueceram. Do outro, do verdadeiro, é que sim.
Há uns anos, lembro-me de se discutir, nos autocarros e Cafés de Coimbra, a invenção do “Tamagochi”, e de haver quem seriamente defendesse a utilidade do divertimento. Era preciso, ali também, alimentar um ser virtual, e essa necessidade – sustentava-se – ajudava a incutir hábitos de responsabilidade nas criancinhas, bem como a combater a solidão dos solitários.
Afinal, é a isso que jogam os grandes ditadores: às realidades virtuais, onde seres perfeitos constroem e asseguram um Futuro perfeito. Os pormenores da realidade (sofrimento de indivíduos, diferenças de pensamento, queixas, advérbio não) atrapalham a utopia e, sempre que possível, são eliminados, a bem ou a mal.
O problema é que a humanidade é feita, em primeiro lugar, de realidade.
E é por isso que o mundo virtual é, em boa verdade, desumano.

Ribeira de Pena, já 07 de Março de 2010.
Joaquim Jorge Carvalho
[O recorte-supra foi colhido, com a devida vénia, no DN, edição de 06-03-2010.]

Défice de Rua


Não ando pela rua a catar versos.
Eu só sei que os versos me faltam
Quando
A rua chega ao fim e os meus passos
Não.


Ribeira de Pena, já 07 de Março de 2010.
Joaquim Jorge Carvalho
[A pintura-supra, colhida em www.artinthepicture (com a devida vénia), é “Place de la Concorde”, de Marc Chagall (1887-1985).]

A DEPRESSÃO DAS LARANJAS (21)


A Génese

O nosso planeta foi, diz-se, uma grande invenção do, diz-se, Grande Arquitecto. Era preciso um espaço por onde os amadores se dessem as mãos, e onde os amadores brilhassem (belo, felizes) com frutos, flores, animais, relva e muito mundo à roda.
Só a seguir veio a criação seguinte d’Ele: a, diz-se, unidade perfeita, que era tudo quanto supra se diz mais o Tempo em versão inteira.
Depois, algo mudou, diz-se, na Terra. A última parte do “Génesis” é já da responsabilidade de um mui poderoso medíocre. Esse mesmo, o Diabo.

Coimbra, já 07 de Março de 2010.
Joaquim Jorge Carvalho
[Trata-se do 21.º texto do volume “A Depressão das Laranjas” (Ribeira de Pena, Ed. Casa de Santa Marinha, 1999). A pintura-supra, “Criação de Adão”, é de Michelangelo
(1465-1574) e é uma das que se encontram no célebre tecto da Capela Sistina.]

sábado, 6 de março de 2010

Fora da Leya


Miguel Esteves Cardoso, na coluna que mantém no “Público” (“Ainda Ontem”), diz – a 4 de Março deste corrente 2010 – desejar “sinceramente que a Leya se foda”. Sic.
O vernáculo desabafo não surge do nada: é a foz lógica da sua revolta face à destruição, por aquele grupo livreiro, de milhares de (preciosas) obras literárias – de Jorge de Sena, de Eugénio de Andrade, de Eduardo Lourenço, de Vasco Graça Moura…
Os empresários, entretanto, já explicaram que se tratava de uma questão estritamente económico-financeira. “Business”, portanto, “as usual”. A lógica – chamemos-lhe assim – parece-me a mesma que, há uns anos, levou a União Europeia a decretar a destruição, pelo fogo, de toneladas de laranjas espanholas, de modo a evitar um excesso de oferta e os prejuízos económicos devenientes. À época, o Papa lembrou a fome em África e condenou este capitalismo selvagem que respeitáveis políticos, comerciantes, industriais e financeiros professam (sem vergonha nem remorso à vista).
Por mim, estou com Esteves Cardoso como estive, há anos, com o Papa: “Não podemos dar dinheiro a quem só pensa em dinheiro.”

