Bússola do Muito Mar

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Número de Ondas

domingo, 12 de agosto de 2018

Fantasia baseada em factos reais

O hipermercado tem cinco caixas em funcionamento. Uma delas (a número quatro) destina-se unicamente a quem não tem mais do que dez itens. É para essa que se dirige um rapaz, pretendendo pagar as lâminas e o gel para a barba que acabou de comprar. À sua frente está um sexagenário com um carrinho repleto de produtos, esperando também a sua vez. O rapaz põe-se a contar mentalmente os bens que o homem se prepara para saldar: melão, sal, pasta dentífrica, guardanapos, vinho, água, fiambre, manteiga, gelado, ervilhas, uns chinelos de praia…
- Doze coisas – conclui.
Dirige-se ao cliente que o precede na fila, de forma educada, mas também assertiva:
- Só pode vir para esta caixa se não tiver mais que dez produtos.
O interpelado nem quer acreditar na interpelação. Vocifera:
- Eu não levo aqui mais que dez produtos!
O rapaz, apontando para o carrinho de compras, começa a contar em voz alta:
- Fruta, um; sal, dois; pasta dentífrica, três…
- Mas o que é isto?! – explode o visado. – Você está a controlar o que eu compro ou deixo de comprar?! Nunca ouviu falar em invasão de privacidade?!...
Segue-se uma demorada e agressiva discussão, que se estende a funcionários do hipermercado e a outros clientes (dessa e das outras filas). A menina da caixa quatro, que apenas quer prosseguir o seu trabalho e já manifestou a sua compreensão pelos argumentos das duas facções, suspira e murmura:
- Valha-me Jesus Cristo!
E foi então que sobre o chão do estabelecimento comercial desce o Filho de Deus.
- Em verdade vos digo, irmãos, que tendes ambos razão, mas igualmente que sois culpados de três grandes pecados: tolerar mal as imperfeições alheias, não admitir erros próprios e sobretudo perder tempo com futilidades. Palavra do Senhor.
- Graças a Deus – remata a funcionária da caixa, recomeçando enfim o seu labor.

Machico, 12 de Agosto de 2018.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.radioregional.pt.]

sábado, 11 de agosto de 2018

Poema de pedra & madeira



Na praia de Machico, sobre o calhau, existem rectângulos de madeira a que sempre ouvi chamar pranchas. Servem para as pessoas ali estenderem as suas toalhas e se deitarem, prevenindo o incómodo de pousar directamente o corpo nas pedras. Para a toalha não voar com o vento, o turista habitua-se a colocar pedaços de basalto sobre o tecido (duas pedrinhas em cima & duas em baixo). 
Testemunhei, ao fim do dia, um flagrante caso de poesia envolvendo estas pranchas. (Já o relatei ao Daniel Abrunheiro - ele riu-se e fez uma piada qualquer sobre a minha idade.) 
Sucedeu que uma formosa estrangeira de fato de banho amarelo, dando por terminada a tarde, pôs sobre si um vestido azul, calçou-se, recolheu a toalha e afastou-se, deixando duas pedras apenas sobra a tábua nua, uma ao lado da outra (com poucos centímetros entre si) – como seios calcários, espécie de fósseis convexos que guardavam a memória do busto feminino dali saído há minutos. 

Machico, 11 de Agosto de 2018. 
Joaquim Jorge Carvalho
[Foto JJC]

Reencontro


A maravilhosa baía de Machico! Saúdo-a em silêncio, caminhando vagarosamente sobre a calçada que nos leva até ao mar. Lembro-me dos ex-vivos que comigo percorreram aquele caminho e cujas vozes devieram apenas o som das ondas. De certo modo, os meus passos ainda são os passos de quem saiu da paisagem, e os meus olhos ainda são os olhos de quem cumplicemente amou a baía e o horizonte além. 

