Bússola do Muito Mar

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Número de Ondas

sábado, 1 de maio de 2010

Livros & LIberdade




Foi ontem a (anunciada) inauguração da Biblioteca Municipal de Ribeira de Pena. O momento, para além dos discursos da Directora do Instituto das Bibliotecas e do Livro, do Presidente da Câmara local e do Governador Civil de Vila Real, foi ainda ocasião para apontamentos poético-teatrais, a cargo de alunos da Escola E.B. 2, 3 / Secundária de Ribeira de Pena, sob minha orientação (e com o apoio das professoras Maria da Paz Carvalho e Sandra Leão).
Numa primeira parte, os alunos representaram “Explicação da Cúmplice Idade”, texto meu fundado numa espécie de anedota em verso que Júlio Dinis deixou no volume “Tentativas Poéticas”. Mais à frente, já durante o “Verde de Honra”, no lounge do Auditório Municipal, eu próprio e Emanuel Guimarães (com o apoio técnico de Marco Andrade) demos voz ao meu texto “Diálogo com Sentido”, fabricado para a ocasião e que a seguir se reproduz neste “Muito Mar”. Esta função terminou com uma dedicatória especial ao Francisco Botelho que, por merecer muito ali estar, não deixou de marcar presença na memória grata dos (outros) convivas.



