Bússola do Muito Mar

Endereço para achamento

jjorgecarvalho@hotmail.com

Número de Ondas

terça-feira, 5 de setembro de 2023

Entardecer não eterno

 



Em viagem para o Sul
A ave crepuscular
Pousa leve sobe o mar
Leve repousa em azul.

Frágil e leve flutua
Vizinha de peixes lentos;
Bebe o ar de leves ventos
E voa para lá da lua.

A ave só existiu
Até deixar de se ver:
Leve chegou e partiu –

Quem a pudesse escrever
E dizer quanto sentiu
O perdido entardecer!

Machico, 11-08-2023.
Joaquim Jorge Carvalho
[Foto JJC]

sábado, 2 de setembro de 2023

Maravilha made in Nós

 


A minha Filha faz anos. Eu e a MP sentimos um profundo orgulho nesta maravilha made in Nós. Admiramos a sua educação, a sua inteligência, a sua cultura, o seu sentido de ética (na amizade e no trabalho), a sua fidelidade e o seu amor à Família. Ainda por cima, é do Sporting!

Custa-nos que, fisicamente, não esteja sempre pertinho de nós e dificilmente aguentamos um dia sem um contacto seu. Ser Pai ou Mãe é um ofício para sempre, já se sabe, que implica permanentes cuidados, incessantes aflições, recorrentes angústias; mas o retorno é saber que a nossa “menina” existe e dá sentido à vida de todos nós – e que a sua Felicidade é parte essencial da nossa Felicidade.

Parabéns, Vanovska! We love you!

Coimbra, 02 de Setembro de 2023. 
Joaquim Jorge Carvalho (& MP)

terça-feira, 25 de abril de 2023

Houve uma coisa simplesmente bela (25 de Abril ao ritmo de Cesário Verde)





Naquela madrugada portuguesa
Houve uma coisa cheia de verdade
E que, sem inúteis ares de grandeza,
Em todo o caso trouxe a Liberdade.

Foi quando o firme Maia, mais que humano
Fez a vontade a um inteiro Povo
Apeando do poder Marcelo Caetano
E com ele o velho Estado Novo.

Depois, prosseguiu-se a construção
Do Dia, em contínuo amanhecer -
E houve alegrias, desvios, desilusão …

Mas ficou-nos essa imagem a nascer
Do Maia com um cravo em sua mão
À espera do Futuro por fazer!

Coimbra, 25-04-2023. 
Joaquim Jorge Carvalho

quarta-feira, 5 de abril de 2023

Once upon a time

 


A memória: um rio correndo para a nascente.


Machico, 22 de Agosto de 2019.
Joaquim Jorge Carvalho

[A foto evoca, para além da minha pessoa, as de meus irmãos Z.T. e M.F., aí por 1968 ou 1969. O nosso irmão
E. ainda não era nascido.]

sábado, 1 de abril de 2023

Mãe escrita





O menino encosta o rosto
Ao queixo da mãe
Ajeita-se-lhe no colo
Serenamente inquieto, seguro
Como uma ave no mínimo-máximo aconchego
Do ninho.
Há na placidez dos seus olhos infantes
Um involuntário alívio
E a certeza absoluta daquela eternidade.
A mãe cheira bem (cheira a mãe).
A mãe é conforto, doçura, abraço.
A mãe está ali santamente com o menino.
A mãe está ali para sempre.

E depois o menino é vítima do Tempo
(Como todos: o avô, o vizinho
o cão, a casa, a mãe, o menino)
E descobre esse Frio maiúsculo, o Fim.
O avô explicara, sobre a morte, que era parte
De existir
Mas o menino não compreendia.
O avô talvez tenha sorrido
Talvez tenha prometido explicar-lhe o Fim
Quando o menino crescesse.
O menino não foi capaz de crescer
Não foi capaz de crescer o suficiente
Para deixar de ser menino.

Por isso, apesar dos anos, dói-se
De não haver ali a Mãe
O colo, a doçura, o abrigo,
O cheiro a Mãe (que é
mais do que simplesmente flores
ou mar
ou morangos
misturando-se com o oxigénio diário
consubstanciando-se às horas,
o cheiro a eternidade e a abraço).
O menino descobre-se só
E não compreende esse Frio brutal
Esse lugar sem Mãe
Sem colo
Essa traição de não haver eternura
(Eternura é a palavra do impossível necessário
a palavra que nomeia a ternura eterna).


