Bússola do Muito Mar

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Número de Ondas

domingo, 12 de dezembro de 2010

Sermão para Enforcado


O socialista (?) Daniel Bessa disse, da sua cátedra, que o Estado social está a matar a Economia. A questão, já glosada por dignos comentadores e cartoonistas, poderia ser vista ao contrário: a Economia está a matar o Estado social.
Deixai-me desabafar.
Ando farto de políticos do centrão e de especialistas em défices, dívida pública, equilíbrio orçamental, juros, etc.
De cada vez que ouço um destes experts (ou chico-experts) a perorar sobre economia e finanças atribuindo, invariavelmente, a culpa da crise aos tristes que mal sobrevivem (com salários ou subsídios mínimos, sem mordomias), apetece-me perguntar-lhes:
Quanto ganhou você no ano passado?
Quanto lhe pagam por mês no(s) seu(s) emprego(s)?
De quantas reformas beneficia? (Em quanto importa cada reforma? Durante quanto tempo trabalhou para aceder a cada reforma?)
Quanto ganha em "despesas de deslocação"? E em "despesas de representação"? E em "despesas de residência"?
Quanto lhe paga(ra)m em - digamos - "subsídios de reintegração"?
Quanto costuma ganhar em bónus ou prémios?
O Enforcado vicentino (do Auto da Barca do Inferno) ensinou-nos que se percebe mal o sermão dos poderosos quando se tem o baraço ao pescoço...

Coimbra, 11 de Dezembro de 2010.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http:anove.wikispaces.com.]

Mercado versus Sem-Abrigo


Falando, na televisão, do mercado de arrendamento, o primeiro-ministro de Portugal disse que o governo iria agilizar os processos de despejo de inquilinos com rendas em atraso.
Esta medida - garantiu - melhorará o mercado de arrendamento.
Contentinho da silva, aquele improvável socialista nada disse sobre o destino dos que, por incumprimento das suas obrigações com o mercado, seriam tão celeremente despejados.
A criatura tem na boca, na cabeça, nos tiques - a luzir como árvore de natal num salão de bombeiros - uma só palavra e um só conceito (no singular ou no plural): mercado, mercados; mercado, mercados; mercado, mercados.
E o povo, pá?
E a humanidade, pá?

Coimbra, 11 de Dezembro de 2010.
Joaquim Jorge Carvalho

Linguagem demasiado polida


Leio no Correio da Manhã de 10-12-2010 (página 51): "CRIANÇA INGLESA [VÍTIMA DE BULLYING] SUCIDA-SE". Leio mais: «Bradley Wiseman, um menino britânico de 12 anos, aluno da escola de Edington, no Yorkshire, enforcou-se depois de ter sido ridicularizado e perseguido por colegas que não lhe perdoavam a linguagem "demasiado educada".»
É da natureza humana reagir à excelência com admiração pacóvia ou, em alternativa, repugnância e ódio.
A diferenta assusta a multidão (na infância, na adolescência, no mundo adulto). E é pior quando a diferença se torna uma evidência da mediocridade dos medíocres: a besta humana assusta-se e, com a força - bruta e avassaladora - do músculo e das maiorias, esmaga os bons. Esmaga os melhores. Objectivo dos agressores: que se perceba menos a porcaria que são.

Coimbra, 11 de Dezembro de 2010.
Joaquim Jorge Carvalho

sábado, 11 de dezembro de 2010

O que fica


Tão célere se some a Graça
Tão pouco fica de Agora
Tão magra se faz a Hora
De tão triste, porque passa.

Viagem entre Vila Real e Coimbra, 10 de Dezembro de 2010.
[A MP anotou o poema que, sem licença, viajou connosco.]
Joaquim Jorge Carvalho

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

What if...


E se isto tudo – Minho, Trás-os-Montes, Coimbra, Portugal, o planeta Terra, o universo – fosse apenas um centro comercial de dimensão razoável boiando no universo?
E se a Terra não fosse senão um hipermercado para deuses remediados e o Senhor Tempo (ou Cronos) não fosse senão uma espécie de Belmiro de Azevedo globalizado no bom sentido?
E se nós, homens e mulheres, animais, plantas, rios, mares, não fôssemos senão produtos de marca branca com o rótulo de “bens perecíveis”?
Por se aproximar a data limite da validade, eu já devo estar em promoção, com desconto mui generoso. É comprar agora ou nunca, porque depois azedo, estrago-me. A menina Afrodite não viu a publicidade, não?