Abraço a praia companheira com uma serena comoção. Agradeço a marítima fidelidade deste azul um pouco mais escuro que o Verão do céu. Celebro o Verão, por um instante, livre (i.e. esquecido) da feroz deseternidade do relógio. 
(Disse um instante? Disse bem. É essa a medida certa da Felicidade.)

Machico, 10 de Agosto de 2018.
Joaquim Jorge Carvalho
[Foto JJC]

terça-feira, 7 de agosto de 2018

Amizade (revisões)


A minha Filha fez umas centenas largas de quilómetros para se reunir com algumas Amigas de há vinte (talvez mais) anos. As Amigas fizeram esforço idêntico, bem entendido. Em linguagem leve, a este tipo de encontros chama-se oportunidade de pôr a conversa em dia. Mas eu, com a lucidez melancólica dos velhos, sei bem que se trata de algo mais sério, grandioso e grave: a Amizade implica real tempo e efectiva disponibilidade, sem o que deviria mera retórica, coisa tendencialmente vazia e insincera. Tive já ensejo para, via Facebook, felicitar a minha Filha e as suas Amigas pela constância daqueles laços e daquela cada vez mais preciosa cumplicidade (um tesouro).
Recentemente, eu andei afastado de um Amigo por (talvez) dois meses. Cheguei a pensar, sobre o nosso silêncio, que havia o perigo de, morrendo um de nós, o outro ficar para sempre condenado a viver morrendo de remorsos. Mas hoje reencontrámo-nos, acertámos razões e voltámos à alegre normalidade em que residíamos. À roda de um café, falámos de Coimbra, Mães, calor, profissão, literatura e biologias pessoais. Confirmei, aleluia, o valor incalculável dos Amigos. E também que recuperar um Amigo é como tê-lo connosco pela primeira vez.
Atenção: ter Amigos não resolve o problema da mortalidade, claro; mas é minha convicção que nos aumenta exponencialmente a esperança de vida.

Coimbra, 06 de Agosto de 2018.
Joaquim Jorge Carvalho
[As fotos - uma relativa ao encontro da minha Filha com as Amigas Joana, Cristina e Ana; as outras duas, já de 2006, relativas a uma visita que o Daniel fez, a meu convite, à Escola Básica de Arco de Baúlhe - cantam versos de Zeca Afonso: "Amigo, maior que o pensamento... ", etc.]

sexta-feira, 3 de agosto de 2018

Never surrender


Leio, na última página do JN (edição de 01-08-2018), uma notícia sobre a manifestação de taxistas de Barcelona contra a Uber e a Cabify. No vidro traseiro de um táxi, um dos manifestantes escreveu em maiúsculas fortes: NO TENGO FUERZAS PARA RENDIRME.
Não estou habilitado a pronunciar-me, de forma séria e consistente, sobre o assunto da notícia, mas aquela frase genial, que celebra a Liberdade e a Dignidade vitais, passou a fazer parte da minha biblioteca pessoal, quiçá lema de vida a guardar para sempre.

Coimbra, 01 de Agosto de 2018.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, num post de Juan Miguel Garrido, via twitter.]

quarta-feira, 1 de agosto de 2018

Conceição presente


Aos 23 anos, conheci um dos meus melhores Amigos. Não tenho muitos, talvez (só) mais dois ou três. Porque, percebei, isto de chamarmos Amigo a alguém tem – deve ter – muito que se diga. A banalização da Amizade maiúscula é estúpida, perigosa e ridícula: aqueles que se vangloriam de ter muitos amigos esquecem-se de que essa circunstância, a ser verdade, significaria a fatal desvalorização desse tesouro tão especial. 

