Bússola do Muito Mar

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Número de Ondas

quinta-feira, 7 de abril de 2011

Música & Cores


Se à contemplação
Do Poeta criador
Sempre sucedesse uma canção
Ou uma flor -
Que complexas melodias
Que campos cheios de cores
Seriam os seus dias
Seus amores.

Vila Real, 06 de Abril de 2011.
Joaquim Jorge Carvalho
[A foto (da actriz Kim Basinger) foi colhida, com a devida vénia, em http://www.mielofon.com]

quarta-feira, 6 de abril de 2011

Beleza


A beleza o que é, como se faz?
Que misterioso, em nós, interruptor?
Que coisa nos acende, no-la traz?
O que é o amor?

Ribeira de Pena, 06-04-2011.
Joaquim Jorge Carvalho
[A foto (Gwyneth Paltrow, a minha actriz favorita) foi colhida, com a devida vénia, em http://www.imagensdeposito.com.]

terça-feira, 5 de abril de 2011

O perigo da ignorância


"Imprescritibilidade, inalienabilidade, irrenunciabilidade, inviolabilidade, universalidade, efectividade, indivisibilidade" - eis as fundamentais características dos Direitos Humanos.
Grande parte dos ditadores do mundo é inculta e dificilmente percebe o sentido destas palavras (alguma difíceis até de pronunciar e escrever).
Isto é, a ignorância é mesmo um perigo para a humanidade.

Ribeira de Pena, 05 de Abril de 2011.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem supra é a do quadro de Picasso, Guernica.]

segunda-feira, 4 de abril de 2011

Besame mucho


Toda a gente conhece aquela hipérbole, entretanto devinda clichê, cunhada por certa canção espanhola: Besame mucho / como se fuera esta noche la ultima vez...
Quando, uma vez ainda, me lembro da minha última conversa com o meu pai, o sangue daquela canção pulsa renovadamente.
Talvez esta minha mágoa encerre alguma lição universal. Talvez fosse preciso que, em tantas ocasiões, nos ouvíssemos como se essa fosse a última vez. Talvez fosse preciso que, em tantas ocasiões, nos olhássemos como se essa fosse a última vez.
Nunca mais o meu pai me atenderá o telefone. Nunca mais lhe reprovarei, ali na sua exacta e física presença, o ventre exagerado ou o sorriso de miúdo com que justificava os seus excessos. Mas não falei consigo, na última vez em que consigo falei, como se aquela, que foi a última vez em que falámos, fosse a última vez em que falámos.
Eu há muito tempo que olho para o presente como uma antecâmara de perdas. O que temos, o que somos - tudo, senhores, é uma espécie de pétala delicada condenada ao fim. Por isso me habituei, entretanto, com mal disfarçado susto e mal disfarçado desespero, a ver-ouvir os meus contemporâneos (por enquanto) vivos como se fosse, sempre, a nossa última vez.
E, já agora, o que aparece neste Muito Mar deve ser lido, para benefício da própria leitura, como se cada texto fosse o último escrito ou lido.

Ribeira de Pena, 04 de Abril de 2011.
Joaquim Jorge Carvalho
[Na foto supra, aparece Consuelo Velásquez, autora (em 1940) da canção "Besame mucho".]

Mão velhinha


À volta do Centro de Saúde de Ribeira de Pena, há uma árvore que desistiu da primavera. Adiam-se-lhe as folhas. Os pássaros ignoram-na. Os troncos, vistos de baixo, assemelham-se a uma mão desesperada, gritando a Deus por um milagre qualquer.
Ao passar por ela, sinto uma profunda pena de mim.

Ribeira de Pena, 03 de Abril de 2011.
Joaquim Jorge Carvalho

domingo, 3 de abril de 2011

Atenção, Televisão & Literatura




1.Os benefícios da atenção
Todos os dias aprendemos, claro. A vida surpreende-nos e acrescenta-nos de conhecimento sobre a vida. Não entendo esse fenómeno como mero acaso. Parte-se sempre, como diriam (entre tantos) Tolentino Mendonça ou Caeiro, da atenção; mas depois é preciso que haja pasto em nós para essa avulsa semente dar flores ou frutos, e de estas deveniências gratamente se integrarem na paisagem universal do que doravante sabemos. Ontem, por exemplo, beneficiei de uma história contada pelo actor Ruy de Carvalho a Daniel Oliveira (no programa Alta Definição, da SIC); de uma reportagem com o escritor Howard Jakobson, vencedor do Booker Prize de 2010 (na RTP); e da leitura de umas trinta páginas (não mais porque a seguir dava o Real Madrid - Sporting Gijon na Sportv) do romance O Jogo das Contas de Vidro, de Hermann Hesse. Deixai que vos fale um pouco do que aprendi.