Diálogo - com sentido - sobre livros e liberdade


- Diz aqui no programa que, depois da história das consultas e dos discursos, há um verde de honra…
- E é verdade. E bem bom que é o verde…
- Diz também que há um “diálogo com sentido, entre dois amigos” sobre a importância dos livros e, finalmente, uma canção interpretada por um coro de jovens ribeirapenenses…
- Diálogo entre dois amigos?
- Com sentido. Um diálogo com sentido.
- Entre dois amigos?
- Entre dois amigos.
- Amigos de quem?
- Amigos um do outro. Ou amigos da terra. Ou amigos dos livros…
- E quem serão eles?
- Eles quem?
- Os amigos…
- Sei lá.
- Cheira-me que estão atrasados. Se calhar, nem vêm…
- Seja como for, a inauguração propriamente dita já se fez.
- É verdade. Fica para a história: 30 de Abril…
- Abril… Esse mês diz-me qualquer coisa…
- É um mês bonito. Tem a ver com a Primavera, as flores, o renascimento da Natureza…
- Não só. É outra coisa. Uma coisa da nossa História…
- Ah! Deves estar a falar do 25 de Abril…
- O 25 de Abril?
- A revolução. Foi há 36 anos. Diz-se que é o “Dia da Liberdade”: Devias sabê-lo…
- Ai devia? Mas tu ainda agora disseste que foi há 36 anos. É muito tempo, tem lá paciência.
- De facto, é. Mas tratando-se da liberdade é sempre uma coisa de hoje.
- Não digo que não. Talvez seja. Embora…
- Duvidas do carácter sempre actual da liberdade?
- Não. Quero dizer, um pouco. Isto é…
- Estou espantado. Tu, um homem que toda a vida defendeu a liberdade, duvidas de uma coisa tão essencial?
- Mas repara, amigo: as datas são apenas números, acontecimentos algures no calendário. As coisas passam, como as modas.
- A liberdade não é uma moda. E, se fosse, não passaria nunca de moda. É sempre nova…
- Sempre nova?
- Sempre nova enquanto estamos vivos.
- Mas, escuta, se tu próprio dizes que, há 36 anos, não havia liberdade…
- E não…
- Então, posso deduzir que estávamos mortos antes do 25 de Abril?
- Estávamos quase mortos. Ou, se preferires, quase vivos.
- Quase mortos? Quase vivos? Desculpa lá, mas isso é tão absurdo como uma mulher dizer que está quase grávida.
- Acredito. Mas uma mulher quando quer muito ser mãe está quase grávida…
- Não percebo.
- Uma mulher, quando deseja muito ser mãe, já é um bocadinho mãe, antes mesmo de estar grávida…
- Talvez tenhas razão…
- Tenho razão. Com a liberdade é a mesma coisa…
- A liberdade é uma mulher grávida antes de estar grávida?
- Quando desejamos a liberdade, já somos um bocadinho livres…
- Ah! Agora, percebo. Acho que percebo.
- Vê. O 25 de Abril não nasceu no dia 25 de Abril. Começou no dia em que homens e mulheres sonharam com o 25 de Abril.
- Por isso dizes que a liberdade já existe quando existe o desejo de sermos livres…
- Por isso digo que já estávamos vivos antes de a liberdade chegar e nos livrar da condição de mortos…
- De modo que, em teu entender, valeu a pena inaugurar a biblioteca em Abril?
- Por acaso, acho que Abril é um bom mês para celebrar os livros…
- Mas eu julgava que os livros são para ler durante todo o ano…
- E são! Como a liberdade é para ser vivida durante todo o ano. Mas é preciso que, de vez em quando, nos lembremos disso…
- De vez em quando?
- Em datas certas. Em (como é que se diz?...) efemérides. Em dias que celebrem a alegria de viver em liberdade.
- Engraçado! Quem te ouvir julga que confundes as duas coisas: livros e liberdade.
- E confundo, sim. Isto é, vejo-as como uma coisa só. A liberdade é um livro sempre por abrir, por ler, por fruir…
- E um livro é o quê?
- É a própria voz da liberdade. Um eu, feito de muitos eus em diálogo com outros eus. Um eu do nosso tempo, e de todos os tempos, até do Futuro, dialogando com eus de hoje e de sempre.
- Mas, repara, há sempre livros fechados, não lidos…
- Um livro fechado é o contrário da liberdade. Mas a simples possibilidade de abrirmos, quando quisermos, um livro - é já a liberdade a funcionar.
- Sabes? Acho que tens razão. Mas a História está cheia de casos de destruição de livros. De gente que queima livros, autores, bibliotecas…
- É verdade. Há gente que não suporta a liberdade. Que prefere, digamos, a morte à vida. Há gente que não suporta a literatura, as ideias diferentes, o sonho, o ideal, as utopias…
- Mas isso prova que os livros são frágeis, que podem ser destruídos.
- Que são frágeis, sim. Os próprios homens são frágeis. A liberdade é frágil. Mas, como acontece com os homens, a liberdade não pode ser destruída!
- E, contudo, há livros queimados…
- Mas até esses são, nas cinzas que sobrevivem ao fogo, testemunhas da voz que eram. Até esses permanecem na memória de quem os tenha lido, na tristeza de quem não os pôde ler e na vergonha de quem, por fraqueza, os não suportou e os queimou!
- Acreditas, portanto, que não se pode destruir um livro?
- Pode (como te hei-de dizer?...) matar-se lentamente um livro.
- Como?
- Ignorando-o. Não o abrindo. Não o lendo. Fingindo que não existe. Virando as costas à vida que um livro é.
- Mas pode viver-se sem livros?
- Aparentemente, sim. O mesmo se passa com a liberdade. Diz-me tu: pode viver-se sem liberdade?
- Não bem. Segundo percebi no que tão bem explicaste, não se trataria, então, de vida realmente.
- Pois é assim também com os livros. Pode viver-se sem os livros, mas não se trata, nesse caso, de vida realmente.
- Trata-se de morte…
- Trata-se de não viver completamente, que é uma forma de morrermos antes de morrermos.
- Sendo assim, que vivam os livros, não é?
- É. Que vivam os livros!
- Então, olha, façamos um brinde à Biblioteca Municipal de Ribeira de Pena. Fala tu…
- Não. Fala tu.
- Fala tu. Hoje, estás inspirado…
- De facto, estou. É decerto por ser Abril. É pelos livros. É pela ideia de liberdade que parece florescer tão formosamente, hoje, no concelho de Ribeira de Pena.
- Vês? Eu não te dizia? Estás inspirado! Anda, faz lá o brinde… E rápido, porque o coro vai começar a cantar não tarda nada…
- Seja. Acompanhai-me, caros amigos. Que esta biblioteca viva por muitos mais anos que a soma das nossas vidas e as dos nossos filhos e netos! Que a qualidade de vida dos ribeirapenenses presentes e futuros cresça em informação, conhecimento, sabedoria e liberdade! E, já agora, que o Francisco Botelho, homem de letras e de liberdade, sorria algures no universo, orgulhoso de uma obra que ajudou a sonhar!
Saúde e Sorte!
(FIM)

