Bússola do Muito Mar

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Número de Ondas

terça-feira, 20 de abril de 2010

Glosa sobre plaino fernandino


No plaino abandonado, pá,
Tu não reparaste e eu estava lá –
Doía-me até a perna e eu já
Não a tinha (à perna), pá!

Cá dentro, em casa, toda a gente, pá
Rezava por mim e eu morria, lá
Longe, pá, doendo-me a alma que já
Não tinha (à alma), pá!

Eu como tu, pá, mortos os dois,
Mais ninguém.
Houve, na freguesia, depois
Finados sinos
E certa poesia chamou-nos meninos
De alguém.


Ribeira de Pena, já 21 de Abril de 2010.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem-supra é de um filme de Manoel de Oliveira - “Non, ou a Vã Glória de Mandar” (1990), que contou no elenco com os actores Luís Miguel Cintra, Diogo Dória, Miguel Guilherme, Luís Lucas, Carlos Gomes, António S. Lopes, Mateus Lorena, Lola Forner, Raúl Fraire Ruy de Carvalho, Teresa Menezes, Leonor Silveira, Paulo Matos, Francisco Baião e Luís Mascarenhas. A Teresa Menezes, salvo erro, foi minha colega na C+S de Poiares, distrito de Coimbra.]

Cão contra a guerra


Veio até a um lugar geoestratégico nos arredores de Paris, de muito longe, um cão.
Havia por ali, antes de o cão chegar, bastantes homens e muita guerra. Guerra e homens são, na história do mundo, um pleonasmo triste.
O cão veio de muito longe e urinou sobre um tufo de ervas rasteiras.
Urinou pouco tranquilamente, no contexto de calão e tiros, e também de silêncios feridos ou mortos.
Depois, desagradado do lugar, o cão seguiu viagem para muito longe, para lá da lonjura do princípio do texto.
Nem um dia depois, obedecendo à lei de Lavoisier e ao sol, a urina canina transformou-se numa coisa diferente. O cão, segundo se sabe, não.


Ribeira de Pena, já 20 de Abril de 2010.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem-supra é a capa de uma edição brasileira de “O Apelo da Selva”, de Jack London, aqui com o título “O Chamado da Floresta”.]

Picasso


Picasso olhou a mulher
E avançou com mil palavras
Para dizer (sobre a mulher,
amada de tantos lados)
Seu amor nascente.

Ela hesitou
(duvidando do carácter pluriangular
da admiração).

Não percebes
(perguntou Picasso)
Não acreditas?
Queres que te faça
(insistiu)
Um desenho?

E fez o desenho
Para dizer no desenho as palavras
E o amor (sobre a mulher)
Que as palavras queriam ser.

A mulher sorriu.
De modo sobretudo secreto, sorriu.

O sorriso da mulher queria dizer
(como se o sorriso fosse palavras;
como se o sorriso fosse desenho)
Que a mulher tinha percebido
Tudo
Por todos os lados.


Ribeira de Pena, já 20 de Abril de 2010.
Joaquim Jorge Carvalho
[Uma primeira versão deste poema foi escrita a 10-05-2000. A pintura-supra é de Pablo Picasso e foi colhida – com a devida vénia – em http://www.alborques.com.]

segunda-feira, 19 de abril de 2010

Ribeira de Pena & adrenalina


Teve lugar, neste fim-de-semana, em Ribeira de Pena, uma prova da Taça de Portugal em Downhill.
O evento trouxe animação e muita adrenalina ao concelho.
Quem visita esta terra tem tudo a ganhar, porque se trata de um território formoso como poucos; e a terra, ela própria, ganha com acontecimentos assim, que animam o quotidiano das gentes e dinamizam a economia local.
A cultura e o desporto são decerto antídotos para a tão glosada desertificação do interior. Não serão os únicos, não serão suficientes, mas são comprovadamente bons.
Para a história fica a informação sobre o vencedor: à semelhança do ano passado, triunfou Emanuel Pombo, com o excelente tempo de 2 minutos e cinco segundos.

Ribeira de Pena, já 19 de Abril de 2010.
Joaquim Jorge Carvalho
[A primeira das imagens-supra foi colhida – com a devida vénia – em http://www.cm-rpena.pt; a segunda é da autoria de Amadeu Borges.]

domingo, 18 de abril de 2010

Surfando uma metáfora


A felicidade também depende da sorte, é verdade.
Talvez se possa dizer, dela, que é como o surf: para sobreviver e brilhar, um surfista precisa de uma boa onda.
Mas não há sorte que substitua a necessidade, antes de tudo, de ousar invadir o mar e, depois, de acreditar na possibilidade de uma boa onda.
É ainda preciso vencer o frio e o aborrecimento da espera. É preciso atenção e cuidado.
E, quando a onda certa vem, se vier, é preciso competência para aproveitar o momento. É preciso estarmos preparados.
O mar, abstractamente dito, é sempre o mesmo. A diferença está, sobretudo, no surfista.
Com o tempo, segundo dizem, aprendemos a surfar melhor. Mas, à medida que o tempo passa, cada vez temos menos tempo.