2. O Palhaço da Zona do Petit Palais
Conta Ruy de Carvalho que um psiquiatra francês, famoso em meados do século XX, estava preocupado com a falta de resultados dos tratamentos num determinado paciente. O doente era muito complexo e sofria de profundos problemas, apresentando –a cada nova consulta -um quadro de depressão extrema e inalterada. Em desespero, o psiquiatra lembrou-se de um palhaço que, desde há meses, aparecia na zona parisiense do Petit Palais e conseguia, com suas histriónicas diatribes, pôr toda a gente a rir. Recomendou-o, pois, ao seu paciente mais difícil. Este, à proposta, reagiu com um misto de bonomia e de tristeza:
- Senhor doutor, esse palhaço sou eu…

Não tem tanta arte esta biografia?

3. A natureza essencial do romance
O escritor britânico Howard Jakobson, explicando o seu ofício de romancista, diz ao repórter que tinha um objectivo fundamental: entreter os leitores. Aparentemente, portanto, a ideia de arte literária deste laureado não se distinguirá da concepção merceeira que alguma mediocridade lusa também professa e cultiva (falo de Rebelo Pinto, de Rodrigues dos Santos, de Sousa Tavares, etc.)… Mas o inglês acrescenta, graças a Deus: trata-se de um entertainment diferente do comum, um "highest entertainment”, que ponha as pessoas a pensar profundamente, a chorar ou a rir com sentido. Traduzo livremente: um entretenimento sublime. E já estamos, aleluia, de acordo, cúmplices de Camilo, Eça, Dinis, Saramago. (E, claro, a corja que não presta não cabe nisto.)

4. Tese & Antítese
Em O Jogo das Contas de Vidro, de Hermann Hesse (tradução de Carlos Leite, Lisboa, Ed. Publicações Dom Quixote, 1999), ao topo da página 16, um simples período glosando uma máxima (talvez inventada pelo autor) ajuda a explicar todos os perigos que a intolerância e o fundamentalismo comportam:
“Há um velho aforismo que diz: quanto mais agudamente e intransigentemente formulamos uma tese, mais irresistivelmente ela clama pela sua antítese.”

Na política, na família, na profissão, no amor, continua a revelar-se interessante e útil a leitura dos clássicos.

Ribeira de Pena, 03-04-2011.
Joaquim Jorge Carvalho
[As fotos de Ruy Belo, Howard Jakobson e Hermann Hesse foram colhidas, respectivamente (com a devida vénia), em http://www.poroutraspalavras.wordpress.com, http://www.4.bp.blogspot.com e wikipédia.]

Quadra com lábios


Lábios sábios estão fadados
Para incendiar desejos
E deixam nos beijos dados
Vontade de novos beijos.

Vila Real, 02 de Abril de 2011.
Joaquim Jorge Carvalho

sexta-feira, 1 de abril de 2011

Ainda o Sol


Primeiro de Abril soalheiro e quente. Pela avenida há já femininis evidências do calor e da luz: braços destapados, ombros emancipando-se de pudores involuntários, um fecundo decote, coxas libertando-se da longa hibernação.
Ele chegou. Ele chegou!
Infiltra-se pelos arredores da íris, ao primeiro olhar. Espalha-se pelo território cutâneo que vai do pensamento aos passos. Entra-nos no sangue pelo oxigénio bebido do dia. Fica connosco. Imortaliza-nos provisoriamente. Faz parte de nós.
Temos sol. Temos sol!

Arco de Baúlhe, 01 de Abril de 2011.
Joaquim Jorge Carvalho


[A imagem (lapso da rua do Carmo, metonímia para a coimbrinha Visconde da Luz e outras formas de paraíso) foi colhida, com a devida vénia, em http://www.ruasdelisboacomhistoria.blogspot.com.]

