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Número de Ondas

segunda-feira, 15 de março de 2010

A Beleza e o Avesso


O entardecer em Ribeira de Pena é a minha possibilidade de Manhattan: uma ilha com talvez jazz disfarçado de brisa, um farol ao longe que é, em vez da estátua da Liberdade, a igreja de Santa Marinha, um regato artificial ao fundo da Avenida da Noruega em vez do rio Hudson.
Rodeio a igreja pelo lado do coreto. Árvores nuas são gente desenhada de braços no ar, exultando uma qualquer felicidade local, quem sabe esta absoluta serenidade de um domingo rústico.
É uma forma de felicidade, para mim, tal presente (embora, às vezes, canse).
Bem sei que há um reverso semântico nesta calma doce, tão para mim cheia de poesia. Para os cafés, os restaurantes, o comércio em geral – era preferível o bulício urbano. E até para quem cumpre a contemplação domingueira como um ofício, faz falta mais gente.
De modo que discretamente me deixo afagar pela tranquila luz do lugar, num quase secreto amor pelo silêncio de Salvador entardecido. (Salvador é o nome deste sítio central do concelho.)
À hora em que passeio, sou o único turista bucólico que os meus olhos alcançam. Economicamente, é pouco, é irrelevante. Mas o que aqui escrevo, senhores, tem pouco a ver com economia. Com a paz, sim.

Ribeira de Pena, já 15 de Março de 2010.
Joaquim Jorge Carvalho

A DEPRESSÃO DAS LARANJAS (29)


A Biografia da Laranja

A laranja é o fruto da laranjeira, essa preciosa árvore da família das rutáceas, corpo vegetal de tronco e folhas muito resistentes. É um fruto rico em vitaminas, nomeadamente a C. Come-se na sua fase dourada, quando a pele se aproxima da tonalidade que o próprio nome diz: cor de laranja, pois.
Há-as amargas e doces. O travo é sobretudo uma questão de tempo e de solo: quanto mais pacientes e generosos estes, mais doce aquele.
A laranja precisa essencialmente de sol para aceder ao estatuto de esfera farta de glucose e sumo.
Vou dizer-vos mais, irmãos: se lançásseis uma laranja ao mar, veríeis como, durante um instante, toda a memória do mundo navegaria diante dos vossos olhos. A laranja acabaria sempre por morrer, picada por aves e peixes, cozida pelo frio, o sal e o calor mareantes. Mas nunca se apagaria do vosso olhar essa luz, mais bela de todas, caminhadora à procura de marés e de cais provavelmente impossíveis.
No fim do meu livro sobre Margo, o que vejo é uma praia (talvez Porto Santo) à espera do desenlace (narrativo ou lírico) desta escrita: uma gaivota frágil, improvável, equilibra-se sobre uma laranja e nela dificultosamente repousa.
Eu digo-lhe: Vamos.

E não há Fim.


Ribeira de Pena, já 15 de Março de 2010.
Joaquim Jorge Carvalho
[Trata-se do 29.º - e último - texto do volume “A Depressão das Laranjas” (Ribeira de Pena, Ed. Casa de Santa Marinha, 1999). A imagem-supra é a da capa do volume “A Depressão das Laranjas”.]

Nota: A pedido de uma multidão de leitores (quatro, salvo erro), publicarei neste blogue, nos próximos dias, o 5.º texto de “A Depressão das Laranjas” (“As Palavras”). Por se tratar de um texto algo extenso, optarei por dividi-lo em três ou quatro partes.