Uma Mãe traz um menino ao mundo
E é para o menino o mundo.
Não há mundo sem a Mãe.
Por isso o menino dá por si dizendo
“Mãe
Deixa que encoste o meu rosto
Ao teu queixo
Que me ajeite em teu colo
Serenamente inquieto, seguro
Como o pássaro no mínimo-máximo aconchego
Do ninho.

Cheiras bem, Mãe
(Cheiras a Mãe).
Olho-te nos olhos como se me visses
E sucede-me agora a certeza absoluta
Da eternidade.
Estás santamente aqui comigo.
Estás aqui para sempre,
Mãe,
Enquanto te escrevo."

Coimbra 12-03-2023 (revisto a 26-03-2023).
Joaquim Jorge Carvalho
[A foto remonta a, talvez, 1969. Estamos na praia de Mira, nossa morada no Mar da infância. A Mãe está de luto pela senhora sua Mãe, minha Avó Adília.]

sábado, 14 de janeiro de 2023

Mãe & Amigos

 


A morte de quem amamos é uma dor sem cura. Nada nos salva da falta que, para sempre, fica. Mas os Amigos podem ser - com palavras, gestos, presença – uma forma de refúgio, um regaço, um porto de abrigo. Fico-me com esta última metáfora (quase catacrética) – e ocorre-me que ela é usada com frequência para falar do papel das nossas Mães. De modo que, digamos, os Amigos são uma espécie de Mãe (fatalmente deficitária, frágil), e ajudam a evitar, em momentos oportunos, o afogamento do ânimo e da esperança. 
Despedi-me da minha Mãe, ontem. Quero, agora, agradecer a vossa presença, as vossas palavras, os vossos gestos, até os olhares silenciosos e cúmplices que generosamente me ofereceram, nesta curva em que a vida se me incompletou para sempre. Abraço, Amigos!


Coimbra, 14-01-2023.
Joaquim Jorge Carvalho

Maria Delfina da Silva Mateus (1940-2023)

 

Dou por esta via conhecimento aos meus Familiares e Amigos de que Maria Delfina da Silva Mateus (amadíssima Mãe do José António Carvalho, do Joaquim Jorge Carvalho, da Maria de Fátima Carvalho e do Emanuel Carvalho) faleceu hoje, dia 12-01-2023.
O seu corpo será velado, mais logo, na Igreja de S. José, e o seu funeral realizar-se-á amanhã, dia 13-01-2023, pelas 14 horas, rumo ao Cemitério da Conchada.
Ao longo da sua vida, a nossa santíssima Mãe semeou Amor pelo mundo e foi, em todas as circunstâncias, inclusive nos últimos anos de doença, uma verdadeira guerreira, motivo de inspiração para todos nós. 
Paz à sua alma!

Ribeira de Pena, 12-01-2023.
Joaquim Jorge Carvalho

quarta-feira, 4 de janeiro de 2023

Trevas

 




Bélicas botas calcam, diligentes, 
As frágeis flores da terra indefesa;
O Sol manda dizer que está doente
E, em vez da Manhã, vem a Tristeza.


Ribeira de Pena, 04-01-2023.
Joaquim Jorge Carvalho

[A imagem foi colhida, com devida vénia, em pt.dreamstime.com.]




sábado, 31 de dezembro de 2022

Sobre a deslealdade

 



Os porcos da nossa vida
(E os mais novos, os leitões)
Sujam tudo em sua lida –
Até sonhos, ilusões!

Não vale a filosofia
Para os fazer mudar:
Nasceram na porcaria,
Só vivem para sujar!


Coimbra, 31-12-2022.
Joaquim Jorge Carvalho

[A imagem foi colhida, com a devida vénia, porcos-no-chiqueiro-de-uma-fazenda_freepick.com. ]

2023: Carpe diem

 

2023, convenhamos, é apenas um número mais, espécie de sinal ao fundo da curva para a nossa viagem de existir. Um pouco como os séculos, as datas de nascimento, os anos da idade que vamos tendo, as folhas amarelas anunciando o Outono, as folhas verdes recuperando a Primavera. Sinais, sinais, sinais, sinais, sinais. 

Mas precisamos destas evidências para balizar as nossas vidas, equacionar passado-presente-futuro. Com a maturidade, estes marcos assumem maior peso (físico e simbólico) e certa pergunta simples que nos fazemos, tantas vezes, passa a questão determinante: “Quanto tempo temos ainda?”