Ares do Tempo


O ar do tempo lê-se em simples pormenores do quotidiano. As modas, o jargão, a mentalidade consensual, o vestuário, a literatura de sucesso, a arquitectura, as canções.
Que tempo é o nosso?
Confesso, senhores, que a minha percepção do presente, apesar de fugazes glórias com sol e lábios, é pouco positiva. Por exemplo...

Terá lugar em Barcelos, no próximo dia 9 de Maio, a final do Concurso Nacional de Leitura - fase distrital. Lendo o regulamento da prova, dois pormenores me saltaram à vista (e ao coração). Digo-vo-los:
a) em caso de empate, os alunos serão convidados a responder, oralmente, a várias perguntas; ganha quem for mais rápido a responder...
b) o Júri será constituído pelo Dr. Victor Pinho (bibliotecário), Manuela Ascensão Correia (professora) e Capucho (ex-futebolista, treinador de futebol).

Em a), leia-se a ditadura da pressa, da esperteza (mais do que da inteligência ou da sensibilidade).
Em b), leia-se o pior que há na nossa contemporaneidade e, in casu, no Plano Nacional de Leitura - o de se confundirem as aparências (mediáticas) com a essência (mediúnica) dos livros.

Uma tristeza, o nosso tempo.

Arco de Baúlhe, 01 de Abril de 2011.
Joaquim Jorge Carvalho

quinta-feira, 31 de março de 2011

A Palavra Vale


José Tolentino Mendonça é um excelente poeta, que é também professor, que é também padre. A ordem não interessará muito, neste caso. Este homem cruzou-se com a minha existência quando, em 2000, eu andava a estudar Ruy Belo, no âmbito de um mestrado em Estudos Portugueses. Soube, então que Tolentino Mendonça era um dos maiores especialistas da poesia de Belo e um seu prefácio a, salvo erro, Aquele Grande Rio Eufrates iluminou-me como uma manhã.
Soube também que é, como a minha mulher, natural de Machico e, finalmente, tive ainda a honra, já em 2010, de vencer o Prémio Literário de Poesia Francisco Álvares de Nóbrega, patrocinado pela Junta de Freguesia machiquense. Ora, do Júri que escolheu o meu voluminho A Palavra Vale fez parte este madeirense grande.
Comprei, no dia 26 deste mês, o jornal I apenas porque, na primeira página, se prometia uma entrevista de José Tolentino Mendonça à jornalista Maria Ramos Silva. Ainda bem, senhores, que fiz tal compra!
Da longa conversa (páginas 44-47), respigo algumas passagens que decerto contribuirão para tornar mais profundas e límpidas as águas do meu (nosso) Muito Mar. Por facilidade de exposição, recorro à numeração cardinal.

1. Sobre a ideia de conhecer
«A palavra “conhecer” quer dizer “nascer com” e o acto de nascer é sempre espiritual. Porque nascemos com vários sentidos, sempre. Esta hora para nós pode ser uma hora de nascimento, a hora em que o leitor está a ler estas palavras. Penso que a espiritualidade se liga, de facto, a uma procura de conhecimento, que não é unívoco, ou simplesmente empírico. É uma espécie de abertura, de colocar-se perante o aberto do mundo.»


2. Sobre acção e contemplação
«[Eu] não tenho essa ideia de estar envolvido num activismo, ou muito preocupado com a produtividade. Talvez porque em cada dia reservo um espaço significativo para a contemplação, para a escuta, para o silêncio. Isso gera, de facto, uma fecundidade na acção, mas que não é activismo.»


3. Sobre a atenção
«A atenção é a atitude espiritual mais importante. E muitas das coisas que aprendemos em si mesmas não têm um valor por aí além, mas servem para treinar para a atenção. Lembro-me de um texto de Simone Weil sobre o estudo escolar. Há muita coisa na nossa formação que se revela sem grande utilidade, mas naquele momento ajudou-nos a construir uma atenção. E isso é o grande valor que cada um de nós transporta. Acredito muito naquilo que os padres do deserto diziam, que o grande pecado é a distracção.»


4. Sobre o ofício da escrita e a noção de testemunha
«Há que organizar […] as sensações, e anotá-las. Mas penso que caminho no mundo como uma testemunha e que essa é a função de cada um de nós. Caminhamos não apenas como espectadores, mas como testemunhas, do sofrimento e do esplendor do mundo.»


