Bússola do Muito Mar

Endereço para achamento

jjorgecarvalho@hotmail.com

Número de Ondas

domingo, 26 de fevereiro de 2012

Mãos de Pai


Em 1970, na barrinha de Mira, aprendi a nadar de costas. Na gloriosa estreia desta competência nova, dei por mim afastando-me de terra e, com alguma preocupação, fui vendo os rostos da Mãe, do Pai, dos irmãos Tó e Fátima cada vez mais longínquos. Quis dar meia volta e não consegui. Assustei-me, tentei pedir ajuda. Nada. A aflição paralisou-me braços e pernas, a água escondeu-me de toda a gente, senti ali a vida a deixar-me docemente.
“A morte”, podia eu ter pensado.
Mas não. Uma mão forte levantou-me, arrancando-me dali. O meu Pai, que não sabia nadar, senhores, salvou-me a vida com a precisão e o brilho de um herói de cinema.
Tenho-me lembrado muitas vezes do meu Pai. Porque o amo apesar de morto (assim o salvando de estar morto). E porque todos os dias há traiçoeiras águas em que, por culpa nossa ou alheia, caímos, ficando a faltar-nos uma mão que nos ajude, nos salve. A mão de um Pai.

Ribeira de Pena, 26 de Fevereiro de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem (Barrinha, Praia de Mira) foi colhida, com a devida vénia, em http://www.dganodontacygnea.blogspot.com.]

Lírico-didáctica levemente optimista


É poeta todo o professor
Tecedor de humanidades melhoradas:
Diz escreve ensina em seu labor,
Às almas que em si buscam, confiadas,

As sábias palavras do rigor,
Tudo quanto ele sabe d'existir.
É poeta todo o professor
E o seu tempo verdadeiro é o Porvir.

Vila Real, 25 de Fevereiro de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.soseducacaopblica.blogspot.com.]

sábado, 25 de fevereiro de 2012

Oração de graças


Bem-vindo sejas, sol, que me trouxeste
Um dia luminoso, um dia assim -
Rezei por ti à noite e tu vieste
Inteiro e limpo residir em mim.

Ribeira de Pena, 25 de Fevereiro de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.ecomuseuribeiradepena.blogspot.com.]

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

Felicidade


Jornada difícil, penumbrosa, comigo mergulhado naquela névoa de estar doente e, tanto quanto pude, cumprindo os meus deveres funcionários.
Ao final da tarde, lá fui - como quem vai à missa - ao ritual do euromilhões, confiar a minha fortuna aos eurodesígnios de Deus Nosso Senhor. Um homem, decerto agricultor, ri-se de uma piada sobre o jackpot e atira: "A mim já me bastava que chovesse..."
É quase noite quando subo os degraus de casa, antecipando já a volúpia da minha cama e de um livro ou um jornal. Chego cheio de uma sede que me acompanhou durante o inteiro dia.
Beijo na MP, telefonema para Coimbra, água.
Persiste a sede. Troco olhares com duas lindas tangerinas. Sacio-me delas. O mundo parece agora um lugar mais amigável.
E enfim surge-me a metáfora que iluminará o bilhete postal: a felicidade é estar em casa e haver tangerinas.

Ribeira de Pena, 24 de Fevereiro de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.naranjasdelarosa.es.]

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Interrupção


Demora o calor. Vai-me com a idade sendo mais difícil suportar o frio das manhãs, das tardes, das noites. O meu corpo produz muco nasal com a fúria de uma dívida grega ou lusa. Tusso muito, tenho arrepios, uma espécie de gripe anda teimosamente por mim, indo e vindo, cabra. O trabalho, assim, custa mais. Levantar-me é uma violência hiperbólica e anima-me apenas a ideia de que já-já (quero dizer, daqui a umas dez horas) volto para o único lugar da terra que verdadeiramente me apetece: a cama.
Esta (in)existência horizontal, em tempo de saúde frágil, é uma espécie de treino para a morte. Bebe-se um chá muito quente, esfrega-se o peito com álcool, fecha-se o olhar e abraçamo-nos à anestesia da noite. Vida suspensa.
Amanhã estarei bem, penso pouco convictamente. Peço desculpa por esta interrupção. O sol seguirá dentro de algumas horas.

Ribeira de Pena, 23 de Fevereiro de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

Ruas vistas d'agora


As ruas de Coimbra são recordações
De mim antigo dono desta cidade
Ainda muito virgem de desilusões
E mortalidade.

Vila Real, 22 de Fevereiro de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho
[Foto JJC]

terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

Alface


Uma alface com o vício das deputices, que fala da vida como se já tivesse verdadeiramente vivido, explicou que a mobilidade de funcionários é boa e é justa. Disse-o com um ar blasé de alface chique, e com a mesma segurança que já exibia enquanto jotinha.
Não tenho tempo nem paciência para lembrar à alface que, mesmo quando (ou se) alguma razão nos assista no argumento, é preciso decoro ao falarmos de gente, de homens e mulheres de carne e osso com os pais a cargo, a prestação da casa, o crédito de palavra dada na mercearia da esquina.
Mas fica aqui o voto de que à frescura da actual juventude suceda, na alface, o castigo do general Tempo - e essa existência vegetal sofra, no futuro, a justiça poética que merece: talvez uma mobilidade que o leve para muito longe da sua "zona de conforto" e em que se perceba, à roda da insignificância que é, o asco e o desprezo gerais.
Vai trabalhar, alface!

