Bússola do Muito Mar

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Número de Ondas

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Mistério d'Entre Mundos


Em cada decote existe
A promessa de prazer
De que ele nunca desiste
E ela finge esconder.

Ribeira de Pena, 07 de Fevereiro de 2011.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem (foto de Gweeneth Paltrow, naturally) foi colhida, com a devida vénia, em http://www.adorocinema.com]

Testemunhar o Génio


Ainda vi jogar Eusébio. Pela televisão, numa final entre o Benfica e o Sporting. Ao vivo, no Estádio da Luz, contra o União de Coimbra, e uma última vez, no Estádio Municipal da minha cidade, em jogo (a brincar) de veteranos.
Não tive bem a noção de, vendo-o, estar então tendo o privilégio de ser contemporâneo de uma lenda.
Mas posso ver Cristiano Ronaldo.
Hoje, num encontro que opôs Real Madrid à Real Sociedad, vi um festival de técnica, de inteligência, de arte e daquela espécie de vício irreprimível que o madeirense tem de jogar bem. Dos pés, da cabeça, até das costas do número 7, saíram piruetas, passes, remates, coreografias, acrobacias, efeitos especiais, golos.
Dois cafés e uma cervejinha depois, eu ainda tinha na memória raides da genialidade deste português universal. Não é possível amar o futebol sem reconhecer em Cristiano Ronaldo uma sublime condição. É (como, talvez, Messi) um extra-terrestre que desceu, para glória da sua geração, ao relvado do mundo.
Dele direi um dia a meus netos, se chegar a avô velho, o que disseram - no passado - de Eusébio, de Pelé, de Maradona e dos génios de todas as artes em geral: torna(va) possível o que parecia impossível. E eu, queridos netos, vi-o um dia a jogar contra a Real Sociedad…

Ribeira de Pena, 06 de Fevereiro de 2011.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.maisfutebol.iol.pt.]

sábado, 5 de fevereiro de 2011

(Pre) Visões de Viagem


1.
Sonhei com mortos: familiares, amigos, alunos, colegas, um menino que em 1969 morreu atropelado na curva do Café Lusa Nova, em Coimbra.

2.
A verdade é que me deitei com a derrota do (meu) Sporting, pelo que a ideia da morte terá algo a ver com o Estádio de Alvalade. Foi também nessa noite que o jogador Liedson partiu para sempre (outra forma de morte), o que reforça a ligação entre a minha existência acordada e a minha existência sonhada.

3.
No meu sonho (aliás, na parte que recordo do meu sonho), havia muitas malas. É natural. Como estou há tantos anos em trânsito, os funerais implicam - como os casamentos ou as eleições - estas tarefas de viajante habituado. As malas fazem parte da paisagem viva das casas por onde eu e a MP passamos.

4.
Acordei com a ideia – recorrente nos últimos tempos – de ser urgente prepararmos a vida que sucederá à nossa própria partida para sempre. A religião insiste muito na necessidade de estarmos prontos, mas trata-se aí da questão muito específica de se salvar a alma. A mim preocupa-me também salvar de mim o que vale(u) a pena para os outros.

5.
Não me dispenso de, com irregular entusiasmo, contribuir para melhorar o mundo: ofereço o (pouco) que sei aos que me rodeiam; sou um teimoso e talvez insuportável crítico dos erros evitáveis; cultivo a portuguesa língua e a universal literatura em todas as esquinas do meu viver; cuido como posso dos que dependem de mim. E escrevo.

6.
A escrita, de facto, anda comigo desde os seis anos de idade. Não escrever, para mim, seria como estar dentro de um escafandro (para usar uma eficaz imagem de um livro recente). O que tenho para comunicar realiza-se no que digo de viva voz ou no que digo com a ortografia. Mas o que digo, se escrito, é sempre mais verdadeiramente o que quero dizer.

7.
Regresso à morte, que é a viagem definitiva a haver. As viagens devem ser, tanto quanto possível, preparadas no lugar de onde partimos. É preciso que, em devido tempo, façamos as malas.

8.
- Que andas tu a fazer, Joaquim Jorge Carvalho, quando escreves poesia, crónicas, teatrices, narrativas?
- Ando a fazer as malas.

