Bússola do Muito Mar

Endereço para achamento

jjorgecarvalho@hotmail.com

Número de Ondas

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

Ricardo Reis no lugar do morto


Salva da névoa o rosto amado
Não deixes devir nada o mor de ti
Ignora o presente sem passado
Ama aonde fores o que é aqui.

Oferece ao já sonhado guarida
(o mor do mar é mais que mil marés)
Rebusca em ti o coração da vida
Encontra no que eras o que és.

Ribeira de Pena, 15 de Setembro de 2010.
Joaquim Jorge Carvalho
[O primeiro verso aconteceu-me em viagem, pelas 08h10m. O resto deu-se-me à tarde, por nesta quarta-feira não haver reuniões.]

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

Recado antidepressivo


Às vezes, a meta não é ainda no final desta curva. Aparece, como se nascesse de um qualquer cinismo superior (muito fora da graça de Deus), curva outra ainda. Mais: a planura prometida é novamente chão íngreme e irregular.
Às vezes, é isto. É assim, também, a vida. Às vezes, somos Sísifo: que fazer senão carregarmos a pedra (ou a cruz) que nos cabe, desacreditando embora de algum dia a nossa viagem ter direito a chegada?
O contrário seria não estar, não sermos.
Continuamos, logo, existimos.

Ribeira de Pena, 10 de Setembro de 2010.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida - com a devida vénia - em http://www.blogdainseguranca.blogspot.com.]

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

Corai, Contemporâneos


Vi, no dia 7 de Setembro de 2010, na RTP2, um excelente documentário sobre a vida de Tito de Morais. O programa poderia ter-se chamado “No tempo em que a Ética era mais do que uma palavra”.
Tito de Morais foi um antifascista de grande carácter, que sacrificou desde muito novo o conforto pessoal em favor da luta pela liberdade e pela justiça. Esteve preso, foi torturado pela PIDE, sofreu o exílio e o opróbrio. Veio a ser um dos fundadores do PS e, já depois do 25 de Abril, elegeram-no deputado e presidente da Assembleia da República.
Os amigos e os filhos unanimemente o recordam como um exemplo de honra e de teimosia. Um pormenor biográfico-doméstico ajuda a fazer luz sobre a personalidade deste português. Alguns conhecidos e camaradas, cientes por um lado das suas qualidades académicas e profissionais, e por outro da sua frágil situação económica, propuseram-no para um cargo de administrador de uma grande empresa. Tito de Morais recebeu o convite com bonomia, informou-se sobre as funções a desempenhar e, enfim, quis saber em quanto importava o salário.
Salário e mordomias concomitantes eram, globalmente, uma fortuna. Aquele socialista abriu a boca de espanto e confessou-se obrigado a recusar. Era demasiado dinheiro – sustentou então – num país onde o ordenado mínimo não ultrapassava os “30 contos”!
Se os políticos do nosso tão pobre presente se olhassem a este espelho…

Ribeira de Pena, 08 de Setembro de 2010.
Joaquim Jorge Carvalho

terça-feira, 7 de setembro de 2010

Condutores sem carta


Parece que a lei castiga os cidadãos apanhados a conduzir sem carta de condução com a impossibilidade de, durante algum tempo, poderem inscrever-se numa Escola habilitada a passar tal documento.
Isto é: o crime de conduzir sem carta, segundo percebemos, é legalmente castigado com o adiamento (talvez sine die) da obtenção da licença para conduzir.
Não se afigura inteligente, convenhamos, tal solução.
A minha filha V. sugere que estes indivíduos, muito ao contrário do que hoje se passe, sejam obrigados a tirar a carta num determinado prazo! A mim parece-me bem – e atrevo-me, já agora, a aditar alguns aspectos.
Os cidadãos apanhados a conduzir sem carta deveriam pagar, como pena para o seu crime, o valor de pelo menos duas vezes o custo da carta de condução. Deveriam igualmente ficar obrigados a frequentar aulas e a ir a exame dentro de um determinado prazo (curto). A não observância desta ordem determinaria a perda do valor já pago pelo cidadão e a concomitante obrigatoriedade de (novo) pagamento das aulas e exames (três vezes essa importância, desta feita), bem como de – dentro de um superveniente prazo – obter a licença de condução em falta.
A ideia (da V. e minha) será enviada, como sugestão, à Direcção Geral de Viação e ao Ministério da Administração Interna.
Que vos parece?