Ribeira de Pena, 09 de Dezembro de 2010.
Joaquim Jorge Carvalho

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

Imagine


John Lennon foi assassinado há 30 anos.
Celebramo-lo e choramo-lo, pois.
Celebramo-lo lembrando a obra e escutando eternamente os mais belos temas do pop-rock, quer os que compôs no aconchego dos Beatles, quer os que Yokofez depois.
E choramo-lo, também, residentes nessa ferida que é imaginar quanta beleza nos roubou o assassino de Lennon (sei o nome desse porco, mas não o escrevo). Imaginemos, por um instante, que a melhor canção de sempre estava para ser escrita ainda...
Choro Lennon no "Muito Mar".
Celebro-o na minha fiel Primera, curtindo um cd antigo, em viagem para Vila Real. "Imagine all the people", etc.

Ribeira de Pena, 08 de Dezembro de 2010.
Joaquim Jorge Carvalho

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

Mãos


Uma mão só é um lugar vazio se nela o gesto de buscar outra mão é adiado ou ausente. Dá-se e recebe-se com as mãos. A própria mão que escreve é o corpo visível de um gesto. E a literatura que vale a pena dá-se e recebe-se como um alimento ou um aconchego. Com as mãos da inteligência. Com as mãos do coração.

Arco de Baúlhe, 19 de Novembro de 2010.
Joaquim Jorge Carvalho

Dara Perdida


A Dara viveu com a minha família durante cerca de 13 anos. Partilhou connosco os rigores invernosos de Ribeira de Pena, o majestoso areal da Figueira da Foz, os parêntesis com relva da minha Coimbra asfaltada, o enjoo das viagens entre Trás-os-Montes e a Rua Dr. Manuel Almeida e Sousa, a minha voz resmungando-ralhando, a Vaninha nos meus braços como bela adormecida, a lareira dos Dezembros crepitantes, o azulejo fresco da casa coimbrã, as gargalhadas, os silêncios. A Dara foi parte da minha família.
Morreu em 2008, após longo sofrimento que nos matou, também, a todos vendo-a morrer.
Às vezes, revemo-la sorrindo, numa fotografia, com aquele sempiterno ar de adolescente desvairada e ternurenta. É então que Dara significa, em nós, o que outras perdas preciosas significam: saudade.
A saudade é, portanto, uma cadela. É bonita. Apetece afagá-la. Lambe-nos. Ladra-nos. Uiva.

Arco de Baúlhe, 03/12/2010.
Joaquim Jorge Carvalho

terça-feira, 30 de novembro de 2010

Never more


O meu pai apareceu-me, uma vez mais, num sonho. De manhã, além do frio, senti nos ossos a sua falta. Como o corvo de Edar Allan Pöe, cada pedaço do meu mundo grasna a ausência das suas mãos, da sua voz, do seu cheiro, do seu discurso, da sua graça: Never more. Nunca mais.
Houve muitas vezes em que, de menino a homem, estive com meu pai.
Mas houve sobretudo, também, tantas vezes em que não estivemos juntos. Tantas.
Agora?
Never more, merda.
Nunca mais.

Arco de Baúlhe, 30-11-2010.
[Para o Daniel, cujo pai habita o mesmo Planeta Dor.]
Joaquim Jorge Carvalho

