Bússola do Muito Mar

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Número de Ondas

quinta-feira, 5 de abril de 2012

Sócrates, Passos Coelho & Verdade (Versos com léxico catroguiano)


O senhor Passos Coelho
E o senhor José, l'ami
Nem num simples pentelho
Se distinguem entre si.

Coimbra, 05 de Abril de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho
[A quadrinha foi quanto de mais suave e decoroso fui capaz de escrever sobre as últimas notícias que envolvem o corte do 13.º e 14.º meses, incluindo aquele "lapso" que o vagaroso Gaspar, hoje, cinicamente admitiu.]

Viagem no tempo


Dez horas, Arganil. Vim com a minha filha à terra onde, há vinte e seis anos, iniciei a carreira de professor. Reconheço, aqui e ali, lugares, pessoas (o farmacêutico, o construtor civil, o jogador de futebol). Arrepia-me o facto singelo de os meus alunos dessa época serem, hoje, maduros cidadãos com quarenta e dois anos.
Toda a manhã parece um poema burilado por um Deus dado a ironias. Por exemplo: meu pai também me trouxe e veio buscar, um quarto de século antes desta manhã, correndo comigo os mesmos cruzamentos, a mesma toponímia. O meu pai morreu. A minha filha viaja agora comigo no lugar que era o meu; e eu viajo no lugar dessa ausência sempre tão triste.
Partilho com a minha filha esta poesia do tempo. Ela acusa-me de ser depressivo.
Tem muita razão. Mas pouco há a fazer quanto a isso. Escrevo e vivo assim desde que me conheço (e nem tenho a certeza absoluta de me conhecer bem).

Arganil, 05 de Abril de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem (foto de Arganil) foi colhida, com a devida vénia, em http://www.eb1-arganil.rcts.pt.]

quarta-feira, 4 de abril de 2012

Praia de Mira, forever


Sonho muito com o Mar
E acordo sempre tristonho
Por já ter morrido o Mar
Que era eterno no meu sonho.

Coimbra, 04 de Abril de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem (foto da mítica Praia de Mira) foi colhida, com a devida vénia, em http://www.puraexperiencia.blogspot.pt.]

terça-feira, 3 de abril de 2012

Versos para divertir os meus sobrinhos


O avô saiu para a rua
Sem o acento circunflexo;
Ao ver a cabeça nua
Ficou muito perplexo.

Depois, lá se lamentou
Em tom grave, meio cavo:
- Assim, já não sou avô;
Sou avo!


Coimbra, 03 de Abril de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem (da mítica Heidi) foi colhida na wikipedia.]

Boaventura de Sousa Santos (Pela mão de Alice)



Estive hoje no foyer do Teatro Académico de Gil Vicente para ouvir Boaventura de Sousa Santos. Já o lera antes; já o ouvira em programas de rádio e de televisão; isto é, já o admirava. Trata-se de um grande nome das Ciências Sociais e, de modo mais genérico (mas não menos rigoroso), da Cultura portuguesa e mundial – e, pormenor para mim não despiciendo, é o marido de um dos maiores vultos da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, a Doutora Irene Ramalho dos Santos.
A sessão foi realizada no âmbito do Projecto “Páginas Tantas”, que os Professores Osvaldo Manuel Silvestre, Rui Namora e Rui Bebiano (elementos muito activos do Centro de Literatura Portuguesa) dinamizam desde há alguns meses. Convenci a MP e a VL (sem dificuldades) a acompanharem-me. No final, ambas me agradeceram. Beneficiámos os três (e, imagino, o restante público), por cerca de duas horas, de uma espécie de banho de luz, ou (deixai que reformule) de uma chuva de lucidez e de sabedoria verdadeiramente ímpares.
O registo foi, quase sempre, o de uma conversa inteligente e bem disposta, excelentemente dirigida por Osvaldo Silvestre (meu professor de Cânone Literário durante o ano curricular do Doutoramento em Literatura Portuguesa) e por Ana Maria Machado (professora de Literatura e Cultura Portuguesas, também na FLUC). Boaventura de Sousa Santos, com brilho e graça, falou da sua biografia pessoal e académica, da “Privataria” (nome que com que designou a fúria privatizadora da nossa contemporaneidade), da diferença entre “economias de mercado” e “sociedades de mercado”, da incultura dos políticos, da falta de humildade de europeus e norte-americanos face aos contributos do Pensamento periférico (por exemplo, de investigadores latino-americanos), da noção de “Objectividade” (um, cito de cor, “ conjunto de intersubjectividades reconhecidas por um auditório cientificamente válido”), da impossível “Neutralidade” (“Só posso ser neutro se a sociedade estiver a meu favor; se estiver do lado contrário, corro o perigo de me liquidarem ou de me invisibilizarem e não posso, já, ser neutro”).
Entre tantas pérolas, fui desviando – de vez em quando – a minha atenção para o rosto singular da Doutora Irene Ramalho dos Santos. Ela sorria sempre. E havia, no seu olhar face ao sociólogo (não tenho dúvidas),para além da habitual serenidade, um profundo amor de mulher académica, de mulher cidadã e de mulher eterna namorada.
A Professora Ana Maria Machado - não sei se citando alguém - ofereceu-me ainda, a propósito de certa obra que sucintamente apresentou, uma frase tão formosa que a reservei para o penúltimo parágrafo do presente texto: “O relato da viagem revela o viajante.”
Abençoada ideia esta de, para remate da tarde, ir ao TAGV!

