Bússola do Muito Mar

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Número de Ondas

domingo, 7 de novembro de 2010

Sono, Sonho


A perturbação do sono tem a ver com a idade, diz-se.
Não me custa percebê-lo, não me custa aceitá-lo.
Mas a perturbação do sonho? Tem a ver com quê? Diz-se: com a morte da ingenuidade; com a morte da esperança.
Não me custa percebê-lo. Custa-me aceitá-lo.

Vila Real, 06 de Novembro de 2010.
Joaquim Jorge Carvalho
[Foto JJC/2010]

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

O segredo da escrita


Estrangeiro do presente, sigo pela estrada
No avesso da infância, cansado de viver.
No devir de tudo, conheci o nada
Sigo, estrangeiro, a estrada de morrer.

Aprendi bem a arte de desistir
À força de perder sonhos seguidos.
Creio pouco agora no porvir
Por vir de tantos sonhos falecidos.

Esperar já foi emprego dos mais nobres
Mas hoje é uma noite que se adensa -
Afiz-me, assim, à puta indiferença
Que é a aspirina dos mais pobres.

Sou um rei mago cego, desistente
Da estrela-luz, do deus menino.
Devim só este fim inconsequente:
Escrevo, ai, por não haver destino.

Ribeira de Pena, 5 de Novembro de 2010.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem é uma criação de Van Gogh ("Sorrow", 1882).]

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

Incontinências


Sabemos o desconforto que há num desarranjo intestinal: a vida parece abandonar-nos, dolorosamente, sobretudo na forma líquida. Estamos sempre quase a desmaiar, que é (deve ser) parecido com estarmos quase a morrer.
Há muito tempo que não sou sujeito a incómodos desses. Mas há outras formas de tortura que lembram as agruras viscerais da digestão desregulada. Falai, por exemplo, com Directores de Turma do século XXI português e sabereis do que falo. Nunca como agora se assistiu a tal incontinência burocrática. Vão-se salvando da loucura alguns mais resistentes e outros que, lá no íntimo, talvez até apreciem esta fúria legisladora e regulamentar por nunca terem gostado desse pormenor, cada vez mais secundário, de dar aulas.
O professor burocrata vive de grelhas, de estatísticas, de "listagens", de estratégias, de competências essenciais & transversais, de níveis de desempenho, de metas, de critérios e percentagens, de projectos disto & daquilo. Interrogo-me: que tempo lhes resta para a leitura de um artigo de jornal ou de um livro? Que tempo lhes sobra para se tornarem pessoas mais interessantes? Que tempo lhes fica para se cultivarem e oferecerem aos seus alunos a novidade?
É proibido falar de cansaço. "Quem se cansar dá a classificação a outro" (poderia dizer o senhor Miguel Sousa Tavares, conhecido Catão e espécie de escritor de grande sucesso). O sistema, hoje, tende a castigar os renitentes, os tais saudosos do tempo em que a principal ocupação era trabalhar com os alunos.

Senhor, quando se arranjará remédio para este desarranjo?

Ribeira de Pena, 04 de Novembro de 2010.
Joaquim Jorge Carvalho

Eles sabem o que fazem


O Daniel Abrunheiro é o melhor escritor português vivo. Já o disse. Repito-o enquanto não morrermos (eu ou ele).
É sobretudo um Poeta. Mas escreve (irremediavelmente bem) noutros territórios. Isto inclui a crónica.
Soube agora que o Daniel foi censurado por um jornal ribatejano por - alegadamente - se atrever a opinar sem apresentar "factos".
O único facto que se percebe nesta história fedorenta é que o país anda a morrer à míngua de higiene e de vergonha. O país todo. Na televisão, o espectáculo resume-se ao parlamento; mas a falta de cerviz não é exclusiva dos anões mediáticos: anda pela província, passeia-se por repartições modestas, esgueira-se por redacções da terrinha, diz adeus ao fiscal autárquico e olá ao senhor industrial das obras públicas.
Pouca gente ainda conhece o Daniel, o que é uma desgraça nacional. Mas lanço um desafio a quem me ler por aqui: imaginai que o Manuel António Pina via barrado um texto no canto superior do JN. Pois o que sucedeu é isso - com esta a diferença: o Daniel tem menos dinheiro e conhecidos que o (também) grande escritor-cronista do dito diário.