Ribeira de Pena, 06 de Março de 2010.
Joaquim Jorge Carvalho
[O recorte-supra foi colhido, com a devida vénia, na edição do “Público” de 04-03-2010.]

sexta-feira, 5 de março de 2010

A DEPRESSÃO DAS LARANJAS (20)


A Carta (Minuta)

Local, data.

Meu amor,
Escrevo para te informar de que o pintassilgo polaco que me ofereceste está a morrer. Acho que é dessa célebre doença, fatal para os pássaros, chamada Tempo: feriu-se-lhe o canto, à força da repetição e do cansaço dos dias; e tornaram-se-lhe baças, devido ao olhar dos vizinhos, as penas que eram cores.
Nota: não desejo que me mandes um pintassilgo novo. Quero apenas que não demores e que venhas ainda a tempo de o ouvir trinar um fado de Coimbra que lhe ensinei há dias.
Despeço-me, por agora. (Doem-me as asas já – acreditas? - de escrever tanto.)
Um beijo.

Assinatura

Ribeira de Pena, já 06 de Março de 2010.
Joaquim Jorge Carvalho

O País de Deco


O futebolista Deco confessou a sua vontade de, logo que possível, regressar “ao seu país”. A notícia do “C.M.” (de 03-03-2010) explicava, aos que houvessem esquecido certo facto, que o país de Deco é o Brasil.
Que tem isto de relevante? Decerto pouco. Apenas me apeteceu recordar a circunstância de Deco ser internacional pela selecção portuguesa e de, em princípio, estar, em Junho próximo, a defender as lusas cores no Campeonato do Mundo da África do Sul.
Sou muito avesso a patrioteirismos, garanto. O que me incomoda na, já significativa, quantidade de naturalizados na selecção portuguesa tem menos a ver com Portugal do que com dois outros países que (também) amo e respeito: o país do Futebol e o país do Bom Senso. É a esses que ofende a vigarice de fingir que somos bons no jogo da bola à custa de brasileiros disfarçados de portugueses.
Imaginai o que seria se o Luxemburgo, esse parente pobre do futebol mundial, naturalizasse quem bem lhe apetecesse para, assim, se tornar numa potência…
Eu sei que o fenómeno não é só português. Mas vejo-o e avalio-o à luz da minha condição (aqui, agora). Dói-me se se trata da selecção de Portugal; faz-me pena e provoca-me o riso se se trata de outras.
Há já muito que defendo um critério razoável: que sejam seleccionáveis apenas os naturalizados cuja formação futebolística (entre os 14 e os 18 anos) haja sido feita no nosso país. Seriam, desse modo, dignos e legítimos produtos do futebol português. Luís Freitas Lobo, nas páginas do “Expresso”, já se aproximou desta ideia.
O problema, nesta questão dos naturalizados, é que a discussão anda envenenada por conjunturas clubísticas: nos tempos de Deco no Porto, os benfiquistas estavam contra e os portistas a favor do ingresso do “mágico” no onze das quinas; e algo semelhante sucedeu à roda do central/médio Pepe. Com Liedson, o argumentário dos apoiantes deste abrasileiramento roça a indigência: se há já precedentes, sustentam, qual é o problema?
Algumas bestas trouxeram ainda, para o debate, o fantasma da xenofobia e do racismo. A esses, coitados, nem lhes dedico uma linha ou um segundo de resposta.
Sei que, em Junho, vou torcer por Portugal. Mas também sei que “aquilo” não se trata bem de uma selecção nacional; é, digamos, um Clube mais de que também gosto, participando numa competição internacional erroneamente dita de países. (Excepção é, por exemplo, o Brasil que apenas utiliza cidadãos brasileiros no seu time-maravilha.)
Júlio Dinis, n”Os Fidalgos da Casa Mourisca”, refere um patético costume de certas famílias falidas da aristocracia: pedir de empréstimo, a famílias ricas, pratos, terrinas e talheres de prata, de modo a garantirem o luxo de um jantar elegante. Pois eu fico-me com o discurso da personagem Jorge, que sensatamente se recusa a pactuar com esse fingimento: pobres mas honrados.