Ribeira de Pena, 05 de Fevereiro de 2011.
Joaquim Jorge Carvalho

A Escola Portuguesa vista de Fevereiro


Às vezes estamos mortos e fingimos
Às vezes existimos por favor
Às vezes hesitamos desistimos
Às vezes suspendemos o amor

Às vezes esquecemos ignoramos
Às vezes somos restos do que fomos
Às vezes não andamos não ficamos
Às vezes não sabemos o que somos

Às vezes somos vinho somos pão
Às vezes somos mapa estrela estrada
Às vezes somos tanto e somos tão

Às vezes a vidinha renovada
Às vezes somos sonho depois não
Às vezes tantas vezes somos nada

Ribeira de Pena, já 05 de Fevereiro de 2011.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem é o cartaz do maravilhoso filme Les Choristes (França, 2004), de Christophe Barratier , e foi colhida – com a devida vénia – em http://filmenellozaino.wordpress.com.]

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

Barcos apesar do cais


A VL demorou ontem a telefonar-nos. A MP e eu assustámo-nos muito, como um par de crianças subitamente perdidas de seus pais.
Só quando o telefone tocou é que a amável rotina regressou à Avenida da Noruega.
Os filhos são barcos navegando fora de nós. Porto, portanto, somos. Sinto-o. Sei-o.
Sucede que também nos corações portuários se sofre com a ausência e o silêncio dos navegantes.

Arco de Baúlhe, 04 de Fevereiro de 2011.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem é a de um quadro de William Turner e foi colhida, com a devida vénia, em http://comunidade.sol.pt]

O amor é um combustível antigo


Somos, irmãos, a lenha do Tempo.
Ardemos sem remédio na lareira da Casa Maior. Ardemos até à cinza. Não há alternativa ao fim senão, no intervalo de estarmos ardendo, a espera.
Fumos abandonam(os) fragilmente, todos os dias, a Casa Maior, subindo ao céu consabido de Lavoisier.
Parece que de nós, depois de ardidos, não fica nada.
Mas fica: um restinho de calor, pelas sete horas gélidas de cada nova manhã, é uma saudade de termos estado.
Somos, Tempo, a tua lenha. Enquanto ardemos, aquecemos-te a Casa.

Ribeira de Pena, 03 de Fevereiro de 2011.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.fugirarealidade.blogspot.com.]

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

Amador & cousa amada


A nudez mais bela é a que imagino. A outra - a ostensiva, a bruta, a escancarada - é tão excitante como uma radiografia ou um cadáver.
Não faço juízos de valor sobre a pornografia e, às vezes, espreito-a como qualquer outro porco curioso. Mas nenhuma evidência destas se compara ao erotismo.
Entre o exercício mecânico da fornicação (com suas célebres técnicas de acrobatas medicamentados) e dois pés escondidos tocando-se, sob a mesa (in)decente da condessa de Gouvarinho, não há hesitação possível, pois não?
Brian De Palma realizou um filme onde tudo quanto ora digo se (me) tornou para sempre percebido. Intitulou-o Testemunha de um Crime, e não disfarçou o facto de a sua obra se tratar de uma óbvia homenagem à Janela Indiscreta, de Hitchcock. Eu recordo-me sobretudo de uma senhora experimentando lingerie, numa pouco protegida loja de roupa, e de um enfeitiçado homem que, do lado de cá da montra, a espreitava por uma nesga de horizonte. Garanto-vos: era mais o que, entre intervalos de carne e rendas, se imaginava do que o que se via. Mas a imagem desassossegou-me hormonas e cérebro durante a vida seguinte. Ainda hoje sonho (acordado, às vezes) com a porta entreaberta daquele provador.
O sumário disto tudo tem menos de porcaria que de lirismo ou de bom senso: é que a Beleza compreende uma margem de mistério sine qua non. A nossa admiração e o nosso desejo, embora instintivos e erécteis por natureza, não dispensam afrodisíacos menos óbvios.
A graça, a inteligência, a elegância, o humor - eis algumas das outras nesgas por onde se esgueira o outro voyeur que sou.
Revelar é mais interessante do que mostrar, eis tudo.
De modo que, como eu a vejo, a Gweeneth Paltrow há-de estar algures numa esplanada em Paris. Veste uma saia demasiado curta para lhe esconder os joelhos. Toma um café vagaroso e distraído. Finge não dar conta dos olhares masculinos à sua roda, gulosos e desesperados como bem adivinho. Lê, com pose serena, um trecho de Sexus do senhor Henry Miller. A narrativa escandaliza-a e excita-a. Desvia a cadeira para que passe uma respeitável velhinha com um caniche de neve. Finalmente levanta-se e, à passagem por mim, atira para a manhã um sorriso de sol atrevido. Diz ainda, com sotaque inglês, "À demain". É, simultaneamente, uma noviça em recreio improvável, uma dissoluta à caça de amadores, uma burguesa culta cansada da normalidade e uma senhora de família no intervalo da respeitabilidade regular.
Tudo isto é imaginário e, com alguma certeza, impossível. E o resultado é que não conheço outro desejo maior do que este.