Ribeira de Pena, já 1.º de Maio de 2010.
Joaquim Jorge Carvalho
[Nota: Ao diálogo seguiu-se a interpretação, por alunos e professores do Agrupamento de Escolas de Ribeira de Pena, do tema “Somos Livres”, de Ermelinda Duarte. Os últimos versos foram, por nós, levemente alterados: em vez de "Somos livres, somos livres / Não voltaremos atrás!", cantámos "Somos livres, com os livros / Não voltaremos atrás!".]

sexta-feira, 30 de abril de 2010

A Cidade do Amor


O amor é uma cidade fundada há muitos séculos. Andamos nele como quem se perde numa metrópole conhecida só de nome, de grandes avenidas e de esconsas ruelas, aturdidos os olhos e doridos os passos.
É um lugar inseguro e, como todas as capitais, muitas vezes violento.
Pelo chão do amor, é frequente tropeçarmos em indeterminados restos de coisas determinadas, em ruídos antes música, em cascas de tremoços antes tremoços, em gases de escape antes viagens, em muco buco-nasal antes respiração.
Mas também pode dar-se o caso de, subitamente, o dia se invadir de um cheiro a maresia, a flores, a café recente, a perfume estrangeiro, a pele de mulher fresca.
A cidade do amor tem muitos edifícios antigos, desses que aparecem nos livros de História e nos roteiros do turismo, e também casas muitíssimo modernas, dessas que aparecem nas revistas de arquitectura e de cabeleireiros. Passado e futuro são vizinhos e contemporâneos nesta urbe complexa. Mas é presente: andamos no amor como se todos os tempos caminhassem para agora.
O mais angustiante na cidade do amor é que as suas ruas e ruelas são longas, cansativas e raramente a direito. Ao fim de muitos passos não deixamos de estar sempre a meio da nossa viagem. E não se pode parar nunca, não se pode parar, não se pode.
Dizem-me haver por perto, algures, um lugar de ruas serenas e quietas, que levam os viajantes, sem dificuldade, à casa certa de cada um. Não há ali porcaria, mau cheiro, violência, incerteza, ruído.
Conheço esse lugar e confirmo: é verdade o que dizem. Mas esse lugar fica em outra cidade.


Coimbra, já 30 de Abril de 2010.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem-supra recorda a telenovela primeira de todas, Gabriela Cravo e Canela" (baseada no romance homónimo de Jorge Amado), e foi colhida - com a devida vénia - em http://www.soniabragaonline.com.]

quinta-feira, 29 de abril de 2010

Biblioteca é um lugar de inaugurações


Tenho estado frequentemente, nos últimos quinze anos, em muitas bibliotecas do nosso país. Bibliotecas municipais e, sobretudo, bibliotecas de escolas.
Normalmente, vou a convite de colegas, às vezes de ex-aluno(a)s, e levo sempre a testemunhal incumbência de provar, em sessões que nunca ultrapassam´os 60 ou 90 minutos, que ler é bom, faz bem, vale a pena.
Ultimamente, tenho estado em cerimónias de inauguração desses lugares mágicos (para discursar ou para celebrar artisticamente as ocasiões). Aconteceu com a Biblioteca Municipal de Cabeceiras (sita no Arco) e com a do Agrupamento da minha Escola (Arco de Baúlhe). Acontece, no próximo dia 30 de Abril, com a Biblioteca Municipal de Ribeira de Pena.
Estes convites, se bem que redundem numa responsabilidade bem delicada e trabalhosa, honram-me por três razões. Por um lado, porque se trata objectivamente de uma distinção que me concede o meio onde trabalho e vivo, confiando nas minhas ideias e na minha – digamos assim – arte. Por outro lado, porque me possibilita o cumprimento de um dever não inscrito nos regulamentos funcionários, mas essencial à luz do que sinto-penso: ajudar a que a terra onde estamos tenha um bocadinho do melhor que somos. Há ainda uma terceira razão para a honra do que vos falo, mas guardei-a para o parágrafo seguinte.
Inaugurar bibliotecas é assistir in vivo à modernização verdadeira do meu país, que é – visto de onde vejo o fenómeno - um modo limpo de concretizar o 25 de Abril. Bem sei que, depois, falta dinamizar estes espaços, criar no público local (pouco familiarizado com literatura, exposições, estudo) hábitos de consumo e fruição de cultura. Isto demora a conseguir-se, requer paciência. Mas por algum lado se tem de começar: em Ribeira de Pena, há agora um magnífico Auditório e uma muito linda e funcional Biblioteca. Para a terra, é uma boa notícia. Para mim, que fui dado à luz em Coimbra mas aqui tenho nascido plurais vezes, é uma notícia boa. Orgulha-me fazer parte deste momento.
Afinal, a inauguração de dia 30 tem novamente a ver com livros. E digo-vos: é muito natural que eu esteja no primeiro dia oficial de uma biblioteca, pois tantas vezes os livros têm inaugurado vidas em mim.