Ribeira de Pena, já 05 de Março de 2010.
Joaquim Jorge Carvalho

A DEPRESSÃO DAS LARANJAS (19)


A Música

Eram talvez quatro horas da manhã quando a chuva interrompeu, por instantes, o exercício monótono de si.
Naquela parte da cidade regularmente adormecida, apenas um polícia (em serviço) e um grilo (de folga) notaram a mudança. O polícia saiu do refúgio onde jazia há muito tempo, olhou o relógio, suspirou – e percorreu a rua vigiada com vagar nocturno. O grilo observou, ainda hesitante, o céu – e deu, nem dois minutos depois, em cantar uma qualquer felicidade que a borrasca adiara.
Então, num prédio apalaçado da urbe, fronteiro à canção do grilo, uma luz se acendeu. Se o animal cantador olhasse para lá, veria uma formosa mulher loira, sob o leve linho de uma camisola mais de despir que de vesti-la. E também: que o cabelo da mulher era um torvelinho de anéis; e que os olhos eram talvez estrelas irreverentes que ali haviam decidido ser o céu; e que o corpo era fugidio e apetecível como um peixe virgem; e que a mulher chorava (chuvosamente chorava) no devir da chuva urbana.
Sumário: o grilo cantava sempre; o polícia marchava pelo lajedo e pelo tempo do turno; a mulher chorava. Era tudo a mesma melodia das quatro horas da manhã parisiense.
Até que Margo abriu a janela. Até que as estrelas que os olhos do meu amor eram, como os das aves, deram em brilhar pela rua inteira. Até que as mãos do meu amor tocaram, como gaivotas delicadas, a janela, o cimento exterior do prédio, a própria noite.
O polícia sorriu nesse momento e trauteou a música persistente do grilo.
O grilo acreditou na bonança do céu e continuou o seu ofício cantor.
A mulher inspirou, com força e ternura simultâneas, o oxigénio vindo do chão e reparou no polícia.
O polícia: magro, triste, olhos escuros, cheio dessa resignação infeliz que há nos habitantes repetidos da cidade. Mas (atenção) sorridente agora, e sensível à melodia grílica da noite sem chuva. Mal vigiando a rua.
O polícia reparou na mulher acordada, junto à janela do prédio apalaçado. A mulher parecia, no segundo em que o polícia encontrara o seu loiro olhar, falar com alguém dentro de casa. (Esse alguém, do lugar de onde se conta esta história, não se via, logo, não entra nela.)
Muito antes de o grilo cantador parar de cantar e de, enfim, adormecer, já a mulher e o polícia estavam, ambos, sem remédio, dentro da música. (Mais tarde, confessei-te que a farda era alugada e que, na tua rua, não havia guardas nocturnos.)
Veio, muito depois, a manhã – que era um dia novo.

Ribeira de Pena, já 05 de Março de 2010.
Joaquim Jorge Carvalho
[Trata-se do 19.º texto do volume “A Depressão das Laranjas” (Ribeira de Pena, Ed. Casa de Santa Marinha, 1999). A pintura-supra é de Picasso (“Mulher chorando com lenço”).]

quinta-feira, 4 de março de 2010

BULLYING


Vem nos jornais. Um menino de 12 anos atirou-se ao rio Tua, cansado de levar pancada dos valentões da sua escola. Disse que estava farto e matou-se.
É, antes de mais, uma aparente história de ausências, esta. Ausência de humanidade nos agressores. Ausência de força (corpo e espírito) no agredido. Ausência, talvez, de atenção na família e nos profissionais da escola. Ausência, final, de uma inteira vida por cumprir.
A infância e a adolescência podem ser etapas muito estúpidas e muito cruéis. Uma revisitação do “Senhor das Moscas”, de William Golding, vale por mil ensaios científicos. É, aliás, um tempo em que muitas vítimas apenas desejam passar de “lingrinhas” a bandidos “bué-da-fixes”.
A história do menino de Mirandela tem o final mais trágico de todos. Bill Watterson, o autor de “Calvin & Hobbes”, vingou-se bem do bullying que, em criança, terá sofrido: pôs a ridículo, na sua b.d., os brutos e os medrosos. Pôde fazê-lo porque sobreviveu àquele tempo.
Entretanto, subsiste-me uma incomodíssima possibilidade: se calhar, a morte do menino de Mirandela é também culpa nossa.