O Amigo de que falo chamava-se José António Conceição (para os amigos, “o Conceição”, ou simplesmente “o Conça”). Era um campeão em quase tudo – na robustez física, na coragem, no desassombro, no talento desportivo, no sentido de humor, na inteligência e na generosidade. E era sportinguista, pormenor engraçado para um leão comme moi
À traição, a foice oncológica veio e levou-o no dia 30 de Julho de 2014. Andei a chorá-lo (literalmente) por meses seguidos e ainda hoje me espanto e indigno perante o seu brutal desaparecimento. E tantas vezes dou por mim a recordar deliciosas histórias em que o grande Conça era o protagonista! 
Hoje mesmo, estive no cemitério da Pedrulha, em frente à sua campa (que a minha irmã, viúva do meu Amigo, cuida com desvelo absoluto), recordando a sua figura e o seu modo de ser. Ao contrário do que temia, estas visitas à residência tumular do Conceição não me provocam angústia ou dor; ao contrário, sou normalmente envolvido por um misterioso manto de bem-estar, de tranquilidade, de paz. 
Confissão: não gosto de chamar àquele lugar “última morada”. A última morada de quem parte é o coração e a memória dos que ficam (para sempre incompletos, para sempre saudosos). 

Coimbra, 31 de Julho de 2018.
Joaquim Jorge Carvalho 

Mestre João


Mestre João, meu sogro, partiu há oito anos, no dia 30 de Julho de 2010. O título de "Mestre" teve origem no seu estatuto profissional, ganho ao longo de décadas na construção civil. Mas, com o tempo, o epíteto passou a representar, na minha cabeça e na de todos quantos o conheceram, o justo reconhecimento da sua sensatez e da sua sabedoria, qualidades que – sensatamente, sabiamente – cruzava com uma visão bondosa e alegre da humanidade. Estou a vê-lo num Café qualquer do Sítio do Piquinho interrogando o proprietário: “Foi o senhor ou o seu irmão que morreu há dias?”; dirigindo-se a um estouvado que quase nos atropelara com uma motorizada furiosa: “O que o senhor precisava agora era de… uma boa tarde!”; falando-me da sua ideia de religião: “A minha Igreja não tem tecto!”; reagindo à morte de uma vizinha, amiga da família: “É triste, mas também é natural, A morte faz parte da vida…”; brincando com a prosápia de um filho (muito novo) que garantia ser o mais inteligente da família: “Não és sábio, és sabão: talvez o burro mais esperto que eu conheço!”; filosofando sobre pobres e ricos, intelectuais e operários, novos e velhos: “Todos somos dependentes de todos, não é verdade?”. 
A maior homenagem que lhe faço, de forma visível ou secreta, é perguntar-me muitas vezes, quando a vida me exige certas respostas, escolhas, opções: o que pensaria/diria/faria o Mestre João se estivesse aqui? 
Ele decerto sofreu também as suas dúvidas, decerto sentiu as suas próprias fragilidades, decerto errou de quando em vez, decerto conviveu com os pontuais falhanços e as desilusões de que a humana existência também é feita. Mas a sua palavra e a sua presença eram, regra geral, monumentos de bom senso e de bondade. 
Saudades, ó Mestre! 