Ribeira de Pena, já 29 de Abril de 2010.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem-supra foi colhida, com a devida vénia, em www.cm-rpena.pt.]

quarta-feira, 28 de abril de 2010

Sobre a ideia de Dor Literária


Horácio recomendava aos candidatos a poetas: “Si visum flere est primum libi ipsum.”
Traduzindo livremente, “Se queres, com a tua poesia, fazer-nos chorar, hás-de tu próprio sentir, primeiro, a mesma dor que provoca o choro.” Ou, como preferiu traduzir Henry Fielding (em “Tom Jones”), “O autor que me fizer chorar há-de primeiro chorar ele próprio.”
À boleia de Horácio, julgo que a grande literatura se funda, quase sempre, numa dor verdadeira.
Atenção: quando digo “dor”, não falo só de temas e assuntos tristes; falo de uma agudíssima sensibilidade face à pele e ao coração dos dias. De uma atenção absoluta face ao visto, ao recordado, ao sonhado. De uma consciência afiada face ao que o mundo é e ao que o mundo poderia e, talvez, deveria ser. A dor, portanto, pode ter a ver com riso ou lágrimas.
A dor verdadeira não significa que a literatura se reduza ao desabafo momentâneo de um lírico. A dor é apenas um ponto de partida e, por razões operacionais, pode até ser inventada (ou fingida, como ensinou Pessoa). Mas é verdadeira por significar a imperiosa necessidade de, a partir dela, escrever a verdade.
Nem sempre percebemos a riqueza, a magnificência e a verdade de uma dor olhando para o poeta.
Percebemos talvez o tamanho e o valor da dor olhando para a linguagem do poeta, para os textos do poeta, para a Língua que o poeta inventa.
Vistas as coisas assim, a beleza dói.

Ribeira de Pena, já 28 de Abril de 2010.
Joaquim Jorge Carvalho
[Foto JJC.]

terça-feira, 27 de abril de 2010

No Divã de Mim


1. O universo nunca bem dorme. É uma verdade conhecida, universal: só dorme o que tiver a consciência tranquila.
Eu tenho uma cumplicidade com o universo. A noite chega sempre justamente, e o sono não.
Esta falta da burguesa pontualidade do meu sono rouba-me em manhãs o que me dá em literatura. Leio, escrevo, preencho a insónia. Mas não chega. A insónia sofre-se.

2. A minha consciência nunca está tranquila. Nunca me livrei de uma espécie de remorso que é sentir o tempo a passar. É como se eu próprio tivesse a responsabilidade de haver fim.
É isto o mundo. É assim a vida. Sei que todos os dias encerram a possibilidade de nos despedirmos (uns dos outros; da vida; do mundo; até da insónia). E assusta-me muito este défice de eternidade com que nascemos.

3. Este blogue é, às vezes, uma maneira de me olhar ao espelho. Um divã psico-lírico-analítico. Tantas vezes não gosto do que vejo, do que me ouço dizer. Tantas vezes me apetece partir o espelho, fugir do divã.
O meu amigo Francisco Botelho tinha um blogue, também. Ainda tropeço nele, googlando coisas sobre Ribeira de Pena e sobre os meus livros. Acontecerá um dia, comigo também, que alguém me revisite neste “Muito Mar” e, por minutos, tenha a ilusão de estar falando com um vivo?
Acontece-me pensar na VL e na MP lendo-me depois de eu já cá não estar. Gosto, confesso, da ideia de estarmos mais ou menos juntos, assim, mas o simples imaginar da cena provoca-me um choro de criança.

