Bússola do Muito Mar

Endereço para achamento

jjorgecarvalho@hotmail.com

Número de Ondas

segunda-feira, 12 de abril de 2010

Uma sílaba de barba


Era uma vez um homem que só escanhoava metade da barba. Isto é, dividia o rosto a meio, no sentido longitudinal, e rapava os pêlos do seu lado esquerdo (pilosidade pescoçal incluída), deixando o lado direito incólume.
A mulher sorriu à ideia do homem. Perguntou-lhe:
- Não fazes a barba toda?
O homem sorriu também e disse:
- Uma parte de mim quer fazer; outra parte não. De modo que, em vez de fazer a barba, faço a bar.
A mulher admirou-se:
- A bar?
O homem explicou-se:
- Sim. Faço apenas uma sílaba da barba.
No final da primeira semana, a diferença entre um lado e outro notava-se bem.
Ao caminhar para o emprego, caminhando ao longo da rua, pessoas do lado direito da sua marcha (o barbeiro, o engraxador, o professor Manolete, a dona Berta da agência de seguros) comentavam, cheias de um azedume burguês:
- Parece que não tem tempo para cuidar do aspecto! Aquilo é doença ou preguiça…
As pessoas do lado esquerdo (o senhor Gregório da papelaria, a menina Lurdes na sua eterna cadeira de rodas, as irmãs Melo da frutaria, às vezes um ou outro marinheiro saindo da pensão Ideal) tinham uma visão diferente:
- Até dá gosto! Sempre muito bem afeitado, com um ar limpo e saudável... Fossem todos assim…
Claro que, no regresso a casa, pelas sete da tarde, o tom dos comentários tendia a transformar-se. As pessoas que o viam regressar, no lado direito da sua marcha (e que, de manhã, lhe ficavam à esquerda do seu movimento andante), admiravam-se bastante do que viam:
- Muito lhe cresce a barba da manhã para a noite. Parece um bicho! Eu não acredito em lobisomens, mas nunca se sabe…
Do outro lado da rua, aqueles que de manhã lhe haviam verberado o mau aspecto, resmungavam novos reparos, carregados de uma ironia venenosa:
- Ainda bem que o emprego lhe dá tempo para fazer a barba. Por isso nos fartamos de esperar na repartição. E queixam-se eles da falta de pessoal…
Dois meses depois da sua ideia, o homem já tinha, no seu lado esquerdo, uma tão imensa barba que, mesmo quem o observava do lado contrário (e sem grande esforço) percebia aquela divisão tão extraordinária.
Dos dois lados da rua, de manhã e de tarde, todos concluíam que se tratava, afinal, de um louco.
Só a esposa, que estava ao corrente da exacta excentricidade do homem, sabia que não era bem loucura. No máximo, seria uma sílaba de loucura. E por isso assegurava, em repetidas conversas com o barbeiro, o engraxador, o professor Manolete, a dona Berta da agência de seguros, o senhor Gregório da papelaria, a menina Lurdes na sua eterna cadeira de rodas, as irmãs Melo da frutaria, às vezes um ou outro marinheiro saindo da pensão Ideal:
- O meu marido é apenas lou.


Ribeira de Pena, já 12 de Março de 2010.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem-supra foi colhida na wikipédia. Trata-se de uma cena de “Recordações da Casa Amarela” (1989), de João César Monteiro, com o próprio no principal papel.]