Vila Real, 21 de Fevereiro de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

Relação fotográfica de existências


Nesta minha cidade proliferam
Ervas daninhas, cocós caninos
Nos passeios, desempregados que esperam
Vez à porta do instituto, meninos

Romenos pedindo a bem ou mal
Odores de urina junto ao Mondego
Buracos na estrada com e sem sinal
E velhos inexactamente em sossego.

Mas há lindas laranjeiras também
E o colo ainda de minha Mãe!


Coimbra, 20 de Fevereiro de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.anavitri.blogspot.com.]

Arte poética (sobre o bom leitor)


A vida que escrevo é signo
De outras vidas como a minha
Quem de mim for leitor digno
Lerá de si cada linha.

Coimbra, 20 de Fevereiro de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem (a figura do imorredoiro Cesário Verde) foi colhida, com a devida vénia, em http://www.poetanarquista.blogspot.com.]

Quadra a pensar em Trindade Coelho


Do que eu preciso, senhores
Mais do que dinheiro ou livros sábios
É de acreditar nos amores
E de certos beijos certos lábios

Coimbra, Rua Trindade Coelho (interior da Nissan Primera), 20 de Fevereiro de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem (retrato de Trindade Coelho) foi colhida, com a devida vénia, em http://www.estrolabio.blogspot.com.]

domingo, 19 de fevereiro de 2012

O meu rio Mondego


Sei de outros rios, mas o meu
Chama-se Mondego, é desse
Que tenho saudades, é nesse
Que penso a caminho do mar

Vi tantos rios, já, em minha vida
E muitos me comovem, a beleza
Não se limita aos rios familiares
(Às vezes é até o contrário)

Mas o meu rio é este cúmplice curso
De água, este leito comigo reflectido
Esta antiguidade para sempre contemporânea

O meu rio chama-se Mondego, o meu rio
Tem por dentro em vez do nome a expressão
Meu rio. O meu rio chama-me.

Coimbra, 19 de Fevereiro de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.vdeguaratiba.blogspot.com.]

sábado, 18 de fevereiro de 2012

A vida num parágrafo só


Coimbra, enfim. A minha casa, o beijo na VL, a (também) minha casa da mãe, o beijo na minha origem, outro na minha irmã, outros nos sobrinhos, boa tarde à vizinhança, abraço a cunhado, corrida no Choupal, churrasco em casa do irmão mais novo (contas à moda do Porto), Real Madrid na Sport Tv, uma anedota sobre um casal num parque de campismo nudista, o Conceição a chamar-me (amigavelmente, como é costume) “chato”, a minha mãe com um ar cansado mas sereno. That’s life. E não é mau nem pouco.

Coimbra, 18 de Fevereiro de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem (relativa à série Family Ties que ando - ah, pois ando - a rever) foi colhida, com a devida vénia, em http://www.familyguy.wikia.com.]

História breve da minha consciência social


Quando eu era criança, a riqueza de cada um de nós media-se em coisas muito diferentes dos modernos telemóveis, ipodes, tabletes, gadgets, videojogos, etc. No meu caso pessoal, toda a gente sabia que era milionário de uma tribo inteira de índios em miniatura e de uma inteira cavalaria às ordens de Daniel Boone.
Um dia, talvez por causa de alguma consulta médica a que a minha mãe não pôde faltar, tive de levar aaquela riqueza infantil para casa de uma tia ainda solteira, empregada fabril e sempre alegre. Por horas daquela tarde inteira, brinquei sozinho (isto é, com os meus cowboys e os meus índios) aos raptos, aos recontros militares, às emboscadas, à concepção arquitectónica de fortes e de acampamentos. Até chegar a minha adorada mãe e eu voltar para o lar essencial que gloriosamente éramos. O problema foi que me esqueci, em casa de minha tia, dos bonecos. Antes que chorasse, a minha mãe prometeu que no dia seguinte a dita fortuna estaria de novo comigo.
Aconteceu que, no tal dia seguinte, a minha tia recebeu a visita do patrão e sua esposa (acompanhados de uma criança de uns cinco anos). A meio do chá e das torradas de cortesia fabril, o filho dos patrões descobriu os meus bonecos e exigiu-os. E a minha tia, a pensar no emprego, deu-lhos.
Nesse dia, à noite, inacreditando no que sucedera, odiei a minha tia o mais que pude (e era muito).
Anos depois, nunca esquecendo aquela tragédia, odiei o miúdo mimado e os seus pais.
Finalmente, odiei a imperfeição do mundo que leva as melhores pessoas a fazerem tanto mal umas às outras.

Coimbra, 18 de Fevereiro de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.lista.mercadolivre.com.]

Café de arredores


Gosto de periferias
Da social confusão
Que é ver estas duas tias
E a puta ao mesmo balcão.

(Não explico poesias –
Não é aqui minha função):
Tomai estas ninharias
P’ra vossa interpretação.)

Coimbra, 18 de Fevereiro de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem (quadro de Edward Hopper) foi colhida, com a devida vénia, em http://www.leodambiga.wordpress.com.]

Olhar, ver


Da minha casa ao Café
Ando cem metros de rua
Quase nada vejo ao pé
Mas vejo, inteira, a lua.

Coimbra, 17 de Fevereiro de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida,com a devida vénia em http://www.titividal.com,]