domingo, 14 de março de 2010

A Culpa dos Sindicatos


A Culpa dos Sindicatos

Na sua crónica semanal, no “Expresso”, Miguel Sousa Tavares volta a referir-se, com burguesinha acrimónia, aos sindicatos.
Confesso: a sua sanha contra as organizações sindicais faz-me espécie.
Eu compreendo, por exemplo, o azedume de José Sócrates, esse, porque radica numa certa forma de o nosso primeiro-ministro ver o mundo, do ponto de vista da sua executiva circunstância: sem adversários, e sobretudo sem adversários organizados, seria mais confortável o exercício do poder.
Mas em Miguel Sousa Tavares é um fenómeno diferente. É, ao que parece, uma concepção da vida social e política que dispensa a vida e a força da contestação sindical. Ou, como eufemisticamente também diz, os “interesses corporativos”.
Entendamo-nos: já há muito que poderosos de todo o mundo lamentam este desagradável hábito de os trabalhadores se unirem e procurarem lutar pelos seus direitos. Em boa verdade, portanto, Sousa Tavares não aduz nada de novo sobre o assunto.
Concretizando: julga o iluminado cronista que, na saúde e na educação (pelo menos, aqui), o problema está nos sindicatos. O diálogo de Ana Jorge ou Isabel Alçada - com enfermeiros, médicos, professores - é interpretado, está-se mesmo a ver, como uma forma de pública capitulação. Que saudades tem ele, percebemos nós, da intrépida Lurdes Rodrigues e do valente Correia de Campos! Estávamos todos errados, à época, menos aqueles dois espíritos brilhantes (decerto congéneres do tão superior Miguel).
Este preconceito contra os sindicatos agrada a muita gente, como tenho observado nas colunas de opinião de vários jornais, e parece radicar na ideia extraordinária de que é das organizações sindicais, essa provável corja, a responsabilidade da má gestão do nosso país nos últimos trinta anos. Ao que parece, são os sindicalistas, consabidos e terríveis adversários do progresso, os grandes culpados da má organização de Portugal, e dos errados investimentos, e das ineficazes estratégias, e do repetido desperdício de meios e recursos.
De tanto opinar, pode ocorrer com Sousa Tavares a circunstância de estar certo, às vezes. Mas não é, aqui, o caso.
Por mim, tendo a perdoar-lhe a demagogia descuidada e os erros de raciocínio; nunca foi fácil escrever sobre o tempo que passa e o jornalista faz disso, como se sabe, ofício.
Custa-me mais perdoar-lhe o topete de se achar (já) romancista. Se “Equador” é uma razoável narrativa, “Rio das Flores” é, do ponto de vista literário, um nojo: mal imaginado, mal estruturado, mal escrito.
Mas, sei lá, talvez seja culpa dos sindicatos.

Ribeira de Pena, já 14 de Março de 2010.
Joaquim Jorge Carvalho

A DEPRESSÃO DAS LARANJAS (28)


28. A Nudez

Louis Dietz exigiu à mulher que, em determinado número do palco dois, protagonizasse uma nudez total, ao som de Mozart. Margo não gostava da música escolhida (“Ein Klein Nachtmusik” – Allegro) e, alegando esse motivo, recusou.
O episódio causou uma crise conjugal grave, com mútuas disposições de separação misturadas com ameaças (pouco veladas) de apropriação exclusiva de Mimette, a filha. Roubou-nos também, a ambos, a doce possibilidade da rotina amadora (mãos dadas, conversa, livros, bilhetinhos impacientes). Por fim, Margo acedeu à vontade do esposo, e este (para agradar à fêmea) optou afinal por um trecho de Verdi (retirado de “Aida”).
Foi essa a primeira vez que Margo me disse, no intervalo suado do amor:
- Estou farta de estar nua!
Percebi que não se referia à pele ali vista, ao corpo exposto (em público e em privado). Queixava-se, pobre polaca das estrelas, da frágil natureza que era, da sua insegura condição de ave, da dependência perante o dinheiro, as conveniências civis e sociais, o estatuto de imigrante e de mamã. Dizia-me:
- É só contigo que regresso à simplicidade da minha vida antiga. À Polónia.
E chamava-me, dedilhando-me cútis, tarde, quietude, dentes:
- Minha laranja portuguesa…
Eu nem sei se a merecia. Amava-a tanto, tanto que lhe exigia os mais íntimos sacrifícios, torturando-a por uma palavra a mais ou a menos, um gesto precipitado ou esquecido. Dei até em querer ser dono dos seus silêncios, reclamando a explicação de um olhar vago, uma nuvem triste, um suspiro.
Explicava-lhe, impaciente:
- Quero-te, percebes, inteira, transparente. Não me escondas nada.
E ela aceitava, quase de imediato, urgente a curar-me estes pueris amuos. Pergunto-me se não era esta minha lamentável obsessão outra forma de a despir, contra a sua vontade; de lhe roubar o direito (inalienável) a um certo mistério mínimo que deve pertencer a todos os eus.