Ribeira de Pena, 02 de Fevereiro de 2011.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem (Gweeneth Paltrow como Sylvia Plath) foi obtida, com a devida vénia, em http://media.adorocinema.com]

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

Se aqueles lábios fossem fruta de pomar


Se os lábios desta donzela
Fossem frutos de pomar
Eu deixava-os medrar
Rubrodoces como ela.

Queria vê-los crescer
À altura da janela
Onde, em vez de os colher,
Diria olá à donzela.

Lábios assim de pomar
Seriam fruta sagrada -
Eu havia de os regar
Com litros d’água beijada!

Ribeira de Pena, 01 de Fevereiro de 2011.
Joaquim Jorge Carvalho

Alegria com medida


Às vezes, o horizonte é tão curto à roda de nós.
Às vezes, é tão improvável a bondade dos dias.
Às vezes, somos tão pequenos se comparados com o tamanho dos sonhos ou dos desejos que éramos.
Por outro lado, é tão provável, no futuro, o menos que isto. Tão fatal o quase nada e, depois, o nada absoluto. Tão tragicamente certo que há fim e que o fim, ainda que demore, chegará.
De modo que isto agora, sendo pouco e triste, é decerto melhor que o nada seguinte. Deixai, pois, que vos e me ofereça esta espécie de alegria: a de, por enquanto, a nossa infelicidade ser menor do que poderia (do que há-de) ser.
Escutai-me. Eu costumava perguntar, ao Mestre João (amigo de que nunca me esqueço para ele me não morrer completamente):
- Como está, senhor João?
E sempre ele respondia, rindo-se antes ou depois de mim:
- Estou melhor do que aqueles que estão pior.
Se me perguntassem agorinha mesmo como estou, seria essa também a resposta.
A minha alegria tem os limites e as dores normais da condição humana. Tenho pouco. Sou pouco. Olho para trás e para diante e, confesso, não encontro motivos para euforias excessivas. Mas olhai, irmãos, vista a coisa daqui e d’hoje, não é mau.

Ribeira de Pena, 01 de Fevereiro de 2011.
Joaquim Jorge Carvalho

domingo, 30 de janeiro de 2011

A Arte do Romance, Mr. Magnorium, etc.



I

Acordo tarde, porque (tão felizmente, tão gloriosamente) é sábado!
Vou à janela e vislumbro, nos fugazes vultos desaparecendo da minha vista, o Frio Maiúsculo do tempo e do lugar. Tempero a brutalidade atmosférica com um café quentíssimo e acrescento à minha gordura invernosa alguns gramas de pão com manteiga. Depois, chega-me às mãos Milan Kundera.
Comprei recentemente A Arte do Romance (Lisboa, Dom Quixote, 2002). É um livrinho maravilhoso sobre o ofício do escritor e, em particular, do romancista moderno. Tinha interrompido a sua leitura em Coimbra (lembrava-me de, ainda nas primeiras páginas, se falar em Musil, um autor que escandalosamente mal conheço). Voltei ao livro, agora, com vagar e gosto.
A meio da página 58, encontro uma preciosidade que tanto me remete para, por exemplo, Júlio Dinis, escritor criticado por alguns porque – aparentemente – esconde em suas narrativas o lado mais negativo da História. Lembra Kundera:
«Um historiador conta-lhe acontecimentos que se passaram. […] O romance não examina a realidade, mas sim a existência. E a existência não é o que se passou, a existência é o campo das possibilidades humanas, tudo o que o homem pode vir a ser, tudo aquilo de que ele é capaz. Os romancistas elaboram o mapa da existência ao descobrirem esta ou aquela possibilidade humana.»
Mais à frente (p. 60), o escritor afirma:
«O romancista não é nem um historiador nem um profeta: é um explorador da existência.»