Coimbra, 02 de Abril de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho
[ imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.tantas paginas.wordpress.com e em http://www.submarino.com.br.]

segunda-feira, 2 de abril de 2012

Casa grande


Nunca como hoje o Centro de Emprego se me pareceu tanto com a Poesia: uma Casa acolhendo, pelas nove da manhã, a tristeza e o desespero de muitos homens e muitas mulheres.

[A imagem (que lembra a Grande depressão dos anos 30 do século XX) foi colhida, com a devida vénia, em http://www.constelar.com.]

Steps Coelho


A minha filha deu-se conta de que tem cada vez menos tempo para praticar desporto. Como alternativa à sua prática ideal (natação, jogging, ténis, etc.), optou por adquirir um aparelho de ginástica. Chama-se "step". O exercício consiste basicamente na ilusão de estarmos subindo uma escada interminável, assim se queimando calorias e peso. Eu não quero aqui debater os méritos desta actividade, mas gulosamente aproveito dela as potencialidades metafóricas. Ora, por obséquio, pensai comigo...
Um aparelho que está fixo, colado ao solo, usado para manter ocupado o corpo e quiçá a mente; um aparelho em que fazemos de conta que subimos uma escada, sem nunca sairmos do mesmíssimo chão; um aparelho básico, repetitivo, cansativo...
Vejo, num pedal, José Sócrates e, no outro, o seu heterónimo - Pedro Passos Coelho. Pedalamos, determinados ou furiosos, sem escaparmos do mesmo sítio.
Na minha exegese, o aparelho não se chama "step": chama-se Portugal, ou, extensivamente, Europa. Nele obedientemente cumprimos a (assim chamada) ginástica de manutenção. Ginástica para mantermos sei lá eu o quê!

Coimbra, 02 de Abril de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.odivelas-lisboa.olx.pt.]

Regresso (provisório) ao aconchego natal


Saúdo-te, ó natal Melancolia
Berço de onde, triste, parti;
Prometi-te, amor, que voltaria
E estou aqui!

[A imagem (foto de Arsène Hayes com vista de Coimbra, 1870, in Albumina, colecção de Margarida Costa Alemão) foi colhida, com a devida vénia, em http:www.rosasvadias.blogs.sapo.pt.]

domingo, 1 de abril de 2012

Geografia do coração


A minha geografia começa na Rua Dr. Manuel Almeida e Sousa (ou Casal Ferrão), mesmo que o meu corpo durma, agora, na Rua de S. Miguel. Depois, numa espiral imperfeita, viaja até ao Loreto, ao Choupal, à Pedrulha, à Rua da Sofia, ao Retail de Eiras, a Celas, a Antuzede, à Praça da República, a Taveiro, à Solum, à Mealhada.
Como por magia, sei sempre, neste reino natal, a rua certa por onde levar o meu carro ou os meus passos. Reacende-se na memória um certo Café que havia ali à esquina (que continua a haver), ou um quiosque (que já não), ou uma mercearia (que já não). Semelhanças e diferenças falam comigo. A senhora dos correios é a mesma, mas com mais tempo por dentro e (coitadinha) por fora. A minha vizinha de cima já quase não sai de casa devido à doença. A minha vizinha do lado, que foi bonita, sofre visivelmente de osteoporose e de velhice. O cão do prédio em frente já não mija nas flores à beira da estrada porque morreu. No Parque Dr. Manuel Braga, uma dezena de árvores (talvez mais) foi arrancada, como num poema de Jorge de Sena. No Choupal, o meu percurso habitual cresce de forma inversamente proporcional à minha resistência. O rio emagreceu devido à seca. A minha mãe está mais lenta e ri-se menos.
É a vida, n'est-ce pas? A mim parece-me uma biografia sobretudo de perdas. E, apesar de tudo, amo esta cidade. Sou desta cidade. O que tenho feito noutros lugares é perceber quanto de Coimbra aí há. O meu Café Lusa Nova, de Coimbra, é (pode ser) o Ali Babá, de Ribeira de Pena. A pastelaria da Solum é (pode ser) o Santo André, de Arco de Baúlhe. E assim sucessivamente, incluindo natureza e humanidades.
Um amigo diz-me, em conversa amena e risonha, que eu faço falta. Gosto dessa ideia. Vaidoso, convenço-me de que a minha ausência se nota, como árvores cortadas ou quiosques desaparecidos, nesta mui nobre e querida Coimbra.
Há hoje promoções no Lidl, um hipermercado que foi construído no lugar da minha escola primária, ali onde fui Yazalde, Sandokan, Tom Sawyer. De acordo com um folheto, o bacalhau está mais barato uns 30 por cento. Mas as saudades, essas, estão pela hora da morte.