Ribeira de Pena, 04 de Novembro de2010.
Joaquim Jorge Carvalho
[Nota: é muito importante continuar a visitar o blogue do Daniel. Ao fundo desta página, ofereço-vos o precioso link. Seguir http://www.canildodaniel.blogspot.com.]

A vulgaridade interrompida


Em Pamplona, Espanha, comemorou-se o Dia Europeu da Ópera com um maravilhoso concerto não anunciado, a cargo de grandes vozes interpretando sucessos musicais, no improbabilíssimo contexto de um bar espanhol (muito semelhante ao Café Santa Cruz da natal Coimbrinha).
Naquele pic-nic de burguesas e burgueses, portanto, houve uma coisa simplesmente bela: a Música irrompeu pela tarde e iluminou bebedores anónimos de vinho ou café, comedores monótonos de tostas mistas, fumadores fugazes de tabaco barato, gente cumprindo a tarde funcionária de uma Primavera qualquer. Visto isso daqui, eu estava lá.
A Beleza interrompeu a rasteira existência de circunstantes habituados a nada.
Isto é, a Beleza interrompeu o Nada. Isto é, Tudo substituiu, por minutos, o Nada.
No final, sobre os aplausos comovidos (decerto gratos) dos beneficiários, alguns dos cantores levantaram cartazes celebrando a Ópera. Um deles dizia singelamente: "Vês como gostas?"
Eu tenho no meu coração, também, um cartaz assim, sempre pronto para mostrar aos meus alunos, aos meus amigos, à minha Mãe. Às vezes, no exacto instante do fulgor de um poema, de uma história, de uma música, de um filme, de uma visão cheia de céu, saco do meu cartaz em forma de palavras ditas, ou então de sorrisos, ou então de silêncios, e digo-lhes: É ou não é bonito?
Atentai, distraídos: a vida só vale a pena porque de vez em quando é visitada pela Beleza. Acontece aliás que, em tais momentos, Ela - a vida - se torna maior. E que, em vez de apenas estarmos, somos.

Ribeira de Pena, 3 de Novembro de 2010 (após ler E-mail precioso do Daniel remetendo para o Youtube).
Joaquim Jorge Carvalho

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

In Memoriam Arménio



O meu colega Rovira, que jogou comigo no União de Coimbra há 18 anos, disse-me tristemente:
- Morreu o Arménio.
O Arménio era guarda-redes. Pouco alto para a função, com um ar rural mais do género Bento que do género Damas, tornava-se um gigante e um acrobata corajoso durante a hora e meia da função futebolística.
Era gago e brincava, sem complexos, com isso. Era simples e generoso. Era um homem com a franqueza e a grandeza genuína do campo português.
Gostaria de ter estado no seu funeral.
Joguei com ele no Luso, quando subimos, sob a batuta do mister Filipe, à 2.ª divisão nacional. Reencontrei-o no União, às ordens do mister Niza. Em qualquer dos lugares e em qualquer dos tempos, o Arménio era aquela enorme competência a defender as balizas e, simultaneamente, uma das gargalhadas mais puras de toda a nação futebolística que conheci.
A morte do Arménio é mais uma numa época que começa a ser, na minha vida, uma espécie de Outono final de tudo. Na minha rua, uma língua de alcatrão está onde eram duas árvores à entrada da Escola do Casal Ferrão. As fotografias dos meus álbuns são maioritariamente de gente que já partiu. O calendário tem apodrecido muitas coisas belas que há não muitos anos eram a formosura maior do mundo. O União de Coimbra já não tem futebol sénior. Para cúmulo, a minha filha cresceu e estamos, em minha casa, muito mais sós. A Coimbra que eu queria está, agora, a muito mais dos 260 quilómetros rodoviários. Talvez nunca mais lá chegue, afinal.
O tumor do Arménio e o resto: tudo lapsos de fim. Tudo fim.
Hoje, no regresso a Ribeira de Pena, muito desiludido com a profissão, com a vida, com isto tão pobre que foi feito de mim, aterrou no meu carro uma imagem terrível, digna talvez de piedade ou troça: eu num barco, à proa, olhando em frente; atrás, o meu pai, o meu cunhado José Manuel, o meu sogro, a minha tia Rosário, duas colegas, o Arménio. Ouvia bem os gritos deles, o terrível chamamento deles, mas em frente, pensava eu, é que estava a vida. Não me apetecia nada olhar para trás. Ou, mesmo que apetecesse, temia olhar. Contudo, o cabrão do barco inclinava-se para a ré, puxava-me para a ré, reclamava-me para a ré, tal o peso dos mortos.
O Arménio defendia a baliza das suas equipas como poucos. Estou aqui a recordá-lo forte, sólido, confiante, destemido, prático, eficaz, risonho – mas não me consigo libertar desta imensa pena de não haver defesa para a puta da mortalidade.