Ora, eu interpreto esta ideia - como fiz, em tese, à roda dos romances dinisianos – como a assunção de que a História é uma narrativa sempre deficitária da biografia humana: falta-lhe em emoção e olhar ético o que eventualmente lhe sobra em factualidade e estatística. A História, por assim dizer, fala-nos do que a vida é; a literatura fala-nos do que a vida pode(ria) ser – e é essa a acepção que, em mim, toma o sentido kunderiano de existência.

II

Pelas três da tarde, ponho-me a ver um filmezinho comprado em saldos (um Euro e cinquenta e nove cêntimos, salvo erro) - Mr. Magnorium’s Wonder Emporium (2007), que teve por título português O Maravilhoso Mundo dos Brinquedos. O argumento e a realização são de Zach Elm e os actores principais são Dustin Hoffman e Natalie Portman.
A história fala da importância de, para haver magia, termos de acreditar na possibilidade da magia. Ou, dito de outro modo, defende a ideia de o sonho depender, antes de mais, da capacidade de sonhar. Mais: de acordo com a retórica (muito menos ociosa do que parece) de Zach Elm, o tamanho do sonho depende obrigatoriamente do tamanho da alma sonhadora.
Quase no final da narrativa, a personagem Mr. Magnorium explica a uma jovem de vinte e poucos anos a sua lição fundamental sobre a vida: “Life is an occasion. Rise to it!”
[Traduzo livremente: “A vida é uma grande possibilidade. Ergue-te à sua altura!”]

III

Sábado deve terminar com testes de Francês, actas e planificações. A minha vida (e a da MP) está cheia de anti-clímaxes.

Ribeira de Pena, 29 de Janeiro de 2011.
Joaquim Jorge Carvalho

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

O Império do Sol


Fundei, com alunos do meu 9.º C, um círculo literário. Chamámos, a esta espécie de Clube de Poetas Mortos hodierno, “Arco de Leitores”. Uma vez por semana, reunimo-nos para falar de livros, pintura, fotografia, filmes; para entrevistar personalidades (um professor, uma funcionária, um aluno, talvez até um escritor); e para, enfim, partilhar preferências e criações.
Todas as semanas há um tema nuclear para, em casa, prepararmos a sessão seguinte. Na última 6.ª feira, o tema proposto foi “Um filme que me impressionou”.
Para quem já é razoavelmente velho, torna-se difícil escolher um objecto assim. Mas eu cumpro, de sete em sete dias, a minha obrigação e, à semelhança dos colegas do círculo, não deixo de responder ao desafio.
Entre tantos, busquei na minha memória O Império do Sol, de Spielberg (realizado em 1987).
Pelos passos de um rapaz ocidental, perdido de seus pais, algures na grande China, durante a Segunda Guerra Mundial, aprendemos muito sobre a Vida, a Morte, o Amor, o Sonho, as Saudades, o Medo, a Beleza e o Horror.
Quase no final do filme, um soldado japonês chama a esta juvenil personagem, sempre cheia de energia e de curiosidade (sensível, corajosa, impertinente), “difficult boy”.
Ainda hoje me parece uma das mais competentes definições de Poesia que jamais se produziram.
A Poesia é, meus irmãos, uma espécie de rapaz complicado.