5. Sobre uma ideia renovada de sagrado
«Acho que os textos sagrados não se esgotam na Bíblia. A Bíblia é um território sagrado, mas há novos textos sagrados. O poema [cita “Mesmo quando eu me esqueço de Deus / Lembro-me de Deus”] do Rui Belo é um texto sagrado.»


6. Sobre Deus e palavra(s)
«Estes dias dei comigo a pensar […]: o que é ter fé? É ter fé em Deus, mas também ter fé na palavra. É acreditar que uma palavra nova, [ou] uma palavra comum, pode estar inesperadamente investida de uma força maior. Quem diz uma palavra, diz um gesto. Um cumprimento entre duas pessoas…»


7. Sobre o ofício caminhante (literal e metafórico)
«São Francisco de Assis dizia que caminhar a pé é já rezar. Se for assim, já tenho rezado muito. Há itinerários de que gosto muito. O jardim das Amoreiras, Campo de Ourique. Lisboa é tão bonita e diversificada. Sempre um espanto que nos é oferecido. Nunca regressamos pelo mesmo caminho por onde partimos.»


8. Sobre o seu hábito de citar outros autores
«É um sentido de comunidade. Se for uma muleta, não gosto, porque gosto de ser original. Cada um deve ter um pensamento com consciência própria, mas ao mesmo tempo é importante o testemunho do que se vive em companhia. A Adília Lopes diz: “Eu sou uma obra dos outros.” Também sinto isso, por isso não me custa nada lembrar o que os outros disseram, porque também eu sou uma obra deles.»


Um dia, julgo (espero) eu, vou apertar as mãos deste conterrâneo da MP. Mas, antes desse dia, José, fica já inscrito este abraço cúmplice e grato.

Ribeira de Pena, 31 de Março de 2011.
Joaquim Jorge Carvalho

Mãos dos dias


Tenho reparado nas mãos que rodeiam o meu dia-a-dia. Em Vila Real, vi uma princesa passeando pelo centro comercial com as unhas sujas do trabalho rural. Em Coimbra, vi um sénior mal segurando a chávena do café, com a osteoporose chique dos reformados ricos. Em Penacova, vi certo gasolineiro cujas mãos pareciam, de calosas, uma superfície mais lunar que a da lua. E as mãos da minha mãe têm, por vezes, feridas porque ela sofre de diabetes e de tempo.

Ribeira de Pena, 31 de Março de 2011.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://webpholio.net.]

Beijo na cara


Por talvez vinte segundos, entre o Café da vila e o carro, recebo na cara o beijo limpo e ameno do Sol.
A carícia da Luz: não há, irmãos, maior astrologia do que esta!

Arco de Baúlhe, 31 de Março de 2011.
Joaquim Jorge Carvalho

quarta-feira, 30 de março de 2011

Duas Quadras Peregrinas


O bom viajante anota
Da rota o mais importante
E relendo cada nota
É mais vezes viajante.

Mais virá decerto quem
Sem nunca sair daqui
Fará das notas de alguém
Outras rotas só de si.

Vila Pouca de Aguiar, 30 de Março de 2011.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, na wikipédia.]

Ilha Encantada


Luis Sepúlveda é um dos autores que entra nesse belo projecto editorial chamado O Teu Nome Flutuando no Adeus (já referido neste “Muito Mar”).
Na página 128 do seu conto “A Ilha”, o chileno narra um encontro de certa personagem, na ilha de Sylt, com o amor da sua vida - e o passo é, de tão lindo, inesquecível. Reporto-vos, generosamente, essa epifania do senhor Kurt, forte o suficiente para o obrigar a mudar de estado civil:

«- Eu defendia o meu celibato como um espaço natural, do mesmo modo que Sylt continuaria a ser uma ilha até que o mar lhe arrebatasse o último bocado, mas eis que uma manhã no porto, enquanto observava os estivadores a descarregar bananas de um barco proveniente da Costa Rica, vi-a caminhar directamente para mim. Separavam-nos uns vinte metros que ela reduzia com os seus passos. E não se tratava de uma visão que fosse fruto da primeira bebida da manhã. Quis fugir, mas as pernas não me obedeceram e, quando ela se deteve à minha frente, pedindo-me trocos pois precisava de moedas para olhar pelo telescópio, corri, acredita em mim, corri como num atleta, até à loja de recordações marinhas e comprei o telescópio maior que lá tinha. Voltei numa corrida e entreguei-lho. Ela não percebia, e ainda menos quando lhe disse: “Tome, e tudo o que vir, seja o que for, é seu.” […]»


Um livro inteiro pode, só por um episódio destes, valer a pena!

