Bússola do Muito Mar

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Número de Ondas

segunda-feira, 2 de setembro de 2013

Incondicionalmente

Para a VL



Amo a minha filha. Amo-a incondicionalmente.
Mas não é tudo fácil na história deste amor. Às vezes, divergimos, querelamos, amuamos. Quando, sem sombra de dúvida, a culpa é minha, trata-se quase sempre de eu ser exigente com as pessoas que amo e admiro. Tendo a vê-las à altura do que são e do que podem ser, suportando pouco que, por distracção, fiquem – aqui e ali – aquém da sua justa realização.
Talvez eu exagere. 

Peço-te desculpa, Vanovska. É aliás provável que já não mude. Mas, mesmo quando sou irritante, é por amor.
Desejo-te longa e feliz vida! Conta com o pai. Enquanto ele for vivo, há-de estar sempre a teu lado. Incondicionalmente. (E sei que isto vale também para a mãe. Temos, ambos, muito orgulho em ti.)

Já agora: “incondicionalmente” significa “sem condições”. Qualquer jurista sabe isso, pá…

Coimbra, 03 de Setembro de 2013.

Joaquim Jorge Carvalho

domingo, 1 de setembro de 2013

Apografia 30 (e última): Infinitivo psico-verbal


Outra tarde passada em Buarcos, com a MP e a VL. Viemos de fugida, porque à noite haveria Sporting-Benfica na televisão. Era preciso tempo para banho e, logo a seguir, viagem até ao centro comercial.

Pelas seis e meia da tarde, fiz ainda o percurso mínimo do Choupal. Trinta minutos, talvez menos. Dou agora por encerrado, formalmente, o meu Agosto corredor. Foi curto. A querida vida é sempre curta.

(Parêntesis: gostaria muito que a saúde da minha Mãe fosse melhor. Gostaria muito que o meu tio T., no hospital há uma semana, ficasse bom. É tão fraco o meu desejo contra a cínica realidade.)

Eu sou, mais do que um corredor, um caminhante. E de muitos caminhos se faz o meu caminhar. De muitas partidas se faz o meu começar. De muitas chegadas se faz o meu chegar. Infinitivo, infinitivo, infinitivo.

Remate razoável disto tudo: a minha vida é, no essencial, infinitiva como o mar visto da foz.



PS: Termina aqui a série de “apografias” com que decidi pontuar os meus dias de férias. Aliás, de liberdade. Terei decerto saudades deste processo físico e mental que, com a amada Coimbra em fundo, alegremente protagonizei.

Coimbra, 31 de Agosto de 2013.
Joaquim Jorge Carvalho

[A imagem (foto do grande Carlos Lopes!) foi colhida, com a devida vénia, em http://www.forumsccp.com.]

sábado, 31 de agosto de 2013

Apografia 29: Heaney forever


Passei o dia em Buarcos, com a MP e a VL. Sol, mar maravilhoso (não obstante o friozinho da água, pois), o tempo suspenso como habitualmente acontece nestes instantes voadores, no dificultoso reino da felicidade.
Aí pelas seis da tarde, corri pela marginal – dois mil e duzentos metros até à subida que leva à Serra da Boa Viagem, e dois mil e duzentos metros no regresso ao ponto de partida. Foram cinquenta minutos de exercício com (digamos assim) o mar à cabeceira.
À noite, frango de churrasco com a família (incluindo a Mãe) e oportunidade para telever a segunda parte de um grande jogo, o Chelsea - Bayern de Munique. Rico serão, portanto.

Soube, no final deste dia 30, que morreu o grande poeta Seamus Heaney, autor que leio e admiro desde 1982. Foi, como se sabe, Prémio Nobel da Literatura, em 1995. Lembro-me muitas vezes de um verso seu, que ironicamente glosa uma discussão interminável que ainda ocupa boa parte da humanidade: a existência ou não de vida após a morte. Heaney punha assim o problema (cito de cor):

“Is there life before death?”

Os grandes poetas também morrem? Talvez sim…
E, contudo, no que me caiba a mim decidir, direi que não. Que nunca.

Coimbra, 29 de Agosto de 2013.
Joaquim Jorge Carvalho

[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.narrativemagazine.com.]