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

Xadrez da Inteligência


A Escola Básica do Arco de Baúlhe vai ter xadrez na Biblioteca.
Lembro: já houvera, antes, na Escola, um Clube dedicado a esta ginástica intelectual; agora, será uma das actividades disponibilizadas na Biblioteca.
Promovida pela bibliotecária, a colega Rosário Mendes, aos professores colaboradores da Biblioteca foi oferecida uma sessão de esclarecimento sobre o xadrez. Compreenda-se o objectivo: se os docentes estão ao serviço, em certas ocasiões, da nossa Biblioteca, natural será que dominem, entre outras competências, alguns segredos da arte xadrezística.
O professor Paulo Pinto - generoso visitante deste meu blogue - conduziu, com clareza e brilho previsíveis, a sessão. Eu, que já sabia um bocadinho do assunto, aprendi muito!
No devir da sessão, dou por mim a reflectir: não se ganharia também em que, como noutros países, se tornasse obrigatória a prática do xadrez, pelos nossos alunos, nas escolas do 1.º ciclo (e nas seguintes)?
Estou a pensar em benefícios óbvios, amigos: hábitos de concentração, desenvolvimento do raciocínio, reforço do sentido de perseverança, etc.
Pertinente, n'est-ce pas?

Ribeira de Pena, 25 de Novembro de 2010.
Joaquim Jorge Carvalho

Alegre


O problema de Manuel Alegre é sobretudo ter apoios partidários declarados. O Bloco de Esquerda acantona-o numa lógica de "enfant terrible" libertário mas não presidenciável. O PS de Sócrates tinge-o de neoliberalismo envergonhado e pessoalmente indecente.
Eu creio que foi sobretudo Sócrates que, apoiando publicamente Alegre, o condenou à probabilíssima derrota nas presidenciais.
De modo que Cavaco, quase de certeza, (re)triunfará.
Mas num país onde morreram o livre pensamento e a revolta, convenhamos, que escolha mais indicada para o poder maior do que uma respeitável múmia política?

PS: Tenho ouvido e lido referências venenosas a um putativo passado de desertor que impenderia, como mácula eleitoralmente conveniente, sobre Alegre. É tão ridículo, injusto e estúpido falar nesses termos como, por exemplo, chamar anti-patriotas aos alemães que voluntariamente se recusaram a colaborar com Hitler na 2.ª Grande Guerra.

Ribeira de Pena, 25 de Novembro de 2010.
Joaquim Jorge Carvalho

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Calendário Mental


I
Papéis, papéis, papéis, papéis, papéis.
Aulas.
Reuniões, reuniões, reuniões, reuniões, reuniões.
Casa.
Papéis, papéis, papéis, papéis, papéis.
Aulas.
Reuniões, reuniões, reuniões, reuniões, reuniões.
Casa.
Papéis, papéis, papéis, papéis, papéis.
Tudo tanta coisa. Tudo tão rotina & burocracia. Tudo tão quase nada.
Do que eu gostava mesmo, Mãezinha, era de ser professor.

II
Einstein sobre o infinito (cito de cor):
«Só há duas coisas verdadeiramente infinitas: o Universo e a Estupidez Humana. E sobre o Universo não tenho a certeza.»

III
Se toda a mediocridade fosse, antes, uma praia matutina, com o cheiro à maresia da Novidade verdadeira!

Ribeira de Pena, 10 de Novembro de 2010.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.topazio1950.blog.sapo.pt.]

terça-feira, 9 de novembro de 2010

Sonho por Bernardo Soares


Eu tinha um sonho que ninguém via:
Era meu só; dizê-lo era perdê-lo
Porque a única razão, sabei!, de tê-lo
Era mais ninguém saber do que eu sabia.

Não se diz eu sei um sonho como quem
Diz eu sei um ninho que é só meu
(Mas era assim tesouro a que ninguém
Dava o valor do ouro que era o seu).

Agora, por ser velho, já perdi
O medo de o dizer, o revelar –
Trouxe o Tempo a luz e percebi
Que um sonho é um ninho por contar

E que morria o sonho desse medo
De eu dizer ao mundo o meu sonhar.
Ora, é pior a perda do segredo
Que o sonho ter morrido sem voar.

O sonho é mais, direi, que meu.
Por isso o solto, o grito, ai, no ar
Que este sonho-ninho só nasceu
Para eu próprio voar.

Ribeira de Pena, 09 de Novembro de 2010.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em www.http://louletania.com.]