Ribeira de Pena, já 19 de Abril de 2010.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem-supra foi colhida – com a devida vénia – em http://.ondas.weblog.com.]

Soneto do Alípio da "Progresso (Import-Export)"


Sexta-feira à tarde, no regresso
Da semana pontual, seriamente
O sr. Alípio da Progresso
Import-Export
, eloquente

Disse à mulher da decisão
Tomada no caminho para o lar:
Escutassem-no bem, com atenção –
Domingo iam à praia, passear.

E o sr. Alípio da Import-
Export
, conhecido lá na rua
Elogiou a vida & a sorte

E adormeceu sem olhar a lua
Nem o rosto triste da consorte
Por o ver adormecido e ela nua.


Ribeira de Pena, já 18 de Abril de 2010.
Joaquim Jorge Carvalho
[Uma 1.ª versão deste texto faz parte do volume “Embalo de Ella” (Prémio Cesário Verde/Revelação – 1995). A imagem-supra (foto de Carlos Barroso)reproduz uma obra de Bordalo Pinheiro e foi colhida – com a devida vénia - em www.oesteonline.pt.]

Poema (popular) da mulher triste


Ah, pois pegaste, dirás, na mulher
E nos filhos e pois vestimo-nos
Como quem vai de casamento
Ou de baptizado e cerimónia, etc.

Pois fomos a um restaurante
E pois comemos bifes arroz salada
E flan e ananás e molotov
(cada sobremesa a três euros, carago)

E pois os miúdos encheram-se de nódoas
(Tiveste que lhes pregar uns tabefes)
Antes dos cafés e da gorjeta.

Pois regressámos à tardinha
Depois de uma soneca e do relato
Do futebol (eu fiz tricot).

À noite, quiseste sexo, ah pois quiseste
(embora eu preferisse ir ao cinema)
E pois, dirás, foi um dia bem passado.



Ribeira de Pena, já 18 de Abril de 2010.
Joaquim Jorge Carvalho
[Uma 1.ª versão deste texto faz parte do volume “Embalo de Ella” (Prémio Cesário Verde/Revelação – 1995). A obra-supra é de Andy Warhol e foi colhida na wikipédia.]

sábado, 17 de abril de 2010

A Bela e o Nojo


A história não se passou comigo. Mas é minha porque me comoveu suficientemente para falar dela. Passa-se numa reunião com encarregados de educação. A propósito dos problemas de um aluno, a mãe desata subitamente a chorar e fala no regime de terror que há, todos os entardeceres, na sua casa.
Violência doméstica, está-se mesmo a ver. É um assunto sempre penoso, que a todo o instante pode ferir susceptibilidades, suscitar processos judiciais, gerar vinganças e remorsos. Um mundo, enfim, de silêncios e de indignidades secretas. O mais fácil é ignorar, encolher os ombros, suspirar q.b. e andar para a frente. Entre marido e mulher, etc...
Mas há, nos homens a sério, um problema. O problema de um homem chama-se espelho. É quando nos não revemos, à hora de nos auto-mirarmos, naquela figura covarde e resignada, que desiste de ser gente e opta pela medíocre tranquilidade de não ter chatices. Acontece na profissão, na família, na vida.
O caso da violência doméstica assume contornos mais trágicos quando há, no meio desse novelo neo-realista, crianças vítimas. Vou a uma imagem dada à luz por Soeiro Pereira Gomes para as descrever: homens de amanhã que não chegam a ser meninos hoje.
Trata-se, a bem dizer, de vários crimes ao mesmo tempo: usurpação da infância, da adolescência, da juventude. Usurpação da felicidade presente e futura.
A encarregada de educação diz ao director de turma do seu filho que já levava pancada desde moça, desde o namoro. Tivera um dia a esperança de que, após o casamento, o agressor prescindisse desses hábitos bestiais. Tivera depois a esperança de que o nascimento dos filhos conseguisse o que o casamento não conseguira. Até que ao ingénuo esperar sucedeu o desespero e a descrença. Tudo isto rodeado de sangue e de lágrimas que custam muito mais a sentir do que a descrever.
Tomou, em certa noite de gritos e de pancadaria, a decisão enfim de sair de casa, levando os filhos. Mas não já. Tem ainda de esperar. E explicou à directora de turma o porquê do adiamento desta liberdade.
Em pequenina, quando fizera a primeira comunhão, já não tinha pai; e custara-lhe muito essa ausência, vendo os amigos serem beijados pelos respectivos patriarcas. Queria, portanto, esperar pela primeira comunhão do filho, antes de correr com o marido agressor de tantos anos. Para que, já se vê, não fosse o descendente privado (como ela) da presença paterna, nessa altura solene.
O capricho desta mãe tem razões de amor que não há legislação ou filosofia capazes de combater. Mas suscita também esta ideia perturbadora, embora bela, de haver quem prescinda de ser feliz para que os outros sejam felizes. Não seria isto particularmente grave, se não houvesse por aqui também a questão da dignidade humana...
Tem de haver um limite para nos sacrificarmos, nos humilharmos, nos adiarmos. Esse limite chama-se, já disse, dignidade.
Abaixo desse equador das nossas vidas, já não somos pessoas.