Ribeira de Pena, 12 de Outubro de 2010.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, no blogue dos Veteranos do União de Coimbra.]

domingo, 10 de outubro de 2010

Gabriela Mistral: Impressões de um Encontro


Encontrei inesperadamente, no Centro Comercial “Fórum – Dolce Vita”, uma senhora chilena que poucamente conhecia até hoje. Fui grata vítima do seu encanto, feito de palavras e de visões muito lindas, ainda que muito tristes, sobre a vida e sobre a escrita. A senhora chama-se Gabriela Mistral e recebeu o Prémio Nobel da Literatura em 1945. Foi diplomata ao serviço do seu país e, nas curvas da sua biografia, esteve também em Portugal por algum tempo. Ao receber das mãos do sueco rei Gustavo V o prémio, não deixou de dizer: «Graças a uma felicidade que me transcende, sou neste momento a voz directa dos poetas da minha raça e a indirecta das muito nobres línguas espanhola e portuguesa.»
Gabriela Mistral (nome literário de Lucila Alcayaga Godoy) faleceu oficialmente a10 de Janeiro de 1957. Digo “oficialmente” porque, ao contrário do que atrás refiro, a senhora está viva e falou comigo, seduzindo-me com graça e brilho bem notáveis.
Encontrei-a sob a forma de uma Antologia Poética , na mesa circunstancial de uma mini-feira do Livro, ao irresistível preço de 3 (três) Euros. O livro, com selecção, tradução e apresentação de Fernando Pinto do Amaral (Lisboa, Ed. Teorema, 2002), revisita a – curta – obra da autora e foi para mim, nessa noite de 9 de Outubro, uma espécie de regresso ao Verão.
Dou-vos a saber alguns dos pedaços de encontro que obtive com Mistral.
Nas páginas 13 e 14, a autora explica um pouco da sua arte poética. Para além de defender, desde logo, a importância da memória para um escritor («escrevo no meio de uma emanação de fantasmas» - p. 13) e de a busca da perfeição formal implicar muito e humilde esforço («Corrijo mais do que as pessoas julgam […].», p. 14.), Gabriela Mistral diz-nos que este ofício de escrever não se faz em linha recta: «Vim de um labirinto de colinas e alguma coisa desse nó fica em tudo o que faço, seja verso, seja prosa.» (p. 14.) Que a escrita responde a uma necessidade sobrevivência (de quem escreve e de quem lê), consubstanciada na urgência de um território amigável, uma pátria essencial onde se possa verdadeiramente estar: «Escrever […] É a sensação de ter estado por umas horas na minha pátria real, no meu costume, no meu desejo à solta, na minha liberdade total». (p. 14.)
Lembra também que escrever é uma forma de dar ordem às coisas, ao mundo: «Gosto de escrever numa sala arranjada, embora seja uma pessoa desarrumada. A ordem parece oferecer-me espaço, e esta ânsia de espaço têm-na a minha vista e a minha alma.» (p. 14.) E que, nessa unidade espaço/tempo que a vida humana é, o próprio passado se pode reunir ao presente, nomeadamente pela recuperação da infância: «A poesia é em mim muito simplesmente um resíduo, um sedimento da minha infância submersa.» (p. 14); «Alguns países eu recordo / como recordo a minha infância.» (“Água”, p. 68.) A própria Natureza recupera entes e circunstâncias de outrora, presentificadas no discurso poético: «A ovelha diz-lhe “Mãe” / e o vento diz-lhe “Amada”.» (“Patagónia”, p. 113). A poesia aporta, afinal, os mil pormenores vistos, aprendidos e sentidos na Infância – e o que fica é, por paradoxal que tal se nos afigure, o contrário da ausência: «o rio dentro do meu sonho.» (“Camponeses”, p. 105.)
Curioso é o facto de a autora defender a condição primacial da linguagem poética, da qual o mundo se vai tragicamente afastando. A Poesia parece ser a voz da Verdade: «Talvez o pecado original seja apenas a nossa queda na expressão racional e anti-rítmica à qual desceu o género humano […].» (p. 14.)
A leitura da poesia mistraliana está, eu vos garanto, cheia de pedras preciosas. Ofereço-vos algumas das que me mais e emocionaram. Exemplos, portanto.