Coimbra, 30 de Julho de 2018.
Joaquim Jorge Carvalho

domingo, 29 de julho de 2018

Pessoa contemporâneo

Reli, na passada 3ª feira, a magnífica Fotobiografia de Fernando Pessoa, assinada por Richard Zenith, com a colaboração de Joaquim Vieira na recolha e organização dos documentos (edição de Temas & Debates, 2009). O livro foi-me oferecido por preciosa Amiga já há vários anos, e com gentil dedicatória de que me orgulho.
Gosto de biografias – e ainda mais quando o texto vem acompanhado de imagens (fotos, fac-símiles, testemunhos, etc.). Talvez a volúpia de um literato que espreita, com grata impunidade, a existência de um génio como Pessoa se assemelhe à do voyeur mais patológico que anda pelas praias e parques de estacionamento do mundo à cata de flagrâncias escandalosas. Zero remorsos. O que me ficou, acima de tudo, desta releitura foi a sensação de proximidade e cumplicidade exponenciais que os grandes artistas conseguem com o mais anónimo dos indivíduos leitores (e isto – não se esqueçam – é dito aqui por um indivíduo razoavelmente anónimo).
Ocorreu-me uma expressão interessante para classificar esta gente genial, tendo sobretudo em conta a perenidade da arte que criam: contemporâneos da eternidade
Há muito defendo a ideia de que a Cultura tem o poder de nos tornar concidadãos do Tempo Todo, aquém e além imortalidades contextuais de cada eu, de cada sociedade, de cada época.
O Amor é algo diferente: se a Cultura é o que nos torna contemporâneos de um Tempo comum, o Amor prova a nossa fundamental semelhança com a raça humana de todos os tempos.
Sumário: não confundir Cultura e Amor - uma coisa é a contemporaneidade, outra é a semelhança. Esta repete-se e confirma-se, aquela explica-nos.

Coimbra, 28 de Julho de 2018.
Joaquim Jorge Carvalho

sábado, 28 de julho de 2018

O carrossel do Tempo



O Tempo é um carrossel (eterno, bem entendido). Vejo-o, por um instante, rodando à minha volta, talvez acenando, do lombo de uma girafa ou de um elefante, enquanto a música da vida toca, às vezes roufenha devido ao uso repetido. Saio das mãos de minha Mãe para a estreia assustada na escola; uns vinte anos depois, a minha Filha sai das minhas mãos, imitando lágrimas e tremores, para a sua própria estreia no mistério escolar. A minha Mãe, nova e formosa, segura-me a cabeça enquanto, num paroxismo de febre, vomito desesperadamente para o chão do meu quarto de criança; quarenta anos depois, eu seguro a cabeça de minha Mãe, agora envelhecida e doente de muitas coisas, enquanto ela vomita para a sanita doméstica. Levo a minha Filha às urgências do hospital pediátrico, conduzindo apressadamente, enquanto lhe vou assegurando que aquilo vai passar; a minha Filha, vinte e cinco anos depois, conduz-me ao hospital, explicando-me que aquilo são cólicas renais e que já vai passar. 
Digo daqui adeus ao Tempo e creio que ele me vê desta vez, iniciando novos círculos, no regaço de uma música que se devora a si mesma, a caminho de ser apenas ruído ou nada.

Coimbra, 28 de Julho de 2018.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem - a evocar o mítico programa infantil "Carossel Mágico" - foi colhida, com a devida vénia, na net.]





quinta-feira, 26 de julho de 2018

A eternidade a preto & branco


É um mistério este poder que sobre mim exerce uma qualquer fotografia antiga. Foi sempre assim, creio, desde que me conheço. Pode ser uma foto minha, de uma familiar, de outras pessoas (conhecidas ou desconhecidas), de um castelo, de uma rua, da azáfama no antigo mercado de peixe, em Machico, da equipa de futebol do Desportivo de Ribeira de Pena de há 40 anos ou mais. Aquilo toca-me como um aceno da Eternidade. Arrepio-me, comovo-me, imagino, sonho. Há nisto um encanto que a razão incompletamente explica. Agora mesmo, no Facebook do meu primo António Melo, numa imagem a preto e branco - entre a avó Adília e a tia Laurinda - descubro a minha querida Mãe, muito mais nova do que é hoje a minha Filha (sorridente e muito longe de sequer imaginar que seria um dia a minha tão querida Mãe). O Tempo, portanto: essa coisa verdadeiramente consubstancial a Deus! 