Apografia 28: Carrocel sazonal


Mais tarde do que habitualmente, faço o jogging choupalino em velocidade razoável. Começo às oito da noite, acabo às nove menos um quarto. Houve tempo para antes, falar com o meu amigo RC e combinar, sem certezas, um jogo de futebol para sete de Setembro.

O fim do Verão incomoda-me como uma ferida estúpida. Lembro-me do que sentia, em criança, quando terminava o tempo da minha viagem em carrinhos de choque, durante as festas da cidade. Saía do veículo como saio – percebo agora – do meu amado Agosto: contrariado, deficientemente resignado. Triste.

Coimbra, 29 de Agosto de 2013.
Joaquim Jorge Carvalho

[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.adapcede.org.]

quinta-feira, 29 de agosto de 2013

Apografia 27: Sucesso, dinheiro, poder


Dia prévio ao regresso da MP. Corro uma hora no costumeiro percurso choupalino, entre as seis e meia e as sete e meia do meu entardecer coimbrinha. Tenho tempo, enquanto suo, para mastigar uma curiosa afirmação do cantor (e actor) Will Smith, que li à hora do café, no Correio da Manhã. Deixo-a aqui:

“O dinheiro e o sucesso não mudam as pessoas. Apenas nos revelam quem realmente as pessoas são.”

Eu acrescentaria a estas duas variantes (dinheiro, sucesso) uma terceira: o poder. Amen.

Coimbra, 28 de Agosto de 2013.
Joaquim Jorge Carvalho

[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.pt.dreamstime.com.]

quarta-feira, 28 de agosto de 2013

Apografia 26: Despovoamento


Sete horas e meia da noite. Corro novamente a “volta grande” e a “volta pequena” do Choupal. Regresso pela Estação Velha, o Lidl, a rua dr. Manuel Almeida e Sousa. Chego às oito e meia. Ainda há calor. Verão & incêndios, diz a minha Mãe.
Do portão da casa materna, olhos voltados na direcção de Eiras, a paisagem é semelhante à que vi, numa qualquer tarde de 1973.

Vejo agora uma casa em ruínas, no cimo do monte, entre a estrada inferior e o Ingote. Lembro-me dessa casa quando ainda viva: gente entrando e saindo, crianças brincando na vegetação fronteira, uma senhora idosa saindo de um táxi, muito elegante e carregada de sacos, o carteiro com medo do cão.
O Tempo é um deus despovoador.

Coimbra, 27 de Agosto de 2013.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem (uma casa qualquer para ilustrar razoavelmente o meu texto) foi colhida, com a devida vénia, em http://www.wikipedia-org.]

Apografia 25: Cantiga precisa-se


Das sete e meia da noite às oito horas e vinte e quatro, fiz corrida non-stop no Choupal do costume. Durante esta viagem física e mental, ocorreu-me uma ideia para letra de fado coimbrinha. Concretizei o poema no dia seguinte, em Café da zona de Eiras. 


Suspira a bela, ao luar
Mal escondendo de quem passa
O pranto doce.
Custa-lhe não escutar
Cantigas dignas da graça
Que ela fosse.

Percebo bem a tristeza
Da frágil flor, suplicando
À janela.
É que precisa a Beleza
Que sempre se vá cantando
Que é bela!

Coimbra, 27 de Agosto de 2013.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.literatodovale.blogspot.pt.]

segunda-feira, 26 de agosto de 2013

Apografia 24: Mortalidade


Dói-me o ombro esquerdo e um tendão perto do tornozelo (também esquerdo).
Já fiz gelo, já apliquei uma pomada anti-inflamatória, já repousei. A sensação de dor permanece em mim, teimosamente. Hesito, hoje, em correr.
Mas custa-me interromper esta prova estival que me impus desde Julho. Decido-me, afinal, às seis e meia da tarde, por um treino mais  ligeiro: apenas vinte e cinco minutos entre o Choupal e o açude, em modo de resistência; regresso mais lento, em modo de “endurance”.

Soube que o meu tio T. está bastante doente, no hospital. A conversa, em casa da Mãe, estende-se tristemente para as temáticas da velhice e da doença. Ainda me doem ombro e perna. A minha Mãe sente-se cansada. Uma brisa fria parece anunciar o fim do meu amado Verão.
O Verão é bom. A vida também. Custa-me tanto que haja fim.

Coimbra, 25 de Agosto de 2013.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.olhares.sapo.pt.]