Gabriela Mistral diz-nos (lembra-nos) que o Amor nos obriga a (querer) ser melhores: «Se olhares para mim, eu torno-me formosa». Dito de outra forma: o Amor torna urgente a necessidade de nos (re)avaliamos e de nos tornarmos mais dignos da Beleza que o Amor requer: «Agora que vieste e que me viste / dei por mim pobre e senti-me despida» (“Vergonha”, p. 26.)
Revemos, em boa medida, Garrett num discurso que admite, sem remédio (mas com graça) a coexistência de Céu e Inferno no Amor: «Dá-me Tu o final desta lenha / em fogão que não deixe de arder;» (“Nocturno da Consumação”, p. 61); «Aprendi que um amor é terrível / e me corta o bem cerce o prazer: / já ganhei o amor do vazio, / o seu desejo de nunca voltar, / a vontade de ficar na terra, / mão na mão e mudez com mudez, / despojada do meu próprio Pai, / já ceifada de Jerusalém!» (“Nocturno da Consumação”, p. 60.)
Um pouco semelhantemente ao que defende Saramago em Jangada de Pedra (quando diz de um encontro amoroso tratar-se da fundação de um Indivíduo novo, feito dos dois que se unem), a chilena sugere que um encontro de eus funda um novo Eu, uma espécie de dança una e harmoniosa: «Chamo-te Rosa e eu Esperança; / mas o teu nome esquecerás, / porque seremos uma dança / sobre a colina e nada mais.» (“Dá-me a mão”, p. 33.)
Fundamental, contudo, é que o Amor exista, por grande que seja o preço a pagar em sofrimento(s). O Amor permite-nos a sobrevivência de um motivo para acordarmos e nos levantarmos todos os dias: «Chama-me onde estiveres, ó minha alma, / e anda ter comigo, companheiro.» (“Canto que amavas”, p. 72.)
Sensível e lúcida como um Alberto Caeiro que viajasse para a Patagónia, Gabriela Mistral olha enlevada para uma (bela) criança adormecida. Quer ensinar –lhe, como a um anjo limpo, o ouro de se manter pura: «Quero ver se lhe ensino / o sono que esqueci». (“Sono grande”, p. 37.)
Eu tenho uma filha já com 26 anos e sabe Deus como me dói que ela cresça, me fuja. Manuel Alegre diz que a certa altura uma filha «não cabe já no berço» (Cão Como Nós, cito de cor). Mistral clama: «Não quero que esta menina / se transforme em andorinha.» (“Medo”,p. 38.)
A escrita é pessoal, em primeira instância. Mas é universal por destino. Nasce-se, como ensinou o nosso António Vieira, num lugar definido e concreto. Mas vai-se depois morrer, sublinha Mistral, num «país sem nome». (“País da Ausência”, p. 53.)
É ofício do poeta buscar resposta para a grávida incompletude do mundo visto por dentro. Isso explicará querer-se sempre o que não há, ou o que não é imediato nem óbvio – mas que é sempre o essencial: «Eu amo as coisas que não tive / tal como as outras que não tenho:» (“Coisas”, p. 54); «Procuro um verso que perdi, / e que aos sete anos me disseram. / Uma mulher a fazer pão / e cuja santa boca eu vejo.» (“Coisas”, p. 54); «Torna crianças os sentidos; / procuro um nome e não acerto, / cheiro a atmosfera ainda em busca / de amendoeiras que não vejo.» (“Coisas”, p. 55); «Ou o rio Elqui da minha infância / que ainda subo e atravesso. / Eu nunca o perco; e peito a peito, / como crianças, abraçamo-nos.» (“Coisas”, p. 55.)
É preciso reagir. É preciso actuar. É preciso fazer, criar. È preciso podar (n)a vida: «eu podo-a com um amargo brio / pra lhe dar o aspecto de um meu filho / até que se me torne criatura.» (“Sonetos da Poda – III – Filha da Árvore”, p. 85.)
Num belo poema intitulado “Pão”, Gabriela Mistral lembra-me o narrador de Aparição, de Vergílio Ferreira (nessa ideia de recolhimento, silêncio, paz e plenitude que o início e o fim daquele romance estrategicamente edifica). Escreve a chilena: «Como esta casa está vazia / fiquemos juntos, reencontrados / nesta mesa sem carne nem fruta, / ambos assim, neste silêncio humano, / até que os dois sejamos outra vez um só / e o nosso dia tenha terminado.» (“Pão”, p. 65.)
A rematar, retenho o que Gabriela Mistral diz para explicar o sentido que pode haver num simples gesto, na assunção de um movimento, na coragem de uma visita ou de um encontro voluntário: «Pude não voltar – voltei.» (“A Desprendida”, p. 83.)
Ainda bem que (me) voltaste, Gabriela. Ainda bem que te encontrei, nos encontrámos.