Ribeira de Pena, já 04 de Março de 2010.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem-supra é, com a devida vénia, a da 1.ª página do "Correio da Manhã" (edição de 04-04-2010).]

A DEPRESSÃO DAS LARANJAS (18)


A Prudência

Quis sempre que Margo fosse capaz de fugir às rédeas do empresário francês. Aliás: esposo. Aliás: pai da comum filha (Mimette).
Mas Margo preferia sempre sorrir, evitando retóricas incómodas sobre as consequências ou o preço da felicidade. Era, de cada vez que falávamos de nós, o insustentável peso do tempo a abater-se sobre a cidade, o Café, a mesa, a cerveja de ambos: um dia, amor (dizia ela).
Um dia?
Nunca, portanto, a nossa história ultrapassou o imperfeito do conjuntivo. Se pudéssemos…
Prudentes, pois; e ponderados, e cuidadosos, e certinhos, e correctos, e convenientes, e sensatos, e adequados, e reverentes, e meticulosos, e obedientes, e discretos, e rigorosos. Normais, enfim – apesar de o coração e os livros nos dizerem que é errado adiar o inadiável e estúpido evitar o inevitável.
A mim, naquele egoísmo juvenil dos amantes, parecia-me que a resignação era uma imensa, cruel, cínica antecipação da morte. Que o que não fizéramos (o que ficara por fazer) se devia chamar, no calendário essencial do amor, tempo perdido.
Hoje sei, Margo, que a navegação burguesa, à prova de tempestades e de prováveis naufrágios, também é digna de admiração. Mas já não tive tempo de to dizer.

Ribeira de Pena, já 04 de Março de 2010.
Joaquim Jorge Carvalho
[Trata-se do 18.º texto do volume “A Depressão das Laranjas” (Ribeira de Pena, Ed. Casa de Santa Marinha, 1999). O rosto-supra é o da imorredoira estrela de “Morangos Silvestres”, Ingrid Bergman.]

quarta-feira, 3 de março de 2010

Melga


O amor é uma melga acesa. Não
Quer que eu durma e morde-me
Quando quase-durmo. Uma melga
Acesa zumbindo cinicamente no quarto
Que me invade as noites
E se esconde de manhã
Filhadaputamente.

Ribeira de Pena, 3 de Março de 2010.
Joaquim Jorge Carvalho
[Este poema faz parte do volume "Inquietação de Barcos" (Ribeira de Pena, Ed. Fórum Metanóia, 2006).]