Coimbra, já 17 de Abril de 2010.
Joaquim Jorge Carvalho
[A 1.ª versão deste texto foi publicada em Novembro de 2005, no “Ecos de Cabeceiras”. A imagem-supra é do filme “Dou-te os Meus Olhos”, de Icíar Bollaín (Espanha, 2003).]

sexta-feira, 16 de abril de 2010

Novíssima Palavra


Soube, pela televisão, que João Braga fazia 65 anos no dia 15 de Abril. Por esse motivo, foi homenageado na RTP.
O pormenor da data aproximou-me do fadista. Dezoito anos depois da sua chegada ao planeta, cheguei eu próprio, para cumprir também (e, a meu modo, cantar também) o meu fado.
Ao longo da tarde, João Braga recebeu felicitações e, com maior ou menor imaginação, elogios acerca da sua qualidade artística e humana.
Denominador comum, foi sempre a ideia de que este homem se preocupou muito com a defesa e renovação de um tesouro musical a que se chama fado. E de que, sendo verdade que muitos novos cantores chegaram ao sucesso pelas mãos do sexagenário consagrado, nem por isso aqueles viram neste, jamais, qualquer sombra de ciúme ou de desconfiança.
Um dos convidados era um padre chamado João Seabra.
Comentando esta qualidade tão glosada do aniversariante – que eu classificaria normalmente como generosidade -, o padre João Seabra utilizou uma palavra nova, aos meus ouvidos, de que não mais me esquecerei: longanimidade.
Quer dizer: grandeza d’alma.
O João Braga e os seus amigos que me perdoem, mas foi esta a coisa mais bonita do programa: uma palavra novíssima, cheia do melhor que um homem seja capaz de ser e fazer.
Talvez eu andasse há muitos anos à procura de uma palavra assim, uma palavra com alma grande dentro de si: longanimidade.


Ribeira de Pena, já 16 de Abril de 2010.
Joaquim Jorge Carvalho
[A foto-supra (do padre João Seabra) foi colhida, com a devida vénia, em http://www.ver..pt.]

Aniversário


Hoje, uma amiga cumpre novo aniversário.
É uma pessoa bonita.
Como gosto dela, tendo a achar que merece mais da vida do que a vida lhe tem dado.
Em boa verdade, não sei se o futuro será melhor. Mas sei que deveria ser bom, porque se trata de uma pessoa bonita, muito merecedora de um futuro digno de si.
Vivamos. Quando este nosso presente for passado, faremos as contas. Ou outros, por nós, as farão.
Se acredito no futuro?
Com a idade, o verbo acreditar torna-se uma espécie de enseada para quem, como eu, é já um barco cansado. É lá que vou, quando me apetece sonhar com futuro e sorte de mãos dadas.
Entretanto, repenso navegação, recarrego forças e deixo que o mar me embale, como uma Mãe a um filho.
Parabéns, S., e acredita. Há muito mar ainda à tua espera.