Apografia 23: Reportagem

Casa de partida (Mãe), Estação Velha, Choupal, hipódromo, regresso. Início da corrida às seis da tarde. Chegada às sete e meia. O exercício físico propriamente dito não ultrapassou os trinta e cinco minutos, mas a passagem pelo Choupal tomou-me mais tempo do que habitualmente. Explico-o.

Na vala que desvia (virtuosamente) a água do Mondego para os campos agrícolas, vi um cão grande e negro debatendo-se, nadando de forma desajeitada, lutando pela vida, não conseguindo subir até à margem. Pareceu-me uma tarefa quase impossível, aquela, porque o cimento que alberga a água é uma espécie de parede oblíqua, decerto impeditiva da aderência de mãos ou. No caso, patas. O cão desesperava. O dono, um rapaz de vinte e poucos anos, perseguia o animal, à velocidade da corrente. Um outro rapaz gritava pelo animal e pelo amigo, correndo também. Eu estava no lado contrário daquela margem e doía-me não poder ajudar.
O dono do cão conseguiu ganhar uns dez metros de vantagem e deitou-se sobre a vala, estendo as mãos enquanto aguardava a passagem do cão. O cão percebeu o socorro e aproximou-se do salvador. Por um instante julgámos que iria conseguir solucionar o problema. Afinal, o homem acabou por cair também.
Agora, cão e homem debatiam-se, levados pela feroz corrente. O amigo do dono tentou deitar-se e oferecer os pés como ponto de apoio. Ia caindo também. Transeuntes, cúmplices daquele desespero, tentavam ajudar. Todos corriam (todos corríamos) ao longo da vala, porque a corrente filha-da-puta nunca abrandava.
Um homem apareceu subitamente com um longo ramo que fora buscar à mata. Três homens seguraram o ramo que o dono do cão conseguiu dificultosamente alcançar, sempre com o cão junto a si, puxado pela coleira. A história acaba com abraços, o cão saracoteando-se e algumas lágrimas nascidas da emoção.
Limpei as minhas e segui o percurso habitual. A vida é um fertilíssimo palco de histórias más e histórias boas. Hoje, boa.

Coimbra, 24 de Agosto de 2013.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.fabiodutra.com.br.]

sábado, 24 de agosto de 2013

Apografia 22: Cansaço


Hoje, mais à noite, joga o Sporting. Antecipo, por isso, a corrida. Saio de casa às cinco, sob o sol ainda feroz deste Agosto que vai chegando ao fim. Por cerca de uma hora, aguento o suor e, mais para o final, a sede. Entre o açude e o Choupal, escutei o coro misterioso de mil pássaros, em suas casas vegetais. Aqui e ali, entre as ervas e os arbustos do caminho, há animais que, ouvindo os meus passos, mudam rapidamente de lugar. Talvez ratos, ou lagartixas, cobras, cães, gatos. A sudação atrai a nuvem habitual das moscas, dos mosquitos, das melgas. Somos uma multidão naquele percurso corredor.
Canso-me? Sim, mas não me aborreço por estar cansado. A minha fadiga, no Verão, é dolente e pacífica. E os meus passos, mesmo lentos, parecem-me sempre seguros e certos.

Coimbra, 23 de Agosto de 2013.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.dm.dei.uc.pt.]

Apografia 21: Verão (tão) breve


Sete horas da noite: corro a “volta grande” do Choupal (vai-se até ao hipódromo volta-se) e a “volta pequena” (estende-se o exercício até ao açude e regressa-se). Cinquenta minutos, uma vez mais, ao ritmo muito digno dos meus cinquenta aninhos – reparai, amigos, no nome que hoje assina esta apografia…

Temo que se esteja a esgotar o meu amado Agosto – isto é, Coimbra, o tempo fingindo-se parado, a minha Mãe perto, as saudáveis corridas ao fim da tarde, estas tão lindas horas livres e solares do Presente.
Entendo o Verão como um beijo sazonal de Deus.