Ribeira de Pena, 26 de Julho de 2018. 
Joaquim Jorge Carvalho

Alexandre


Ainda vou na primeira metade de Julho. O meu carro pede-me combustível. Antes de seguir para a escola, estaciono nas bombas de gasolina de Cabeceiras de Basto e preparo os 20 euros habituais. Uma gargalhada cumprimenta-me: é o Alexandre, um ex-aluno, que assim celebra um reencontro já tardio. Saio do carro e saúdo-o. Não foi um discípulo fácil, tamanha era a sua irrequietude e a facilidade com que se distraía. Ainda que involuntariamente, interrompia-me o curso convencional da aula e não poucas vezes o repreendi. Foi sempre, contudo, um menino educado e respeitador, armado sempre de um sorriso desconcertante. Falo com ele sobre estudos e profissão: diz-me que não chegou a completar o secundário, que gosta daquele emprego (“Agora, estou aqui a falar consigo; daqui a pouco, aparece-me um amigo; é fixe.). À despedida, dou-lhe um aperto de mão, digo-lhe sinceramente que gostei de o ver e dirijo-lhe uma última palavra (não sabendo então que seria a última): “Felicidades!” Quando a minha colega Senhorinha me disse que o jovem afogado na barragem era “o nosso Alexandre” (sic), chorei por dentro e indignei-me, uma vez mais, com a insensatez e injustiça da Morte, essa grande puta. O funeral foi uma monumental manifestação de pesar e de saudade. Durante a caminhada para o cemitério, sob o Sol inclemente de Julho, voltei a lembrar-me daquela alegre irrequietude e daquela ruidosa urgência de viver que caracterizava o Alexandre. Como se ele já soubesse (digo eu agora) que não havia tempo a perder. 

Ribeira de Pena, 23 de Julho de 2018.
Joaquim Jorge Carvalho

O Segredo de Terabítia



A cada passo, descubro maravilhas de que nem tinha ouvido falar. A vida, enquanto dura, é mesmo um baú maravilhoso que vale bem a pena explorar. Acabo de telever, no canal Cinemundo, na Cabo, um filme maravilhoso, já de 2007. Título em português: O segredo de Terabítia (em inglês, Keep Your Mind Wide Open). Realizador: Gábor Csupó. É uma maravilhosa história sobre a amizade, a fantasia e o sonho. Confirmei, envolto naquele mar profundo que é a emoção estética, como a Morte é mais poderosa que tudo, excepto que o Amor. E fiquei com vontade de, talvez já no próximo ano lectivo, mostrar o filme aos meus alunos. Recomendo-vo-lo a vós, também!

Ribeira de Pena, 23 de Julho de 2018.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida, na net, no sítio da Record TV.]

quinta-feira, 12 de julho de 2018

ZONA DE PERECÍVEIS (144)