domingo, 11 de abril de 2010

Humberto Delgado & Nós



O centenário do nascimento de Humberto Delgado foi marcado, sobretudo, pela exibição de um documentário (começado, salvo erro, em 2005) sobre a figura deste militar. O filme chamou-se “Meu Pai, Humberto Delgado”, tendo argumento de Frederico Rosa e realização de Francisco Manso.
Em 1958, Delgado desafiou a ditadura salazarista. Embora fosse general, com fatais ligações ao regime vigente, representou então o grito de liberdade que outros, menos capazes ou menos corajosos, não foram capazes de assumir.
Interrogado, no lançamento da sua candidatura, sobre o que faria ao presidente do conselho (António Oliveira Salazar) caso ganhasse as eleições, foi lapidar: “Obviamente, demito-o."
O regime fascista tratou de, por todos os meios, silenciar este combatente: filtrando as notícias nos jornais e na rádio, censurando opiniões, lançando boatos, mentindo, manipulando, prendendo, agredindo, “excomungando”.
Mas deu-se, há cinquenta anos, esse milagre, recorrente na narrativa da humanidade e das civilizações, de o povo vencer o medo e a “verdade oficial”. Pelo país, repetiram-se manifestações de apoio ao general, como se Portugal fosse visitado por um magno vento libertário, ao arrepio de instruções ministeriais ou da repressão policial (fardada ou secreta).
Sabe-se que esta história não acabou bem, se vista do lado dos que amam a liberdade. Delgado, recorde-se, foi vítima de uma das maiores vigarices eleitorais da História. Mais tarde, seria obrigado ao exílio. Finalmente, foi assassinado, em território espanhol, muito perto da fronteira portuguesa. Só no dia 25 de Abril de 1974 se cumpriria o sonho do general.
Celebrar, hoje, Humberto Delgado e a sua luta significa estar activamente do lado das causas que valem a pena: liberdade, democracia, tolerância, cidadania.
Por razões de economia, há em Portugal quem esteja disposto a pactuar com regimes como os da China, de Angola, da Arábia Saudita, etc., onde valores fundamentais da dignidade humana são postos em causa. Nada se lhes exige porque política e economicamente não é oportuno. A um nível mais doméstico, lembro-me até de o presidente Cavaco Silva quase pedir desculpa por visitar certo arquipélago português, ignorando cinicamente certas afrontas senhoriais.
Hoje, como em 1958, é importante que nos perguntemos de que lado estamos. A hipocrisia, ainda que elevada a razão de Estado, não deixa de ser o que é: uma prostituta com um livro de cheques no lugar do coração.


Coimbra, já 11 de Abril de 2010.
Joaquim Jorge Carvalho
[Uma 1.ª versão deste texto foi publicada no “Ecos de Cabeceiras”, em Maio de 2008.]

sábado, 10 de abril de 2010

Morte(s)


O meu anjo da guarda apareceu-me de madrugada, quando eu escrevia novamente sobre o meu pai.
O meu pai morreu-me há 3 anos. Mas, como me lembro dele todos os dias, é como se me nascesse e me morresse continuamente.
O anjo disse:
- Outra vez a escreveres sobre o teu pai?
Eu respondi:
- É mais do que sobre o meu pai. É também sobre mim.
O anjo perguntou-me:
- Sobre ti?
Eu respondi:
- É sobre a morte.
O anjo disse:
- A morte é um assunto muito delicado.
E eu:
- Pois é. Deve ser.
E o anjo:
- Tão delicada que só os mortos deviam estar autorizados a escrever sobre a morte.
E eu:
- Só os mortos?
E o anjo:
- Só os que partiram sabem do que se fala quando se fala da morte.
E eu:
- Mas os que ficam também têm a sua quota-parte de morrer.
E o anjo:
- Quem te disse? Quando o teu pai morreu, só o teu pai morreu. Quando morre uma pessoa, só morre uma pessoa.
E eu:
- Quem te disse?



Coimbra, já 09-04-2010.
Joaquim Jorge Carvalho
[Foto JJC]

sexta-feira, 9 de abril de 2010

Amante mais triste


A paixão é uma dor bonita que se escreve
A dois, passo a passo, no silêncio da areia
No segredo das praias.

É bela consoante a música dos passos.

Dura o tempo de a maré não voltar
E é grandiosa e trágica porque é impossível
Adiar a última onda.

Na areia da praia os passos escrevem
O amor
E apagam-se e nunca voltam.

Quando não há passos desenhados, existem
Silêncios de passos antigos.
Quando não há passos, há memórias.

O poeta existe nos passos e na onda
Que apaga os passos.
No silêncio lembrando-se.
(Às vezes, na própria saudade de tudo).

Por isso o poeta é um sábio e um ingénuo -
Do amor o amante mais triste.



