Bússola do Muito Mar

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Número de Ondas

terça-feira, 28 de agosto de 2018

Verdade Kodak


A MP não gosta (não gosta muito) de me ver constantemente preocupado com a necessidade de registar em fotografia certos lugares (“semantizados” por pessoas, como diria Maria Lúcia Lepecky), certos objectos, certos momentos. Mas eu, que não tenho cultura fotográfica por aí além (e tão-pouco material sofisticado para esta arte), sinto essa espécie de urgência, que lembra – no essencial – a pulsão da escrita: captar-fixar parcelas de tempo, de vida, de História & histórias. 
Ainda hoje me parece genial (e também simples, uma coisa não impede a outra) o slogan antigo da Kodak: “Para mais tarde recordar.” Amen. Tirar fotografias é, em boa medida, um exercício divino, pois se trata de garantir uma razoável eternidade para as fugazes biografias do ser humano. 
Ao longo da minha estadia em Machico, lá voltei (desta vez com o telemóvel) a caçar posteridades frágeis e queridas: praia, cais de S. Roque, Caniçal, pedacinhos de Funchal, instantâneos familiares, luzes e sombras, momentos esparsos, flores, movimento, horizontes, coisas com Presente e talvez Porvir. 
Tenho saudades do tempo em que íamos a uma loja para deixar o rolo fotográfico a revelar. De revelação se deve falar, na verdade, quando falamos do objecto-foto que oferecemos ao futuro. 

Machico, 27 de Agosto de 2018. 
Joaquim Jorge Carvalho



A Casa Verde


Acabei de ler A Casa Verde, de Mario Vargas Llosa, às seis horas da manhã (mais uns minutos). Esperava acabar a leitura no dia seguinte, mas regressaram-me as insónias e lá acendi o candeeiro, aí pelas quatro e meia da madrugada. E assim devorei as cerca de cem páginas que me faltavam. Nota: é um grande romance (mais um) de um grande escritor. E confirmo: um livro é uma companhia fiel e segura para combater a Noite. 

Machico, 27 de Agosto de 2018. 
Joaquim Jorge Carvalho

domingo, 26 de agosto de 2018

Festa do Senhor

Ontem, foi um dia cheio: rotina matinal a abrir, com decida ao centro de Machico para compra de jornais, café & queijada no Edifício Perestrelo; banho rápido na mais formosa baía do mundo (Machico); depois, quatro horinhas no Caniçal, curtindo uma espécie de (amável) piscina atlântica; mais tarde, um lanchinho na casa familiar, com Juventus-Lazio na televisão (só para admirarmos o Ronaldo, claro); ao intervalo da partida italiana, tempo para uma corridinha de 15 minutos até à Ribeira Seca, que me custou muito, talvez devido ao calor imenso da tarde; entre o final do jogo italiano e o início do Benfica-Sporting, um breve banho, e só a seguir sim o sofrimento esperado, que isto de ser leão não é fácil não, e desta vez – por muito que tal me custasse – tive de confessar ao meu cunhado Aberto (o único benfiquista deste lar) que a águia mereceu ganhar; veio depois o jantar (uma maravilhosa omeleta de espada preta com salsa, cebola e alho), à moda da cunhada Guidinha; quase finalmente, houve oportunidade para testemunharmos a sempre surpreendente festa dos fachos, um espectáculo de raras coreografias de luz e de fogo-de-artifício; a fechar a jornada madeirense, chegou a surpresa F.C. Porto, 2 – Vitória de Guimarães, 3, seguida de alguma conversa distendida antes de irmos dormir. 
Dou por mim a escrever, hoje, no lugar da data: 25 de Agosto de 2018. E perdoai a cósmica ingratidão, mas sinto já que o Verão tanto tempo ansiado sabe (soube) a pouco. Dentro de 5 dias, estarei a pensar que ainda faltam 11 meses para as férias! 

Machico, 26 de Agosto de 2018. 
Joaquim Jorge Carvalho
[Foto JJC]

Condição musical



É o dia que nasce da noite
Ou a noite que mata o dia?
Não sei que vos diga – 
Sou folha caída de árvore antiga –
Sei lá o que é certo –
Voo em contínuo, como se caísse
Onde ninguém me visse
Salvo a cada instante pelo vento –
Sei lá, pois, se os dias nascem ou morrem assassinados.
Parecem-me todos os dias o mesmo dia
E todas as noites a mesma pausa –
Diria: como uma música, que é feita
De ritmo e de melodia
Mas, notais, também de silêncios.
Sim, a noite é também dia em tempo de silêncio
E todos os dias (pelo menos, os meus dias) são música
Em constante construção
Em constante hesitação
Tocada a ventos.

Machico, 25 de Agosto de 2018.
Joaquim Jorge Carvalho
[Fotos JJC: trata-se, no essencial, do mesmo lugar (em frente ao Forum Machico) e do mesmo ângulo - com a diferença de uma das fotos ter sido tirada de dia e a outra à noite.]

sexta-feira, 24 de agosto de 2018

Coisas de perder




Bebo todo o Sol até ao entardecer
Amo cada passo e todo o chão
Choro cada futura perda a haver
Morro um pedacinho em antecipação.
Adeus a gente & lugares que estou vendo!
Adeus a quem hoje sou e estou perdendo!