Arco de Baúlhe, 27 de Janeiro de 2011.
Joaquim Jorge Carvalho

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

Taking Woodstock



Continuo a alimentar-me de livros e filmes em hipermercados. Por escandalosos noventa e nove cêntimos, trouxe da Worten (de Coimbra) um filme de Ang Lee, Taking Woodstock (2009). Soube, pelas informações da capa, que se baseia num romance de Eliot Tiber. Visionei-o na noite de 25 de Janeiro, noite fora, e adormeci com a ideia muito formosa de que todos temos um (pelo menos, um ) 1969 assim nas nossas vidas.
Ao contrário do que seria expectável, a história assenta pouco no fenómeno estritamente musical que ocorreu então. Apresenta-nos a biografia até aí medíocre de um casal de imigrantes e, em especial, de seu filho, jovem adulto, decorador de interiores, discretamente homossexual, a viver na periferia de Nova Iorque.
O casal tem um motel que quase ninguém frequenta e está afogado em dívidas à banca. O rapaz tem sonhos que, por amor aos pais, adia ou reprime, numa resignação silenciosa e aqui e ali divertida…
Nos jornais, surge a notícia de um festival de música ao ar livre, anunciado para localidade vizinha daquela onde está o motel. A câmara anfitriã do festival recusa, contudo, a realização do evento, devido à repugnância que a previsível visita de milhares de hippies desperta na população rural. O jovem decorador de interiores vê nessa circunstância a possibilidade de inscrever a terra onde vive no mapa dos grandes acontecimentos. Contacta a organização, oferecendo-lhes aquela alternativa.
De um dia para o outro, a localidade é invadida por muitos milhares de pessoas, sobretudo jovens, que encontram naquele espaço silvestre uma hipótese de paraíso provisório, livre de todas as convenções e de todas as regras. Como flores de S. Francisco, cresce por aqueles campos a fruta do Amor. Pelo meio, há a poesia, o grito contra a guerra do Vietnam, as canções, a arte - e o acesso a variadíssimas drogas, que contribuem para uma ilusão de céu que invade as ruas, as casas e as almas da humanidade aí presente.
O filme edifica uma espécie de mágica presentificação daquele tempo e daquele lugar. As roupas, o parque automóvel, a música, a linguagem – eis 1969 regressado e tão verosímil!
Diz-se, como piada, que quem esteve em Woodstock não pode dizer como foi porque não se lembra. Mas Ang Lee (à boleia, decerto, de Eliot Tiber) diz-nos – pelo menos – como pode ter sido. Como deve ter sido.
O Diabo inventou o caos. Mas há homens, iluminados por Deus, que vão inventando a narrativa.

Arco de Baúlhe, 26 de Janeiro de 2011.
Joaquim Jorge Carvalho

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

Sobre o Amor (com orações subordinadas condicionais)


“Amor não há feito, é preciso fazê-lo.”
(Alexandre O’Neill, citado muito de memória…)


Se o encontrares, di-lo.
Se o perderes, chora-o.
Se o souberes, explica-o.
Se o sentires, canta-o.
Se o quiseres, fá-lo.

Ribeira de Pena, 25 de Janeiro de 2011.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem que ilustra o textinho é a de uma edição de Decameron, do grande Boccaccio.]

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

Precaução Inútil


Li hoje um pequeno romance (104 páginas) intitulado Precaução Inútil, de Paul Scarron, escrito na segunda metade do século XVII (Lisboa, Ed. Teorema, 2004, tradução de Honório Marques). Custou-me (adivinhais?) um Euro.
O livro fala da demanda de um homem (Dom Pedro) pela mulher ideal. “Ideal”, no estreito horizonte mental da personagem, seria que jamais o traísse. Ao que se sabe, a história inspirou Molière (que nela se terá baseado, em parte, para a escrita de A Escola de Mulheres) e Beaumarchais (para a escrita de O Barbeiro de Sevilha).
No caso de Precaução Inútil, o título dá antecipadamente conta dos vãos esforços do demandante. A verdade é que Paul Scarron deveria ter conhecimento de causa quando falava do tema. Segundo se julga, a própria esposa experimentou, ao longo do casamento, os braços promíscuos de Sua Majestade Louis XIV.
Mas a narrativa vai muito para além da anedótica questão da fidelidade ou das humanas convenções em geral. Trata da condição da mulher e discute, pela via do exemplum, as vantagens e desvantagens da inteligência feminina.
Como Dom Pedro percebe, no final da história, não há no mundo virtude perfeita porque, falando-se de mulheres ou de homens, a imperfeição é parte da nossa condição (e mesmo a ideia de virtude não é pacífica). Percebe-se também que a estupidez, por muito simpática que se afigure, é sempre incompatível com a ideia de honra, visto que não há princípios e valores dignos de apreço sem inteligência que os perceba.

Nota importante: Juro, pela minha saúde, que é coincidência eu falar em tal (traição, estupidez, etc.) num dia de eleições presidenciais.

Coimbra, 23 de Janeiro de 2011.
Joaquim Jorge Carvalho

domingo, 23 de janeiro de 2011

Sábado perfeitinho



1.
Coimbra, enfim.
Acordo lá pelas onze e meia e acrescento-me o direito de mais um pouco de aconchego talâmico.
Depois, sinto o cheiro mágico do café com que a MP enche a casa e saboreio uma chávena de vida à frente da televisão, com pão e manteiga, jornais na net e duas ou três séries da Fox.
Modorra curtida, digestão feita, equipo-me e obrigo-me aos abdominais do costume. Sigo para o Choupal, a seguir, onde castigarei o corpo por aproximadamente 35 minutos.
Pelo caminho, beijo a Mãe, sei de novas e recolho correio.
Corro com vagares de quarentão maduro, regresso a casa, tomo banho, alimento-me.