Coimbra, já 09 de Abril de 2010.
Joaquim Jorge Carvalho
[Trata-se de um poema do meu livro “Desapontamentos dos Dias” (Coimbra, Ed. A Mar Arte, 1995). Faz também parte da Antologia Poética “Memória da Palavra” (Coimbra, Ed. Secretaria de Estado da Cultura – Delegação Regional do Centro, 1995). Foto JJC.]

quinta-feira, 8 de abril de 2010

Manual e Mãos


No ano lectivo de 2008-2009, a Porto Editora convidou-me a colaborar num projecto aliciante e assustador: criar, de raiz, um manual de Língua Portuguesa.
Ingenuamente, acreditei que era capaz de corresponder ao desafio. Depois, perante a magnitude da obra e a violência dos prazos, arrependi-me muito.
Não deixei de colocar, sempre, os meus alunos em primeiro lugar. O manual foi feito em dolorosos serões, sábados e domingos, interrupções lectivas. A minha mulher dizia-me, com frequência, que eu ia dar em doido. Eu, doido, dizia-lhe que não se preocupasse.
O manual, entretanto, publicou-se e, ao que julgo saber, vendeu-se razoavelmente. Soube que, já no final de 2009, a editora mandou fazer uma segunda edição. Senti um doméstico orgulho pelo facto, como compreenderão.
A lembrança desta experiência surge aqui a propósito de uma conversa com colegas, à mesa de um Café, em Coimbra. Ouvi gente verberar alguns manuais e, na enxurrada opinativa, postergar autores e editoras. Senti, na íntima pele da própria experiência, a facilidade com que atacamos o trabalho dos outros.
Eu creio que nunca mais me apanharão em projecto semelhante, tão dificultosa e responsabilizante é a tarefa. Mas (re)defendo uma ideia singela: a de que a qualidade do manual de Língua Portuguesa depende, em geral, mais do uso do que da matéria-prima.
Num texto introdutório de “meu” manual, escrevi sobre esse assunto e - com licença da Porto Editora - recordo algumas das afirmações aí produzidas. O texto dirige-se, formalmente, ao aluno (utilizador a haver do livro).

Ler. Escrever. Falar. Compreender. Exprimir ideias, emoções, sentimentos. A disciplina de Língua Portuguesa é “isto”. Um manual de Língua Portuguesa serve para ter isto “à mão”.
Neste manual, encontras textos fundamentais da literatura portuguesa. Nem sempre são textos fáceis de ler e de estudar; mas a abordagem que se propõe visa exactamente torná-los mais claros, aos olhos de leitores do século XXI, como tu. A dificuldade só exclui os preguiçosos ou os resignados – e esse não é (não pode ser) o teu caso.
A cada texto corresponderá, em regra, um conjunto de perguntas; as tuas respostas – feitas oralmente ou por escrito – provarão que compreendeste o conteúdo fundamental do que leste.
Por vezes, encontrarás palavras e expressões menos acessíveis (muitas delas assinaladas a negrito). São, à primeira vista, obstáculos à tua compreensão; em boa verdade, representam uma oportunidade para, com o auxílio de professores e de dicionários, enriqueceres o teu vocabulário.
Conhecer mais palavras é um modo de, a prazo, saber mais sobre tudo.
Entre textos e perguntas, o manual oferece-te “Apontamentos” – pequenas notas explicativas acerca dos assuntos e temas de interesse. Sublinha, nesses trechos, as partes que te parecerem mais importantes e transcreve-as para o teu caderno diário. Esse simples exercício é já, acredita, um modo de estudar.
A gramática aparecerá, de forma sistemática. Não a temas. Entende-a como um conjunto de regras, que ajuda a bem falar e a bem escrever. Os exemplos fornecidos tornarão mais fácil esta dimensão do estudo e a Ficha informativa no final de cada módulo esclarecerá, certamente, as tuas dúvidas.
O que vais aprender depende muito mais de ti do que do manual. O manual (este manual) é para ter à mão. Mas precisa de ti e do teu professor. Precisa de mãos.
Não te esqueças de, no final de cada módulo, revisitar a lista de objectivos que o manual seleccionou. Deverás assinalar com um X aqueles que, em tua opinião, efectivamente atingiste.
Dito isto, é preciso que conheças alguns perigos associados à utilização deste livro.
Perigos associados, em especial, ao exercício de ler.
É verdade, amigo: o uso frequente da leitura pode ter consequências graves. Estudos recentes referem a possibilidade de os leitores (sobretudo os que se atrevem à leitura de textos literários) desenvolverem bastante a sua inteligência e a sua sensibilidade.
É igualmente provável que a literatura contribua, se lida regularmente, para a melhoria da expressão oral e escrita de quem lê.
Cientistas garantem que o uso e o conhecimento correctos da Língua Portuguesa tornam os cidadãos mais capazes e mais livres.
Agora, é contigo. Se quiseres, lê. Mas não digas que não te avisaram.