A Literatura como Viagem


Hás uns quinze anos, quando cheguei a Ribeira de Pena, trazia de Coimbra as saudades de família e amigos.
Um amigo antigo, para me consolar, disse-me: Deixa lá. Fazes novos amigos num instante.
Mas eu bem sabia que não se fazem amigos num instante. Um amigo leva tempo a fazer. E mesmo quando falamos de amizades feitas no serviço militar, na faculdade, na emigração, que devêm tão grandes como as maiores, é porque o tempo da sua fermentação é aí distinto do tempo calendário. Dias, então, são meses. Meses são anos. Anos, vidas.
Em Ribeira de Pena, pude conhecer muita gente nestes quinze anos. Fiz (e até já perdi) alguns amigos.
O Manuel Vilela, que trabalha na Escola local, foi uma destas epifanias. Habituei-me a trocar com ele cumplicidades, angústias, sonhos. Falamos de futebol (ele finge que “é do Salgueiros”, mas sofre escandalosamente pelo Benfica). Intercambiamos histórias. Gostamos ambos de fado de Coimbra (mesmo em versão karaoke).
Este meu amigo foi à guerra. Cumpriu serviço militar, na década de 70 do século XX, em Moçambique. Como se trata de um bom contador de histórias, as suas memórias de África foram, para mim, uma magnífica possibilidade de viagem que não poderia desperdiçar.
Fiz dessas histórias - contadas no Ali-Babá, no Voice, no Cantinho do Churrasco, no Convívio, na Pastelaria Silva, ao balcão da sala de professores - material literário para um romance (“O Livro dos Negócios, das Adivinhas e dos Provérbios” – Ribeira de Pena, Ed. Casa de Santa Marinha, 2000). O Manuel Vilela autorizou-me essa vindima e o vinho que viesse.
Recordo, entre outras, a lembrança do regresso das tropas à “metrópole”, no Niassa: muito silêncio e muito desânimo. Paradoxalmente, o contrário do que sucedera à partida de Alcântara para o desconhecido. Coisa já vista em Telémaco, filho de Ulisses, que também não pôde regressar o mesmo a Ítaca.
O Manuel Vilela gostou do meu livro, necessariamente distinto da matéria-prima que o ajudou a nascer.
E eu (perdoai o clichê) confirmei que é possível viajar no tempo e no espaço pela literatura.
Lendo ou escrevendo.
Lendo e escrevendo.

Ribeira de Pena, já 3 de Março de 2009.
Joaquim Jorge Carvalho

terça-feira, 2 de março de 2010

A DEPRESSÃO DAS LARANJAS (17)


O Tempo e o Corpo

Houve um certo japonês que, há bastantes anos, deu em admirar fanaticamente Mick Jagger. Viu, por essa razão, os famosos Rolling Stones numerosas vezes, na Europa, na América e na Ásia.
Este japonês, que existiu mesmo (mas cujo nome e demais dados me escapam, à altura da escrita), não se dedicava, contudo, exclusivamente à música: era homem de negócios, aliás brilhante - e, por isso, rico.
Foi em Londres, segundo julgo saber, durante um extraordinário concerto dos Stones em Wembley, que Kiro Awazok (como doravante lhe chamarei) teve a ideia da sua vida – propor ao amado Mick um negócio. E era, esse negócio, o seguinte: pagar de imediato três milhões de dólares ao cantor se este concordasse em, morrendo, legar ao japonês o corpo para cremação. O comprador utilizaria, autorizadamente, as cinzas resultantes para, bem misturadas com centenas de quilos de areia, fabricar “Ampulhetas Jagger” (made in Japan). Achava o asiático visionário que este comércio seria, para além de bela homenagem ao ídolo, um sucesso anunciado.
Embora não exista documentação rigorosa que o ateste, consta que Mick considerou seriamente a proposta. Mas, à terceira leva de missivas trocadas, soube o cantor londrino da morte súbita do japonês. E tudo (ideia, projecto, contrato) se perdeu no fio repetido dos dias devindos.
Sei que em Tóquio vivia, por esta altura, uma velha americana chamada Marge Bones. Amara Dick na década de setenta, num quarto modesto da periferia de Dallas e, na altura, acreditava muito no futuro. O vocalista dos Stones tinha menos cinco anos que essa mulher e, assim mo garantiram, cria ele próprio no cósmico destino dos dois. “Para sempre?”, perguntava um. “Para sempre”, respondia o outro.
Marge Bones ganhou, em 1974, um maravilhoso emprego na U.S. Cotton, onde aliás trabalhava desde 1970: directora de marketing. Significava tal o topo magnífico da carreira, o torrencial salário de chefe, o frémito da liderança e do poder. O lugar era em Tóquio e Mick Jagger ficou, então, de se mudar também para lá.
Entre 1974 e a actualidade há nesta história um brutal hiato de vinte e quatro anos. Esse intervalo não se acariciou sequer de visitas, missivas, promessas, telefonemas. Muito menos de físico contacto. Uma zanga irrelevante (cujo motivo Marge, entretanto, esquecera) interrompeu, nela e no músico, o sumo confluente das vidas, constituindo-se o restante tempo somente da espera mútua de um remorso, um pedido de desculpas, uma palavra.
Vão, o tempo.
Graças a Kiro Awazak, Marge obteve (em leilão pouco concorrido) duas cartas assinadas pelo punho de Mick. Riu-se da ideia do infausto japonês e juntou-as ao farto vinil coleccionado durante três décadas, e às fotos de revistas e jornais, e às cassetes áudio e vídeo, e aos autocolantes juvenis.
Em 1998, a mulher soube de um cancro fulminante em si, diegese derradeira da sua estrada vital. Com rigor de executiva, instruiu um sobrinho americano (professor de Literatura Comparada em Winsconsin) sobre pormenores relativos à fortuna pessoal e ao corpo depois de morto. Últimas vontades.
Por um destes dias, Mick Jagger receberá, via correio internacional, um “relógio de areia”. Não obstante a designação decidida, este aparelho funcionará apenas com as cinzas de Marge Bones, após criteriosa cremação num laboratório especializado de Tóquio.
Como relógio, pouca fiabilidade há-de ter, tão leve é esse produto que escorre no interior do vidro. Mas dirá, sobre o tempo, tudo quanto Marge gostaria de ter dito ao seu amor de sempre.
E nunca, como então, uma metáfora sobre o tema terá sido tão verdadeira e rigorosa quanto esta: o teu corpo, o meu tempo; o teu tempo, o meu corpo.