Coimbra, 10 de Outubro de 2010.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://poetsseers.org/nobel_prize_for_literature/gab/gabp.]

sábado, 9 de outubro de 2010

Quadra Militante


Não deixes que o caminho te escureça
Não deixes que alguém te colonize
Não sejas de quem te não mereça
Não queiras ser o chão de quem te pise.

Coimbra, 08 de Outubro de 2010.
Joaquim Jorge Carvalho
[Foto JJC.]

quinta-feira, 30 de setembro de 2010

Filosofia Mínima


A ética é também uma coisa estética.
Quero dizer: legalidade interior, legalidade com formosura, bem em forma de cartografia moral, passos voluntários para dignamente andarmos.
A deontologia pressupõe a ética, ou – dito de outra forma – mora na ética.
É como se a casa da profissão ficasse na rua da ética. Casa, portanto, em lugar justo, harmonioso, ecológico.
A ética é um conceito mais profundo, embora singelo de tão claro: ser para (bem) estar na vida.
A deontologia é talvez mais sofisticada em sua enunciação, mas não deixa de ser redutível a uma forma simples: estar para (bem) ser.
O ter, o obter, o parecer, o bem-estar e o pràquistar são outras coisas - nem sempre más, nem tão-pouco necessariamente boas.
A vida (viva o velho clichê) é um jogo. A ética e a deontologia tornam-no mais limpo, aliás, mais humano, aliás, mais humanista.

Coimbra, 27 de Setembro de 2010.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem (o filósofo Sócrates – o verdadeiro!) foi colhida, com a devida vénia, na wikipedia).

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

Deus é que sabe (parábola)


Era uma vez isto. Era uma vez nós. Era uma vez o país em crise.
Governo e oposições confessaram-se impotentes para resolver o problema. Veio o FMI (que é, como se sabe, anagrama de FIM). Contudo, em vez de solução, houve mais reticências e angústia.
Alguém perguntou, em desespero, ao famoso FMI: Que havemos de fazer, FMI?
O FMI respondeu: Só Deus sabe…
Com desespero redobrado, o país dirigiu-se ao próprio Deus e perguntou: Que havemos de fazer, meu Deus?
Deus quis saber ao certo qual era o problema de Portugal. Falta de dinheiro, informaram.
Façam mais, sugeriu Deus, naquela sua adorável ingenuidade.
Explicaram-Lhe que no mundo terreno as coisas não se podiam fazer assim, que era complicado, que havia regras, que tinham de viver com o dinheiro existente, autorizado, legal, apenas e só com esse dinheiro.
Foi nesta altura que Deus, quase impaciente, suspirou um tsunami por toda a eternidade e disse: Pois então, se só há esse dinheiro, deveis distribui-lo melhor.
Palavra do Senhor.

Porto, 23 de Setembro de 2010.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem (“O nascimento de Adão”, de Michelangelo) foi retirada, com a devida vénia, de http://www.girafamania.com.]