Era isso que eu pensava-escrevia em 2009.
É isso que penso-escrevo hoje.

Coimbra, já 08 de Abril de 2010.
Joaquim Jorge Carvalho

quarta-feira, 7 de abril de 2010

Café Lusa Nova

Na idade em que comecei a beber café (“beber a bica”, como se diz em Coimbra), aí pelos catorze anos, o principal Café da minha rua era o “Lusa Nova”. Havia, no outro lado da rua, outro Café (o “Lancer”), mas esse parecia-me reservado aos senhores importantes, que usavam casaco, água-de-colónia francesa e tinham esposas loiras e carros novos. No Lusa Nova, pedia-se o jornal ou o café aos gritos: Ó João! Ó Zé! A minha bica? E um dos irmãos respondia, tranquilamente: Está-se a vestir… No Lusa Nova, o barulho era sempre o de uma festa que se prolongasse pelo ano todo. No Lancer, ouvia-se perfeitamente a novela brasileira de horário nobre. À 3.ª feira, o Lusa Nova fechava. Os clientes habituais atravessavam a rua e iam ao Lancer. Eram serões taciturnos, esses. Falava-se mais baixo, raramente se ouvia um palavrão, o dono era um senhor cujo nome me escapou entretanto. Desde que o destino me separou de Coimbra, não voltei ao Lusa Nova. Não tive motivos para tal, senão este triste hábito que há em mim de me antecipar ao fim, como se o fim acontecesse por minha livre e espontânea vontade. Deixei de aparecer, desapareci. Há tempos, passando anonimamente de carro, percebi que o Lusa Nova estava fechado para obras. Entretanto, descobri que o meu Café da juventude (onde vi o meu pai ganhar infinitas cervejas jogando “à moeda”, um sportinguista com um poster do Sporting ao pescoço numa noite de Junho, o Álvaro a chamar nomes ao árbitro do França-Portugal, o Lúcio e o Manaca contando anedotas de franceses, ingleses, espanhóis e portugueses) fora vendido e se tornara uma pastelaria com um nome diferente. Soube que o Senhor João e o senhor José haviam mantido uma parcela daquele território – a papelaria, com o totoloto e a máquina de fotocópias. Ainda bem. Para mim, é até como se o Cinema Paraíso do Tornatore não morresse completamente. (Em Coimbra, “Cinema Paraíso” pode significar “Sousa Bastos”.) O senhor João era talvez o único portista a sério que, nos anos 70, assumia publicamente essa excentricidade. Durante uns bons dez anos, olhávamos para aquele homem como uma aberração simpática que interrompia, com o viço da novidade que era, a habitual disputa entre Benfica e Sporting. Com o tempo, vieram as vitórias do F. C. Porto e as nossas conversas com o proprietário do Café devieram mais frequentes e menos amigáveis. Engraçado, na minha vida, foi ter encontrado em Ribeira de Pena um Café que parece ser a versão transmontana do Lusa Nova. O “senhor João”, aí, é benfiquista. As conversas que mantenho agora, pensando bem, são as mesmas que tive na Rua Dr. Manuel Almeida e Sousa, no Café da minha rua. De certo modo, a humanidade repete-se-me. A minha rua, em 1977, era o centro do universo. O Café Lusa Nova era o coração social da minha rua. Visto o fenómeno de Ribeira de Pena, 32 anos depois, o centro do universo mudou-se. O coração do mundo é onde estamos, portanto. (Mas, atenção, nem sempre estamos onde nos vêem.) 