Ribeira de Pena, já 16 de Abril de 2010.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem-supra foi colhida, com a devida vénia, em http://www.fotos-flores.blogspot.com.]

quinta-feira, 15 de abril de 2010

Economia vista de baixo


O cartoon de Luís Afonso brinca – muitíssimo a sério – com a realidade que, neste “muito Mar”, já denunciei ferozmente: a desigualdade de rendimentos entre as excelências chefiantes e os plebeus da máquina laboral.
Há uns anos, em programa da RTP 1, Dias Loureiro explicava, com seu ar magistral, o modo de sanear economicamente as empresas. Lembro-me, em particular, de um exemplo que dava o famoso perito em (como é que se diz?) gestão de activos. Era o exemplo dos funcionários da limpeza.
Explicava Loureiro que uma medida de gestão eficaz poderia passar pela redução do número destes funcionários, mas que era importante que se mantivesse a empresa limpa. Tratava-se, sublinhava, de fazer o mesmo serviço, mas poupando na quantidade de funcionários.
Pergunto eu: poupando para quê?
Responde Luís Afonso, com o seu cartoon: para que os magníficos administradores da coisa pública ou privada não percam os seus magníficos privilégios.
“Reality stinks”, como dizia um polícia honesto num filme americano dos anos 1980.



Ribeira de Pena, já nesta data querida de 15 de Abril de 2010.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem-supra (“Bartoon”, de Luís Afonso) foi colhida, com a devida vénia, no jornal “Público”, edição de 13-04-2010.]

APESAR DE TUDO


A convite da minha colega e amiga Clara Póvoa, tenho colaborado com o boletim da Biblioteca da Escola Secundária de Cantanhede. Recebi entretanto, via email, o último número e li-o de enfiada. Partilho, já agora, neste “Muito Mar”, a crónica que, em Junho de 2009, assinei. Chama-se, como acima se diz,

APESAR DE TUDO



1. Amanhece, em finais de Junho, no esconso íntimo de alunos e de professores, um coração perguntador. Ouçam-no.
2. Vale a pena o cumprimento repetido repetido repetido repetido da faina diária? Tem sentido o esforço e a esperança que fabricamos todos os dias? É legítimo o sonho? É razoável acreditar?
3. Às quatro interrogações responderei, prometo, no penúltimo parágrafo. Por agora, estou um pouco triste: duas alunas minhas não foram admitidas a exame. Tratou-se de uma infelicidade anunciada, que percorreu conversas, cartas, reuniões, planos de apoio e de recuperação, psicologia e cumplicidade. Perderam. Perdi. Perdemos.
4. Ao longo do ano, viajei com os meus alunos por muitos verbos (quase todos transitivos). Treinei-os. Cumprimentei-os. Critiquei-os. Ameacei-os. Castiguei-os. Recompensei-os. Dei-lhes ordens, orientações, conselhos. Ouvi-os. Concordei com eles, discordei deles. Experimentei modos, sugeri caminhos, sofri com eles, ri com eles, tive medo por mim e por eles. Errei e acertei com eles. Estudei com eles. Iludi-me, desapontei-me, reiludi-me.
5. No final do exame de Língua Portuguesa, eu tinha chocolates para todos. Em boa verdade, a ideia (singela, ingénua) era oferecer-lhes um suplemento energético antes da prova; mas eles e eu estávamos tão nervosos que as tabletes ficaram, por duas horas, esquecidas num silencioso saco de hipermercado. A cada chocolate havia risos – e alguns repetiram a dose, sem cerimónia. “Nós merecemos”, garantiram-me, debitando desabafos sobre as orações coordenadas e as palavras derivadas por prefixação. Uma espécie de festa, feita de genérico alívio e de juventude, percorria o hall de entrada do edifício escolar. Elas e eles achavam que a prova correra muito bem. Eu escondi, então, o meu temor persistente e trágico, que desconfia de tanta facilidade percebida. Contudo, fui também tocado pelo brilho e pela música da alegria que a turma do 9.º A, a minha, ali era.
6. Eles vão, quase todos, partir para nunca mais. Vão para o secundário, para cursos técnico-profissionais, para o mundo do trabalho ou da falta de trabalho. Vão para longe daqui. E vão definitivamente para um “lugar estrangeiro”, como diz Manuel António Pina, chamado (outro) tempo.
7. Tenho saudades, já, dos seus rostos. Esqueci-me, como por magia, dos episódios de preguiça, de injustificadas ausências, de trabalhos de casa por fazer, de indiferença ou irresponsabilidade face ao estudo. São rapazes e raparigas cheios de futuro. Eu andei por aqui a prepará-los para a felicidade – mas não posso garantir nada.
8. Digo-lhes adeus daqui, deste lugar onde estou (onde fico). Deste lugar onde sou. Vistas as coisas à luz do meu coração, quem manda no meu ofício são estes jovens tão celeremente outra coisa que ainda não sabemos. A legislação verdadeira que intimamente sigo tem a ver com as suas necessidades, os seus anseios, os seus direitos. Um dia hei-de explicar isto a certo secretário de estado quando ele já não for secretário de estado.
9. A minha biografia, tão castigada nos últimos anos, recomeça hoje. Tenho já a frase para primeiro parágrafo do que haverá para contar: “Aqui estou, apesar de tudo.”
10. E isto significa que as respostas às quatro perguntas feitas no dealbar deste textinho são: Sim. Sim. Sim. Sim.
11. Talvez o futuro confirme o meu optimismo ingénuo.