Condição de gladiador

A lógica das competições a eliminar – como é o caso dos campeonatos da Europa e do Mundo, na modalidade sagrada do futebol – compreende um pressuposto cruel: no final da fase de grupos, de 32 candidatos restam 16; depois, nos oitavos de final, de 16 restam 8; etc. Na final da competição, enfrentam-se duas equipas carregadas de sonhos, de pulsão épica, conscientes do cariz definitivo daquela oportunidade voadora. Sai-se dali herói & imortal, ou em versão morto-vivo, tresandando a falhanço, quiçá sujeito à piedadezinha condescendente ou a coisa pior. 
Depois de sofrer a derrota portuguesa às mãos do Uruguai e depois de assistir à eliminação da Espanha, da Dinamarca, do México e do Japão, confirmei que o reverso da glória de uns é a desmesurada tristeza de outros. Pelo meio, felizmente, há gestos de fair play que nos consolam e educam. Mas a minha simpatia (Europeu de 2016 à parte) vai invariavelmente para os que perdem, i.e. aqueles que experimentam, em determinados momentos, o fel da vida. 
Bem sei que o futebol é apenas um jogo. Bem sei que as derrotas e as vitórias, ali, são realidades de somenos quando comparadas com as verdadeiras tragédias – doenças, guerras, falecimentos, exploração, violência, pobreza, fome. Creio, contudo, que a natureza das lágrimas dos jogadores mexicanos, de uma formosa dinamarquesa ou de um menino espanhol, reagindo à derrota, é a mesma que verteriam noutras circunstâncias, por exemplo na leitura de um romance, no visionamento de um filme, no acto de escutar uma canção, num reencontro familiar, num funeral, durante uma epifania à mesa do Café. Porque somos, enquanto humanos, frágeis e magníficas vítimas da circunstância de pensar e de sentir. 
A memória, via cinema, traz-me os gladiadores que, no tempo dos Romanos, divertiam os espectadores com os seus combates mortais. Diziam, ao entrar para a arena: Ave Caesar, morituri te salutant (traduzo livremente: “Os que vão morrer, ó César, saúdam-te”). Isto é, a morte (nesse dia ou mais tarde) era uma premissa inerente à sua própria condição gladiadora. Fazia – e faz – parte do jogo. Em princípio, note-se, nenhuma equipa joga para perder. Nenhum jogador se demite de sonhar. Nenhum homem entra na competição sem a devida dose de ilusões. Mas o preço a pagar, mais cedo ou mais tarde, para os que perdem, é fatalmente alto. E sabemos bem como as desilusões são atropelamentos graves, que obrigam a recuperações quase sempre lentas e dolorosas. 
Não estou só a falar do Mundial da Rússia. Estou a falar da Vida. Dói-me saber que o Pepe, o Fonte, o Bruno Alves, o Quaresma e o Cristiano Ronaldo já são trintões (como, aliás, o Messi, o Iniesta, o Modric) – e que o seu fulgor tenderá a apagar-se em breve. Quem viver verá, talvez, como os deuses de hoje passarão de apolíneos gladiadores a obesos calvos, sujeitos ao reumatismo e às saudades. 
O futebol continua, claro. E, claro, a vida continua. Novos craques estão a despontar, há novas competições na calha, o presente é já o futuro a mostrar-se. Mestre João, meu tão saudoso sogro, fazia questão de, em qualquer festa, pôr toda a gente a cantar uma quadra que sempre me impressionou: “Primavera das flores / Como ela não há mais! / Ai, Primavera vai e volta sempre, / Ai, Mocidade já não volta mais!” Tem sido essa, na verdade, a melodia que preside a tudo quanto vejo-sinto-escrevo. 

Nota extra: Esta crónica foi a útima que concebi para O Ribatejo, em versão de papel. O timoneiro do semanário informou-me desse iminente fim do nosso jornal na sua dimensão tradicional, corpórea, natural. O último número saiu mesmo a 12-07-2018. Custa-me esse ocaso; conforta-me a ideia de que sobreviverá digitalmente. Não gosto destes tempos, porém. Temo que o papel da imprensa venha a degradar-se com o fim da imprensa de papel. Abraço solidário para todos quantos têm feito e lido o jornal. Gratidão reiterada ao Daniel Abrunheiro e ao Joaquim Duarte, que me trouxeram para este regaço digno e livre. 

Coimbra, 02 de Julho de 2018. 
Joaquim Jorge Carvalho 
[A imagem da última capa d’O Ribatejo em papel foi colhida, com a devida vénia, no sítio do jornal. A foto de Cristiano Ronaldo foi colhida, com a devida vénia, em https://www.sapo-pt-]

segunda-feira, 2 de julho de 2018

ZONA DE PERECÍVEIS (143)