Quando Louis Dietz descobriu as minhas cartas, não fui visitado por gorilas da segurança; não fui agredido; não fui objecto de denúncia aos serviços de imigração; não fui sequer impedido de entrar (como habitualmente) no edifício do “Crazy Horse”. Soube, por coristas e barmen, que o empresário e a mulher haviam partido, em viagem prolongada, para Munique; e daí para Viena; e daí para Bruxelas; e daí para Madrid…

Foi assim que Margo deixou a minha vida: subitamente. Como uma luz devinda ardida e morta.
Resisti em Paris por ano e meio e vi, nesse entretanto, a minha vizinha (talvez Thérèse) amancebar-se com um professor de latim, com um vendedor de perfumes e com o carteiro. Enfim, envelhecido pela desesperança, regressei a Portugal e tornei-me co-proprietário de uma livraria lisboeta.
Um dia, li no “France Soir” a notícia da morte de Margo. Mas, olhando a porta da livraria, ao fundo, acreditei que viesses, meu amor, de repente (com flores, um texto bonito sobre saudades, um livro).

O que é o fim?



Ribeira de Pena, já 14 de Março de 2010.
Joaquim Jorge Carvalho
[Trata-se do 28.º – e penúltimo – texto do volume “A Depressão das Laranjas” (Ribeira de Pena, Ed. Casa de Santa Marinha, 1999). A pintura-supra, “Prima Ballerina”, data de 1878 e é de Edgar Degas (1834-1917). Foi colhida na Wikipédia.]

sábado, 13 de março de 2010

Morituri Amant


Em jornais, rádio, televisão, internet, lembrou-se aquele 11 de Março de Espanha, que ajudou a afivelar definitivamente o terrorismo à actualidade dos últimos anos.
A lembrança trouxe-me também à memória o 11 de Setembro americano (e mundial). É sobre esse dia que aqui falo. Elejo, de entre tantos aspectos à sua roda, os relatos – gravados para sempre – de telefonemas entre as vítimas e os seus entes queridos.
São discursos inscritos na urgência do momento.
A urgência torna essencial tudo quanto dizemos. As nossas palavras, então, desaguam numa espécie de reduto lírico: conteúdo e forma, ritmo, tom – tudo é uma coisa una e pura.
Ora, que dizem estes morituri à beira do seu fim? A que poesia se reduz esta consciência exaltada da despedida iminente?
Na maior parte das vezes, dizem “Amo-te”.
Entre a vida e a morte, é isto pois o essencial.
(E o terrorismo, já agora, é o contrário disto.)

Ribeira de Pena, já 12 de Março de 2010.
Joaquim Jorge Carvalho

A DEPRESSÃO DAS LARANJAS (27)


27. O Piano

Sentas-te à minha beira e tocas-me –
Exactos os dedos percorrem-me, certo
O peso e o jeito da carícia, sábia
A harmonia dos gestos sequentes.

Está o Mundo suspenso no durante
Da canção colhida no silêncio de mim;
E lê-se no teu olhar a pauta nova, a chuva
Sobre as laranjas à espera de ser.

Quando parares, fechar-me-ás, ternamente.
Interromperás os aplausos com um sorriso
Triste.
E interrogarás, já só, o meu silêncio regressado:
Porquê?

Responder-te-ei: Sou como vês –
É preciso que te sentes ao pé de mim,
Me toques com o peso, o jeito, o tempo
Certos.
É necessário que aqui estejas e me acordes

Para haver música.



Coimbra, já 13 de Março de 2010.
Joaquim Jorge Carvalho
[Trata-se do 27.º - e antepenúltimo- texto do volume “A Depressão das Laranjas” (Ribeira de Pena, Ed. Casa de Santa Marinha, 1999). A pintura-supra, “Ao Piano”, é de Pierre-Auguste Renoir (1841-1919) e foi colhida na Wikipédia.]

sexta-feira, 12 de março de 2010

Estante Instante


Tenho, na estante desarrumada, Eça
caído
sobre
Italo Calvino (quasoblíquo).
O italiano ri-se da vaidade
(segredada)
de Dâmaso Salcede
e Eça boqueabre o espanto burguês por
Cosimo
vivendo nas árvores.