Arco de Baúlhe, 06 de Setembro de 2010.
Joaquim Jorge Carvalho

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

Vanovska


Fascista, o tempo pode, quer e manda. Não por mal, decerto, porque o tempo não tem a ver com moralidades. É assim. Assim se cumpre.
O tempo corre. O tempo, correndo, é. Mas de tão ininterrupto e fluido, às vezes parece que não anda.
As efemérides - boas e más - tendem a revelar a brutalidade de o caminho entre o presente e a morte se fazer sem pausas. "Já passou tanto tempo", dizemos nós, sem remédio, nessas ocasiões.
A coisa é triste. Pois.
Mas hoje é dia de festa, cantam as nossas almas. A Vaninha faz 26 anos.
Para os seus pais, que nela vêem uma espécie de eternidade, a Vaninha é o contrário da morte. Flores, ó menina nossa!

Coimbra, já 02 de Setembro de 2010.
Joaquim Jorge Carvalho & MP (Pais ba-ba-ba-bados)

D'Arte


Posto que é uma porcaria
O mundo todo em geral
Saudemos com alegria
A beleza excepcional
Do mundo que a arte cria.

Coimbra, 01 de Setembro de 2010.
Joaquim Jorge Carvalho
[Pintura (fotografada) de Guida Ornelas.]

sábado, 28 de agosto de 2010

O Sol é de quem


Este sol é meu, disse o senhor Fidalgo, cioso da luz recém-nascida.
Tementes do poder aristocrático, os velhos faziam de conta que não sentiam os dedos solares beijando-lhes graciosamente a velhice.
Uma criança, contudo, saiu daquele bolor obediente e gritou (repetindo o murmúrio do próprio avô): O sol é de todos.
O senhor Fidalgo hesitou entre o silêncio e o escândalo da indignação verbal. Optou por soprar como um touro poderoso e seguir o seu caminho, na pose proprietária de quem mede o seu tesouro pessoal, ameaçando com o olhar quem se atrevesse a usufruir do sol.
À passagem do o auto-proclamado dono da luz e do calor, a criança repetiu: O sol é de todos - e soltou até um traque admirável para tão jovem organismo.
Os velhos não se contiveram e por toda a praça se escutou uma gargalhada antiga e livre. O senhor Fidalgo disse: Que pouca vergonha, que pouca vergonha.
E os habitantes da vila regressaram, sem medos nem pudores, ao aconchego daquele sol.
O sol, não sei se vós já percebestes, é (mesmo) de todos.

Machico, 25 de Agosto de 2010.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, co a devida vénia, em http://blolog.globo.com.]

domingo, 22 de agosto de 2010

Ilhas Desertas Vistas de Longe


O velho turista vê, da praia, as Desertas. São como três folhas de papel amarrotado e deitado ao mar. O homem vê-as há mais de 30 anos. A nitidez com que as divisa depende, desde sempre, da claridade do dia. Hodiernamente, depende também das dioptrias amovíveis que socorrem o ofício olhador.
Entretanto, o tempo. Cada vez se torna mais improvável, para o turista anual, pisar uma vez que seja aquelas ilhas vistas de longe.
Talvez não seja mau. Talvez haja lugares que se amem melhor assim, livres dos nossos pés concretos e dos nossos olhos excessivamente conspícuos.

Funchal, 19 de Agosto de 2010.
Joaquim Jorge Carvalho

Amiga



Na 4.ª feira, dia 18, estivemos no Funchal, com uma amiga de mais de vinte e cinco anos. Jantámos em sua casa e, num repetido milagre que anualmente sucede, demo-nos como condóminos da lida diária. Espantoso o à-vontade. Espantoso o atrevimento familiar das curiosidades, dos lutos, dos desabafos e das piadas. Encontramo-nos como que não se vê desde ontem, e como quem se voltará a ver não daqui a um ano, mas amanhã.
Infelizmente, não estava a Teresinha, filha desta amiga. Tão-pouco estava a Vânia. Mas foi como se estivessem, porque os filhos dos nossos amigos são parte dos nossos amigos. Falámos delas, orgulhámo-nos, preocupámo-nos, suspirámos.
Esta amiga é uma eterna sonhadora, que a vida não conseguiu tornar amarga ou cínica. Gostamos do seu sentido de humor, do seu desassombro, do seu bom gosto, da sua inteligência.
Dormimos em sua casa. Custou-me, como sempre, adormecer – e li, de empréstimo, Uma Noite não são Dias, do amável Mário Zambujal (boa escrita, história fraquinha; muito melhores foram a Crónica dos Bons Malandros e as Histórias do Fim da Rua).
Pelas nove, o Funchal era todo sol, já. Manhã tão formosa no terraço, com o oceano em fundo. Conversa novamente fluida, cheia de confidências, sorrisos, silêncios cúmplices.
A nossa amiga chama-se Salvina. É um tesouro grande haver amiga(o)s assim.

