Ribeira de Pena, 18 de Dezembro de 2011.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem (já utilizada neste Muito Mar em ocasião anterior) reporta alguma tarde na Praia de Mira, aí por 1969.]
Eu amo o Verão, mas sou do Outono. A minha vida é feita sobretudo do tempo que ainda falta para o Verão. É uma vida geralmente pobre de mar. Contudo, teimosa como um rio, caminha sempre, desde sempre, para a certa foz a haver. O passado, o presente e o futuro são muito mar.




“Cada uma das obras traduz, à sua maneira, modos de conhecimentos sobre Machico que a escrita transforma em fábula do lugar, ou melhor, em lugar fabuloso. Os sujeitos poéticos cruzaram os sítios e os tempos deste povoado, as crenças e os gestos do seu quotidiano, os dados históricos e a sua tradição ancestral. Fizeram emergir ecos de outras culturas (clássica, oriental, literária), perspectivando deste modo a cultura local e conectando-a ao resto do mundo. Captaram realidades físicas do espaço evocado, reconfigurando-as por meio da subjectividade e estabelecendo, por conseguinte, um vínculo transtemporal e transgeográfico. Nestas transacções de índole espiritual, a temática da escrita do tempo, da vida e do cosmos emerge entrelaçada nas suas dimensões eufórica e disfórica, unificadas tanto pelo reiterar de tópicos (a lenda de Machim e de Ana d’Arfet, vultos históricos, o diálogo com o destino, Machico e a sua toponímia, o sentimento insular da distância, provas de vida que as circunstâncias locais originaram…) como pelo questionamento da essência humana na sua relação com o espaço que o circunscreve.”
“A composição A Palavra Vale, de Joaquim Jorge Carvalho […], cativa pelo modo como liga ironicamente a convenção literária com o íntimo processo criativo. Os vinte poemas aqui conjugados alternam formas e modelos, de tradição erudita ou popular, e surgem-nos ligados à declamação ou à recitação, com uma qualidade rítmica e musical apreciável, sem deixar de exibir intencionalmente as costuras da técnica expressiva do fazer poético. Num tom por vezes paródico, a exuberância da voz do texto revela-se na abordagem lúdica do tema, ao desconstruir formas fixas e figuras de estilo (ousando até trocadilhos), convidando o enunciatário a confrontar-se com este rodopio de versos multiformes e multisignificantes. Por vezes, o sujeito poético procura dar o ponto de vista do lugar, o da baía de Machico, ou recriar possíveis falas da terra e das suas gentes (preste-se atenção ao jogo das interpelações: o sujeito dirige-se ora a um vós extemporâneo, ora a Tristão Vaz, ora à pessoa amada, ao público em geral…). Assim, A Palavra Vale apresenta-se não somente como reflexão sobre a linguagem e projecção de um espaço arquetípico, mas também como sonho e jogo de vida interior, combinado com um fino sentido de auto-derisão.”

Em memória da Dona Carolina Freitas Spínola, avó da MP.

(Rua de quem? A rua
Tem dono?
Talvez: é a rua da ávore.)




Em memória do Mestre João!