Em viagem para o Sul
Frágil e leve flutua
Eu amo o Verão, mas sou do Outono. A minha vida é feita sobretudo do tempo que ainda falta para o Verão. É uma vida geralmente pobre de mar. Contudo, teimosa como um rio, caminha sempre, desde sempre, para a certa foz a haver. O passado, o presente e o futuro são muito mar.
2023, convenhamos, é apenas um número mais, espécie de sinal ao fundo da curva para a nossa viagem de existir. Um pouco como os séculos, as datas de nascimento, os anos da idade que vamos tendo, as folhas amarelas anunciando o Outono, as folhas verdes recuperando a Primavera. Sinais, sinais, sinais, sinais, sinais.
Mas precisamos destas evidências para balizar as nossas vidas, equacionar passado-presente-futuro. Com a maturidade, estes marcos assumem maior peso (físico e simbólico) e certa pergunta simples que nos fazemos, tantas vezes, passa a questão determinante: “Quanto tempo temos ainda?”
Pastelaria em Coimbra, fim da tarde do dia 24 de Dezembro: mesas cheias de gente e uma fila de clientes à espera de vez para pão, bolo-rei, broinhas, etc. Há duas empregadas ao balcão, ambas de olhar mortiço, muito cansadas, apesar de uma delas manter uma agilidade e uma velocidade admiráveis. O dono do estabelecimento, com amabilidade profissional, anda pela saleta a anotar pedidos num bloco-notas de capa preta.
Chega a minha vez, Calhou-me a empregada rápida. De perto, noto-lhe algum brilho suado sob os olhos e quase sinto o seu bafo quente ao respirar. Penso: “Coitada. Deve estar aqui desde manhã cedo, sempre a bulir.” Peço pão (para a consoada iminente e também para o dia seguinte). Escolho “pão da avó”, apontando com o indicador da mão direita.
De forma automática, ela roda sobre si para pegar num saco
de papel, exactamente no segundo em que o patrão coloca um copo de vidro, cheio
de água, sobre o balcão. O cotovelo da moça derruba o copo, que se desfaz em
pedacinhos de vidro e água correndo-escorrendo sob os pés dos clientes.
- Não se preocupe – diz, em tom neutro, o proprietário da pastelaria.
Eu, com vontade de animar a moça, em cujo rosto redobradamente percebo uma espécie de exaustão triste, atiro:
- Ai, ai! Sete anos de azar!
Ela sorri, talvez grata, antes de me responder, num murmúrio rouco e (não sei
se exagero) desesperado:
- Deixe lá. Mais sete menos sete…
Coimbra 24-12-2022.
Joaquim Jorge Carvalho
O mal paga-se com o mal?
O bem paga-se com o bem?
A bondade é natural
E a maldade, também?
“Só ao amor com amor
pagarás”?
Ah, bondade pífia e com
defeito,
Pois santo é só quem amor
for capaz
De dar sem condições ou preconceito.
(E quem me dera ser
aquilo que canto -
- Ser mais do que esta
simples teoria -
Quem me dera ser um
quase-santo
Em vez de quase-nada em
poesia!)
Coimbra,
25-12-2022.
Joaquim
Jorge Carvalho
Da janela vejo um cão cinzento
Ladrando zangado à beira da estrada
Há à volta ninguém e esquecimento –
Só aquele cão ladrando a nada.
Ribeira de Pena, 19-10-2022.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em
www.dogsplanet.com.]
Ao meu amigo Conceição, com quem todas as semanas falava
ao telefone
(sobretudo do Sporting) e que nos faz falta todos os
dias.
Telefona-se a um amigo
Porque sim
(Pelo menos comigo,
É assim).
O meu amigo morreu –
E agora a quem
Telefono eu?
A ninguém!
Ribeira de Pena, 20-12-2022-
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida
vénia, em www.tryg.aalborg.dk.]
Guarda os teus abrigos
Rega as tuas flores
Estima os teus amigos
Salva os teus amores.
Ribeira de Pena, 20-12-2022.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida
vénia, em www.alamy.de.]