Machico, 24 de Agosto de 2018.
Joaquim Jorge Carvalho
[1ª foto: JJC; 2ª foto: VLOSC]

Caldos de galinha



Tenho resistido a uma forte discussão sobre os méritos da companhia de aviação que assegura os voos entre Funchal e Porto Santo. Da parte dos governantes e de utentes, a crítica tem sido feroz, por – alegadamente – os voos previstos serem adiados de forma sistemática, sem respeito pelos mais elementares direitos de quem (não) viaja. A companhia espanhola defende-se com argumentos de ordem técnica e regulamentar, garantindo que não aterra nem descola devido aos ventos fortes que assolam o arquipélago. Muitas vozes contrariam a alegação da empresa, questionando a razão de, apesar destes mesmos ventos, haver voos para as Canárias.
Sei de menos para opinar sobre o assunto. Mas já me assusta o desplante com que governantes defendem uma diminuição da severidade protocolar que a lei dedica, em Portugal, às questões da segurança. É um pouco como aqueles que defendem a energia nuclear por serem raros os acidentes com as centrais. Ou como Trump, quando se marimba para as questões ambientais em nome do lucro imediato (para si & amigos).
Muitas vezes, quem se arrisca… lixa-se!

Machico, 23 de Agosto de 2018.
Joaquim Jorge Carvalho
[Foto VLOSC]


Moça na praia ao Sol de Agosto

O rabo-coração relampejando
Seios quais vulcões a balançar
Pernas como remos descansando
Das noites qu’inda falta navegar.

Machico, 22 de Agosto de 2018.
Joaquim Jorge Carvalho
[Imagem colhida, com a devida vénia, na net.]

Mestre João & Senhora Maria



A 22 de Agosto, os meus sogros casaram-se na igreja de Machico. Em Junho de 1961, nasceu a MP, que haveria de se tornar personagem principal da minha vida.
Mestre João, meu sogro, fez da celebração desta data um marco familiar: de 1985 em diante, fiquei a saber que era dia de filhos e netos se reunirem ao casal para missa, à tarde, e depois jantar de festa, normalmente com música (graças ao talento dos filhos, quase todos exímios no canto e no manuseio de instrumentos musicais como a viola ou o acordeão). Com o tempo, eu próprio me associei ao momento, com pontuais incursões pela poesia, que a família, generosa, não desprezou. 
Claro que, com o falecimento de meu sogro e de dois de seus filhos, bem como da emigração de um terceiro, a festa não é já igual. Não obstante a presença de novas personagens (filhos dos filhos do casal fundador), há uma inevitável sensação de incompletude à mesa. Para sempre. 
Mas eu aprecio que se mantenha o ritual antigo – reunião de familiares, missa, jantar, talvez música. Enquanto houver família, a Morte não ganhou. À senhora Maria, parte visível dos noivos de 1960, ergo o meu copo e saúdo o maiúsculo Amor. 

Machico, 22 de Agosto de 2018. 
Joaquim Jorge Carvalho
[Foto de Carolina Ornelas]

terça-feira, 21 de agosto de 2018

Teoria & Prática


Tenho conhecido muita gente que, a propósito de vícios, de erros cometidos ou de crises existenciais, fala de mudança. Garantem que vão mudar, pois aprenderam com a vida e não querem cometer os mesmos disparates, magoando-se e magoando, à volta, aqueles que os amam (e ainda os que, não os conhecendo de parte alguma, algo pagam pelos seus desmandos). 
Muitas vezes, tenho a sensação de que falam-falam-falam na mudança apenas para se convencerem a si mesmos do que devem fazer. Mas tudo quanto digam só fará sentido se à ideia corresponder - na vida profissional, amorosa, familiar, etc. - a acção. 
Lembrei-me disto quando dei com o lema inscrito no logótipo da Universidade de Aveiro: theoria poiesis praxis. Tradução possível: a prática concretiza a teoria. Amen. 

Machico, 21 de Agosto de 2018. 
Joaquim Jorge Carvalho 
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.cyocaminho.com.]

A selva


Na Madeira como no continente: incomodam-me os que deitam para o chão o lixo circunstancial (maços de tabaco vazios, lenços de papel, guardanapos, embalagens de gelado, garrafas e latas, etc.); os que conduzem dentro de aldeias, vilas e cidades como se a via pública fosse pista de automóveis ou motos, sem respeito por sinais trânsito, por regras básicas, por passadeiras, por inocentes peões (incluindo crianças e idosos); os que não respeitam as filas (nas caixas de supermercado, nos balcões de Café, nos chuveiros da praia); os que impõem aos outros a presença dos seus animais, descuidando o espaço e a liberdade da vizinhança (pondo em causa o sossego e a segurança de quem pretende usufruir de razoável tranquilidade); os que jogam futebol na praia, atingindo recorrentemente quem quer descansar, ler, olhar para o mar (e, a cada bolada contra as vítimas, dizem que “foi sem querer” ou nem sequer pedem desculpas); os que não sabem viver em sociedade, muito satisfeitos com o seu estado de bestas atrevidas e frequentemente impunes. 
Falta-me, aqui e em toda a parte, paciência para o desrespeito e a estupidez. Bem dizia Flaubert, em contexto (ainda) mais filosófico: “L’enfer, c’est les autres.” 