4. É por causa de amarmos que é triste a morte.
E é muito injusto, por isso, haver esta simultaneidade de amor e morte na condição humana. Deveria ser uma coisa OU outra.
Deus, supremo-autor putativo desta literatura do universo, que tenha a bondade de me desculpar: a obra é grande e delicada mas está mal feita.


Ribeira de Pena, já 27 de Abril de 2010.
Joaquim Jorge Carvalho
[A foto-supra é, como são quase todas as fotos, sobre o movediço Tempo. Tem a saudosíssima Tia Branca do Rosário, a MP, a VL e o RS.]

segunda-feira, 26 de abril de 2010

EM TARDE SER




Há entre nós ainda tanta terra linda!


Coimbra, já 26 de Abril de 2010.
Joaquim Jorge Carvalho
[As fotos-supra são instantâneos obtidos numa localidade chamada Vila Meã, concelho de Vila Pouca de Aguiar, pelas 18 horas do dia 25. Fotos JJC.]

domingo, 25 de abril de 2010

Um Cravo no Coração


No dia 24 de Abril de 1974, eu tinha onze anos (feitos há nove dias). Deitei-me cedo, mas devo ter permanecido acordado boas horas, lendo. A meio da noite, ouvi decerto a minha mãe murmurar algo sobre a conta da electricidade, enquanto apagava a luz e regressava ao leito. O meu pai ressonaria, talvez, menos morto que hoje.
Muito de madrugada, ouvi a Dona Lurdes, vizinha de cima, avisar-nos da confusão “lá em Lisboa”. “São os estudantes?”, perguntou a minha mãe. “Não”, respondeu a Dona Lurdes, “desta vez, parece que são militares.”
No léxico doméstico, aquilo dos militares rimava com guerra. Ficámos todos inquietos e, não sem receio, os meus pais deixaram-nos ir para a escola, recomendando silêncio e decoro sobre o que a rádio dizia.
A rádio dizia, ainda, pouco. Tocava marchas militares e o hino nacional, dava as horas e, de vez em quando, reproduzia comunicados da Junta de Salvação Nacional.
Depois, fui descobrindo que “aquilo” era o princípio da liberdade. Que vivêramos, até aí, numa coisa chamada ditadura (ou fascismo), ao arrepio da europa moderna. Nem dois dias depois (ou três?), também eu gritei “Morte à Pide”, na Rua Antero de Quental, junto ao edifício-sede da dita, ali onde depois se instalou – lagarto, lagarto! – a DREC (Direcção Regional de Educação do Centro). E, aos árbitros que prejudicassem o União de Coimbra ou o Sporting, passei a chamar, em vez de “gatunos”, “fascistas”. O meu avô explicou-me que eu e o meu irmão Tó já não iríamos à guerra e o meu vizinho Américo garantia que nunca mais haveria falta de bacalhau para o povo.
Trinta e seis anos após esta névoa linda das lembranças, que dizer?
Trinta e seis anos são, em tempo humano, um perigo.
É o suficiente para nos morrerem pessoas queridas, para se degradar o cabelo, a próstata e a esperança, para ficarmos cínicos e velhos como os que eram velhos e cínicos em 1974.
É verdade que, hoje, me assalta, às vezes, a suspeita de que as revoluções são como os iogurtes – têm prazo de validade. Quando se fala de alguns políticos, da promiscuidade entre Estado e grandes grupos económicos, de mais Iberdrola que pátria, de gente que foge às domésticas responsabilidades para o remanso anódino da União Europeia ou da ONU, das reformas e prémios dos poderosos – sou tentado a ver tudo como o hiperónimo celebrado por Camilo: corja!
Mas, aleluia, hoje é dia de ter esperança. De nos purificarmos, ao menos pela memória. De dizer obrigado a Salgueiro Maia, ao MFA, aos antigos que acreditaram, no passado, ser possível um melhor futuro. Aquele futuro é este presente. O presente é sempre o futuro por fazer.
Faz, novamente, falta avisar a malta. Faz falta um novo sobressalto ético que devolva a esperança a um país que merecia ser verdadeiramente limpo e livre.
Eu sou por Portugal. Pela liberdade. Pelo 25 de Abril.
Sempre!