Arco de Baúlhe, 30 de Março de 2011.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem de Gwineth Paltrow foi colhida, com a devida vénia, em http://www.actionnerds.wordpress.com.]

terça-feira, 29 de março de 2011

L'enfer c'est les autres (Sartre)


Lula

Ouvi ontem na rádio: Lula da Silva, um operário que chegou a presidente da República, disse que o FMI, ao invés de resolver problemas das pessoas, os agrava. Disse-o sem papas na língua (portuguesa) e os hipócritas anfitriões fingiram que aquilo não era importante. Mas, já agora, eu gostaria de lembrar, à boleia desta lucidez tropical, que muitas vezes é preciso distância – crítica e geográfica – para falar de assuntos momentosos. E que uma big picture também depende de uma big vision.

Modelo de avaliação de professores (I)

A (ainda) ministra de Educação está triste com o fim do modelo de avaliação, votado por toda a oposição na Assembleia da República. Diz que é pena, porque tudo estava a correr bem nas escolas. Tudo a correr bem? Vou academicamente partir do princípio de que a senhora acredita mesmo nesta enormidade. Generoso, esclareço-a: não estava, não está. Mesmo os que anda(va)m a tentar cumprir as regras deste modelo injusto (com prejuízo até da sua sanidade mental) respiram, por um momento, de alívio. Aleluia! Parece que, durante um inteiro período, os professores poderão dedicar-se ao mais importante da sua função – o ensino, o trabalho com os alunos. O que até aqui se passou foi, tenha a senhora paciência, tempo perdido. Ou, perdoai a piadinha fácil, uma triste aventura.

Modelo de avaliação de professores (II)

Miguel Sousa Tavares (uma espécie de Margarida Rebelo Pinto em versão marialva, literariamente, ou um Marcelo Rebelo de Sousa wannabe, no plano do comentário) voltou a falar, na SIC, dos professores. Sou franco: custa-me mais a má literatura do plumitivo do que as suas bacocas frases sobre a actualidade da educação. Mas não deixo de registar a facilidade com que, do cadeirão majestático em que se auto-imagina, opina sobre assuntos que manifestamente não domina. Como não se interroga este homem de má gramática e de má catadura sobre o singelo facto de TODA A OPOSIÇÃO (da esquerda à direita) achar que o modelo de avaliação em vigor é injusto, inexequível e estúpido?

Modelo de avaliação de professores (III)

António Barreto, que tem a vantagem – sobre Miguel Sousa Tavares – de ser um homem ponderado e de boa escrita, também falou, na TVI24, sobre a avaliação dos professores. Mas a sua posição é verdadeiramente extraordinária: confirmou, por um lado, que o actual modelo lhe parece errado e inadequado, mas acha “incompreensível”, por outro lado, que o PSD tenha votado a sua suspensão imediata. Percebemos, pois, que a sociologia, mesmo a mais chique, tem razões que a Razão desconhece…

Modelo de avaliação de professores (IV)

Francisco José Viegas, uma irrelevância literária da contemporaneidade, ouviu António Barreto nesse programa e, sem acrescentar uma só ideia que se aproveitasse, considerou também “incompreensível” o que o PSD fez. Serodiamente alcandorado a comentador político, este pobre escritor anda mortinho por dizer uma coisa original e forte, mas a coisa tarda…

Crisófagos

A crise existe e, para o caso de nos esquecermos da sua sombra tutelar e adamastórica, há todos os dias na televisão engenheiros, sociólogos, economistas, professores de finanças, esquerdistas e ex-esquerdistas, reaccionários e ex-reaccionários, deputados e ex-deputados, governantes e ex-governantes, corretores, editores de diários e semanários. Eles discursam, peroram, afirmam, reiteram, argumentam, explicam, aconselham, garantem, falam falam falam. São todos senhores da sua própria verdade e todos também, de forma geral, definitivos. Mas concordam num pormenor essencial: a culpa é “dos outros”. Sempre dos outros. Porque eles, os comentadores, bem nos avisaram, coitadinhos. A culpa é nossa, pá. Isto é, dos outros.

Ribeira de Pena, 29 de Março de 2011.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem de Lula da Silva foi colhida, com a devida vénia, em http://www.3bp.blogspot.com.]