Funchal, 19 de Agosto de 2010.
Joaquim Jorge Carvalho

sexta-feira, 20 de agosto de 2010

(In)Sguros de Vida(s)


A morte existe. Os que julgam saber esta verdade só verdadeiramente a sabem quando ela os atinge por dentro, nas vísceras.
A partir desse momento, o verbo morrer passa a fazer parte do quotidiano e convive, num paradoxo irreprimível, com a ideia de permanecer.
Permanecer como?
Numa seguradora próxima, um casal assustado trata de pormenores da apólice, ramo Vida, e calcula a receita que resultaria da súbita morte de ambos. A verba reverteria a favor da descendência.
O ser humano é eterno. Mas a eternidade é uma coisa tão frágil!

Machico, 20 de Agosto de 2010.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://olhares.aeiou.pt.]

Ao sol


No largo da igreja de Machico, à irregular sombra de centenários plátanos, velhos, taxistas, crianças e párias avulsos disputam os bancos disponíveis. Coube-me, hoje, um em sorte. Aproveito por minutos o beijo travesso do sol. Recolho, até, da madeira onde estou sentado, a quentura diferida que quase me queima os braços.
Sou, por inteiros segundos, daqui.
No atlas do Tempo, o presente é o melhor lugar para se viver.

Machico, 15horas de 20 de Agosto de 2010.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http:www.3m2.blogspot.com.]

Solilóquio de Ema Bovary durante o sono de Charles


Segreda-me cicia-me sussurra-me
Sibila-me segura-me sucede-me
Ressuma-me resume-me resulta-me
Assalta-me assoma-me acede-me
Caça-me coça-me cobre-me
Devassa-me desgraça-me abraça-me -
Sossega-me, sim?

Machico, 18 de Agosto de 2010.
Joaquim Jorge Carvalho

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

Elogio da Rotina


Confirma-se: amo a rotina. Tanto que a construo a meu modo, como se no meu dia eu fosse o próprio Deus fazendo as estações, o atlas quotidiano dos passos, os cenários, os actores contracenantes de mim.
Levanto-me nunca antes das 11, às vezes mais tarde. Cumpro a ginástica e a higiene, cumprimento quem vive à minha roda (isto inclui os mortos) e sigo, só, para o centro da cidade. No edifício Perestrelo, compro o jornal, tomo um garoto e como um curto bolo para desjejum.
Leio exaustivamente notícias, crónicas, anúncios. Saco, a seguir, de um capítulo da tese e re-vejo, re-corrijo, re-re-revejo, re-re-recorrijo, num ofício de formiguinha míope que combate gralhas, verborreia, redundâncias e repetições.
Pelas 14h30m, já caminho rumo à praia. Levo na mochila o a habitual garrafa de água, a queijada madeirense e um livro (à falta de outro combustível, alimento-me da obra camiliana que gostosamente revisito).
Antes de a MP se me reunir, hei-de ter tempo de um ou dois mergulhos no mar, de telefonar para a minha Mãe, de me oferecer alguns capítulos romanescos, de um ou outro verso trazido pela brisa.
Pelas seis e meia, regressamos a casa, talvez parando no Café junto à igreja para um sumo. A meio do caminho, entramos no Pingo-Doce e recolhemos pão, água, fruta.
À chegada, conversa em família, na sala (ou nas escadas, para aproveitar os últimos dedos do sol morrente). Pelas oito da noite, ouço os títulos do telejornal e saio para correr durante vinte minutos.
Segue-se o banho e, pelas nove da noite, o jantar. E, nem meia hora após, um tranquilo passeio até ao Café para a “bica” nocturna.
Serão adentro, a televisão-lareira: “Conta-me como foi” ou “Aqui não há quem viva”, numa primeira etapa; o “5 para Meia-Noite”, em conclusão.
Até madrugada, o computador: dactiloescrevo as correcções na tese e, mais raramente, consulto email e actualizo o “Muito Mar”.
Nunca adormeço antes das 3 da madrugada.
O dia seguinte, se os céus deixarem, há-de ser como este. E isso nunca é, visto do lugar onde me encontro, mau.


Machico, 18 de Agosto de 2010.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi recolhida, com a devida vénia, em http://www. joaokepler.blog.com.]

Olívia Empregada e Olívia Patroa


Soube que Manuela Moura Guedes está (ou estava) a banhos no Algarve. Desde que a TVI, para alívio do PS e do meio ambiente, acabou com o “Jornal de 6.ª”, a senhora está “de baixa”. Maleitas de cariz psicológico (adivinho, confio eu) certamente autorizarão a sua falta prolongada ao trabalho.
Ouso questionar: se Manuela fosse professora, que pensaria a Manuela jornalista de tanto tempo de baixa por razões (digamos) de amuo?


Machico, 18 de Agosto de 2010.
Joaquim Jorge Carvalho

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

Horizonte (popular)


Voa tão longe o olhar
Tão para lá de onde estou…
Quem dera poder voar
Para além disto que sou!

Machico, 16 de Agosto de 2010.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida – com a devida vénia – em http://germinai.wordpress.com.]