Vertical,
Camilo
de
Perdição
observa
(de soslaio)
a confusão.
Não conhece o Barão Trepador
e não dá confiança ao diplomata em Havana:
Ninguém lhe tira da cabeça que o Alencar
(d’Os Maias)
não é Bulhão Pato,
mas ele.


Ribeira de Pena, já 12 de Março de 2010.
Joaquim Jorge Carvalho

A DEPRESSÃO DAS LARANJAS (26)


26. O Cansaço

Na dimensão cristalina dos afectos, o maior perigo é o cansaço. As pessoas, sei-o bem, precisam de rotinas, de funcionais ancoradouros do tempo e das mãos, mas igualmente naufragam nessas areias, por distracção e preguiça na maioria das vezes.
Margo, em certa quarta-feira, não apareceu no Café combinado. Ponderei trezentas razões para tal: doença, imprevisto doméstico, carta familiar, incêndio, inundação, esquecimento...
Mas o motivo fora outro: não lhe apetecera.
Era o quarto mês do nosso amor. Sofri a revelação como se de uma punhalada traiçoeira se tratasse. Margo interrogava-me, receosa:
- Era melhor esconder-te a verdade?
Disser-lhe que não. Mas duvidava da minha própria resposta.
Numa outra ocasião, eu telefonei-lhe para casa e pedi-lhe que viesse mais cedo ao meu encontro: chegavam primos de Lisboa e eu devia esperá-los ao entardecer. Margo achou que era uma violência ter de preparar-se à pressa e sugeriu-me, leve, que simplesmente nos não víssemos nesse dia. Nocturno, acedi.
Acontecia-lhe muitas vezes atrasar-se. À quinta ou sexta oportunidade, optou por substituir as justificações por um beijo doce e uma carícia no meu cabelo. Eu amava-a tanto que me esquecia, então, de reclamar.
Certa sexta-feira, tendo o marido viajado para Londres em viagem de negócios (o “Crazy Horse” parisiense internacionalizava-se), tive uma inspiração: partir com Margo para Portugal e aproveitar essa semana e meia de liberdade para o nosso amor. Planeei tudo com minúcia e imaginação. Margo iria oficialmente à Polónia (o que Louis não poderia deixar de entender); a pequena Mimette ficaria em Bezon, a onze quilómetros de Paris, com a avó paterna; o transporte correria por minha conta.
Era apenas necessário aproveitar e partir, nessa mesma sexta-feira, porque o barco fazia a viagem apenas de quatro em quatro dias.
Margo objectou: era ela, na altura, a responsável por uma coreografia nova do palco número um. Nesse dia, ensaiava-se o seu “tema” pela primeira vez.
Eu disse: Mas. E repeti: Mas. E ela pedia-me, Deus meu, que compreendesse...
Pelo que chegou a mim próprio o horrível espectro do cansaço. É essa a experiência mais próxima da morte, pelo menos como eu a vejo.
Diabólica, a memória trouxe-me (em revoadas ressentidas) episódios anteriores, cicatrizes, imperfeições do nosso amor. Paris, velho e doente, parecia abanar-se de tosse antiga e pneumónica, cheio de uma expectoração resignada que apagava canções, jardins, luares, flores.
Durante quase um mês, não nos vimos. Eu embrenhei-me nos livros, nas cartas para Portugal, nas conversas de tertúlia literária e etílica – e passei a dar mais atenção a uma jovem vizinha do andar em frente, cujos azuis olhos se me ofereciam, óbvios, à hora do café da manhã. Talvez esta francesa se chamasse Thérèse.
Fiz, entretanto, reserva de bilhete para Lisboa. Devia partir numa ou duas semanas.
Depois: seriam nove da noite quando a campainha da porta soou. Eu acabara de sair do banho, no devir de uma corrida à volta do boulevard que escandalizava a vizinhança. Em roupão, dirigi-me à porta.
- Margo!
O meu amor deu-me flores, um texto bonito sobre as saudades e um livro. Louis Dietz regressaria a casa dentro, disse-me, de duas horas e ambos deveriam ir, então, buscar a filha (Mimette) a casa da avó Dietz.
Durante o amor feito, refeito, transfeito, prometemo-nos, pela milésima vez, não perder tempo com os irrelevantes pormenores do mundo.
Mas tínhamos (ela e eu) cada vez maior pavor do fim.