Coimbra, já 07 de Abril de 2010. 
Joaquim Jorge Carvalho

terça-feira, 6 de abril de 2010

Saudades-Luz


Na Praia de Mira, hoje, havia
Mais areia do que barcos
Mais mar do que areia
E mais luz do que mar.

No meu coração
(que é uma espécie de praia
vista por dentro)
havia só saudades.
Mais saudades do que luz.


Coimbra, já 06 de Abril de 2010.
Joaquim Jorge Carvalho

Crato & a Escola Pública


Mário Crespo conduz, desde há algum tempo, na Sic Notícias, um programa de debate político.
Um dos seus comentadores residentes é o professor Nuno Crato, que ganhou notoriedade nos média portugueses com desassombradas opiniões sobre a Educação.
Já me aconteceu concordar com este senhor: estou com ele quando recusa o discurso dos alunos coitadinhos, incapazes de triunfar no mundo dos estudos por indelével desvantagem social (sou filho de operários e sei bem que há uma parte importante do nosso destino que depende da vontade, da persistência, do inalienável mérito); estou com ele quando recusa a fatalidade de a Escola ser um território obrigatoriamente em conformidade com o mundo "lá fora" (por exemplo: se lá fora se vê mais televisão do que se lê literatura, assume-se como vantajosa a inclusão, nos manuais, de textos informativos, de crítica televisiva, de nomes "populares" do star system...).
Mesmo o seu asco público às ciências da educação tem alguma razão de ser: também eu me revoltei, uma vez por outra, contra propostas e medidas nascidas mais de teorias abstrusas do que do conhecimento efectivo do terreno educativo. O problema é que, aqui, a radical rejeição dos contributos das ciências da educação é tão cega como a cega aceitação da sua bondade (e Nuno Crato está indisponível para o reconhecer).
Ontem, vi Crato, na Sic Notícias, pela enésima vez perorando sobre a Escola pública. Entre outros dislates, considerava que as boas classificações dos alunos inscritos em colégios privados resultavam de estes estabelecimentos de ensino terem "os melhores professores".
Esta falácia continua a fazer as delícias dos distraídos ou dos que, por razões de ideologia ou de mercearia particular, defendem o investimento no ensino privado.
Eu não me esqueço do facto de, no ano lectivo de 2001/2002, a Escola E. B. 2, 3 de Ribeira de Pena (Vila Real, Trás-os-Montes) haver conquistado um lugar no "top ten" nacional em Filosofia. Dizia-o o tão requisitado, por "opinion makers" pátrios, ranking de escolas: com base nos resultados obtidos no 12.º ano, aquela Escola (pública) fora uma das melhores a ensinar Filosofia. Aleluia? Não bem.
Acontece que, nesse ano lectivo, não houvera professor de Filosofia; a Escola oferecera, em vez dessa disciplina, uma outra - Sociologia. Os alunos (cerca de uma dezena) que participaram no exame fizeram-no a título de auto-propostos. Eram, na sua maioria, bons alunos, de estrato económico razoável, com bom ambiente familiar. O que o exame comprovou foi essa realidade sobre os discentes, que infelizmente não eram - do ponto de vista do perfil social e académico - a maioria.
Ora, os colégios privados escolhem os seus alunos: o crivo começa no poder económico (e, concomitantemente, social e cultural) dos respectivos agregados, e pode ir até à selecção dos melhores dos melhores, com base em referências disciplinares e académicas. Depois, por muito má (ou até inexistente) que seja a docência, os resultados académicos aparecem.
Já à Escola pública comete-se aceitar obrigatoriamente todos os alunos. Incluir em lugar de excluir.
É difícil perceber isto?
Sou o primeiro a defender uma necessidade de melhorar a Escola pública (no grau de exigência, na defesa da disciplina, na resposta adequada aos vários públicos que inevitavelmente existem em cada estabelecimento de ensino).
Mas, aos Nunos Cratos do país, eu deixo este recado fundamental: não é pela demagogia ou pela análise (voluntária ou involuntariamente) falha de rigor que se começa a mudança.