Coimbra, 01 de Abril de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.velhacaracoleta.blogspot.com.]

sábado, 31 de março de 2012

Coisas de Valor


Praias, amigos, certo poema
Romances, recordações, cantigas
Família, pinturas, cinema
Coimbra, futebol, raparigas –
Quanto de ternura e de beleza
Vale, amor, a habitual tristeza?

Coimbra, 31 de Março de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.guiagrecia.com.]

Outras contabilidades (Três quadras sobre a mesma Dor)


Dedicado ao maior dos poetas meus contemporâneos, Daniel Abrunheiro (visitável em http://www.canildodaniel.blogspot.com).


1
A vida que me deu tanto
E a que me falta viver
É uma migalha de quanto
Havia em mim para ser.

2
Doem-me todos os lugares
Que perdi por não escolher
Tenho saudades dos mares
Que nunca cheguei a ver.

3
Parte da minha vida
É a vida que não vivi
Ou está não bem escondida
Nos poemas que escrevi.

Coimbra, 31 de Março de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.canildodaniel.blogspot.com.]

Correr, ser


Na manhã de sexta-feira, inesperadamente, revejo uma (como diria o Torga) rapariga do meu tempo, a Ana. Simpática como é seu hábito, elogiou a beleza sempre igual da MP e, sorrindo, disse de mim que também, só que um bocado “mais rechonchudinho”. Rimo-nos todos da evidência dita e do modo escolhido para a dizer. Mas, já em casa, desagradei-me dessa condição adiposo-mental que é fruto do frio, do trabalho e, sobretudo, desta espécie de preguiça filha do Desânimo (e filha de outra mãe que agora omito).
Comecei, pois, a correr novamente. Isto é, mexi-me, agi. Hoje: trinta e cinco minutos no Choupal (até escrever me dói nas articulações).
Reconcluo que agimos, muitas vezes, contra qualquer coisa. Eu, por exemplo, contra um adjectivo só aparentemente inócuo: rechonchudinho.

Coimbra, 31 de Março de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.blog.opovo.com.]

Arte poética (elementar)


Um só verso às vezes faz
À sua vontade o poema –
É quando o verso já traz
O ritmo, a luz, o tema.

Coimbra, 31 de Março de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.hortadozorate.blogspot.com.]

sexta-feira, 30 de março de 2012

Consulta para ver se está tudo bem


Porto, manhã, um dia destes.
Um homem e uma mulher à roda dos quarenta anos (talvez mais). Rostos - ambos - pálidos, ombros humildemente encolhidos, diálogo múrmuro, às vezes uma discreta carícia (dele, nela), às vezes uma espécie de suspiro lamentoso (nela, também nele). Em redor, outros rostos, outras humildades acabrunhadas, outros silentes esgares de medo ou (talvez, talvez) de esperança. Algumas batas perambulam - azuis, brancas, verdes: são, ali, a autoridade e, ao contrário do rebanho expectante, falam alto, riem-se, utilizam muito o sufixo inho (entre si e com os outros): um jeitinho, um instantinho, um lugarzinho, coitadinho, porreirinho. Roufenha, uma voz feminina interrompe a praça da alegria (RTP 1) e anuncia nomes próprios, especialidades, salas de consulta. É subitamente a vez da mulher de quarenta (talvez mais) anos. Levanta-se e, atrás de si, o homem. Rostos agora transparentes, os de ambos, como se um mesmo susto pudesse ter duas caras. Os ombros mordendo o pescoço, os passos trôpegos (mas obedientes, rápidos), ainda uma carícia (dele, nela) e de novo um lamento em forma de hausto mínimo (dela, talvez também dele). O médico lê vagarosamente um, dois, três relatórios. Leva uma radiografia ao néon da parede, toma apontamentos, põe os óculos, diz que está tudo bem e marca nova consulta. A mulher e o homem agradecem (ao médico, não bem ao médico) a graça concedida, carimbam uma espécie de caderneta no balcão de atendimento, saem para o sol. Há outra vez sangue residindo em seus frágeis rostos, os ombros de ambos distendem-se, dão-se as mãos, riem-se mesmo agora de certo transeunte que vitupera, na rua, um inimigo invisível. Vão tomar café, vivos (ele, ela, o par).
Quer-se dizer: é mais leve o presente, irmãos, quando nele sobrevive a possibilidade de futuro.

Coimbra, 30 de Março de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.elmundo.es.]

quinta-feira, 29 de março de 2012

Já fui mui...


De ósculos fui mestre mui sabido
E professor de amplexos mui portáteis
E tradutor de haustos mui sentidos
E apóstolo de sonhos mui voláteis

Coimbra, 29 de Março de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.harbra.com.]