Machico, 20 de Agosto de 2018. 
Joaquim Jorge Carvalho
[Foto JJC]

segunda-feira, 20 de agosto de 2018

Realidade & sonho


Na corrida que fiz ontem, ao fim da tarde, entre o Piquinho e a Ribeira Seca, custou-me (mais do que habitualmente) a subida: um misterioso desconforto prendia-me a perna direita. A Idade teima em chamar-me à razão. 
À noite, após visionar o jogo do meu Sporting, li umas cinquentas páginas de A Casa Verde, de Mario Vargas Llosa, e adormeci de forma serena. No dia seguinte, pouco antes de acordar, um sonho épico (de que incompletamente guardei a intriga principal) acelerou-me o ritmo cardíaco. Sei que havia um desempate por penalties e que eu era um dos marcadores decisivos; no momento de partir para a bola, senti falta de força na perna direita e à minha volta riam-se e questionavam-me a coragem.
Fora do sonho, levantei-me, enfim, cansado e nervoso. Doía-me ainda a perna e fervia de indignação. E, hélas, não me foi dado conhecer o epílogo da história sonhada. 

Machico, 19 de Agosto de 2018.
Joaquim Jorge Carvalho
[Foto JJC]

domingo, 19 de agosto de 2018

Chuva com(o) poema


No fim da tarde houve o poema.
Antes do poema houve o coração.
Antes do coração houve a pele.
Antes da pele houve a roupa.
Antes da roupa houve a chuva.
Antes da chuva houve a nuvem.
Antes da nuvem houve o céu.
(Tudo isto se explica em verso - 
E ainda por cima há aqui rima:
A chuva que aconteceu era já eu.)

Machico, 18 de Agosto de 2018.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em https://mapio.net.]

sexta-feira, 17 de agosto de 2018

Direito ao ócio


Falo com a minha Mãe ao telefone. Assusta-me a sua voz fraquinha e “o raio da constipação que não passa” (sic). Essa é uma nuvem triste cruzando a claridade do dia preguiçoso em que gratamente estava residindo.
Isto de nada fazer tem que se lhe diga. Ensinaram-nos, durante séculos, a odiar o ócio. Mas eu, que sempre trabalhei e me habituei (influenciado pela educação recebida) a ter orgulho no labor diário, amo a preguiça!
Ruy Belo, num verso de “Orla marítima” (in O Tempo das Suaves Raparigas e Outros Poemas de Amor), afiança que “somos crianças feitas para grandes férias”. Respirando o oxigénio sereno desta provisória eternidade madeirense, entre o Edifício Perestrelo e a Praia, eu embarco convictamente na ideologia do grande poeta ribatejano. 

Machico, 17 de Agosto de 2018. 
Joaquim Jorge Carvalho 
[Foto JJC]

Tempo de chegar, tempo de partir


Na praia de Machico, é normal estar-se olimpicamente sobre a toalha, com o Atlântico em frente, e testemunhar-se a momentânea interrupção do azul celeste por um avião que levantou de Santa Cruz ou se prepara para aí aterrar. Nas últimas semanas, o característico vento tem condicionado partidas e chegadas com desusada frequência, mas qualquer acalmia exponencia a renovação do movimento aéreo – e a imagem de aviões chegando ou afastando-se faz parte, sem espanto ou drama, do quotidiano local. 
Um madeirense experimentado em voos reiterou-me a importância dos protocolos de segurança: é essencial aterrar e descolar num quadro rigoroso de regras técnico-legais, de forma competente e sempre que é oportuno. Sem o verbalizar ali, dei por mim a pensar que também nas nossas relações sociais é crucial aterrar e levantar voo nos momentos certos. Na profissão, nas conversas de Café, nas reuniões familiares, há aquele instante em que ficar pode ser um perigo (de aborrecimento, de discórdia, de zanga) e partir pode representar um maravilhoso tratado de profilaxia. 
Dito isto, sabei que escrevo o que escrevo em contexto de razoável felicidade e paz. Está-se aqui muito bem. (Olha, outro avião!) 

Machico, 16 de Agosto de 2018. 
Joaquim Jorge Carvalho 
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.visitmachico.com.]

Lição de olhar



Aprendi com os antigos a ver quanto há de único no chão e no céu que por aqui vejo. Mas a lição de olhar não morreu com a morte (física) do Mestre; a cada instante aparece – invadindo a luz clara da manhã, o recorte majestoso de uma montanha no horizonte, um peixe ou um barco colorindo o mar – uma espécie de sorriso meigo e irónico, que é simultaneamente afago e dor, a dizer-me: “Eu não lhe dizia? Eu não lhe dizia?” 

Machico, 15 de Agosto de 2018. 
Joaquim Jorge Carvalho
[Foto JJC]