Coimbra, já 06 de Abril de 2010.
Joaquim Jorge Carvalho

[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em video.sapo.pt]

segunda-feira, 5 de abril de 2010

Rua (fugindo)


Cortaram mais uma árvore
Na rua onde fui menino

Cada vez há menos árvores
E a rua vai-me fugindo.


Coimbra, já 05 de Abril de 2010.
Joaquim Jorge Carvalho
[Este poema faz parte do meu livro “Desapontamentos dos Dias” (Ed. A Mar Arte, Coimbra, 1995). Foto VLOSC.]

domingo, 4 de abril de 2010

Esperança


Na minha sala, em Coimbra, há uma reprodução de um muito lindo quadro de Vieira da Silva: “A Poesia Está na Rua”.
É um quadro sobre Abril de 1974 e, mais do que isso, sobre a própria ideia de liberdade em festa.
Às vezes, parece-me que, em vez de estar eu a olhar para ele, está ele olhando para mim. E a inversão da normalidade olhadora tem consequências: não sou eu a perguntar por Abril, pela dívida que temos para com os que sonharam, no quartel do Carmo, um país melhor do que este; é Abril a perguntar por mim, pelo que é feito da minha imortalidade cheia de esperança.
Digo-lhe: Ó Viera da Silva, com a idade, chega a doença e a morte de quem amamos, chega a desilusão, chegam os problemas na próstata, chegam as saudades e o chega o cinismo…
E o quadro responde-me: Mas isso que nos chega não chega para matar a esperança, homem! Não tens uma filha? Não tens alunos? Que direito tens tu de desistir da esperança?
Aceno, por dentro dos olhos, afirmativamente. E vou ver se consigo, por um mês que seja, ter sobre o país uma ideia bondosa.
Desculpai-me, se puderdes. A ingenuidade, por enquanto, está na minha rua.


Coimbra, já 04 de Abril de 2010.
Joaquim Jorge Carvalho
[O quadro-supra (“XXV de Abril de 1974 (A Poesia está na rua)”) é de Vieira da Silva.]

sábado, 3 de abril de 2010

Nicolau & Mar


Em entrevista ao i, conduzida por André Rito, Nicolau Breyner fala do respeito que um artista deve ter pelo público. E, depois, do perigo mortal que comporta a ausência de respeito.
“O público”, diz ele, “é como o mar: se não houver respeito, engole-nos.”
A imagem é boa e compreende outros contextos, outras situações.
Em boa verdade, a vida é ela própria como o mar: se não houver respeito (e cuidado), em vez de navegar, naufragamos.
E, já agora, uma boa entrevista é como um porto de abrigo: descansamos e aprendemos.


Coimbra, já 03 de Abril de 2010.
Joaquim Jorge Carvalho
[A foto-supra é de Filipe Casaca e foi colhida – com a devida vénia – no jornal i, edição de 02-04-2010.]

sexta-feira, 2 de abril de 2010

Encontro


Uma vez por ano no regaço de Agosto
Abraçamo-nos e falamos da idade, da Venezuela,
De doenças e (menos amigavelmente) de futebol.
Chamamos àquela mesa do Café do Alberto
A nossa mesa – e o dono ri-se.
Um dia, o teu cancro ou o meu há-de separar-nos
E ainda assim a mesa, talvez nossa, falará de encontros.


Coimbra, já 03 de Abril de 2010.
Joaquim Jorge Carvalho
[Trata-se do poema “Encontro”, do meu livro “Inquietação de Barcos” (Ribeira de Pena, Ed. Fórum Metanóia, 2006). Foto JJC.]

Marca



Na Banda d’Além, a tinta
Há uma marca que celebra
O dia em que as águas subiram
Até à altura perigosa de um corpo.

Duvida-se de relatos desse dilúvio antigo
E sorri-se a prováveis excessos de contadores locais.
Mas depois alguém conduz o céptico à Banda d’Além
E dá-lhe a ver a marca testemunhal do fenómeno.