Ribeira de Pena, já data querida de 15 de Abril de 2010.
Joaquim Jorge Carvalho

[A imagem-supra é a da capa do boletim da Biblioteca da Escola Secundária de Cantanhede (ver em http://be.escantanhede.pt). O texto foi escrito e remetido a 18-06-2009.]

quarta-feira, 14 de abril de 2010

Um homem ressabiado não é um homem duas vezes sábio


Ontem, o Sporting perdeu com o Benfica.
Decompondo a frase, digo: o Benfica ganhou; o Sporting perdeu.
São, nesta soturna época futebolística, duas normalidades numa.
Ora, a normalidade, assim feita, dói-me muito.
Televi o jogo no Dolce Vita, em Vila Real, encostado ao cúmplice sofrimento da Maria da Paz.
No final, olhei à volta e vi os outros (ou a maioria dos outros) cheios de uma alegria estranha e ofensiva. Era a alegria dos outros, coincidente com o meu profundo abatimento.
Os outros, se os olharmos bem com os nossos próprios olhos, são uma coisa estranha. (Se eu fosse bom dramaturgo, percebê-los-ia melhor.)
A alegria deles é como se a nossa tristeza fosse a dobrar.
Nem sequer me consola a ideia de que, noutros tempos, as coisas sucederam ao contrário.
Falta-me, ai de mim, aquilo a que inexactamente chamam desportivismo. Desde o primeiro golo vermelho que chamei “brutamontes” ao Luisão, “melancia ingrata” ao Carlos Martins, “caceteiro” ao Xavi Garcia, “tartaruga” ao Cardoso, “pedregulho com olhos” ao Jorge Jesus. Do árbitro nem é bom falar: por ele, cheguei a inventar palavrões, com recurso a estrangeirismos, aglutinações e justaposições.
Resumindo: é muito difícil suportar fleumaticamente a alegria dos outros. É uma alegria estrangeira. É uma alegria apenas explicável à luz dos outros e do mundo dos outros. É uma alegria de um mundo outro.
O mundo dos outros é, nestas ocasiões, uma inconveniência e uma ameaça. Mais: é um anti-mundo que colide com o nosso.
O nosso mundo, visto pelos nossos olhos, é o mundo como devia ser. O céu.
“L’enfer”, como ensinou Flaubert, “c’est les autres”.

PS: Passada a azia, lembro-me do Daniel Abrunheiro, do Fernando Abrunheiro, do Massas, do Jorge Magalhães, do Dinis, do Albino, do Amadeu, do Avelino, do João, do Vilela, do Vasques, do Álvaro, do Alberto Ornelas, da Alexandra Crespo, etc. Gente como eu, com direito à sua alegria. Gente não tão outra como, à flor da pele, parecia. Digo-lhes, por isso, parabéns, como se houvesse regressado ao que inexactamente se chama desportivismo.


Ribeira de Pena, já 14 de Abril de 2010.
Joaquim Jorge Carvalho

terça-feira, 13 de abril de 2010

Poeta quase em bicos de pés


Sou o maior poeta da minha vida.

Sou talvez um dos cinco maiores poetas da minha mundivisão.

Sou um dos mil maiores poetas da minha mundividência.

(Isto não tem nada a ver com imodéstia
Ou modéstia. Tem a ver comigo
a ver-
-me.)


Ribeira de Pena, 13 de Abril de 2010.
Joaquim Jorge Carvalho (Foto MPC)

O Problema da Circulação


No centro comercial, o estacionamento é conta certa
(xis lugares, xis viaturas, resto zero).
Os automóveis arrumam-se simetricamente
Lado a lado, frente a frente, até uns sobre outros
(Sobreterraneamente, subterraneamente).
Para não nos esquecermos do nosso lugar
Decoramos a letra do piso (a minha é A)
E o número da zona (o meu é 17).
Acontece-me, muitas vezes, à hora de reviajar
Ter-me esquecido da letra e do número
Do meu lugar.
Aí, por minutos, falta-me a possibilidade
De movimento.

É preciso saber onde deixámos o nosso carro,
Amor.
É sempre preciso saber de onde partimos.



Ribeira de Pena, já 13 de Abril de 2010.
Joaquim Jorge Carvalho
[A 1.ª versão deste poema foi escrita a 04-08-2008. Foto JJC.]