António, Filho de Pedro

Ainda não são onze horas e tenho intervalo na labuta diária até às dezassete. Voo para casa, antecipando mentalmente as tarefas imediatas a cumprir: ficar descalço, substituir calças por calções, tirar a cerveja do frigorífico, pôr o cachecol à janela, ergonomizar o sofá e assegurar a Nosso Senhor Cristiano que confio n’Ele e no(s) Santos. À uma da tarde começa o Portugal-Marrocos. 
Sucede que, como é ainda cedo, faço um zapping mecânico e dou com uma entrevista, na TVI, que me concita a atenção: Manuel Luís Goucha conversa com António Rolo Duarte, Filho de Pedro Rolo Duarte (falecido há pouco tempo, como decerto sabem). Para além do cariz temporão da morte deste jornalista, aos cinquenta e três anos, vítima de doença oncológica, doeu-me que os jornais, a rádio e a televisão tenham perdido um senhor importante, que escrevia e falava bem, que era inteligente, que tinha sentido de humor, que era livre & desassombrado. É dele uma frase verdadeiramente extraordinária (que debati com os meus alunos de Jornalismo, na década de 90 do século XX) – cito de cor: “O Expresso é o maior jornal português; o Público é o melhor; O Independente é o mais importante.” Tudo, à época, uma verdade pura e rigorosa. 
Na entrevista, conduzida de forma respeitosa, segura e amável, Goucha – que é muito mais que aquele boneco pimba de concursos e gritarias de feira – convidou António a falar do Pai, a propósito de um livro (que estou a ler) intitulado Não respire. É uma edição póstuma, que o jornalista concluiu no cais derradeiro da sua existência. Pai e Filho chamaram-lhe, no durante da sua concepção, e rindo-se ambos da pompa vocabular, “a obra”. Encontramos aí memórias, crónicas, episódios cheios de humanidade e vizinhança, reflexões sobre o Presente tão exageradamente fugidio e provisório, apontamentos do encanto e do desencanto, vidas. 
Realço o facto de fazer parte desse volume uma espécie de livro-dentro-do-livro intitulado 16 Ideias Para Um Rapaz de 16 Anos Levar Consigo Para Longe. Trata-se de um opúsculo expressamente escrito por Pedro Rolo Duarte em vésperas de António partir – sozinho - para a Austrália, onde faria o ensino secundário. O Pai, apesar de assustado com a distância a haver, deixou-o ir, mas passou-lhe para as mãos um conjunto de recomendações (sábias, sensatas, divertidas) que deveriam servir também para o adulto, ainda que ausente, estar com o jovem.
Ouvi algumas destas “ideias”, nem todas originais por aí além (sê tu próprio, persegue os teus sonhos, etc.), outras brilhantes (por exemplo, o importante, em relação ao medo, é o que fazemos com ele). Identifiquei-me com António, lembrando-me do meu Pai, ausente há muitos anos, e principalmente com Pedro, lembrando-me da minha Filha, para quem um dia não serei senão memória. Perguntei-me: que reterá de mim a minha Filha quando eu já não estiver para a aconselhar, de viva voz, sobre a existência? Talvez, ocorre-me agora, uma frase que costumo atirar para a mesa das reuniões familiares ou para a areia da praia de Agosto: o fundamental é distinguir, em cada momento, o essencial do acessório; e, atenção, embora o essencial varie de acordo com o contexto, deve estar sempre ligado aos direitos do Amor e aos deveres da Honestidade. Pelo sim, pelo não, inscrevo isto uma crónica de jornal, por ser da natureza da escrita durar mais do que a tão falível circunstância de se estar vivo. 
Sumário: no dia 20 de Junho, houve esta entrevista e, depois, um golo mais de Cristiano Ronaldo. Ganhei o dia por dois a zero. 

Coimbra, 23 de Junho de 2018. 
Joaquim Jorge Carvalho
[Esta crónica foi publicada no semanário O Ribatejo, edição de 28-06-2018. A imagem (capa do livro de Pedro Rolo Duarte) foi colhida, com a devida vénia, em https://www.fnac.pt.]

Foto com talvez 20 anos


A foto é antiga, meu amor, 
Mas guarda eternamente a ilusão
De não existir aquela Dor
De ser tão provisório o Verão.

Tirando o fotógrafo, ali estão
Todos, meu amor, vivos ainda.
E eu solto o flash desta gratidão
Por pertencer a esta foto linda!

Coimbra, 25 de Junho de 2018.
Joaquim Jorge Carvalho
(ILYSM)