É esse o vosso problema com o que sou:
Precisais da diluviana inocência de acreditar
Que eu já fui puro
Como um peixe atlântico.

Aos sorrisos incrédulos e às espadas acusadoras das línguas
Eu aponto para dentro de mim próprio
Para a marca
Da Banda d’Além de mim
(que não se vê).


Coimbra, 02 de Abril de 2010.
Joaquim Jorge Carvalho
[Trata-se do poema “Marca”, do meu livro “Inquietação de Barcos” (Ribeira de Pena, Ed. Fórum Metanóia, 2006). A Banda d’Além é um zona próxima da praia de Machico, na Madeira; a marca referida existe mesmo, gravada na parede da capela dos Milagres, assinalando a altura a que subiram as águas, no início do século XX. A 1.ª foto é do autor, com talvez 3 anos, ao lado do irmão mais velho, o Zé-Tó, com talvez 5 anos. A 2.ª é a mesma fotografia, entretanto acrescentada de 40 anos.]

Estação do Mesmo


Manuel António Pina, o mais saboroso e lúcido cronista do nosso jornalismo (além de altíssimo escritor), lembra no JN, no seu artigo de 1 de Abril, o facto de o famoso bloco central governar o nosso país há décadas e de, «mais “campanha negra” menos “campanha negra”, mais ou menos gritaria de “violação do segredo de justiça!”, mais robalo menos robalo», ser cada vez mais «problemático distinguir uns dos outros».
Eu tenho andado sombrio como um cínico. Mas minha passividade é só aparente. Por dentro, hesito ainda entre uma indiferença superadora e o ressentimento revolucionário. Tenho lido revelações sobre os vencimentos dos senhores administradores, e das milionárias transferências de clientelas pê-esses e pê-esse-dês do governo para as grandes empresas públicas e para os grandes grupos económicos. É a mesma gente que, com cara de pau, debita nas televisões e nos semanários sobre a necessidade de o Estado poupar, de enfermeiros e professores serem uns privilegiados, de se gastar demasiado com apoios sociais, de as rendas das casas serem demasiado baixas. A seguir, presumivelmente, vão à missinha e rezam pelos mais desfavorecidos.
Ao meu sogro atribuíram uma reforma de quatrocentos euros, no final de cerca de 45 anos de trabalho e de descontos, em vez dos quinhentos que a lei determinava. Negaram-lhe, depois, o direito à reparação da injustiça porque – explicaram administrativos, chefes de divisão, secretários de Estado, o próprio ministro – aquele infeliz contribuinte havia deixado prescrever o prazo para solicitar a correcção. Caridosamente, convidavam-no a utilizar os serviços de um advogado (talvez prescindindo, entretanto, de comprar os seus remédios e de alimentar a família).
A gente desaponta-se, lamenta-se, desacredita, reacredita (cada vez menos), vota de novo (cada vez menos), desaponta-se, lamenta-se de novo, desacredita (cada vez mais).
Tudo parece repetir-se a cada governo: rasgam-se as promessas programáticas, critica-se quem esteve antes no poder, acena-se com crises terríveis que obrigam a sacrifícios, assegura-se o conforto aos amigos, aos correlegionários, aos compadres, à prole própria e à prole próxima.
Lembro-me de, viajando no metro em Lisboa, ouvir a voz gravada de uma donzela a informar sobre a “próxima estação”. No caso do nosso país, é tão grande o desencanto que a mim me parece sempre estar viajando da porcaria para a porcaria. A próxima estação já cheira mal antes de lá chegarmos.


Coimbra, já 02 de Abril de 2010.
Joaquim Jorge Carvalho
[A foto-supra (rosto de Manuel António Pina) foi colhida – com a devida vénia - no “JN”, edição de 01-04-2010.]

quinta-feira, 1 de abril de 2010

Fundamentalismo(s)


A minha frase sobre fundamentalismos (religiosos e outros):

Quando o homem se arma em Deus, é o Diabo!



Coimbra, já 01 de Abril de 2010.
Joaquim Jorge Carvalho