Coimbra, 22 de Agosto de 2013.
Jogging Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.bairrodaboavista-lisboa.blogspot.com.]


quinta-feira, 22 de agosto de 2013

Apografia 20: Final de Verão


Entre as sete e as oito da noite, fiz novamente a "volta grande" e a "volta pequena" do Choupal. Cinquenta e cinco minutos bem corridos, com uma frescura que me surpreendeu e entusiasmou.
Recebi, entretanto, recados da minha Escola: um documento para eu enviar, alguns esclarecimentos - e, embrulhadas na circunstância, algumas notícias trágicas: a iminente fatalidade de recomeçar o trabalho, de deixar Coimbra, de retomar a rotina sobrevivente que me vai pagando a luz, a água, a comida, o gasóleo, a casa. "Dá-te por satisfeito", avisam-me, avisadamente, alguns familiares. (E eu, egoísta, não me dou por satusfeito...)

Vi homens, à Praça da República, cortando a folhagem das árvores, preparando a cidade para o Outono. No chão, sujeitas à tímida baforada do vento, as decepadas folhas tremiam - como se chorassem por serem dispensadas. Acumulavam-se no chão, sem seventia, desesperadas como funcionários públicos às mãos do FMI.
Eu senti pena das folhas.
Senti também pena dos troncos, condenados à nudez sazonal que lhes há-de parecer para sempre.
E senti pena de mim, pedaço metonímico de raça humana que, estrebuchando embora, não consegue parar o cabrão do Tempo!

Coimbra, 21 de Agosto de 2013.
Joaquim Jorge Crvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.claudioantunesboucinha.wordpress.com.]

quarta-feira, 21 de agosto de 2013

Apografia 19: Sextilha com muito ar na rima

Novamente a Tocha, praia formosa e asseada como poucas. Lembra-me (muito, muito) a praia de Mira da minha infância e adolescência, sobretudo porque há aqui também barcos desafiando as ondas, e depois a ansiosa expectativa que precede o regresso das redes.
 Hoje, li o jornal e alguns capítulos de Stanley Gardner, dormitei, molhei-me avulsamente no mar, observei o mundo alegre à volta, saudei aquele Mar que metonimicamente amo há cinquenta anos.
À tardinha, aí pelas sete horas, cumpri no Choupal uma hora e cinco minutos (corrida pontuada por quatro pausas para caminhar e normalizar o fôlego).
Ficou-me da incursão à praia da Tocha uma sextilha ortografada num cantinho do jornal. Aqui a deixo:

Barquinho do meu lembrar
Sai de Mira para o Mar -
Não sei bem se vai pescar
Ou apenas passear
Barquinho do meu lembrar
Vai de mim até ao Mar.


Praia da Tocha, 20 de Agosto de 2013.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.cm-cantanhede.pt.]

segunda-feira, 19 de agosto de 2013

Apografia 17: Defeitos essenciais


Hoje, Domingo, foi dia de S. Futebol. Jogava o Sporting, o Benfica, o Porto, o Barcelona e o Real Madrid. Necessitei da tarde inteira para, no Centro Comercial Fórum Coimbra, me dedicar ao delicioso ofício de espectador da bola. Ora, para isso, antecipei o meu treino diário e, pelas onze da manhã, estava já no Choupal para a “volta grande”. Tarefa (penosa) para trinta e cinco minutos.

Ando a reler romances policiais (há, na minha biblioteca doméstica, três inteiras prateleiras com exemplares do género). O mais revisitado tem sido o senhor Erle Stanley Gardner. Tenho na cabeça, em particular, uma personagem que odeia de morte um ex-amigo por este o ter traído num negócio. Reflicto.
Há muitas formas de ódio, nem todas estimáveis. Mas pior que muitos ódios é, de facto, a deslealdade e, já agora, a ingratidão. A gente finge que se esquece, mas não se esquece. Nunca se esquece.


Coimbra, 18 de Agosto de 2013.
Joaquim Jorge Carvalho

[A imagem (com os intérpretes das personagens Perry Mason e Della Street) foi colhida, com a devida vénia, em http://www.dvdtalk.com.]

domingo, 18 de agosto de 2013

Apografia 16: Espécie de casa


Encontrei o meu amigo R.C. e, como fazíamos antigamente (há duas barrigas a esta parte), combinámos correr juntos. Entre as dezanove e trinta e as vinte e trinta, fizemos a “volta grande” do Choupal, com espaço para alongamentos no parque de jogos. Pusemos a conversa em dia, rimo-nos da comum gordura, prometemo-nos um copo para breve.
Estar com um amigo verdadeiro é como estar em casa.


Coimbra, 17 de Agosto de 2013.
Joaquim Jorge Carvalho

[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.magrysaudavel.wordpress.com.]