Ribeira de Pena, já 325 de Abril de 2010.
Joaquim Jorge Carvalho
[A ilustração-supra é de Manuel Vilela, e foi feita expressamente para a capa do libreto da peça “A Noite de 24 de Abril”, que levei à cena em Ribeira de Pena, em 1998. O texto dessa peça foi uma adaptação da obra de Saramago, “A Noite”.]

sábado, 24 de abril de 2010

Aferição & Papa


Por decisão do governo, as provas de aferição de Língua Portuguesa e Matemática, destinadas aos alunos do 1.º e 2.º ciclos, foram antecipadas. Motivo: visita iminente de Sua Eminência, o Papa.
Não discuto, aqui, a questão de haver demasiada religião a motivar ou tutelar decisões de um Estado formalmente laico. Eu sei bem que o país profundo é consuetudinariamente religioso, sobretudo católico, e nem sequer acho que daí venha grande mal ao mundo. Chamai-me reaccionário, se quiserdes, mas acho que não se perde nada em respeitar alguns valores e hábitos antigos: quando não contendem com o respeito pela vida e pela dignidade humana; quando são profundos e estruturantes da própria ideia de povo; quando, enfim, beneficiam muito mais que prejudicam.
Mas o problema que aqui trago é de outra esfera. Tem a ver com alunos e professores, que deviam cumprir programas até certa data e que, sendo a dita data antecipada, terão de cumprir, ainda assim, os mesmos programas. Isto é, o tempo encurta, a exigência mantém-se. Um trabalho planificado para determinado período tem de ser concluído, afinal, duas ou três semanas antes.
Não me parece rigoroso. Não me parece justo.
Conclusão: já que o Papa, involuntariamente, prejudicou os alunos e os professores portugueses, ao menos que Deus, voluntariamente, os ajude!


Ribeira de Pena, já 24 de Abril de 2010.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem-supra foi colhida – com a devida vénia – no CM, edição de 21-04-2010.]

sexta-feira, 23 de abril de 2010

Biblioteca Paraíso



Na quinta-feira, dia 22 de Abril, pelas 21 horas e quinze minutos, a Biblioteca da Escola-sede do Agrupamento do Arco (sita numa formosíssima terra chamada Arco de Baúlhe) celebrou o seu primeiro aniversário. Fê-lo da maneira mais interessante e inteligente de todas: com livros, com leitura. Promovendo o convívio informal de gente com o texto literário.
À actividade, sabiamente congeminada e coordenada pela coordenadora da biblioteca, Rosário Mendes, deu-se um feliz nome: “Café e bolos”.
Durante cerca de duas horas, houve café e bolos, de facto (como, aliás, também chá e sumos). Mas houve, sobretudo, num ambiente descontraído, adequado à fruição da Beleza, a leitura de poemas e de histórias. E houve música e imagens belíssimas. E houve dança.
Participaram alunos e ex-alunos, professores e outros elementos da comunidade educativa. A organização queria “um encontro”. Conseguiu “um encontro”.
Entre tantos motivos de agrado, houve um que me iluminou especialmente. Falo do soneto de Camões “Alma minha gentil que te partiste”, lido por uma aluna, enquanto passavam imagens do imorredoiro “Cinema Paraíso”, de Giuseppe Tornatore: aquela célebre colecção de beijos a preto e branco, a música de Morricone, a voz de Luís Vaz a falar de “assento etéreo”.
No final, ficou a promessa da Rosário: que celebrações deste género - animadas, divertidas, vivas - se repetirão no futuro. Ainda bem. A literatura, mesmo a que fala de perda, de fim, de morte, é sempre, sobretudo, matéria de vivos. É com vida que se celebra.
E, já agora, isto de uma biblioteca ser inaugurada e, depois, celebrada em Abril é bom sinal: biblioteca, na prosódia do meu coração, rima com liberdade.