Ribeira de Pena, já 12 de Março de 2010.
Joaquim Jorge Carvalho
[Trata-se do 26.º texto do volume “A Depressão das Laranjas” (Ribeira de Pena, Ed. Casa de Santa Marinha, 1999). A imagem-supra é o cartaz do filme “O Amante de Lady Chatterley” (2006), de Pascale Ferran, com base na obra homónima de D. H. Lawrence.]

quinta-feira, 11 de março de 2010

Símbolo Pássaro


Disse Woody Allen, pela boca de uma personagem (no filme “Setembro”), que “o universo é inteiramente aleatório e moralmente neutro”. Será mesmo assim?
Há uns cinco anos, uma pessoa do meu conhecimento e da minha estima internou-se, após hesitações e desistências várias, numa instituição para toxicodependentes. Depois de muito tempo de negação, de medo, de cobardia e de descrença, este homem decidiu-se enfim pela possibilidade de cura. Chama-se, a uma coisa destas, libertação ou possibilidade libertação.
Fui buscá-lo ao aeroporto e levei-o ao local onde, nos próximos meses, haveria de tentar o regresso à sua condição inteira de homem, sem vergonha do seu viver. Ele estava feliz. Repetiu, mais do que uma vez, o singelo objectivo da viagem: “A ver se me livro, pá…” Deixei-o à porta da sua nova casa, não sem antes o abraçar e desejar boa sorte. Foi no dia 25 de Abril de 2005.
Aconteceu que, no regresso à cidade, um pássaro voou doidamente contra o vidro frontal do meu carro, morrendo instantaneamente. É comum associar-se à figura (física e poética) da ave a ideia de liberdade. Ora, este pássaro morreu no exercício vertiginoso de seu voo. Há aqui algum paradoxo?
Volto ao segundo paráfrafo. O homem que ousou libertar-se do inferno da dependência vai, por vontade própria, internar-se numa instituição. Isto é, assumiu a condição de quase-recluso, sujeito a regras e a horários restritos. Ele mesmo mo disse, algures entre o aeroporto e lugar nenhum: “Eu sei que isto da Clínica é uma espécie de prisão, mas tem de ser…”
Que tem isto a ver com a história do pássaro? Eis a minha leitura: o voo louco, perigoso, irresponsável do pássaro conduz à tragédia (mais ou menos anunciada) da morte violenta. O voo vital de um homem fugindo das drogas é outro: abdica lucidamente da liberdade sem sentido nem disciplina - para se salvar. Ou seja, a liberdade desregrada da ave louca é falsa porque leva à morte; a prisão aparente do homem internado, essa, é já uma forma de liberdade (a haver).
António Skarmeta, em “O Carteiro de Pablo Neruda”, diz que todo o mundo, toda a paisagem, todos os eventos são sempre metáfora de algo. É só preciso lermos, em cada circunstância, a lição do símbolo. Em cada sinal, à esquina impontual das nossas vidas, há mensagens (explícitas umas, implícitas quase todas). É preciso atenção e humildade, para percebermos e aprendermos as metáforas do mundo; dessa atitude depende a qualidade do que sabemos, sobre os outros e nós.
À maneira dos existencialistas, tenho percebido que o verdadeiro destino não é apenas o somatório de acontecimentos exteriores à nossa vontade. No caminho comovido por onde a minha biografia anda, tenho percebido que os dias têm, ao volante da máquina que nos conduz, os nossos próprios braços, as nossas próprias mãos, os nossos próprios olhos, o nosso próprio coração esclarecido. Sumário: somos nós, amigos, quem decide o essencial do que somos, do que havemos de ser.
Como Allen (supra-citado), também Lennon achava que “Life happens while we’re making other plans” [“A vida acontece enquanto fazemos outros planos”]. Terás alguma razão, John. Mas a nossa vida não é vida (ou não é nossa) se nela não tivermos alguma palavra a dizer.
Já agora: esta história (ainda) não acabou bem. Homens e pássaros levam, por vezes, demasiado tempo a descobrir o sentido essencial dos seus voos. E vão voando, não obstante os avisos repetidos e (im)pacientes, repetidamente mal.