Wild Life


Sempre gostei de documentários televisivos sobre a vida selvagem. Graças sobretudo à BBC, sei hoje muito mais do que, em teoria, deveria saber sobre os hábitos reprodutivos dos pinguins, as diferentes formas de veneno que há nas serpentes, ou as dificuldades de sobrevivência do urso polar.
Aprendemos, com esses vívidos relatos, que na selva vinga a lei do mais forte. Não raramente, esqueço-me de accionar o botão da piedade e dou por mim entusiasmado com a agilidade e eficácia da caçada dos leões, justamente premiados com a carne fresca de gazelas jovens. Nunca há ali questões de moral ou ética. É assim porque tem de ser assim.
Já todos vimos como os animais, em sua bestialidade sobrevivente, exploram sempre que podem a fraqueza dos outros. Um ser ferido, ali, tem normalmente a sua (má) sorte traçada – e é ele, entre todas as vítimas possíveis, a mais provável morte a haver. É assim. É a selva.
No mundo dos homens, não é assim.
Não?
Sabe-se que “os Mercados”, assim que lhes cheirou a sangue (i.e., a falência económico-financeira), apertaram com a Grécia e a Irlanda e, agora, apertam com Portugal.
Num mundo diferente da selva, os países em maiores dificuldades teriam maior tolerância dos mais fortes (em matéria de juros, por exemplo, no presente contexto).
Num mundo onde vigore a lei da selva, quanto maiores forem as dificuldades dos países, mais exigente e cruel é o tratamento dos banqueiros nacionais e internacionais.
Sucede que os países são constituídos, antes de mais, por pessoas. São elas que sofrem. Os pançudos nacionais e internacionais não querem saber disso porque não. Porque é assim. Porque é a selva.
Gil Vicente falou, com propriedade, dos onzeneiros infernais. Zeca Afonso falava dos vampiros que não deixam nada.
Senhores, escutai: o capitalismo (este capitalismo) não deveria ser o fim da História.

Ribeira de Pena, 08 de Novembro de 2010.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em www.fotosearch.com.]

domingo, 7 de novembro de 2010

Liberalismo(s)


Pessoa amiga deu-me a ler um livrinho precioso intitulado Alguém Diz Tu - Quatro Conversas com Óscar Lopes (Porto, Ed. Campo das Letras, 2000). Trata-se de um conjunto de entrevistas ao insigne intelectual (co-autor da monumental História da Literatura Portuguesa, da Porto Editora) conduzidas por Manuela Espírito Santo, José Viale Moutinho e Francisco Duarte Mangas.
O livrinho tem apenas 81 páginas (incluindo-se já, neste limite, um prefácio do galego Méndez Ferrín). Mas soube-me muito bem. É uma espécie de oxigénio isto de privarmos com um grande nome dos estudos literários, beneficiando tão intimamente da sua inteligência e lucidez.
Para além de revisitarmos, pelo seu discurso, grandes nomes da escrita, curiosas memórias, peripécias singulares e temas reactuais como o (des)Acordo Ortográfico, há ainda a possibilidade de gratamente nos reencontrarmos, à esquina de um parágrafo, com o livre pensamento livre.
É o caso da opinião que Óscar Lopes corajosamente avança, muito ao arrepio da moda dos opinion makers do nosso medíocre presente, sobre o chamado "liberalismo" ou "neoliberalismo" (pp. 17-18):
«De um modo geral, eu mantive sempre o culto das liberdades individuais, portanto é sobretudo o liberalismo económico que me choca. Há um autor português que exerceu muita influência em mim, na minha geração. Trata-se António Sérgio, que fazia essa distinção muito clara entre o liberalismo económico, que é a concorrência, a caça ao lucro, e o liberalismo político, que é a defesa das liberdades essenciais. Estas duas coisas acho que são coisas diferentes. É muito importante a consolidação e até o desenvolvimento do liberalismo político, mas não acredito no liberalismo económico - por isso sou socialista.»
Assim não pensam, de certeza, os Sócrates, Passos Coelhos e quejandos espíritos da nossa praça - tão veneradores que são dos míticos "Mercados".
Também eu vou, aqui, pelo António Sérgio, embora não me atreva a achar-me, como Óscar Lopes, socialista. Lamento, mas dou-me irremediavelmente mal com rótulos.

Ribeira de Pena, 07 de Novembro de 2010.
Joaquim Jorge Carvalho