Ribeira de Pena, 23 de Abril de 2010.
Joaquim Jorge Carvalho

Inês de Lello


A notícia que se segue veio no “Correio da Manhã”, edição de 22 Abril de 2010.
Por razões de economia expositiva, dividi-a em quatro partes (aliás, alíneas):
a) ante-título e título;
b), c) e d) parágrafos relativos ao enunciado da peça jornalística.
Depois, comentarei sucintamente estas quatro alíneas.
A notícia é esta:

a) «PARLAMENTO: DESLOCAÇÕES DE INÊS DE MEDEIROS ENTRE LISBOA E PARIS / VIAGENS CUSTAM 6 MIL EUROS/MÊS»
b) «As viagens da socialista Inês de Medeiros entre Lisboa e Paris vão custar ao Parlamento mais de seis mil euros por mês. Ontem, o conselho de administração da Assembleia da República aprovou o parecer do auditor jurídico, que defende o pagamento das ajudas de custo à deputada, com o voto de qualidade de José Lello (PS), enquanto presidente, face ao empate dos votos a favor dos socialistas e os votos contra de PSD e BE. O CDS-PP absteve-se e o PCP não se fez representar. »
c) «A decisão do conselho não é vinculativa, mas, caso Jaime Gama dê o seu aval, Inês de Medeiros terá direito a uma viagem de avião de ida e volta, na classe mais elevada, uma vez por semana entre Paris e Lisboa, que ronda os 1160 euros. Ao fim do mês, são 4640 euros, acrescidos de despesas com as ajudas de custo pagas aos deputados que residem fora da grande Lisboa (69, 19 euros por cada dia de presença em trabalho parlamentar), o que, multiplicado por 22 dias úteis, representa 1522,18 euros. Ou seja, estão em causa 6162, 18 euros, a que se juntam ainda as despesas com a deslocação entre o aeroporto e a residência da deputada. »
d) «Inês de Medeiros congratulou--se com a decisão. "A minha satisfação é isto estar resolvido e acabar com esta campanha de enxovalhos e de informação pouco rigorosa."»

Comentários:
a) O ante-título e o parecem assépticos e, até, desprovidos de interesse para o leitor comum. A cidadã Maria de Medeiros, ao que parece, decidiu fazer vida fora de Portugal, vive em Paris, é talvez lá que encontrou (como tantos dignos emigrantes) o seu trabalho – nada há a apontar-lhe. Se as viagens entre Lisboa e Paris (e, julgo eu, vice-versa) são caras, é talvez porque a senhora viaja em primeira classe (se é que é esta a vipexpressão certa) – e quem quer luxos, já se sabe, paga-os. O dinheiro é dela, sai-lhe do bolso, não temos nada com isso.
b) A coisa muda de figura a partir da alínea b). Afinal, quem paga o conforto da senhora somos nós! Os contribuintes, os eleitores, os governados, os – digamos assim – pategos do costume. O Partido Socialista quis fazer deputada a cidadã Inês de Medeiros, que lá aceitou fazer o frete de cuidar da pátria durante um mandato, mas sem mudar a residência. Quem paga o capricho do PS não é o PS, nem a cidadã Inês: é o povinho resignado e néscio, que olha espantado para as vicissitudes extraordinárias da democracia moderna. Parece que seis mil euros por mês é pouco ou nada para o parlamento português, e entretanto os senhores deputados falam no perigo de bancarrota, em sacrifícios, em diminuição urgente da despesa do Estado.
Há uma coisa em que somos mesmo pobres, em Portugal: é em decoro. Os romanos legaram-nos esta bela palavra que, idealmente, deveria transportar um nobre e decente conceito dentro de si. Na Assembleia da República, que é onde Inês está nos intervalos da sua vida parisiense, trata-se de uma palavra desconhecida ou fora da validade. Parece que foi um senhor chamado José Lello que deu o seu “voto de qualidade” para tornar possível o indecoroso. Sobre a qualidade de José Lello, estamos conversados.
c) Confesso: parece-me caro o que o país paga pela deputada parisiense. Não é só pelo precedente; é sobretudo por me parecer que somos uma espécie de – digamos – Paços de Ferreira futebolístico que paga preços dignos do Real Madrid por futebolistas do campeonato distrital.
d) Parece-me natural que a deputada parisiense se congratule com a decisão. Entre as necessidades do país e as suas próprias necessidades, a cidadã Inês haveria de estar mais preocupada com quê? Esta é a nossa (de Inês de Medeiros e do Zé-povinho que somos) ditosa, amada pátria. Terra, como se sabe, de grandes gestos e de grandes gestas. Terra de grandes conquistas e de grandes amores.
Lembro-me, de súbito, daquela famosa homónima desta senhora deputada, a Inês outra, que amou o príncipe Pedro e, por amor, morreu. É a Inês cantada n’Os Lusíadas e não na página triste do Diário da República. É a Inês que veio do estrangeiro para Portugal e aqui viveu sem requerer, de Espanha, ajudas de custo.
Sumário: a história da Inês de Pedro não acaba bem, mas é bonita; a história da Inês de Lello acaba (aparentemente) bem, mas bonita não é.


