

Estive hoje no
foyer do Teatro Académico de Gil Vicente para ouvir Boaventura de Sousa Santos. Já o lera antes; já o ouvira em programas de rádio e de televisão; isto é, já o admirava. Trata-se de um grande nome das Ciências Sociais e, de modo mais genérico (mas não menos rigoroso), da Cultura portuguesa e mundial – e, pormenor para mim não despiciendo, é o marido de um dos maiores vultos da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, a Doutora Irene Ramalho dos Santos.
A sessão foi realizada no âmbito do Projecto “Páginas Tantas”, que os Professores Osvaldo Manuel Silvestre, Rui Namora e Rui Bebiano (elementos muito activos do Centro de Literatura Portuguesa) dinamizam desde há alguns meses. Convenci a MP e a VL (sem dificuldades) a acompanharem-me. No final, ambas me agradeceram. Beneficiámos os três (e, imagino, o restante público), por cerca de duas horas, de uma espécie de banho de luz, ou (deixai que reformule) de uma chuva de lucidez e de sabedoria verdadeiramente ímpares.
O registo foi, quase sempre, o de uma conversa inteligente e bem disposta, excelentemente dirigida por Osvaldo Silvestre (meu professor de Cânone Literário durante o ano curricular do Doutoramento em Literatura Portuguesa) e por Ana Maria Machado (professora de Literatura e Cultura Portuguesas, também na FLUC). Boaventura de Sousa Santos, com brilho e graça, falou da sua biografia pessoal e académica, da “Privataria” (nome que com que designou a fúria privatizadora da nossa contemporaneidade), da diferença entre “economias de mercado” e “sociedades de mercado”, da incultura dos políticos, da falta de humildade de europeus e norte-americanos face aos contributos do Pensamento periférico (por exemplo, de investigadores latino-americanos), da noção de “Objectividade” (um, cito de cor, “ conjunto de intersubjectividades reconhecidas por um auditório cientificamente válido”), da impossível “Neutralidade” (“Só posso ser neutro se a sociedade estiver a meu favor; se estiver do lado contrário, corro o perigo de me liquidarem ou de me
invisibilizarem e não posso, já, ser neutro”).
Entre tantas pérolas, fui desviando – de vez em quando – a minha atenção para o rosto singular da Doutora Irene Ramalho dos Santos. Ela sorria sempre. E havia, no seu olhar face ao sociólogo (não tenho dúvidas),para além da habitual serenidade, um profundo amor de mulher académica, de mulher cidadã e de mulher eterna namorada.
A Professora Ana Maria Machado - não sei se citando alguém - ofereceu-me ainda, a propósito de certa obra que sucintamente apresentou, uma frase tão formosa que a reservei para o penúltimo parágrafo do presente texto: “O relato da viagem revela o viajante.”
Abençoada ideia esta de, para remate da tarde, ir ao TAGV!
Coimbra, 02 de Abril de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho
[ imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.tantas paginas.wordpress.com e em http://www.submarino.com.br.]