Ribeira de Pena, já 11 de Março de 2010.
Joaquim Jorge Carvalho
[Uma versão deste texto foi primitivamente publicada no “Ecos de Basto”, em Maio de 2005. Republica-se agora, com leves, mas não despiciendas, alterações. A pintura-supra é de Heinrich Fueger, “Prometeu leva o fogo à Humanidade” (1817), e foi colhida – com a devida vénia - no blogue ornelasnaamazonia.blogspot.com.br.]

A DEPRESSÃO DAS LARANJAS (25)


A Chuva

O gesto essencial da chuva é cumprir-se: chove, é.
Sem este gesto, árida seria a terra e impossível a vida.
Conheço um advérbio de tempo para emigrantes desencontrados à procura de si próprios; é “quando”.
Quando, Senhor, a chuva que são?


Coimbra, já 11 de Março de 2010.
Joaquim Jorge Carvalho
[Trata-se do 25.º texto do volume “A Depressão das Laranjas” (Ribeira de Pena, Ed. Casa de Santa Marinha, 1999). A imagem-supra recorda o filme “Casablanca” (1942), realizado por Michael Curtiz e interpretado por Humphrey Bogart e Ingrid Bergman. Os leitores atentos lembrar-se-ão que utilizei já, para acompanhar o texto “O Assalto” - n.º 4 de “A Depressão das Laranjas” - uma fotografia deste mítico filme.]

quarta-feira, 10 de março de 2010

Cadela Como Nós


Dara


O meu agregado familiar perdeu, nos últimos anos, dois elementos, ambos do género feminino: a Vânia e a Dara. Aquela é a minha filha que, como escreve Manuel Alegre em “Cão como Nós”, cresceu para lá dos limites do berço e se emancipou. Esta era a minha cadela, que morreu (velhinha e doente) há ano e meio.
A minha relação com a Dara teve altos e baixos, como é próprio do amor e da amizade. Durante cerca de catorze anos, fez-me rir, fez-me gritar, brincou comigo, irritou-me, comoveu-me, destruiu-me a mobília e os nervos, acompanhou-me, fugiu-me, surpreendeu-me.
Eu não fui, para ela, um exemplo de tolerância e de paciência: em momentos de tensão maior, fui decerto injusto e bruto.
Aí pelo seu 13.º aniversário, a Dara deu em envelhecer e ficou muito doente. Durante seis meses, convivi então, todos os dias, com a ideia da iminente morte daquele elemento (já) da família. Desesperado, quis que todos os seus momentos finais fossem bons: andei com ela ao colo, perdoei-lhe todas as imperfeições, dei-lhe comer à boca (como a um bebé), sobrepreocupei-me com o conforto da sua cama, providenciei-lhe exageradas carícias.
Graças à cortisona, houve dias em que tivemos – todos – a ilusão de que a cadela voltaria a ser jovem e saudável. Até a ditadura da finitude falar mais alto.
Quando já não se mexia sequer para comer, o veterinário ofereceu-se para lhe providenciar um misericordioso alívio. Queria dizer: um suave fim. Por telefone, a minha mulher disse-me, chorando: A Dara já partiu.
Desde esse tempo, a saudade.
A saudade é uma forma delicada de desespero. Um gerúndio uivando a inevitabilidade da separação. Uma cadela, como nós, partindo.


Ribeira de Pena, já 10 de Março de 2010.
Joaquim Jorge Carvalho

A DEPRESSÃO DAS LARANJAS (24)


Fátima

Vi em Fátima, uma vez, um imenso grupo de fiéis católicos oferecendo velas à Virgem Maria. Eram (recordo) velas de todos os tamanhos, brancas sobretudo, que lentamente ardiam na pira ali colocada para o efeito.
Em relação ao meu olhar, os crentes (mulheres, na sua maioria) estavam de costas. Mantive-me por lá durante minutos, comungando do silêncio grave das pessoas e da estearina. Sentia-se o frio natural da época (acho que era Outubro).
Ao fim de algum tempo, pude enfim ver diversos rostos, gente que deixava o local: havia lágrimas em quase todos – lágrimas quase a ser; lágrimas sendo; lágrimas que tinham sido. Adivinhamos facilmente a panóplia de motivos, não é? Doenças, sonhos, amigos, emprego, amores.
E dei por mim a chorar também. Porquê?
A verdade é que me é muito difícil situar o episódio no tempo cronológico. O mês, já o disse entre parênteses, seria Outubro. Mas o ano?
Eu queria sobretudo, acerca desta lembrança, saber se isto sucedeu antes ou depois de Margo Boniek na minha vida. O pormenor não é despiciendo: é-me necessário para perceber se as minhas próprias lágrimas eram de tristeza por não te haver ainda encontrado; ou se, tendo-te, me doía já a mortal antecipação da perda de nós.