Coimbra, já 23 de Abril de 2010.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem-supra foi colhida – com a devida vénia – no “CM”, edição de 22-04-2010.]

quinta-feira, 22 de abril de 2010

Épica vista ao contrário


(Ao soldado desconhecido)



As orcas e tubarões assinalados
Desta ocidental praia lusitana
Por lares nunca dantes leccionados
Levaram rural tropa e tropa urbana;

E em perigos e guerras desgraçados
Muito mais que Prometeu da farsa humana
Entre gente remota sepultaram
Um moço que os grandes ignoraram:

Um gajo desconhecido e soldado
Sem rima sem métrica sem perdão
Cujo cantarei por toda a parte
Com engenho sem arte sem paneleirices!


Ribeira de Pena, já 22 de Abril de 2010.
Joaquim Jorge Carvalho
[Foto JJC.]

Poema do pessimismo humano


O sangue dos mortos é rio de Lavoisier e caminha.
O dos vivos é praia com remorso e sem búzios –
Há vergonha em vez de mar
Silêncio mau em vez de areia.
O que deveria ser a água são lobos e uivos
Sentados na noite com saudades da lua.

É assim e é triste e é bem feito.


Ribeira de Pena, já 22 de Abril de 2010.
Joaquim Jorge Carvalho
[Foto JJC.]

quarta-feira, 21 de abril de 2010

Poema sobre a simplicidade da Poesia


A poesia é simples.



Ribeira de Pena, já 21 de Abril de 2010.
Joaquim Jorge Carvalho
[Este verso-poema faz parte do meu livro “Desapontamentos dos Dias" (Coimbra, Ed. A Mar Arte, 1995). A imagem –supra (colhida - com a devida vénia - em http://oslivros.blogs.sapo.pt) é a capa do livro “O Carteiro de Pablo Neruda” (publicado em 1985), do chileno Antonio Skármeta. Há uma boa adaptação ao cinema desta obra, levada a cabo pelo realizador Michael Radford, em 1994.]

Paz de pombas


Dizer da pomba que é da paz
Não é pacífico para a pomba:
A pomba pobre pomba se reduz
Assim
A conceito pimba e pobre (pumba).

A paz se quiser pombas
Que as compre
Que gaste dinheiro
Que se canse a criá-las ou caçá-las
Que as namore
Que as conquiste!

A paz das palavras feitas com pombas
(metidas em gaiolas de conceitos com grades)
É missa velha, coxas mortas, hálito de farmácia.

É preciso dizer a verdade pelo céu inteiro:
É mais a paz das pombas que o inverso!


Ribeira de Pena, já 21 de Abril de 2010.
Joaquim Jorge Carvalho
[A foto-supra é de Henri Cartier-Bresson e nela aparece um conhecido amante de aves: Matisse. A foto foi colhida – com a devida vénia – em http://wiki.eca.lui.com.br.]

Discurso do soldado 27 mesmo antes de morrer


- O dever chama-nos rapazes.

- Meu capitão,
Façamos de conta que não o ouvimos!



Ribeira de Pena, já 21 de Abril de 2010.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem-supra serve para recordar o grande Solnado. Esta (minha) réplica poderia fazer parte – digo eu – da (sua) “ida à guerra”.]