Ribeira de Pena, já 3 de Março de 2009.
Joaquim Jorge Carvalho
[Trata-se do 17.º texto do volume “A Depressão das Laranjas” (Ribeira de Pena, Ed. Casa de Santa Marinha, 1999). A imagem-supra, colhida na Wikipédia, é de Mick Jagger num espectáculo em Itália (2003). Ainda duas notas: 1ª.) a história do japonês nasceu de uma conversa com o Fernando Abrunheiro, irmão do Daniel; 2ª.) o romance entre Marge Bones e Mick Jagger é invenção, claro, mas gosto de pensar no relato como factos verdadeiros.]

Virginal Diarística


Na edição do “Correio da Manhã” de 28 de Fevereiro, descubro, em coluna à esquerda da página 52, o “Diário de Margarida”, ante-intitulado “Olhar de Uma Virgem”. É assinado por uma donzela chamada Margarida Menezes, que já foi até notícia, por mais que uma vez, na televisão.
Não quero deter-me no conteúdo desta diarística, embora nela reconheça uma singularidade digna de nota, do ponto de vista literário: a autora propõe-se, neste espaço, relatar o quotidiano de uma vida onde não se passa nada. Ou, pelo menos, onde não se passa nada que nos interesse.
O que aqui prefiro sublinhar é a circunstância de, hoje, um jornal importante pagar pela crónica de uma virgem de (arrisco) trinta anos.
No século XVIII, as confissões dos condenados de Newgate (Inglaterra) eram “best-sellers”: aí se exaravam terríveis crimes e pecados, do mais humilde furto à grande vigarice e à mais sofisticada luxúria. No final, os confessos manifestavam o convencional arrependimento e encomendavam as almas a Deus.
Os leitores de então, esses, no recato estrutural de meras testemunhas do escândalo, deleitavam-se com aqueles relatos, vivendo a sua quota-parte de vício, mas sem culpa. Voyeurs, como todos os bons leitores de narrativa. Assim temperavam de extraordinário a vida ordinária (i.e., vulgar) onde geralmente residiam.
Hoje, passa-se o mesmo, no fundo. Mas o “extraordinário” é, agora, haver uma virgem com (arrisco) 30 anos; e o “ordinário” é o que se sabe, ou, na minha provecta idade, o que se imagina.

Ribeira de Pena, 02 de Março de 2010.
Joaquim Jorge Carvalho