Coimbra, já 10 de Março de 2010.
Joaquim Jorge Carvalho
[Trata-se do 24.º texto do volume “A Depressão das Laranjas” (Ribeira de Pena, Ed. Casa de Santa Marinha, 1999). A imagem-supra, colhida em Wikipedia, é a do cartaz do filme “A Insustentável Leveza do Ser” (1988), de Philip Kaufman, com base no romance homónimo de Milan Kundera. Os actores principais são Daniel Day-Lewis, Lena Olin e – sobretudo! – Juliette Binoche.]

terça-feira, 9 de março de 2010

O Fim dos Livros


O cartoon-supra está assinado por Gable. A fonte onde o “Público” - de 10 de Fevereiro de 2010 - o colheu é “The Globe and Mail”, jornal de Toronto (Canadá). Eu colhi-o, já se vê, no “Público”.
Um dos miúdos diz para o outro (traduzo eu): “Chama-se livro. Não sei bem onde é que se põem as pilhas…”
É engraçado e é arrepiante. Por mim, confesso: não consigo imaginar um mundo sem livros (e falo de livros à moda presente-antiga, em papel).
Quando o livro for decretadamente obsoleto, hei-de eu próprio obsoletar-me por irremediável solidariedade. Tenho dito.

Ribeira de Pena, 08 de Março de 2010.
Joaquim Jorge Carvalho

A DEPRESSÃO DAS LARANJAS (23)


O Lugar



Eu nunca fui à Polónia.
Tirando esse pormenor lamentável, a Polónia é o local mais belo onde já estive.




Coimbra, já 08 de Março de 2010.
Joaquim Jorge Carvalho
[Trata-se do 23.º texto do volume “A Depressão das Laranjas” (Ribeira de Pena, Ed. Casa de Santa Marinha, 1999). A foto-supra é da cidade de Lodz (Polónia) e foi colhida – com a devida vénia – em http://www.tripadvisor.com.br.]

segunda-feira, 8 de março de 2010

A DEPRESSÃO DAS LARANJAS (22)


O Milagre

Margo Boniek (a mais perfeita bailarina do “Crazy Horse”) era, graças à prodigiosa atenção e aos seus finos sentidos, capaz de acumular, na memória, infinitas variedades de paisagens, luzes, cheiros, cores e ares da Polónia natal. Fazia-o igualmente com Paris, seu ninho adoptivo e pátria natural da filha.
Eu, com menos brilho e maior esforço, transportava em mim as laranjas portuguesas (textura, volume, odor, sumo, tonalidade), e também as praias, o fado doce-triste de Coimbra, a noite e o amanhecer transmontanos.
“Isto” para quê?
Para que, de cada vez que subíamos ao meu quarto, ou a um qualquer do hotel combinado (Matur-Paris), fizéssemos do lugar a aérea, alada, volucre casa de Nós.
Assim renasciam sempre, felizes, os nossos corpos, as nossas vozes, as nossas almas, a nossa estrada una – e invariavelmente se dava esse milagre singelíssimo: por horas, apesar da fome ou do cansaço sobrevenientes, todo o compartimento cheirava a (por exemplo) tremoços portugueses e a carne fumada de Lodz.

Coimbra, já 08 de Março de 2010.
Joaquim Jorge Carvalho
[Trata-se do 22.º texto do volume “A Depressão das Laranjas” (Ribeira de Pena, Ed. Casa de Santa Marinha, 1999). A imagem-supra é um pormenor do cartaz do filme "Oito e Meio", de Fellini, estreado em 1963. O filme contava no elenco com (entre outros) Marcello Mastroianni, Claudia Cardinale, Anouk Aimé e Sandra Milo.]