Deste fundo de onde olho para cima, é urgente que cada um de nós eleja, cuidadosamente, objectivos formosos e honestos, à altura do que somos e do que queremos ser – e buscá-los.
É urgente aproveitar o tempo. Porque, recordai, o tempo não é bem nosso; é-nos dado ou roubado, num instante, por um poder exterior à nossa vontade e ao nosso entendimento. Mas está em nossas mãos, na maior parte dos casos, fazer do tempo que temos uma experiência bela e gratificante. Não necessariamente fácil ou confortável, atenção, mas digna de nós.
Desejo-vos um bom ano de 2023, ó contemporâneos. Ainda haverá tempo para a felicidade!

Coimbra, 31 de Dezembro de 2023.
Joaquim Jorge Carvalho

[A imagem (quadro de Dali) foi colhida, com a devida vénia, em almanaqueliterario.com.]

segunda-feira, 26 de dezembro de 2022

Natal visto de fora

 


Pastelaria em Coimbra, fim da tarde do dia 24 de Dezembro: mesas cheias de gente e uma fila de clientes à espera de vez para pão, bolo-rei, broinhas, etc. Há duas empregadas ao balcão, ambas de olhar mortiço, muito cansadas, apesar de uma delas manter uma agilidade e uma velocidade admiráveis. O dono do estabelecimento, com amabilidade profissional, anda pela saleta a anotar pedidos num bloco-notas de capa preta.

Chega a minha vez, Calhou-me a empregada rápida. De perto, noto-lhe algum brilho suado sob os olhos e quase sinto o seu bafo quente ao respirar. Penso: “Coitada. Deve estar aqui desde manhã cedo, sempre a bulir.” Peço pão (para a consoada iminente e também para o dia seguinte). Escolho “pão da avó”, apontando com o indicador da mão direita.

De forma automática, ela roda sobre si para pegar num saco de papel, exactamente no segundo em que o patrão coloca um copo de vidro, cheio de água, sobre o balcão. O cotovelo da moça derruba o copo, que se desfaz em pedacinhos de vidro e água correndo-escorrendo sob os pés dos clientes.

- Não se preocupe – diz, em tom neutro, o proprietário da pastelaria.

Eu, com vontade de animar a moça, em cujo rosto redobradamente percebo uma espécie de exaustão triste, atiro:

- Ai, ai! Sete anos de azar!

Ela sorri, talvez grata, antes de me responder, num murmúrio rouco e (não sei se exagero) desesperado:

- Deixe lá. Mais sete menos sete…

 

Coimbra 24-12-2022.

Joaquim Jorge Carvalho

 A imagem utilizada não corresponde ao espaço exacto onde se desenrolou o episódio narrado, funcionando apenas como ilustração "à mão de semear". Trata-se de uma foto da antiga pastelaria Montanha (sita no Largo da Portagem), que foi colhida, com a devida vénia, no blogue "Histórias e sabores" (historiasesabores,blogspot,com).

domingo, 25 de dezembro de 2022

Teoria & prática

 


O mal paga-se com o mal?

O bem paga-se com o bem?

A bondade é natural

E a maldade, também?

 

“Só ao amor com amor pagarás”?

Ah, bondade pífia e com defeito,

Pois santo é só quem amor for capaz

De dar sem condições ou preconceito.

 

(E quem me dera ser aquilo que canto -

- Ser mais do que esta simples teoria -

Quem me dera ser um quase-santo

Em vez de quase-nada em poesia!)

 

Coimbra, 25-12-2022.

Joaquim Jorge Carvalho


sexta-feira, 23 de dezembro de 2022

Só

 


Da janela vejo um cão cinzento

Ladrando zangado à beira da estrada

Há à volta ninguém e esquecimento –

Só aquele cão ladrando a nada.

 

Ribeira de Pena, 19-10-2022.

Joaquim Jorge Carvalho

[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em www.dogsplanet.com.]


quarta-feira, 21 de dezembro de 2022

Saudade de um amigo ao telefone


Ao meu amigo Conceição, com quem todas as semanas falava ao telefone

(sobretudo do Sporting) e que nos faz falta todos os dias.

 

Telefona-se a um amigo

Porque sim

(Pelo menos comigo,

É assim).

 

O meu amigo morreu –

E agora a quem

Telefono eu?

A ninguém!

 

 Ribeira de Pena, 20-12-2022-

Joaquim Jorge Carvalho

[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em www.tryg.aalborg.dk.]






Imperativo (muito) presente

 


Guarda os teus abrigos

Rega as tuas flores

Estima os teus amigos

Salva os teus amores.

 

Ribeira de Pena, 20-12-2022.

Joaquim Jorge Carvalho

[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em www.alamy.de.]