2.
No resto da tarde, estou com Han-Shan, poeta chinês que terá vivido no século VII. O livrinho chama-se O Vagabundo do Dharma – 25 Poemas de Han-Shan (Lisboa, Ed. Cavalo de Ferro, 2003). Segundo Jacques Pimpaneau, seu tradutor para o francês, o autor “foi uma espécie de hippy do seu tempo”. Entre outros, Jacques Kerouac (o génio de On the Road) reconheceu-lhe a importância e o cariz revolucionário. É ainda Pimpaneau que explica o fascínio da geração beatnick como uma espécie de reacção a algum materialismo ocidental: as pessoas buscavam para as suas vidas um estado “zen”, isto é, queriam “reencontrar uma certa liberdade natural, torcer o pescoço à lógica e suas vantagens para escapar aos seus limites”.
Ana Hatherly traduziu Han-Shan do francês para o português e lembra que, no caso do poeta oriental como no caso dos ocidentais da primeira metade do século XX, se percebe um certo ideal de “marginalidade”, “associado a uma demanda espiritual intelectualizada”.
Em poemas muito curtos, o que encontramos, com efeito, é esse olhar estrategicamente marginal sobre a vida e a morte, sobre o lugar do eu no avulso cosmos, sobre a procura de uma unidade bela (que não é senão – segundo percebi – a soma viva de tudo quanto seja possível alcançar).
À semelhança do que lemos em Caeiro e em algum Ricardo Reis, cruzamo-nos com a Serenidade e a Doçura por um instante perfeitas. Menos do que aquilo, seria a morte; mais do que aquilo, seria ruído.

3.
Ofereço-vos alguns dos meus versos preferidos de O Vagabundo do Dharma:
“Meu coração lua de Outono / Verde lago brilhante imaculado puro // Não pode haver comparação / Ensina-me a dizê-lo.” (P. 30)
“No meu lar o que há? / Só um leito de livros” (P. 44)
“A vida humana não chega a cem anos / Muitas vezes tem mil anos de desgosto // Mal começamos a melhorar de uma doença / Logo nos consumimos por causa de um filho ou de um neto // Baixamos os olhos para a terra onde cresce a raiz do cereal / Erguemos o olhar para o cimo da amoreira // Quando a Balança cair no Mar da China / Chegando ao fundo começamos a saber parar” (P. 48)
“Ou eu tenho um corpo ou não tenho / Ou sou eu ou não sou eu // Assim meu pensamento se interroga e calcula / O tempo passa docemente: fico sentado encostado à falésia // Entre os meus pés as verdes ervas crescem / Sobre a minha cabeça a poeira vermelha cai // Já vejo homens comuns / No meu leito de morte deporem vinho e fruta” (P. 50)
“Lembro-me daqueles que outrora encontrei / Célebres em lugares que já percorri // […] Como saberia eu que sob um pinheiro / Abraçando os joelhos sentiria o frio chicote do vento?” (P. 52)
“A vida humana situa-se na agitação da poeira / Exactamente como um insecto no meio de uma bacia // O dia todo avança girando girando / Não sai do meio da bacia // Os imortais não podem ter / Preocupações planos sem fim // Anos meses são como água que corre: / De repente está-se velho” (P. 58)
“Vós olhais as flores no meio das folhas: / Quanto tempo de bom podem elas ter? // Hoje temem que alguém as colha / Amanhã aguardam que alguém as varra // Cativantes os entusiasmos do coração / Após vários anos envelhecem // Comparado com o mundo das flores / O fulgor do vermelho como o conservar?” (P. 60)

4.
De lá longe (do século VII e da China profunda) chega-me assim esta surpresa. Custou-me 1 Euro, no Jumbo de Vila Real. E, já agora, serve para confirmarmos o quanto nos falta(ria) sempre conhecer, apesar dos mil quilómetros já lidos. Na literatura, na vida…

5.
O dia termina em família: irmãos, sobrinhos, cunhados. Sábado, modéstia à parte, perfeitinho.

Coimbra, 22 de Janeiro de 2011.
Joaquim Jorge Carvalho