Morte & Vida


Fez-me muita impressão que o meu avô Manuel, pai do meu pai, morresse. O tio Zé Melo deve ter percebido a minha incapacidade de lidar com o fim e disse como se respondesse a algum comentário:
- A morte é o diabo.
Notei, na missa fúnebre, a quantidade de chapéus-de-chuva, a lama nos sapatos das senhoras, os olhos vermelhos da mãe e das tias. O padre teceu sobre o passamento um longo murmúrio e, algures na retórica lamentosa, assegurou à família que a este acidente biográfico do avô se sucederia o princípio da verdadeira existência. Afiançou-nos:
- Deus é a vida.
Na minha cabeça, por anos, o tio Zé Melo e o sacerdote discutiram sobre o assunto. O José Régio, no amargo “Cântico Negro”, participou no debate. O Vergílio Ferreira, no “Em Nome da Terra”, esmurrou o clero. O Mário de Carvalho, no “Deus passeando na brisa da tarde”, foi elegantemente ambíguo. O José Saramago, no “Evangelho segundo Jesus Cristo”, riu-se escandalosamente da ficção bíblica.
Eu, por razões de sanidade mental, gosto de fingir que não há morte. Mas, oh Deus, quando a realidade desmente essa ilusão, há sempre uma voz que repete dentro de mim:
- Oh diabo! Oh diabo …

Ribeira de Pena, 22 de Setembro de 2010.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.ultrapassandobarreiras.blogspot.com.]

domingo, 19 de setembro de 2010

Sábado sabadinho


Dou-me conta desta fortuna livre de impostos: é sábado, há o tépido sol beijando-me a pele, vivo a paz universal em versão ribeirapenense, estou num presente ainda tão meu!
Entre mim e o sol, há vegetação arbórea muito verde. A luz empresta um brilho de ouro à calçada. Esparsos viajantes cruzam a rua Camilo Castelo Branco. No Ali Babá, nos arredores de uma maravilhosa chávena de café, corre placidamente a liga inglesa de futebol.
Milionário da rotina, é o que sou - e tão simples, irmãos, é a minha riqueza: está, hoje, tudo normal em Coimbra e na Madeira; é tudo tão presente, tudo tão vida; tudo tão magnífica continuidade.
Ou seja, uma fortuna!

Ribeira de Pena, 18 de Setembro de 2010.
Joaquim Jorge Carvalho
[Foto JJC.]

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

Já não o Verão


Por ser Outono
Deus toca ao piano dos céus
Uma sonata triste.
A cada nota, folhas d’árvore
Uma a uma caem
E a Terra
Como se fosse mãe
Acolhe-as
Como se fossem filhas.

Ribeira de Pena, 17 de Setembro de 2010.
Joaquim Jorge Carvalho
[O desenho – da autoria de Júlio Pomar e incluído na obra de Mário Dionísio, O Dia Cinzento e Outros Contos - foi colhido, com a devida vénia, em http://www.centromariodionisio.org.]

Tempo


O Tempo é um fidalgo prepotente
Fumando a minha vida até ao fim.
O fumo ascendente e vertical
São cósmicas palavras que por mim
Lamentam a cinza indiferente
Caindo sobre a terra horizontal.

Ribeira de Pena, 17 de Setembro de 2010.
Joaquim Jorge Carvalho
[Foto JJC.]

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

Despesa Social


Ouvi o Dr. Miguel Beleza, eminente economista da nossa contemporaneidade, perorar, na TSF, sobre a lusa crise de finanças públicas. Segundo o especialista, a solução passa por cortar na chamada "despesa social". Bondosamente, o ex-ministro disse que bem sabia da dor que tal causaria nas camadas mais desfavorecidas da nossa população, mas - hélas - não via alternativa.
Eu estou de acordo com este exemplaríssimo senhor, de um ponto de vista fonético. Também eu acho que o segredo passa por cortar na "despesa sucial".
Reparastes? Escrevi voluntariamente "sucial", e não "social".
Porque me parece mais justa e eficaz a medida de cortar nessa despesa que uma "súcia" obscena de privilegiados representa para o Estado: falo dos beneficiários das reformas milionárias (às vezes, duplas e tripas, quase sempre precoces) de altos funcionários, das mordomias de administradores glutões, dos bónus pornográficos de altos gestores, da fuga offshórica aos impostos, dos impiedosos juros cobrados por bancos. Etc, etc, etc.

Sumário: cortemos na despesa sucial, sim - e já!

Ribeira de Pena, 15 de Setembro de 2010.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.universohq.com.]